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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Cangaço, Canudos e Contestado (Enéas Athanázio)





                                                   PAINEL COMPLETO

O livro “Lampião e o Estado-Maior do Cangaço”, de autoria dos pesquisadores Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, publicado em segunda edição, revista e ampliada (Gráfica Encaixe – Ceará – 2004 – 380 págs.), é o mais completo painel que conheço sobre o assunto, descrevendo com precisão as atrocidades dos bandos de cangaceiros que fervilhavam no Nordeste desde as últimas décadas do Século XIX até os anos 40 do Século XX, mostrando o ambiente sócio-econômico e político que permitiu o exercício dessa forma de banditismo ao longo de tantos anos e descendo a minúcias biográficas de cada um dos mais importantes atores de uma atividade tão desumana quanto trágica. Baseado em longas e minuciosas pesquisas, incluindo investigações in loco e entrevistas com numerosos personagens, sem faltar o mergulho em incontáveis coleções de jornais e na melhor bibliografia disponível, é um trabalho sério e confiável, merecedor de algumas observações, escolhidas dentre as muitas que ensejaria. Embora se trate de ensaio de cunho histórico, contém passagens antológicas, a exemplo da retirada do bando de Lampião para Pernambuco, após o malogro do assalto a Mossoró, cruzando três Estados, viajando quase só à noite e nas altas madrugadas, varando as mais ásperas caatingas da região e realizando saques sempre que a oportunidade se apresentava. Façanha que poderia inspirar excelente novela literária, assim como o livro, no conjunto, forneceria matéria para um belo romance
                        
                                O QUE É CANGAÇO

.A palavra cangaço, segunda consta, deriva do fato de que os bandoleiros transportavam sempre, junto ao corpo, todos seus pertences. Entregues ao nomadismo, sem paragem certa, levavam em embornais cujas alças se cruzavam no peito e nas costas os objetos miúdos e de valor, tais como jóias, dinheiro, moedas, papéis etc. Feitos de tecidos fortes, os embornais ficavam estufados com o conteúdo, implicando, com certeza, em considerável peso. Observando-se as fotografias em que os cangaceiros posavam com esses embornais, fica a impressão de que eles exteriorizavam a riqueza: quanto mais estufados, mais rico seria o seu portador. Por outro lado, lembravam uma canga, daí surgindo a denominação cangaço e todos seus derivados. Aqui no Sul os embornais seriam chamados de bocós.

                APOIO POPULAR: COITOS E COITEIROS

A sobrevivência do cangaço, por outro lado, encontra explicação ou, pelo menos, uma delas, na circunstância de que contava com o apoio das populações rurais das regiões onde se desenrolava. Os cangaceiros famosos acabavam se tornando figuras admiradas pelo povo miúdo, a cujos olhos muitos deles apareciam como justiceiros que afrontavam um Estado injusto e incompetente, responsável pela miséria reinante e pelas gritantes desigualdades econômicas e sociais. Os cangaceiros, por sua vez, buscavam com empenho criar vasta rede de relacionamentos com pessoas poderosas, em cujo meio se encontravam os grandes coiteiros (*), e com o povo em geral, de cujo seio saíra a maioria deles. Graças a isso, obtinham apoio nos momentos cruciais, bem como a indispensável ajuda na aquisição daquilo de que necessitavam. Muitos coiteiros, vivendo isolados num meio rude, não tinham como se negar à ajuda, sob pena de sofrerem represálias. Nenhum movimento revolucionário, nem mesmo na forma arcaica do cangaço, consegue se manter e vingar sem a simpatia e o apoio popular. Essa condição foi sempre ressaltada pelos revolucionários, inclusive no Brasil. “A gente humilde das caatingas ainda tinha Lampião como um homem honrado, respeitador e bom para os pobres... O povo era aliado de Lampião” – palavras de um ex-coiteiro em depoimento aos autores (pág. 316).

