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terça-feira, 20 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
Primeira carta (1976) de Airton Monte a Nilto Maciel
– Nilto, o primeiro sentado (à esquerda); Airton, o primeiro de pé (à direita) –
Amigo Nilto, como você já devia saber, nunca fui nem pretendo ser crítico literário, sou antes um criador e um sensitivo fruidor de literatura ou de outra qualquer forma de expressão artística. Portanto, as opiniões que aqui exponho sobre seu trabalho nada mais são que frágeis e sinceras sensações que seu trabalho há me despertado. Espero que me perdoes a superficialidade e a falta de originalidade dos meus comentários, mas que são, isso eu asseguro, profundamente francos.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Dimas Carvalho e o reino da Poesia (Nilto Maciel)
(Dimas, Nilto, Felipe Barroso e Poeta de Meia-Tigela, na casa do segundo)
Conheço a literatura de Dimas Carvalho há muito tempo. Li quase todos os seus livros. Meu conhecimento dele, porém, veio depois. Vi-o pela primeira vez numa tarde de janeiro de 1997. Inaugurava-se o Bosque Moreira Campos (Faculdade de Letras da UFC). O evento está registrado em fotografias, três delas reproduzidas nas páginas derradeiras do Almanaque de Contos Cearenses, daquele ano.
Não lembro mais quem me apresentou a Dimas. Talvez Pedro Salgueiro, relações-públicas da literatura cearense. Conhece todo mundo: acadêmicos engravatados, cordelistas de chapéu de couro, poetas de todos os naipes: enigmáticos, sorumbáticos, asmáticos. Frequenta, com desenvoltura, o banquete dos escritores de fraque e cartola e a alcova das hetairas. Pois deve ter sido ele o autor da apresentação de Dimas a mim.
De longe, avistei aquela figura esquisita, a sorrir e palrar. Supus tratar-se de algum cigano (Pedro se dá bem com todas as maiorias e minorias), em busca da mulher perdida. Vestia calça de linho branco e camisa colorida (talvez portasse um punhal na cintura). Na cabeça, chapéu de feltro. No pescoço, cordão dourado. Nos braços, relógio e pulseiras de ouro. “Não vá se assustar. Dimas gosta de se mostrar assim. Além disso, anda sempre com, pelo menos, duas mulheres jovens e belas. É o dândi da ribeira do Acaraú.” Não me assustei, porque nem a poesia mais enigmática me assusta.
Depois daquele dia festivo (Moreira Campos merece mais homenagens como aquela), Dimas e eu pouco nos vimos, ele na sua Acaraú, eu em Fortaleza. Estivemos em bares e encontros de escritores, palestras em faculdades, lançamentos de livros, entrega de prêmios (as paredes e estantes de sua casa estão repletas de certificados, medalhas, etc). Tanto abocanhou prêmios que julgadores de concursos já dizem: “Não, desta vez Dimas não deve ganhar. Precisamos democratizar os concursos literários.” Não concordo com certas práticas democráticas. Pois isso ocorreu em certo concurso, do qual fui julgador. Dimas concorreu na categoria “livro publicado”. Dei meu voto, convicto de estar escolhendo o melhor. Os demais julgadores, no entanto, votaram em outra obra: “O livro de Dimas é o melhor, sim, mas ele já ganhou prêmios demais. Agora é a vez de outros.”
Amante das fêmeas humanas, Dimas escreve com um olho na folha de papel e outro nas ancas das moças. Apesar disso, não há uma só página em sua obra em que se vislumbre ao menos uma curva mais erótica.
Admirador de padre Antônio Tomás, sabe-lhe de cor todos os sonetos. E os diz, ufano, como se cantasse o Hino Nacional Brasileiro. Como o primeiro quarteto de “Verso e reverso”:
Essa mulher de face encaveirada
Que vês tremendo em ânsias de fadiga
Estendendo a quem passa a mão mirrada
Foi meretriz, antes de ser mendiga.
É sua intenção publicar em livro a obra do grande poeta de Acaraú.
Dimas é viajante nobre. Todo ano vai à Europa. Conhece, palmo a palmo, as ruas das principais cidades européias. E tem memória fabulosa. Narra até os pormenores de seus passeios por Lisboa, Paris, Roma. Para o ouvinte é como se estivesse ao lado do poeta nas caminhadas pela História.
Por tudo isso, já valeria a pena conhecer Dimas Carvalho. Mas há ainda o poeta e o contista, ambos excelentes. É ler seus livros, suas fábulas perversas, suas pequenas narrativas, suas histórias de zoologia humana, seus poemas. O mais recente – Acaraú & outros países – é uma homenagem ao seu pequeno reino, a oeste do império dos tapuias. Nele há também um poema longo, monumental, desses que só os maiores conseguem compor: “Outros países”. São 21 sonetos de esquemas variados. Assim, os 11 primeiros se apresentam dentro do chamado modelo inglês. Todos – ou o todo – compostos como numa partitura. E então se vê, sobretudo, o rosto de Camões (não só nos versos “é para muito além que eu não desejo / cruzarmos os olhares redundantes / por mares nunca navegados dantes / dormem os caminhos que pra nós prevejo”) e o olhar iluminado do Jorge de Lima de Invenção de Orfeu (“Ser que nasceu bem antes do princípio / e que decerto nunca há de ter fim / pois ele é o próprio abismo, o berço, o início”).
