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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Os Cegos de E. Berliner (Mariel Reis)



(Varal, 2012; óleo sobre tela , de Eduardo Berliner).

Não há esforço interpretativo, se podemos apontá-lo, ele é inibido pela perigosa cadeia que liga indivíduos que frequentam as mesmas livrarias, salas de cinema e o mesmo círculo de amigos. E para não ofendê-los com suas opiniões, se possuem alguma, estes localizam sobre a superfície da obra aquilo que lhe é menos característico e individual, investindo todo seu esforço para exaltá-lo como condensador das supostas qualidades do que veem; e se acompanharmos ponto por ponto o que ali está dito, certificando-nos de checá-lo minuciosamente, tristemente perceberemos que, em se tratando de pintura, solicitamos a cegos suas impressões.

         Isto, maiormente, se dá na crítica contemporânea e faz com que alguns nomes alcancem renomada reputação: ou por repetirem os releases ou trechos de conversa escutados durante o vernissage ou da própria conversa com o artista; e mesmo por abordarem, ordinariamente, o fenômeno da pintura com simplificações do tipo “é um particular trabalho em que o olhar atua...” ou “a narrativa subjacente nos trabalhos impressiona”, tudo do que prescinde uma boa pintura e que lhe deveria ser usual, é ressaltado como se somente a sua presença fosse um indicativo da individualidade do pintor e de seu talento. Quando são apenas atributos dos quais não se pode abrir mão quando se é um iniciado no universo da pintura em geral.

Esta reflexão deriva da à exposição do pintor Eduardo Berliner, no CCBB/RJ, aconselhada por uma artista de sensibilidade e talento, que se esforça, não apenas em exercer a sua arte, confeccioná-la de melhor modo possível, mas, em questioná-la, averiguá-la. E refletir sobre o caminho em que ascende para não dar passos em falso ou cair em armadilhas comuns àqueles que trilham a mesma estrada e se contaminam com o excessivo individualismo vigente um individualismo tão nocivo que está fazendo com que os criadores não se alinhem a tradição e intentem reinventá-la.

E alinhar-se à tradição não quer dizer venerá-la sem expor-lhe os erros, mas compreendê-la como uma plataforma em que suas experimentações dialoguem com aquilo que já realizado, acrescentando àquela velha sensibilidade as novas cores de horizontes diferenciados.

Para reforçar a linha do que digo, assalta-me a memória um livro pertencente a uma coleção que se debruça sobre poetas contemporâneos, em especial sobre o ensaio a respeito da obra de Armando Freitas Filho. E dentro das análises efetuadas sobre o poeta, há um depoimento que é levado em conta do poeta Sebastião Uchoa Leite, afirmando que a poesia de seu contemporâneo está calcada sobre o binômio: poesia e vida.

Nessa sentença há esforço interpretativo? Ou apenas uma afirmação banalíssima, destas com que nos deparamos em coletivos ou em bares? E não da boca de intelectuais, investidos de aura e de títulos, dos quais, se não novidades, ansiamos por peculiaridades que se esquivem daquilo que é matéria comum ao trabalho do artista?

Assim a obra de Eduardo Berliner fez com que minha memória se recordasse do escritor Milan Kundera e de seus ensaios sobre Francis Bacon.

Em particular do livro O Encontro. E, afunilando-se ainda mais minha lembrança, utilizo-me do trecho transcrito:

“E é por isso que a palavra “horror”, que se aplica obstinadamente à sua pintura, o irrita. Tolstói dizia sobre Leonid Andreiev e seus romances noirs: “ele quer me assustar, mas não tenho medo”. Existem hoje muitas pinturas que querem nos assustar, mas nos entediam. O temor não é uma sensação estética e o horror que encontramos nos romances de Tolstói nunca está ali para nos assustar; a cena emocionante na qual operam sem anestesia André Bolkonski, mortalmente ferido, não é desprovida de beleza; como nunca é desprovida de beleza uma cena de Shakespeare; como jamais é desprovido de beleza um quadro de Bacon.”


E retomo, para a discussão, a afirmação de Tolstói sobre Andreiev para especular sobre o universo pictórico de Berliner.

Dito isto, esse passo representa mais do que vi e constatei daquilo que foi escrito sobre o pintor, porque representa a tentativa de uma reflexão teórica pretendida como séria, embora não em estrito senso, a ponto de exibi-la como uma verdade sobre o entrevisto durante a exposição. Ele quer me assustar, mas não tenho medo, foi exatamente como me senti quando me deparei com os quadros. E arrisco que há na pintura de Berliner esta em que os objetos estão impostos como enigmas ao espectador algo que me remeteu as experimentações de Francis Bacon.

Embora nos trabalhos menores – as aquarelas certo convencionalismo esteja insinuado e destoe da ambientação criada pelas telas maiores. E, principalmente, das inquietações transmitidas por elas.

Contudo, se me faço um observador mais exigente, pelo risco de tê-lo colocado ao lado de Francis Bacon em minha sensibilidade, questiono o “eu” travestido em alegórico, sem a coragem deformatória preexistente no seu coetâneo, misturado aos bombardeamentos televisivos de tragédias competidores diretas do universo simbólico violento do autor. E pergunto como pode ele,o artista, transcendê-lo sem o abandono o laivo da emoção estetizante em algum nível, retirados seus pés da vala comum da notícia jornalística ou de um surrealismo tardio sobrevivente às ruínas pós-modernas, sem apoio algum senão da própria ilogicidade do real?

No entanto, Eduardo Berliner, o pintor, se opõe ao gosto pelo aleatório. Realmente há no que o artista realiza um gesto sequencial, um planejamento que o desinstala imediatamente desse jogo. Apesar de aludir em suas falas sobre seu processo criativo a desconstrução como meio para a composição da obra isto não se transpõe como resultado para a tela.

Este aparte crítico, subtraído da longa conversa com Martins, especialista em Cultura Contemporânea, é uma contribuição para descoberta de vínculos que essa pintura possa vir a ter, além dos sinais que já traz em si mesma.

Eduardo Berliner é talentoso ouço, enquanto (des) vario sobre a mulher que detêm em suas mãos uma cobra coral e um lagarto sobre uma passadeira de roupas, enquanto é observada pelo menino deitado sob esta última. Resolvemos apelar para os circunstantes. Eles, mais espertos do que nós, tinham prontas as respostas para o que viam. E sobre esse quadro, afirmavam é uma alegoria sobre o desejo e sobre aquele outro do homem, com fantasia de monstro, despenando o que pareciam anjinhos, asseveravam é sobre a nossa queda. E daí por diante, emendavam considerações umas nas outras. E não eram desprovidas de interesse sobre o que viam, embora me parecessem acessos fáceis/frágeis demais. Minha esposa, que divide conosco o prazer da exposição, aproxima-se e sublinha que talvez nós sejamos os cegos.

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Mariel Reis, ensaísta e escritor, escreve o blog Cativeiro Amoroso e Doméstico (www.cativeiroamoroedomestico.blogspot.com ). É autor de Vida Cachorra (contos), Editora Usina de Letras, e A Arte de Afinar o Silêncio (contos), Editora Ponteio.

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