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domingo, 25 de março de 2007

Sem fadas (Nilto Maciel)



Acordou assustado. Três homens dentro do quarto, a gritar, armas apontadas para ele. Amordaçaram e amarraram sua mulher. As crianças choravam no quarto vizinho. Um dos homens conduzia a mulher para junto dos filhos. Não iria maltratá-los. Ficasse sossegado o doutor Fulgêncio. Aliás, as crianças e a mulher ficariam presas no banheiro.

Por via das dúvidas, algemaram o dono da casa. Que desejavam, afinal? Iriam assassiná-lo? Não, nada de mortes. Doutor Fulgêncio não podia morrer. A sociedade carecia de sua autoridade, sua competência, sua experiência.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Carmélia Aragão: literatura como paixão (Nilto Maciel)


As quinze peças ficcionais que compõem Eu vou esquecer você em Paris (Fortaleza: Imprece, Edição do Caos, 2006), de Carmélia Aragão, mostram uma escritora madura. E isso se deve a dois fatores: muita leitura e talento. O primeiro se pode constatar pelas epígrafes (Neruda, Salman Rushidie, Cortazar), pela menção a nomes fundamentais da literatura (Dostoievski, Flaubert, Emily Brontë, Virgínia Woolf, Goethe, George Orwell e outros), sem falar na composição “Página 12224”, de feição policial e ao mesmo tempo fantástica, a nos lembrar “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto.

Os malogros de Ema Bovary em relíquia de sebo: uma revolta contra o "realismo" (Chico Lopes )



 
Um livro interessante, que é um dos meus companheiros de cabeceira há décadas, é "A orgia perpétua – Flaubert e Madame Bovary", de Mario Vargas Llosa.

Aviso: a edição, da Francisco Alves, é de 1979, e hoje em dia creio que só possa ser encontrada em raras estantes particulares ou em sebos. Dica para algum editor de sensibilidade reeditar, porque o interesse é permanente.

Quem gosta de saber quais livros alguns escritores de fama elegem como predileções, revelando os motivos destas em tintas confessionais, encontrará quase um modelo desse gênero no livro de Llosa sobre o romance também paradigmático da que se convencionou chamar "escola realista".

segunda-feira, 19 de março de 2007

Menino ofendido (Nilto Maciel)


Moisés estava morrendo. Lentamente. Coberto de chagas. No mundo inteiro mulheres choravam. Cenas de histeria e desespero. Jornais e televisões exploravam o infausto fim daquele homem tão glorioso.

No ápice de sua glória, Moisés inventou um dos mais fascinantes espetáculos de prazer. Era sua Roma, sua Sodoma. Mistura de motel e cassino. Cinco pavimentos, mais de cem quartos. Uma entrada, com bilheteria. Como nos cinemas e teatros. Galeria de arte, labirintos, saunas, piscinas. Proibida entrada de homens e travestis. Permanência de uma hora, no máximo. Preço do ingresso: dez dólares.

Sonho e Realidade na prosa de Nilto Maciel (Carlos Augusto Silva*)



Há livros que pedem uma leitura cuidadosa, há os que pedem uma leitura intelectual, consciente de cada instrumento utilizado, investigativa, crítica, cujas pretensões transcendem a do divertimento, a do entretenimento, na melhor acepção que essa palavra possa vir a ter. E há livros que pedem, além dessas peculiaridades apontadas, uma outra nuance, que não surge em importância numa plenitude de novidade, mas sim numa esfera que seja capaz de unir cuidado, atenção, recursos comparativos que busquem na tradição literária seus motivos de concepção e trabalho, e mais que tudo isso, algo raro hoje em dia: sensibilidade. A obra de Nilto Maciel pede de seus leitores esses quesitos: que apareçam em maior ou menor grau, mas devem existir para que uma leitura minimamente abrangente dele se faça. É obra de artista. Trabalho de ourives, seja na linguagem ou na tessitura do(s) enredo(s).

Tempero de Amélia (Dimas Macedo)



O estatuto da sensibilidade fincou-se, há anos, na contramão da história. Assim como resistir é preciso, faz-se indispensável também que os potenciais de ternura não se percam nunca e que a arte, assim como a vida, seja a grande resposta a iluminar os caminhos do homem.

O que é amor? A arte amorosa é um nada quando se quer tão-só a pulsação do sexo e a deformação do corpo e de todas as suas formas plurais de energia. O corpo é a matéria porosa mais sofisticada e é totalmente iluminado pelas formas divinas do sagrado.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Um grande homem (Nilto Maciel)


Salazar não conseguiu dormir quase nada naquela noite. Levantou-se mais de dez vezes, tentou ler, ligou a televisão. Voltava à cama, olhava para a mulher dormida, imaginava um segundo de safadezas, desistia, metia-se debaixo do lençol. Não, não seria daquela vez que o sono viria. E como conseguiria dormir? Só se fosse um insensível. Mais de dez anos atrás daquela mesa, a dar ordens, organizar o serviço, e, sem qualquer motivo, ser destituído da função. Uma injustiça inominável! E se virava na cama, olhos arregalados, quase cheios de ódio. Se ao menos a mulher acordasse para conversarem! Mas, não, a desgraçada dormia feito uma porca. Nem ligava para sua insônia, suas preocupações, aquela tragédia em sua vida. Uma insensível!