Para ser poeta da estatura de colosso, bastaria este poema. Obra de quem se situa entre o eterno e o universal.
Fortaleza, 24 de agosto de 2009.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O ponto (Aníbal Beça)
De ponta a ponta me aponta um .
no apronto da escritura.
Seguido ou final
há-de se entretê-lo
nos cascos do poema
cavalo passado do passo ao trote
e
ao
solto
ga
lo
pe
Na senda branca:
meu desafio.
Fio em que meu ato
desata desatentos pontos
de vista
nem sempre convergentes.
Às vezes o . é pedra subindo ladeira
para depois rolar ladeira abaixo
e novamente subir ladeira acima.
Outras, o . empaca teimoso
asno turrão
no meio do caminho
no meio da selva selvagem.
Gosto
em especial
do . rolado
no verde relvado
dos campos de futebol:
no . como na bola
- sua pareceira -
há que saber parar
para fazer o gol.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Herança azul (Clauder Arcanjo)
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
(Carlos Pena Filho, em Soneto do Desmantelo Azul)
Das roseiras que pouco plantei, gostaria de ficar tão-somente com as pétalas das rosas mais simples, daquelas que, caídas ao chão, são relegadas pelos enamorados, ou nunca atraentes para compor os buquês das vitrinas. Ou, quem sabe, com o perfume mais ocasional das begônias, e com os espinhos das flores mais murchas, a fim de espicaçar a tristeza das horas infindas. Das amizades as quais muito insisti, queria ter hoje o bálsamo das risadas loucas, folgança despretensiosa da conversa franca, e pouco, mas muito pouco mesmo, do atrito das querelas insípidas, do ciúme injustificável pela ventura de um amigo.
Das manhãs de inverno — gotejantes no telhado dos anos, raros momentos onde o destino me brindava com a lassidão da preguiça, junto com a dádiva de permanecer, quieto e mudo, na rede aquecida e cheirosa dos lençóis de Djanira —, me honraria muito o mero prêmio dessas lembranças, augustos momentos que eu, infelizmente, não fui digno de eternizá-los.
Dos banhos de rio — mergulhos no Acaraú da minha província, no olho do remanso da Licânia dos meus fantasmas —, ousaria pretender, pela última vez, a falta de fôlego da ousadia maior de infante. Era quando pulava, de ponta-cabeça, do alto da ponte nova, orando para que o batismo da água me encobrisse o corpo, protegendo-me do possível perigo de uma pedra, temida, mas, graças a Deus, nunca encontrada.
Das viagens que pouco fiz, ficou, cá dentro de mim, a marca da primeira. Era o tempo do êxodo do garoto para a capital. A engenharia sonhada fazia-me necessariamente optar pelo desterro. No ônibus de linha, um halo de lágrima, e um gosto amargo nos lábios. Nos olhos dos meus pais, o silêncio da bênção trêmula. E, desde tal dia, carrego a pecha do degredo.
Das fantasias, aspiro à máscara de um pierrô teimoso, solitário e gauche, amigo do passe hesitante, adorador do gracejo de picadeiro, a arrancar o riso das faces por demais doridas. Rasgando as máscaras que vem encobrindo, há tempo, os rostos de velhos abandonados, de crianças envelhecidas, de namoros malogrados, de casais a fingir felicidade, ao tempo em que vivem mergulhados no vinho negro do rancor.
Da poesia, eu ficaria com o soneto de pé quebrado, escandido por um vate bissexto e desatento, que busca a melopéia inaudita na forja das lágrimas, na incandescência da impossibilidade, e sob o fole da pertinácia. Ao cabo, um poema a ferir o rigor da métrica, mas a trescalar a sândalo dos puros de coração.
Das utopias, eu, pelo menos agora, abriria mão. Ficaria tão-só com a fome que habita os olhos dos desesperados, dos incansáveis sonhadores, dos ditos e havidos como fazedores celerados. Há sementes de utopia por demais sobre a face da Terra, a tal semeadura é que vem sendo sobremaneira adiada.
Das aulas, dos colégios, das universidades, dos doutos do conhecimento, eu solicitaria a lição dos humildes, daqueles que soem fazer o que é entendido e decifrado na prática dos dias, no laborar da vida; e pouco, ou quase nada, entendem da teoria que não se eterniza em flores e frutos.
Dos jovens, queria apropriar-me da crença na imortalidade, aliás, melhor diria, do nem sequer imaginar a existência da Indesejada da gente. E, ao assim proceder, fazer, de cada ínfimo instante, uma celebração maior ao hoje, um tributo ao infinito que habita o nosso íntimo.
Das simpatias, eu evocaria a do primado da singeleza; singeleza que, para mim, só vejo existir, na sua forma pura, nos lábios dos que sabem emitir um riso de esguelha, mesmo ao serem trucidados pelo ferrão dos poderosos, ou sob a égide da (in)justiça oficializada.
Das borboletas, eu tenciono o vôo branco das menores e por deveras tímidas; das que não precisam da completa primavera para transmudar-se no milagre do vôo, nem muito menos abrem mão da cadência da lagarta na curta viagem no rumo da furtiva luz.