                        SURGIMENTO E TÉCNICAS

O surgimento do cangaço se explica com facilidade. Voltado para o litoral, onde se acumulava o grosso da população, o Estado brasileiro pouco se importava com o hinterland, e isso acontecia em todas as regiões do país. Entregue à própria sorte, o interior se transformava em território livre para as investidas de aventureiros de todos os tipos. Inteligentes como eram, não tardaram a intuir da necessidade de se juntarem em bandos organizados, com regras, chefias definidas, subgrupos, estratégias e táticas próprias. Passavam de simples arruaceiros a profissionais especializados. A guerra móvel, similar às guerrilhas, as emboscadas, os ataques pelos flancos e pela retaguarda, os truques para furar cercos e despistar os rastros, unidos ao perfeito conhecimento do palco de ação, tudo isso deixava aparvalhadas as forças policiais, muitas vezes despreparadas para o combate, quando não mais interessadas nos lucros obtidos com a “indústria do cangaço”. A divisão em subgrupos, desfechando ataques simultâneos em lugares diferentes, dava-lhes a aura de ubiqüidade e contribuía para o surgimento das lendas que cercavam os bandos chefiados pelos grandes nomes do cangaço. O medo que provocavam nas pessoas pacíficas facilitava suas tropelias. “Ninguém ignorava o pavor que causava por toda parte a presença de Lampião. Em geral, quem tinha a infelicidade de se encontrar com semelhante fera procurava o melhor meio de bem tratá-lo” – escrevem os ensaístas (pág. 225). Daí a razão pela qual foram tantas vezes recebidos com festas, banquetes e rapapés em inúmeros lugares, passeando com liberdade pelas cidades, organizando bailes e comilanças (**).

                            NEOCANGACEIROS

O ingresso no cangaço, uma vez consumado, quase sempre se tornava irreversível. Desde então a família do neocangaceiro não tinha mais sossego. Os motivos para entrar nesse “mundo da espingarda” variavam, embora os mais constantes fossem a prática de crimes que geravam inimizades e perseguições, não deixando ao infeliz outra saída. Muitos se iniciavam por pura e simples vocação, aspirando a uma vida superior à miséria em que vegetavam. A admiração pelos cangaceiros famosos, seus trajes vistosos, sua postura exibicionista e arrogante de seres que estavam acima do bem e do mal influíam na decisão, em especial de jovens, muitos dos quais se iniciaram cedo nas lides do banditismo. Após o ingresso, depois do batismo de fogo, recebiam um apelido, e o senso moral aos poucos se embotava, tornando-os capazes das mais frias atrocidades. Atrás dessas alcunhas muitos deles se anulavam como personalidades, apagando para sempre o passado. A consciência aguda de que o caminho trilhado não tinha volta parecia aumentar sua sede de sangue e a ganância pela riqueza em forma de ouro, jóias e dinheiro que pudessem transportar. Tudo indica que não confiavam em ninguém para depositário de seus teres.

          APAGANDO O PASSADO: A ALCUNHA

A maioria dos cangaceiros recebia ou adotava uma alcunha, quase sempre relacionada com suas características pessoais, habilidades ou fatos biográficos e que serviam como luva. O apelido, apagando o verdadeiro nome, contribuía para despistar inimigos e perseguidores. Alguns, no entanto, lutavam bradando o próprio nome aos quatro ventos, desafiando o mundo e arrotando valentia. Poucos continuavam a ser conhecidos pelos próprios nomes. Entre os numerosos apelidos referidos no livro, anotei os seguintes: Bom Deveras, Jararaca. Pai Véio, Zé Sereno, Gavião, Corisco, Manoel Toalha, Moderno, Cajueiro, Fortaleza, Gato, Umbuzeiro, Colchete, Jurema, Tempestade, Azulão, Musquêro, Caracol. Tempero, Chico Chicote, Bronzeado, Casca Grossa, Mormaço, João Cocó, Pinga Fogo, Mergulhão, Chumbinho, Mão Foveira, Navieiro, Volta Seca etc. O apelido de Lampião se devia à rapidez com que atirava, dando a impressão de um lampião que se acendia.
É interessante anotar que, apesar das brutais condições em que viviam, muitos cangaceiros tiveram “carreiras” mais longas que os gangsters norte-americanos em geral, como Dillinger, Pierpont, Bonnie e Clide etc., cuja sobrevivência em atividade foi de poucos anos, acabando presos ou mortos. Vários cangaceiros famosos permaneceram em ação por anos a fio e alguns até se “aposentaram”, retirando-se para lugares distantes, em Goiás, Minas Gerais, no Maranhão, em São Paulo e até no Sul do país, como Antônio Massilon Leite, que, segundo uma versão, teria migrado para o Rio Grande do Sul. Na nova querência mudavam de vida, desaparecendo no anonimato.

