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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Regina, lyra em tempo de encanto* (Ricardo Alfaya)




“Como, caro poeta? / Unir o Sol com a Lua?" Assim indaga Regina Lyra em “Breve Ponte”, belo poema que compõe este Tempo de Encanto.  Conhecendo três outros livros da Autora e mais os trabalhos que se acham em exposição no seu “site”, na Internet, atrevo-me a dizer que neste Regina resume simbolicamente sua busca atual como pessoa e como poeta. O sentimento quer, precisa expressar-se.  Porém, a poeta sabe que a sua simples expressão ainda não constitui poesia.  Apenas a melhor expressão desse sentimento pode lograr atingir o "status" de “poema”.  O Sol, de longa data associado à apolínea razão.  A Lua, com seu lado oculto, misterioso, remetendo à dionisíaca emoção. A adequada união desses opostos é uma questão formal e de conteúdo que atravessa a obra, constituindo-se num diferencial, sobretudo em relação aos seus dois primeiros livros.

       Não que o título “Regina, Lyra do Sentimento”, com que antes contemplei um comentário à sua obra, não pudesse ser atribuído ao presente volume.  O leitor  perceberá que o exercício da emoção continua sendo preponderante na poesia de Regina.  Entretanto, nota-se que em Tempo de Encanto houve um investimento maior por parte da autora em poemas que revelam uma atitude mais reflexiva.  Inclusive, em vários escritos opta pela linguagem em terceira pessoa, em lugar da primeira, e se volta para temas que se acham além de si.

Vejo tudo isso de uma forma muito positiva, pois a principal característica do verdadeiro artista é não se conformar com a repetição de formas e fórmulas, mesmo quando elas estão dando certo. Fugir da repetição e procurar inovar-se e aprimorar-se sempre é uma das marcas que distinguem os verdadeiros poetas e artistas.

O mundo vive dias nebulosos, marcados por atentados terroristas, políticas intolerantes, ambição e consumo desmedidos. São momentos nos quais paira não apenas um desencanto em relação às “promessas da civilização”, mas também uma total incerteza quanto ao futuro do Planeta. Assim, sem dúvida, é Tempo de Encanto. Ou seja, mais do que nunca precisamos de obras delicadas e que nos proponham sentimento, reflexão e harmonia.  Regina, sem ufanismo ou otimismo inconsequentes, celebra esses valores ao longo das encantadoras páginas deste livro.
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Ricardo Alfaya, 1953, jornalista e escritor carioca, faz poesia, conto, crônica, artigo e ensaio, tendo realizado prefácios e comentários críticos para diversos autores.

(*Prefácio: Tempo de Encanto. João Pessoa: Ed. Universitária UFPB, 2004)

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