Dos desejos, eu pleitearia ficar com todos. Minha única herança. Em especial, o desejo mais azul, anseio dos que colorem de azul a quem nunca seria azul por jamais ter o azul nas pupilas. E se, mesmo assim, algum dia me encontrarem sem nada, que, pelo menos, me julguem louco, no entanto um louco que sonhou com o azul, quando outros, funéreos, morriam abraçados com a cor vazia do nada.
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clauder@pedagogiadagestao.com.br
Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão,
espaço Questão de Prosa, edição de 25/03/2007.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Mendoza: vender novelas como churros – Adelto Gonçalves (*)
I
No começo dos anos 90, a editora Círculo de Lectores, de Barcelona, quando imaginou lançar a coleção Maestros Modernos Hispánicos, dentro de sua Biblioteca Universal, convidou o escritor Eduardo Mendoza (1943) para dirigi-la, encarregando-o de selecionar títulos e autores. Sem maiores títulos acadêmicos, além de um diploma de advogado, o catalão Mendoza sempre foi um leitor contumaz do melhor das literaturas espanhola e hispanoamericana, além de ser hoje talvez o maior romancista espanhol vivo, o que, de certa forma, é reconhecido não só por boa parte da crítica como pelo grande número de tiragens e edições que seus livros alcançam. Por isso, não lhe foi difícil desempenhar uma tarefa que, de antemão, já se sabia que seria muito difícil e sujeita a polêmicas.
Escreveu, assim, 24 apresentações para os títulos que escolheu, além de dois prólogos, que agora saem reunidos em Quién se acuerda de Armando Palacio Valdés? Explica-se: os outros 22 prólogos foram escritos por autores que, ainda que não fossem especialistas, eram ao juízo de Mendoza personalidades afins à obra ou ao autor em questão. A coleção abrangia autores que viveram no período histórico que vai do final das guerras napoleônicas até o início da guerra civil espanhola (ou da Segunda Guerra Mundial, no caso da América espanhola), uma época extensa e extremamente agitada, marcada por guerras, revoluções, quebra de convenções sociais, ascensão de ideais reformistas, “grandezas e misérias de uma sociedade complexa e desorientada”, como diz o autor no prólogo que escreveu para as 24 apresentações e os outros dois prólogos.
Repetia, assim, tarefa que Jorge Luís Borges (1899-1986) desempenhou em 1974 em Prólogos com um prólogo de prólogos (Buenos Aires, Torres Aguero Editor, 1975), que reúne os quase quarenta prólogos que escrevera entre 1923 e 1974, exercitando um gênero que, como observou, “na triste maioria dos casos, confina com a oratória de sobremesa ou com os panegíricos fúnebres e abunda em hipérboles irresponsáveis, que a leitura incrédula aceita como convenções do gênero”. Não é, porém, o caso de Borges e muito menos o de Mendoza. Quem vier a ler ambos os livros só terá a ganhar, pois equivalem a um precioso roteiro para um curso de literatura em língua castelhana, no primeiro caso, e de literatura universal, no segundo. Até porque, para repetir Borges, o prólogo, “quando são propícios os astros, não é uma forma subalterna de brinde, mas uma espécie lateral da crítica”.
II
Como não poderia deixar de ser, Borges também faz parte dos autores selecionados por Mendoza, com sua Historia universal de la infamia (1935), que, por sinal, encerra o ciclo cronológico da coleção. E o que o selecionador faz questão de ressaltar é que, quando em seus verdes anos descobriu Borges, o que mais lhe chamou atenção foi a erudição do autor, que “parecia utilizar seus insondáveis conhecimentos para inventar fábulas e urdir alegorias impensáveis”. Só mais tarde descobriria que muitos dos conhecimentos de Borges eram, na realidade, apócrifos: versículos da Bíblia que não existem, edições de antigas enciclopédias que nunca vieram à luz.
É de lembrar que no “prólogo de prólogos”, Borges revela que tinha em conta escrever um livro de “índole análoga” em que reunisse uma série de prólogos de livros que não existem, com citações exemplares dessas obras possíveis. “Há argumentos que se prestam menos à escritura laboriosa que aos ócios da imaginação ou ao indulgente diálogo, tais argumentos seriam a impalpável substância dessas páginas que não se escreverão”, justificava. É de destacar ainda que em Historia de la eternidad (1936) Borges faz a resenha de um livro que só existia em sua imaginação e que para Ficções (1944) escreveu prólogo em que deixou esta observação: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.
III
À falta de espaço, não se pode aqui tecer comentários sobre todos os autores escolhidos por Mendoza para a coleção que dirigiu, mas deve-se lembrar que, entre os escolhidos, além de Borges, estão grandes nomes como Benito Pérez Galdós (1843-1920), Ramón del Valle-Inclán (1869-1936), Pío Barroja (1872-1956), Juan Valera (1824-1905), Leopoldo Alas Clarín (1852-1901), Rosalía de Castro (1837-1885), José Zorrilla (1817-1893), Miguel de Unamuno (1864-1936), Carmen de Burgos (1867-1932), Emilia Pardo Bazán (1852-1921) e Ramón J. Sender (1901-1982), entre os espanhóis, e Horacio Quiroga (1879-1937), Lydia Cabrera (1899-1991), Ricardo Palma (1833-1919), Rómulo Gallegos (1884-1969) e Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), entre os hispanoamericanos.