Os luzeiros do mundo (Francisco Carvalho)




Na contracapa do novo romance de Nilto Maciel, Ronaldo Cagiano toca em pontos cruciais da obra de ficção do autor cearense. Fala, por exemplo, da maneira peculiar com que o autor “manipula a linguagem, (...) sem jogo de palavras ou de espelhos”, e chama atenção para o que nela existe “de surrealismo, fantástico, nas representações simbólicas de nossas viagens metafísicas”. Compara a ficção de Nilto Maciel à de alguns autores brasileiros e estrangeiros. Destaca a preocupação do autor, voltada para a execução “de uma estrutura ficcional bem trabalhada”, no que revela constante burilamento de frases cuja perfeição atinge por vezes “o paroxismo”.

terça-feira, 13 de março de 2007

África-Brasil: laços apertados (Adelto Gonçalves)



 
Resultado da paixão de duas professoras cariocas pelas literaturas africanas em língua portuguesa, África & Brasil: letras em laços, publicado inicialmente em 2002 com tiragem reduzida, sai agora em segunda edição, com três novos ensaios, aumentando assim o número de escritores com suas obras discutidas e analisadas.

Cena de carnaval em Olinda (Nilto Maciel)



Fantasiado de príncipe, o pequeno Maurício bebia goles e mais goles de cachaça. E prometia uma semana de folia. Os amigos também bebiam, riam e davam passos desequilibrados de frevo. Não havia carnaval como o de Olinda. O melhor e mais alegre carnaval do Brasil, do mundo.

A fuzarca tomava conta das ruelas do bairro Ouro Preto. Todos os rádios tocavam frevos. Meninos e meninas brincavam e pulavam junto aos esgotos descobertos. Cachorros latiam e corriam, espantados.

Os luzeiros do mundo (Dias da Silva)




Com Os Luzeiros do Mundo, Nilto Maciel ganha o primeiro lugar no Concurso Graciliano Ramos de romance (1992/93), promovido pelo governo do Estado de Alagoas. “Autor versátil e de grandes recursos estilísticos”, Nilto Maciel já tem, publicados, romances – A Última Noite de Helena, A Rosa Gótica, Os Varões de Palma; novela – A Guerra da Donzela; contos – Tempos de Mula Preta, Pescoço de Girafa na Poeira; poemas – Navegador. Nilto Maciel é um escritor múltiplo. “Não é só um escritor. Além de um bom escritor e de um imprescindível articulador literário, é o artista da palavra que sabe compreender e assimilar os avanços estilísticos de seu tempo...” São palavras adequadas e elucidativas, de João Carlos Taveira.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Um menino chamado Jesus (Valéria Nogueira Eik)


A carroça vinha carregada de sal grosso, açúcar mascavo, garrafas de pinga da boa, encomendas de toda sorte, e de quebra, dois porcos que grunhiam sob um calor de quarenta graus.
Antero segurava as rédeas com as mãos calejadas e seu corpo sacolejava, indolente, seguindo o ritmo da carroça.
O sono turvava a sua visão da estrada e do céu muito azul, sem nuvens, mas era impossível dormir; qualquer descuido seria recompensado por dentadas dos porcos que já andavam inquietos com o calor.

sábado, 10 de março de 2007

Ser ou não ser (Nilto Maciel)



 
Mais uma para nos enganarem. Agora passamos o tempo ouvindo música. A cada hora, mais crescemos e engordamos, a olhos vistos. Estão todos felizes da vida. Passam o dia cantando, imitando cantores e cantoras. Um deles adora Gardel. Só falta perder a voz. Vive rouco, engasgado. Come e canta, come e canta. Deve estar louco. Outro até chora quando Amália Rodrigues canta. A maioria, porém, gosta mesmo é de sinfonias, sonatas, valsas. Babam ouvindo piano. Meu vizinho engordou antes de todos, só de ouvir Mozart. Levaram-no ontem. Os homens que cuidam de nós saem felizes. Como cresceram de ontem para hoje! Tento ficar surdo, para não engordar tanto, embora goste de tudo o que ouço. Os que inventaram a música são mesmo divinos. No entanto, como são diabólicos os homens! Dão-nos música, comida, prazer, para que cresçamos, engordemos e viremos repasto deles. Pois saímos daqui para a panela dos homens. Afinal, somos tão-somente pequenas criaturas de carne saborosa. Frangos, como dizem os homens que nos visitam de hora em hora.
Agora uma valsa de Strauss. Divina! Ouço ou não ouço?
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Os luzeiros do mundo (José Alcides Pinto)




Nilto Maciel, um autor que não se desprega de suas raízes, entrega-nos o seu último livro (romance), Os Luzeiros do Mundo (Códice, Fortaleza, 2005), com expressiva capa de Ronaldo de Castro Cruz. O título é um achado soberbo.
O menino nasceu em Baturité, onde passou a infância. Guarda o passado na memória. A região está por inteiro dentro de seus romances, novelas, contos, e até nas poesias.
Embora pouco conhecido como poeta, sendo um grande poeta, sim, e até na prosa essa aparece vigorosa, marca que é dos grandes escritores de todas as épocas.

