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domingo, 6 de outubro de 2013

Demarchi, o artesão do verso antropofágico (Adelto Gonçalves*)



                                                                                             (Ademir Demarchi)
           

                                                           I

Datas redondas exigem balanços como forma de se perpetuar em papel a vida passada por entre os dedos ou, neste caso, por entre versos. Em tempos de Internet, nada disso é possível porque sites, blogs e facebooks criados há alguns anos costumam se desmanchar no ar ao sabor dos provedores e das circunstâncias. Sem contar que os responsáveis por revistas eletrônicas também envelhecem e morrem e com eles se vão essas aventuras intelectuais.

          Com o papel, não. A perenidade é maior, embora não seja eterna, ainda mais em países úmidos em que o mofo, o bolor e a traça tudo devoram. Tivesse Jesus Cristo escolhido para apóstolos doze analfabetos – e não homens letrados, entre eles até publicanos, como Mateus, por exemplo, que sabia contar e anotar a coleta dos impostos –, hoje, por certo, ninguém saberia o que teria dito no Monte das Bem-Aventuranças para mais de cinco mil fieis, sem alto-falantes nem gravadores, valendo-se apenas da sonoridade natural da montanha à beira do Mar da Galileia. Basta dizer isto para se ressaltar a importância do papel e do pergaminho em que se registraram os manuscritos em comparação com os atuais e etéreos meios digitais.

Mas a que vêm estas reflexões de quem, um dia, descobriu na Ilha de Rhodes que os gregos antigos sabiam como construir um teatro de arena em que o ator podia falar e ser ouvido por toda a plateia, igualmente sem dispor de alto-falantes? Vêm a propósito da edição do livro Pirão de Sereia, do poeta Ademir Demarchi, que marca os 50 anos de vida de seu autor e 30 de lida com poesia, assinalados em 2010. E que, como denuncia o próprio título, constitui também uma homenagem à Antropofagia, movimento artístico brasileiro da década de 1920, fundado e teorizado pelo poeta paulista Oswald de Andrade (1890-1954), que costumava ironizar em suas obras a submissão da elite brasileira aos países desenvolvidos e propunha, em contrapartida, a deglutição cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação.

Entendia Andrade que era preciso “devorar” o estrangeiro para adquirir suas qualidades espirituais e produzir algo novo – isso é o que faz Ademir Demarchi em Pirão de Sereia, seu 15º livro em que reuniu uma produção poética de três décadas publicada em obras anteriores acrescida de parte ainda inédita. O legado antropofágico, porém, está mais presente nos livros Os mortos na sala de jantar (2007), Passeios na floresta (2008), Palavras cruzadas e Preceitos da dúvida, que fazem parte deste volume comemorativo, ainda que apareçam de maneira eventual em outros. É de assinalar que estes dois últimos livros saem à luz pela primeira vez. Eis um exemplo desses versos em “Antropofagia consentida”, que estão em Os mortos na sala de jantar:
                        nervosa, a mídia ganiu
                       
                        um alemão comeu outro
                        em antropofagia consentida

                        longe de absurdo, normal
                       
                        pesquisa demonstra:
            para o consumo há à disposição
            oferecidas 500 novas pessoas
            dispostas a se darem
            ao deleite de serem comidas

De Os mortos na sala de jantar, o professor Raul Antelo diz que é um livro que se une à tradição de André Breton (1896-1966), Paul Claudel (1868-1955) e Roger Caillois (1913-1978) no gosto pelas pedras e pelas escrituras lapidares. Já na epígrafe de seu livro, Demarchi reproduz um epitáfio de Marcel Duchamp (1887-1968): além disso, é sempre os outros que morrem. E acrescenta outro de sua lavra, à guisa de dedicatória: aos cadáveres que a vida nos dá de comer. A propósito de epitáfios, o poeta dá a sua própria definição:
                                    
                               epitáfios são epígrafes
                               de histórias que continuam
                                   túmulo adentro
Mais adiante, acrescenta:
                                         das velas e
                                      do morto o odor
                                   das vidas queimando

                                               II

Nascido em Maringá, interior do Paraná, Demarchi vive há mais de 25 anos junto ao mar, em Santos, no litoral de São Paulo, experiência que está mais evidenciada em livros como Costa a Costa e do Sereno que enche o Ganges (2008), já traduzido para o espanhol e publicado no Peru em 2010, e ainda em Janelas para lugar nenhum (1993). Em Costa a Costa, lê-se esta homenagem às cidades siamesas de Santos e São Vicente:
                                   no alto do morro do itararé
                                   o vento aos olhos sussurra
                                   com aleivosia os sabores
                                   das carnes doces da baía
                                   salpicada de navios e contêineres
                                   azulada como um peixe
                                   sanguínea como uma sereia no cio
                                   subo para vê-la, desço para perdê-la.

Ainda que nos versos de Os mortos na sala de jantar ressoe certo tom poético da década de 1980, é em Maria, a cidade sem rosto (1985, edição mimeografada) que está mais clara essa percepção de um mundo que saía dos tempos de horror da ditadura militar (1964-1985). Como nestes versos de “Cemitério de estátuas de Moscou” em que o poeta demonstra também o seu precoce desencanto com a utopia soviética, que, naquele tempo, embora caminhasse célere para a desintegração, ainda seduzia a juventude contestadora:
                        no cemitério de estátuas de moscou
                                   não há silêncio
                        não esse que se conhece
            mudas e castradas, as estátuas estão russas
                        erigidas desde a revolução
                                   lá estão, humilhadas
                                   de lenin, pálida de estupor
                        de brejnev, impávida no uniforme
            de stalin, maneta depois de inúmeros braços
                        liderando um exército de outras
            formando uma corja sem fim de estátuas menores
            de comissários aprisionados na pedra e no tempo
            agora sem partido mas todos ainda disputando espaço
                                   com a grama
            num lugar desimportante que mereceria chinfrim
                        o nome de medusa cemitério jardim

Já em Preceitos da dúvida, Demarchi exercita versos curtos, nada líricos, que anseiam se tornar epitáfios ou máximas, na tradição dos dísticos gregos e romanos, rimados ou não, procurando constituir “uma saída para o lugar-comum em que se tornou a expressão poética contemporânea, tributária cordata e senil de modelos asfixiantes”, como diz o próprio autor, que aqui se mostra como um perfeito artesão do verso antropofágico. Eis alguns exemplos:
                        o jornalista
                        é o coveiro
                        do inesperado

                        o jornal
                        a cova
                        do deteriorado

                        quem não morre
                        envilece
                               
III

Ademir Demarchi (1960) é editor das revistas de poesia Babel – Revista de Poesia, Tradução e Crítica e Babel Poética, bem como do selo editorial de livros artesanais Sereia Ca(n)tadora. Formou-se em Letras na área de Francês pela Universidade Estadual de Maringá e cursou o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, sob a orientação de Raul Antelo, um dos maiores especialistas acadêmicos na Antropofagia. É doutor em Letras pela Universidade de São Paulo na mesma área. Com numerosos poemas, artigos e ensaios publicados em livros e revistas impressos e em sites da Internet, mantém há mais de quatro anos uma coluna semanal no jornal O Diário do Norte do Paraná, de Maringá.
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PIRÃO DE SEREIA, de Ademir Demarchi. Santos: Editora Realejo/Secretaria de Cultura de Santos, 268 págs., R$ 35,00, 2012. E-mail: editora@realejolivros.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2012). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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