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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A filosofia e a evolução da geografia, consoante o engenheiro-geógrafo prof. Caio Lóssio Botelho (Vianney Mesquita*)

(Caio Lóssio Botelho)

Não chegaremos a ser filósofos, embora tenhamos lido todos os raciocínios de Platão e de Aristóteles, se não pudermos emitir um juízo firme sobre as questões propostas, porque, neste caso, há de parecer, não aprendemos ciência, mas simples história (EPITECTO – Sec. I, filósofo estoico, nascido na Frígia – Ásia Menor).

1 Razões Preliminares


Nosso amigo e ex-professor, engenheiro-geógrafo Caio Lóssio Botelho, docente da Universidade Estadual do Ceará e ensaísta de nomeada no terreno das Ciências Corológicas, ora vive com a doença de Alzheimer, sendo tratado com o máximo desvelo por sua mulher e colega de ofício, Professora Maria José Rondon Régis Botelho.

Interdito de escrever, em razão de enfermidade tão iníqua, esse docente interrompe a dignificante carreira de analista, ao correr de mais de quarenta anos, registando no seu imobilizado autoral 23 livros na grade do conjunto de conhecimentos pinçado para estudar, fato a se lamentar, pois se pressupunha tivesse um percurso produtivo bem maior. Havemos de nos contentar, porém, com os propósitos advindos do Alto.

Em duas ou três oportunidades, ele nos concedeu o deleite de comentar produtos seus, o primeiro dos quais assentou em "A Filosofia e o Processo Evolutivo da Geografia", a público em 1987. Acerca desse ensaio, publicamos, em 1989, o texto "A Filosofia Conexa à Geografia", feito capítulo do livro de nossa assinatura, intitulado "Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação". (Fortaleza, Edições Agora, 1989, p.23).

Em homenagem a esse especialista no trato do saber geográfico, reproduzimos, no ensejo, com as modificações naturalmente demandadas pelo tempo, consumidor desapiedado, o escrito-base mencionado, com a intenção, também, de atender à diacronia da língua, isto é, sua descrição ou de parte desta, ao longo de sua história, com as mudanças por ela admitidas.

2 A Geografia e os Sistemas Científicos e Filosóficos

Margina ao conhecimento da massa, pelo menos no nosso meio, a existência de esforço ensaístico com o objetivo de vincular, de maneira didática, a Geografia aos sistemas científicos e pressupostos filosóficos, mostrando-se a relação de causa e efeito dessa prestigiosa ramificação do saber ordenado.

"Vere scire per causa scire"  exprimiu com razão de sobra Francis Bacon (Londres, 22.01.1561; Highgate, 09.04.1626). O conhecimento somente é verdadeiro, de certeza relativa, quando sucede pelas causas.

Daí a preocupação do Professor Botelho (Juazeiro do Norte–CE, 19.04.1933), na sua efervescência produtiva constante, com estabelecer esse necessário liame dialético da Geografia com as sistematizações da Ciência e os ditames da Epistemologia, ao demonstrar este saber qual aquele oriundo do conhecimento, denominado pelo “pai” do darwinismo social, Herbert Spencer (1820–1903, Derby–UK; Brighton–UK), “conhecimento parcialmente unificado”, operando mediante relações.

Ipso facto, não há dúvidas a respeito do argumento de a Geografia, restando explicada por via das relações de causalidade, se enfileirar na aleia das matérias cientificamente disciplinadas.

Com a edição de “A Filosofia e o Processo Evolutivo da Geografia”, em Português preciso, com o jargão ligeiramente amatado para facilitar o entendimento e alcançar o maior número de leitores, nosso Autor está no extremo moderno da preocupação especulativa de inserir esta matéria no terreno dos sistemas científicos. Na outra borda, por primeiro, tomou essa providência Bernardo Varenius (Hannover–Alemanha, 1622; Leide, Holanda, 1650), na sua “Geografia Geral ”(1650), secundado, anos à frente, por Imamnuel Kant (Konigsberg, 22.04.1724-12.02;1804).

Sem pretender, por inoportuno e descabido, trazer adições à completa proposição do livro de Caio Lóssio Botelho, a si bastado no âmbito do seu objetivo, não custa repetir o fato de, num grande lapso – centenas de anos – se poder assinalar a ideia de a Geografia, a despeito dos estudos de Varenius e Kant, não denotar, então, noções claras sobre os fatos a serem expressos para caracterizar países e regiões. Tal era o objetivo fundamental do estudo geográfico da época, ao lado dos cuidados com a forma e a dimensão da Terra.

3 Esboço Histórico

Neste salteado escorço histórico, afoutamente empreendido com suporte no volume sob comento, encontramos, coetaneamente e em Berlim, Alexander von Humboldt (Berlim, 14.09.1769–06.05.1859) e Carl Ritter (Quedlinburg–Alemanha, 07.08.1779; Berlim, 28.09.1859) – ambos fartamente mencionados na obra ora sob relação, com origem no terceiro quartel dos Oitocentos. Esses sistematizadores alemães imprimiram maior consistência às teorias antes avençadas pelo gênio da Varenius (viveu apenas 28 anos) e a percuciência de Kant.

Na relembrança das magistrais preleções do Professor Paulo Othon Sidou, nos tempos de maré alta do ensino secundário, idos de 1961, na então Escola Técnica Federal do Ceará, temos ainda bem nítidas suas palavras professorais a respeito das expedições humboldtianas e sua farta produção investigativa na seara geográfica. Foi Alexander von Humboldt a introduzir no léxico particular da Geografia e acrescer à descrição, antes enciclopédica, qualitativa e assistemática da Geografia popular, a exposição adredemente relacionada com os fenômenos observados na qualidade de ouvidor habitual da Natureza.

