Translate
quarta-feira, 30 de maio de 2007
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Biazulmi, um anti-herói neopicaresco (Adelto Gonçalves*)
A picaresca clássica não se repete e só tem sentido se associada aos séculos XVI e XVII. É um gênero que reúne obras que refletem uma visão irônica e pessimista do homem e uma perspectiva cética em relação à sociedade espanhola de sua época. Constituem ainda o reflexo da tensão provocada pelo confronto entre o indivíduo e uma sociedade extremamente opressora.
A gênese do romance picaresco, como se sabe, é o Lazarillo de Tormes, que conta a história do jovem Lázaro que, para sobreviver, vira guia de cego. Não surgiu do nada, pois, à época em que ganhou vida literária, histórias inspiradas no imaginário medieval – inclusive, nas novelas de cavalarias, já em fase de degenerescência – eram leituras constantes de todo homem culto do Renascimento.
Belo céu, vero céu (Nilto Maciel)

Enquanto vasculhava o céu com sua luneta, Gilbert Seurat sonhava com a Terra. Queria conhecer o mundo, viajar pelo planeta. A Europa já lhe parecia a própria casa. Amigos o aconselhavam a se radicar na Alemanha. Falavam de Effelsberg. Porém Gilbert guardava rancor aos alemãos. Seu pai havia morrido em combate aos nazistas. “Coisas do passado”, justificavam. Fosse, então, para os Estados Unidos, se não preferisse a União Soviética ou a China. “O observatório de Fred Whipple...”. Não, nada de comunismos, ideologias, guerras nas estrelas. Queria apenas descobrir outro planeta. E entrar para a História da Astronomia. Por que não chegar ao “teto do mundo” e de lá, com sua luneta, avistar de mais perto a explosão do Universo?
sábado, 26 de maio de 2007
Aqui, do meu quarto (Dimas Carvalho)
Moramos todos nós nesta casa, cada um no seu quarto, a família toda. Não sei precisamente quantos somos, porque nunca nos vemos; na verdade, nenhum de nós sai de seus aposentos. A comida é entregue no quarto no momento em que o lixo diário é recolhido. Também não se vê quem entrega a comida e recolhe o lixo. Mas, embora passando os dias trancado aqui, viajo pelo mundo todo. Ultimamente estive em Camberra, depois passei pelo Texas, Espanha, a Patagônia e a Cidade do Cairo.
Espumas e estrelas (Nilto Maciel)

O físico Alexandre Neves viveu seus últimos dias num manicômio. Completamente abandonado pelos familiares e ex-colegas.
Alexandre fez-se famoso a partir de 1961, quando conheceu Hannes Alfven e se dedicou ao estudo das teorias do futuro Nobel. Logo passou a publicar artigos e ensaios, na revista Física, onde demonstrava erros científicos nas teorias do físico sueco.
quinta-feira, 24 de maio de 2007
O cálice dos desesperados (Luciano Bonfim)
(Gregor Samsa, na visão de Christophe Huet)
“Cada vez mais silenciosos e se entendendo quase inconscientemente através de olhares, pensaram que já era tempo de procurar um bom marido para ela. E pareceu-lhes como que uma confirmação dos seus novos sonhos e boas intenções quando, no fim da viagem, a irmã se levantou em primeiro lugar e espreguiçou o corpo jovem”. Kafka – A Metamorfose. Tradução : Modesto Carone
Como todos sabem, o médico e o serralheiro não foram localizados.
O gerente, pela sua lealdade e empenho em resolver o caso, fora promovido, tendo direito a um intervalo de duas horas para o almoço e folga aos domingos. Para a vaga que ficara ociosa, investido de seus novos poderes, contratou de imediato o seu cunhado, há oito meses desempregado e vivendo de sua amizade.
terça-feira, 22 de maio de 2007
Brinco de miçanga (Vera do Val)
Zé ia passando quando viu o brinco vermelho, pingente de sangue e desejo, misturado nas quinquilharias da banca da Nana. O mercado estava cheio, ele foi empurrando as gentes, se achegando, preso no brilho, tocou com o olho, foi escorregando devagar. Depois aproximou o dedo e titilou de leve, sorriso abrindo a boca desdentada. Tomando confiança segurou a miudeza e trouxe pra mais perto. A cascata de miçangas vermelhas cintilou, o sorriso dele alargou-se. Ofegou, o coração deu um salto, sentiu a boca seca.
Bicho asqueroso (Nilto Maciel)

Três dias antes de morrer, Euclides Azevedo leu uma biografia de Arnaldo de Bréscia. Pouco mais de cinqüenta páginas. O livrete fazia parte de uma coleção. O primeiro volume biografava Frederico Barba-Roxa. Os volumes seguintes eram dedicados a Carlos Martel, Carlos Magno, Henrique IV, Ricardo Coração de Leão e outros monarcas.
domingo, 20 de maio de 2007
Um menino chamado Jesus (Valéria Eik)
A carroça vinha carregada de sal grosso, açúcar mascavo, garrafas de pinga da boa, encomendas de toda sorte, e de quebra, dois porcos que grunhiam sob um calor de quarenta graus.
Antero segurava as rédeas com as mãos calejadas e seu corpo sacolejava, indolente, seguindo o ritmo da carroça. O sono turvava a sua visão da estrada e do céu muito azul, sem nuvens, mas, era impossível dormir; qualquer descuido seria recompensado por dentadas dos porcos que já andavam inquietos com o calor. E o sol inclemente cozinhava os seus miolos, apesar do chapéu de palha encardido a lhe cobrir a cabeça.