A questão religiosa em Eugénio de Andrade: da palavra-ser à utopia da palavra (António Joaquim Oliveira*)

(Eugénio de Andrade)


«Do sangue nascem os deuses
que as religiões assassinam.
Ao sangue os deuses regressam
E só aí são eternos»
Vergilio Ferreira, Aparição


Quase todas as obras de um artista nascem da junção entre a experiência vivida e a sensibilidade criadora, que permite ao eu criador transpor as metáforas obsessivas do seu eu social para o seu mito pessoal, ocasionando-lhe um estado de devaneio («rêverie»). Desta forma, ao procurar as metáforas obsessivas da obra eugeniana, na tentativa de definir o seu mito pessoal (ou mitos pessoais ou as suas utopias), verificamos que a questão religiosa não representa, por assim dizer, um mito pessoal. Na verdade, para Eugénio de Andrade, a religião, tal como ela é vista pela comunidade cristã, nunca foi uma preocupação, ou, se foi, a sua preocupação consistiu em tentar conseguir demonstrar que ela subjuga demasiado o ser humano.
 

quinta-feira, 8 de março de 2007

Sobre o inconsciente (Nilto Maciel)



Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na platéia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.

O mistério tem os seus fascínios (Francisco Carvalho)



 
De 1974, data de sua estréia com o livro de contos Itinerário, até 2003, quando publicou sua obra mais recente, intitulada A Última Noite de Helena (Editora Komedi, 108 p., São Paulo), Nilto Maciel consolidou seu prestígio como um dos melhores ficcionistas brasileiros da atualidade. Em vinte e nove anos de atividades literárias, sua bibliografia reúne treze livros de ficção e um de poemas. Em todos esses títulos sobram evidências de que o rigor estético e a qualidade constituem preocupações fundamentais do autor.

A espera da vez e a vez (Cunha de Leiradella)



Ontem, como sempre, fui ao Derby. Não gosto do Derby, mas vou lá todas as noites. As pessoas que conheço estão sempre viajando ou, se estão em casa, estão dormindo ou têm visitas. Por isso, vou ao Derby. No Derby ninguém viaja, ninguém dorme, e nunca apareceu uma visita.

Ninguém entra no Derby. Além dos garçons sonolentos, encostados nas paredes ou nas mesas, só nós ficamos lá. De vez em quando, alguém pede um conhaque ou um café, ou então, de repente, se escuta um pigarro ou um suspiro. Mas é só. Quando o relógio bate as horas, só os garçons sabem que horas são. Para nós, as horas não são horas. São apenas ruídos de relógio. 

quarta-feira, 7 de março de 2007

Coisas da natureza (Nilto Maciel)


José Maria teve um sonho horrível. E nem o contou a Maria. Ou devia contá-lo? Não havia almas gêmeas!

José não chegou a biólogo. Alias, nunca chegou à Universidade. Apesar disso, interessava-se sempre por generalidades e curiosidades científicas, especialmente as da área da biologia. Sem esquecer os traços biográficos de alguns cientistas. Assim, conhecia Mendel como poucos mendelianos ou mendelistas, austríacos ou biógrafos do botânico. 

Rebelião em Palma (Manoel Hygino dos Santos)



Ágil e infatigável, Nilto Maciel lançou, este ano, o romance 'Os luzeiros do mundo', primeiro lugar no Concurso Graciliano Ramos no gênero, promovido pelo Governo de Alagoas. Se a láurea lhe foi outorgada há cerca de uma dúzia de anos, somente agora houve a publicação, por motivos que não sei explicar.

Porque é um trabalho que desperta natural interesse, mercê da imaginação do autor, da grande criatividade, e da própria trama que engendrou, a partir da morte de Lucas na amorável casa dos Thaumaturgos - o 'Sítio Itamaracá' -, como inscrito numa tabuleta afixada no portão principal. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Questões de estilo (Nilto Maciel)




Salomão governava com mão de pluma. Quando estudante, até fizera versos. Queria ser poeta. Conhecia os melhores poetas da língua portuguesa. Dos mais antigos aos mais modernos. Com o tempo, trocou os versos pelos discursos. E o moderno pelo antigo. Terminou prefeito de Palma.

