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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Joia rara (Caio Porfírio Carneiro)





                                       
  Dê-me a vareta e pode ir embora. Não precisa ficar me atrapalhando. Vou percorrer essa beira do riacho, todo o trecho em que estivemos aqui. Você é tonta mesmo. Lhe dei um presente raro, tradição da minha família, e você nem deu bola. Meteu no bolso do vestido e nem um beijo ganhei de presente. Perdeu e, ainda por cima, pôs a culpa em mim. Eu o quê? Rasguei o seu vestido? Queria mais do que um beijo? Vá embora, para eu poder procurar em paz. Não fique me aporrinhando. Se eu achar aviso. Vá com Deus. Desapareça. Tchau.

Ela se foi irritada, falando pelos cotovelos, e eu fiquei procurando a joia rara, nervoso e buscando manter a calma. Risquei o chão com a vareta, ao longo do pequeno riacho que corria entre as pedras. Fui e voltei inúmeras vezes, pisando com cuidado. Cansado, sentei-me numa das pedras do riacho, respirando fundo. E não me conformava: "Meu Deus! Por que fui dar objeto de família tão raro para ela? Pensei que, com esse presente, ela... pois... é... cedesse. Vamos lá."

Levantei-me para continuar a busca. Pronto para desistir. Na água não se perdeu, que não entramos no riacho. Suspirei fundo: Repeti: "Vamos lá."

Foi quando vi alguma coisa brilhando junto aos meus pés. Toquei com a vareta e encontrei o objeto raro, lindo, herança de família. Palpitei: "Graças a Deus."

Joguei a vareta fora e corri para encontrá-la. Vi-a, de longe, num dos becos do arrabalde, aos beijos com aquele cafajeste que eu conhecia de vista.

Tomei o rumo de casa, cego de ódio, e joguei a joia rara de onde eu tirara: a caixa antiga de minha avó, que guardava lembranças da família. "Para ela? Nunca mais." Quem sabe a desse para outra, para aquela loura que me sorria na saída do ginásio. Quanto àquela desgraçada, que se agarrou aos beijos com o cafajeste, vai ver o que vai receber. Vai ver.

Sentei-me na mureta, na entrada de casa, tonto de dúvidas. Tirei o lenço do bolso, enxuguei os olhos, e voltei a murmurar, sem muita convicção: "Não perde por esperar... não perde... não perde...". Puxei o lenço outra vez. Entrei em casa e ouvi pancadinhas na porta.  Voltei e abri. Era ela, curiosa, olhos lindos:

Achou?

O olhar dela me fuzilou outra vez:

Achou mesmo?

Achei.

Não vai me dar?

Bem... é... espere um pouco...

Fui à caixa da minha avó, tirei o objeto raro e, indeciso, devolvi para ela.

Não perca de novo.

Depois a gente se fala.

Tudo bem.

Acompanhei-a com a vista, até vê-la dobrar a esquina, o temor aumentando de que ela desse de presente ao cafajeste.

Continuo sentado na mureta, palpitando, ódio de vê-la beijando-se com o cafajeste, medo de perdê-la, uma joia rara, mais rara do que a que lhe dei, o coração latejando de não tê-la devorado por inteira junto ao riacho, esperando retribuição à joia que lhe dera, e que, novamente de posse dela, dobrara a esquina.

Puxo o lenço do bolso. Sufoco o soluço na garganta. Amor, arrependimento, ódio de vingança bailam-me no cérebro. Cegam-me.

Alguém passa e me cumprimenta:

Oi.

Com dificuldade, quase um soluço, solto:

Oi.

Minhas mãos tremem.

E na confusão de sentimentos vem surgindo, tomando vulto, impondo-se, a figura prateada da arma do meu pai.

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