A gente nunca sabe quem é de fato o Brasil literário. Temos um elenco de bons nomes na cabeça, pronto para ser repetido quando alguém nos pergunta a respeito de autores brasileiros novos ou mais ou menos novos, mas a quantidade de escritores brasileiros de qualidade que todos, mesmo nós, escritores, desconhecemos, chega a ser um assombro. De modo que é preciso ter muito boa vontade (e isto é coisa de poucos) com as coisas do Brasil para se descobrir escritores longe, muito longe do Sudeste – supostamente o centro de todas as coisas – que escrevem bem, que publicam muito, têm uma longa vida literária e permanecem desconhecidos.
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segunda-feira, 28 de agosto de 2006
O diário de Judas (Nilto Maciel)
Por que estás abatida, ó minha alma?
Por que te perturbas dentro de mim?
Salmo 42 — O Livro dos Salmos
Cansado de mirar os quadros pendurados às paredes, João Batista se pôs a andar pela sala. Olhava para o chão, as pontas dos pés, em passo cadenciado de sentinela. Sentiu dor na nuca, parou perto da mesinha de centro e bruscamente levantou a cabeça. A lâmpada acesa parecia o Sol ao meio-dia. Martirizava-o a liberdade de ir e vir dentro de casa. Ninguém para falar mal das autoridades. Ninguém para lhe fazer perguntas cotidianas. Ninguém para incomodá-lo, até mesmo insultá-lo.
domingo, 27 de agosto de 2006
A sátira política em Os Luzeiros do Mundo, de Nilto Maciel (Wilson Pereira*)
O escritor Nilto Maciel, autor de mais de uma dezena de livros, que variam entre contos, romances, novelas, e um de poemas, goza de prestígio literário nacional não só pela vasta bibliografia, mas também pela reconhecida qualidade de seus textos.
O reconhecimento veio tanto pelos prêmios literários de primeira grandeza que conquistou, como pela fortuna crítica que angariou ao longo de mais de trinta anos de carreira literária. Entre os seus prêmios destacam-se “Brasília de Literatura”, 1990, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo, e o “Cruz e Sousa”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica.
Olho mágico (Nilto Maciel)
A campainha soou e Inácio assustou-se. O jornal chegou a escorregar de suas mãos. Por que só inventavam torturas? Bem podiam conservar as pancadas com os nós dos dedos, as palmas, os “ôi de casa”. Civilização do terror, era o que era.
A resmungar, deixou o jornal espatifar-se no chão e arrastou-se na direção da porta. Não deu tempo, ao menos, de meter os pés nos chinelos. Melhor, talvez fosse visita indesejável, vendedor de porcarias, cobrador de dívidas. Nem devia atender. Nem sequer levantar-se do sofá. Mas a campainha voltou a berrar e Inácio apressou o passo.
sábado, 26 de agosto de 2006
A literatura como forma de ilusão: Entrevista a Linaldo Guedes
(Nilto Maciel)
Cearense de Baturité, Nilto Maciel vem se destacando como um dos bons nomes da literatura contemporânea, principalmente no campo da prosa de ficção. Recentemente, lançou mais uma obra: “A leste da morte”, pela Editora Bestiário. É um livro de contos com textos que têm muito do elemento fantástico, mas sem usar isso como característica única de sua prosa.
Nilto reside em Fortaleza, onde edita a revista Literatura desde 1991. Publicou diversos livros e tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Nesta entrevista, fala da sua obra e da sua visão do que vem acontecendo em termos de literatura no País. “A literatura é como a religião, a política, o sexo. Ninguém vive sem ilusão”, afirma.
Por que intitular sua nova coletânea de contos de “A leste da morte”?
Em certa época, as coleções de contos no Brasil traziam títulos como “Maria Bonita e outras histórias”. Machado de Assis usava outro método, assim como Guimarães Rosa, que davam aos seus livros títulos singelos, como “Várias histórias”, “Contos fluminenses”, “Primeiras estórias”. Eu prefiro dar ao livro o título de um dos contos, sem aquele “e outras histórias”. Como não há unidade temática em meus conjuntos de narrativas, opto pelo título que me parece mais poético ou sonoro. Questão de gosto. O leitor pode até não gostar dos meus títulos.
Alguns críticos vêem a predominância da literatura fantástica em suas narrativas. Como você trabalha essa tendência em sua obra?
Por muito tempo fui leitor dos românticos; depois me dediquei aos realistas. No entanto, eu buscava a loucura, o incomum, o diferente. Como me deliciei quando li Julio Verne! Os contos de fada também sempre me fascinaram. A literatura gótica eu a conheci ainda adolescente. Poe muito mais tarde, assim como Kafka, os mestres do realismo mágico, Borges, Rubião, José Veiga. Na verdade, eu não queria escrever contos realistas, histórias propriamente ditas. Meu primeiro livro – Itinerário – é constituído de pinturas, rascunhos, observações. Muito mais filosofia do que ficção ou literatura. O que me chama a atenção num personagem é o lado torto dele. O que o distingue dos outros. E isto me leva ao picaresco.
Aliás, vejo também esse lado muito forte em sua obra, mas em “A leste da morte” o elemento fantástico vem cercado de muita leveza, diria até parecendo um conto infantil, como em “Trem-fantasma”. Você concorda?
O chamado conto infantil ou de fada eu conheci de ouvir. Na infância nunca li as histórias de Branca de Neve, de Chapeuzinho Vermelho, etc. Os irmãos Grimm, Charles Perrault só li muito depois. Assim como Jonathan Swift. Você tem razão: o fantástico em mim é leve, infantil, muito próximo do imaginário infantil. Pode haver um cururuzão? Por que não? Outra fonte de minha criação é a mitologia clássica (grega e romana), a filosofia e a História. Isto é, o passado, o antigo, o homem pré-moderno.
Também não existiria algo de surreal em alguns contos deste livro?
No sentido etimológico da palavra, sim. Não o surrealismo canônico. Como disse, eu sempre busquei o além do real, ou o super-realismo.
Percebo também intertexto com algumas obras e autores, como Kafka, Neruda, Borges e outros nos contos deste livro. Fale um pouco sobre isso.
Faço isso conscientemente. Mas não somente com obras clássicas ou escritores muito conhecidos. Há trechos de poemas de Francisco Carvalho em muitos de meus contos. Há versos de canções populares. Gosto também de inventar (o que não é nada novo nem original) escritores e obras literárias. O romance A Rosa Gótica é todo uma invenção de obras e escritores. Ao lado de obras e autores reais aparecem obras e autores irreais (imaginários). O próprio Romance da Rosa Gótica (a obra mencionada pelo protagonista) é pura ficção.
Há um conto, feito sob encomenda para o livro organizado por Rinaldo de Fernandes sobre Guimarães Rosa. É difícil escrever sob encomenda?