Nilto Maciel, fiel às raízes populares (Adelto Gonçalves)



Uma mulher jovem e atraente, de nome Helena, cai da torre do sino da igreja-matriz de Palma, pequena cidade perdida no interior do Brasil, e nada leva a crer que tenha cometido o desatino de suicidar-se. Morte misteriosa e escandalosa que vai quebrar a rotina modorrenta da cidadezinha. Este é o mote que leva o escritor Nilto Maciel a construir um denso e breve romance negro, A última noite de Helena, em que a elucidação do crime, como nas boas novelas policiais, só ocorre ao final, depois de muito mistério e infundadas suspeitas. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

A prova (Nilto Maciel)


Dalila falava de Sansão. Contava casos, proezas. Eu me impressionava. Sempre me impressionaram mulheres bonitas e, ao mesmo tempo, decididas, corajosas, ousadas. A beleza delas talvez me venha dessas qualidades.

Cativo dela, perdi a timidez e fiz a pergunta-chave: por que traíra Sansão? E a resposta veio categórica: porque não gostava dele.

Da agradabilidade (Soares Feitosa)




Fui conferir: o Aurélio me disse que o nome não existe: agradabilidade. Mas é essa a sensação que tenho ao ler Nilto Maciel. E isto já me detona uma pergunta: lê-se para quê? Alguns buscam roteiros, digamos, formulações de estudos, teorias, salvações e ajudas de todo o naipe. Outros buscam simplesmente o prazer. O prazer de ler.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Circuito (Nilto Maciel)




“Entramos nos quarenta anos com a inexprimível idéia de que o nosso simples e silencioso matrimônio de irmãos era o fim necessário da genealogia fundada pelos bisavós em nossa casa.”
Julio Cortázar, Casa tomada.


Cansados de vagar pelas ruas, famintos, Daniel e Irene pararam diante de um bar. Se não encontrassem comida, ao menos descansariam. Outra pousada talvez não houvesse por perto.

O garçom ofereceu-lhes vinho, cerveja, vodca, uísque. Aceitaram vinho com salame. Ela abaixou a cabeça, quase até a tábua da mesa. Ele olhava sutilmente para os outros bebedores. Um deles, exaltado, falava mal do governo. Outro cochilava diante do copo. Havia bigodes volumosos, barbas ralas, dentes luzidios, olhos faiscantes.

O corpo que cai (Manoel Hygino dos Santos)



 
O primeiro parágrafo de "A última noite de Helena" leva a admitir que se terá algo que lembra "Um corpo que cai", o belo filme de Hichtcock. Mas logo se verifica que a idéia inicial é falsa. Porque o livro de Nilto Maciel é, antes de tudo, eminentemente brasileiro, sem os cenários e personagens magistralmente levados à tela pelo cineasta inglês. Mas o leitor haverá de convir com a semelhança. Helena morreu ao cair da torre do sino da matriz de uma cidade pequena do interior, onde todos, ou quase, se conheciam. Segundo as investigações, a jovem não pulara, descartando-se a hipótese de suicídio. Morte misteriosa e escandalosa, porque em Palma nunca se matava mulher. Sequer nos cabarés, onde frequentemente se registravam desordens. Quanto mais em uma igreja, onde só falecia o filho de Deus, mesmo assim durante a missa.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Vou ser herói, Maria (Nilto Maciel)




Transtornado, o homem recusava abrir a porta do elevador. Se do lado de fora estivesse um tigre à sua espreita? Vários tigres? Um horror! E tremia todo. Não conseguia nem sequer se manter em pé. Melhor sentar-se. E esperar, esperar, esperar. Passaria toda a noite, e quantas noites fosse preciso passar, dentro do elevador. Não, morreria de inanição e tédio. E se o tigre, os tigres abrissem a porta? De manhã os vizinhos, sua mulher só encontrariam alguns ossos. Nunca saberiam como e por que sumira tão misteriosamente. A ossada poderia ser de outro. Talvez de um cachorro grande. Nunca de um homem, dele. Não havia canibais na cidade. Nenhuma notícia deles.

A última noite de Helena (Dias da Silva)



(Igreja matriz de Baturité, isto é, de Palma, de cuja torre Helena foi jogada)


O lançamento deste livro de Nilto Maciel foi uma festa bonita. Com bastante gente enchendo o salão. Leitores muitos, portanto. Com certeza, em vista do valor da obra lançada e do destaque do Autor em meio às letras cearenses.
Ora, isso bota muita alegria na gente. Como um triunfo. Imagine-se o que vai na alma do autor flechando-lhe o espírito. Porque, amigo leitor, são pessoas se reunindo em torno de livro. Por causa de livro. E toda aquela gente estava ali, naquela noite, para festa de livro. Porque o contrário é o mais acontecido: número reduzido de público nesses momentos. Quase sempre. Por isso, foi uma coisa que encheu a gente de renovada admiração.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A salvação da alma (Nilto Maciel)




Constantino acordou sobressaltado. Mais um minuto de sono e chegaria atrasado à igreja. O padre estaria nervoso e seria capaz de o mandar embora.

