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sábado, 14 de setembro de 2013

O telefonema (Paulo Lima)


            1.
            Efe acelerou o passo, já deu por cumprida sua caminhada matinal. É cedo ainda e não há vivalma na praça do bairro em que mora e costuma exercitar o corpo três vezes por semana. O médico foi peremptório. Ou anda, ou morre. Quarenta, quarenta e poucos.  Funcionário público, dívidas, vida sentimental estagnada, filhos em idade escolar, time do coração rebaixado. Pouco não é. Efe não quis pagar pra ver.
            E assim, a contragosto, deu início ao seu programa pessoal de cuidados com a saúde.
            E foi andar.

           
              2.
            E andando e respirando e andando e respirando é que se deu conta: cometera um grave esquecimento. Trouxera a chave da casa. Os filhos, dois, um casal, não poderiam sair para a escola.
            Soltou um palavrão, alto e bom som. Que surpreenderia até um malandro de escol. Preocupado e subitamente envergonhado, olhou em volta, como que se desculpando.
            Mas quanto a isso ele não precisava se incomodar.
            A rua estava vazia. Vazia como um prado orvalhado. Péssima associação. Mas nada melhor lhe acenou.
            Efe então sacou o celular.
            Sem carga.
            Numa hora dessas?

            3.
            Sem carga e numa hora dessas.
            Mais uma tentativa. Morto como um gato morto. Péssima comparação. Mas foi o que lhe ocorreu.
            Correu para o orelhão mais próximo. Os filhos, a mulher, todos certamente o estavam maldizendo.  Cada um a sua maneira.
            Poltrão.
            Pai desalmado.
            Bugre velho.
            Gagá.
            Tonto.
            Cabeça de vento.
            Inútil.
            Indolente.

            4.
            Morte aos políticos!
            Era o que dizia a pichação no orelhão. Efe concordou cem por cento. Curvou o corpo, mergulhou na concha, esfregou a mão no rosto num gesto mecânico, ia puxar o telefone do gancho.
            Trim. Trim. Trim.
            Uma ligação chegando.
            Numa hora dessas?
            Stop. Titubeou um instante. O que fazer? Ponderou o rol das possibilidades.
            Falha sistêmica da telefônica.
            Alguém em apuros do outro lado.
            Um encontro marcado ao qual ele ou ela faltou.
            Típico toque de acordar dos orelhões.
            Nenhuma das opções.
            O tempo passava e Efe se exasperava. Não teve escolha. 
            Atendeu.

            5.
            Do outro lado da linha soou uma voz espectral. Como se viesse do além.
            Do além do além. Em ondas. 
            Uma voz masculina. Bem empostada. Dicção clara.
             Eu sei que você está em apuros.
            Pausa. Respiração pesada.
             Tenho o que você precisa.
            Pausa. Respiração pesada.
             Cinquenta mil em cash, na mão.
            Pausa. Respiração pesada.
             Mas precisamos de um serviço em troca.
            Pausa. Respiração pesada.
             Esteja no Sujinho, hoje, às nove da noite. Eu o abordarei. E vá sozinho, entende? Solo, completamente solo.  Ao meu pedido de cigarro, você deve responder com a senha secreta: Adélia.
            Desligou.

            6.
            Há mais mistérios entre o céu e a terra. Etc. Do que pode imaginar. Etc. Nossa vã filosofia. Etc. Mas para Efe era mistério em demasia. Too much.
            Ele não acreditava em bruxas.
            Nem em gnomos.
            Nem em duendes.
            Nem em mula-sem-cabeça.
            Nem em fantasmas.
            Era o que se pode chamar de um pé-no-chão, um realista em preto-e-branco, algo como um filme de De Sicca. Um sujeito cartesiano como uma reta euclidiana. A voz disse Adélia. Certamente o conhecia. Adélia era sua amante. Coincidência?
            Sim.
            Não.
            Sim e não.
            Sim ou não.
            Sentiu uma tontura. Hipoglicemia. Ligou para casa. Ouviu xingamentos, todos possíveis, saiu voando. Liberou os filhos.
            Banho, café, escritório.

            7.
            No escritório, a fauna kafkiana de sempre. O chefe depositou sobre sua mesa um processo espinhoso. Justamente hoje, que ele estava sem cabeça. Aliás, a cabeça estava girando.
            Em parafuso.
            Em cambalhotas.
            Em ziguezague.
            Errática.
            Caleidoscópica.
            Fractral.
            Adélia se aproximou e falou o tradicional bom dia capcioso, cifrado, numa sintonia que só eles sabiam.  Eles e Marmitão, o melhor amigo de Efe. Essas coisas a gente acaba sempre contando ao melhor amigo.
            Adélia estava usando a saia vermelha e a blusa branca. Parecia tão lânguida e sexy que Efe podia sentir o cheiro de sua calcinha. Esse jeito Adélia de se vestir era a senha para que saíssem à tardinha, depois do expediente.
            Senha. Adélia. Noite.
            A associação provocou um sobressalto em Efe. Ele teria de decidir sobre a voz e sua proposta misteriosa.