Não, não é difícil. O que ocorre é um medo de não corresponder ao pedido. Na verdade, gosto de escrever por inspiração (palavra em desuso). E ela vem da leitura de um poema, de um conto, de uma notícia, do vôo de uma borboleta, de tudo. Vem de tudo, mas quase nunca o “inspirado” está atento à inspiração. A vida agitada de hoje desvia a atenção do homem das pequenas ocorrências que sugerem poemas, contos, canções, etc. O artista é um distraído da realidade dos outros. Dizem que Guimarães Rosa escrevia um conto, muito distraído do mundo, e foi chamado a atenção: “O mundo pegando fogo e você aí a escrever”. E ele teria respondido: “Não me atrapalhe, que estou escrevendo”.
Também vejo em alguns contos personagens escrevendo poemas ou querendo publicar livros. A literatura continua sendo uma necessidade nos tempos de hoje?
A literatura é necessária em muitos sentidos. Sem ela, o que seria do idioma? O que seria das comunicações? É possível aprender a ler e escrever sem literatura? Fala-se da morte do livro. Não acredito nisso. O livro é uma das melhores invenções do homem. E, se o livro morrer, mesmo assim a literatura continuará viva. Gravada a voz, na tela do computador, onde quer que seja. A literatura é como a religião, a política, o sexo. Ninguém vive sem ilusão. Por mais atéia que seja uma sociedade, ainda assim a religião sobreviverá. O homem nunca deixará ser um animal político. A droga, que é tão antiga quanto a humanidade, é outra ilusão necessária. O que não é necessário hoje? A bebida alcoólica? O fumo? Tudo é necessário. Até a guerra. Até a violência. Se alguma ou algumas dessas culturas desaparecer, talvez a humanidade desapareça. Imagine um mundo sem homicídio, uma sociedade muito bem organizada, pacífica. Um dia, alguém tratará de matar o vizinho. Haverá estupefação geral. Ao final, todos compreenderão que há muito não se matava um homem, mas...
Aliás, como você vê a literatura atual, nestes tempos de internet onde as facilidades para divulgar seus escritos são bem maiores? Não corremos o risco de todo mundo se achar escritor, por causa de ferramentas como os blogs da internet?
Já são milhares ou milhões os escritores ditos internéticos. Poucos, porém, apresentam obras de valor literário. Como sempre foi, desde o início dos tempos, desde os primeiros cronistas. Haverá duas classes de escribas: a dos criadores e a dos repetidores, dos rascunhadores, dos eternos aprendizes. Os leitores saberão distinguir uns de outros.
Você edita uma revista literária no Ceará desde a década de 90. Fale sobre essa experiência.
Os suplementos literários foram desaparecendo aos poucos, como os dinossauros. Não creio na hipótese da morte deles num só momento. As revistas literárias sempre foram “igrejinhas”. Coisas do homem. E necessárias. Em 1975 iniciamos em Fortaleza um movimento jovem que redundou na criação da revista O Saco, no ano seguinte. Queríamos publicar nossos contos e poemas. A experiência nos levou às editoras do Rio e de São Paulo. A revista durou quase um ano. Em Brasília, para onde fui em 1977, conheci muitos escritores. E continuei a me corresponder com centenas de amigos de todo o Brasil, desde o tempo do Saco. Propus a alguns deles a criação de uma revista literária. Muitas dificuldades, objeções. Aos poucos, um grupo pequeno se formou. Gente de todo o Brasil. A revista seria patrocinada pelo grupo e teria por nome Literatura. O que ocorre até hoje. Em 1992 consegui editar o primeiro número. As colaborações são dos patrocinadores e de convidados. A tiragem é pequena, a distribuição é feita a bibliotecas públicas, universitárias, comunitárias, entidades culturais, jornalistas, professores, estudantes, interessados em geral. Temos uma lista de mil nomes. E assim se mantém a revista há quinze anos.
Como você avalia o intercâmbio feito entre os autores nordestinos atualmente? A Paraíba conhece o que se produz no Ceará e vice-versa?
Sempre houve essa dificuldade de intercâmbio entre os nordestinos. Conheço escritores de todo o Brasil, mas é bem capaz de me corresponder mais com gaúchos ou mineiros do que com paraibanos ou sergipanos. Não sei como explicar isso. Parece-me que existe um ciúme doentio ou outra besteira sem nome.
Qual a importância de eventos, como as bienais do livro, para ampliar este intercâmbio?
Não vejo nas bienais o melhor caminho para se ampliar o intercâmbio. A Internet, os sites, os blogs são o caminho mais largo, mais propício à aproximação dos escritores, sem dúvida. Ora, tudo caminha para a virtualidade mesmo.
Qual o espaço para o autor nordestino no mercado editorial nacional? Existe este espaço?
O espaço sempre foi curto. O romance de 30 só despontou pela carência de outra literatura no Brasil, por motivos político-sociais, etc. Os escritores de todo o país têm dificuldade de publicar. É uma questão editorial, de mercado, nacional e não regional. Uma questão social, educacional, cultural. A renda do brasileiro é pequena, a escola é precária, o hábito de ler não é incentivado, etc. Tudo afasta o brasileiro do livro.
(Correio das Artes, João Pessoa, PB, 26 e 27 de agosto de 2004)
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Amapa (Nilto Maciel)
Liana Bennato sorriu e fez mais uma pergunta. Se Amapa conhecia o Amapá. O grande astro também sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo.
O homem e a mulher não despregavam os olhos da televisão, enquanto as crianças brincavam, sentadas a um canto da sala.
— Não façam barulho.
Amapa não parava de sorrir e brilhar, e a bela repórter enrodilhava-se toda diante dele. O grande público certamente delirava à frente dos televisores. Como o homem e a mulher que ralhavam com as crianças em brincadeira.
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
Caleidoscópio de temas (Ronaldo Cagiano)
Narrativa polifônica caracteriza os contos do novo livro de Nilto Maciel
Autor de mais de duas dezenas de livros que cobrem diversos gêneros, Nilto Maciel percorre com desenvoltura várias temáticas, sempre se valendo de uma grande flexibilidade de linguagem, técnica e forma e da manipulação de cenários distintos para construir seus personagens e histórias. Em seu novo livro, A leste da morte, ele reúne 47 contos, matizando universos que extrapolam os territórios geográficos, porque são ressonâncias fiéis do psicológico, da memória, das lembranças e imagens ancestrais, que constituem as experiências afetivas, sociais e humanas que habitam a imaginação e são as referências que sustentam o vasto espectro criativo do autor.
quarta-feira, 23 de agosto de 2006
Eucarisitia (Nilto Maciel)
São três meninos. Raquíticos, sujos, esmolambados. Talvez irmãos. Lutam entre si pela posse de restos de comida. Há bolinhos de arroz, fiapos de macarrão e carne. Pedaços de frango assado. Asas, pescoços, pés. Tudo já roído, descarnado, puro osso. Estão sentados no chão e não param de mastigar, falar, roer, rosnar.
