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sexta-feira, 5 de maio de 2006

Drummond na visão de outro poeta (Nilto Maciel)


(Carlos Augusto Viana)


Alguns estudos literários lavrados por Carlos Augusto Viana e publicados em jornais já vinham chamando a minha atenção para a face crítica do poeta de Primavera Empalhada. Se não duvidava de sua capacidade de elaborar ensaios e artigos de crítica literária do mais alto nível, ao mergulhar na leitura de Drummond: a insone arquitetura pude conferir o quanto está ele preparado para os largos vôos da análise de obras de quaisquer gêneros.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Teoria da desfiadura (Nilto Maciel)




Eles vão chegar, mais hora, menos hora. Ofegantes, embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém não me pegarão nem me matarão. E voltarão decepcionados, porque eu sei o que sou e fui.

Um dia, eu tinha doze anos e o tempo não passava nunca, aquela pintura desbotada diante de mim. Na lama, afundavam-se meus pés, feito bichos medrosos. Ao meu redor tudo se expandia e eu nem olhava com pena de minha pequenez. Todo dia esse sempre estar só, muito triste. Acocorava-me ao pé da bananeira pensa, a olhar, distraído, para as minhocas que se contorciam no charco do quintal. Minha mãe não chorava, mas espantava as galinhas, os urubus e o sol para não se lembrar dos gritos de meu pai. E aguava o chão de manhã e de tarde, com medo da seca. 

Acerca de uma nota ao romance de Emília Freitas (Nilto Maciel)


Em 1980 saiu a 2ª edição (a 1.ª é de 1899) do romance A Rainha do Ignoto, de Emilia Freitas. Como obra literária, não merece ser posto ao lado de romances como A Normalista, de Adolfo Caminha; O Simas, de Pápi Júnior; Luzia-Homem, de Domingos Olímpio; e, sobretudo, Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva, todos mais ou menos da mesma época e cearenses.

A singularidade de A Rainha do Ignoto, no entanto, não pode ser negada. É, sem sombra de dúvidas, o primeiro romance fantástico escrito no Brasil, embora sua autora o chame de romance psicológico.
 

sábado, 22 de abril de 2006

Tadeu e a mariposa (Nilto Maciel)




Agora ele deve andar metido nalgum quarto de pensão a implorar à mulher com quem se deitou a se deixar fotografar lá mesmo na cama, nua e suja como estiver. Contaram-me que vive dia e noite nas zonas, desesperadamente cantando mulheres, máquina pendurada ao ombro: “Vamos tirar umas fotos, garota?” E todas lhe fogem como o diabo foge da cruz, receosas de se tornarem mais públicas, de comprometimentos com a polícia, os bons costumes. Sua má fama já se espalhou por todos os meretrícios. Não vai para trepar e muito menos para fazer outras sacanagens. Seu fraco é fotografia erótica, coisa nojenta. De certo não abre o jogo e se faz de apaixonado: “Quero te ver de novo, sempre; deixa eu te fotografar”. Ou mente e diz que é repórter de revista de nu. “Você vai criar fama, virar manequim, estrela e ganhar muito dinheiro sem precisar abrir as pernas durante toda a noite em troca de uns cruzeirinhos”. Mas a coisa ficou preta pro seu lado, nem a mais rabugenta puta aceita sua companhia, sabedora de que é um explorador como outro qualquer, falso e mentiroso. Dizem que vive constantemente embriagado, liso, sujo, remendado, a peruar de bordel em bordel, de ruela em ruela, doido por uma cliente que não lhe saiba o nome.

Os ensaios de Sânzio de Azevedo (Nilto Maciel)


(Sânzio de Azevedo)

 
O ensaísta, pesquisador, historiador, estudioso do fenômeno literário Sânzio de Azevedo é autor de uma dezena de obras, quase todas voltadas para o estudo da Literatura Cearense.

Dez Ensaios de Literatura Cearense versa temas distintos. Um deles, o primeiro, trata do conto, atendo-se a uma infinidade de escritores, ao contrário dos demais estudos do livro. Trabalho de fôlego, fruto de demoradas pesquisas. Não se trata de um estudo da natureza do conto, como já o fez Braga Montenegro, mas de uma análise de cunho histórico. 

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Santo Yan (Nilto Maciel)


Zadik Perez odiava Sancho Peretz, desde muitos anos. Ódio mudo, fermentado entre quatro paredes, espumoso, envelhecido a rolha.

Num dia de sol quente, ouviram-se os primeiros resmungos, rangeres de dentes, curtos insultos. E as faíscas dos quatro olhos queimaram alguns curiosos. Nem anoiteceu e toda redondeza dos odientos sabia do pretérito e do presente deles, e até o futuro contava.

