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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

(Santos olhos) Clauder Arcanjo




Quase noite. Ela desceu do ônibus, deixando, atrás de si, um rastro de rútila incredulidade. Tudo por culpa daqueles olhos. Santos olhos.
A lotação logo saiu, e todos os passageiros seguiram com um quê de profundo abandono. Melhor diria: pior do que abandono. Com um jeito de quem, num piscar de vista, se viram órfãos, privados da luz guia, da estrela que lhes davam, ao fim de um dia tão comum, num cair de tarde tão burlescamente cinzenta, um ar de imperial e singela majestade. Pois haviam, suditamente, ao longo de várias ruas e avenidas da grande cidade, estado ao lado deles, daqueles olhos santos olhos. De tão belos, quase anormais.

          De que cor eram eles? você, caro leitor, me inquire neste canto de página. Confesso que uns os descreveram com rajos de verde piscina, num fundo de ouro pérola. Alguns, em olhadas náufragas e rútilas, referiram-nos como se de um azul celestial, frutos da infinita beleza do universo. Já outros, inebriados e lúdicos, ora me juravam que eles eram profundamente verdes, totalmente esperança, para, logo depois, afiançarem-me, remidos e trêmulos, que tais pupilas se assentavam numa base telúrica de carmim. Bem poucos, confesso, declararam-me que ela tinha, no olhar de esplêndida fêmea, um padrão incolor. Caprichosamente incolor.
“Não era a cor, era... Você sabe, assim... Sei lá! Não consigo dar-lhe todos os detalhes. Havia neles alguma marca diferente, coisa não vista por mim antes. Como posso descrever a perfeição?! Não posso! Sinceramente, juro, ninguém pode!” — era a voz de um rapaz que, ao vê-la descer, sucumbira, no banco da frente, a chorar, copiosamente, vítima do encanto e, em seguida, do desencanto de tão cruel partida.
Noite. Mal pôs os pés no chão do ponto do ônibus, virou à direita. Eu, que flanava sem rumo pelos becos e esquinas da metrópole, vi-me compelido a escoltá-la. E assim procedi. Sem disfarces, como um zumbi. Pouco depois, reparei que, por onde seus pés e santos olhos passavam, tudo se transformava. Na esquina primeira, encantou um velho pároco que acabara de rezar a novena das dezoito horas. Hora do Ângelus. Ouvi de sua boca cristã: “Virgem Santa Maria! Minha Nossa Senhora Aparecida!...” a benzer-se; em nome do Pai, do Filho e... daqueles olhos imaculados.
Ao cruzar com um bêbado, este assumiu um ar de soberana lucidez e saudou-a:
Se não for delírio meu, estou diante de uma santa. Se for santa, quero, somente a você, confessar todas as minhas faltas. Olhos de ressaca!
Até os pardais que, vadios, pipilavam na cumeeira das casas de telhas-vãs, gorjearam-lhe uma serenata primaveril.
Pouco adiante, na Praça da Matriz, casais se enamoravam protocolarmente. Como a cumprirem a (des)obrigação do encontro da noite. Ao darem pela presença daquelas gemas, excelso olhar, as moças cuidaram de abraçarem e beijarem seus noivos; e estes, com jeito, arte e engenho, deixavam-se beijar, sem perder a passagem da diva, com olhos tão divinos. Belos, sublimes; quase anormais.
Assim varei léguas e léguas. Até que, numa esquina distante, na noite errante, ela desapareceu. Olhei, catei, revisitei todos os cantinhos, lugares e, dela, nenhum sinal. Apenas a lua, lá no alto, altaneira e graciosa, a me zombar. Com um fulgor essencialmente puro (belissimamente admirável, beirando o colossal), idêntico ao dela.
Se eu exagero?!... Quem é você, dileto leitor, para falar em exageros? Você nunca viu olhos assim! Santos olhos assim.
Não acredita!?... Tenha santa paciência! Fique, então, com seu domingo banal. Você, ser racional, ainda não está pronto para o flagrante de olhos assim. Santos olhos assim.

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