Bicho amarrado para morrer (Nilto Maciel)

Prisioneiro dos tupinambás, Hans aguardava cristãmente a morte. Lembrava-se perfeitamente de tudo, desde sua captura, naquela fatídica manhã de 1554. A chegada à aldeia, a recepção, a festa. Mulheres e crianças o esbofetearam. Cortaram-lhe sobrancelhas e barba. E o amarraram pelo pescoço, como se fosse bicho. Sentira-se espiritualmente aniquilado. Reles vivente. À espera do golpe mortal. Para depois ser esquartejado, assado e comido pelos canibais.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Brevê (Anibal Beça )
Para o Dr. Leonardo Cavalcante
Hoje caminho por um céu no chão
Desabados do azul meus pés são nuvens
Manso me assomo
sombra semeada
Sequer o rumor rápido rasteja
Passos se elevam pássaros implumes
Nervos são grãos
colhidos de arrepios
Ainda sinto fagulhas
tartamudas
choques intermitentes
circulando
Granizo em garoa
rega violetas
roxas sem tato
caminho em curto circuito
Meus pássaros de longo curso
procuram plumas para a fuga do ninho
Asas pra que vos quero?
/////
Hoje caminho por um céu no chão
Desabados do azul meus pés são nuvens
Manso me assomo
sombra semeada
Sequer o rumor rápido rasteja
Passos se elevam pássaros implumes
Nervos são grãos
colhidos de arrepios
Ainda sinto fagulhas
tartamudas
choques intermitentes
circulando
Granizo em garoa
rega violetas
roxas sem tato
caminho em curto circuito
Meus pássaros de longo curso
procuram plumas para a fuga do ninho
Asas pra que vos quero?
/////
quarta-feira, 16 de maio de 2007
A fome de Malthus (Nilto Maciel)

Havia três dias o reverendo Thomas Malthus não se alimentava. E pouco dormia. Precisava fazer a revisão final de seu livro. Não queria um só erro tipográfico. Nada de gralhas. Morto de cansaço, sono e fome, adormeceu sobre o impresso. E teve um sonho horrível. Acordava, faminto, e gritava pela criada. Preparasse urgentemente um farto almoço. A criada, porém, não pareceu ouvi-lo. Irritado, Thomas correu à cozinha. E encontrou o corpo estendido no chão. Fedia. Talvez tivesse morrido de preguiça.
Momento em Buenos Aires* (Clodomir Monteiro)

en la mesa
pasa pan pasa ojo
pero no pasa la vida
en la calle
pasa fardo pasa cuerpo
mas se siente es viento
por el habla
pasa ruido pasa sonido
más se entiende la nada
por la quinta
pasa asado se bebe el vino
pero se olvida al tango
en la vida
pasa vuelta pasa hora
pero solo pasa es tiempo
por la ruta
pasa coche pasa micro
mas no se para la bomba
en la mente
pasa mano pasa pie
mas que pasa el espejo
por el plato
pasó pan pasó bala
ahora se come el fuego
en la plaza
pasó hombre pasa hambre
más se enjaula al pluebo
* Não se trata de tradução, ou versão. É uma construção evocabular, na proposta praxis. Semântica e sintaxe caminham paralelas com sinonímia, fonética e morfologia
/////
terça-feira, 15 de maio de 2007
Um coveiro monstruoso (Nilto Maciel)

Montado num cavalo recém-domado, Átila percorria a vista pelos prados da Panônia. O animal trotava, cheio de garbo, como se quisesse dizer ao homem que também tinha dignidade.
Satisfeito com o procedimento do cavalo, Átila pôs-se a falar, carinhosamente. Dar-lhe-ia um belo nome. Que tal Huno? Não, arranjaria um nome próprio dos melhores animais. Leão, por exemplo. Sim, Leão.
Os limites provisórios (Carlos Willian Leite)
e pastam em nós os rebanhos
escondidos à sombra de nós mesmos
à superfície enferrujada das pálpebras
dos anos
onde noturnas pequenas aves
ciscam o mármore dos relâmpagos
domingo, 13 de maio de 2007
As infinitas pernas de Wellington (Nilto Maciel)
Reprodução caricatura de James Gillray mostra Napoleão (D) disputando o mundo com o general inglês William Pitt
Era anão. Sujeitinho do tamanho de um dedo de homem comum. E comandava milhares de outros seres feitos à sua imagem e semelhança. Valentes soldados.
Sempre vitorioso, esse general de alguns centímetros tinha mania de grandeza. Sonhava conquistar o mundo. Tornar-se o rei da Terra.
Investigação sobre Pedro Lyra (Dimas Macedo)
Da transitividade do ser aos processos de reificação ou de transformação da consciência reina, de forma soberana, a maior de todas as linguagens criativas. O ato de criação ou de transfiguração da poesia é tão sutil e magnético quanto a manifestação de todos os mistérios e mitos insondáveis.
Acho que podemos falar de uma mística da poesia, assim como podemos supor a inexistência da matéria a partir das suas formas plurais de energia. A espada e a lírica com que se arma o empreendimento do poema tanto podem construir a geopolítica de qualquer civilização planetária quanto transformar os processos sociais e econômicos de qualquer modo de produção em andamento.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Vida, obra e mito: a auto-construção de Alejandra Pizarnik (Ana Maria Ramiro)
(Alejandra Pizarnik)
"Sobre negros penhascos se precipita
embriagada de morte
a ardente namorada do vento".