Um doutor em Poesia (Nilto Maciel)

(Sérgio Campos)


Conheci Sérgio Campos em 1987 e com ele me correspondi desde aquele ano até poucos dias antes de seu falecimento. Escreveu-me 52 cartas ao longo de oito anos. Escrevi-lhe, talvez, o mesmo número de vezes. A apresentação de um ao outro se deu pela mão (melhor dizer pela palavra) de Floriano Martins.

Quando nos conhecemos, Sérgio havia publicado quatro livros, que aos poucos me foi ofertando. A primeira dádiva me veio junto à primeira epístola, de 8/5/87. Não se tratava de seu livro inaugural, porém do quarto – Montanhecer. E dizia, já no segundo parágrafo: “É que circulam por aí tan¬tos livros, mormente de poesia, alguns tão sem raiz, alma, que a gente percebe estar-se deteriorando essa antes tão eficiente forma de mútuo conhecimento. Se recebo, desconfio; se envio, receio."

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rede de cobras (Nilto Maciel)



O nome de Pedro Campos aparecia duas vezes na notícia das “atrocidades cometidas pelos fazendeiros contra os índios”. O jornal só podia ser dos comunistas.

– Até rima com jornalista.

Os homens da fazenda olhavam para o chão, parados, feito marmotas. Nem tossiam.

– Cambada de putos!

Um pouco de Braga Montenegro (Nilto Maciel)




Estive uma vez com Braga Montenegro. Se não me engano, em 1976. Logo depois, já em Brasília, recebi dele uma carta.

Nascido em 28 de fevereiro de 1907, em Maranguape, Ceará, Joaquim Braga Montenegro viveu na Amazônia durante sete anos, de 1925 a 1932. João Clímaco Bezerra anotou: “E quase menino ainda, franzino e pobre, rumou para a aventura da Amazônia, onde acabaria de crescer diante dos rios lendários e da paisagem bravia.” No entanto, os melhores anos de sua vida de escritor ele os viveu em Fortaleza, onde leu, primeiro, desordenadamente, e, depois, “com uma sistematização e um espírito seletivo dificilmente encontráveis nos autodidatas legítimos”, no dizer de Clímaco. Faleceu aos 73 anos de idade. 

sábado, 15 de abril de 2006

Quimera (Nilto Maciel)



Visse o retrato dele por ela pintado

– Você tinha um aninho.

Destacou de entre os dedos o indicador e sorriu. Um riso de brilhosos olhos e rosadas faces, a se expandir por todo o seu corpo. E, tão depressa ele cresceu, na mesma proporção desapareceu. Murchou o dedo, caíram as pálpebras, esconderam-se os dentes empós os lábios.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Mestre Moreira Campos (Nilto Maciel)



Estive com Moreira Campos em duas ocasiões, apenas. Apesar disso, desde antes do primeiro encontro já sentia por ele grande amizade e, acredito, ele me dedicava o mesmo sentimento.
Não lembro quando o li pela primeira vez. Possivelmente por volta de 1964, quando passei a ler suplementos literários de jornais de Fortaleza. Nesse tempo pontificavam nas Letras cearenses os nomes de Artur Eduardo Benevides, Braga Montenegro, Eduardo Campos, Francisco Carvalho, Fran Martins, Jáder de Carvalho, João Clímaco Bezerra, Milton Dias e outros. O nosso Moreira Campos estreara em livro, com o elogiadíssimo Vidas Marginais, em 1949. Contava 35 anos de idade. Não tinha nenhuma pressa em se mostrar ao público e à crítica. Escrevia e reescrevia, como outro ilustre contista, o mineiro Murilo Rubião. E ao final de sua longa vida havia publicado apenas 137 contos.

Punhalzinho cravado de ódio (Nilto Maciel)



Caminha Ana pelo beco esburacado, perninhas de embuá, doida para alcançar a esquina. Saltita, feito catita, de ilha em ilha, com medo de se afogar nas poças de lama. Cachorros sonolentos abrem os olhos para sua figura miúda e se espreguiçam e expõem as indecências encarnadas de entre as pernas. Voltam a sonhar, sérios, acanhados, magros.

– Cambada de vagabundos!

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Prosa de ficção: algumas noções (Nilto Maciel)