terça-feira, 22 de agosto de 2006
Contos e "Contos" (Daniel Mazza)
Desde a publicação de seus primeiros contos – muitos, diga-se de passagem, devolvidos por revistas literárias que os consideravam desinteressantes – Anton P. Tchecov (1860-1904) já acenava com uma mudança significativa na estrutura do gênero. Caracteres clássicos como enredo bem concatenado, tensão narrativa e desfecho conclusivo foram substituídos, pelo menos parcialmente em sua obra, por uma atmosfera ficcional caracterizada pelo relato do comum e do ordinário da vida cotidiana, pelo detalhe psicológico da situação e, precipuamente, pelo desfecho “em aberto”. Dando um passo a mais em relação a Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, Tchecov instaura uma nova concepção de conto, a tal ponto que Mário de Andrade, em ensaio datado de 1938 e intitulado “Contistas e contos” chegara a afirmar − talvez arrebatado pelas diversas feições que o gênero vinha tomando − que “sempre será conto aquilo que o seu autor batizou com o nome de conto”. Infelizmente, o que era para ser uma proposta de reflexão, por parte do escritor paulista, sobre as metodologias de confecção da “short-story”, tornou-se, desastrosamente, um apotegma para grande número de escritores menos expertos.
domingo, 20 de agosto de 2006
A leste da morte (Francisco Carvalho)
Em dezembro de 1992, quando li a ficção de Nilto Maciel, em As Insolentes Patas do Cão, tive a inarredável convicção de que se tratava de um dos mais brilhantes expoentes da moderna literatura brasileira nos domínios do romance e do conto. As produções por ele posteriormente publicadas (Vasto Abismo, 1999, A Última Noite de Helena, 2005, e A Leste da Morte, 2006) vieram confirmar minhas expectativas acerca dos impulsos e estratégias de que se utiliza o escritor cearense na elaboração de suas narrativas.
sexta-feira, 18 de agosto de 2006
A prosa com arte de Chico Lopes (Nilto Maciel)
O primeiro livro de contos de Chico Lopes – Nó de Sombras – saiu em 2000. O segundo – Dobras da Noite – se publicou em 2004. São narrativas longas, se comparadas aos minicontos que vêm sendo publicados no Brasil há algum tempo. No entanto, não se deve dar importância ao número de páginas de uma obra. Importa tão-somente o valor literário dela.
O fôlego do contista o leva a longas caminhadas pelas cidades de seus dramas. Quer dizer, o faz conduzir seus personagens por ruelas, becos, córregos, chácaras, bairros periféricos. Essa cidade não tem nome explícito e pode muito bem ser Poços de Caldas, Minas Gerais, onde vive o escritor há alguns anos, ou a cidade onde nasceu, Novo Horizonte, interior de São Paulo, onde viveu por quarenta anos. Há vagas referências aqui e ali a nomes de logradouros: Rua Penha Lopes, Praça Coelho Neto, Rua Décio Paiva. Mas isto não indica nada. Mesmo quando um personagem diz: “só vejo o dedo que aponta para os trilhos inúteis da Mogiana”.
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
Mundo livre (Nilto Maciel)
Cena n. º 1
O casal caminhava distraidamente pela calçada. Parecia em lua-de-mel. Ele falava, ela sorria. Diante da Casa Preard, o sorriso da moça se desfez. Um rapaz se havia aproximado dela e dirigia-lhe a palavra. Gesto de susto, esgar de espanto. O marido (ou namorado) parou e fez o outro também parar. E sacou da cintura um revólver. A moça se encolheu, gritou e abraçou-se ao companheiro.
— Vou matar esse atrevido. Dar um tiro na boca desse moleque.
segunda-feira, 14 de agosto de 2006
O vencedor (Nilto Maciel)
A plateia lotava o auditório. Estudantes, professores, curiosos em geral, além de escritores locais e de fora. Repórteres de televisão, jornal e até rádio. Iluminavam o recinto com suas luzes importunas. Mocinhas mostravam os dentes, matronas se esparramavam nas cadeiras, velhotes faziam caretas. Ninguém queria perder um só detalhe da festa. O vencedor talvez até saísse carregado nos braços da multidão, consagrado para todo o sempre.
A impressão da realidade em “As insolentes patas do cão”, de Nilto Maciel (Tanussi Cardoso)
As estórias de Nilto Maciel nos pegam pelo imprevisto, pela frase cortada, fragmentada, pelo jeito de quem está narrando um fato com descontração. É um modo singular de escrever. Nilto Maciel não ilude o leitor com firulas desnecessárias, não o engana com frases de efeito. Não tem vínculo com uma certa literatura que teima em parecer pedante. Mas por trás dessa aparente simplicidade há um escritor pleno de seus objetivos, que sabe contar uma estória com desenvoltura. Engana-se quem pensar ao contrário. Nilto Maciel lima as gorduras do texto e, vigorosamente, trabalha com a palavra certa, no lugar certo e na hora certa. Como cabe aos bons escritores.
sábado, 12 de agosto de 2006
O confessor lascivo (Nilto Maciel)
O primeiro livro de Frederico Ozanam fez muito sucesso. Talvez em razão do título: Histórias indecorosas.
Começa por onde poucos terminam — chegaram a dizer. Na verdade, o livro foi editado pela empresa editorial mais rica do país. Os direitos autorais foram pagos antecipadamente. Jornais, revistas, televisões se referiam, diariamente, ao novo fenômeno literário. Nunca um livro vendera tanto em tão pouco tempo — meio milhão de exemplares em questão de dias.
Contos picarescos e alegóricos (Dimas Macedo)
Quem desejar conhecer a história recente da literatura cearense, terá fatalmente que conviver com a expressividade que no seu universo projeta a ficção de Nilto Maciel. Participante ativo da maioria dos movimentos literários que eclodiram no Ceará durante a aventura dos anos setenta e que tiveram como pontos culminantes a edição da revista “O Saco" e a criação do Grupo Siriará de Literatura, Nilto Maciel desde o início da sua militância revelou-se um intelectual comprometido com a transformação da palavra e com a problemática que se foi instaurando no contexto do seu discurso ficcional.
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
O sonho impossível de Pã (Nilto Maciel)
Doido fauno senil, quebrando as finas
Lianas que se erguem no cipoal em que erro,
O ar farejo com sôfregas narinas,
Percebo indícios duma ninfa, e berro...
(Humberto de Campos)
Ela mais parecia saída dos bosques da mitologia, juvenilmente bela como as ninfas, os olhos mais cândidos do mundo. E ele, vendo-a todo dia, nada mais fazia que sonhar. Erguia castelos de areia, fundava cidades, viajava pelo cosmos. Ela se chamava Quésia, ele Arion.
E viveram infelizes para sempre.
