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terça-feira, 24 de outubro de 2006

Prelúdio para a morte de César (Nilto Maciel)


Fazia muito calor, as muriçocas cantavam ao pé do meu ouvido, os cachorros latiam longe, em cadeia, insones e monótonos, e eu não conseguia dormir, por mais que remexesse os baús da infância. Banhos de rio, o tempo das chuvas, cantigas de roda. Onde está a Margarida, ô lê, ô lê, ô lá; onde está a Margarida, ô lê, seus cavaleiros.

Em dada hora, ouvi a voz de César. Falava com a mãe e perguntava pelas irmãs. Depois tudo se calou e só eu falava comigo mesma e cantava para me ninar.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Nilto Maciel, o mago do conto (Silvério da Costa)



 
Há tempos vinha dizendo para mim mesmo que o Nilto Maciel era um dos maiores contistas brasileiros da atualidade. Minha dúvida consistia em saber se existia no Brasil alguém que o superasse na difícil arte de narrar histórias curtas. Depois de ler o seu excepcional Pescoço de Girafa na Poeira, 1º lugar na categoria conto, na Bolsa Brasília de Produção Literária, 1998, da Fundação Cultural do Distrito Federal, a dúvida foi debelada.

O primeiro homem (Nilto Maciel)




Quando Leão morreu, até papai, que tinha um coração de pedra, chorou. Inconformada, amaldiçoei todos os carros do mundo. Logo, porém, me conformei, porque a morte do bichinho me foi favorável: voltei a ser a menininha da casa. Todo o recente passado ressurgiu mais caloroso ainda, na forma de mimos, chocolates, passeios ao zoológico.

domingo, 22 de outubro de 2006

O Saco dos mil e um contos de Nilto Maciel... (José Luiz Dutra de Toledo)

O SACO DOS MIL E UM CONTOS DE NILTO MACIEL: SUAS ALEGORIAS, FANTASMAGORIAS E CÍCLICAS PERPLEXIDADES LITERÁRIAS


Com as edições envelopadas de contos e poemas (O Saco – anos 70 do século XX – Fortaleza – Ceará) Nilto Maciel começou a se tornar notável e valorizado na cena literária nacional. Além de divulgar outras escritas expressivas e representativas da sua geração (marcada pelo intento de resistir à cultura sacralizada pelos governos autoritários que nos cercearam de 1964 até 1985), este escritor cearense refez seus percursos e resgatou suas fontes literárias (A. Kuprin, Émile Zola, Graham Greene, Júlio Verne, Menotti Del Picchia, Taunay, Camilo Castelo Branco, José de Alencar, Lima Barreto, Castro Alves, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, Marquês de Sade, Blaise Pascal, G. Hegel, K. Marx, Paul Verlaine, Musset, Machado de Assis, Alexandre Dumas e muitos mais) e recitou-as em seus casos para desfechos inquietantes ou desconcertantes (desconstrutivistas e minimalistas) às nossas fisionomias e olhares boquiabertos. Picasso explica. Com seu estilo compassado, criativo e conciso, Nilto Maciel construiu pontes/ alusões inusitadas entre o seu imaginário literário e as mais ricas obras da arte de narrar e especular ao longo dos séculos XX e XXI. Por exemplo:
Franz Kafka e Nilto Maciel.

Uns seios (Nilto Maciel)





“E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos.” Machado de Assis



Pedrinho olhava distraído para os seios de Izaura, que se debruçara sobre a mesa para melhor distribuir o almoço.

– Provou do cozido, Severino?

Em vez de responder à mulher, o advogado deu um berro e pôs-se a descompor o hóspede.

– Esse menino não tem jeito. Vive dormindo em pé. Acorda, palerma, presta atenção às coisas!

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

O prazer de ler Nilto Maciel (Nicodemos Sena)




“Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites comprimidas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios”, assim o escritor alagoano Graciliano Ramos começa o magistral romance Angústia, que conta à história de uma personagem miserável, vivendo numa das cidades nordestinas e vítima de todas aquelas desgraças circunstanciais. Graciliano costuma ser lembrado como o autor de Vidas secas e São Bernardo, livros que retratam a amargurada vida rural do povo nordestino, mas é Angústia a sua melhor obra. Nesse livro, ainda é o meio agreste que serve de pano de fundo para a narrativa, mas o drama se desloca do espaço social para o psicológico, onde é exposto o conflito íntimo do personagem-narrador Luís da Silva, humilde funcionário de repartição, a quem as dívidas e um ciúme doentio empurram para o crime.

