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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Conversa de botequim (Carlúcio Bicudo)




— Bom-dia, Geraldo. Tudo bem com você?
— Mas ou menos, Alfredo.
— Pela sua expressão, estou vendo que a coisa não anda boa para o seu lado. O que foi que houve?
— Caro amigo, lá onde moro a bandidagem está demais. Todo dia tem um presunto na esquina... Minha mulher anda dizendo que irá me largar, caso eu não arrume um outro canto para morarmos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Redemoinho na terra dos demônios (Nilto Maciel)




Ao dizer ‘beijos, Tusa’ e desligar o telefone, ouvi a campainha do portão. Acabara de conversar com Aretusa, a mais nova de minhas herdeiras. Na azáfama dessa vida de muitas filhas (reais) e milhares de fãs (imaginárias), recebi clarão súbito no cérebro: Só poderia ser Janete Clair. Corri (sem me preocupar com a vestimenta, pois me habituei a permanecer só de cueca em casa) e, sem prestar atenção ao mundo ao meu redor, bati a unha encravada num pé de cadeira, quis chorar e mandei o objeto para a puta que o pariu. A capengar e suar sangue, dei à pobre aluna a pior das recepções de sua vida. (Só então me percebi vestido da cintura até os pés). Depois de explicações mentirosas de minha condição física e emocional, dei início à aula.

(Santos olhos) Clauder Arcanjo




Quase noite. Ela desceu do ônibus, deixando, atrás de si, um rastro de rútila incredulidade. Tudo por culpa daqueles olhos. Santos olhos.
A lotação logo saiu, e todos os passageiros seguiram com um quê de profundo abandono. Melhor diria: pior do que abandono. Com um jeito de quem, num piscar de vista, se viram órfãos, privados da luz guia, da estrela que lhes davam, ao fim de um dia tão comum, num cair de tarde tão burlescamente cinzenta, um ar de imperial e singela majestade. Pois haviam, suditamente, ao longo de várias ruas e avenidas da grande cidade, estado ao lado deles, daqueles olhos santos olhos. De tão belos, quase anormais.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O homem desoriental – XVII (Mariel Reis)



 










Não se exaspere com a morte.
É apenas uma palavra
Cava dentro do peito
Repleta de sons agudos.
Não, não se intimide
Com o susto
Embora parte do meu rosto
Permaneça indecifrável
E repouse, nessa sala,
Sob o escuro.

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mendoza e uma esquecida fórmula cervantina (Adelto Gonçalves *)




            Em 1975, três meses antes da morte do generalíssimo Franco, a Espanha, entre satisfeita e perplexa, descobria um romance que, por sua originalidade, contrastava com tudo o que se escrevia no país àquela época. Chamava-se La verdad sobre el caso Savolta (Seix-Barral, Planeta Espanha). E seu autor, Eduardo Mendoza, passava a ocupar um lugar no altar reservado às promessas literárias. Era o momento em que a literatura espanhola, sem medo de reconhecer a influência dos grandes escritores do boom latino-americano, como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa, reciclava-se e passava a apresentar um produto novo.
           

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Assovio no escuro (Luiz Martins da Silva)














De verdade, de verdade, não existe.
Ele é só o lado avesso do sentido.
Mas, como hei de convencer a criança
De que ele não passa de uma sombra do arcaico?

Hoje, por desígnios de milênios,
Há um silêncio que expande a própria noite,
Feito elástico que só decorou plano de ida,
Momentos de vidas, eu sei, eles jamais voltam.

Imagino reter o mundo no ponteiro dos segundos,
Mas o rio é insistente no seu curso.
Águas se renovam, não os nossos rostos.

Nada há de garantia no cândido acalanto
De que o tempo é uma ilusão dos sentidos
Que só age nestes confins da nebulosa.

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Choro (Frederico Rocha)













E eis o xote, e a valsa, e a polca num ;
Ao erudito do barroco quase dá-se um !
Toc’o Calado, a Chiquinha, o Azevedo e Jacob;
Chorand’o choro de contente sente !
Seja num bar à beira-mar à lua dum farolim,
Unidos ímpio, papa-hóstia, o judeu e o moslim,
Ressoa a flauta, o pandeiro, violões, bandolim;
Chorand’a roda a cirandar em torvelim.
Present’à roda tão airosos o malandro e o ma;
O mais galante exibe logo o lustre do mocassim,
E um chora o choro de chinela arrasta-!
Cadenciado, intrincado, meio “ com o cré”;
E swingado, descontent’e um tanto ledo é assim,
Chora o chorinho ao Pixinguinha e Nazareth!

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Tô cansado! (Carlúcio Oliveira Bicudo)





                 
─ Alfredo, vá ao supermercado pra mim?
─ Ah, mãe! Estou tão cansado!
─ Ai... Ai... Cansado de que, Alfredo?
─ Mãe, a senhora pensa que não cansa ficar o dia todo batendo pernas?
─ Alfredo, você é demais, meu filho. Tão novo e já cansado. Pelo jeito, já nasceu cansado, não é?
─ A senhora diz isso porque não brinca com pipas e nem de pique de esconder. Queria ver a senhora disputando corridas com o Luís Pesão.
─ Deixe de bobagem, moleque! Tenho muito que fazer todos os dias. Lavo, passo, cozinho, arrumo a casa e, de quebra, ainda tenho que pôr você para tomar banho todos os dias.
─ Ué! A senhora não se cansa desta trabalheira toda?
─ Claro que sim, meu filho, mas tenho que fazer. Se não fizer, quem fará o meu trabalho?
─ Deixe para o papai fazer.
─ Seu pai? Coitado! Passa o dia todo pegando no pesado lá na fábrica. Quando chega em casa é mais do que justo que descanse para começar tudo de novo no outro dia.
─ Pois é, o meu pai, a senhora diz que vive cansado. E eu? Por que não posso me cansar? Afinal, todos os dias eu corro para esticar as pernas. Tento dominar o vento com as minhas pipas multicoloridas.
─ É, pelo jeito, você anda muito ocupado mesmo, não é filho?
─ E como! A senhora não sabe o trabalhão que dá  ficar contando carneirinhos ou descobrindo novos animais escondidos nas nuvens. E contar estrelas durante a noite, como é cansativo.
─ Já vi tudo. Eu mesma terei que ir ao supermercado. Esse menino, pelo jeito, anda com a mente ocupada demais.
 ─ Ainda bem que a senhora entendeu, mamãe!  Eu ainda tenho que descobrir um jeito de mudar as cores do arco-íris. A senhora não sabe o trabalhão que dá ficar pensando num jeito para que isso seja possível. Isso dá uma canseira!
─ Toma tento, menino, não tá vendo que isso é praticamente impossível?
 ─ Que nada! Já projetei novo modelo de casa para o João de Barro. Inventei um jeito de domesticar piolho.
─ O que você está falando, menino? Já estou ficando cansada de ouvir tantas asneiras. Você tá ficando é louco!
─ Louco não, mãe! Tô cansado!
                                                      
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