Tenho encontrado leitores que me fazem perguntas embaraçosas como esta: “O que devo fazer para aprender a escrever conto, novela, romance?” No mais das vezes, digo-lhes: “Comece lendo os clássicos.” Alguns me responderam: “Mas eu já li quase todos e, mesmo assim, ainda não sei como escrever um conto.” Ora, há dicionários, manuais, tratados que dão noções sobre espaço, ação, incidente, drama, conflito, unidade dramática, história, célula dramática, lugar, tempo, passado anterior ao episódio, tom, personagens, tipos, caricaturas, linguagem, concisão, concentração de efeitos, diálogo, diálogo interior, monólogo interior, discurso direto, narração, descrição, ponto de vista, foco narrativo, primeira pessoa, narrador onisciente, começo, fim. Também o conhecimento de tudo isto parece não ser suficiente para dar ao aprendiz de escritor o cadinho para a realização da obra de arte. E, por falar em cadinho, captei a seguinte lição de Adolfo Casais Monteiro, em Os Pés Fincados na Terra: “A arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a mistura dos ingredientes que são o pó da experiência.” Muitos sociólogos ditos marxistas insistem em afirmar que toda pessoa é capaz de criar qualquer obra de arte, desde que se lhe dêem condições sociais, culturais para o exercício dessa capacidade. Ora, milhares e milhares de pessoas letradas, bem vividas se dizem poetas porque sabem escrever versos. No entanto, não são poetas ou não conseguem escrever bons poemas. Os gramáticos seriam então os melhores poetas, contistas ou romancistas.

Da crueldade humana (Nilto Maciel)





Está nos dicionários: Cruel. Adj. 2 g. Que se compraz em fazer mal, em atormentar ou prejudicar. Duro, insensível, desumano. (Do latim crudelis ou crudele.) Crueldade. S. f. (Do lat. crudelitas –atis ou crudelitate.). Subentende-se que a crueldade seja uma qualidade humana e não de todos os seres vivos. Assim não entendo. Os animais também são cruéis, pois também são duros, insensíveis, severos, rigorosos, sobretudo no ato de matar a presa. Mas isto não importa aqui. Quero falar do livro Contos cruéis – As narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea, organizado por Rinaldo de Fernandes e editado pela Geração Editorial, São Paulo, 2006. São 47 contos “dos anos 70 (ou mesmo um pouco antes) aos dias atuais”. O organizador adotou dois critérios básicos para fazer a seleção: “convidar nomes importantes da ficção atual (de várias regiões do país)” e “incluir alguns contos já consagrados da literatura brasileira contemporânea”.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

O sonho do meliante Guimarães (Nilto Maciel)



Acordo sempre suado, o coração fogoso, gritando pela mulher, como se ela pudesse me acudir e evitar minha queda. Ela se revira, me chama de danado, foge de minhas mãos trêmulas, pula da cama, acende a luz, chora e berra. É sempre madruga-da, tem chovido fininho e faz um frio bom para se dormir.

– Como foi o sonho? Você sonhou comigo, Guimarães? 

sexta-feira, 31 de março de 2006

Breve notícia dos Tarairius (Nilto Maciel)



A família línguo-cultural dos tarairius proveio dos Láguidos, tipo étnico de cultura paleolítica primária, resultante da evolução das duas primeiras correntes de povoadores asiáticos da América. A primeira imigração se deu no máximo há 28 milênios e no mínimo há 20. A segunda, há 20, no máximo, ou há 15, no mínimo. E ambas partiram da Sibéria.

Os Láguidos chegaram ao Ceará há 7 ou 6 milênios, provenientes do Piauí e de Pernambuco. Um milênio depois chegaram os tremembés, que eram Nordéstidos, tipo étnico de cultura mesolítica, resultante da evolução da terceira corrente de povoadores asiáticos da América, oriunda também da Sibéria, de onde partiu há 10 ou 9 milênios. Os tremembés saíram do Sul, pela costa, e se localizaram nas praias do Ceará. À época da colonização portuguesa viviam entre o estuário do Rio Curu e o Maranhão. 

terça-feira, 28 de março de 2006

O problema fundamental da existência (Nilto Maciel)



Os cinco despertaram ao mesmo tempo. Parecia-lhes que ressuscitavam. Em volta, só escombros, podridão, desolação. Olharam-se, curiosos, o pavor grudado nas caras, quais máscaras mal pintadas. Calados, puseram-se a mexer dedo após dedo. A seguir, toda a mão, desconfiados do milagre da sobrevivência. Pouco a pouco, foram se erguendo, feito lázaros de um imenso cemitério. E caminharam entre os mortos. Gemiam, surdos. Olharam-se, gemebundos. Iam, semimortos. Ais e mais ais. Lamentosos. 

sexta-feira, 24 de março de 2006

Histórias de um povo Xetá (Nilto Maciel)




Muitos escritores nasceram no jornalismo. Seus livros, seus romances estão plenos da matéria bruta da realidade. Marcos Faerman, repórter minucioso, contenta-se com ser repórter. As histórias contidas em Com as mãos sujas de sangue não poderiam ser chamadas contos, prosa de ficção. Faerman é um jornalista maravilhado com a vida ou, melhor dizendo, horrorizado com a vida.

quarta-feira, 22 de março de 2006

O pecado genial do dr. Ípsilon (Nilto Maciel)