Até aqui, temos nomes conhecidos, pelo menos entre os estudiosos da literatura hispânica, mas o que surpreende é que Mendoza tenha ressuscitado também autores que o esquecimento havia atirado ao limbo, como a cubana Gertrudis Gómez de Avellaneda (1814-1873) e Antonio Ros de Olano (1808-1886), nascido em Caracas, filho de um militar catalão e igualmente oficial do exército espanhol, que se tornou mais conhecido por ter inventado um gorro militar que leva o seu nome (ros). Ou ainda Armando Palacio Valdés (1853-1938).
IV
Mas quem foi Armando Palacio Valdés? Ao responder essa pergunta no extenso prólogo de 15 páginas que escreveu, Mendoza lembra que Valdés, até sua morte, foi um dos mais célebres escritores não só na Espanha, mas também em outros países, como Estados Unidos, onde era admirado por estudiosos e por um público-leitor expressivo, e na França, onde recebeu a Legião de Honra. Além disso, seu nome figurou freqüentemente entre os candidatos ao Prêmio Nobel. E vários de seus romances foram levados ao cinema.
Hoje, porém, seu nome figura apenas em rodapés dos modernos manuais de literatura espanhola. E o Wikipedia, na Internet, só lhe reserva duas linhas e uma foto, além da lista de suas obras. A única biografia que lhe fizeram é de 1949 e está fora de catálogo, prejudicada por uma retórica franquista. Por que teria sido condenado a tão implacável olvido? É o que Mendoza procura responder em seu ensaio à guisa de prólogo.
Nascido em Entralgo, aldeia de Astúrias, Valdés era proveniente de uma família bem posta na vida: seu pai fora um advogado que preferira deixar a profissão para cuidar da propriedade rural da família da mulher. Estudou em Oviedo e, depois, em Madri, onde se diplomou em Leis, como o pai, mas nunca exerceu a advocacia. Atraído por amigos literários, fez-se sócio do Ateneo, entidade equivalente a uma academia literária, da qual foi presidente, cargo a que renunciou por causa da postura subversiva de seus sócios, que criticavam a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930). Por aí se vê que seria um homem de idéias de direita.
Foi, porém, mais tarde, republicano militante, ainda que nunca tenha se candidatado a cargo público. Fosse como fosse, ainda que de convicções algo retrógadas, diz Mendoza, Valdés foi sempre um republicano confesso, de opiniões moderadas, afável no trato, que vivia de rendas e escrevia por gosto. Casou-se duas vezes e foi por influência de sua segunda mulher que se tornou profundamente religioso. Mas nunca foi extremista: inimigo de todo fanatismo, defendeu o voto feminino e condenou sempre a injustiça social flagrante que existia na Espanha de seu tempo.
Liberal, segundo Mendoza, Valdés encarnou um velho sonho espanhol: o de uma direita civilizada. Seus escritos, sobretudo os dos últimos anos, estão, porém, impregnados de um ar de palácio e sacristia que tanta irritava seus contemporâneos, diz. Mas não era um autor que encarnasse a velha direita espanhola, que haveria de empolgar o poder depois da guerra civil com o general Francisco Franco à frente. Literariamente, pertencia à escola naturalista francesa: seus personagens não tinham muita profundidade psicológica. Mas era um romancista raro: um católico com sentido de humor. “É um homem cujos rígidos princípios morais vão perdendo força, talvez sem que ele saiba, por influência voltaireana”, define Mendoza.
O resultado disso é que seus romances mostram de vez em quando alguns detalhes extravagantes que os redime de qualquer anacronismo. Para provar o que diz, Mendoza transcreve trecho de um dos romances mais célebres de Valdés, Marta y María, em que uma de suas protagonistas, a jovem religiosa María, para imitar os santos da antiguidade, decide se flagelar e, sendo moça de boa família, convoca uma criada para manejar o chicote, até que alcançasse o êxtase místico. Segundo Mendoza, são cenas que fariam corar o marquês de Sade (1740-1814).
Fosse como fosse, talvez isso explique por que os romances (ou novelas, em bom espanhol) de Valdés vendessem em sua época como churros. Tratava-se de um cínico? “Nunca o saberemos”, conclui Mendoza para logo observar que não há como deixar de sentir simpatia por um homem que, ao final da vida, ainda publicou um ensaio intitulado El gobierno de las mujeres em que defendia que a política fosse confiada integralmente ao sexo feminino porque governaria a coisa pública tal como a privada.
V
Eduardo Mendoza Garriga nasceu em Barcelona e viveu dez anos em Nova York (de 1973 a 1982), época em que trabalhou como tradutor da Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, vive em Barcelona dos direitos autorais de seus livros que igualmente vendem como churros. Surgiu para a literatura espanhola em 1975, três meses antes da morte do generalíssimo Franco, com a publicação de La verdad sobre el caso Savolta (até hoje não traduzido no Brasil). Seu grande livro é La ciudad de los prodígios (1986), publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1987.
Escreveu ainda outros bons romances que atraem por sua agilidade cinematográfica, como El misterio de la cripta embrujada (1978), El laberinto de las aceitunas (1982), Sin noticias de Gurb (1990), Una comedia ligera (1996), La aventura del tocador de señoras (2001), El último trayecto de Horacio Dos (2002) e Maurício o las elecciones primarias (2006). Em 1989, publicou La isla inaudita, romance bem diferente dos demais, que mostra a sua preocupação em não se repetir.
