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quarta-feira, 12 de março de 2014

O demônio dos copos (Ronaldo Monte)



 
Na cozinha de toda casa mora um demônio terrível. Invisível, como todo demônio que se preze, sua proeza é das mais assustadoras: ele faz aparecer copos sujos no balcão da pia.

Ele age sorrateiro, sem fazer barulho. Quando você suspira aliviado por ter, finalmente, acabado de lavar toda a louça, eis que aparece no canto do balcão dois copos que você jura que não estavam ali havia dois segundos. Conformado, você esquece a dor nas costas e volta à lide com água e sabão, adiando o prazer do corpo jogado no sofá com os olhos perdidos naquela novela de que você nem sabe o nome.
        
        Mais cedo ou mais tarde, você vai se cansar da pasmaceira televisiva e vai ver se tem algo de interessante na geladeira. Daí você olha para o balcão e está lá, acintoso, um copo sujo de qualquer coisa. Foi o demônio, você tem certeza, foi o demônio dos copos que botou ele lá.

         Confesso que sou muito propenso a ficar assombrado com certas coisas que acontecem na minha casa. Passado o arrepio inicial, entretanto, a racionalidade me obriga a descobrir a causa da assombração e minha respiração volta ao normal. Mas até hoje não encontrei explicação para o fenômeno dos copos misteriosos.

         A pior coisa que pode acontecer a um lavador de louças é se encontrar sozinho em casa. Porque você tem certeza de que não tem mais ninguém para sujar os copos, sabe exatamente a quantidade que usou durante o dia. Aí, quando você se dá por feliz pelas poucas peças que teve que lavar e enxaguar, eis que aparece, no canto mais distante do balcão, um copo sujo, saído do nada. É o momento supremo das artes do diabo, sem nada mais importante para fazer.

E, somando-se ao medo que eriça a espinha, você fica com raiva de saber que, escondido em algum canto da cozinha, o diabo dos copos está rindo de você.   

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