Apressou o passo, impelida pela fome e pela vontade de fugir daqueles olhos maliciosos. Abriu, barulhentamente, o portão, voltou-se para a rua e viu na calçada apenas crianças a brincar de roda. Distraída, arrancou uma malmequer e a jogou ao meio do jardim. Todo dia sua mãe lhe dizia: deixe dessa mania de arrancar as flores. Um dia ainda você vai se estrepar.

terça-feira, 21 de março de 2006

Moreira Campos


Moreira Campos (José Maria), nascido em Senador Pompeu (6 de janeiro de 1914), é filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.
 

domingo, 19 de março de 2006

Profanação (Moreira Campos)

(Nota de esclarecimento: se se fizer uma pesquisa, uma busca na Internet, constatar-se-á a ausência de contos de alguns dos melhores contistas brasileiros. É o caso de Moreira Campos. O que não é justo. Embora haja a lei dos direitos autorais. Mas divulgar a obra de escritores como ele não pode ser crime. Vejamos, pois, um de seus contos. Nilto Maciel)


A cidade repousava na paz dormente da tarde. Redemoinhos. Carneiros que ruminavam à sombra da igreja. Outros animais pastavam na praça principal, que o mato ia farto naquele fim de águas. De repente, o relincho do jumento cortou o espaço, vibrante, sincopado, sacudindo concentrações. Jumento só relincha em hora certa. À larga sombra do oitão na casa da esquina, Seu Manduca, farmacêutico, concluiu o lance no tabuleiro do gamão e consultou o relógio: vinte para as cinco. Inesperado! Um erro qualquer de cálculo. Novo relincho, houve tropel de cascos. Já o jumento se desembainhara: lança em riste, reluzente, sugestão de um bacamarte boca-de-sino. O beiço superior dobrado, em cheiro de sexo ou de cio, um fauno. A jumenta, nova, um mimo de ancas, talvez ainda intocada, atirou-lhe logo uns dois pares de coices na queixada, de que ele se livrava com dignidade e firmeza. Insistiu em mordê-la no pescoço. Novos coices, toda uma beleza de mocidade. Qualquer coisa, pela própria violência e rápidas entregas e negaças, a lembrar a festa necessária do sexo. A arma poderosa erguia-se lenta contra o peito do próprio jumento, como que se acamando, em pancadas repetidas, mola, alavanca para grandes pesos. Perseguia a fêmea, tentou cavalgá-la, escorregou. D. Esmerina, da janela de casa, a vista curta, apertava as pálpebras, num esforço de verificação. Pressentiu coisas. Mandou que a neta entrasse, menina de doze anos. Sinha Terta parou no meio da praça, equilibrando na cabeça a trouxa de roupa, seduzida, esquecida de tudo. No bilhar de Duca, os homens abandonaram o jogo e, do alto da calçada, bateram palmas:

– Eita, cabra macho! 

sábado, 18 de março de 2006

O oráculo (Nilto Maciel)




Guilhermartins orgulhava-se de sua sem par biblioteca, que de vez em quando aparecia na imprensa. Dizia o colunista social: O intelectual Guilhermartins, dono da mais rica coleção de alfarrábios, jantava ontem ao lado da bela Antonieta Brochado. O repórter vulgava: Chega-se a duvidar da existência do Tratado do Amor do Diabo, de Abulcámim Abdelhákem, tal a sua raridade.

O massacre dos Waimiri Atroari (Nilto Maciel)



Num livro escrito no início da segunda metade do século XIX – Esboço Histórico sobre a Província do Ceará –, Pedro Théberge constatava: “Todas elas (as tribos indígenas que habitavam o Ceará) desapareceram completamente, ou pela perseguição dos invasores, ou pelos efeitos de nossa civilização que não convinha á sua natureza, ou enfim pelas moléstias epidêmicas que lhes trouxemos da Europa, como a bexiga, o sarampo e outras que os dizimou repetidas vezes.”

quinta-feira, 16 de março de 2006

O manuscrito de Yellah (Nilto Maciel)



Por que o manuscrito de Yellah continua inédito? Não me refiro ao meu livro, mas ao documento deixado pelo astrônomo. Não ando à cata de glórias literárias, que certamente o livro me darão, nem sou um explorador do fantástico. Ora, o manuscrito se contém em umas trinta laudas apenas. Eu o teria publicado em jornais e revistas, sem uma só palavra a mais, não fossem as recusas dos editores. Foi esta minha primeira intenção, foi este meu primeiro ímpeto.