É autor de um perfil biográfico de Pio Baroja, Baroja la contradicción (2001). Escreveu ainda duas obras teatrais: Restauración (1990) e Gloria (2007). Em colaboração com sua irmã Cristina, é também autor de Barcelona modernista (1989). Suas obras, na maioria, foram publicadas pela Seix Barral, de Barcelona. Maiores informações na página oficial do autor na Internet: www.clubcultura.com/clubliteratura/.../mendoza/
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QUIÉN SE ACUERDA DE ARMANDO PALACIO VALDÉS?: escritores de lengua espanõla: veinticuatro presentaciones e dos prólogos, de Eduardo Mendoza. Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 118 págs., 2007, 14,90 euros.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispanoamericana pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.br
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domingo, 4 de outubro de 2009
Francisco Carvalho: Utopia e eutopia (Nilto Maciel)
Tenho lido Francisco Carvalho desde minha adolescência. Primeiro nos suplementos literários – que havia disso no Ceará. Publicavam-se neles, semanalmente, poemas, crônicas, contos, estudos dos bons escritores cearenses de então, quase todos do Grupo Clã.
Mais adiante, já taludo, já escrevendo também, já sonhando com ser poeta do tamanho de Francisco Carvalho ou contista da estatura de Moreira Campos (coitado deste sonhador), conheci o futuro autor de Exercícios de Utopia (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2009). Foi num dia de 1977, reitoria da UFC, onde trabalhava o poeta, época da revista O Saco, vésperas de eu arribar do Ceará em busca de melhores dias no Sul. O autógrafo constata: 1º de fevereiro. A obra: Pastoral dos Dias Maduros.
Todo o livro é pura poesia, desde os primeiros versos:
“A qualquer hora o espectro do sono flutuará
na penumbra da sala.
As mãos do morto afagarão a estranha latitude
do seu corpo.” (“A visitação)”
Até os derradeiros:
“Chuva, trigo do céu, hulha
na terra espúria do sonho.
Música da nuvem e leite do seu ubre.
Chuva que te quero rubra.” (“Chuva”)
Apresentou-mo o jovem e delirante Carlos Emílio, que frequentava, com desenvoltura, os velhos cultores do delírio em nossa terra, como se fossem seus pares. Além disso, lia Virginia Woolf em inglês, Proust em francês, Thomas Mann em alemão, Cervantes em espanhol. Um prodígio! Eu me contentava – e como ser diferente, se mal sabia ler Alencar em português? – com meus livrinhos ensebados e cheios de traça, comprados à beira das calçadas, no chão, nas ruas do centro de Fortaleza.
Depois, já fugido da seca, exilado no Planalto Central, então a ler traduções de Woolf, Proust, Cervantes, Mann, continuei a me entusiasmar com Francisco Carvalho e todos aqueles que durante muito tempo me ensinaram a ler nos suplementos literários.
Visitei o poeta de Russas, do Brasil e do mundo mais de uma ou duas vezes, se me não engano. Mas o li – e leio – sempre. Não digo todo dia, que mentir muito é feio. Agora – as retinas fatigadas pelo sol, pela sujeira dos dias, pela visita dos micro-organismos –, agora me chegou às mãos este pequeno conjunto de poemas intitulado Exercícios de Utopia. Li-os, entre um gole e outro de cicuta – mato-me aos poucos, por prescrição médica: um comprimido aqui, uma cápsula ali, uma colher de ácido ao meio-dia, outra às vésperas de delirar na cama.
Tudo é salutar nos livros de Francisco Carvalho. Neste, até a capa de Carlos Alberto Alexandre Dantas é de encher os olhos de bom espanto. A apresentação de Gilberto Mendonça Teles é de mestre. E poeta. Os versos, livres ou metrificados, têm ritmo de sonata. As rimas são sonoras, embora haja as comuns. Mas isso não é o mais relevante em poesia. FC é poeta da chuva e da estiagem, da pedra no meio do caminho e das galáxias em rodopio, dos pobres andrajosos e dos tetrarcas de reinos destruídos, dos pássaros, que são anjos em busca do canto, e dos anjos – pássaros emudecidos.
Tudo é pura poesia em Exercícios de Utopia, desde os primeiros versos:
“Acredito nos anjos
que não precisam de asas
para voar.
Moram em casebres de taipa
e recolhem mendigos
para a ceia.” (“Exercícios de utopia”)
Até os derradeiros:
“raios do vento
raios do fogo
raios da chuva
raios de ira de Deus
raios do paráclito
raios que o partam.” (poema 175).
O breve estudo de Gilberto Mendonça Teles se encerra assim: “O certo é que se trata de um excelente Exercícios de utopia, melhor dizendo, de Eutopia, de belo e de bom, deixando para o leitor a sensação de que o natural e o transcendente se juntam no sentido plural de toda grande poesia.”