Babel (Nilto Maciel)



ela estará sentindo as piores dores
era um peru de grandes cristas vermelhas que eu criava desde pequeno
fingirei estar por demais nervoso e preocupado e fumarei alguns cigarros
e eu gostava tanto dele que lhe dei o nome de minha mãe
ela dirá que não agüenta mais, que é preciso ir
eu já vivia só

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Os contistas estão ativos (Enéas Athanázio)



Em seu recente livro — “Pescoço de Girafa na Poeira”, (Bolsa Brasília de Produção Literária/Bárbara Bela Editora Gráfica — Brasília —1999), Nilto Maciel reuniu cerca de 60 contos, todos curtos, alguns curtíssimos, não superando nunca o limite de quatro páginas, e formando um conjunto de elevado nível. Embora econômicos no tamanho, no entanto, esses contos são completos, nada lhes faltando como criações literárias e ficcionais. O estilo enxuto e despojado do contista não precisa de maior número de palavras para dizer o que deseja, mesmo porque essas palavras são buscadas com cuidado para que sejam precisas no exprimir aquilo que a situação exige. Em outras palavras, o autor não precisa realizar círculos para atingir o ponto procurado. Tanto isso é verdade que seus contos criam sempre a atmosfera desejada, seja uma atmosfera de mistério, de medo, de expectativa, de tranquilidade etc.

Também criam com perfeição o clima para o desfecho tantas vezes inesperado, definido em poucas e precisas palavras, de forma fulminante, apanhando o leitor de surpresa. Acentue-se, ainda, a criatividade do contista, nunca se esgotando ou repetindo. A leitura desse livro, enfim, é um excelente reencontro com a boa arte do conto, exercida por um contista que vem merecendo muitos prêmios, inclusive os mais importantes — aplausos dos leitores e dos críticos. Este livro recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, em categoria conto, em 1998, colocando-se no primeiro lugar.
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(Jornal Balneário Camboriú, Santa Catarina, 9/12/2000)
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domingo, 15 de outubro de 2006

A ponte sobre o rio dos amantes (Nilto Maciel)


Só podiam estar em lua-de-mel. Tantos beijos, afagos, enlevados um do outro. Ela, vista de onde eu me achava, parecia ter seus vinte anos e ser muito bonita. Ou talvez se tratasse de beleza artística, cosmética, aparente. Ele também se vestia da mais fina elegância e dava ares de galã de cinema.

Não, não devia ser verdade. Eu sonhava ou talvez filmavam por ali. De onde haviam surgido? Por que tão bem aparentados naquele ermo? Ora, só havia o rio, a ponte onde eles namoravam e a estrada de que a ponte fazia parte. E mais nada. Só eles e eu. Eles esquecidos do mundo, eu todo ouvidos e olhos. E, apesar disso, eles não notaram minha presença, enquanto eu não perdia um só gesto deles, um só movimento das mãos, dos olhos, dos lábios.

Na bolsa (Manoel Hygino dos Santos)




Se tenho recebido os livros enviados? Respondo afirmativamente, embora nem a todos pude comentar até o momento, até porque a safra é grande e interminável.

Oportuno constatar e registrar, por outro lado, que há bons produtos, dignos de apreciação, alguns de autores novos e desconhecidos no mercado livreiro.

Leio livros como me alimento, escolho pratos e títulos, não ajo com voracidade. Só uso aqueles que me fazem bem, os que me agradam, sendo oportuno ressaltar que algo que apraz a alguém a outrem não satisfaz. Não trabalho em termos meramente numéricos: tantos volumes por mês, não é por aí. Se aprecio, chego ao final; se não, abandono-o sumariamente. Sobre gosto e cores não há discussão. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

As pontas da estrela (Nilto Maciel)




Os bêbados de Palma ainda diziam besteiras em torno do parto feliz e inesperado da Beata, quando no bar de Pedro Mateiro entrou, correndo, a figura agitada e esvoaçante de Bemtevi, suado e assustado.

– Que aconteceu, homem de Deus? Alguma desgraça?

– Diga logo: caiu alguma igreja?

Pescoço de girafa na poeira (Foed Castro Chamma)



O que supõe a Moira ou Destino é o encontro do sujeito consigo mesmo nos confins do pensamento, onde a medida é o tempo que se estende recolhido pelo próprio indivíduo. Esta a causa sui do ser enquanto negação que o sujeito representa, recluso na subjetividade, lá onde arquiteta o vôo sem fim do pensamento na construção da realidade, a partir da imagem, a qual tem na imaginação o primeiro degrau de um campo recolhido ao delineamento concreto da razão. A extensão do tempo é a substância do pensamento; o corte em sua medida por outro lado é o desmonte estrutural da base que serve à imagem transmudada em realidade. De maneira que capturar o pensamento na fonte antecipando-se ao tempo constitui função operacional tanto do historiador quanto do ficcionista, este preso ao cânone (arcaico) da Arché, cujos arquétipos foram substituídos ainda na Ática pela figura do herói. No ser sobrepaira o sujeito articulador do mito e por fim da história a qual, em sua pluralidade, é transformada em unidade emblemática do Eu. O ficcionista e o historiador estão em princípio comprometidos com o descortino do subjetivo e do concreto, cuja dualidade corresponde vale dizer a tempo e espaço.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

A beata de Palma (Nilto Maciel)



Quando o trem parou na estação, o sol acabava de se esconder. Uma dezena de meninos sujos me cercou. Disputavam entre si o direito de carregar minha maleta, o jornal e até o cigarro que eu fumava. Desfiz-me deste, distribuí para cada deles uma folha do jornal e entreguei a carga mais pesada a um rapaz musculoso.

