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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Três livros e uma ninfeta, em tarde de grande pânico (Nilto Maciel)


                         (Quadro de Eliseu Visconti)
 
                     
Tenho andado preguiçoso de ler novos poetas, contistas, romancistas, ensaístas. Muitas vezes, sinto certa angústia: estaria a perder tempo? Tenho mais vivido ao lado dos antigos e dos velhos. Para vocês terem ideia desses mergulhos (quase todos, mais de uma vez), menciono cinco obras: Rimas de José Albano; O muro, contos de Jean-Paul Sartre; Angústia, de Graciliano Ramos; Os melhores contos de Tchékhov; e O grande pânico, de Airton Monte. Ora, dirão, este último é novo, é de agora (sim, é mais novo do que eu), embora já não esteja conosco. Está, sim, aqui, ali, acolá, mesmo invisível, ao lado de José Albano, Graciliano, Sartre e Tchékhov. E de todos os bons artesãos da palavra.


Pois me achava a matutar sobre isso, olhos abertos ou fechados (não consigo mais imaginar o meu estado), quando chegou a sempre viva e animada Valquíria Monterosso. Caminhamos até a sala: “Menina, você nem me telefonou. Não a esperava”. E experimentei abraçá-la, à força. Não consegui: ela caiu no sofá, suada e cansada. “Água, seu Nilto, água, que tenho sede”. Corri (por pouco não me esborrachei no chão), na direção da geladeira. Divertia-se Alice no quintal, atrás de coelhos e tocas. A visita riu. Não sei se da brincadeira com Alice ou do meu estabanamento. Se por este último motivo, quiçá me quisesse ver morto ou em agonia final. E, no papel de testemunha ocular, teria a contar às amigas, ao futuro marido, aos amantes vindouros, aos filhos e netos (talvez em memórias), os momentos finais de certo escritorzinho de subúrbio obcecado pela beleza da palavra, da frase e da mulher. Coração aos pulos, ofereci-lhe o copo (teria trazido cicuta, fosse noite alta ou sonhasse com traição) e me deitei ao seu lado. “Você leu os três alfarrábios?” Referia-me a Os abismos do ser, de José Mário da Silva; Versos versáteis, de Leo Barbosa; e Quase diário (de coisas pequenas) – IV, de Dias da Silva. Após uma semana com eles, emprestei-os a ela: “Serão analisados na sua próxima vinda a esta caverna” – e me entreguei a imitar troglodita. Valquíria gargalhou, feito criança. Parasse com aquelas macaquices. Então me diga se gostou do primeiro tomo.

Valquíria agarrou a brochura de José Mário da Silva. Havia posto os três volumes sobre a mesinha de centro, ao lado de Airton Monte. Leu, em voz alta: “Marco Lucchesi retorna à cena lírica da Literatura Brasileira com mais um livro, Sphera (Record, RJ, 2003), que realça e ratifica a sua condição de requintado artesão de um verso que, com rara mestria, combina solenidade transcendente com a luminosa clareza de uma expressão inteiramente depurada das retóricas puramente epidérmicas, e, por isso mesmo, inconsistentes, porque desprovidas do gesto humano essencial inerente às arquiteturas linguísticas que se pretendem elevadas à superior categoria da arte”. E suspirou: “Por pouco não perdi o fôlego”. Saí em defesa do modo de compor do mestre (em Teoria da Literatura) e crítico literário radicado em Campina Grande, Paraíba: “Não vejo defeito nisso, minha querida. Milhares de moços (e anciões também) escrevinham poema, conto, romance, ensaio, como se redigisse notícia, naquele estilo picotado dos jornalistas. Dos bons jornalistas. Outros, à maneira de Mário, nesse estilo espichado, comprido, esparramado”. 

Sem querer desdenhar a opinião de minha aluna, ressalto em José Mário, pelo menos, uma virtude. Ele não se apega apenas aos nomes consagrados, os chamados “escritores canônicos”. Vai de Marco Lucchesi (poeta, ensaísta e tradutor premiadíssimo e membro da Academia Brasileira de Letras) ao sempre “marginal” e “revolucionário” Gabriel Nascente. Vai de autores consagrados (João Cabral, Jorge Amado, Marques Rebelo, Rubem Fonseca e Ledo Ivo, a quem dedica um dos mais encorpados estudos) a poetas, contistas e romancistas principiantes ou ainda sem nome inscrito no panteão – Ó palavra gasta! – das letras nacionais, a exemplo de André de Sena (jovem paraibano) e outros “ilustres desconhecidos” do leitor de livraria, de acadêmicos e críticos. Esse modo de proceder tem méritos, embora se possam contar nos dedos os leitores de seu inventário. Tiragem reduzida, falta de divulgação, inexistência de bibliotecas públicas, além do mais grave: Quase ninguém desenvolve o hábito de ler. 