(Georg Trakl)
"A letra de Alejandra era pequenina, como um caminho de
formigas ou um minúsculo colar de grãos de areia. Mas
esse fio, com toda a sua leveza, não se apagará nunca,
pois é um dos fios usados para entrar e sair do labirinto".
(Enrique Molina)
Há 70 anos, em 29 de abril de 1936, nascia em Avellaneda, Buenos Aires, Alejandra Pizarnik, uma das mais importantes escritoras latino-americanas do século XX. Uma mulher libertária, "uma poetisa ávida pelo naufrágio", como dizia seu amigo e também escritor, Júlio Cortázar, e até hoje, relembrada pela crítica e mitificada pelo público, que se deleita com a leitura tão profunda de uma existência humana.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
A divisão do mundo (Nilto Maciel)
Na latrina, Carlos Magno cismava. Conquistar mais terras, expandir o reino, o Regnum Francorum, tornar-se Imperador do Ocidente. No entanto, aquela dor não passava. Maldita comida! Mandaria matar todas as cozinheiras do palácio.
Sim, um novo Império Romano, milhares e milhares de soldados e súditos, terras e mais terras para pilhar, pisar e legar aos filhos.
A dor tornou-se mais intensa. Gemer, a sós, não lhe tiraria o cetro, o título de Rex Francorum et Langobardorum. Mesmo assim, nunca mais comeria tanto. Já não era tão moço.
No rastro da História, Nilto Maciel pega o fio da meada e alinhava livro sobre os contistas do Ceará (Valdivino Braz)
O advogado, escritor e articulista Nilto Maciel, cearense afeiçoado e dedicado à literatura, tanto na produção quanto na divulgação da mesma, durante vários anos residiu e militou em Brasília, antes de mudar-se para Fortaleza, capital do Ceará. É de lá que ele envia, para uma informativa leitura e divulgação em Goiás, o livro Panorama do Conto Cearense, de sua autoria, entre outros que ele já produziu e publicou, nas áreas do conto, romance e poesia, além de resenhas de livros em diversos veículos da imprensa brasileira.
sábado, 5 de maio de 2007
Carta a Alexis (Aíla Sampaio)
(Para M. Yourcenar)
Quadro de Rubens)
Como não me deste a oportunidade de ler nos teus olhos tudo que disseste, querido Alexis, por medo de ser interrompido ou fraquejar a cada frase, também eu interponho certa distância entre a minha piedade e a tua pessoa; também eu me submeto à traição das palavras, embora, como tu, ache que só a música seja capaz de estabelecer o encadeamento entre os acordes. Foi ela o sinal mais claro. Deixaste-a (como) por mim e a ela voltaste por ti, quando afinal decidiste tua vida.
A ideia de matar Pilatos (Nilto Maciel)
Jesus Cristo havia sido crucificado e sepultado. A paz reinava, afinal, em Jerusalém. Falava-se, porém, no desaparecimento do cadáver. Os mais fanáticos acreditavam em ressurreição.
Entre inquieto e feliz, Pôncio Pilatos decidia ir a Roma. Transmitiria pessoalmente as novidades a Tibério, o imperador.
E montava seu fogoso cavalo.
Dias e dias de viagem, por desertos, montanhas, penhascais.
Navegador (Anderson Braga Horta)
Nilto Maciel é conhecido pela prosa de ficção, que lhe tem valido alguns prêmios. Promotor literário obstinado, organizou algumas coletâneas de contos e de poemas, figurando entre seus créditos a criação e sustentação da revista Literatura. Depois dos êxitos nessa seara, no conto (Itinerário, Tempos de Mula Preta, Punhalzinho Cravado de Ódio, As Insolentes Patas do Cão), na novela (A Guerra da Donzela) e no romance (Estaca Zero, Os Guerreiros de Monte-mor, O Cabra que Virou Bode, Os Varões de Palma), decide-se a publicar poesia e nos dá Navegador (Brasília: Códice, 1996). Embora o vejamos mais em seu elemento quando escreve prosa, sua poesia tem qualidades de que a imaginação não é a menor. Seu veículo de eleição é o verso medido, o temário é variado. A dor é, talvez, a presença mais constante (a palavra dor e seus cognatos, sinônimos e parentes, a dor e suas metáforas); mas o Poeta não se deixa naufragar no pessimismo, de que o resgata uma atitude lírico-irônica, aqui ilustrada – para encerrarmos a nota com um exemplo excepcional – pelo oxímoro do fim de “Testamento”: “– a doce vida amarga que adorei”.
(Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília, Ed. Thesaurus, Brasília, 2003, p. 481)
/////
quarta-feira, 2 de maio de 2007
A celebração do hedonismo da poesia de Regina Lyra (Reynaldo Valinho Alvarez)
Atos em Arte, de Regina Lyra, é um livro muito bem afinado com a personalidade da autora. É, portanto, um livro fiel ao comando afetivo de Regina. Seus sentimentos nele se projetam como corpos despidos em praias que se abrem para a intensidade do sol tropical, sem rebuços, acanhamentos ou timidezes, plenos do cálido desejo de se ofertarem à mornidão dessas longas tardes infindáveis, repletas de sensualidade e preguiça.
Um sonho cartesiano (Nilto Maciel)
(Descartes)
O capítulo mais soberbo de Sonhos Ilustres, de Domenico Moravia, talvez seja aquele dedicado ao filósofo Descartes.