Literatura e Internet (Nilto Maciel)


Os sites literários devem ser grandes depósitos de textos, bibliotecas universais? Devem abrir espaço para a discussão de problemas editoriais no Brasil? Os catálogos das editoras e as estantes das livrarias brasileiras revelam que os escritores brasileiros contemporâneos (poetas, contistas e romancistas) são minoria no imenso universo do livro. Estão espremidos (quando muito) entre livros didáticos (a maior fonte de lucro), clássicos da literatura universal e brasileira (domínio público), traduções, biografias, livros de auto-ajuda, etc. O ideal seria a elaboração de uma lei que criasse um fundo, cujos recursos proviessem dos lucros obtidos pelas editoras com a publicação dessas obras de domínio público. Esse fundo poderia patrocinar concursos públicos para publicação de obras inéditas ou mesmo editar (como o fazia o Instituto Nacional do Livro) livros selecionados em concurso ou em outra modalidade de seleção.

domingo, 12 de março de 2006

A devassa dos labirintos selvagens (Nilto Maciel)



 
Ninguém jamais compreenderá a América, sem antes compreender o significado do extermínio dos índios. Mais ainda a América amazônica. E é para retirar deste limbo a história da Amazônia que Márcio Souza, em A Expressão Amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo, desce às profundas do passado para emergir à superfície da Manaus da Zona Franca. Tal baldeamento – essa descida ao fundo do poço – é um imperativo, para que a verdade histórica não permaneça enlameada e obscura. Porque só interessa aos que se arrepiam diante dos fantasmas pretéritos essa escamoteação da verdade e, sobretudo, a subdivisão da História em departamentos estanques. Mas, como se a consciência lhes roesse as entranhas, esses guerreiros de papel, como para querer sanar todos os cancros do passado, um dia descobriram que a remissão da terra estava numa operação de transplante – e implantaram em plena selva um aparelho cardíaco artificial, a chamada Zona Franca. Mas os males do passado não se curam com novas extravagâncias pueris. “A capital amazonense se transforma rapidamente num apêndice infectado, centro perfeito para a velha luta entre glóbulos brancos e glóbulos vermelhos. Na escatologia médica isto tem um nome: leucemia. O choque de brancos e vermelhos encaminha-se para o extermínio dos últimos. A simbologia é clara: a vitória dos brancos é a morte do organismo" (pág. 34). A origem dos males está na distância entre as duas raízes humanas, separadas por um mar até o séc. XVI tão imenso para uns e para sempre um enigma para os outros – de um lado uma religião codificada, uma Roma cesariana, uma idade de bruxas e fogueiras, e de outra um panteísmo primitivo, uma selva chuvosa, uma era de mitos que beiravam a primeira infância da raça. “Por isso, o contato jamais seria pacífico e uma coexistência bem sucedida se tornaria impraticável em terras amazônicas" (pág. 54).

O grande jantar (Nilto Maciel)



O Barão John Food ofereceu um lauto jantar a todos os seus amigos de nobreza, nacionalidade e credo filosófico, em homenagem a Francesco Tavola, pai de seu grande amigo, o Padre Giordano Tavola, seu confessor e confidente. Presentes todos os convidados, abriu a cerimônia com muita seriedade:

– Este será o maior jantar já dado na face da terra, maior do que o da multiplicação dos pães. Não em quantidade de convivas ou de pratos, mas em seu significado. Aqui vamos comer, simbolicamente, todos os evolucionistas, todos os naturalistas, todos os hereges, todos os descobridores, todos os inventores. Todos os revolucionários, enfim. Jantaremos apenas carne. Somos carnívoros. Jantaremos um bode, como se fosse Pierre Bodée, representante de todos os nossos inimigos, desde Demócrito até Darwin. Um bode expiatório. 

quarta-feira, 8 de março de 2006

O maduro fruto da solidão (Nilto Maciel)




O primeiro livro de contos de Rinaldo de Fernandes, O Caçador, é de 1997. Meticuloso, sem pressa, em 2005 apresentou o segundo volume, O Perfume de Roberta (Rio de Janeiro, Editora Gamamond), juntando cinco daquelas narrativas a treze inéditas.

Os narradores de Rinaldo ora são protagonistas, ora meros observadores. Ou principiam como espectadores e terminam como protagonistas. De alguns o leitor conhece duas ou três características ou traços fisionômicos, físicos, socioculturais. Muitas vezes não sabe sequer o nome.  

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

O fogo e a luz (Nilto Maciel)


(Close to the Edge)

 
Porque suas palavras vieram voando no brilho dos olhos, correndo nas batidas do coração, deslizando no suor da pele, cantando na carícia de todo o corpo dele, eu me fiz nuvem e desfiei-me ao seu chegar, aceitei-me chão e espichei-me ao seu retorno, constituí-me árvore e me deixei lamber pela sua maciez, assumi-me natureza e atentei para a sua melodia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Utopias, mentiras e verdades (Nilto Maciel)


Por volta da sexta década do século XIX, centúrias após as primeiras utopias e mentiras que apresentavam como cenário a América, Pedro Théberge, num livro precursor, Esboço Histórico Sobre a Província do Ceará, historiou a vida da então província do Ceará e, a par disso, teceu algumas considerações humanísticas a respeito do já extinto índio cearense. A primeira dessas observações revolucionárias, muito embora tenha feito o autor uma dedicatória a D. Pedro II, esclarece: “Todas elas (as tribos que habitavam o Ceará) desapareceram com-pletamente, ou pela perseguição dos invasores ou pelos efeitos de nossa civilização que não convinha à sua natureza, ou enfim pelas moléstias epidêmicas que lhes trouxemos da Europa, como a bexiga, o sarampo e outras que os dizimou (sic) repetidas vezes”. (1)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

O desafio de Facundo (Nilto Maciel)


Vicente ria, porque me via apreensivo, toda vez que o bebedor de coca-cola se aproximava de mim.

