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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nadja (Paulo Lima)




            Eu acreditava que o Google poderia encontrar qualquer informação sobre qualquer pessoa, em qualquer tempo ou lugar. Mas descobri que um vasto território do mundo real ainda não havia caído em seus tentáculos. O poderoso mecanismo de busca, aha, não era infalível como se pensava. O que me levou a esta conclusão foi a necessidade que tive de me reconectar com alguém do passado, uma mulher de outro país que conheci quando tinha 18 anos.
           
          Minha relação com M terminara, e eu me sentia impelido a buscar no passado as razões do meu fracasso. É como se eu precisasse reaprender a andar, depois de vinte anos ao lado da mesma companhia, e isto eu só poderia conseguir olhando para trás. Era o que eu pensava.
            Só o desespero e o desamparo podiam justificar o fato de eu ir atrás de um fantasma, e um fantasma, além de tudo, alemão.
            Nadja era da região do Ruhr, que, vim a saber depois, foi muito castigada pelos bombardeios aliados durante a Segunda Guerra. Era uma moça alta e de olhos bastante azuis, que excursionava pelo Brasil com um grupo de música infanto-juvenil. Vieram parar neste fim de mundo, e tenho a lembrança vívida de estarmos conversando numa noite, depois da apresentação, quando todos tentaram se aproximar daquele grupo exótico que falava uma língua impenetrável.
            Para mim, alemães eram símbolos claros de guerra e de nazismo. Mas meu contato com Nadja desfez qualquer impressão negativa que eu carregava do seu povo e de sua história. Aquela moça tão bonita aos 16 não poderia ser confundida com uma insigne representante de Hitler.
            Nadja.  
            Claudiquei nos meus escassos conhecimentos de inglês, mas nos entendemos muito bem. Não é preciso muito mais que isso quando se tem 16, 18 anos. Apesar do assédio das pessoas, monopolizei sua atenção. Talvez pelo simples fato de que somente eu ali fui capaz de estabelecer uma comunicação, básica que fosse. Uma noite apenas. Mas que sustentou uma amizade que se prolongou durante anos. Entre nós, a esperança de que um dia iríamos cruzar o oceano e nos reencontrar.
            Tente falar rapidamente a seguinte palavra:
            Geburtstagsglückwünsche
            Posso pronunciá-la sem dificuldade, mesmo decorridos tantos anos. É assim que os alemães expressam os votos de feliz aniversário. Esse foi um dos esforços que fiz pela amizade de Nadja. Estudei o idioma.
            Guten tag. Gute nacht. Wie geht´s?
            Coisinhas básicas, das quais ainda me lembro. Um dia fui ver um filme sobre o grupo Baader-Meinhof. Constatei que meu vocabulário ainda estava lá, intacto. Lembrei-me de Nadja e de minha busca infrutífera no Google, quando me separei de M.
            Google? Aha. Imagine que tentei todas as combinações possíveis. E o resultado que retornava era um turbilhão de informações tão vagas quanto inúteis. Descobri que os Kopfkrank, nome de família de Nadja, são tão numerosos quanto toda a população da China. Havia centenas, milhares deles não apenas na região do Ruhr, mas em cidades dos Estados Unidos, da França, da Holanda e até da Espanha. É possível existirem membros da família Kopfkrank até na Groenlândia.
            Num momento de loucura, cogitei enviar um e-mail para a embaixada alemã, contando uma longa mentira e pedindo que achassem Nadja. Ninguém pode se evaporar assim. Não passava por minha cabeça que ela podia ter casado e mudado de nome, ou até morrido. Como eu jamais conhecera qualquer membro de sua família – tudo que sabia é que tinha um irmão –, não tinha meios de ser avisado.
