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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A saga do anjo d’aluminho (Brennand de Sousa)



  
Porra de tanta luz! Lasqueira de sol!  É gente espiando como se de bronze fosse... bronze nada! Concreto enlodado. Imagem de fuligem e merda branca. No entanto está ali, necessariamente ao sol, com a prata a invadir-lhe todos os poros, a gritar sua figura incandescente ao pingo das duas.

Desde o dia que viu um cara lá das bandas do Rio Grande posando na Praça do Ferreira achou o máximo. Esteve o seu artista enquadrado num daqueles pórticos de aço. Um cangaceiro pós-moderno entre colunas de vermelho chinês!  Tão logo se juntou a dezenas de outros olhos passou a espreitar aquela figura imune às galhofas da cearensada.

Tratou de capturar o mínimo detalhe. Inclusive nunca soube que estátua suasse até aquele dia e... com o calor parecia atrair a molecada que, feito mosquito, enxameava o corpo do infeliz xeretando os badulaques do figurino. Inerte o artista continuou. Homem de aço.

No completo arco do sol deu pra esquadrinhar a escultura de carne, deu para capturar a economia muscular do sujeito de forma tal que não mais precisasse reencontrá-lo.

Que aquilo dava certo, dava. A julgar pelo apurado! O problema seria a fantasia. Depois de meticulosos cálculos arranjou camisa, calça e sapato.  Tão surrados que bem poderiam ter saído de uma cova rasa. A gravata foi negociada com um vendedor de semáforo. O sujeito só queria vendê-la no pacote. Verdadeiro imbróglio, uma vez que só liberava o acessório com o Judas a tiracolo. Por fim os óculos espelhados surrupiou na calçada da General Sampaio, no roldão da turbamulta.

Ao final compusera o personagem. Banal, mas um personagem, posto que nunca fora de mostrar-se de terno, muito menos engravatado.

O fato é que ainda lhe faltava o principal. Justo a prata que era o chamariz! Ou de que adiantaria ficar feito dois de paus a posar no meio do tempo sem a tal pasta? Decerto chamariam o pessoal da Messejana para levá-lo.

Rodou por farmácias e armarinhos do Centro sem conseguir o tal elixir da notoriedade. Já estava para desistir quando percebeu o som de metal cortado. Colocou a cabeçorra pra dentro de uma porta de enrolar, dessas que se espremem pelos quarteirões da São Paulo. No interior, varas e mais varas de alumínio enfeixadas. Quase ao pé da porta, o esmeril jateava fogo sobre o chão enquanto a poeira de prata acumulava no pé da máquina. Finalmente!
 
A primeira semana pareceu-lhe promissora. Apurou quase duzentos e cinquenta paus. Havia por fim encontrado o quê e como fazer. Autodecretou que seus dias de cafezeiro haviam terminado.

Enquanto o corpo acomodava-se ao desenho possível, os olhos – escondidos que estavam – observavam o trânsito da praça. O diacho é que a praça tem seus espiões. Haviam descoberto seu truque. Em pouquíssimo tempo esquinas, calçadas, qualquer logradouro público pululava estátuas vivas. Iridescentes, ofuscavam seu alumínio pioneiro.  Povim invejoso, o cearense!

Com os meses a paciência foi desmilinguindo. A grana em primeiro. Ultimamente saía da pose para solicitar um adjutório, um trago do que fosse. Se o lombo desfalecido necessitava de apoio, então tamborete pra ele que ninguém é de ferro. Dessa forma a graciosidade da pose foi sendo substituída pelo retrato do enfado. E assim transcorriam suas intermináveis insolações diárias.
  
Deu-se que, numa bela manhã, o numinoso invadira-lhe o quarto de tijolos desnudos. Se houvera endoidado não sabia, mas definitivamente não era mais o mesmo. Até no jeito de levantar-se da rede: Ao estilo retumbante de um salto acrobático! As estranhices continuaram. Fora do alcance da visão percebeu a mulher na cozinha preparando os elementos de sua pasta brilhosa. Anteviu-a misturando o óleo de soja com a farinha de alumínio para depois passar o produto em sua cintura ovalada, nas costas, pernas, articulações e artelhos, cobrindo-lhe pacientemente o corpo. (Há algum tempo que da própria pele fizera traje). Ao entrar na cozinha tudo se confirmou. E viu que era bom.

A caminho do Centro nem os apupos indígenas da moçada do bar, presenciou. Todos mudos. As coisas se passavam diferentes sim e flutuava diante dessa íntima certeza. Quando adentrou majestaticamente o Paranjana, o trocador franqueou-lhe a passagem. Os passageiros retraíram-se humildemente nos bancos em sinal de reverência e passeou intangível pelo corredor da condução.