– Você está com medo desse doido?

Eu realmente demonstrava inquietação, bastasse ver o maluco da rua.

Meu interesse em conversar com loucos é puramente literário. Prefiro observá-los de longe, descobrir suas manias a luneta. 

Duas antologias de poemas (Nilto Maciel)


Como um cartão de visitas ou, quem sabe, um ato de contrição, os editores de Doze Poetas Alternativos, retomando velha polêmica, defendem uma arte de participação, aos brados de “nunca a arte só pela arte”, título da nota explicativa do livro. Fossem os poemas contidos no livro excelentes textos literários, e a apresentação seria desnecessária.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Moisés e o mundo (Nilto Maciel)



 
Antes do trovão, aquele ronco medonho dos deuses, faíscas gigantescas incendiaram, num átimo, o céu e a terra. O mundo pegava fogo, feito coivara.

Portas e janelas do castelo se abriam e fechavam, empurradas pela ventania e pelo medo. Gritos de assombro e socorro ensurdeciam Moisés. O bom rei seu pai dava ordens aos servos, a severa rainha não se controlava; e o alvoroço foi mui grande na corte. E, por esta razom, a filha del rei, que havia nome Sofia, veendo o grande mal e destruiçom que viinha aa terra, jo-gou-se aos peitos de seu irmão, derretida em lágrimas e lamentos.

Outros poetas de Goiás (Nilto Maciel)


A poesia de Aidenor Aires apresentada em Lavra do Insolúvel é um misto de telurismo goiano e de universalismo: os rios (“Aqui tudo infunde passado / até o rio corre / como se fosse arrastado”); a fauna (“O boi é apenas sangue fluindo”); a flora (“Entre os seres humildes/ da floresta / acendias o alto facho/ de teus ramos verdes/ e da terra suprias tua fome/ e a mesma terra morna/ nutria tua sede”). Pode-se até falar de um regionalismo pós-regionalismo. Tudo construído com a melhor ferramenta da arte poética, voltada para as grandes dores do homem: do primitivo aos catadores de ouro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Mimo (Nilto Maciel)



 
Moisés se enfeitou de bigodes e gestos para impressionar as multidões que o aguardavam ciosas feito fêmeas. Calçou as grandes botas de ferro e ordenou aos pajens se ajoelhassem para o polimento. Tirassem a ferrugem toda. Como para adorar as sombrias pernas do Chefe, curvaram-se todos apressadamente, fazendo estrondar o chão. Alguns ainda se lembravam do ritual. Outros, de tão velhos ou de tão jovens, amassaram as magras e caludas mãos no espelho do piso e fizeram sangrar as línguas ressequidas. Os muitos anos de sossego no Armário dos Calçados deixaram envelhecidas as botas. Quase irreconhecíveis. A memória dos antigos pajens, porém, acordou de súbito e as rejuvenescidas botinas caminharam pesadas debaixo do Chefe. O óxido se lhes havia acumulado feito lixo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Outros poetas do Ceará (Nilto Maciel)


(Nirton Venâncio)


Alheio à palavra de ordem de que a poesia deve ser um grito de denúncia, Nirton Venâncio publicou seu primeiro livro, Roteiro dos Pássaros, em que sussurra versos e fala de suas angústias. Como se o mundo começasse e findasse em si mesmo, ou como se tudo ao seu redor fosse demasiadamente horrível. Não consegue ver nada além de seus limites. O espaço físico é seu corpo ou o espaço que percorre ou habita.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Insensatez (Nilto Maciel)


(Bar. 32x32cm. Pastel sobre papel Canson. http://blog.jvicttor.com.br/desenhos/)


Enquanto despejava o resto da terceira cerveja nos copos, Airton pigarreou e olhou para mim.

– Esse meu irmão é o gênio da publicidade.

Os três, ao mesmo tempo, agarramos os copos e, no engolir a bebida, perdi as iniciais palavras de Fernando.

– Jornalista frustrado, rabiscador de frases de encomenda, assessor da burguesia.