            8.
            Uma proposta misteriosa. E atraente. Como negar? Efe estava de fato em apuros. Acumulava dívidas até a raiz dos cabelos. Andava metido num esquema. Um desses tantos rolos da Administração Federal, um ralo do dinheiro público. Etc. Corrupção aos borbotões. Etc. Prevaricação. Etc. Ele queria pular fora enquanto ainda era tempo. Mas teria de saldar seus compromissos com a gangue.
            Marmitão também estava nessa. E se dividisse o infausto ocorrido da manhã com ele? Era ou não era Marmitão seu melhor amigo?
            Foi ter pois com Marmitão no almoxarifado.
            A manhã avançava a passos largos, allegro cantabile, como no andamento duma sinfonia. Péssima comparação. Fazer o quê?

            9.
            Marmitão estava embrenhado num emaranhado de caixas e pacotes de todos os tamanhos. Bufava e suava e dizia palavrões enquanto anotava numa prancheta. Ele engordara tanto que não fazia muita diferença se observado de frente, de costas ou de perfil. Bom garfo e bom copo. Não ganhara o apelido à toa.
            Efe não podia segredar o assunto ali, naquele ambiente cheio de olhos e ouvidos, um covil de arapongas e sacripantas e mexeriqueiros e bajuladores e alcaguetes.
            Combinaram almoçar juntos.  
            E juntos saíram na hora acertada.

            10.
            Efe mal tocou no almoço. Levou todo o tempo a detalhar o infausto ocorrido daquela manhã.
            Marmitão almoçou o tempo todo, mas não perdeu um só detalhe da narrativa fantástica de Efe.
            Efe falava e falava e falava.
            E Marmitão ouvia e ouvia e ouvia.
            À guisa de um relatório, mantendo o hábito e vício e costume de um típico colarinho branco, Efe pôs um ponto final na sua explanação. E fitou Marmitão, esperando uma reação do amigo. 
            Marmitão ainda arrematou uma última garfada, bebeu o resto da cerveja, olhou para os lados, inclinou-se um pouco à frente aproximando-se mais de Efe, olhou-o nos olhos e sussurrou.
            Fifty fifty, meu velho, fifty fifty.

            11.
            Com o quê? Marmitão não só deu corda à aventura daquela noite, como propôs uma divisão meio a meio do eventual lucro da operação, fosse lá qual fosse.
            Mas não podiam enfrentar o desconhecido sem um plano.
            E foi o que combinaram fazer.
            12.
            A mulher de Efe era a expressão da desconfiança em pessoa. Amuada, ouvia o marido explicar que naquela noite teria uma importante reunião de trabalho.
            Que precisaria chegar tarde.
            Que não esperasse por ele.
            Que não mandasse as crianças para a cama sem escovar os dentes.
            Que não esquecesse de lhe contar o final do capítulo da novela.
            Que lavasse sua camisa bege com gravata branca para o dia seguinte.
            Que isso, que aquilo.

            13.
            O Sujinho, ao contrário do que o nome sugere, não era sujo. Estava mais para uma birosca bem movimentada, situada num ponto da orla.
            Casais jovens e não tão jovens entravam e saiam. Um vaivém tremendo. Um entra-e-sai frenético.
            Um lugar perfeito para ser observado sem se deixar notar, foi o que Efe concluiu. A Voz sabia o que estava fazendo.
            O que acontecera com Marmitão? Combinaram de chegar ao local uma hora antes das nove. Efe permaneceria sentando bebericando uma água mineral sem gás, simulando uma espera.
            E Marmitão se postaria próximo à entrada, de onde poderia ter uma visão privilegiada e totalizante do ambiente.
            Ele surgiu com dez minutos de atraso, lançou um olhar discreto de OK para Efe e foi para o seu posto.
            Uma cena digna de um filme noir, faltando apenas Cadillacs, Pontiacs, glamour girls, ventiladores de teto girando indolentemente, luzes de neon e uma pena certeira como a de Dash Hammet para incutir charme à história.
            Efe escrutinou o local. Dondocas para dar e vender. Pensou em Adélia. Embora nervoso, degustou as lembranças do último encontro. O affair já durava dois anos. Amor cozinhado em fogo brando, sem solavancos, o necessário para amenizar as frustrações cotidianas. Melhor assim.  E não poderiam avançar mais na trilha. Por uma razão simples. Adélia era casada. Sem filhos. Trinta e cinco anos. Segundo casamento. O primeiro foi para o brejo. Era muito jovem. Casou-se grávida. Perdeu o filho. O marido não suportou a barra. Foi embora para o exterior. Tempos depois Efe entrou na jogada.
            Marmitão conversava animadamente com uma morena teen, mas com jeito de rodada. Marmitão não brincava em serviço. Efe receou que ele já tivesse esquecido do seu papel ali.  
            Súbito, uma voz.
             Você tem um cigarro?
            Era uma jovem vendendo flores. Efe voltou-se com tanta brusquidão na direção dela que sentiu uma fisgada no pescoço. Lembrou-se do que a Voz havia orientado. Respondeu então, quase sem ar:
             Adélia.
            A moça lhe estendeu um buquê de rosas e já estava girando nos calcanhares quando um tiro se fez ouvir.