— Você não se emenda, traste — brigava a mulher.

Aquilo acontecia quase todo dia. Saía da igreja e entrava nas bodegas. E bebia feito uma raposa. Insaciado, antes de ir para casa, Constantino pedia uma garrafa cheia e mandava o bodegueiro anotar a despesa. No fim do mês, quando o padre pagasse o ordenado, saldaria a dívida. 

A noturnidade de Nilto Maciel (Batista de Lima)



A leitura de A última noite de Helena, de Nilto Maciel, necessita de outras leituras complementares para seu melhor entendimento. Uma delas é de seu livro anterior, A guerra da donzela, onde ocorre o pretenso rapto da heroína, nos moldes do que ocorre com Helena, na Ilíada, de Homero. Nesta última novela ocorre a morte de Helena, e todo o enredo se desenvolve através do desvendamento do crime.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Consciência tranquila (Nilto Maciel)



 
D. Evinha ainda parecia nervosa. Um milagre não terem morrido. Aquele maluco devia estar preso, bem preso. Para nunca mais quase matar pessoas indefesas. Nereida chorava de vez em quando, embora não tivesse nenhum ferimento. Apenas uma pancada no joelho.

***
Preocupado com as conseqüências do pequeno acidente, Silvano se lamentava: quisera apenas ajudar a velhinha. Coitada, sob aquele sol do meio-dia, esperando ônibus! Mara, porém, duvidava ter sido esse o motivo da atitude do marido. Não teria parado o carro por causa da mocinha?

O olho trágico de Homero (Jorge Pieiro)



Qual leitor não se torna escravo de uma bem urdida narrativa de mistério? Quem não se vê, temporariamente, transformado em arguto investigador? Por quais caminhos pode seguir um curioso ledor em busca da revelação, do desenlace, que o faça extasiar-se, ou mesmo frustrar-se? São apenas algumas questões fundamentais que se devem prenunciar na mente de um escritor que se aventura pelos meandros dos textos de suspense.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Colombo e as carícias (Nilto Maciel)


(Jangadeiro, Theo Amaral)

Desnorteados, Colombo e sua jangada vagavam pelo mar das tempestades. O sol há muito se metera nas profundezas das águas. Nenhuma estrela indicava rumos.

Era esperar pelo pior. Horas e dias de perdição, fome e sede. Depois a morte.

E o jangadeiro adormeceu.

As correntes, entanto, levavam a jangada ao reino do deus-dará. E antes do amanhecer aportou numa remota ilha. Encalhou na praia.

O abismo (Manoel Hygino dos Santos)



 
Ronaldo Cagiano já me alertara para os méritos de Nilto Maciel no difícil campo das letras. Agora, Vasto Abismo, novelas, comprova-me a qualidade literária desse cearense de Baturité, radicado em Brasília, feliz trabalhador na poesia e na prosa, já com tradução ao esperanto, espanhol, italiano e francês. Maduro, como o vê João Carlos Taveira, “não é só um escritor. Além de um bom escritor e de um imprescindível articulador literário, é o artista da palavra que sabe compreender e assimilar os avanços estilísticos de seu tempo. E, como tal, procura, sem nenhuma demonstração de cansaço, o aperfeiçoamento do próprio estilo, para melhor conduzir a narrativa na construção de seus personagens”.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Com unhas e dentes (Nilto Maciel)


Há uma semana Dalila virava a cara para Aleodoro. Se ele fazia pergunta, ela não dava resposta. Ou respondia “com quatro pedras nas mãos”. Por qualquer motivo mandava os cinco dedos na cara dos filhos. E deixava o arroz queimar, esquecia de descongelar a carne, quebrava pratos na pia.

Aleodoro não pedia explicações. Sabia muito bem a causa de tanta birra. Andava cansado, aborrecido, sem vontades. Tantos anos de trabalho, e nem uma casa onde morar. Tanta dedicação à família, e aqueles filhos vagabundos, idiotizados. Tantos sonhos, e só desilusões.

Vasto abismo (Fernando Py)