O autor nem sempre informa onde teria colhido o material para a elaboração de sua interessante e volumosa obra. Porém são os livros de memória a fonte principal de sua pesquisa. Não no caso de René Descartes.
domingo, 29 de abril de 2007
La ricerca dell’interiorità nella poesia di Nilto Maciel (Angelo Manitta)
“Navegador” è una delle più belle e singolari sillogi di poesie di Nilto Maciel, poeta brasiliano che predilige l’astrazione e la metafora: il navigatore è l’uomo che con i suoi occhi scopre il mondo. La predilezione per l’astrazione è già visibile scorrendo soltanto alcuni titoli delle sue liriche: Sogno, Odissea interiore, Riflessioni, Illusioni, Insonnia, Destino, Immagini, Apocalisse. La poesia scorre sul sottile filo della introspezione. Il poeta, infatti, sa guardare dentro di sé come dentro ogni uomo, perché suo intento è rappresentare l’uomo universale e proprio questa sua universalità lo rende grande. Francisco Carvalho, uno dei più importanti poeti brasiliani contemporanei, nel libro “Textos & Contextos” dedica uno studio alla sua opera scrivendo che egli è, senza alcun dubbio, uno dei nomi più rappresentativi della moderna letteratura brasiliana. Autore di racconti, romanzi o poesie, rivela la straordinaria versatilità del suo talento creativo. Egli è un ammirevole scrittore in quanto possiede capacità, immaginazione, invenzione, tecnica narrativa ed espositiva, proprio come deve possedere un buon narratore. L’intreccio della sua finzione è un complesso ingegnoso di contenuti essenziali, sapendo con grande abilità condurre la narrazione o risolvere armoniosamente le situazioni immaginate.
Sobre a poesia de Anderson Braga Horta (Joanyr de Oliveira)
(Anderson Braga Horta)
Em “Toada pra se ir a Brasília” (1), Cassiano Ricardo se confessa impregnado do fastio ante o “azul marítimo”, onde lhe faz mal a paisagem — “Por excesso de azul e sal” — e anuncia peremptório: “Vou-me embora pra Brasília, / sol nascido em chão agreste. / Como quem vai para uma ilha. / A esperança mora a Oeste”. Mas não veio. Jamil Almansur Haddad, tomando o final do citado poema como epígrafe, e lembrando a cantadíssima Pasárgada de Manuel Bandeira, também se revela distanciado amante, dizendo: “Vou-me embora pra Brasília. / Aqui eu não sou feliz. / Lá descobrirei uma ilha. / À sombra dos pilotis.” E, de imediato, arquiteta os planos para a vida nova: “Deixemos a morte e o estrago, / Vamos a um mundo risonho, / Pois se construíram o lago, / Nós construiremos o sonho.” (2) Contudo, assim como o autor de “Jeremias sem Chorar”, Haddad não veio. Quem mais teria cantado a “Capital da Esperança” dentre os que pretenderam vê-la e vivê-la? Não temos conhecimento de outros nomes dentre os nossos poetas dignos de menção. (3)
Lições de zoologia (Nilto Maciel)
Quando a mulher morreu, o homem nem sequer chorou. Cavou um buraco e jogou para ele os restos dela.
Há anos não se toleravam mais. Não se chamavam mais pelos nomes. Tratavam-se como inimigos. “Peste ruim, já fizeste as compras?” Sem mostrar aborrecimento, ele respondia: “Ainda não, traste”.
Em busca de sossego, o animal comprou um cachorrinho. Parecia uma bola de lã. Deu-lhe um nome: Ball. Irritada, a coisa maltratava o bichinho com palavrões e pontapés. Se ao menos morassem numa casa! Ora, apartamento não era lugar onde se criasse cachorro.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Navegador (Fernando Py)
Primeiro volume de poesia do autor, muito mais conhecido como ficcionista. Mostra um poeta com bastante domínio da técnica do verso, um poeta que sabe dar valor às palavras e que exibe um variado repertório temático (de admirar em poeta estreante). Convém notar que, na imensa maioria dos poemas, o tom predominante é o de um pessimismo intenso, visceral, o que o impede por sua vez de cair num romantismo sentimentalista muito comum em poetas de estilo coloquial como o seu. O coloquial em Maciel, contribui para a intensificação de uma postura niilista - entremeada com o saudosismo dos tempos passados - que, apesar de tudo, não desmerece a sua poesia. Para preferir, notamos os poemas intitulados "Tempos", "Herança", "Acalanto", "Escuridão", "Odisséia Interior", "Navegador", "Persona", "A Morte Não Tarda" e "Testamento".
(Diário de Petrópolis, Petrópolis, RJ, 6/10/1996)
/////
“Te odeio, Fortaleza...” (Edmílson Caminha*)
Assim começa Fortaleza voadora, a seleção de crônicas de Pedro Salgueiro - boa a partir do título, que tanto nos evoca o B-52, bombardeiro americano da segunda guerra, quanto o surrealismo de uma cidade a sobrevoar sua gente... Difícil escrever sobre a terra natal sem a pieguice da louvação, do derramamento fácil, do encanto que transforma em qualidade o que defeito é. Mas, como diria Nelson Rodrigues, ninguém com mais direito de falar mal do ente amado (seja cidade ou mulher) do que o amante... Falar mal, explique-se, com refinamentos de arte, segundo o título da coluna assinada outrora, no Correio da Manhã, por Carlos Heitor Cony.