            14.
            Nesses momentos o seu senso de direção dita que você deve procurar a porta de saída. E foi o que Efe tentou fazer.
            Mas era difícil achar a saída.
            Muito menos a moça das flores.
            Muito menos Marmitão.
            Num reflexo Efe arrebatou o buquê de rosas, por sorte não havia esquecido dele.
            Na gritaria geral, uma voz tronitruante pôde ser ouvida. Ela vinha do sistema de som do Sujinho. Alguém pedia peloamordedeus que todos tivessem calma.
            Mas calma é tudo que não se tem numa hora dessas.
            Com muito esforço, e sem compreender como conseguiu, Efe ganhou a saída.
            O bafo da brisa marinha lhe acertou o rosto em cheio. Um alento.
            Nem sinal de Marmitão. E muito menos da florista.
            Efe chamou um táxi e sumiu na escuridão.
            Num fade in,  a cena foi se fechando, como num filme noir.

            15.
            Carrossel, a vida é um carrossel, foi o que pensou Efe enquanto sua cabeça girava sem parar e o táxi rodava pelas ruas mal iluminadas e ele se dava conta de que segurava o tal buquê.
            E do buquê caiu um pequeno pedaço de papel branco em forma de quadrado. Nele, uma frase breve e enigmática escrita com caneta vagabunda, mas numa caligrafia clássica.
            Ei-la: 
            Maus alunos serão punidos.
            Efe sentiu o sangue gelar, ele teve um mau pressentimento.
            Pediu que o motorista do táxi acelerasse.
            Precisava chegar logo em casa.
            Rápido.
            Celeremente.
            Já.

            16.
            Efe pagou a corrida.  A rua estava deserta. Um cão latiu ao longe. As luzes de sua casa estavam acesas.
            Que estranho, pensou.
            A mulher certamente ainda estava acordada. Haveria mais uma rodada de cobranças conjugais costumeiras. O trivial, embora sempre desagradável e exaustivo.
            Efe passou pelo jardim, alcançou a porta, introduziu a chave, girou a maçaneta, entrou e de repente tudo escureceu.

            17.
            Efe levou a mão à cabeça, que doía. Uma protuberância podia ser sentida um pouco acima da nuca.
            Ele tentou se levantar, mas tudo girou em volta.
            Fez um novo esforço, era difícil abrir os olhos.
            Notou que estava em casa, mas nela não havia ninguém.
            Correu para o quarto das crianças. Nada.
            Para o seu quarto. Nada.
            Para a cozinha. Nada.
            Para o banheiro. Nada.
            Para a sala-de-jantar.
            Nada. Nada. Nada.
            A família tinha sumido.
            O telefone tocou. Efe atendeu.
            Era a Voz.
             Não faça bobagens.
            Pausa. Respiração pesada.
             Eles estão comigo.
            Pausa. Respiração pesada.
             Você me traiu.
            Pausa. Respiração pesada.
             Eu disse sozinho, sem companhia, solo.
            Pausa. Respiração pesada.
             Amanhã cedo na praia, Posto 2, às seis.
            Pausa. Respiração pesada.
             Lembre-se. Sozinho, solo, sem gracinhas desta vez.
            Desligou.