São um conjunto de sete novelas, quase todas escritas de maneira estruturalmente diversa. Desde “A Busca da Paixão” (p. 10) até “Quar­teto" (p. 111), o autor se exercita em modos diferentes de narrar: em “A Busca da Paixão”, trata-se de fato da procura da infância perdida, da revitalização de afetos mortos, e a história se desenvolve em dois planos nem sempre bem distintos, que até confundem o próprio personagem-narrador: "Como distinguir um tempo de ou­tro, se no interior da caverna de minha consciência fujo pelos labirintos de mim mesmo?" (p. 17), ou: “Quem poderá se livrar do passado? (p. 13). Em "Vasto Abismo", história que dá título ao livro, também em dois planos, vemos a frustra­ção de Isaque pela vida inútil que leva – inclusive percebendo a inutilidade dos livros que publicou – e apaixonando-se por uma mulher casada; no outro plano, a vida conjugal desta, com seus altos e baixos. Ambos os planos convergem para o final, que vem sendo cuidadosamente construído desde o princípio. Todas as ou­tras novelas seguem mais ou menos esse padrão estrutural, devendo destacar-se “O Bom Selvagem”, história de um bororo aculturado pelo homem branco e que afinal não é uma coisa nem outra: perdida a identidade de índio, sem adquirir de todo a identidade de branco. E assim, em todas estas novelas temos um desencontro, um desconcerto, um descaminho a pontuar a vida dos protagonistas, culminando no desacerto dos dois casais de “Quarteto”. Nilto Maciel escreveu novelas que também poderíamos chamar de “exempla­res”, como as do velho Cervantes: muito bem escritas, mostram que o autor está no auge de sua capacidade criativa.

(Tribuna de Petrópolis, Petrópolis, RJ, 30/1/2000)
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sábado, 27 de janeiro de 2007

O arcanjo e a princesa (Nilto Maciel)


Estando a porta entreaberta, o arcanjo vagou a vista pelo corredor e, sorrateiro, passou ao quarto. Da janela escancarada vinha uma brisa suavíssima. A luz da Lua rebrilhava no leito. A princesa, deitada, dormia. E só então o arcanjo percebeu não ser de lençóis a alvura que o ofuscava. Era do corpo nu da virgem. Sentiu arrepios e voou até a janela. A Lua pareceu-lhe maior e mais radiosa. Junto aos muros do castelo, ladravam cães. Talvez assustassem ladrões. E nada mais parecia vivo àquela hora.

Vasto abismo (Francisco Carvalho)




A excelente apresentação de João Carlos Taveira sobre Vasto Abismo, conjunto de novelas de Nilto Maciel, não deixa margem para resenhas ou considerações de natureza periférica acerca dos valores essenciais das narrativas de que se compõe o mencionado livro. JCT analisa, com profundidade, o que acontece no plano submerso das narrativas de Nilto Maciel, de seus labirintos verbais, essa mistura engenhosa do erudito e do popular, os seus constantes apelos às vertentes da mitologia, da metafísica e do picaresco, além de outros fatores não menos significativos que interferem na construção da linguagem do autor.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Never more (Nilto Maciel)


Ivo subiu à calçada. De longe avistou umas pernas desnudas. Quem seria aquela criatura? À esquerda um carro parado. O motorista de bigodes ria. De quê? E se também estivesse a olhar pelo espelho as pernas da garota? Cabelos louros a esvoaçar, distraída. Porém não podia ficar ali parado, feito um vagabundo. Havia mais gente na praça. O coração bateu mais intensamente. De relance viu a calcinha branca. À direita um homem e uma mulher conversavam, em pé. Riam também. Alguma piada. A mulher sacudia-se toda.

A arquitetura verbal de Nilto Maciel (João Carlos Taveira)



Nilto Maciel não é só um escritor. Além de um bom escritor e de um imprescindível articulador literário, é o artista da palavra que sabe compreender e assimilar os avanços estilísticos de seu tempo. E, como tal, procura, sem nenhuma demonstração de cansaço, o aperfeiçoamento do próprio estilo, para melhor conduzir a narrativa na construção de seus personagens. Nesse sentido, sua escritura o aproxima não de um Graciliano Ramos, também nordestino, mas do Machado de Assis maduro e inconfundível de Quincas Borba e Memorial de Aires.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

O sonho da princesa (Nilto Maciel)




Fugiu do castelo montada num cavalo branco. A noite parecia a mais escura de todas. E se bruxas saíssem em seu encalço? E se vampiros sedentos de sangue virgem a esperassem nos atalhos? E se o dragão, aquele imenso monstro, aparecesse? Pela estrada, porém, seu pai, o rei, todo dia cavalgava. E nunca o atacaram seres maus. Se o atacassem, seriam dizimados por sua furiosa espada. E pelas armas dos leais soldados.
Havia, porém, outro perigo. Se o cavalo deixasse a estrada e se metesse na floresta? Não, aquele cavalo, o predileto do rei, não se atreveria a cometer tamanha insensatez. Nem ele nem outro. Nem mesmo cavalos cegos.
Reclusa no castelo, a princesa imaginava reinos distantes e, sobretudo, seu príncipe encantado. Quando o conhecesse, imediatamente se casaria com ele. Teriam muitos filhos e viveriam felizes para sempre. No reino do faz-de-conta.
No meio da noite, a princesa sentiu sono e fadiga. Freou o animal e apeou. A estrada parecia sem fim. O reino de seu pai abarcava o mundo. E onde ficava o reino onde vivia o príncipe de seus sonhos? Olhou para o céu. As estrelas a protegeriam das trevas. As nuvens deslizaram mais e a vaga luz da Lua chegou até aquele perdido pedaço do reino. Que maravilha! A princesa ensaiou passos de dança. Rodou, rodopiou, sorrindo. Parou, cambaleou, olhando para o animal. E teve um grande susto. Havia um chifre no meio da testa dele.
Era um licorne.
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A rosa gótica (José Teles)