 

As cantigas de Oscar Bertholdo (Nilto Maciel)


(Oscar Bertholdo, 1936/1991)


A estréia de Oscar Bertholdo em livro se deu em 1967, com Matrícula. Seguiram-se As Cordas (1968), O Guardião das Vinhas (1970), A Colheita Comum (1971), Poemimprovisos (1974), Lugar (1976), Ave, Árvore & Tempo de Assoalho (1979), Informes de Ofício & Outras Novidades (1982), Canto de Amor a Farroupilha (1985) e outras obras, algumas delas premiadas em concursos de âmbito nacional. Em 1986 a Companhia de Escritores, de Farroupilha, RS, publicou as suas Cantigas. São oitenta cantigas, todas elas de cinco estrofes de quatro versos cada. Não se tratam de composições à maneira dos trovadores ou assemelhadas aos poemas típicos dos primórdios da literatura galaico-portuguesa. Oscar reinventa a velha cantiga e cria a sua própria maneira de compô-la.

sábado, 28 de janeiro de 2006

Gesta do Jaburu (Nilto Maciel)




De longe, todo cristão crismava de tapera aquela cabana, não fosse ela coito de capangas desses coronéis de meia pataca – fortim pelas armas em que se sustentava e pelos cabras que abrigava. E pra invadir tão bem arrumada arapuca, nada como a manha de um velho caçador de cangaceiros, neto de bandeirantes. Primeiro a obediência muda, porque palpite é coisa boa de dar, feito cascavel dentro de balaio. Fosse acreditar no que a vista enxerga, não tinha passado dos cueiros. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, a não ser a quem não os toma.

Anderson Braga Horta, cultivador de enigmas (Nilto Maciel)


(Anderson Braga Horta)

A vasta fortuna crítica de Anderson Braga Horta demonstra a sua importância dentro do panorama da Poesia Brasileira. Sua obra vem sendo construída lenta e serenamente, como deveria ser a construção da obra de todo escritor. Talvez a sua mineiridade o ajude a ser assim sossegado, sem açodamentos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Esses abraçadores da morte (Nilto Maciel)


Ao cimentar o último pedacinho de chão do quintal, o pai do inocente Joãozinho teve a primeira grande raiva de seu prodigioso filho.

– Por que você fez isso?

– Para acabar com os formigueiros, ora essa. Assim, elas (elas, quem?), as formigas nunca mais vão encher meu saco.

– Pois eu gostava muito delas.

Carlos Augusto Viana: Voo ao fundo do verbo (Nilto Maciel)

(Carlos Augusto Viana)



Quando Carlos Augusto Viana estreou em livro, com Primavera Empalhada, a crítica o saudou como uma revelação na poesia cearense. Dimas Macedo, no artigo “Uma Nova Dicção na Poesia Cearense”, fala de “um livro cheio de metáforas e de símbolos, e que traz, na sua textualidade, algo de novo para comunicar ao mundo”. Mais adiante, o crítico afirma: “Seus poemas estão repassados de evocações e de sutilezas semânticas, ao mesmo tempo em que ricos de sugestões e significados”. Passados 20 anos, Carlos Augusto apresentou seu segundo livro: Inscrições dos Lábios. Ao leigo pode parecer que o poeta andou este tempo todo longe da Poesia ou do fazer poético. Na verdade, Carlos esteve sempre dormindo e sonhando, caminhando e descansando, comendo e bebendo com a Poesia, lendo e ouvindo Poesia. Exigente ao extremo, não se deixou conduzir pela mão da facilidade, da pressa e da vaidade. Anos a fio, teceu e desteceu túnicas e mais dalmáticas, pintou-lhas, recortou-as, lavou-as – até sentir prontas as obras da sua tecelagem.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Assim seja (Nilto Maciel)


Mal pulava da cama, já os joelhos de Hélio se acomodavam ao frio do chão. A mulher, Selenita, dormida, resmungava advertências. Aquilo não havia de fazer bem. Pneumonia pegava um cristão pelo pé e só largava com reza de padre velho. As imprecações do tipo “me deixem em paz” ou “éguas paridas” saíam como ave-marias cheias de graças, dedos ligeiros ao redor das contas do terço. Os olhos do devoto, grudados de sono, miravam o Eterno pregado.

A poesia de Sérgio Campos (Nilto Maciel)


(Sérgio Campos)


Estreou Sérgio Campos com A Casa dos Elementos, em 1984. É um livro de odes e outras formas poemáticas. Há uma ode ao Mar, com epígrafe de Pablo Neruda. Que poderia ser de Píndaro, pois Sérgio Campos demonstra ser lido do oriente ao ocidente, do clássico ao contemporâneo. A segunda ode é à Terra, com epígrafe de Ernesto Cardenal. Poema ao mesmo tempo lírico e político: “Terra, / os homens lotearam / teu chão: / a poucos, sim; / a muitos, não”.

