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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sereia do Báltico (Flávio R. Kothe)














Ela era loira, lembro, era alta e esbelta,
tinha os olhos azuis e um sorriso letal,
convidou-me à praia de Warnemuende,
na beira do Báltico, na boca do Warnow.

Já era outono, já era finado o bom verão,
andamos pela areia deserta, mão na mão,
à esquerda o mar, à direita as dunas altas
coroadas de capins e abetos de cascas alvas.

Ao longe o navio que ia para a Dinamarca
apitou, já saudoso de onde partia à tarde;
os nossos pés deixavam na areia pegadas
já prontas para serem pelo mar apagadas.

Com um sorriso maroto nos olhos e lábios
tu me puxaste para um abrigo entre galhos
e troncos que jaziam lá nas brancas areias,
tu me beijaste e atraíste como fazem sereias.

Mas eras mais que sereia, mais que donzela,
tinhas a plenitude da mulher que se sabe bela
e que gosta de ser amada por quem ela gosta:
nos amamos como se houvesse em nós aposta.

Eu tive de seguir o meu caminho de exilado,
tu tiveste de cuidar do teu emprego e passado:
hoje és um raio de luz que me deu o Báltico,
recuerdo e adiós, e nem disso sequer saberás.


 
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