Como um sol que explode (Nilto Maciel)
Todo dia Abelardo seguia os passos de Camilo. Porque quase nunca este se encontrava com Maria no mesmo lugar. Um dia Camilo perguntou se Abelardo gostava de sofrer. Ficou mudo e se afastou do irmão. Não sabia explicar por que necessitava ver, de perto e sempre, aquelas cenas animalescas. Mordia os lábios, arregalava os olhos e estremecia. Talvez devesse apresentar-se no momento do êxtase do casal e interromper aquela sem-vergonhice. Não, não tinha coragem para nada na vida. Um covarde, um medroso. Certa vez não precisou seguir Camilo. No dia anterior ouvira, por três vezes, Maria e o namorado se despedirem assim: “Amanhã na ponte”. Saiu de casa antes do irmão. Escondido, viu a moça chegar. As águas do rio corriam lerdamente. Os mosquitos voavam e ziniam. E Camilo não aparecia. Maria olhava para os lados, sentava-se, andava e resmungava: “Amanhã na ponte. Ou amanhã na fonte? Na ponte, na fonte”. Olhos arregalados na direção da amada, Abelardo mordia os lábios. Por que Camilo não chegava? Talvez perdido na fonte. E Maria já se preparava para partir. Oh! não partisse. Prometia-lhe mil beijos, carícias de mãos, um abraço imensurável e o amor mais ardente. Porém ela sumiu entre as folhagens, feito uma fada, e ele gemente, os lábios em sangue e o corpo todo em chamas.
domingo, 22 de abril de 2007
Desmistificações de Camilo (Adelto Gonçalves* )
Camilo Pessanha (1867-1926) teve uma vida inteira de abandono, desistência e amargura que estão reflectidos nos seus versos mais marcantes. Mas, nas três décadas que viveu no Extremo Oriente, a vida irregular e o gosto pela bebida e o ópio, se o prejudicaram alguma vez, não o impediram de ascender socialmente na fechada sociedade portuguesa de Macau. E não foram poucos esses êxitos, como se pode acompanhar pela leitura de “A Imagem e o Verbo: Fotobiografia de Camilo Pessanha”, livro organizado com especial esmero por Daniel Pires, que não só vasculhou arquivos de Portugal como viajou a Macau para consultar a Biblioteca do Leal Senado, onde se encontra o acervo de Camilo Pessanha, e resgatar um pouco da cidade onde o poeta viveu os seus melhores anos.
Navegador
Sa voix dont les nostalgies et les pressions font penser à Jean de Sponde transporte les désespérances et les vibrations d’âme d’un monde hanté par les rumeurs comme inaccessibles de l’aurore.
(Revista Jalons n.º 66, 1.er trimestre 2000, Nantes, França)
/////
sexta-feira, 20 de abril de 2007
À beira do cais (Nilto Maciel)
A lua bruxuleava nas ondas. Alfonso não parava de fumar, e a luz do cigarro às vezes semelhava outra lua. Figuras de contornos vagos surgiam e desapareciam nas águas. Sereias ou iemanjás. Quando apareceu Maria. Pediu cigarro e propôs beberem. Besando al marinero que te quiere mármol amante nadador y puro, que por ti rasga el mar y en ti se muere. Ela riu e gargalhou. Ora, não esperava conhecer naquela noite um estrangeiro.
terça-feira, 17 de abril de 2007
Sintaxe do desejo (Hildeberto Barbosa Filho)
(Dimas Macedo)
Com Sintaxe do desejo, o poeta Dimas Macedo seleciona e reúne seus poemas, dentro de um arco cronológico que vai de 1978 a 2003, consolidando, assim, um primeiro balanço de sua expressão lírica, materializada em títulos como: A distância de todas as coisas, Estrela de pedra, Liturgia do caos e Vozes do silêncio.
Homem de formação humanística afeito à prática da crítica e do ensaísmo literários, Dimas Macedo também procura, no âmbito de suas inquietações criativas, cultivar o solo particular da poesia - esta paisagem arisca e encantatória, esta cartografia mágica, toda tecida de mistério e de espanto. Diria, com base na própria nomenclatura do poeta, em síntese conceitual que já reflete sua visão estética diante da palavra: a poesia é a “sintaxe do desejo”.
O paradoxo implícito no título desta reunião resume uma concepção de poesia no sentido geral, mas também no sentido específico. Sintaxe quer dizer organização, portanto, planejamento, racionalidade, consciência. O desejo, pelo menos na perspectiva freudiana, é algo involuntário, instintivo, impulsivo, inconsciente... Ora, a expressão poética não pode prescindir nem de uma coisa nem de outra. Pensemos, desta feita, na poesia como a organização verbal do desejo, na poesia de todo poeta autêntico, assim como na poética individual de Dimas Macedo.
Navegador (Silvério da Costa)
Trata-se de uma obra reflexivo-existencial, cuja preocupação é a análise da “vida e da morte”, principalmente desta como limite daquela; tendo de permeio o tempo, para formar a trilogia temática mais em evidência na obra.
Navegador revela o conflito entre o Eu-lírico e a realidade, desnudando os choques violentos dele advindos. Ler Navegador é incursionar pelo mundo instigante e cientificista de Nilto Maciel, um poeta à moda de Augusto dos Anjos, o vate da decomposição, só recentemente reconhecido como um poeta sui-generis da poesia brasileira.
Espero, sinceramente, que o mesmo não ocorra com Nilto Maciel, cuja ótica sobre o transcendental e o terreno, com sua finitude, reside na lucidez de suas análises e na preocupação com a inexorabilidade do tempo que vai deixando suas marcas no corpo cujo fim é ser repasto dos vermes. Apesar de agnóstico, é preciso que se reconheça, desde já, a marca de um grande poeta em Nilto Maciel (embora ele seja muito mais um prosador), a fim de que o mesmo possa navegar em suas águas conflituosas, que são a sua fonte de inspiração, pois como diria Fernando Pessoa “Navegar é preciso”.