            Nadja morta. Nadja ist tot. A possibilidade me dava calafrios. Eu tentava me livrar do fantasma de M indo à procura de um outro fantasma. Sim, Nadja podia estar morta, mesmo sendo uma mulher saudável. Mas o que estou afirmando? Havia vinte anos eu não a via, como poderia ter certeza de que permanecia saudável e bonita, como a conheci?
            Tão imerso estava em minha obsessão, que não me dava conta de um fato. O que dizer a Nadja, caso eu a reencontrasse. Quantos amigos procuram outros amigos tão obstinadamente, tanto tempo depois, sem despertar um grão de desconfiança de que as coisas não estavam indo bem? Que o que esse amigo queria, de fato, era uma tábua de salvação?
            É como se eu fosse um desses personagens russos dentro de uma cena lúgubre, num minúsculo apartamento em São Petersburgo. Todos os amigos estão mortos. Todos os familiares foram incinerados num campo de concentração. E agora esse personagem, diante do fim iminente, relembra o passado, contemplando as poucas fotos que lhe restaram, as pequenas anotações às margens de livros amarelados e aos pedaços, tentando recriar um vínculo com o passado. Mas tudo que lhe restava era o frio intenso, as dores no corpo provocadas pela idade e a chuva gelada tamborilando do lado de fora da janela.
            Para mim, existe um indescritível fascínio nos casos de pessoas que desaparecem, sem deixar rastros. É como se elas tivessem sido abduzidas por extraterrestres. Mas o que acredito mesmo é que se cansaram de tudo e, um belo dia, foram embora, para viver uma nova vida em outro lugar, com outro nome e quem sabe até disfarçada como se fosse uma pessoa completamente diferente.
            Georges Simenon, o romancista francês, imaginou uma história assim, que muito me fascinou à época em que a li. Um sujeito entediado com a família deixou tudo para trás e foi viver uma vida incógnita em Paris. O livro é O homem que via o trem passar.
            Se eu penso nele agora, é porque havia em seu gesto um clamor de liberdade que me impressionou. Porém, a fuga revelava uma mensagem dúbia. Você podia ver nela tanto um ato extremo de liberdade quanto de loucura.
            Depois desse livro, liberdade e loucura ficaram indissociavelmente ligados em minha mente.  
            Quantas vezes pensei em abandonar M e, como aquele personagem inspirador de Simenon, sumir e deixar tudo para trás. Mas foi M quem me abandonou primeiro. A ironia é que agora que estava sozinho me sentia oprimido pela liberdade e pela perspectiva de seu imenso abismo.
            O muro. Der Mauer. Um dia telefonei para Nadja e ela estava radiante. “O muro”, ela gritava, “o muro, o mundo inteiro está falando dele!”. O muro de Berlim havia caído, e é como se as fronteiras do mundo tivessem sido abertas em definitivo. Meu ânimo de cruzar o oceano e ir reencontrar Nadja se reacendeu como nunca.
            Mas nas cartas que ela me mandaria depois, ficava claro que a nova liberdade vivida pelos alemães tinha um preço. A reunificação não ocorrera de forma tão pacífica como se imaginou no início. Alemães de ambos os lados agora se olhavam com desconfiança e até hostilidade. Muitos anos depois é que fui entender aquela situação que Nadja tentava explicar em suas longas cartas, escritas com caneta azul e em letras irregulares, estranhamente pouco elegantes para uma moça tão bonita.
            Na última carta que recebi de Nadja ela dizia que estava morando em Düsseldorf. Nessa época, eu já estava casado com M. A correspondência com Nadja minguara até cessar de vez. Mergulhei na minha vida com M, tivemos filhos. Não percebi que tinha perdido uma amiga.
            O Google continua sem localizar minhas buscas por Nadja. Aha. Já esgotei todas as combinações possíveis. Não há mais o que tentar. Também não quero me tornar um personagem russo. São Petersburgo é muito fria, e eu não a suportaria. Vou agora mesmo telefonar para M. Podemos sair para dar uma volta, ir ao cinema e falar das crianças.       

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