 LEIS RÍGIDAS E IMPLACÁVEIS – DESTINO DAS VIÚVAS

O mundo cangaceiro tinha suas leis, rígidas e implacáveis. Assim, por exemplo, a humilhação, por mínima que fosse, exigia vingança, e ela acabava acontecendo, mais cedo ou mais tarde. O mesmo se diga das traições, fossem das mulheres aos companheiros ou de coiteiros, amigos ou conhecidos. A vindita viria, infalível e brutal. Lampião desaprovava as costumeiras surras em homens desarmados. “Não é vantagem para um homem; vantagem para um homem é falar alto para outro homem armado!” – pregava ele (pág. 204). Existia ainda o “padre-nosso de Lampião”, ensinado quando o novato entrava no bando: desrespeito a moça de família amiga se punia com a morte, como aconteceu com o cangaceiro Sabiá (pág. 329). Algumas regras, no entanto, poderiam ser mais elásticas, dependendo das necessidades e circunstâncias.
As mulheres que viviam no bando, cujos maridos ou companheiros morriam em combate deveriam ser sacrificadas para “queima de arquivo”, prática que se repetiu com mais frequência nos últimos tempos. No início algumas “viúvas” foram devolvidas às famílias. Depois, avaliando o perigo que constituiria a queda delas em mãos policiais, foram eliminadas sem piedade. Conhecedoras das minúcias da vida do bando, elas o deixariam em permanente risco. Mediante tortura, com certeza tudo revelariam. Narram os autores algumas execuções dessas infelizes. Durante muito tempo foi vetada a presença de mulheres nos bandos.

                                MEDICINA SERTANEJA

Para os casos de doenças e ferimentos os cangaceiros dominavam ampla “medicina sertaneja”. Conheciam as propriedades de ervas e os efeitos de seus chás e todo um instrumental rústico de cuidados para estancar hemorragias, evitar infecções, combater a dor e debelar outros males. “A medicina cangaceira era a mesma do imenso sertão ao redor: chás que serviam para tudo, garrafadas, emplastros, pimenta e sal soprados nos ferimentos com canudos de mamoeiro, balas extraídas a ferro quente, remédios da homeopatia primitiva, encontradiços nas boticas dos lugarejos, rezadeiras, dentistas autodidatas, cachimbeiras, quando o menino não queria nascer” – dizem os autores (pág. 39). Alguns cangaceiros se destacaram como competentes “médicos”. Em casos de maior gravidade, parece que sempre surgia um meio de ser examinado por médicos de verdade.

                           LAMPIÃO ENTRA EM CENA

Foi nesse meio fervilhante de cangaceiros que a figura de Lampião se impôs, entrando em cena para reinar durante 22 anos de “carreira”. Quando o célebre Sinhô Pereira, cangaceiro temido, decidiu mudar de vida, seu sucessor natural, reconhecido a una voce, foi Lampião, já integrante do bando e então com 25 anos de idade. A estreia do novo chefe ocorria em 1922, ano emblemático da história nacional, e ele logo se destacaria pela inteligência, liderança inconteste, frieza e crueldade.
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nasceu em Serra Talhada (PE), em 7 de julho de 1897. Segundo a lenda, teria ingressado no cangaço para vingar a morte do pai, embora a verdade histórica revele o oposto, como mostram os ensaístas. Na realidade, o pai foi morto depois da entrada do filho no cangaço e justamente por esse motivo. A lenda, porém, se disseminou de tal forma que ainda hoje corre solta. Mais de 500 cangaceiros das mais variadas procedências, formações e temperamentos serviram sob seu comando ao longo desses anos. Com rara habilidade, conseguiu formar uma rede de “coiteiros” e “coronéis de barranco” que o apoiava de forma decisiva, fornecendo armas e munições em quantidade, além de mantimentos e proteção. Entre eles estava o célebre “coronel” Zé Pereira (Lima), chefe político de Princesa Isabel (PB) e que declarou a “independência” de seu município, instituindo a República de Princesa, de breve duração mas de repercussão nacional. Sobre ela o jornalista Joaquim Inojosa publicou um livro onde informava de sua participação no movimento sedicioso. A ligação de Lampião com Zé Pereira, no entanto, não se prolongou por muito tempo e se transformaram em inimigos rancorosos (***).