Alternativa não menos airosa é A Rosa Gótica, de Nilto Maciel. E permitam-mo, sem duelar encômios, fazer uma exegese sem compromisso para com a urdidura e tessitura da obra. O projeto gráfico se harmoniza com uma ortodoxia léxica e lógica, mimoseado por uma acústica violínica das orelhas de Fernando Py. O ritmo narrativo é de domínio pleno: imaginação, loucura e artefatos se misturam dando ao romance o tom caleidoscópico, numa imagética que navega até a foz do rio das infâncias. Nilto se precipita de alma a baixo, e sai atropelando seitas e conceitos, rezas e manias. A temática não se dispersa, varando todo o texto como ventania nos descampados. Depois, tudo é gozo e silêncio. Há, pois, uma intertextualidade, que se comprime e explode em síntese, para logo se transformar em catarse e mistério. O poeta se transforma em iconoclasta da ferrugem literária que oxida idéias e contextos. O fazer literário em A Rosa Gótica, aliás, assume foro universal, abre espaço novo na trama do imaginário e consolida o imagético como força comunicadora. E, através de espasmos dialéticos, deixa ao ledor a alternativa pitoresca de, também, romancear suas memórias, seus dramas, suas miragens: “Afinal, existe o romance? E quem seria o autor?” Nilto ainda abre e fecha o texto, caminhando, ora por frouxas veredas, ora por espaços liliputianos, consumindo todo o poder de síntese de sua criatividade. E viaja pelas sendas do inverossímil, procurando atalhos de cortesia. Tudo se complica, porém, quando o autor, em gargalhada mefistofélica, questiona: “E se tudo tiver sido impostura? E se os próprios críticos franceses forem invenção de Lamartine?”

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Incêndio (Nilto Maciel)


Carlinhos brincava no quintal. Olhou para o chão e viu uma sombra deslizar, correr. Cheiro de coisa queimada. Depois o mormaço. Ergueu a cabeça. Talvez a nuvem prenunciasse chuva. O sol quase o cegou. Levou as mãos à testa e correu para junto da mãe, que lavava roupa próxima ao tanque. Nem sequer deu atenção ao menino. Fosse brincar na sala e não lhe desse mais sustos.

A rosa gótica (Dias da Silva)

É um romance, em segunda edição, mimoseado com o prêmio Cruz e Sousa, 1996, da Fundação Catarinense de Cultura, categoria romance nacional. É uma narrativa em primeira pessoa – Victor Hugo é o narrador, que é o autor – o próprio Nilto Maciel –, que é primo de outro Victor Hugo que é irmão do protagonista e bibliófilo, Lamartine, da família Coqueiro. Narrativa simples. Sem afetação. Fluente e dinâmica, É a busca de raízes genealógicas. Sem nada de vaidades. Sem contar vantagens ou invencionices.

O narrador bota logo, de começo, realidade, e sonhos, e fantasias, e dúvidas, e indagações, alguma tensão dramática, tudo entremisturado nas 188 páginas de A Rosa Gótica. É verdade: de entrada, o autor Nilto Maciel já vai criando tensões e expectativas, na mesmice do cotidiano. Já se tem também a certeza do escritor maduro. De um criador de estilo.

Lê-se na orelha que Fernando Py tem esta impressão sobre o livro de Nilto Maciel: “é um romance sobre um romance”, apresentando semelhança com , por exemplo, O Nome da Rosa, de Umberto Eco. “Trata-se, na verdade, de história de um bibliófilo erudito, Lamartine, primo do narrador, dono de uma biblioteca vastíssima de obras raras e medievais”... No fim do comentário, tem-se que o “narrador se debate em sua individualidade, da qual principia seriamente a duvidar. E a duvidar da existência de seus leitores”.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Dois seres (Nilto Maciel)




Há poucos dias estamos aqui. Trouxeram-nos um homem, uma mulher e uma menina. Chegamos dentro de uma jaula. Vivíamos numa jaula maior, com outros inúmeros semelhantes nossos. Não sabemos como eles estão, nem se ainda vivem no mesmo lugar. Nossos dias e nossas noites são sempre iguais. Dormimos muito, porque não temos quase nada a fazer. Passamos quase todo o tempo comendo a ração que nos dão, dormindo ou brincando numa roda. Às vezes o homem aparece, fuma, bebe, olha para a rua, o céu, conversa sozinho. Olha para nós e some. A mulher surge sempre à mesma hora: põe a ração dentro do pequeno estojo, despeja água noutro estojo, molha as plantas, fala alto e nos xinga.