            18.
            Atarantado, desorientado, com o coração em disparada, Efe só teve uma idéia. Procurar a ajuda de Marmitão. Ele já estava metido nesse negócio.
            Primeira chamada. Sem resposta.
            Segunda chamada. Sem sucesso.
            Terceira chamada. Sem êxito.
            Quarta chamada. Fora de área.
            O boa-vida do Marmitão deve ter conseguido companhia e agora estava nas vias de fato, pensou Efe. Viver em desvario era o seu lema. Era a fórmula que ele havia achado para suportar a vida amesquinhada de funcionário público.
            Efe pensou em Adélia. Mas essa não é uma saída que Dash Hammett aprovaria. A menos que Adélia fosse solteira. Efe tomaria um táxi, bateria à sua porta e passaria a noite em seus braços, envolto em seus cabelos platinados, até o amanhecer.
            Rewind. Efe precisava pensar. Não poderia se tornar refém da Voz, de uma voz que surgiu do nada e que estava mudando o curso de sua vida.
            Precisava pensar.
            Foi então à cozinha, sentou-se, preparou uma dose tripla de dry martini e em poucos minutos dormia com a cabeça mergulhada sobre os próprios braços.

            19.
            O sol iluminava os olhos de Efe, acordando-o. Como um autômato, ele consultou o relógio: cinco e meia.
            Faltava exatamente meia hora para o encontro com a Voz.
            Efe se agitou, correu à rua, não havia vivalma, como no dia anterior.
            Por sorte, um vizinho estava de saída naquele momento.
             Bom dia, Efe.
             Bom dia, vizinho.
             Carona?
             Sim.
             Para onde?
             Posto 2.
             Tão cedo?
             Sim.
            No caminho discutiram amenidades. Efe mal podia se conter. Quase abriu o bico para o vizinho. Afinal, se conheciam há anos, jamais tiveram qualquer tipo de desavença. Contudo, se segurou.
            O sol se abria em esplendor. Um dia e tanto, pensou Efe, que também pensou em Adélia e também pensou nos filhos.
             Chegamos, anunciou o vizinho, retirando Efe do momentâneo torpor.
            Efe saiu às tontas, à procura de algum sinal da Voz. Para o Posto 2 acorriam naquela hora os primeiros corredores, muitos deles em forma deplorável, outros tantos exalando saúde.
            Súbito um veículo parou a alguns metros dele. E dele saíram os dois filhos e a mulher de Efe. Na verdade, foram cuspidos do carro, que saiu cantando os pneus em desabalada velocidade.
            Efe correu ao encontro deles.
            Todos se abraçaram e se beijaram e choraram e depois chamaram um táxi e foram para casa e lá chegaram.
            Efe queria saber todos os detalhes.
            Quem os havia levado.
            Como passaram a noite.
            Como estavam naquele momento.
            Para desapontamento de Efe, os filhos e a mulher não deram um pio. Naturalmente, estavam assustados, traumatizados, chocados, foi o que ele concluiu.
            No mesmo dia, Efe os mandou para a casa de uma tia no interior.
            Ele teria que acertar as contas com a Voz.

            20.
            Dois dias se passaram. Então a Voz voltou a dar notícias.
            Foi numa noite.
            Efe estava sozinho em casa.
            Sentindo saudades da família.
            Saudades de Adélia.
            Saudades de uma partida do time do seu coração.
            Saudades.
            Efe via tevê.
            O telefone.
            Era a Voz.
             Uma nova chance. Pegar ou largar.
            Pausa. Respiração profunda.
             Esta noite no Vivendas. Às nove. Em ponto.
            Pausa. Respiração profunda.
             Repito, última chance.
            Pausa. Respiração profunda.
             E lembre-se: sozinho, solo, sem truques.
            Desligou.
            Efe já estava ficando cheio dessa história. Dessa vez iria sozinho, ou solo, como dizia a Voz.
            Era hoje ou nunca.
            Era tudo ou nada.
            Era hoje.

            21.
            Quando Efe chegou ao Vivendas, um motel barato da zona sul, já havia uma confusão dos diabos à porta. Caído na calçada estava um homem morto. A polícia já chegara ao local e improvisara um cordão de isolamento em torno do morto.
            Efe quis saber o que havia acontecido.
            Uma garota bonita se acercou dele e contou.
             Esse presunto aí é Big Joe, um famoso golpista. Ele vivia de extorquir funcionários de repartições públicas. Especializou-se nisso. Era nosso cliente.
            Efe olhou bem para o sujeito. Ali estava a Voz em seu último ato.
            Sim, foi a última chance dele.
            Efe voltou-se para a garota bonita e sorriu. Tinha a noite livre. A família estava no interior. O caso estava encerrado.
            A moça bonita devolveu-lhe o sorriso.
            Sim, por que não?
            Efe abraçou a garota, chamou um táxi, que partiu para bem longe dali.   
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