Fortaleza, 17 de agosto de 2009.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Capitu narradora contemporânea: representações de Capitu por ela mesma (Fabiana de Pinho)
Resumo: O narrador de Dom Casmurro, em leituras possíveis, deseja provar a culpa de sua esposa. Assim, desenha uma menina/mulher Capitu como adúltera em potencial, dissimulada e diabólica. De acordo com Mary Del Priore, ‘Capitu foi descrita com todos os ingredientes de um diabo de saias’’. Essa descrição não foge às representações históricas nas quais as mulheres não só provocavam o mal, mas também seriam capazes de levar um homem à perdição. As representações femininas, construídas sob forte influência do patriarcalismo, estavam fortemente associadas à malignidade que precisaria ser domesticada, sobretudo pelo marido. A Capitu ambígua, vilã, vítima, uma discreta feminista antecessora do feminismo, com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, inspirou autores do século seguinte a criar contos, romances, filmes e outras manifestações artísticas. Muitas delas foram criadas depois do advento do feminismo e da abordagem teórica de que feminilidades e masculinidades são construções históricas, portanto, variáveis. Pensando no avanço das discussões sobre a redefinição de papéis masculinos e femininos e tentativas, inclusive teóricas, de desnaturalização das hierarquias de poder, pretende-se com este trabalho investigar em textos - como os contos Dez Libras Esterlinas, de Nilto Maciel, e Capitu: para que saber, de Lya Luft, – que dialogam com Dom Casmurro e cuja narração é conduzida por Capitu, e não mais por Bento Santigo, se ocorreram mudanças na representação da principal personagem feminina de Machado de Assis.
Bibliografia
BOSI, Alfredo. Historia concisa da Literatura Brasileira. São Paulo, Cultrix. 2004.
FERNANDES, Rinaldo. Capitu mandou flores. São Paulo, Geração editorial, 2008.
SCHPREJER, Alberto.(org.).Quem é Capitu? Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2008.
STEIN, Ingrid. Figuras femininas em Machado de Assis. Rio de Janeiro, Paz e Terra,1984.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
O copo azul do menino Caio (Nilto Maciel)
(Caio Porfírio Carneiro)
Há dias não conseguia ler nada, não por mandriice ou fastio das letras, mas por obra de um vírus não-letal, que me deixou quase cego. E cadê tua Maria Kodama? – perguntarão os desconfiados. Para não lhes dar resposta indecorosa, dou um passo adiante.
O primeiro livro lido por mim após o arremetimento do pequeno ser é de meu amigo Caio Porfírio Carneiro. Não um amigo do peito, porque pouco nos vimos, sobretudo porque moramos em cidades bem distantes uma de outra. Ele sempre em São Paulo (“sempre” é exagero de linguagem), para onde se mudou em 1955. Naquele ano eu não o conhecia ainda, como não conhecia nenhum escritor, a não ser os dos livros célebres, como José de Alencar, Machado de Assis, Alexandre Herculano, todos mortos antes do meu nascimento. Enquanto Caio morava na maior metrópole brasileira, eu sobrevivia em Baturité (até 1961), depois em Fortaleza e Brasília. E nunca o via, embora lesse seus livros. Lia por sabê-lo escritor de alta linhagem, além de ser meu conterrâneo. Vi-o pela vez primeira numa tarde do início do século XXI, em Fortaleza, para onde voltei em 2002. Apresentou-mo (ora, eu já o conhecia dos livros, desde os anos 1970) o jovem Pedro Salgueiro, que conhece de perto quase todos os grandes escritores brasileiros nascidos no século XX. Frequenta ou frequentava casas e escritórios – onde toma ou tomava chá, come ou comia biscoito, cochila ou cochilava nos sofás – de nomes eminentes como Dalton Trevisan, José J.Veiga e Rachel de Queiroz. E eu me encantei com Caio, sua prosa nervosa e galopante. Sua simplicidade, sua simpatia. Recebe jovens e velhos sem pedantice, em todo o tempo a brincar.
Toda essa digressão poderá parecer enfadonha ao leitor. É que quero deixar de lado a pretensão de ser crítico literário. Ou escrevinhadeiro de resenhas ou comentários. Serei apenas um cronista que lê (desculpem-me os cronistas se os ofendo, eu que nem consigo escrever crônica) e se serve das leituras para rabiscar frases engatadas a frases.
E aqui começa de fato a crônica da leitura do novo livro de Caio. O título é simpático, embora simples: O copo azul (Scortecci, São Paulo, 2009). Pequenos contos, de uma a cinco páginas. De tão curtos, são poucos os narradores ou protagonistas com nomes explícitos. Mas não é por serem concisos que os nomes são omitidos. É porque Caio escreve alegorias, parábolas, como em “O ponto”. Caio escreve metáforas. É um filósofo. Quando há nomes, como Maria Viviane, o nome não é do narrador ou do personagem central. Maria Viviane é apenas uma lápide.
Alguns desses contos se aproximam perigosamente da nova tendência do chamado “realismo urbano” e destoam do conjunto, como “E daí” e “Capuz”. (Outros escritores muito conhecidos têm se perdido nessas ruelas, como Dalton Trevisan.) Outros relatos de Caio se abeiram da brincadeira literária, como “Pois é”, construído à maneira de peças teatrais. “A travessia” segue esta linha. O melhor do livro está no pintar a alma do homem, perdidos em si mesmos. Seres angustiados, desiludidos (ou ainda iludidos) com sonhos, amores, novidades. Homens velhos à procura do passado. Ou de mulheres que somem, desaparecem, se esfumam nas ruas.
E o que dizer da linguagem, sempre esmerada, tratada com cuidado de ourives, como se cada frase surgisse após longo alisamento manual, como o fazem os artesãos de pequenas peças de barro? Dedicação de artista, de escultor, de apaixonado pela própria obra. Quem escreve com raiva, ódio, vontade de ferir, maltratar, não alcança a arte. Mas falar disso não cabe aqui, pois muito já foi dito a respeito do que seja arte.