Na ode ao fogo homenageia Ferreira Gullar e todos os fogos: o primitivo, o dantesco, o bíblico, o fátuo.

sábado, 14 de janeiro de 2006

Apocalipse (Nilto Maciel)


Nós presenciamos sua mansa e serena morte, causa desta nossa imensurável tristeza. E mais melancólicos nos fizemos quando cavamos a sepultura e nela o depositamos. Ele está aqui, bem debaixo desta cruz de madeira, morto. Por acaso necessitamos da mentira para falar e continuar a viver? Por acaso não temos olhos de ver e ouvidos de ouvir? Evidentemente as entranhas da mãe-terra o engoliram, tementes de outras tantas vilanias. Pois atendemos ao seu pedido: “enterrem meu cadáver no mais profundo do chão, de forma a tornar impossível a exumação, quer para violentarem-no, quer para mumificarem-no, pois morro para não mais conviver com os meus inimigos.” Reunimo-nos todos, chorosos ainda, e, com ferramentas e forças, cavamos o mais fundo dos fossos e nele depusemos seu corpo.

Floriano Martins: Poesia da paisagem (Nilto Maciel)


Não, o poeta não seria o pintor sem pincel. Assim também o pintor não poderia ser revelado como sendo o poeta sem a palavra. Tudo isso não passa de jogo de palavras, de tentativas falhas de definir as posições assumidas pelo artista. Porque o universo não é somente paisagem, realidade visível. Quantas dimensões existem?

Nenhuma Correnteza Inaugura Minha Sede é poesia de paisagem, nunca pintura de paisagem. Floriano Martins não pinta, não porque lhe falte pincel, mas porque olha o mundo, olha o olhar, olha para fora, para dentro e para aquele espaço que nenhuma máquina conseguiria ver. Revela sua própria loucura, aquela que põe diante do mesmo telescópio a criança, o primitivo e o mágico. A loucura de olhar e ver um gato mastigando, irônico, a minguante face da Lua. Em “Fuga” o corolário de toda a sua poesia: “Toda paisagem é fuga / delírio da razão”. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

A lenda de um reizinho - capítulo exótico (Nilto Maciel)


Fui o primeiro deles. Assim, posso falar a respeito de nós, inclusive dos mortos. Eu me sabia superior aos homens em todos os sentidos. Depois de mim veio aquela onda de dar aos bebês humanos o meu nome. Talvez assim esses futuros cidadãos se parecessem comigo. Além disso, o controle da natalidade deixou de interessar aos casais. Todo mundo queria procriar. Para ter filhos como eu. Logicamente que o fenômeno não se deu da noite para o dia. Antes de um ano de idade, meus cinco primeiros homônimos moravam no mesmo prédio onde eu vivia. Fora daí ninguém mais sabia de mim. Porque meu pai fez chantagem com os pais desses pobres meninos. Se revelassem o segredo de minha excelência genética, ai deles. Doenças terríveis, demência, vinditas extraterrenas.

Ubirajara Galli: êxtase fabular (Nilto Maciel)


A Poesia é êxtase. A linguagem poética, desde as suas origens, é encantatória. O objeto da Poesia é o maravilhoso. Para os mais apegados às idéias de engajamento político estas três afirmações soarão como retrógradas. No entanto, A Fábula do Êxtase, de Ubirajara Galli, é um livro novo. A linguagem deste “poema único em seis estações” ou destes poemas reunidos é genericamente a do prazer, ou do hedonismo e, por isso, mágica. Perdidas no interior dos versos, palavras como “sereias”, “lábios”, “língua”, “bica láctea” e “mamas afáveis” falam de sedução e prazer sexual. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

A desilusão de Jonathan Swift (Nilto Maciel)



O menino espirrou para a vida e sua mãe sorriu. O pessoal da maternidade também não se conteve e desatou a rir. Num instante, os sorrisos se transformaram em risos incontroláveis. Mais um minutinho e todos gargalhavam.

O pai do bebê, absurdamente, encheu-se de cólera e chorava, amaldiçoava-se, arrancava os cabelos. Incompreensivelmente ainda, impediu que sua mulher atirasse o menino ao chão e expulsou da sala de partos os médicos e as enfermeiras. Não, não admitia que se cometesse um crime daqueles. 

Diogo Fontenelle: um topógrafo da poesia (Nilto Maciel)


À primeira vista, parecerá que as palavras são excessivas no livro Enquanto o céu não cair, de Diogo Fontenelle. Logo, contudo, estará evidente o engano. Uma palavra a menos, e toda a sua estrutura poética estaria desfeita. Assim, não se há de falar em depuração de linguagem, em desbastamento. Trata-se de um estilo, uma maneira de transportar para o código da escrita a poesia que jorra farta. Toda essa justificação não invalida, entretanto, a crítica segundo a qual a Diogo Fontenelle falta certo cuidado na laboração do poema. Seria o caso de reescrever alguns versos, não se deixar encantar pela aparente simplicidade formal.