E é o que faz o nosso grande poeta de Brasília!
(Diário da Manhã, Chapecó, SC, 11/12/1996)
/////
domingo, 15 de abril de 2007
A guerra dos bárbaros (Nilto Maciel)
Descalça, Tereza esfregava um pé no outro. A barra da saia ora descia até os joelhos, ora subia até o princípio das coxas. A mão direita alisava o pano. As unhas pintadas se confundiam com as bolinhas vermelhas que ornavam o fundo azul do tecido. Pequenina aranha passeava entre uma das pernas da mesa e a parte inferior da tábua. Na parte superior, um livro aberto, e sobre ele a outra mão da moça. “Sujeito é o ser a respeito do qual”(...) Tentou cobrir todas as letras, espalmando a mão sobre o livro. “Sujeito oculto”. Olhou para a rua. Um chapéu, uma cabeça, um pescoço apareceram e desapareceram num relance. Tudo brilhava, como se caísse uma chuva de estilhaços do Sol. A menina fechou o livro e abriu um caderno. “Tive um sonho horrível ontem”.
O rosto de Ruggero brilhava, suado. E parecia mais bonito assim. Os raios do sol tingiam de amarelo pedaços do chão coberto de folhas secas. Talvez, debaixo delas, cobras preparassem botes. Pisassem com leveza, como se voassem. E por que não voarem? Ruggero já havia voado, num filme. Tereza pouco ia ao cinema. Tudo uma porcaria, no dizer de seu pai. Coitado, as onças já o teriam comido. Seu Joaquim surgiu, então, montado num cavalo. Por onde tinha andado? Ruggero agachava-se, catava mangas no chão e se punha a chupá-las. Muito doces. Joaquim aproximava-se de sua filha e segredava: ele vai morrer envenenado. As mangas encerravam veneno de cobra. O italiano estirava-se no chão, a gritar.
Na parede alguns rabiscos a lápis. Certamente obra dos irmãos de Tereza. Coisa de bárbaros. Há quantos dias os estrangeiros se encontravam na cidade? Se ainda não haviam realizado nada, pelo menos a apatia do povo andava sumida. Uns até exageravam na euforia. Aqui e ali apareciam crianças fantasiadas de índios. Como se fosse carnaval. Muitos, porém, não acreditavam na palavra dos estranhos. Filme coisa nenhuma. No mínimo, espionavam. E deviam ser russos ou americanos. Falavam italiano e português para engabelar todo mundo.
Tereza riu e brincou com a caneta. Na janela da casa defronte da sua, meio corpo de Dona Gal vasculhava a rua. Talvez houvesse muita gente na praça. Abriu o caderno. “Sentei-me no banco da praça, para descansar ou pensar”. Súbito surgiram meninos a gritar. Logo após, os carros dos italianos. Todos sorridentes. Iam para os sítios, o meio da serra. Há dias haviam chegado, em grande alvoroço. Pareciam gente de circo. A meninada até se enganou e alegrou. No entanto, a notícia imediatamente se espalhou. Nada de circo; tratava-se do pessoal do filme. Que filme?
A moça deu um salto. Voou até o quarto, abriu o guarda-roupa, uma gaveta, meteu as mãos entre livros e cadernos. Cantarolava. Fez tudo ao contrário, até sentar-se à mesa de estudos. Abriu o caderno buscado. E foram aparecendo rostos bonitos e famosos: Burt Lancaster, Anthony Quinn, Yul Brynner. Como os achava maravilhosos, embora nunca os tivesse visto em movimento. E Ruggero Vasari? Por que as revistas não estampavam o rosto dele? Passou outras folhas: Brigitte Bardot, Sophia Loren, Claudia Cardinale. Ah! ainda seria atriz. Primeiro iria embora daquela porcaria de cidadezinha. Conheceria astros e estrelas. Sua mãe choraria muito. Seu pai diria “não”, esbravejaria e seria capaz de amaldiçoá-la para o resto da vida.
Abandonou o álbum e retornou ao diário. Moscas voaram e novamente pousaram na mesa. “O filme se chamará A Guerra dos Bárbaros. Distribuíram folhetos. Precisam de centenas de figurantes. Como se fossem índios de verdade. Basta vestirem tanga e se pintarem de jenipapo e urucu. Muita gente aqui tem mesmo cara de índio. E eu nem imaginava que aqui tivesse vivido índio. Muito menos sabia dessa guerra. Os folhetos trazem informações novas para mim. E, certamente, para quase todos nós. Essa guerra teve início em 1687. Os nativos do Nordeste se levantaram contra os brancos. Por isso nos documentos da época o movimento foi também denominado Levante Geral dos Tapuias. Eu não quero ser apenas figurante. Só me interessa papel importante. Ao lado de Ruggero”.
Tereza viu de novo Dona Gal à janela. Parecia sorrir. Coçou a coxa. Um homem cumprimentou a mulher e sumiu. A moça abriu o livro: “Sujeito determinado”.
Fantasiado de índio, um rapazote chegou à porta, esbaforido. “Menina, chame sua mãe, depressa”. Tereza assustou-se. “Seu Joaquim esfaqueou um homem no mercado”. A mocinha se levantou: “Mamãe, mamãe”. O visitante suava e tremia. “Parece que morreu. Discussão por causa dos estrangeiros, do filme”. A mulher chegou coberta de espumas. “O delegado prendeu Seu Joaquim”.