Do próprio Caio Lóssio Botelho, de quem tivemos a ventura de ser escolar, mesmo por breve período e na mesma excepcional Escola Técnica Federal do Ceará, ouvimos referências por demais lúcidas e precisas a respeito de Humboldt e, notadamente, acerca de Carl Ritter, célebre “Pai da Conexidade e Analogia”, de linha determinista, escola também do multirreferenciado Humboldt, bem assim de Frederick Ratzel (Karlsruhe – Alemanha, 30.08.1844; Lago Starnberg, Alemanha, 09.08.1904), o segundo imprimindo ênfase à relação homem-meio na valorização da Antropogeografia, sob a influência dos evolucionistas.

No âmbito da evolução da Geografia de mãos dadas com a Teoria da Ciência, o livro privilegia explicações acerca da não menos famosa Escola Possibilista ou Pruricausalista, encabeçada por Paul Marie Vidal de la Blache (Pézenas, HeraudeFR, 22.01.1845; Tanaris – sur-mer provence– Alpes Côte d’Azur-FR, 05.04.1918), à qual se filiaram, com ligeiras disparidades de pensamento, Jean Brunhes (Tolouse-FR, 25.10.1869; Bologne–Billancourt–FR 25.08.1930) e Emmanuel de Martonne (Chabris-Indre-FR, 01.04.1873; Sceaux, 24.07.1955).

Entrementes, ainda em França, rivalizavam em escolas Raoul Blanchard (Orleans-FR, 04.09.1877; Paris, 24.03.1965) e Camille Vallaux; Blanchard no terreno da Geomorfologia e Vallaux (Vendôme Kerhuan-FR; Finisterre-ESP. —1945), no campo da metodologia.

Armazenamos, ainda bastante viva, a divisa “A natureza dá as cartas e o homem faz o jogo”, moto central da Escola Pluricausalista, de Paulo Marie Vidal de la Blache.

4 Sistemática Funcionalista

Bem mais moderna é a tendência Sistemática Funcionalista, vigorante nos Estados Unidos, representada, entre outros, pelo geógrafo inglês de nascimento Bryan Joe Lobley Berry (Sedgley-Staffordshire-UK, 16.02.1934), a primeira escola a empregar indicadores da então novel ciência da Informática.

A este Círculo geográfico, propiciador da ascensão de várias dissidências, máxime nos Estados Unidos, contrapôs-se a Escola Radical Marxista, ao divisar a Geografia como subordinada ao poder político, expressando íntima relação entre esta e a ideologia marxista, em Antônio Gramsci (Ales-IT, 22.01.1891; Roma, 27.04.1937), Karl Heinrich Marx (Treveri-AL, 05.05.1813; Londres, 14.03.1883) e Friedrich Engels (Wuppertal-AL, 25.11.1820; Londres, 05.08.1895).

O livro do Professor Caio Lóssio Botelho comenta, ainda, a filosofia de vários outros pendores das Ciências Corológicas no Mundo, demonstrando em todo o seu curso as relações da Geografia com a Filosofia e a Teoria Científica, apondo a disciplina de Elisée Jean-Jacques Reclus na devida conta dos mais desavisados como procedimento sério, verdadeiro, inatacável sob o prisma do seu método.

5 A Modo de Remate

Alegrou-nos, sobremodo, esse renovado contato com os estudos da Policiência da Terra, procedidos com sofreguidão na nossa juvenilidade e largados, compulsoriamente, ex-vi de uma trilha diversa, contingentemente escolhida – o Jornalismo e o magistério acadêmico.

A releitura, sob óptica moderna, deste livro do Dr. Caio, no ideário da Ciência de Carlos Miguel Delgado de Carvalho (Paris, 04.11.1884; Rio de Janeiro, 1980), aliada a nossa melhor prontidão intelectual de hoje, fazem-nos renascer o espírito de curiosidade e respeito pela mais relevante Ciência Corológica, ao termos de relacioná-la, para conhecê-la, mesmo em superfície, a quase todos os esgalhos do conhecimento, este, aliás, differentia specifica da relação homem-espécie inferior.

Experimentarão os jovens destes tempos a oportunidade, não ensaiada por nós, de fazer convívio com o sistema ordenado da Geografia, antes estudada nos estabelecimentos de ensino brasileiros na base do bom senso e da opinião comum, alheia a uma vinculação epistemológica a lhe imprimir caráter de feito da Ciência, e, por isso mesmo, de verdade e certeza.

A dimensão intelectual do autor dessa obra, dirigida aos iniciados nos misteres da especialidade tratada, dignifica a inteligência brasileira e enche de honra a Terra Cearense, e ainda é acompanhada de um propedêudico e conforme comentário do cientista polivalente coestaduano Francisco Alves de Andrade (Mombaça–CE, 21.11.1913; Fortaleza, 06.10.2001), ataviando superfluamente o valor do livro.

É a súmula de muitos pensamentos, o sumo do entendimento de várias correntes enfeixado num escrito didaticamente perfeito, produto de longa prática magisterial do seu escritor.

Para o homem obstinado, cientificamente teimoso, feito o Professor Caio Lóssio Botelho, poucas coisas se lhe afiguram impossíveis, como esta façanha ora empreendida.

Tenhamos todos em linha de conta as sapientes palavras de Françoise Jean Dominique Arago, físico, astrônomo e político francês (Estagel, 26.12.1786; Paris, 02.10.1853):
“Quem, fora das Matemáticas puras, pronuncia a palavra impossível é falho de prudência”.

OBS. Estudadamente, não utilizamos neste escrito a palavra quê, em nenhum dos seus vários empregos.

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