quinta-feira, 24 de abril de 2014

Manoel Bomfim e o antilusitanismo (Adelto Gonçalves*)

                          
                                                                 I
Por que ler (ou reler) Manoel Bomfim (1868-1932) quase um século depois? Porque, entre outras razões, esse médico, historiador, psicólogo e professor, nascido em Aracaju, foi um dos primeiros a pensar o Brasil. Por isso, ao reeditar pela primeira vez O Brasil na História: deturpação das tradições, degradação política, escrito em meados da década de 1920 e publicado em 1930, a Editora PUC-Minas, em parceria com a Editora Topbooks, presta um relevante serviço à História e à Cultura do País.

Podemos discordar de muitas ideias de Bomfim, que, naturalmente, como todos nós, foi escravo do “espírito do tempo” (Zeitgest), de que dizia Hegel (1770-1781), como bem observa a historiadora Mary Del Priore na apresentação que escreveu para esta segunda edição do livro, mas não deixaremos nunca de nos solidarizar com ele em suas observações sobre o Brasil de sua época, como resultado de três séculos de colonização e 67 anos (de 1822 a 1889) de um Império que pouco mudou os costumes e práticas colonialistas e uma República que, nascida sob o tacão de militares, em iniquidades não tem ficado atrás do regime monárquico.

Tal como hoje, éramos uma nação atrasada, com uma parcela majoritária da população mergulhada no analfabetismo – hoje, diríamos analfabetismo funcional –, bucha de canhão para os conflitos que as oligarquias arrumavam e até para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), além de mão de obra praticamente escrava (ou neocrava) e desqualificada para o trabalho no campo e nas grandes cidades que então se formavam.
                                                                 

II

Anglófono, Bomfim via em Portugal toda a fonte do mal que assolava o Brasil. Dizia que, antes da expansão colonial, “a burguesia de Londres havia abatido o mais formal no poder da coroa”, entendendo que a revolução liberal de 1689 havia acabado com os restos de privilégios da aristocracia inglesa. Por isso, segundo ele, ao contrário de Portugal, onde a aristocracia continuou a usufruir de todos os privilégios sobre a uma massa ignara – reduzida a se resignar com as migalhas que os chamados nobres mandavam atirar aos porcos ou a emigrar –, a Inglaterra não se degenerara, construindo um regime de estado “o mais livre no mundo moderno”.

O antilusitanismo de Bomfim é tão acendrado que, para ele, os 60 anos do Portugal espanhol constituem o período de formação essencial do Brasil. “Mas, inacabada essa formação, quiseram os fados que houvesse um Portugal restaurado, para viver exclusivamente desta colônia. E esse Portugal, de mercantis degradados, entregue à saudade má dessas Índias perdidas; esse Portugal, a projetar sobre o Brasil a sombra sinistra do seu declínio, deu-nos todos os males de uma vida estiolada, fora dos estímulos em que o Ocidente se refazia”, escreveu.

Desta sorte, segundo ele, era o Brasil distorcido da sua marcha natural – “acorrentado ao cadáver de uma nação que, mesmo em glória, nunca fora uma civilização completa”. Para Bomfim, “menos que Roma em face da inteligência grega, Portugal não teve energias para outra coisa além das suas conquistas de comércio”. Mais adiante, disse: “Negreiro, escravocrata, absolutista, bragantista, liberal, cortista, monarquista... o português encarnou, em todas as crises, o renitente inimigo do Brasil, empenhado em mantê-lo na mesquinha situação que o obrigue a servir de pasto ao mercantilismo de parasitas obsoletos”.

Só que, mesmo depois do afastamento dos Braganças do poder, os brasileiros – leia-se aqui: os donos do poder – continuaram roubando, extorquindo, manipulando eleições e enriquecendo com o trabalho neoescravo, mantendo a “lôbrega e mentirosa democracia” da Primeira República (1889-1930) em que Bomfim viveu ao final de sua vida. E, depois, com o conturbado e fascistizante período getulista (1930-1945), pouco mudaria, ainda que tenham sido dados alguns direitos aos assalariados miseráveis, mais por imposição dos tempos do que por vontade de reformar efetivamente o País. Sem contar a tragédia que constituiu a ditadura militar (1964-1985).