Caio Porfírio Carneiro escreve com arte. Até quando brinca, ele brincalhão por natureza, quase menino ainda aos 80 anos. Escreve certo por linhas retas, sem parecer jornalista. Sua linguagem é clara, como se conduzisse o leitor, lado a lado, em conversa franca, por caminhos estreitos ou largos, sob sol forte ou chuva. Ou ao luar. Não quer enganar o leitor, levá-lo a atalhos que vão dar em abismos. Não se embrenha pelos cipoais ou pela caatinga. Não é um regionalista típico. Também não é discípulo cego dos antigos. Caio é Caio. Pra todo tipo de leitor.
Fortaleza, 15 de agosto de 2009.
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domingo, 6 de setembro de 2009
Machado de Assis: ironia e sedução (Adelto Gonçalves*)
Qualquer que seja a antologia que se faça de contos de Machado de Assis (1839-1908) — e quaisquer que sejam os critérios —, nada há de dar errado. É claro que nem todos os contos de Machado de Assis — hoje reconhecido como o maior romancista brasileiro de todos os tempos — são de primeira grandeza e há até alguns que são bem frouxos, escritos ao correr da pena para publicação imediata em revistas de duração efêmera em troca de recompensa pecuniária e que, se dependessem da vontade do autor, continuariam imersos no olvido dos arquivos. Mas há muitos que continuam brilhantes e a desafiar o tempo. E que, mesmo traduzidos para outras línguas, não perdem o viço dos primeiros anos.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Sá Bia do Sabiá (Eduardo Lara Resende)
Silêncios, ausências e duas bonequinhas de pano – eis o que foi dado a Beatriz receber quando veio ao mundo. As águas de uma enchente levaram logo as bonequinhas, enquanto silêncios e ausências cresceram com ela. E respostas eram raras como o pão. Beatriz virou Bia. Amava como intuía um amor que se entrega. Cultivou promessas, colheu desencantos. Insistiu nos sonhos, mas viu águas de outra enchente levarem o barraco e, dentro dele, Romeu, vulgo Sabiá. Bia então ganhou a rua. Foi morar sob o viaduto, na beira do rio. Uma confraria de iguais amenizou-lhe as dores de ausências e silêncios. Bia até sorriu quando virou Sá Bia do Sabiá. Numa tarde de inverno – e quase feliz – Sá Bia foi surpreendida pelo carro em sua direção. Atirada no rio e levada pela imundície, a mulher se debatia. De novo seus silêncios ganharam força e, com eles, a dor de uma espécie de saudade. Agarrada à tora de madeira plantada no leito do rio, Sá Bia resistiu até sentir faltarem-lhe as forças. Foi quando um soldado passou em sua cintura uma corda, puxada por seis lanternas que brilhavam na noite. Luzes que não existiam mais quando Sá Bia acordou, na enfermaria de um hospital. Dos pares de olhos à sua volta, um quase não se via, encoberto por farto buquê de rosas coloridas. A dona de olhos úmidos de tristeza colocou as flores sobre o peito de Sá Bia. Era a mulher do soldado que a havia salvo das águas do rio. E que, numa fatalidade, desaparecera arrastado pela correnteza. Os velhos silêncios de Beatriz então viraram lágrimas. Silêncios menores salpicaram pares de olhos suplicantes pelo ato seguinte. Repleta de dores, Beatriz pediu desculpas.
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terça-feira, 7 de julho de 2009
A canção da Ibero-América (Adelto Gonçalves)
Dois anos depois de o poeta cearense Floriano Martins ter lançado Un Nuevo Continente: Antología del Surrealismo en la poesia de nuestra América (San José, Costa Rica, Ediciones Andrómeda, 2004), sai à luz outra antologia de produções de poetas ibero-americanos, desta vez sob a organização de Gustavo Pavel Égüez, com tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Viana e José Jeronymo Rivera, todos membros da Academia de Letras do Brasil, de Brasília.
Trata-se da Antologia Poética Ibero-americana, lançada em Cuiabá, Mato Grosso, em edição limitada, com venda proibida, pela Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos (Associação de Adidos Culturais Ibero-Americanos), com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, da Organización de Estados Iberoamericanos (OEI), Organización del Tratado de Cooperación Amazônica (OTCA) e da Consejería de Educación de la Embajada de España.
Ao contrário da obra preparada por Floriano Martins, que teve por objetivo reunir as principais vozes do Surrealismo na América Latina, a nova Antologia Poética Ibero-americana não se limitou a extrair as melhores produções de poetas ligados a um determinado movimento, mas a traçar um panorama do que de melhor a poesia produziu nos países ligados à velha Península Ibérica, dentro do espírito que norteia a Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos de dar a conhecer as culturas oriundas do idioma de Miguel de Cervantes. Para tanto, cada embaixada ibero-americana acreditada em Brasília se encarregou de selecionar três poemas e três autores representativos de cada país.
O projeto só se tornou possível com o apoio do Governo do Estado de Mato Grosso, que elegeu a obra como edição comemorativa da segunda Feira do Livro Literamérica 2006, realizada em Cuiabá. Por isso mesmo, essa é uma edição bilíngüe que pretende servir de instrumento de integração para o conhecimento e divulgação dos idiomas castelhano e português, como diz na apresentação Pedro Alfonso Almario Rojas, presidente da Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos.