A nova ficção cearense (Adriano Spínola)
Numa terra tradicionalmente de poetas – talvez por ser o modo mais fácil de se destacar culturalmente, num meio de poucas oportunidades, ou porque o Ceará seja mesmo um manancial de talentos poéticos, quem sabe – a ficção narrativa tem merecido pouca atenção/dedicação por quantos militam na literatura. Da velha geração, há o exemplo raro de fidelidade ao conto, acompanhado de um constante aprimoramento, por parte do Sr. Moreira Campos, mestre inconteste no gênero, reconhecido nacionalmente; o Sr. Fran Martins, novelista de primeira, ao que parece contentou-se com o seu "Dois de Ouro”, um trabalho notável, nada nos dando, porém, posteriormente, que se lhe igualasse em peso; o Sr. Jáder de Carvalho, há muito preferiu ser poeta lírico, com qualidades; e há o Sr. Eduardo Campos, que, tendo-se realizado mais plenamente na área dramática, com algu¬mas peças de merecido sucesso nacional, abandonou, ao que tudo indica, a novelística; Juarez Barroso, não fora a morte prematura, bem que nos poderia ter dado uma ficção que se ligasse à força de uma “D. Guidinha do Poço”, por exemplo. Vivência não lhe faltava, nem talento. Mas não o fez.
Na nova geração, o interesse pela narrativa literária ganha poucos adeptos. Tomando como base o Grupo Siriará, formado em 79, dos seus 24 membros, apenas 4 a 5 se empenharam na criação de personagens e enredos. O resto, tome poesia! Era, na verdade, muito mais um grupo de poetas, todos ansiosos em revelarem suas produções nascentes e serem os primeiros bardos anunciadores de um novo tempo, que se avizinhava, ao cair do obscurantismo político-cultural, que sentíamos ainda grudado nos dedos.
Se poucos foram os que se ligaram à prosa ficcional, em compensação o fizeram com uma garra e uma categoria superlativa. Como é o caso de Airton Monte, Nilto Maciel, Paulo Veras e Carlos Emílio. Trataremos, aqui, apenas, dos dois primeiros, por uma questão de espaço e afinidades. (Que esta é uma crítica impressionista).
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Nilto Maciel é outro contista vigoroso e surpreendente da nova geração. Com apenas um livro lançado, Tempos de Mula Preta (Ed. Secretaria de Cultura, Fortaleza, 1981), inscreve-se ele no que de melhor temos no momento em matéria de contos no Brasil. Percebe-se no autor um tal domínio do ficcional, uma capacidade inventiva e transfigurante da linguagem, aliada a uma não menos capacidade de alteridade, versátil e verossímil, com relação aos personagens, que o colocam entre os mais avançados e promissores contistas da atualidade. Além disso, conta ele com mais duas outras grandes qualidades, que indicam o domínio de seu ofício: uma maneira própria de dizer, de narrar, um estilo, diríamos, já “niltoniano”; e um finíssimo humour revestindo a maioria de suas criações. E o humour, lembrava Fernando Pessoa, é a marca do não provinciano; uma categoria elevada do espírito.
terça-feira, 1 de agosto de 2006
Os comensais de Afonso Baio (Nilto Maciel)
No meio da noite sentiu seca a garganta. Como se tivesse engolido fogo. Nem sequer uma gota de saliva na boca. Buscou entre os dentes um resto de comida. Na certa haveria líquido em qualquer pedaço de arroz. No entanto, a língua — pedaço amargo de carne — nada encontrou.
A geladeira, porém, devia estar repleta de garrafas com água. Por que, então, não pular da cama e correr à cozinha? O tormento desapareceria num minuto.
Sabor de fatos reais (Valdivino Braz)
Tempos de Mula Preta, livro de contos de Nilto Maciel, cearense de Baturité; se destaca, entre outros aspectos, pela atmosfera que o autor consegue imprimir às suas narrativas, conferindo-lhes sabor de fatos reais. Esta atmosfera é elemento imprescindível para assentar, no espaço e tempo recriados pelo escritor, a narrativa de ficção. Ela sustenta a narrativa enquanto verossimilhança do real e, sobretudo, como resultado da manifestação criadora; validada. pelas características próprias do escritor e pela sua maneira individual de ver e assimilar a realidade. Poucos logram, na ficção, o domínio deste elemento que dá clima ao palco de ação das personagens e eleva, desta forma, o texto literário como obra de arte.
sexta-feira, 28 de julho de 2006
Tempos de mula preta (José Alcides Pinto)
A Secretaria de Cultura e Desportos entregou ao público no fim de 81 o livro de contos de Nilto Maciel — Tempos de Mula Preta. É este o primeiro livro do autor, embora seja Nilto Maciel um veterano nas letras, com alguns trabalhos publicados em revistas e jornais, outros incluídos em volume, como em Queda de Braço, uma antologia do conto novo, que ele mesmo organizou e onde se salvam pouquíssimos nomes. Mas ele é apenas responsável pela parte que lhe toca. O resto que se dane. Mas há, sem dúvida, figuras de nível literário entre essa coorte heterogênea e desordenada, como Airton Monte, Carlos Emílio Corrêa Lima, Francisco Sobreira e poucos outros. Mas é do seu Tempos de Mula Preta que queremos falar agora.
domingo, 23 de julho de 2006
Ilusões de gato e rato (Nilto Maciel)
No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.
Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?
terça-feira, 18 de julho de 2006
A clarividência histórica em Nilto Maciel (Salomão Sousa)
Nilto Maciel, um cearense acandangado que acaba de tirar prêmio no concurso Fernando Chinaglia com o romance A Guerra da Donzela, tem lançados os seus Tempos de Mula Preta, reunião de contos que formam um painel com alguns de nossos dramas cotidianos e históricos — históricos porque é um cotidiano que se repete, pairando agora no tempo pelas mãos do autor.
A edição é da Secretaria de Educação e Desportos do Ceará, numa prova cabal de que o Estado tem que entrar no jogo quando as editoras, forçadas pelas dificuldades econômicas mundiais, e estas dificuldades, por sua vez, resultando nas dificuldades culturais (diminuição da compra de livros, de leitura, etc.), não podem atender a todas as solicitações de publicação. E principalmente quando cresce o número de autores, se bem não cresça o nível da qualidade.
Não vou me arvorar em dizer que se trata do melhor livro da temporada, estilo ímpar, ou que é incompleto, com gralhas fazendo barulho em todas as direções com seus vultos escuros. Pois dificilmente um livro escapa delas para que não sejam anunciadas a quatro ventos e tempestade por si mesmas, sem que o autor tenha nada a ver com elas. São fenômenos da natureza, assim como uma chuva de vento, que vem e nos tira as telhas da casa, que podem ser recolocadas no lugar, sem a perda da estrutura da casa.
O riso do gato (Nilto Maciel)
Nunca ria o gato. Sisudo, posava dia e noite para os de casa e os de fora. Costumeiramente vivia em cima da mesinha de centro. Às vezes nas prateleiras da estante, ao lado da Bíblia, da enciclopédia, dos discos. Mil vezes escapou do fim. Quando a arrumadeira se zangava. Quando os meninos brincavam de bola na sala. Quando qualquer mão descuidada o abanava.