Babel (Erorci Santana)




Unanimemente reconhecido como um dos mais expressivos criadores da moderna ficção brasileira, o cearense Nilto Maciel, radicado em Brasília, editor da revista Literatura, traz a público os contos reunidos em Babel, que em vários momentos constitui-se numa tentativa de restauração da ordem num mundo caótico e apocalíptico, onde os seres foram privados de seus balizamentos existenciais. Assinalam e antecipam o fracasso da civilização, o fim do ordenamento racional. Daí seu enredo insano e desfecho quase sempre trágico. Escritos nos anos de 1975/76, engavetados por imerecido pudor, reescritos, burilados e finalmente dados à fruição, curtos, cortantes e desestruturadores, esses contos de Nilto Maciel revelam excelências narrativas e causam não poucas estupefações.

(Jornal O Escritor, da União Brasileira de Escritores, São Paulo, SP, outubro de 1997)
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sábado, 7 de outubro de 2006

O fim do mundo de Sinhá (Nilto Maciel)



A peste havia levado para a terra dos pés juntos quase todo o povo do lugar. Menos os filhos ingratos, sem amor ao chão, e os mais duros, de corpo fechado. Muita carniça para os urubus. Uma praga de bicho morto. Plantação nenhuma resistiu. A terra se esturricou. Quem escapou e não esperou pela morte, fugiu para bem longe, tomou o oco do mundo. Menos Sinhá. Essa ficou para enfrentar o cão. Comia raiz, qualquer coisa da terra nascida. Gafanhoto, formiga, besouro. Depois apareceram, não soube ela como, pés de pau, porco, galinha, toda sorte de bicho. Porém de quase nada disso ela se servia. Continuava a enfiar as mãos trêmulas na terra, à cata de comida do chão. Se enxergava ainda? Divertia-se a espiar as galinhas comerem minhocas, os porcos fuçarem a lama e os frutos apodrecerem em cima da terra. Sozinha no sitiozinho, na choupana velha, dos bons tempos, conversava com os bichos, a chuva, os ventos, a noite, os meninos que malinavam no terreiro e metidos no mato. Não havera de abandonar a terrinha, porque, o que de que carecia, ela dava em abundância. Dava e levava. Nas suas falas, porém, Sinhá muito se queixava de abandono e rogava pragas aos que a deixaram só, como se estivesse leprosa. Maldizia-se dia e noite, a gritar e blasfemar em miúda voz. Talvez não a ouvissem. Certamente viviam por ali, enfiados nas cabanas escondidas ou nas roças distantes. Tangiam porcos e galinhas, que não cessavam de fuçar o chão, em tempo de derrubar as casas. Ouvia de madrugada o canto dos galos. Sim, eles viviam por ali. E nunca se mostravam. Tinham medo da lepra que ela não carregava. Orgulhosos! A terra havia de papar um a um amanhã, antes da safra, depois de São João.

Babel (Fernando Py)




Diversamente de outros volumes de contos do autor, este nos traz narrativas em geral bastante curtas, às vezes apenas meros flashs, momentos críticos bem apanhados por Maciel. São narrativas que exploram sobretudo um episódio, mínimo que seja, e tratam de aprofundá-lo (quando o conto ultrapassa duas páginas) ou expõem-no em toda a sua crueza momentânea. Muitos talvez possam ser considerados crônicas, mas, essencialmente, se compõem de partes isoladas encaixadas umas às outras, cada qual com uma certa autonomia. Além disso, Maciel também explora a estrutura e a linguagem, experimentando novos modos de narrar: na peça que dá título ao livro, frases soltas de três narrativas se encaixam umas nas outras e o contexto se torna "ilegível" se percorrido linearmente, de tal forma que mais parece uma algaravia sem sentido, uma "babel"; talvez seja o mais criativo sob este aspecto. E o todo é excelente.

(Diário de Petrópolis, Petrópolis, RJ, 3/5/1998)
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quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Inventário de Quinca Manco (Nilto Maciel)


Como se não lhe fosse possível entender que um dia o silêncio se apossa para sempre de mudos e tudos, Chico Maneta deu bom-dia, arrastou um tamborete para mais perto de Quinca Manco, sentou-se e pôs-se a recontar casos tão antigos e esquecidos que quem os ouvisse certamente pensaria tratarem-se de sonhos ou lendas.

Coberto de moscas, o corpo magro e quase nu do velho amigo parecia dormir, estirado na rede suja, sem varandas, tranças ou trancelins, e de punhos e mamucabas rotas. 

Babel (Silvério da Costa)


Trata-se de mais uma dádiva do desmedido talento deste contista que nos surpreende a cada novo livro que edita, com sua forma inconfundível de narrar os fatos do cotidiano, da vida, do mundo e do submundo, com todas as suas quizílias e espantos!