III

Bomfim não via mérito nenhum nos aventureiros lusos que, com Vasco da Gama (ca. 1460-1469-1524), avançaram em direção às Índias e que, de passagem, se viam alguma ilha desprotegida, desciam para fazer a pilhagem. Dessa forma, Luís de Camões (ca. 1524-1525/1580) teria exagerado ao lhes louvar os feitos mercantis, a ponto de hiperbolizá-los, ao escrever que, “se mais mundo houvera, (o homem lusitano) lá chegara”. Mas, ao mesmo tempo, vê patriotismo nos paulistas dos séculos XVII e XVIII que se embrenhavam nos matos para matar ou escravizar indígenas, tornando-se também o “terror dos espanhóis” e avançando os limites do Tratado de Tordesilhas, a tal ponto que, se não houvesse a Cordilheira dos Andes, o Brasil talvez hoje tivesse também saída para o Pacífico.

IV

Bomfim, em seu desabrido antibragantismo, deixa de ver a ação da miséria humana nos grandes acontecimentos, como se todos os reinóis fossem maus e todos os nascidos na América portuguesa bons. E não percebe que, no movimento de 1789, eram as mãos dos arrematantes de contratos João Rodrigues de Macedo e Joaquim Silvério dos Reis que moviam os cordéis da conjuração, aqueles que mais lucrariam com a separação de Minas e das capitanias que pudessem aderir ao movimento, pois, como grossos devedores, ficariam livres das dívidas, que haviam acumulado ao deixar de repassar para os cofres da Coroa os impostos que arrecadavam em nome dela. Depois de por anos dividir com os governantes os cabedais que seriam do Reino, como dizia Critilo, alter ego do ouvidor Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ao denunciar (e trair) o ingênuo Tiradentes e outros, pulando para o outro lado da cerca, Silvério acabou por conseguir o que mais queria: livrar-se das dívidas...

Para Bomfim, a independência de 1822 também não passou de um arranjo entre as elites, ficando o País “sob o governo de legitimíssimos (sic) representantes da metrópole”, sem nenhuma alteração no pessoal do Estado. Para ele, a independência não passou de escamoteação em favor dos Braganças e dos portugueses em geral, não sendo, portanto, o natural desenvolvimento da nossa evolução nacional, senão um atentado contra essa mesma evolução. Em outras palavras: “o Estado do Brasil foi organizado com a nata dos canalhas e ineptos, de que se compunha a degradada classe dirigente do Portugal de 1808”.

Como se vê, é preciso algum cuidado ao ler Bomfim hoje, pois só se pode fazê-lo com os olhos de ontem. E relativizar tudo o que escreveu porque, afinal, os ladravazes do Império nada mais foram do que precursores dos ladravazes da República. Foram tantos os ladravazes e tamanha a fúria com que avançaram (e avançam) sobre as burras públicas que não sobrou espaço para se exercer nos séculos XX e XXI um capitalismo menos selvagem, ao contrário do que se vê nas nações mais desenvolvidas. Hoje, o antilusitanismo de Bomfim não procede porque, guardadas as devidas distâncias, o que construímos foi um imenso Portugal.

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O BRASIL NA HISTÓRIA: DETURPAÇÃO DAS TRADIÇÕES, DEGRADAÇÃO POLÍTICA, de Manoel Bomfim. Prefácio de Ronaldo Conde Aguiar. Belo Horizonte: Editora PUC-Minas; Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 486 págs., 2013, R$ 63,90. E-mail: editora@pucminas.com.br                                                                                                                                            
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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terça-feira, 22 de abril de 2014

Do Pici ao Quinze (Nilto Maciel)



(Casa onde viveu Rachel de Queiroz, no Pici)




Ganhei de Pedro Salgueiro livrinho (pocketbook) de capa originada de fotografia, cerca de 80 páginas, impresso em Fortaleza. Intitula-se Pici: dos velhos sítios à periferia. Não fosse o subtítulo (ausente na capa), o leitor de fora do Ceará jamais imaginaria Pici como nome de bairro. O povo da capital cearense, porém, sabe muito onde se situa essa parte da cidade. O entendedor de futebol terá outro motivo para falar dela: No Pici está localizado o estádio do Fortaleza Esporte Clube, o grande rival do Ceará Sporting Clube.