Mais meia hora de Os abismos do ser e convidei a estudante para merendar. Chamei a secretária geral e, às claras, fiz-lhe a pergunta por ela esperada (combinamos e ensaiamos todas as cenas): “Alice, podemos nos dirigir ao banquete da tarde?” E lá fomos nós, eu e Valquíria, montados no alazão da fome, no rumo das tortas, frapês e néctares de sabores dionisíacos. Fartamo-nos (e quase enfartei) e nos devolvemos à sala: “Agora é a vez de Versos versáteis”.

A moça pegou o opúsculo de Leo Barbosa e o desfolhou, com calma: Não enxergava na sua poesia “centelhas de gênio” (deve ter anotado isso à margem da folha); pelo contrário, uma cadeia de mesmices, além de busca precipitada do inusitado. Fez menção a algumas composições: “Amarras que brotam / sob a rota remota / remontam-se garras / servidas à ceifa” (“Fazendeiro”). Excesso de rimas, todas forçadas. Além disso, a linguagem empolada conduz o leitor para sendas perigosas, armadilhas mortais. Tentei sair em defesa do vate: Só em escrever, já alcançou vitória. Não tem o talento de um Augusto dos Anjos, (para citar outro poeta paraibano), e a ele não pode ser comparado. Entretanto, segue pela senda (para imitar o estilo do próprio Leo) que poderá levá-lo ao halo da mais pura poesia. Ela sorriu: “Assim é demais, seu Nilto. Não exagere e não brinque com coisa séria”. O crítico Carlos Aranha, na crônica-prefácio, sintetiza, assim, a sua opinião a respeito das estrofes de Leo: “Em ornitologia, definem-se como versáteis os dedos das aves que se dirigem para trás e para frente. As linhas poéticas de Leo Barbosa não têm o que está à frente nem atrás. Eles desenvolvem-se em círculos e fora de qualquer círculo”. 

Relemos, em voz alta, outros cantos do estudante de Letras (tem a vida inteira para ler, imitar, exercitar-se, aprender) e caímos em estupor de adolescentes após o coito prolongado. “Agora desejo dormir e sonhar com você”. Envolta em riso, estirou-se no sofá. “Eu quero mais poesia”. Olhei para meus pés: “Não tem mais poesia, menina. Agora nos resta diário de escritor de província”. E me pus a folhear a coletânea de Dias da Silva. “De quem se trata, professor?” Nem olhei para ela: “Dias da Silva é escritor full time. Vive para lapidar frases, embora tenha editado apenas 27 títulos”. Para Valquíria, número excessivo. Observei a importância de compêndios daquele feitio: Anota, no seu cotidiano de estudos intermináveis, toda a beleza captada (essência) nos escritos. Disseram, amigos dele, tratar-se de um dos mais devotados leitores brasileiros dos nossos tempos. Dias da Silva não se diz crítico literário; apenas comentarista.  Toda a sua criação literária ele a divulga em jornalzinho de sua “propriedade”. A ninfeta pediu perdão pelo pecado cometido: Não tinha lido “direito” o impresso dele. “Era noite alta e tive sono. De manhã, ao acordar, o objeto repousava debaixo de minhas pernas”.

Ainda dediquei uns minutinhos a Airton Monte. Apresentei O grande pânico (edição da Moderna, de São Paulo, 1979). “Um dos melhores contistas brasileiros surgidos nos anos 1970 – impedido, por doença terrível, de continuar a engendrar crônicas diárias (quantos contos ainda viriam, quantos romances, quantos poemas?)”. Valquíria não o conhecia. Tinha interesse em ler aquela obra rara? “Sim, tenho”. “Pois leve, porém não durma com ela debaixo das pernas”.

Fortaleza, 14/17 de agosto de 2013.                                                 

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