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

O livro de Pedro Amaro (Nilto Maciel)



Sentia-se tonto, o mundo todo de pernas para o ar, feito barata emborcada, a remexer-se em agonia de moribundo sem vela. As palavras perdiam a conotação lógica dos textos regulares de uma lei, tratado sobre a natureza humana, curso dos rios. Via-se lendo a macabra língua dos mitos. O chão virava teto, a cadeira pregava-se como aranha às vigas de uma teia de circo, as linhas proféticas das mãos metamorfoseavam-se em desenhos misteriosos de capas clássicas.

domingo, 1 de outubro de 2006

De conto e contistas (Nelson Hoffmann)



(...) Nilto Maciel dispensa comentários. Autor por demais conhecido, sua obra é extensa e a crítica é unânime em reconhecê-lo como um dos principais nomes das modernas letras brasileiras. Natural de Baturité, Ceará, Maciel está radicado, há anos, em Brasília. Seu primeiro livro que aportou por aqui, pelo Sul, foi “A Guerra da Donzela” e chamou a atenção. Todos os anos é re-indicado para leitura em sala de aula.

“Babel” é o quinto livro de contos do autor e, conforme o próprio, um filho enjeitado. Não é. Em muitas de suas páginas ressuma o que de melhor Nilto Maciel escreveu. Perpassando as três dezenas de histórias que compõem o livro, fica-se com uma estranha impressão de maravilha, “déjà vu” e presença real. Há meandros que insinuam mundos kafkianos; há luminosidades que doem como a solama nordestina. Há poesia, há cordel, há povo. Folclore, padrão, elite. Virtude, mornidão, pecado. Crenças, crendices, fé. Homens, mulheres. Mundos.
Ler “Babel” faz a gente lembrar de Jorge Luís Borges. E uma leitura que lembra Borges, só pode ser de livro excepcional. Como este de Nilto Maciel.

(Jornal Igaçaba, Roque Gonzales, RS, novembro de 1999)
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Calvário (Nilto Maciel)



Faca no cós, blusa aberta, calça arregaçada, João chegou à estrada, olhou para cima e para baixo e tomou o rumo da direita. Muito adiante, antigamente, havia uma cruz fincada no chão, junto à cerca, a indicar o lugar onde seu pai sofreu morte sangrenta. Não sabia quem, mas um espírito de porco, um cabra sem-vergonha, um filho de uma égua teve a petulância de arrancá-la e quebrá-la em dez pedaços.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

A Babel de Nilto Maciel (Maria José de Souza)



O livro de contos de Nilto Maciel recebeu acertadamente o nome Babel: uma miscelânea de linguagens, personagens e focos narrativos, numa seqüência de 31 contos, a maioria de um realismo fantástico notório.

Editado pela Editora Códice em 1997, Babel oferece 120 páginas de leitura vertiginosa. A cadência dos contos, assim como a diversidade de temas, levam o leitor num redemoinho de idéias e imagens.

Há contos como, por exemplo, "Avisserger Megatnoc", subdividido em intertítulos numerados em ordem decrescente que dão um ritmo próprio à leitura. O leitor vai lendo como se estivesse sem fôlego, caminhando para o inexorável fim. Lido ao contrário, o titulo "Contagem regressiva” dá a idéia exata de como o autor é experimentado, podendo fazer brincadeiras com as palavras sem cair nas associações óbvias. A ausência de muitas vírgulas, como no item 6 do conto: "Já pulavam dançavam gritavam cantavam e a banda estridava...", e o uso de palavras com repetição de fonemas e sons, como no item 5: "Corra só corra José socorra José direto sem curvas para o baile de máscaras corra corra...", faz pensar em pulsação, urgência.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Os monstrinhos de doze anos (Nilto Maciel)

(Caos, desenho de Daiane Oliveira)


O lixo inundava as ruas. Um e outro transeunte ia e vinha, passo lento, olhos enfiados nas vitrines. Nos estádios, porém, não cabia sequer mais um espectador. Repletos também os bares. Falava-se de tudo, menos da fumaça que empestou o ar na parte da manhã. Mais cedo ainda, uma pequena explosão, lamentada pelas autoridades, matou alguns operários desclassificados que transitavam pelas proximidades da fábrica. Durante todo o dia a polícia esteve de prontidão nas ruas. À noite, ao ranger das camas e ao gemer dos casais, a catástrofe do começo do dia virou pura invenção de bolchevistas.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

A escritura da magia (Ronaldo Cagiano)

O Autor Penetra os Labirintos de Nossa Memória Ancestral

A prosa de Nilto Maciel, cada vez mais, encaminha-se para uma estrutura, cuja elaboração vai nutrir-se dos elementos semânticos que a vida nos oferece, com seus absurdos, suas imagens, seu surrealismo e suas locações fantásticas. Uma linguagem permeada de signos, de uma certa tendência barroca, explorando com rigor estético realidades humanas não circunscritas ao universo comum, concreto, plausível, cabal. É na ultrapassagem metafísica da nossa condição que está a matéria e substância dessa escritura. Lá nos conflitos interiores, nas viagens sub-reptícias da imaginação, no além-fronteira da nossa existência retórica que Nilto Maciel constrói sua ficção, extraindo de tudo o inusitado, o conflituoso, o incomum, o mágico, o inesperado.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

O mundo estaliano (Nilto Maciel)