                        O CAPITÃO VIRGULINO

Em 1926 Lampião e seu grupo foram convidados a visitar Juazeiro do Norte, ocasião em que ele recebeu a patente de capitão e membros do bando receberam patentes de graduação inferior. Foram armados e municiados, passando a integrar os chamados “Batalhões Patrióticos” que deveriam combater a Coluna Prestes, embora Lampião nunca se defrontasse com a mesma. Numa atitude de incrível insensibilidade e reacionarismo, as autoridades preferiram se colocar ao lado dos maiores facínoras do sertão e contra os jovens idealistas que realizavam uma empreitada épica pela melhoria de nossos costumes político-administrativos. É verdade que esse ato custou caro, muito caro, tanto que os cangaceiros, agora armados até os dentes, com farta munição e armas modernas, se tornariam invencíveis, e o Padre Cícero Romão Batista morreu jurando não ser o autor da infeliz iniciativa, fato que tem provocado o gasto de muita tinta, sem uma conclusão definitiva. Para os ensaístas, no entanto, estão fora de dúvida a participação do “Padim” no episódio e sua bênção aos novéis “oficiais”.
No correr dos anos, entre vitórias e derrotas, Lampião perdeu os três irmãos cangaceiros – Antônio, Livino e Ezequiel. Foi em geral bem sucedido, ainda que tenha ficado manco em virtude de ferimento na perna direita. Entre seus ataques, na maioria positivos, sobressaiu-se um fracasso: a invasão de Mossoró (RN), maior cidade sertaneja da região, de onde se retirou para Pernambuco, cruzando três Estados e varando o mais árido da caatinga, perseguido por centenas de policiais de vários Estados. O malogro deixou profunda marca em sua alma de homem vaidoso e preocupado com a própria imagem. É verdade que ele realizou esse ataque à cidade potiguar algo contrariado. Suas incursões em regra visavam cidades onde apenas uma torre de igreja apontava para o céu, ao passo que Mossoró possuía quatro... As táticas de guerrilha, a chamada guerra móvel, os ataques pela retaguarda e pelos flancos, a divisão em subgrupos, o despiste dos rastros, o perfeito conhecimento da região, a surpresa, as falsas fugas, os contra-ataques fulminantes, os informantes e a infiltração de “olheiros”, aliados à coragem sobre-humana e ao terror que provocavam permitiram carreira tão bem sucedida e longa.

                       PREMONIÇÃO DO FIM

Arguto como foi, Lampião pressentia que o progresso selaria o fim do cangaço. Transformou-se, por isso, em inimigo das estradas através das quais chegariam caminhões transportando numerosos “macacos” bem armados. Sempre que possível, procurava atrapalhar a construção de rodovias, amedrontando os trabalhadores e praticando violências contra alguns.

              MARCA PESSOAL: CANGAÇO SEM ÉTICA

Lampião imprimiu marca pessoal no cangaço. Segundo os autores, com ele “muita coisa mudou no modus vivendi dos cangaceiros. Os punhais enormes, as bandoleiras enfeitadas com libras esterlinas, os chapéus enormes, ornados com estrelas e signo de Salomão, os dedos cheios de anéis, apurado gosto na confecção de luvas, lenços e embornais, vidros de perfumes baratos que eram usados em profusão para afastar o odor do suor e para agradar as mulheres que eram mimadas como princesas. Tudo isso trazia um pouco da marca pessoal de Lampião que não era um gênio somente no campo de batalha” (págs. 39/40). Tocava harmônica, realizava trabalhos em couro e “era metido a poeta”. Os cangaceiros foram exímios costureiros, atividade que exerciam com naturalidade.
Segundo os ensaístas, foi Lampião o iniciador da fase do “cangaço sem ética.” No seu reinado, dependendo da situação, valia tudo, inclusive o assassinato de mulheres, velhos e crianças, sequestros, extorsões, torturas, castrações, estupros, saques e destruição de propriedades alheias. E de fato, os episódios relatados ao longo do livro, todos confirmados, são de arrepiar os cabelos. “Conotações de heroísmo”, “injustiça social” e a idéia de um “Robin Hood caboclo, que tirava dos ricos para dar aos pobres”, não passam de lendas sem base histórica – afirmam os autores (pág. 186). Pelo contrário, como rolo compressor, Lampião passava sobre tudo que se opusesse aos seus desejos.