Um enxame de moscas levantou voo, feito um bando de bárbaros.
/////
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Grau zero (Dimas Carvalho)
Até hoje não sei se o que aconteceu comigo foi sonho ou realidade. Às vezes penso que devo ter perdido temporariamente a razão, que delirei e tive febre. Parece-me que passei por um período de insônias, delírios, suores frios, pés gelados, a cabeça doendo. Encontrei depois pelas gavetas algumas caixas de psicotrópicos, de dosagem elevada. No entanto, o meu médico afirmava que nunca estive tão normal quanto nesta época, pelo menos aparentemente. De modo que continuo sem saber o que pensar desses estranhos acontecimentos.
Um respeitável poeta (A. Isaías Ramires)
Já disseram que eu tenho má vontade com os poetas filiados à corrente modernista, o que não é verdade.
Embora seja de um tempo em que a métrica e a rima tinham peso considerável na avaliação da poesia, entendo que esses requisitos não são os mais importante nessa arte realmente difícil, embora pareça o contrário. Mesmo porque realizar obra poética não é empilhar palavras. O que condeno são os abusos, geralmente cometidos pelos despossuídos de talento, em nome desse liberalismo que nasceu com o Movimento de 22.
Estou com Baudelaire: “Poesia é a aspiração humana no sentido de uma beleza superior.”
Foi essa “beleza superior” que captei na leitura de Navegador, livro de Nilto Maciel, recebido recentemente, com gentil dedicatória do autor.
Como afirmou Francisco Carvalho, numa das orelhas do livro: “Nilto Maciel é, atualmente, sem nenhum favor, um dos nomes mais representativos da moderna literatura brasileira”.
Grande verdade, porquanto, além de poeta, NM é contista, novelista, ensaísta e romancista..
(Jornal A Gazeta, Vitória, ES, 15/7/1996)
/////
terça-feira, 10 de abril de 2007
Ecce homo sapiens (Nilto Maciel)
Aos trinta anos de idade, Giovanni Cristofori já havia publicado três importantes obras: A vida do homem de Pequim, O homem de Piltdown e Como surgiram os prossímios. A seguir, se voltou para o Brasil, e leu Roquete Pinto, Artur Ramos e Gilberto Freyre. Quis conhecer os índios, a Amazônia, Sete Cidades, São Raimundo Nonato, cavernas, sítios arqueológicos, etc. Aconselharam-no a instalar-se no Rio de Janeiro. Poderia escrever A mulher de Ipanema. Sociólogos indicaram-lhe Recife, onde encontraria o autor de Casa Grande e Senzala. No entanto, aportou em Fortaleza, e, no dia seguinte, rumou até Palma. Apresentou-se às autoridades e falou de seus interesses científicos. O prefeito se mostrou surpreso: desconhecia cavernas nos arredores da cidade. Talvez o italiano encontrasse pequenas grutas, algumas cobras e, no final, a morte.
sábado, 7 de abril de 2007
A doida Maura (Aíla Sampaio)
De longe se avistava a casinha em cima do morro. Suas formas evanescentes se desenhavam entre as nuvens e, em dias enevoados, parecia suspensa no ar, bem perto do céu. Se o tempo fechava, desaparecia do horizonte, como por encanto. No inverno, o morro ficava verdinho, realçando o contorno das paredes. Dava para pensar que era baixinha e pequena, mas eu não discernia exatamente o seu tamanho porque entendia que na distância tudo ficava menor.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Nilto Maciel “Na ave da dor” (Paulo Nunes Batista)
Nilto Maciel é poeta. Poeta contista/romancista poeta. NAVEGADOR da nave e da ave (ave! eva!) da dor de ser poeta. Pastor ‘e’a’ dor do Sonho, nauta do Aflito, Sonha’dor da vida, cirandador da rodamarga do mundo... Poeta.
E escreve fácil e danado como que(m) ch’ora. Não cria nem recria palavras: elas são suas, criadas, e o servem como (ele) as quer. Bom piloto do mar da língua, navega seguro e forme, sem temer abrolhos. De suas plagas baturitezanas e seus cearás sertâneos trouxe o gosto da terra, o canto dos galos e a insofridez dos bodes. Nesse seu novo livro – Navegador – à Dor navega, funda e fundo. Talvez mais a que inventa do que a que sofre. E não é sempre assim, com a Pessoa do verdadeiro poeta?
segunda-feira, 2 de abril de 2007
A última guerra de Hirohito (Nilto Maciel)
Japonezinho mirrado, já velho, enrugado, banguela. Vigiava carros num estacionamento. Em troca recebia minguadas moedas. Quando a fome apertava, corria ao vendedor de pastéis. Esmigalhava com os dedos a iguaria e enchia a boca de farelos de carne moída e trigo assado. Pedia caldo de cana e sorria. Os moleques o chamavam de “japa”. Ele se zangava, cuspia farelos e pingos de caldo.
quinta-feira, 29 de março de 2007
Notas poéticas – Sobre a sensibilidade casimiriana (Henrique Marques Samyn)
(Casimiro de Abreu)
A despeito de todas as tentativas em prol da recuperação do valor poético de Casimiro de Abreu, o vate fluminense continua sendo considerado, na maior parte das vezes, um inofensivo poeta menor e popularesco. A verdade, no entanto, é que o grande valor de Casimiro está justamente no que nele é mais reprovado, ou seja: em sua dicção, tão ingênua e falsamente simples – uma falsa simplicidade que também caracterizaria a dicção de um dos maiores poetas brasileiros, Manuel Bandeira, admirador de Casimiro e nascido cerca de cinco décadas depois deste.