Ao assumir o poder, ordenei fossem separados os homens das mulheres e assim mantidos sob estrita vigilância policial. Tudo sem outra intenção, senão a de controlar a natalidade, razão primeira da revolução, de vez que as pílulas anticoncepcionais haviam falhado, o aborto constituía-se crime e o povo vivia em perpétuo cio. Por outro lado, nem guerras, catástrofes, acidentes, doenças, fome haviam exterminado suficientemente a espécie humana até a desabitação total da Terra. Fracassou também a exportação de terráqueos para outros planetas, ou por falta de condições materiais e científicas, ou por recusa dos próprios futuros viajantes e dos governos dos planetas instados a acolher os infelizes terrestres. A superpopulação fazia a Terra pesar demasiadamente, a ponto de seus movimentos de rotação e translação não serem mais percebidos sequer pelos mais complexos aparelhos. Previa-se, para terror de todos, o desabamento do planeta e sua consequente descida às profundezas do Inferno.

domingo, 24 de setembro de 2006

A boa literatura nacional (Ronaldo Cagiano)



No panorama da literatura brasileira contemporânea, não obstante o cipoal das contradições que permeiam a produção intelectual e o mercado editorial (este sempre defensor da perversa lógica do lucro), há verdadeiros oásis de excelência. Particularmente, nas produções independentes, há autores, tanto na poesia como na ficção, que se apresentam com um trabalho de alto nível estético, embora não aproveitado pelas editoras de renome.

Nesse contexto podemos destacar a prosa de Nilto Maciel, cearense de Baturité, com uma imensa bibliografia e uma invejável coleção de prêmios literários (o mais recente, com o romance A Rosa Gótica, auferido no Concurso Cruz e Souza de Literatura, de Santa Catarina). Autor, entre outros, de O Cabra que Virou Bode, Os Varões de Palma, Navegador, Estaca Zero, As Insolentes Patas do Cão, Os Guerreiros de Monte-mor e A Guerra da Donzela, Nilto Maciel lançou recentemente, com selo da Editora Códice, o volume de contos intitulado Babel, livro primoroso, de elaboração cuidadosa, tanto gráfica quanto temática, na linha de sua já festejada produção anterior.

Escritor versátil, com uma ficção abstraída dos cânones escolásticos e das rotulações de mercado, sua linguagem e seus personagens transitam num mundo em que realidade e ficção parecem ombrear-se numa fronteira tênue. O absurdo, as imagens surrealistas, o variado signo de suas abordagens nos remetem aos barrocos e heterogêneos caminhos da história coletiva, pois delirantes situações e contingências são transplantadas do imaginário social, popular e dantesco, com a plasticidade literária que só um narrador da sua têmpera consegue atingir. Há uma articulação (in)tensa entre mundos mágicos, inauditos; figurações de uma emblemática busca daquelas inquietas províncias interiores, que nossa infância alada deixou hibernada nas entranhas, vindo à tona estórias, “causos”, alegorias e mistérios, qual uma meticulosa garimpagem nos sentidos.

(Jornal O Dia, Teresina, PI, 26/11/97)
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sábado, 23 de setembro de 2006

O egoísmo de Newton Appletree (Nilto Maciel)



 
Não sei se nasci de outro ser, se surgi do nada, se me autocriei. Porque não tenho nenhuma história, porque sou único. Já vivi entre homens, macacos, pássaros, peixes, insetos e a nenhuma dessas espécies pertenço, apesar da aparência física com os primeiros. Repenso sempre a hipótese de ter sido o homem o meu criador. Mas com ele não me entendi.

Minha primeira amarga lembrança é a de uma prisão e, preso, eu só pensava em quem me poderia ter colocado ali. Revoltava-me viver cercado por quatro paredes, sozinho e sem qualquer comunicação com outros seres. Quem seriam meus carcereiros, os construtores da prisão? Onde estariam? Por que não me apareciam, até para zombarem de mim?

Inventário do fantástico (Ronaldo Cagiano)



Autor, entre outros, de O Cabra que Virou Bode, Os Varões de Palma, Navegador, Estaca Zero, As Insolentes Patas do Cão, Os Guerreiros de Monte-Mor e A Guerra da Donzela, Nilto Maciel (cearense de Baturité radicado em Brasília e cujo currículo ostenta uma invejável lista de prêmios em diversos concursos literários) acaba de lançar Babel, livro de contos que segue a mesma linha de elaboração de sua produção anterior.

Com uma prosa calcada na versatilidade, sua linguagem e seus personagens transitam num mundo em que realidade e ficção parecem ombrear-se numa fronteira tênue. Os absurdos, as imagens surrealistas, o variado signo de suas abordagens nos remetem aos barrocos e heterogêneos caminhos da história coletiva, pois delirantes situações e contingências são transplantadas do imaginário social, popular e dantesco, com a plasticidade literária que só um narrador arguto como Nilto Maciel é capaz de emprestar. Há uma articulação (in)tensa entre mundos mágicos, inauditos: figurações de uma emblemática busca daquelas inquietas províncias interiores que nossa infância alada deixou cravada como um punhalzinho sem ódio em nossas entranhas, vindo à tona estórias, “causos”, alegorias e mistérios qual uma meticulosa garimpagem nos sentidos.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Quem tiver ouvidos, ouça (Nilto Maciel)




No julgamento histórico dos Lobos, os juízes e acusadores, condignamente trajados, ora fumavam, ora cochilavam, ora bebiam água.