        A GROTA DO ANGICO E A TRAGÉDIA FINAL

Lampião foi morto na manhã do dia 28 de julho de 1938, na Grota do Angico (SE), aos 41 anos de idade. Nos últimos tempos, cercado e atacado por todos os lados, agia mais como “empresário do crime” que na linha de frente. O depoimento de Manoel Félix, último coiteiro, deixa a impressão de que o Rei do Cangaço estava cansado, descuidando da segurança e confiante em demasia. No local onde morreu só havia uma saída, circunstância que não aconselharia a permanência, ainda mais diante do alerta de outros cangaceiros sobre detalhe tão importante. Mas Lampião parecia ter baixado a guarda, atitude que lhe foi fatal, marcando a partida para o dia seguinte. Foi tarde demais.
Sua morte ecoou na caatinga e os sertanejos em geral não podiam crer que um “homem como aquele pudesse morrer assim” (pág. 363). Decorridos tantos anos de sua morte, a figura do Rei do Cangaço ainda intriga e fascina. Os artigos que tenho escrito a respeito provocam bastante interesse.  

                   A SECA DO JOÃO MIGUEL

Em 1931, acuado por Getúlio Vargas para dar fim ao cangaço, o interventor Juracy Magalhães urdiu um plano tão inacreditável quanto desumano: esvaziar os sertões, obrigando a população a migrar para as cidades, onde foi engrossar as favelas periféricas. As famílias foram instadas a apanhar o que pudessem, deixando tudo mais ao deus-dará. Esse plano insólito ficou conhecido como “seca do João Miguel”, recebendo o nome do oficial encarregado de sua execução. Entre dez e quinze mil sertanejos foram coagidos a abandonar terras, casas, roças e criações, transferindo-se para as cidades, onde muitos sobreviviam de esmolas. Imaginavam os mentores de tão estapafúrdio plano que esvaziando as caatingas, o cangaço morreria por ausência de apoio, mas o resultado foi o oposto: os sertanejos pobres voltaram miseráveis e o cangaço se banqueteou em liberdade com tudo que foi deixado (págs. 34 e 321).

