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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Breve itinerário de uma busca (Lau Siqueira)




Sempre leio muitos poetas. Uma viagem que vai das líricas camonianas à inventividade de Hopkins. Logicamente que o itinerário vem sendo permeado pelas necessárias colheitas da produção contemporânea. Observo que os poetas do nosso tempo, aos poucos, vão se insurgindo diante de mugidos arcaicos e engessamentos vanguardistas. Um exercício lógico, se observarmos que as nossas caminhadas mais prazerosas começam sempre no encantamento com os próprios passos. Nossos olhos precisam estar atentos e a nossa mente, calma.

          Talvez, por isso, a leitura dos dois livros anteriores de Regina Lyra tenha remetido tão imediatamente as minhas observações para um momento do romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar: “(...) não podemos nos permitir a pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma situação precária por uma situação inexistente (...)”. A partir daí surgem algumas deduções meramente intuitivas, mas que me deixam a vontade para apresentar aos leitores de Insensatas Palavras, algumas observações tão sinceras quanto despretensiosas. Afinal, os poemas de Regina Lyra dizem muito mais de si mesmo que qualquer análise fugidia que a minha indigência crítica.

Nesta virada de milênio a poesia universal encontra-se diante de um cardápio fabuloso de possibilidades. E a poesia é a mais universal de todas as artes. Também porque, além de possibilitar uma releitura das demais formas de expressão, ainda encontra vigor para embrenhar-se nas cordilheiras do seu próprio território, cometendo atos de permanente subversão estética. É uma arte libertária que não permite calabouços conceituais. E esta compreensão talvez seja esta a melhor fortuna da poesia contemporânea.

A possibilidade de exercitar livremente o verso, em verdade, significa o comprometimento com uma tradição que antecede Ovídio, Homero e até as primeiras expressões da linguagem escrita. (Especulando-se aí o fato de que a poesia tem a idade do mundo). Mas a poesia não é, definitivamente, como diria Mário Quintana, “uma corrida de cavalos”. Portanto, brindemos previamente com nossas colheitas de camomila aos generais da política literária. Ao invés de procedimentos arrogantes e excludentes, devemos sempre acolher aqueles que buscam  firmar os  pés nesta areia movediça.

Regina Lyra não necessita de aprovações e acenos de boas vindas. Ela escreve o que vive no cotidiano, com a ternura de quem acredita que a felicidade não é um ponto perdido na memória. E nem pede passagem, porque caminha sem medo pelas próprias emoções, despindo-as, desvendando-as, transmutando-as em versos que buscam “fertilizar o solo estéril do cotidiano abrindo as comportas dos sentimentos (...)” como diz o poeta Sérgio de Castro Pinto, na orelha do seu primeiro livro (O Livro das Emoções). E, continua o poeta, dizendo que para Regina “as palavras parecem ser uma espécie de cordão umbilical atando-a firmemente à fugacidade da vida”. Perfeita a digressão do mestre. Nada mais precisaria ser dito. No entanto, muito tem se falado acerca do sentimento expresso na obra poética. T. S. Eliot, afirmou que é mesmo necessário ao poeta desnudar-se de sentimentos. E concluiu: “mas, quem poderá desvestir-se do que não possui?”.  E aí completo o raciocínio, lembrando o velho Mallarmé dirigindo-se ao seu amigo pintor impressionista, Degas, que afirmava ter boas ideias, mas não conseguia escrever poemas: “poemas não se fazem com idéias, mas com palavras”. E logicamente que nem com sentimentos. Mas a palavra é apenas um dos instrumentos de expressão que pode dar asas ao poema. Talvez por isso, para Mário Quintana, “a poesia se resume na procura da poesia”. E Regina Lyra, quando escreve poemas como “Banquete”, muito mais do que expressar os seus sentimentos, está buscando sua melhor utopia.

O lado racional da docente do Departamento de Administração da UFPB conflita com a alma em chamas da mulher, na busca da evolução de seus versos “polimétricos”, como diria Alberto da Cunha Melo.

Por todos os seus versos, por todos os seus esforços para publicar seus poemas nesta terra de política editorial nenhuma, eu ouso parodiar Drummond para dizer: “vai, Regina, ser poeta na vida”.

 (Prefácio: Insensatas palavras. João Pessoa: Ed. Universitária (UFPB), 2003.)

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