Não lhe faltavam elogios. Chamavam-no gato bonito, gatinho lindo, belo gatão. Mesmo quando percebiam sua circunspecção. Talvez até vissem nela o melhor de sua beleza.
sábado, 15 de julho de 2006
Joana d’Arc e os amantes (Nilto Maciel)
Jacques olhou para a cama e sorriu. Isabel despia-se, lentamente.
— Posso acender a luz? — ele perguntou.
Haviam se conhecido duas ou três horas atrás. Num cinema. A história de Joana d’Arc sempre o interessava. Além do mais, gostava de filmes. Isabel, porém, não se lembrava de algum dia ter ouvido qualquer referência à donzela de Orléans.
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Aquele homem de asas (José Peixoto Júnior)
(Nilto Maciel, ao lado de ChicoMiguel de Moura, à esquerda, em Havana)
As asas de Ícaro, filho de Dédalo, criatura de Ovídio, eram pregadas ao corpo com cera de abelhas; as do Ícaro do “Navegador” deveriam sê-lo com cera de ouvido, para não fugir da utilização de substância idêntica em idêntica finalidade. Assim, com ceroma e com cerume a lhes suster o órgão principal do vôo, os avoadores precipitaram-se da Serra de Baturité, um rumo ao Nordeste e o outro ao Centro Oeste. O primeiro confundiu o azul do mar com o azul do céu e suas penas molharam-se, virando espuma do mar. O outro atingiu o centro do mapa.
Antes do voo, tanto o Ícarozão quanto o Ícarozinho estiveram envolvidos com os “Guerreiros de Monte-mor”. Haviam partido da “Estaca Zero” acossados, depois da tentativa homicida com o “Punhalzinho cravado de ódio”, isso em decorrência da intriga gerada n’"A Guerra da Donzela". Foram verdadeiros “Tempos de mula preta”! À toa, vagabundavam numa busca à-toa de “Itinerário”. Até que “O cabra virou bode”, não com medo do “chupa-cabras”, mas para enfrentar “As insolentes patas do cão”. Cão cão, não cão dos infernos. Em seguida, já tranquilos, meteram-se entre “Os varões de Palma”.
Mon amour (Nilto Maciel)
A história não tivera começo. Ele não se lembrava de onde viera nem como conhecera aquela mulher. Não se lembrava de nada anterior àquele momento: sentado na cadeira, mãos sobre a mesa, de frente para a mulher.
O garçom servia, retirava-se, voltava, e eles a conversar. Ela queria saber o nome dele. Perguntava, insistia. Ele não se lembrava de ter tido um nome algum dia. Talvez tivesse apenas apelido. Bebia um gole de champanhe, sorria. Não via importância nenhuma no seu nome. Tanto fazia ser José ou Abraham. Ela, porém, não desistia. Não gostava de conversar com pessoa sem lhe saber o nome.
domingo, 9 de julho de 2006
Do Ceará, um Borges (Francisco Miguel de Moura)
Até hoje permanece o mistério: Por que o homem gosta de histórias? O homem da caverna, para espantar a solidão, o frio, o medo, inventava e contava. Ainda não sabia escrevê-las. O homem moderno escreve-as para leitura, na solidão – para espantar a solidão. Mudou a maneira de conceber histórias, de contá-las. Contos de fada, histórias da carochinha, contos fantásticos, maravilhosos, histórias de trancoso – estas lembrando Gonçalo Fernandes Trancoso, o português que apanhou muitas na tradição e adaptou-as para “proveito e exemplo”. Mas o conto moderno às vezes nem tem história, é um momento tenso da vida, da alma, geralmente de um personagem só. Um mestre mundial foi o francês Maupassant, outro foi o russo Tchekhov, também inovadora seria a inglesa Mansfield. A essa tríade se juntaria Machado de Assis, glória do conto mundial. Mas não tivemos tantos nos primórdios. Eles eram essencialmente romancistas. A partir do modernismo fomos aparecendo. Mas a safra maior de contistas viria nos anos 60 e principalmente 70. Um da década de 70 é cearense, quase não freqüentou a prateleira das livrarias, nem as colunas dos jornais. Porém seu trabalho vem constante, forte, árduo, em silêncio. Trata-se de Nilto Maciel, seu primeiro livro, Itinerário, como ele próprio diz, teve a primeira edição em Fortaleza, em 1974. Uma edição acanhada, de 200 exemplares. Pode? Pode. Na província tudo é possível. O pai do nosso romance não é de lá? Alencar foi um monstro, grande demais para sua época. "A crítica não tomou conhecimento do livrinho", adverte Nilto Maciel, na primeira página da 2a. edição, agora lançada pela Scortecci, 1990, São Paulo. E mais: "Dois ou três leitores amigos me puxaram as orelhas. A situação social e política do Brasil merecia literatura mais engajada”, disseram. “Não concordei com a opinião dos amigos e não mudei de estilo. Mudei, sim, muito depois, a linguagem daqueles contos."
Sonhos (Nilto Maciel)
Um dia, em plena lua-de-mel, ela amanheceu de cara fechada para o marido. Durante o café só abriu a boca para o leite. Nem biscoito quis. Não sentia fome. Indisposta. Ele insistia, ela recusava. Ele amável, ela áspera. Não, não se tratava apenas de inapetência. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.
E ela contou o sonho horrível. Flagrava o marido com outra, no maior amor. E ainda riam da cara dela.
quarta-feira, 5 de julho de 2006
A ficção de Nilto Maciel (F. S. Nascimento)
1. O Jogo Verbal
Em seus mais recentes livros, Nilto Maciel tem se revelado um explorador irrequieto do estilo na prosa de ficção, justificando-se o interesse da crítica por algumas dessas bem sucedidas experiências. Partindo de consciente domínio do instrumental lingüístico, observa-se que esse procedimento vem se realizando dentro de um jogo verbal em que, usando os componentes da linguagem tal como estes se organizam no sistema expressivo convencional, subitamente o escritor rompe com esse eruditismo vernacular, definindo-se por arranjos estilísticos efetivamente representativos da sintaxe coloquial, em consonância com as variantes culturais dos seres projetados no espaço da ficção.
domingo, 2 de julho de 2006
Adeus, Alzira (Nilto Maciel)
(Alvaro Dias, autor da foto)
Cinquenta anos. Hã-hã. O pessoal brinca com isso. Quanto mais anos, mais lascado o homem. Muita vida passada. Muita água corrida debaixo da ponte. Os rios correm para o mar e se perdem nesse mundão. É a vida, a vida que se vai. A infância, a juventude, os bons anos. Muitos anos. Tempo que não acaba mais. Mas o que passou, passou. E eu vivi o quê? Metade da existência com essa jumenta. Uma égua, depois de velha. Não serve mais para nada. Faz tudo como antigamente. Só sabe abrir as pernas. No começo, um paraíso, parecia um nunca acabar de prazer, todas as noites, tudo numa paixão doida, num amor sem tamanho. Amor? Isso existiu de verdade ou foi só impressão? A gente falava de amor, amor, amor, jurava amar um ao outro para sempre, e nem notou que um dia essa palavra não valia mais nada. “Amor, você está bem? Boa-noite, amor”. Qual nada! Amor e bosta são uma coisa só. Basta puxar a descarga e vai tudo de esgoto abaixo. Agora, paixão existiu, aquele fogo danado dentro das carnes, queimando as tripas, agitando o corpo, aquele desejo animal, furioso, incontrolável.