                 O BANDO E O ESTADO-MAIOR
   
O estado-maior de Lampião sofreu inúmeras alterações. Muitos de seus integrantes ingressaram, saíram e retornaram; outros pertenceram a gerações diferentes, nem sempre se conheceram ou foram contemporâneos. Apesar dessas dificuldades, os autores rastrearam toda a história de Lampião e levantaram as biografias dos mais importantes. Em forma sintética, anotamos a seguir os elementos essenciais de cada um deles:
Antônio Ferreira (1895/1926). Irmão mais velho de Lampião. Homem sisudo, não ria e nem sequer sorria. Autêntica víbora. Morreu por acidente, numa brincadeira – um “sucesso”, na linguagem do cangaço.
Livino Ferreira, vulgo Vassoura (1896/1925). Também irmão do Rei do Cangaço. Tagarela e extrovertido, foi um indivíduo bruto e áspero no trato. Corajoso ao extremo, levava uma faca nos dentes na hora do ataque.
Antônio Matilde. Irmão bastardo do pai de Lampião. Esteve afastado do grupo e morreu em 1927.
Antônio Rosa, vulgo Antônio do Gelo (1897/1924). Alagoano. Valente e vaidoso. Foi morto pelas costas por Livino e Enéas.
Antônio Augusto Correia, vulgo Meia-Noite ou Bagaço. Alagoano. Valente e mau ao extremo, matou quando ainda era menino, Virou inimigo de Lampião. Morreu traído por um coiteiro.
Horácio Novaes, vulgo Horácio Grande (1891/ ? ). Misto de cangaceiro e policial; ora um, ora outro. Desapareceu para sempre sem deixar vestígios.
Sabino ou Sabino das Abóboras. Lugar-tenente de Lampião. Homem corajoso, violento e cruel ao extremo. Atarracado e feio, nada temia e praticou “um rosário de crimes.” Ferido, foi morto a seu próprio pedido e a sangue-frio, pelo cangaceiro Marguião (pág. 105).
Cícero Costa (de Lacerda – ? – 1924). Paraibano. Figura curiosa, de nível superior ao bando. Destemido e feroz na luta, matava com facilidade, embora se recusando a torturar, roubar e maltratar mulheres, idosos e crianças. Simpático, conquistava as pessoas com facilidade. Foi o “médico” do grupo, conhecendo os tratamentos e a farmacopéia do sertão. Parece que não foi sepultado, ficando seu corpo ao relento.
Os irmãos Marinheiros. Pernambucanos. Foram quatro, de gerações diferentes: Cassiano, José, André e Antônio. Os dois últimos abraçaram o cangaço a pretexto de vingar o assassinato dos irmãos. Entregavam-se à extorsão, ao rapto de moças e às ameaças. Fugiram para o Maranhão e desapareceram. “Nos sertões pernambucanos – ensinam os autores – diz-se marinheiro aquele cuja aparência física lembra os invasores holandeses que vieram pelo mar. Estatura elevada, cor branca, cabelos loiros, olhos azuis, características comuns a esses quatro irmãos bandoleiros” (pág. 137).
Mariano (Laurindo Granja – 1898/1937). Pernambucano. Fiel a Lampião, acompanhou-o tanto nos tempos bons como nos maus. Alegre, risonho, tocador de gaita. Não cometia atrocidades desnecessárias. Valente até o fim, morreu baleado e esfaqueado múltiplas vezes.
Os Marcelinos. Também irmãos: Manoel (Bom Deveras), João (Vinte e Dois), Raimundo (Lua Branca) e José, este último ladrão contumaz, fugiu para São Paulo. Cruzavam a Chapada do Araripe para o Ceará e Pernambuco, sempre acoitados por gente graúda. Vinte e Dois foi morto pela polícia e Lua Branca ferido e preso na mesma ocasião, assim como Manoel Toalha e Pedro Miranda, ambos do bando chefiado pelo primeiro. Também foram presos Joaquim e João Gomes, primos, acusados de coiteiros. No dia 5 de janeiro de 1928 os cinco foram levados ao lugar Alto do Leitão e sumariamente executados, depois de cavarem as próprias sepulturas (pág. 171).
Virgínio Fortunato da Silva (Moderno1903/1936). Cunhado de Lampião, nascido no Rio Grande do Norte. Educado, comedido, pouco falante. Foi o “capador oficial” do bando.
Ezequiel Ferreira (Ponto Fino – 1908/1931). Irmão mais jovem de Lampião, morreu aos 23 anos de idade. Criou-se na malandragem de rua de Juazeiro do Norte (CE) e idolatrava o irmão, de quem foi a própria sombra. Tinha excelente pontaria e não foi sanguinário.
José Zeferino Andrelino dos Santos (Oliveira ou Alagoano 1912 – ? ). Pernambucano. Cangaceiro-mirim, entrou no bando aos 14 anos, sendo considerado uma espécie de filho por Lampião. Muito malvado na juventude, ficou famoso pelas crueldades praticadas. Deixou o bando em 1928 e cumpriu pena de prisão. Em 1984 ainda vivia, quando foi entrevistado pelos autores, descrevendo o ambiente do cangaço e as chegadas do bando nas cidades daquela época. Participou da frustrada invasão de Mossoró (págs. 196 e 198).