Da Argentina, que por uma questão de ordem alfabética abre a antologia, por exemplo, estão três dois maiores escritores do Rio da Prata: Jorge Luís Borges, Julio Cortazar e Alfonsina Storni. Já o Brasil está representado por Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e Augustos dos Anjos. Em nome de Portugal, aparecem Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Al Berto, enquanto Rafael Alberti, Francisco de Quevedo e Antonio Machado representam a poesia de Espanha.
Também estão representados Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. E, por fim, há uma homenagem à poesia produzida no Estado de Mato Grosso, com poemas de Francisco de Aquino Corrêa, José de Mesquita e Silva Freire.
De assinalar é a qualidade dos tradutores. Anderson Braga Horta (1934), poeta nascido em Carangola, Minas Gerais, encarregou-se dos poemas de El Salvador, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Uruguai e Venezuela. José Jeronymo Rivera (1933), nascido no Rio de Janeiro, ficou com os poemas da Argentina, Bolívia, Chile, Equador (exceto o de Jorge Enrique Adoum, traduzido por Fernando Mendes Viana) e Paraguai. E Fernando Mendes Viana (1933), nascido no Rio de Janeiro, ficou responsável pelos poemas da Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, Guatemala, Peru e República Dominicana. Esse foi um de seus últimos trabalhos, já que faleceu a 10 de setembro de 2006.
Como cada embaixada apontou seus eleitos e encarregou-se das notas biobibliográficas, não houve um critério de época ou de filiação poética. Assim, a antologia reúne autores do século 19 e contemporâneos. Ou ainda do século 17, no caso do espanhol Francisco de Quevedo. Não se sabe por que critério, há também poetas do Haiti, embora este país não esteja ligado à zona de influência ibérica: Rodney Saint-Éloi, Emmelie Prophète e Georges Castera, que escrevem em francês e em crioulo.
Na impossibilidade de reproduzir aqui alguns dos poemas, vamo-nos contentar com “A bala”, de um poeta nicaragüense, não o famoso Rubén Darío (1867-1916), mas Salomón de la Selva (1893-1958) na tradução de Anderson Braga Horta:
A bala que me fira
será bala com alma.
A alma dessa bala
será como seria
a canção de uma rosa
se cantassem as flores
ou o olor de um topázio
se cheirassem as pedras
ou a pele de uma música
se nos fosse possível
as cantigas tocar
desnudas com as mãos.
Se o cérebro me fere
me dirá: Eu buscava
sondar teu pensamento.
E se me fere o peito
me dirá: Eu queria
dizer-te que te quero!
___________________
ANTOLOGIA POÉTICA IBERO-AMERICANA, de Gustavo Pavel Égüez (org.); tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Viana e José Jerônimo Rivera. Cuiabá-Mato Grosso: Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos, 2006, 278 págs.
______________________
(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quinta-feira, 2 de julho de 2009
Espera (Clauder Arcanjo)
Assim que o tempo clarear,
entrarei nas águas das lembranças.
Visitarei os remansos da mente,
desenterrarei incautos fantasmas,
e porei tudo sobre a mesa da sala.
Depois de um café fresquinho,
um catar de reminiscências fundas:
bisonhos pecados infantis;
namoradas, musas impossíveis,
endeusadas e inatingíveis.
Com os anos, tão sensaboronas.
Isso sem me esquecer:
dos remansos do Acaraú,
do pavor dos becos escuros,
dos quebrantos das ciganas,
e do mau-olhado dos invejosos.
— Cruz-credo! Cruz-credo!...
Assim que tudo clarear.
No entanto, caso permaneça o mau tempo,
fundearei nas correntezas do esquecimento,
e o passado submergirá, por enquanto,
dentro de mim. Bem junto a mim.
Macaé-RJ, 11/06/2009
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
sábado, 13 de junho de 2009
Fantasmas (Ailton Maciel)
I
Tive um sonho ... sonhei que me encontrava
Numa distante selva onde reinava
Só a violência e o medo.
E lá eu estava, pesaroso e aflito,
Com pasmo e medo, sem soltar um grito
Nesse horrível degredo!
II
Nesta agonia eu sucumbia aos poucos,
Os rugidos ouvindo, sevos, roucos
Dos leões esfaimados:
Em certa hora eu caía contorcendo,
A tremer, sem gritar, ia morrendo
Na boca dos malvados!
III
Mas, lesto alguém chegou, puxou da espada,
E correram os leões em disparada
Com um imenso furor!
E pasmado correu o meu algoz
E eu disse já a chorar, tremendo a voz:
– Diz-me quem és, Senhor!
IV
De repente eu vi homens estupendos,
E sete espectros, ápodes, horrendos
Em silencio profundo!
Depois só vi fantasmas, magros, feios,
De chagas e feridas todos cheios,
Só seres do outro mundo!
V
No mistério eu fiquei absorto,
Com sudorese fria, quase morto,
a cair e a gritar...
Então do corpo o medo eu dissipei...
Moribundo do chão me levantei,
Começando a falar:
VI
Ó tu, quem és, fantasma horripilante,
Com olhares de fera devorante
Quem és tu, estrangeiro?
Eu ... eu quem sou? Já te direi, espera...
O meu peito referve e dilacera
O corpo meu inteiro
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