Já na praça escolheu lugar estratégico. Mui galhardamente tomou o sol como refletor armando sua estática inicial, cumprindo o mesmo ritual de antanho num frescor que nem nos melhores tempos de exposição houvera experimentado. A diferença foi que nada esperou além de exibir sua arte. Mostrou praquele povo que não precisava de esmolas. Impaciência? Fome? Suadeira? Que nada! Foi um super-homem de postura estratosférica! E não é que tenha desconcentrado, perdido o élan, mas uma força coercitiva impeliu-o a projetar levemente a nuca como a alcançar a prosa duns rapazes bem apessoados.  Combinavam os tais onde poderiam assistir o Brasil e Uruguai dali há pouco. Foi quando, intimamente possesso, proferiu: Ganhou de dois a um! Os caras olharam-no meio sem entender. O Brasil ganhou de dois a um! Confirmou. Os olhos expressavam mais brilho que sua barriga exposta ao terrível sol da tarde. Tamanha convicção não soou como vaticínio. Ele sabia e por saber os caras escoltaram-no decididamente. Levaram-no prateado mesmo que ele seria um deus inca encarnado num rastaquera suburbano. As meninas vibrariam com o espetáculo.

Desde o primeiro minuto a boa cerveja nunca lhe faltou. Acepipes e toneis de bebida importada foram avidamente consumidos.

Trinta e oito minutos do segundo e a partida rumava para decisão nos penais. Os  patrocinadores da estátua falante já chutavam cadeiras. O mulherio era um só frisson. Ele sorria com o canto esquerdo da boca. Senhor do porvir.  A Canarinho já levou essa. Dois a um!

E aí profeta fuleiro, como é que fica? Isso reclamava um dos que tiveram a bela ideia de empacotá-lo para mascote. Timidamente, outros já ameaçavam golpeá-lo, expulsá-lo a pontapés.

Nos quarenta minutos! Tranquilizava a todos enquanto cântaros de cerveja escorriam adentro e afora dos beiços. E ria, e comia muito.  Sai aos quarenta! Agora, neste escanteio, neste exato segundo. Falava ele como que de um acontecimento transato apontando inclusive o nome do artilheiro.

Quando tudo se deu – na justa forma prevista – ajoelharam-se todos. As meninas ficaram absortas. Algumas arriscaram abraçá-lo, outras demoraram a entender tudo aquilo. Quiseram tocá-lo quase em sinal de devoção.  Os rapazes alçaram-no aos ombros feito uma deidade mesopotâmica. Abarrotaram-no mais ainda de agrados e iguarias. 

Não tardaria até que as mulheres desfilassem pela sua frente em franca oferenda. Coxas e bundas colossais fremiam a dois palmos de seu nariz ao som de atabaques eletrônicos...  Balançavam em frenesi num óbvio convite ao acasalamento.  As vulvas quase a polir o chão eram avidamente colhidas pela potestade que lhes fincava as garras na maciez do sexo. Assim que largava uma carne loura, mordiscava, violentamente, as bochechas esculturais recém-saídas de um shortinho diminuto. Daí a pouco já rolava pelo chão com a ruiva em beijos febris para, em seguida, sugar desesperadamente os mamilos intumescidos de uma quarta numa voracidade pantagruélica! Tudo ali sob os olhares masculinos que, prostrados diante da sua magnificência, entoavam cânticos de louvores.

Foi quando um grito de terror solapou a embriaguez de toda aquela libação. Notaram que manchas humanas se mesclavam ao prateado de sua cútis divina.   As beldades também miravam-se horrorizadas. Por sobre (e dentre) tanta formosura, resíduos de alumínio. No rosto os primeiros sinais de sua gentilidade. O nariz pardo, quase a nu, assimilava-o a um urso coala. Parte do cabelo já mostrava cor e texturas naturais e até se percebia um canino superior, junto com dois pré-molares inferiores a vagarem-lhe na boca de sorridente gozo. Terror. Pânico. Entre os homens ira, revolta. Alguns apertaram-lhe acintosamente as narinas buscando a completa revelação. Não havia mais dúvidas. Foram vergonhosamente enganados. As calcinhas espalhadas pelo recinto foram colhidas pelos homens que buscaram em desespero cobrir a nudez de suas amadas. Outros três já o levavam aos safanões para o olho da rua. Surraram-lhe à exaustão. Coisa feia de se ver.

Após desastrosa queda, o despertar numa manhã alvacenta de azul e cimento. Mal abria os olhos de tão inchados. O ar era outro. Inodoro. Tristemente terreno.  Levou os dedos à boca. Apertada de tanto soco. Depois ao nariz que supôs ensanguentado. Estava! E o sangue misturava-se aos resíduos do poder que numa noite esteve entre seus dedos!

Enquanto tentava suportar o peso da cabeça um cortejo de cangaceiros gaúchos, bêbados chistosos, meninos mosquitos... Todos o rodeavam.

Por cima o astro rei que a tudo dilui, expande, desfoca. 

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