Horas e dias assim, fatigantes, calorentos, palavrosos. Os réus amparavam-se uns nos outros, comunicavam-se entre si por gestos, códigos, ruídos imperceptíveis aos homens da corte. Os mais sagazes sempre arranjavam jeito de transmitir a melhor resposta aos mais ingênuos. E conseguia o grupo enfurecer cada vez mais os gordos e imprevisíveis julgadores.

– Responda você – o juiz-presidente apontou para um dos acusados – sem errar, sem tomar fôlego: quem foram Remo e Rômulo?

Babel contemporânea (Astrid Cabral)



Não foi por acaso que Nilto Maciel intitulou Babel sua última coletânea de contos, aliás, nada é por acaso no livro. A referência ao mito bíblico deve-se tanto à variedade de linguagens narrativas adotadas pelo autor, quanto à idéia de destruição implícita no cerne delas – seja a destruição física, relativa à doença e à morte, seja a moral decorrente, da perda de inocência ou de paz interior.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

O menino e o bacamarte (Nilto Maciel)




(Para Airton Monte)

De batismo chamava-se João Alves Mendes, nome depois reduzido a Jão. Apelidou-se Carcará, dizendo-se danado.

Virou índio aos cinco anos. Despia-se e corria pelo quintal, espantando galinhas e porcos. Subia às laranjeiras e de cima atirava laranjas podres nos bichos. Deu para fabricar arcos e flechas com que irritava os galos. Queria matar todos os brancos da cidade com as armas nativas amontoadas no canto do muro. Crescia analfabeto e grosseiro, metido nos cafundós do quintal, sem reza e sem hora para nada.

A unidade de Babel (Caio Porfírio Carneiro)


Nilto Maciel é, e não de hoje, nome de expressão da literatura brasileira. Seus livros, todos eles, não se qualificam apenas pelos aplausos da crítica. Qualquer leitor que o leu viu, de pronto, desde o seu primeiro livro, que Nilto Maciel é um desses escritores que nascem feitos e irão até à morte em ascensão constante. E, para além da arte literária que produz, ele ajuda, como poucos, a empurrar para a frente esse “carro da miséria” que é a nossa literatura, uma cruzada sem fim contra tudo e contra todos, até contra moinhos de ventos. É, por tais méritos, um escritor íntegro e integral.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

As insolentes patas do cão (Nilto Maciel)


Daquela noite lembro quase nada, tudo a se confundir na memória. Chego a pensar que foram muitas as noites, condensadas numa só ao longo do tempo e da angústia crescente. Às vezes ainda me digo: foi um sonho, foram muitos sonhos, misturados a lendas, histórias de trancoso, simples imaginações.

Brincávamos na sala, meus irmãos e eu, de trenzinho de caixas de fósforo, de bois e cavalos imaginários, de artista e bandidos de gibi, qualquer fantasia. E não existiam homens como nosso pai, nem mulheres como nossa mãe, e muito menos cachorros como aquele que nos apareceu de repente, patas à janela, a latir para dentro de nosso mundo. 

Um narrador (Anderson Braga Horta)



 
O premiado ficcionista Nilto Maciel reapresenta aos seus leitores, em 1990, sua obra de estréia: o livro Itinerário, lançado em 1974, em Fortaleza, em edição do Autor. Todos bem cuidados em fundo e forma – o que desde o início caracteriza a literatura de Nilto Maciel –, destaca-se dentre eles o conto de abertura, “Aqueles Homens Tristes”.

Prosseguindo esse justamente louvado Itinerário, sempre fiel a uma reconhecida vocação de narrador, Nilto publica agora o oitavo livro (o quarto de contos): As Insolentes Patas do Cão.
Nele nos deparamos com narrativas que talvez pudéssemos qualificar como psicológicas, a exemplo da primeira, “Ícaro”, muitas delas na pauta do fantástico (“O Vencedor”, “A Última Festa de um Homem Só”), outras tocando a tecla da denúncia (“Eucaristia”) ou da sátira (“Mundo Livre”). Em todos os casos, mesmo quando têm a aparência de fragmentos de vida, como “Joana D’Arc e os Amantes”, essas histórias sempre muito curtas mostram um quê de non-sens, ou uma atmosfera de irrealidade, de sonho, de alucinação (nalgumas páginas parece coar-se o influxo de Borges). Um ou outro conto mereceria mais acurado acabamento, que “arredondasse” a fabulação, lhe desse mais coerência (citaria “Um Simples Boneco”); fora de mais, entretanto, exigir que todos tivessem a completitude exemplar de um “Rosa dos Ventos”.

(Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília, Ed. Thesaurus, Brasília, 2003, p. 334)
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terça-feira, 19 de setembro de 2006

Homero e o macaco (Nilto Maciel)



A dois passos do portão, Homero parou, esfregou o lenço na testa, acendeu um cigarro. Homens e mulheres espiavam para o interior do zoológico, como a planejar visitas. Carros iam e vinham, em disparada.

— Bom-dia!

O guarda apenas resmungou e nem despregou os olhos da lata de lixo.

— Eu queria falar com o diretor.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Contos fantásticos (Silvério da Costa)



 
Recebi do amigo e contista Nilto Maciel, de Brasília o seu mais recente livro As Insolentes Patas do Cão. Trata-se de um livro de contos cujo cerne é o contexto social e existencial, guardando em si o sensual-erótico, o humor negro e o sádico, mas visto, quase sempre, sob o prisma do humor, da ironia, o que o torna, por isso mesmo, mais sério e autêntico. O toque de comicidade dado pelo autor a seus contos, diretos e sem adornos, é que fazem do livro uma verdadeira obra de arte!

domingo, 17 de setembro de 2006

O inseto (Nilto Maciel)



Sonhou João Cordeiro que subia aos céus, no bojo de uma nave estranha, tripulada por seres esquisitos.

Contou o sonho primeiro a sua mulher. Levaram aquilo muito a sério e durante toda a manhã engendraram novas teorias, que à tarde deixaram seus ouvintes em estado de graça.

A sabedoria de João assentava-se em Os fundamentos da vida, de um tal Krishnaradha, edição apócrifa do Rigveda, traduzida do francês para o português pelo carioca Sidarta Hastinapura. E também em Sodoma e os deuses, de Jack Morton, e Os extraterrestres, de Teddy Young.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Nilto Maciel na praça (José Alcides Pinto)






Nilto Maciel, um dos melhores contistas de sua geração, acaba de publicar pela João Scortccci Editora, São Paulo, As Insolentes Patas do Cão. Neste volume está impressa a marca do autor – uma marca inconfundível, muito pessoal, onde seu narrativo talento explode em cada estória.

O novo é uma constante em Nilto Maciel, sempre criativo, sempre polêmico, perseguindo o inusitado. A autenticidade de seus contos o acompanha desde seu primeiro livro. Na verdade, ele já vai com sete volumes publicados, se não nos enganamos. Sua presença em nossas letras já se impõe forte, pela ruptura na linguagem convencional e sua audaciosa visão dos fenômenos estéticos. 

As luvas de Vulpino (Nilto Maciel)



Quando desapareceu das ruas (e seu passo pesado e cadenciado de autômato deixou de ser medido com os olhos até dos mais velhos), a criançada nem percebeu, mas já brincava mais sossegada. Recolheram-no as autoridades da nova segurança, psiquiatras, algum padre caridoso, damas unidas da beneficência.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Antropofagia (Ubiratan Teixeira)



 
Volto a ler o "Manifesto Antropófago" de Oswald de Andrade, aquele do Ano 374 da deglutição do bispo Sardinha de maio de 1928. E diante do vibrião do cólera e da cólera do Collor, assimilo de modo diferente esta sentença: “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses”. Oswald sempre foi sensato; insensato, os outros.

Então dá para entender Nilto Maciel acima do seu trivial de prosador, quando ele acrescenta ao seu currículo esta coisa grandiosa: “Só às portas do vestibular conseguiu ler dez páginas sobre o pensamento grego, onde o jornalista falava de Sócrates, Platão e Aristóteles, além de meia dúzia de nomes de boa pronúncia.
– Havia Apolodoro?”

Os pés do monstro (Nilto Maciel)



Quando identificaram o verdadeiro “homem das botas furadas” já era tarde. Ele estava morto e enterrado havia anos. Assim mesmo, fizeram a exumação.

Junto à ossada encontraram as velhas botas do “bandido”. Quase intactas (não fossem os buracos nas solas), como se os vermes tivessem nojo delas.

A má fama do pobre homem durou quase um ano. A primeira acusação deixou toda a cidade estarrecida: perseguira e violentara a louríssima Adalgisa Liutprand, filha do industrial Genwulf Liutprand.


terça-feira, 12 de setembro de 2006

Dois contistas cearenses (Artur Eduardo Benevides)



Entre os cearenses que triunfaram lá fora, em decorrência do seu merecimento literário, dois, por coincidência residindo em Brasília, mereceram sempre minha maior atenção e acompanhei, por isso mesmo, com grande interesse o seu êxito, na Poesia e no Conto. Refiro-me a José Hélder de Sousa, cujos poemas estão atingindo um alto clima de despojamento formal, em favor da essencialidade, e a Nilto Maciel, que lançou, não faz muito, nova coleção de contos – As Insolentes Patas do Cão – deixando-me a impressão de que se acha no melhor momento de uma criação, no gênero.

domingo, 10 de setembro de 2006

A condenação do senhor Felício (Nilto Maciel)