Dentro do sempre navegado mar (Laene Teixeira Mucci)
Este é o espaço poético de Nilto Maciel. Local e tempo. Dele nos inteiramos, nele penetramos, nos banhamos em seu amanho de rio – e nos identificamos ou não, com a matéria (corpo/alma) de seu belo sensível. O campo poético não se encontra fechado – possui muitos braços prendedores, pernas distendidas para o longo alcance e um grande peito que se entrega e recebe proximidades e lonjuras, todas elas atuando sedutoramente. Está presente em uma ação polarizadora, que imaniza, completa e parte, e estremece, a unidade mistéria – pélago, ninho, volume e superfície, profundez e comprimento, condensação de nuvens... Para caminhar sobre um espaço poético, é mister usar calçados leves ou pés levitados e descalços, ou nem uma coisa nem outra, senão o movimento rítmico de um perpasso de alma. Nilto Maciel nos perpassa de alma pela visão interna e externa, mágica e transformadora, de um Poeta que permite solver e dissolver em suas retortas de vidro frágil, seivas de girassol e trevo proibido, fundir em seu alguidar de barro sibilante, o líquido suspiro da hematita e da libélula. O Poeta tem “os olhos cegos de não-ver; os olhos mudos vislumbradores da loucura de uma babel tempestuosa em oceano largo; os olhos surdos, que não escutam – vêem cantos doloridos e assustados de morte e solidão...” e como se não bastasse, a “própria imensidão de ser...” Suas palavras tentam traduzir enigmas congênitos em suas redomas e labirintos inarredáveis e conspiradores. O Poeta compõe seus versos de milagre profundo, mergulhados numa humanidade atormentada, por vezes contraditória em figurações características. Não se digladiam – colocam-se esses pontos de procura, quiçá de encontro, em porções e camadas que se amontoam e se revezam, pesadas e leves. São olhos que se lançam e só se apaziguam doloridos na última visão – a da terceira estrofe – dentro da vasta praia erma – região/país/continente – longínqua/próxima, de ser; de ser, de ser...
Carlim (Nilto Maciel)
Apesar de muito vivido, Carlim não entendia quase nada do que falavam as pessoas. Nem mesmo porque o chamavam dos mais variados nomes e nunca de Carlim. Aliás, esse nome ele mesmo se deu.
Andava um dia perdido, porém satisfeito, quando parou junto a um muro e sua sombra. Só queria descansar e situar-se. Talvez não estivesse tão longe de casa. Isto é, de seus amigos, da rua onde costumava dormir.
terça-feira, 27 de março de 2007
O discurso poético enquanto máscara: fragmentação, drama e exterioridade na obra de Pedro Casariego Córdoba (Ana Maria Ramiro)
"Lancei um piano ao mar para que se
convertesse em pianola. Acreditava que a
linguagem dos homens coincidia com a
do universo".
(Pedro Casariego)
Autodestruição, marginalidade e loucura são algumas das facetas estimuladas pela angustiante metáfora existencial dos poetas suicidas. A angústia inerente aos mortais, condenados desde o dia do nascimento à figura imprecisa da morte, transforma estes autores em estilistas do desencanto, em "mortais impacientes". Muitas vezes, a idéia ou metáfora da morte aparece na obra como uma espécie de profecia ou ainda como uma forma de exorcismo das verdades que não podem ser assumidas conscientemente, mas que acabam por transparecer no discurso poético.
A leste da morte (Dias da Silva)
É um livro de contos (47) do escritor Nilto Maciel. Cento e sessenta e uma páginas de contos. De contos curiosos. De contos feitos para releituras. Não lembro em que livro li que “o conto é uma peça nua. Este processo que se usa ainda de abrir espaços como divisão em capítulos é para novelas e romances. O conto é um tiro só: vupt e pronto. Tudo mais vai no implícito”. Os contos de Nilto Maciel são uma peça uma, como uma faísca, com rico conteúdo de coisas implícitas. De gente e de coisas que se vêem em frases simples; de realidade, absurdos e imagens surrealistas que terminam por arrumar um todo aceitável, realista, verossímil. Coisas irreais e absurdas que, no conjunto da leitura, vão se firmando no leitor como lógicas. O Autor vai levando-o à aceitação do personagem, da cena e do quadro como algo ordenado. Verossímil no mínimo.
Assinar:
Postagens (Atom)
TODOS OS POSTS
Poemas
(615)
Contos
(443)
Crônicas
(421)
Artigos
(371)
Resenhas
(186)
Comentários curtos
(81)
Variedades
(59)
Ensaios
(47)
Divulgações
(26)
Entrevistas
(24)
Depoimentos
(15)
Cartas
(12)
Minicontos
(12)
Prefácios
(9)
Prosa poética
(7)
Aforismos
(6)
Enquete
(6)
Diário
(5)
Epigramas
(4)
Biografias
(2)
Memórias
(2)
Reportagem
(2)
Aviso
(1)
Cordel
(1)
Diálogos
(1)
Nota
(1)
TEXTOS EM HOMENAGEM AO ESCRITOR NILTO MACIEL
(1)
Vídeos
(1)
Áudios
(1)
