Antônio Massilon Leite (Benevides). Nascido no Rio Grande do Norte, fôra pistoleiro profissional e já teria chegado ao Ceará com 26 mortes nas costas. Atirador exímio, dizem que foi um cangaceiro sofisticado, usando bússola na caatinga, andava sempre bem trajado e sabia dirigir veículos. Um dos idealizadores do assalto a Mossoró, dele participou, no dia 13 de junho de 1927, quarta-feira, por volta das 16:00h. Repelido pela população enfurecida, o bando se retirou para o Pajeú, numa marcha inacreditável através da caatinga. No ataque morreu o cangaceiro Colchete, e Jararaca, ferido, foi preso e consta que teria sido sepultado vivo. Deixando o bando, conforme uma versão, Massilon se entregou a assaltar fazendas e parece que foi bem sucedido. Com o dinheiro, fugiu para o Rio Grande do Sul, onde teria mudado de nome e ingressado na polícia, chegando a oficial. Nos anos 50 foi visto no Nordeste, bem trajado e elegante, num caminhão novo, de sua propriedade, com motorista particular. Visitava parentes e amigos no Ceará e dizia residir em algum recanto do Brasil Central (págs. 110 e 235). Segundo outra versão, teria fugido para o Maranhão, onde acabou morto no Sítio Granjeiro, distrito de Caxias, em março de 1928. “Com o nome de Floriano, foi assassinado por um Vicente, negro, seu amigo, por uma brincadeira, dizendo cada um que tinha o corpo fechado” (Do livro “Massilon”, de Honório de Medeiros, Natal, pág. 104). Já o escritor e jurista Manoel Onofre Jr., também de Natal, informa que um pesquisador obteve uma certidão de óbito confirmando o falecimento de Massilon que, portanto, não poderia ter visitado o Nordeste nos anos 1950. Lucetti, no entanto, afirmava que teve contato com pessoas que viram o cangaceiro nessa visita. 
José Leite de Santana (Jararaca – 1901/1927). Nascido em Buíque (PE), foi soldado da polícia e do exército, tendo andado pelo Sul e participado da Revolução Paulista. Voltando à terra natal, formou o primeiro grupo e iniciou a “carreira”. Foi ferido e preso no assalto a Mossoró, onde acabou executado.
Antônio Francisco ou Antônio Inácio da Silva (Moreno 1909/2010). Pernambucano. Irmão de um dos matadores de Delmiro Gouveia. Em 1938, ao saber da morte de Lampião, teria fugido para o Maranhão e nunca mais se soube dele. Na verdade, segundo se soube mais tarde, evadira-se para Minas Gerais, onde faleceu em 7 de setembro de 2010, em Belo Horizonte. Estava viúvo de Durvalina (Durvinha) há dois anos e usava o nome de José Antônio Souto. Tinha grande receio de ser decapitado após a morte, como aconteceu com tantos de seus companheiros (“Folha de S. Paulo”, 9 de setembro de 2010, Pág. C 3). Segundo o escritor mineiro Manoel Hygino, Moreno andava com problemas de saúde e havia sido internado no hospital onde ele trabalha.
Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco ou Diabo Louro – 1907/1940). Muito famoso, foi o derradeiro dos grandes chefes. Virou verdadeiro carrasco, embora às vezes revelasse um lado bom. Em virtude de ferimentos, ficou aleijado de ambos os braços, incapacitado para o manejo de armas longas. Nunca se entregou. Segundo depoimentos, bebia muito nos últimos anos e foi dominado pela mulher, Dadá, autoritária e valente, que na prática chefiou o bando em sua derradeira fase. A morte de Corisco é apontada pelos historiadores como o termo final das atividades cangaceiras.
                Os Engrácias. Família baiana, teve vários membros envolvidos no cangaço. Foram eles:
Antônio de Engrácia (1897/1930). Cangaceiro garboso, rival de Lampião, foi assassinado pelo próprio irmão, Cirilo. Era considerado um dos dez maiores cangaceiros existentes.
Cirilo de Engrácia (Véio Cirilo – 1890/1935). Com o assassinato do irmão, ficou marcado para sempre. O crime foi escondido pelo bando por muito tempo.
Manoel Moreno (Bentevi – 1905/1937). Sobrinho de Antônio e Cirilo. Preguiçoso e covarde, gostava de perfumes, danças e mulheres. Um bon vivant das caatingas.
Aleixo, vulgo Zé Baiano (? – 1936). Sobrinho de Antônio e Cirilo. Indivíduo perverso, sádico e tarado, estuprador sistemático. Marcava as pessoas a ferro e usava uma palmatória a que chamava “Boneca de laço e nó”, com a qual aplicava “bolos” nas mãos das pessoas.
José Ribeiro Filho (Zé Sereno – 1913/1981). Sobrinho de Antônio e Cirilo. Esteve com Lampião em Angicos. Conseguiu escapar ao massacre e fugiu para São Paulo, onde viveu recolhido, quieto e até respeitado pelos conhecidos.
Esses foram os Engrácias, célebres e temidos.
Mariano Barbosa da Silva (Azulão – 1911/1933). Baiano. Foi o terceiro com a mesma alcunha, mas não o último. Decepada, sua cabeça foi levada para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador (BA).
Ângelo Roque da Costa (Labareda ou Anjo Roque – 1899 – ?). Pernambucano. Entregou-se à polícia e ainda viveu muitos anos.
Luiz Pedro (Cordeiro – c. 1910/1938). Permaneceu cerca de quinze anos com Lampião. Em acidente, matou Antônio Ferreira, irmão do Rei do Cangaço, mas foi perdoado por este, reconhecendo que fôra um “sucesso”. Fiel extremado ao chefe, morreu com ele em Angicos.