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Nilto Maciel, o contista (Sânzio de Azevedo)
Escritor nascido no Ceará em 1945 e hoje radicado em Brasília, Nilto Maciel, depois da experiência de Itinerário (1974), surgiu-nos com o livro de contos Tempos de Mula Preta (1981), incursionou depois pela novela, com A Guerra da Donzela (1982), e volta agora ao conto, com Punhalzinho Cravado de Ódio (1986). Anuncia para muito breve um romance, Estaca Zero. Mas aqui desejamos falar é do contista, registrando as impressões que nos deixaram algumas de suas narrativas.
Em Tempos de Mula Preta, chamou-nos a atenção o conto de abertura do livro, “Ave-Marias”, onde encontramos a figura do Coronel Izidoro, “vermelho, peru enraivecido”, furioso porque sua filha, a Maria das Graças (ou Gracinha), anda de amores com o Carlinhos, filho do Dr. Pinheiro. O rapaz testemunha uma cena de lesbianismo entre Zefa e Maria, amante do Coronel: “Zefa derreou-se sobre Maria, beijando-lhe os seios, amassando-lhe o ventre, vigorosa.” O conto é estruturado em planos superpostos, mostrando-nos ora o Coronel a ralhar com a filha, ora Carlinhos lendo um romance no cabaré, ora Gracinha no banheiro, etc. Interessante é que nessa narrativa, de clima fortemente erótico, o romance que o personagem lê não é nenhuma obra naturalista de Júlio Ribeiro ou de Adolfo Caminha; não diz o narrador que livro é, nem há necessidade disso: “Livro aberto diante dos olhos parados, Carlinhos coça o queixo. ‘Abriram-se os braços do guerreiro adormecido e seus lábios; o nome da virgem ressoou docemente.’ “Ou, noutro passo: “Os pés de Carlinhos tremem no Chão luzidio da sala, as mãos agarram o livro antigo. ‘A juriti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro.’” Mas essas transcrições não são gratuitas, pois coincidem com a evolução do relacionamento do rapaz com Gracinha. Tanto assim que quando alguém pergunta a Carlinhos se sua mãe está, diz o narrador: “Ajeita-se, gagueja, fixa os olhos nas palavras. ‘Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.’” (Sabemos nós que todas as transcrições são do capítulo XV de Iracema, de Alencar.) O certo é que, enquanto o Coronel, cheio de ódio, espanca sua amante no cabaré, “Geme Maria das Graças no chão verde. Geme Carlinhos sobre o corpo róseo da moça. Os sinos da Matriz badalam seis vezes.”
A voz indecorosa (Nilto Maciel)
João Canoro passava quase todo o tempo nas ruas. Não perdia um minuto dentro de casa. Dormia, acordava e corria para a rua. Como um pássaro que fugia da gaiola. E punha-se a voar, isto é, a andar, andar, andar, até cansar. Tanto gostava de andar pelas ruas que jamais quis ser escriturário, balconista, barbeiro. Preferiu ser office-boy durante alguns anos, caixeiro viajante por mais outros, oficial de Justiça incompetente, vendedor de assinatura de todas as revistas...
Embora andasse como poucos, João nunca se julgava cansado e, mais mundo houvera, mais andara. Calculava, insatisfeito, já ter dado algumas voltas ao mundo. Queria bater recordes. Sem alardes. Modestamente.
domingo, 18 de junho de 2006
O homem que vioru saco
(Entrevista concedida a Rodrigo de Almeida, da Editoria do caderno “Sábado”, do jornal O Povo, e publicada em 26 de abril de 1997, Fortaleza, Ceará.)
O romancista, contista e poeta Nilto Maciel, um dos mentores do extinto O Saco, fala da dura tarefa de publicar revistas no Brasil.
É isto.
"Andavam ao léu, perdidos dos caminhos, farejavam restos de virgem violada e rastros de violador desalmado. Catavam frutas podres, corriam atrás das próprias sombras, atiravam em visagens. Já não sabiam para onde seguiam nem onde se achavam. Pareciam um magote de bichos misteriosos".
Esse foi um dos momentos de alvoroço vivido numa cidadezinha do interior cearense por causa da notícia de uma donzela raptada. Uma vila isolada dos grandes centros urbanos, com tipos simplórios, desde o vigário até o prefeito, todos nivelados pelas mesmas preocupações.
Verdade? Em algum lugar, talvez sim. Principalmente na ficção de Nilto Maciel, construída na novela A Guerra da Donzela. Num jogo verbal que ora tenta obedecer às lições dos clássicos da língua portuguesa, suas principais influências, ora reproduz o estilo brasileiro e lhe enfatiza as “cambiantes dialetais”, Nilto Maciel vem tentando já há um certo tempo a sorte – e a sina – de ser romancista, contista e poeta.
Passeio (Nilto Maciel)
Se a escada parasse de súbito, eu rolava e levava de roldão todo o mundo. Talvez fosse mais engraçado do que lamentável. Não, não posso cair nem machucar essa gatinha. É mesmo um amor de garota. E por que chamar as mocinhas de gatinhas? E nós de gatos, gatinhos, gatões? Eu, um gato? Qual nada! Sou antes um macaco, um bicho qualquer. Vou me olhar direito. Mas aqui não tem espelho. A não ser os vidros das vitrines. É isso mesmo. Faço de conta que estou olhando os calçados, os preços, como um possível comprador. Que tal uns sapatos pretos? Ou marrons? Uma ruguinha aqui, uns pés de galinha. Que sapato mais gaiato! E caro.
quinta-feira, 15 de junho de 2006
As grandes editoras preferem subliteratura
(Nilto, Taveira e o editor Victor Alegria, em Brasília)
(Entrevista concedida por Nilto Maciel a João Carlos Taveira e publicada no jornal BSB Letras, Brasília, 10/11/1991)
JCT – Nilto, o que significa o ato de escrever, para você?
NM – No início eu escrevia por brincadeira. Era como jogar futebol ou brincar de esconde-esconde. Escrever era um jogo. Assim como ler. Eu lia com prazer, desde menino. Esse prazer ainda existe. Mas não é mais apenas prazer. Às vezes se torna dever, ofício. E também vício. Não, não é bem vício. Talvez apenas vontade de voltar a brincar, reviver a infância, o passado. Recriar o que esqueci, guardei na memória ou mesmo aquilo que existiu apenas em mim mesmo. Meus mitos.
JCT – Dono de uma bibliografia considerável e já com referência crítica em torno do seu nome, seus livros vedem bem?