Li-o de uma assentada, tão gostoso é. Não por ser também apaixonado por nossa ‘loira desposada do Sol’, nem por ser torcedor do Tricolor de Aço. O danado do livro nos prende desde a primeira linha: “O Pici é um bairro que está localizado na zona oeste da cidade de Fortaleza, capital do Ceará”. Frase ordinária, é verdade. Linguagem de geógrafo ou urbanista. Mesmo assim, o leitor se sentirá atraído pelo relato. Pois são raras as manifestações ‘literárias’ de exaltação à nossa metrópole. Quase todos os críticos da urbe cearense só se sentem realizados quando pintam, com tintas sujas ou pincéis rombudos, a maior ou segunda mais populosa cidade do Nordeste brasileiro.

Lido, pu-lo nas mãos de Maria Eduarda Ardire. Quem é ela? Resumo a história dela comigo: Primeiro recebi mensagem curta, nestes termos: “Oi, Nilto Maciel. Tenho lido suas brincadeiras no blog literaturasemfronteiras. Nunca deixo de cair na gargalhada. Queria tanto conhecê-lo”. Imaginei-a com cerca de 50 anos, um pouco além disso, menos de 80; separada recentemente; aposentada de órgão público; solitária etc. Tudo asneira minha, tudo preconceito. Aparenta 20 anos de idade, não tem namorado, nunca trabalhou, vive com os pais e três irmãos, adora praia, balada e toda a liturgia da juventude de hoje.

Uma tarde, veio me ver, fomos da literatura ao teatro, do cinema à música, viajamos, sonhamos. Ainda na parte da manhã, dera por encerrada a leitura de Pici. “Se quiser, é seu. Por alguns dias”. Levou, leu e voltou. E, na segunda visita dela ao meu rancho, passei a me estender naquelas doidices de ‘frases ordinárias’ e ‘linguagem de geógrafo’.
           
        Impacientava-se a moça com minha lengalenga: “Afinal, trata-se ou não de romance? O senhor se referiu a estilo de geógrafo ou urbanista. Consiste, então, num ensaio histórico?” “Não, nada de estudo científico”. “Então é reportagem?” “Também não”. 

             Levantei-me da cadeira de balanço e arrastei os chinelos até a cozinha, a fim de beber água. De lá mesmo gritei: “O modelo seria o da crônica histórica”. “Será?” Voltei à sala: “A frase excessivamente presa à gramática, protocolar, burocrática não é a tônica da obra. Também não apresenta Pedro dicção debochada ou humorística (tão utilizada por jornalistas engraçados). Quando evoca a si mesmo, fá-lo como pesquisador e repórter (sem sê-lo)”. “E como testemunha?” “Não, ele não participou da evolução da localidade. Sendo assim, a intenção dele (bem realizada) foi ‘contar’ a origem do nome e do bairro, as transformações impostas pelos homens e as realizações de seus primeiros povoadores e proprietários. Além de alguns habitantes especiais, a exemplo de Rachel de Queiroz. Pois se deu lá, na casa por seu pai construída, a elaboração de seus dois primeiros romances”.

Sem cerimônia, a aprendiz de leitora me pediu água. Deixei de lado o opúsculo e me dirigi, de novo, à geladeira. Da cozinha bradei: “Aceita Coca-Cola, cerveja, uísque, cachaça ou cajuína?” Ela não me deu ouvidos e provocou: “Se a gente espremer bem esse objeto, talvez não encontre nem 30 páginas do punho de Pedro. Parte é de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez) e Sânzio de Azevedo, além de Alfredo Weyne, José Liberal de Castro, Rachel de Queiroz, sua irmã Maria Luíza, e memorialistas e cronistas menos conhecidos”. “Isso é muito natural em texto elaborado de acordo com escritos de diversas raízes. Se fossem memórias, possivelmente seria lícito cuidarmos de excesso de citações. Além de tudo, Pedro Salgueiro nasceu em 1964, na pequena Tamboril, e conheceu Fortaleza no início da juventude. O Pici teria se originado do Sítio Pecy, existente desde o século XIX”.

Irritado, fui ao banheiro, sem pedir licença à jovem. Voltei daí a três minutos, completamente ensopado de água fria, da cabeça ao peito. “Meu Deus! O senhor tomou banho?” (Mal acabara de me conhecer, e já me dava tratamento de velho conhecido, em deslavada intimidade). Agarrei a brochura, sem pensar em resposta: “O charme dela se acha exatamente nesse amálgama: informações colhidas em narrativas e depoimentos de antigos habitantes do bairro e pesquisadores vivos, como Nirez”. “Não precisava transcrever seis páginas das memórias de Rachel e Maria Luíza, além de quase todo o conto ‘Tangerine-Girl’”. Fechei o volume, com raiva, e, por pouco, não berrei: “Discordo de sua opinião, menina. As informações contidas em Tantos anos, das irmãs Queiroz, são fundamentais. O conto de Rachel é, quiçá, a única peça literária, de alto valor, a dar ao Pici a condição de lugar onde se desenrola trama aparentemente simples – ilusão e desilusão de uma adolescente. Além de ser composição de fina tecelaria”.