                       FIGURAS SINGULARES

Resta uma palavra sobre três personagens envolvidos com o cangaço e que ficaram na história. O primeiro foi o Padre José Furtado de Lacerda, mais conhecido como Padre Lacerda, da Vila do Coité. Segundo os autores, ele “achava que a vontade de Deus vez por outra precisava da ajuda das armas para ser cumprida. Muito valente, andava sempre armado e cercado de homens de sua confiança” (pág. 124). Chegou a ser atacado por bandos de cangaceiros, travando-se violentos tiroteios que deixaram sua casa perfurada pelas balas. Antônio Teixeira Leite (Antônio da Piçarra – 1855 – ? ). Foi o mais conhecido coiteiro de Lampião no Cariri Cearense. Vivendo isolado em meio à caatinga, esse fazendeiro alegava que não teria como negar ajuda ao cangaceiro sob pena de implacáveis represálias. Entrevistado pelos autores, muito colaborou com eles. Odilon Flor, o Nazareno (nascido em Nazaré, hoje Carqueja), perseguidor implacável de Lampião e colaborador de quantos procuraram o cangaceiro, morreu frustrado pela ausência de reconhecimento de seu trabalho e pela traição da “volante” que eliminou o Rei do Cangaço (págs. 358/359).

                 COMPARAÇÃO IMPRÓPRIA

Por fim, uma palavra a respeito da confusão que tantas é feita entre Cangaço, Canudos e Contestado. Embora fossem revoluções populares arcaicas, denunciando estruturas injustas e omissão de qualquer assistência, Canudos e o Contestado foram movimentos messiânicos, características que o Cangaço não teve. Embora este último, em certa fase, contasse com o apoio do Padre Cícero Romão Batista ao grupo de Lampião, apenas isso não lhe confere índole religiosa ou mística. Foi o Cangaço uma espécie de banditismo organizado sem similar no país ou no mundo. Mas os três acontecimentos espelhavam o mal-estar social diante da miséria, da injustiça, do abandono e da incompreensão. Contasse o país com governantes mais sensíveis e todos eles, com seus horrores, poderiam ter sido evitados. Acabaram ficando como manchas indeléveis de nossa civilização.
 
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(*) Segundo os dicionaristas, coiteiro é o indivíduo que dá asilo a bandidos ou os protege. Coito é o local onde se escondem.
(**) Em um de seus romances memorialistas, o escritor piauiense J. P. de Lima Cordão relata a tranquilidade com que o cangaceiro Antônio Silvino passou vários dias numa pequena vila, revelando sentir-se em casa, com total segurança. O aparecimento repentino do cangaceiro, um dos “donos do sertão”, provocava medo e curiosidade. Labioso e vestido de forma aparatosa, destoante da pobreza geral, sua presença agitou a vila nos quatro dias em que lá esteve. Após sua partida, sobreveio o receio da “volante” que poderia estar no seu encalço. Elas podiam ser tão violentas quanto os cangaceiros (“Muquém”, Edição do Autor – Teresina – 1996). Analisei esse livro em “Fazer o Piauí”, B. Camboriú, Editora Minarete, 2000. 
(***) “República de Princesa – José Pereira x João Pessoa”, de Joaquim Inojosa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira/MEC, 1980; “A Revolta de Princesa – Poder Privado x Poder Instituído”, de Inês Caminha L. Rodrigues, S. Paulo, Editora Brasiliense, 1981; “Presença de Inojosa”, de Enéas Athanázio, ensaios, Blumenau, Fundação Casa Dr. Blumenau/Gráfica 43, 1985.  

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