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sábado, 14 de dezembro de 2013

Anônimos (Paulo Lima)



Esta história poderia começar numa livraria, um espaço que é de todos e não é de ninguém, onde ser surpreendido é uma forte motivação para quem ali adentra. Ser surpreendido por um grande livro, ou não tão grande assim, mas digamos que bom o suficiente para quem o descobriu, um prazer que pode se tornar ainda mais relevante se a tal descoberta resultar dos desígnios do acaso. O leitor tropeçou na obra, sentiu-se atraído pela capa, talvez pelo título, ou por um início arrebatador.  Ele pagou pela obra, certo de que havia conquistado o direito de avançar num território desconhecido e emocionante.
             
Na história há um homem e uma mulher.  Vamos imaginar que ambos beiram os 50 anos, uma etapa da vida que representa um ponto de virada, quando não se é mais jovem, mas ainda não se pode ser considerado velho.
            
Não é possível saber o estado civil de ambos. E esta história não terá nomes. Será sempre ele e ela. Um homem e uma mulher. Homme et femme. 
            
Vamos imaginar que eles percorrem a seção de literatura, literatura estrangeira, examinam com vagar os livros, e o fazem silenciosamente e sem pressa.
            
É preciso descrever a mulher, dar a ela um rosto, um corpo, talvez atribuir-lhe uma personalidade. Mas nada de passado. Esta história não comporta o passado. Os personagens irão se mover no presente, aqui e agora, pois esta é a história de um encontro entre um homem e uma mulher que não se conhecem, e que serão apresentados pelo acaso.
            
Sim, o acaso.
            
A mulher é alta, magra e desliza com uma elegância natural, acentuando cada passo, como se o tempo não lhe dissesse respeito. Ela está trajando saia e blusa de malha. Tem os cabelos curtos e lisos, com raros mas perceptíveis fios grisalhos. É branca, e seus olhos castanhos transmitem uma curiosidade intensa, mas sem ansiedade, como se se tratasse de alguém seguro de si.
            
O homem é igualmente alto. O cabelo é ainda farto, voltado para trás, com mechas brancas na altura das têmporas, mas com pouca intensidade. Também ele é branco, mas seus olhos revelam um discreto cansaço, talvez um ranço de melancolia.
            
Eles devem se encontrar de algum modo, pois esse é o ponto chave desta história. É imperioso que um tome conhecimento do outro, e assim será. Eles vasculham os títulos com aguçada curiosidade, porém sem pressa. Não parecem procurar um autor específico, mas se deixam levar pela sucessão de lombadas apetitosas de um sem-número de títulos.
            
Mas é preciso aproximá-los de uma vez por todas. Então eles adentram a mesma fileira, se dirigem ao mesmo ponto. Quase que ao mesmo tempo, se interessam pelo mesmo livro. O acaso. Ela estica o braço e retira o livro da estante. Ele educadamente recua, cedendo a vez. Ela percebe o gesto. Ambos trocam um sorriso. Eles finalmente se encontraram. Agora um sabe da existência do outro.
            
Talvez possamos revelar o autor. Que tal um Philip Roth? Sim, por que não? Mas não é necessário entregar o nome do título. Tal informação não é relevante para esta história.      
            
Philip Roth será o ponto de partida para a comunicação entre esse casal de estranhos.  Eles conversam sobre o livro, a primeira afinidade entre eles, uma interseção que pode a partir de agora ser explorada.
            
A conversa flui ali entre estantes, mas ela precisa se deslocar para um ambiente mais propício a que algo mais aconteça. Então ele a convida para ir ao café da livraria.
             
Não vamos revelar as atividades de um e de outro. Eles são um homem e uma mulher. Não importa o que fazem. Um deve despertar o interesse e a curiosidade do outro por seus gestos, pelas palavras, pela simpatia, enfim, por uma atração genuína que venha a nascer entre eles. Não devem ser usados apêndices ou notas de rodapé na conversa, como profissões, níveis de riqueza ou realizações. Serão apenas um homem e uma mulher e um rito de sedução baseado apenas nos pequenos detalhes, no mover de lábios, nos olhares furtivos e reveladores, na distância calculada das atitudes, no carinho espontâneo, no jeito como movem as mãos ou como sorriem. Mas, como regra, será permitido falar do livro que os uniu e seu respectivo autor.  Conversam então sobre Philip Roth, de sua capacidade para explorar os conflitos que advêm dos relacionamentos, tendo como pano de fundo o judaísmo e a história americana.
           
No fundo, ao falar de Philip Roth, eles falam deles mesmos. Então descobrimos que ele não é casado, mas não sabemos se o foi algum dia. E ela também não vive mais as agruras e delícias do sagrado matrimônio.
             
Um casal maduro, experiente e dono do próprio nariz. É assim que eles devem aparecer nesta história.
            
Eles conversam, sorriem e agora parecem mais íntimos, bebendo com tranquilidade, cada um, sua xícara de café, sendo que ele mordisca um crepe de banana, pois havia saído cedo de casa e estava com fome.
            
Agora seus olhares se cruzam com mais frequência, e está claro que surgiu um interesse entre eles. Há um certo erotismo na maneira como ele estuda os lábios dela, enquanto ela discorre com conhecimento de causa e curiosidade quase juvenil sobre as delícias de se ler um romance de Philip Roth. “Qualquer um deles”, ela disse.
            
Ela começou a notar as mãos dele, grandes e fortes. Num pequeno gesto de timidez, desviou o olhar para um ponto qualquer ao imaginar aquelas mãos segurando-a firme pelos quadris.
            
Havia neste ponto uma certa eletricidade no ar, os fluídos amorosos começando a agir em favor daquele casal.
            
Vamos aqui quebrar uma pequena regra do que fora estabelecido. Permitiremos que se fale um pouco da intimidade de cada um. Assim ficamos sabendo que ela tem uma filha que mora nos Estados Unidos, e que acaba de dar-lhe seu primeiro neto, que só conhecia pela internet, mas por quem já “estava muito apaixonada”. Em uma semana iria visitar a filha e conhecer de perto o netinho americano.
            
E ele? Ele tinha um filho e uma filha. Ele morava na Espanha e ela, no Canadá. Bons filhos, bem sucedidos, mas que ainda não haviam lhe dado um neto, ocasião que ele aguardava com “uma paixão antecipada”.
            
O café está delicioso e o colóquio, muito agradável. Podemos afirmar que há agora uma “química” entre aqueles dois, estabeleceu-se um estado de confiança tal que o passo seguinte soa natural, dadas as circunstâncias. São um homem e uma mulher beirando os 50 anos. Já deixaram para trás as convenções e os joguetes que podem turvar uma relação. Há um homem e uma mulher e a atração mútua entre ambos.
             
Terminaram o café, ela pagou pelo livro e os dois deixaram a livraria.
            
Seguiram em seus respectivos carros para o apartamento dela e a história acaba aqui. O que aconteceu em seguida não nos é dado revelar, pois é um território restrito a esses dois amantes. Um homem encontrou uma mulher, e isso é tudo.

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