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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Trem a deslizar nos trilhos (Nilto Maciel)



Recentemente estivemos com Simone Pessoa e Alexandre Brandão. Hoje é a vez de À flor da pele (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2013), de Fátima Feitosa; e O ferroviário: Palmiro dos Santos (São Paulo: LP-Books, 2012), de Arine de Mello Jr. Lidos, telefonei a Cleto Milani: “Tenho comigo dois opúsculos novos. Deseja conhecê-los?” Marcamos encontro. Fomos tomar café ao Shopping Benfica. Quando lesse, fosse à minha morada. Teríamos assunto para boa prosa.


O tilintar do telefone me arrancou das páginas do Galope de Pégaso, de Francisco Carvalho. Uma voz decadente se dizia decepcionada. Voltei às anotações no computador. Eu estaria enganado? No meu entendimento, tanto o romance de Arine como os versos de Fátima alcançavam altos patamares do vernáculo. Acabada mais uma noite, ainda mastigava a decepção do macróbio, quando soou a campainha acoplada ao portão. E, do meio-dia ao anoitecer, nos entregamos, eu e o irascível leitor, à parolagem.
         
Iniciamos a lengalenga pela obra de Fátima Feitosa. Não guardo o costume de me afundar nos textos expostos nas abas dos livros, nem nos prefácios e posfácios. Soletro uma frase aqui, outra ali, a fim de medir o grau de profundidade da crítica. Quando percebo algum fiapo mais inteligente, mais agudo, com certa ou muita originalidade, prossigo. Ou quando tenho noção da competência do crítico. Otto Maria Carpeaux é um desses.

Ao folhear as páginas de À flor da pele, tive a curiosidade de examinar as orelhas (a primeira tem assinatura de Raimundo Antônio de Souza Lopes; outra, de Ângela R Gurgel), assim como o prefácio (por Terêncio Barros) e a apresentação (pela própria Fátima Feitosa). Do primeiro captei estas pérolas: “universo poético cheio de sensualidade”, “devaneio intimista da poetisa”, “as metáforas estão inseridas tão sutilmente que se tornam rasgos de pequenos suspiros de saudade”. Da meia-orelha de Ângela salvei isto: a poesia de Fátima “narra os sentimentos e o encantamento de um mundo que existe em cada um de nós”.

O dileto vovô pigarreou: “Basta, seu Nilto. Já entendi. Se os ‘críticos’ não disseram nada de relevante é porque a poesia criticada não lhes deu chance de serem intensos ou profundos. E eu concordo: a poesia de Fátima não tem nada de original. Tem o cheiro e a cor dos verdes tecidos poéticos da adolescência”. O resenhista abriu a coleção e declamou alguns acordes, à toa, enquanto a folheava: ‘Eu, fogo! Você, paixão’... (p. 17); ‘A mistura do nosso suor, / Teus pelos nos meus’... (p. 55); ‘Mãos de forte pegada, agarrou’ (p. 109). Tive vontade de chorar e me afastei da sala. Entretanto, não pude deixar de ouvir o resto do azedume de meu amigo: “O leitor, até o mais ingênuo, perceberia a boa vontade de dona Fátima e a bonomia de seus críticos. Infelizmente a biblioteca da poesia brasileira está repleta dessas indigências literárias”.

Senti choque terrível, pancada no coração. E sugeri: “Talvez devêssemos nos aplicar agora ao segundo tomo”. O devasso visitante não terá percebido a minha agonia e, desatento, perguntou: “O de Arine?” Brinquei: “Não, o de Cecília Meireles”. E, com toda sisudez possível, dei início à segunda parte da reunião.  

As primeiras linhas d’O ferroviário: Palmiro dos Santos, de Arine de Mello Jr. não empolgam o leitor. A mim não empolgaram. “Talvez não estejamos mais na idade das descobertas”. Cleto completou meu pensamento: “É como se já conhecêssemos tudo, todos os personagens, todos os lugares, todos os acontecimentos, dos mais abrangentes aos mais pessoais e domésticos ou familiares. O alpendre da modesta casa, o breu da noite, a velha estação, os diálogos reproduzidos aos borbotões, os chavões tão ao gosto dos escritores de livrecos de autoajuda (‘o ciúme faz coisas terríveis’, p. 119). Tudo tão parecido com aquele romance nunca lido”.

Com a intenção de não deixá-lo o tempo todo a falar, pus-me a destilar um pouco de acidez: “Ainda acho divertidíssimos esses romances de enredo rico ou frouxo. Os jovens gostam disso. Nada de ruminações enfadonhas, como nos romances de Virginia Woolf”. E ele, o velho fogoso, me espicaçou: “Mereceria enxugamento o romance de Arine?” Fui rápido: “Sim, mas deixaria de ser romance. Ou esse romance. O título também parece documentário ou biografia de personagem menor”.

Antes de encerrarmos a tarde, fiz esse breve comentário: “A criação de Arine, ainda que baseada apenas na memória (recriação de personagens, recordação de fatos e conversas), não deixa de ser invenção. Como diz Caio Porfírio: ‘as emoções – para não dizer maldições – vão se adensando em patamares de surpresas e fulgurações psicológicas inesperadas’. Como trem a deslizar nos trilhos: primeiro a apitar, mover-se lentamente, depois a correr, em disparada, rumo ao sertão, ao interior (das personagens?). Arine é maquinista seguro, experiente, com passagem pela estação da poesia e dois romances (duas viagens longas), sua experiência de bacharel em Direito e vivência em cidades pequenas”.

O escrevinhador de resenhas bateu palmas e fez menção de se erguer. Não conseguiu logo. Tentei ajudá-lo. Aborreceu-se: “Você ainda se imagina jovem?” Não me contive: “Não, não se trata de juventude, mas de ser eterno”.

            
Fortaleza, 7/8 de dezembro de 2013. 

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