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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Liberdade (Clauder Arcanjo)


Para o poeta Márcio Catunda


Dobrou a esquina, e arrastou os seus passos cambiantes em minha direção.
Era Quarta-feira de Cinzas, e ele, com as vestes surradas de um surrado pierrô, ainda trazia nos olhos o lampejo da folia.
Parou frente a mim, na dificuldade suprema de parar daqueles que há dias não conseguiram parar. Fez-me uma saudação, flexionando ligeiramente o joelho esquerdo. Apesar do ar patético daquela figura humana, o riso não tinha coragem de pôr a cara a tapa.
        Sim, a tapa, pois havia nele a coragem de portar o manto diáfano e reluzente da suprema liberdade. Manto este que descia pelos olhos dúbios, varava o pescoço alquebrado e descia rumo às pernas bamboleantes e, quiçá, ainda festivas.
Falou, então. No reinado do subtendido, do pretérito mais que caído, do subjuntivo mais elíptico e efusivo que já vi em qualquer dos meus cinquenta reinados de Momo.
— Minha vida pela liberdade! Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós...
Sua voz, em seguida, calou. Calado ficou, no repique da tarde extrema, em meio ao arpejo de uma traquina e indiscreta saudade.
— Minha família não me entende, sabe.
Professou tal sentença com o martírio de um degredado. Pus a minha mão direita sobre o seu ombro esquerdo, como a querer hipotecar-lhe apoio e admiração.
— Melhor: o mundo não me entende.
Baixou a face e percebi, de imediato, que seu resto de maquilagem era lavado por uma lágrima indiscreta.
— É a vida, amigo! — professei. Para minha decepção. Eu, tão afeito às frases de efeito, leitor confesso dos grandes oradores, vomitei no regaço daquele pobre homem uma oração chinfrim: “É a vida, amigo!”.
Melhor seria o silêncio. Pelo menos esse não ofertaria, para aquele furtivo encontro, o mofo do lugar-comum, do dito desenxabido sem a força do singular e do pessoal. “É a vida, amigo!”; tenha a santa paciência.
Como ele, nesse exato instante, levara os olhos para o corredor do infinito vazio, não se deu conta da minha gafe.
— Volto pra casa, mas não vou só. Levo-a comigo. Todos os anos, vou à rua ao seu encontro.
—...
Com receio de cair novamente em falta, não traduzi minhas reticências. Apenas emprestei-lhe os ouvidos à sua confissão.
— Se ela não vem comigo, acredite, não suportaria a prisão dos dias do resto do ano. Minha família... o mundo... não me entendem.
Fez uma espécie de genuflexão, retocou a maquilagem, e saiu, altivo e imperial — não sem antes ajustar o divino manto de pierrô amarrotado —, a cantar:
Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós...
Bom domingo.

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