NM – Acredito que a literatura seja a arte menos massificada. Se um livro é bem vendido, o mérito não é do autor, do livro, mas da mídia, dos profissionais de comunicação que conseguem fazer com que milhares e até milhões de pessoas se interessem por aquele livro. Não tenho a menor esperança de que um dia meus livros sejam bem vendidos. A menos que eu decidisse escrever sobre os amores de alguma dama da política. Mas não pretendo fazer isso.
JCT – A que você atribui tal pessimismo?
NM – Na verdade são poucos os escritores brasileiros que vendem bem. Uns são até consagrados no exterior, como Jorge Amado. Outros porque escrevem para alunos de 1º e 2º graus. Não escrevo para crianças ou adolescentes, apesar de três de meus livros terem sido editados com tal intenção.
JCT – Por que você não aceita o mercado infanto-juvenil, que tem sido a saída de muitos autores?
NM – Não me vejo um escritor profissional. Não que eu seja contra a profissionalização do escritor. Posso ainda escrever livros para crianças e adolescentes. Não descarto essa idéia. Porém sei que me sentirei meio deturpado, fazendo uma coisa por dinheiro. Claro que luto por meus direitos autorais. Não quero que interpretem mal estas minhas idéias. Além do mais, pertenço ao Sindicato dos Escritores.
JCT – Como você vê a questão editorial brasileira, em relação aos autores nacionais?
NM – Por estes dias deve sair o primeiro número da revista Literatura, de que sou editor. Nosso objetivo é divulgar livros editados por conta dos autores ou por pequenas editoras. Alguns escritores mais conhecidos, como Jorge Medauar, estarão presentes, opinando exatamente sobre este tema. A questão é quase que insolúvel. Não temos leitores, a não ser nas escolas. E geralmente de pequenas histórias. A poesia, o conto, o romance mais elaborado, estes não têm vez nem nas escolas nem junto ao leitor comum. As editoras só publicam romancistas norte-americanos, os piores. Não temos bibliotecas. A imprensa não fala de livros, salvo raras exceções. O quadro é, pois, péssimo.
JCT – Você concorda com alguns escritores que dizem já não haver mais leitores e os que resistem preferem o besteirol à literatura?
NM – Essa “preferência” foi imposta, está sendo imposta. Se as editoras só editam o besteirol, como os leitores podem preferir literatura? Os editores alegam que o público prefere a subliteratura, razão por que se dedicam a publicar apenas tais livros. Na verdade, o leitor inteligente, que leu e lê bons livros, este é mesmo minoria. Infelizmente.
JCT – Como você avalia a situação do livro hoje no Brasil?
NM – O bom livro é editado por conta do autor ou por pequenas editoras. Essa é a regra. A tiragem desses livros é de 500 a 1000 exemplares, que são vendidos a amigos. A subliteratura é editada pelas grandes editoras (que aqui e ali editam bons livros), em tiragens fabulosas, vendidas nas livrarias e nos supermercados. Livraria não aceita o bom livro dos autores desconhecidos, editados por pequenas editoras ou por eles mesmos. São duas categorias de livros perfeitamente distintas. Nem podem conviver juntas, no mesmo espaço. Quando isto ocorre, o leitor nem sabe distinguir um do outro. Para ele García Márquez é mais um desses escritores estrangeiros que escrevem romances do tipo sexo-espionagem-violência-drogas-etc. Eu vi muito analfabeto lendo O Nome da Rosa. Era moda.
JCT – Vale a pena ser escritor?
NM – Vale a pena viver, escrever, sonhar. E escrever também me dá prazer, como eu já disse. Ora, se me dá prazer, vale a pena. E vale muito. Acredito que se não escrevesse já teria morrido. Escrever é também remédio. Sobretudo para a angústia. A angústia é até mesmo matéria-prima para o escritor. Não só os poetas. Talvez o romance não seja o gênero apropriado para isso. Mas o conto também pode ser gerado a partir da angústia do escritor.
/////
Teoria do amor socrático (Nilto Maciel)
O professor Mendes não sabia com precisão quando tivera a ideia de escrever seu inconcluso livro. E não se arriscava sequer a falar do ano.
— Mais ou menos — instavam seus amigos.
— Pode ter sido em 64, muito antes, ou muito depois; não sei.
Bem, se não se lembrava do tempo da fecundação, dissesse então por que decidira criar a obra — exigiam os outros. Por querer celebrizar-se? Por admiração ao filósofo? Por puro diletantismo?
sábado, 10 de junho de 2006
Nilto Maciel, voz cearense do conto novo
(Entrevista concedida a Danilo Gomes e publicada primeiro no Suplemento Literário do Minas Gerais, em 1977, e depois no livro Escritores Brasileiros ao Vivo, volume 2, Editora Comunicação/Instituto Nacional do Livro, Belo Horizonte, MG, 1980, págs. 125/129)
(Danilo Gomes)
Nilto Maciel pertence à nova geração de escritores brasileiros de ficção. É um nome que vai se afirmando e que, chegando do Ceará neste ano de 1977, continua aqui em Brasília suas atividades literárias, sem prejuízo de seu trabalho na Câmara dos Deputados.
Nascido em Baturité, Ceará, em 1945, Nilto Maciel viveu mais de 20 anos em Fortaleza, onde foi redator de publicidade, criador do jornal nanico Intercâmbio (mimeografado), fundador do Movimento de Intercâmbio Cultural e um dos criadores e editores da revista O Saco. Formou-se em Direito.
quarta-feira, 7 de junho de 2006
A fala dos cães (Nilto Maciel)
O cervo conseguiu escapar à fúria de seus perseguidores e meteu-se na selva. Acteão talvez tivesse tido pena dele. Chamara de volta seus terríveis cães. Descansassem um pouco. Havia tempo de sobra. O dia mal começava.
O caçador avistara uns corpos nus à beira do rio. E tratou de impor silêncio. Nada de gritos nem latidos nem gemidos.
domingo, 28 de maio de 2006
Como surgiram Palma e seus habitantes (Nilto Maciel)
(Pharmacia Mattos, Baturité antiga)
Quase todas as minhas narrativas longas têm como cenário a fictícia cidade de Palma. E também alguns contos. Palma seria Baturité. Não sei se a omissão do nome real da cidade se deveu à vontade de me esconder, me sentir mais livre para criar ou de não parecer tão real, não ser um cronista. Para substituir Baturité, inventei primeiro Jeriquitiba. Depois Tamboaçu.
O topônimo Palma apareceu primeiro nos contos “A Beata de Palma”, “As Pontas da Estrela” e “Tony River”, do livro Babel, publicado em 1997, mas escrito logo após Itinerário, entre 1975 e 1976. Originalmente, no entanto, nas três peças eu ainda não denominava Palma a cidade de minha ficção. Assim, a segunda dessas narrativas intitulava-se “O Menino com uma Estrela na Testa” e se passava em Tamboaçu, tal como a primeira. Este nome perdurou talvez até 1982, quando passei a reescrever meus contos publicados em jornais e revistas.