Nunca mais vi o Dr. Aderaldo Ascegas. Dizem já ter morrido, de velhice, do coração, de qualquer doença. Lembro-me bem da última vez que estivemos juntos, no dia do meu julgamento. Mostrava-se muito preocupado comigo, não tanto em razão da condenação, mas sobretudo porque eu não admitia ser acusado por aquela promotora e julgado por aquele juiz. Aconselhou-me repouso e tratamento médico. Procurasse uma boa clínica psiquiátrica, com urgência. Aquilo me deixou mais nervoso ainda. Tive ímpetos de ofendê-lo fisicamente, chamá-lo de morcego, ou rato. Sim, ele me lembrava um roedor. Cheguei a ansiar matá-lo. Não precisei, no entanto, cometer o crime. Velho como era, não duraria muito. E contive-me.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Nilto Maciel reconstrói o mundo a partir da linguagem (Carlos Augusto Viana)





Em As Insolentes Patas do Cão, Nilto Maciel sedimenta a trajetória de sua ficção. Lançando o seu olhar agudo sobre o cotidiano, filtrando as ações humanas a partir do humor e da ironia, flagra o insólito, o inesperado, os momentos abissais da condição humana. As Insolentes Patas do Cão, de Nilto Maciel (João Scortecci Editora, 107 páginas), reafirma a vocação artística de seu autor, da mesma forma que espelha a sua extrema habilidade em lidar com as mais diversas possibilidades da ficção.

Os belos olhos de Sônia (Nilto Maciel)


Bonita, para alguns. Simpática, gentil, generosa, para muitos. Seus olhos, porém, todos cortejavam. Os belos olhos de Sônia.

Aos vinte e poucos anos, descobriram-lhe mais um atributo: azarenta. Sim, só podia ser azar aquilo. Muito caiporismo. Ora, ninguém é atropelado três vezes em menos de um mês.

Muita sorte a dela, diziam os médicos. Escapar com vida de três atropelamentos! A maioria morre da primeira vez. Uns poucos chegam à segunda. Por milagre! 

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Uma leitura das Insolentes patas do cão (Foed Castro Chamma)




Desde meados do século XIX a retomada do espírito renovador da Renascença que culminou na ficção com as obras de W. Shakespeare no sentido vertical de crítica de costumes, de um lado, e, de outro, no início da Modernidade com o Discurso do Método, tem nas narrativas de Poe e no movimento que se consolidou com Baudelaire no Simbolismo o prolongamento dessa retomada de modo a manter a Literatura em sua linha de frente a questão histórica do homem, seu destino, que a filosofia e a arte aprofundam desempenhando os escritores um exercício cujo fim é a defrontação do homem consigo próprio e a consciência de um mundo a ser por ele representado como sua identidade cultural. Neste sentido, mais de que uma função diletante a Literatura está comprometida com uma escavação psicológica que divide o pensamento em tempo mítico e tempo histórico.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Um simples boneco (Nilto Maciel)



Aberta a porta, Joaquim passeou a vista pela sala e pôs-se a abrir as janelas de vidro. Tudo em perfeita ordem, como haviam deixado no dia anterior. Mesas, cadeiras, armários, carimbos, cinzeiros, tudo em seus devidos lugares. Com pouco, chegariam os outros. E mais um dia igual ao passado. O mesmo toque-toque das máquinas, as mesmas perguntas, as mesmas tarefas, as mesmas horas lentas. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Sobre "A leste da morte" (Liana Aragão)




Marginal por opção, Nilto Maciel é um dos grandes nomes da prosa contemporânea, ainda que negligenciado pela mídia e ausente das prateleiras das grandes livrarias. Com 17 livros publicados, numa carreira iniciada em 1974 e contabilizando muitos prêmios em concursos literários, sua bibliografia está a merecer a atenção das grandes editoras. A leste de morte traz a marginalidade como opção. São 47 contos em um objeto-livro muito bem acabado visualmente, da recém-criada Bestiário, editora porto-alegrense que tem lançado autores de fora do mercado.

O primeiro homúnculo (Nilto Maciel)


Chegado à velhice, Leonardo Ratisbona abandonou o projeto de criar homúnculos. Morreria insatisfeito, incompleto. Como a maioria dos mortais. Porém nunca infeliz. Pois tudo fizera para tornar real seu sonho maior. Os cálculos mais complicados executara. De todas as fórmulas mágicas se servira. As orações mais exigentes rezara. Todas as poções, todos os ungüentos manipulara. As bruxarias mais exóticas praticara.

Havia um consolo: talvez seus netos tivessem o orgulho de mostrar ao mundo a grande invenção da humanidade — o homúnculo. Sim, não se sentia totalmente infeliz. Podia morrer em paz. Quase realizado, quase feliz. Até mandaria inscrever em seu túmulo: “Aqui jaz um feiticeiro quase feliz”. 

terça-feira, 29 de agosto de 2006

A última festa de um homem só (Nilto Maciel)


Estirado no sofá, Fausto lia. Ou talvez apenas namorasse as letras. Não havia mulher no resto da casa. Ninguém mais. Apesar disso, ele vestia um roupão elegante e de seu corpo recendiam perfumes de devassidão.

O livro por pouco não lhe caiu das mãos, quando uma campainha tocou. Não eram horas de despertar. Quem estaria à porta?