A rosa gótica (Donaldo Schüller)


Houve um momento em que o romance quis competir com a ciência. Passou a documentar. A linguagem fez-se austera. Os romancistas tiveram o cuidado de aproximar-se cautelosamente das coisas. A vertigem cientificista não durou muito. Os próprios cientistas começaram a duvidar da perenidade de seus achados. Os periódicos documentavam melhor que o romance. E o faziam vertiginosamente. O romance se deu conta de seu parentesco com a poesia. Vieram Proust, Joyce, Guimarães Rosa... onde está a diferença entre romance e poesia? A Rosa Gótica é um romance ou é um romance sobre o romance? É ambas as coisas. É uma aventura de linguagens sobrepostas que nos levam para a inquietante ebulição da Idade Média. A ação nos arrasta a uma sarabanda de textos e de idéias a que não podemos ficar indiferentes porque é a nossa própria história, individual e coletiva, que está em jogo.

(Orelha de A Rosa Gótica, Fundação Catarinense de Cultura, Florianópolis, SC, 1997)
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sábado, 13 de janeiro de 2007

Ode à tarde (Nilto Maciel)



Um passarinho cansou de voar e pousou num galho. Cantou uma ode à tarde e tencionou alimentar-se. Voou ao chão e defrontou uma serpente. O guizo dela agitou-se.

— Por que me olhas assim, cascavel?

O pássaro deu um saltinho para trás. Melhor não esperar resposta. Saltitou, deu pequenos voos ao redor do ofídio.

— Tu me odeias porque não sabes voar, não é? Ora, se voasses, o que seria dos pequenos seres como eu? Contenta-te com rastejar.

Cantou trecho da ode à tarde e riu.

— Também me odeias porque não sabes cantar? Eu canto porque não conheço o ódio.

Calada, a serpente mirava o passarinho. E o seduzia com os olhos. Falando e cantando, a avezinha também mirava a cobra.

E deu-se o bote.
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A rosa gótica (Fernando Py)




Romance sobre um romance, a obra de Maciel contém pontos de contato com a de Milton Coutinho, mas sobretudo parece ter mais semelhança com O nome da rosa, de Umberto Eco. Trata-se, na verdade, de história de um bibliófilo erudito, Lamartine, primo do narrador, dono de uma biblioteca vastíssima de obras raras e medievais, um indivíduo que teria traduzido um livro estranho, O Romance da rosa gótica, escrito provavelmente entre 1245 e 1249, em língua d’oc, composto de 4519 versos alexandrinos. A partir dessa informação, logo no começo do livro, Nilto Maciel (ou melhor, o narrador) nos envolve numa trama de desencontros e descaminhos, onde muitas vezes são as palavras, mal interpretadas ou significando coisa diversa do que parecem, que comandam a narrativa; o narrador sente-se confuso diante das informações bibliográficas de que dispõe, e, após a morte do primo, folheando minuciosamente os cadernos de memórias que o falecido deixara, vai descobrindo casos e fatos antigos, de que pouco ou nada se lembra, misturados às próprias reminiscências. Dessa leitura, vai emergindo aos poucos, um mundo de livros e experiências, modificando a idéia que o narrador se fazia do primo bibliófilo, e, pior, chega a duvidar da existência real de Lamartine e de si mesmo. A saída seria a publicação das memórias e das cartas deixadas pelo primo. Mas, ainda aí, não seria aquilo tudo resultado de um tremendo equívoco? Teriam existido mesmo O Romance da rosa gótica e os autores e personagens citados? O narrador se debate em sua individualidade, da qual principia seriamente a duvidar. E a duvidar da existência de seus leitores.

(Tribuna de Petrópolis, Petrópolis, RJ, 10/10/1999)
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

A grande ave de rapina (Nilto Maciel)



Quase morri de espanto e medo, quando vi pela primeira vez a grande ave. Instintivamente deitei-me. Talvez por isso ela não deva ter visto a minha pessoa. Pousou lentamente, recolhendo as asas. Vagou a vista pela plantação e, a passos largos, dirigiu-se ao espantalho. Horrorizei-me: com duas bicadas violentas estraçalhou o boneco.

Parece um gavião, não fosse este tão pequeno. As pernas são de dois metros a mais. O bico figura tesoura de cortar galhos. Quando estende as asas lembra um avião.

Rosa gótica (Silvério da Costa)


Trata-se do Romance ganhador do Prêmio “Cruz e Sousa”, de 1996, que narra a(s) aventura (s) e desventura (s) da família Coqueiro, principalmente Lamartine, suposto tradutor, para o Português, do livro "O Romance da Rosa Gótica”, escrito por um tal de Charles d'Avignon, na Idade Média, mais precisamente entre 1245 e 1249.

O narrador, Victor Hugo, primo de Lamartine, na ânsia de esclarecer tal fato, mergulha num turbilhão de hipóteses, criando um labirinto digno de fazer inveja a Dédalo. Sair dele é a questão, mas até que o consegue fazer de forma airosa.