Incubação (Nilto Maciel)
O dia todo na labuta do campo, João e Maria nem tiveram tempo de se amar. Mal se deitaram, o sono chegou. Ainda trocaram duas ou três palavras. A cobra enroscada na árvore, promessa de chuva, fadiga no corpo.
No meio da noite, Samael se aproximou do tugúrio do casal. Sorrateiro, entrou. Há tempos seguia os passos de Maria. Quando a encontrava a sós, sussurrava-lhe lascivas palavras. E ela fugia, cega de ódio.
sexta-feira, 19 de maio de 2006
A revista O Saco e o Grupo Siriará (Nilto Maciel)
(Geraldo Markan, Rogaciano Leite Filho, Nilto Maciel, Guaracy Rodrigues e Celso Almeida)
Um dos mais substanciosos estudos sobre a revista O Saco é de Alexandre Barbalho: Cultura e Imprensa Alternativa: a revista de cultura O Saco (Editora da Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2000). Outros escritores também se manifestaram sobre este assunto em artigos.
Em 1976 um grupo de escritores criou O Saco, “revista mensal de cultura”. A partir do nº 5 tornou-se “uma revista nordestina de cultura”, apesar de, desde o primeiro número, publicar colaborações de escritores de todo o Brasil e até do exterior. A Revista apareceu como novidade, não somente no Ceará, mas no Brasil. Diferente das outras, as de então e as do passado. Porém não tínhamos pretensão de fazer escola, de ser anti-acadêmicos ou revolucionários. Pois escritores mais velhos, com livros editados também foram publicados.
Rosa dos ventos (Nilto Maciel)
Nenhum livro dormia à cabeceira da cama, nem havia copo ou comprimido à espera da mão sonâmbula de Rosa, que apalpava a cabeça, assanhava o cabelo, os olhos feito tochas a incendiar o quarto. Com a mão direita amassava o lençol e as dobras do pano fugiam-lhe entre os dedos. Com a outra buscava o corpo ausente de José, seu peito cabeludo, seus largos ombros, suas coxas grossas, seu duro queixo.
domingo, 14 de maio de 2006
Achados de um menino perdido (Nilto Maciel )
(Cidade de Baturité)
De certa forma, fui discípulo de Ailton. Adolescentes ainda, fazíamos versos, de preferência sonetos. Os meus não valiam nada, e pouco depois mandei toda a papelada ao lixo. Os dele são alguns destes agora reunidos em livro, pela primeira vez, passados tantos anos de sua morte. O que restou de tudo o que escreveu, apenas 30 poemas, alguns contos e fragmentos diversos. Há um poema datado de 1957, quando chegava aos 15 anos de idade. É verdade que são inúmeros os casos de escritores que escreveram obras-primas quando bem jovens. Porém, a maioria dos adolescentes deixa de lado as veleidades literárias também muito cedo. Não foi o caso de Ailton, logicamente. Porque tinha talento. Sua poesia é de bom nível. Não por saber metrificar e rimar, como todo bom poeta o sabe. Ailton sabia métrica e rima porque lia e estudava. Lia os bons poetas, como Castro Alves, um de seus ídolos. Sabia de cor páginas inteiras do poeta baiano. Escreveu poemas de excelente extração, a lembrar os românticos. Aliás, o vocabulário de Ailton é quase sempre romântico. E rico. E os versos românticos são o melhor dele. Quando pretende fazer poesia político-social, como em "Desperta, Brasil", só nos resta lamentar.
A menina dos olhos (Nilto Maciel)
Corríamos pelo campo, não sei bem com que intenções. Possivelmente desejávamos pegar borboletas ou grilos. Talvez quiséssemos apenas correr. Não consigo lembrar-me dessas migalhas. Já faz muito tempo. Eu devia ser um pedacinho de gente de uns cinco ou seis anos.
Havia uma cerca de arame a dividir o terreno em dois mundos opostos: de um lado capim rasteiro; de outro, terra nua. E tratamos de transpô-la. E já então arrastava-nos a determinação de achar não sei o quê. Uns pareciam mais decididos, como se comandassem os demais. Raquel, sobretudo, que caminhava à frente e de vez em quando parava, abaixava-se, cutucava o chão. Uns acercavam-se dela, faziam-lhe perguntas, arranjavam gravetos e espetavam a terra. Imitavam-na ou queriam agradá-la. Outros, como eu, permaneciam ao largo, mais curiosos que agitados, à espera de novas invenções de Raquel.
segunda-feira, 8 de maio de 2006
Uma crônica de João Brígido (Nilto Maciel)
(João Brígido)
Um editor me pediu um escrito natalino para um jornal. Pensei num cartão, numa carta, numa cartona. Imaginei uma virgem e seu filho. Vasculhei a Bíblia, minha biblioteca. Cheguei a ler um auto pastoril. E terminei na Antologia de João Brígido. Passei o dedo pelo índice e fui dar na crônica “Uma manhã de Noel”. O livro tem quase seiscentas páginas. Parece-me ser esta a única crônica do livro, compilado pelo poeta Jáder de Carvalho, a tocar o tema do 25 de dezembro.
sexta-feira, 5 de maio de 2006
Ícaro (Nilto Maciel)
Rotineiramente nos meus sonhos sou levado de roldão no turbilhão das chafurdices mais absurdas. E acordo brigado comigo mesmo, por ser frágil, pequeno, indefeso — criaturinha atômica perdida na grandeza das coisas.
Há pouco eu ia ladeira abaixo, desembestado, numa carreira de doido. E se não conseguisse nunca mais parar, fosse bater no fim do mundo? Bem feito, quem me havia mandado sair daquele jeito! Não, eu podia me esborrachar nas pedras, terminar todo arranhado, quebrar perna, braço, rachar a cabeça. Ah meu Deus! E que vontade de voltar atrás, ao tempo da partida! De pelo menos estacar, tomar fôlego, andar apenas, passo aqui, passo ali, feito cachorro vadio. Porém já nenhuma vontade eu carregava, nada eu conseguia fazer para diminuir a velocidade, desgovernado seixo na correnteza. E descia, rolava, perdido, danado. Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar voo. As pernas, soltas no espaço, balançavam agarradas ao resto do corpo, feito as de um enforcado. E me guiavam os quatro ventos do desespero para as alturas e as perdições. Na boca, o gosto do nada; nos olhos, o medo de precipitar-me; no peito, a ânsia da desgraça. Sim, a queda. Não podia durar muito minha aventura de pássaro sem asas. Como voar para sempre? A menos que eu buscasse o mar, seguro porto de todos os voadores. Nunca, ele não existia, e, se existisse, vivia longe, longe demais. Mas quanta burrice, eu quase alcançava tocar com os pés as cabeleiras das árvores. Não carecia preocupar-me tanto. Bastava soltar-me das argolas do céu e saltar.
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