Prestes a me arrepender de ter convidado a estudante a vir à minha residência (“Após a leitura, traga-mo. Conversaremos sobre ele”), bebi alguns goles de água, sosseguei e falei baixinho: “Você deve ser menos exigente, garota. Para você, escrever parece fácil”. “O senhor acha difícil?” “Tão penoso quanto viver no sertão, em tempo de seca”.

Ao se preparar para ir embora, Maria Eduarda me perguntou se eu poderia lhe emprestar O Quinze. “Promete ler e devolver em quantos dias?” Ela pensou e sorriu: “Em quinze. Está bom assim?”

Fortaleza, 18 de abril de 2014. 

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O anônimo (Tânia Du Bois)






“Passado o futuro: tantas máscaras /
o que dizer de um mascarado sem máscara? /
ou de uma máscara (Real)?”
(Pedro Du Bois)

Anônimo é aquele que não revela seu nome; dentro de suas características encontramos aquele que “faz o bem sem saber a quem”, e aquele que não enfrenta o sentimento, com medo de viver e usa a máscara para se esconder num mundo obscuro, sem perceber quando em determinado momento da sua vida se aproxima da verdade das pessoas.  Segundo Alberto da Cunha Melo, “Anônimos // Bem-aventurados os mitos, / em seu tranquilo anonimato, / que sequer se sabem anônimos, / como a moldura de um retrato...”.

O anônimo ressalta a diferença em algo que costuma afetar negativamente a sua vida: sua intenção é estar alerta em relação à sua pessoa e ao seu anonimato, porque conviver entre eles é desafio que pode se transformar em agradável, ou não, revelação. Como em Pedro Du Bois, “... somos máscaras sobre o rosto / sem despertar suspeitas / personagens ambulantes / desempenhando papéis menores”.

Quem saberá os limites da vida em face oculta? O anônimo que fere as palavras esconde o tempo e impede de ser reconhecido. Escuta “cantos onde há gritos e se diz maravilhado” – nos surpreendendo com seu falso lado, ao se apresentar de maneira detalhada, deixando de ser quem é, ao revelar sua falta de coragem para se identificar e assumir sua postura, sem deixar as palavras caírem no chão. Nas palavras de Alphonsus Guimaraens Filho, “... Toma coragem, vai buscando a face / mais oculta das coisas, de onde nasce / a luz que restará inapagada”.

No anonimato, nunca sabemos qual relato nos dá a verdade dos fatos; o sentido do desejo; as histórias – passado ou futuro; as ameaças pela solidão; mas a vida em longos passos mostra ser inevitável esquecer que o anônimo pode se tornar amigo ou inimigo, e que o momento revivido é marcado pela boa ação e ameaçado pela má. Ficando a reflexão de Pedro Du Bois, “o que dizer de um anonimato sem máscara?”

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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Ilusão (Inocêncio de Melo Filho)




Inês viva
Inês morta
Transita na memória
Memória lusitana
E agora que te encontrei
Não sei mais
Se és viva ou morta
Minha Inês
Não sei mais se és sonho
Ou se fico acordado
Com os olhos postos em ti
Oh! minha Inês
Viva ou morta?

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domingo, 20 de abril de 2014

Morrer (Pedro Du Bois)






Na obviedade
esqueço a importância: sei
dos selvagens não contatados

a secularidade na datação
civilizada: aos selvagens restam
estações monitoradas por satélites

em estradas abertas
ao progresso o óbvio acompanha
a máquina: a mortandade acontece
antes do contato.


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sábado, 19 de abril de 2014

A morte (Teresinka Pereira)



 
Não falta nunca 
a morte!
Desnuda os reis
e põe manto de estrelas
nos pobres.
Mas aos gênios
que criaram
mundos em nossa
imaginação literária
os faz renascer
em melhor dimensão
de eternidade.
Vamos enxugar as lágrimas
Gabriel García Márquez
acaba de renascer!

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