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terça-feira, 14 de agosto de 2007

Apontamentos para um ensaio (Nilto Maciel)


























Chegou antiquíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara.
Moreira Campos, Dizem que os cães vêem coisas.



No dia 7 de maio de 1994 Mauritz Zetterling chegou a Fortaleza. Não esperava nenhuma recepção, quer no aeroporto, quer no hotel. Afinal, ninguém da cidade o conhecia. Ninguém sequer sabia de sua existência. Talvez algum estudioso de literatura já tivesse lido seu nome. E se essa pessoa tivesse lido seus livros? Não, seus livros não haviam sido ainda traduzidos para o português. Nem mesmo em Portugal. Decididamente nenhum habitante de Fortaleza o conhecia. Ele, porém, conhecia uma pessoa daquela cidade. Não, não conhecia a pessoa, mas a obra literária dela. Pequena parte da obra, é verdade. E com aquela viagem tinha exatamente o objetivo de conhecer pessoalmente o autor de uns maravilhosos contos que havia lido em Estocolmo. Ah! como ansiava conversar com Moreira Campos. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Opai a flecha a gosto (Clodomir Monteiro)



Quem gera a flecha octogonal


I
Introdução do pai outono
o pai na flecha que o define
não finda o fim de quem o tem
se quem não tem vivo o seu arco
vive a procura pela haste
arremessada sem a ponta
II
constante arte armadeira
constante a haste de madeira
provida pedra aguçada
pontuda tem inconstante ferro
flèche a origem fala mecha
penas ou barbas nesta langue
III
objeto forma da flecha
se quem ataca quer vencer
munida vem de um entalhe
adaptado à corda d`arco
o pai será bem conformado
ele objeto flecha e seta
IV
pai geometria octogonal
a quem do raio perpendicular
à corda o pai acerta geometria
flecha jungida entre esta e o arco
gera figura a outra flecha bela
da natureza parteira da vida
V
na arquitetura dos arque dutos
agulha de piramidal remate
da torre igreja obra sacro oficio
templo arquiteto demais edifícios
o pai agulha construtor profano
provê fachada santos aquedutos
VI
paterna construção mecânica
Pai curvatura viga que situa
peça obediente transversal esforço
integra inteiro o seu comprimento
à largura abaixo e acima flutua
não cria só com a terra mãe atua
VII
reina sagittaria montevidensis
na embocadura também reina flecha
do pai rebento enxerto terminal
flecha galocha a proteger a brecha
inflorescência fogo das gramíneas
pai planta aquática ornamental
VIII
botão da paternidade botânica
sinal do desenho certeira flecha
durante a vida educa e dirige
pai quase sempre martim - pescador.
busca comida outonando amor
flecha de parto filho pai revive

Rio Branco, 1 / 2 – 8 – 2007
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sábado, 11 de agosto de 2007

Lilith segundo Paspa Tordre (Nilto Maciel)



















O mais novo livro de Paspa Tordre, intitulado Os Filhos de Lilith, tem recebido as mais acerbas críticas. Desde criança Lilith quis ser fêmea humana, embora fosse deusa ou demônio feminino. Fantasiava-se de mulher, pintava-se, dançava, requebrava-se. E cresceu muito bonita, encantadora. Sonhava com heróis, homens fortes, guerreiros, reis. Imaginava cópulas intermináveis com seus amantes imaginários. E dessas relações nasciam crianças também fortes, futuros heróis. Lilith queria se perpetuar em muitos filhos. No entanto tinha consciência da transitoriedade da vida. Com a velhice também chegava a infertilidade. Assim, não se conteve mais e passou a freqüentar os leitos dos homens mais poderosos de sua terra, casados e solteiros. Conheceu o rei Gilgamesh. Coabitou com ele em suas noites de maior cansaço, exatamente durante o período da construção da muralha de Uruk.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Carnavalha, romance de Nilto Maciel














A Editora Bestiário (www.bestiario.com.br - Rua Marquês de Pombal, 788/204, Porto Alegre, RS, 90540-000) acaba de lançar novo livro de Nilto Maciel, o romance Carnavalha (186 páginas).
Os leitores interessados na aquisição do livro podem fazer pedido também ao escritor: niltomaciel@uol.com.br
O preço do exemplar é R$20,00 (vinte reais).
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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Derroteros (Rolando Revagliatti)




La fresca y pimpante criatura unióse en matrimonio a Feliciatti tres largos años antes de prendarse de Valentina. Con él tuvo gemelos robustos. Dejóse destinar para Feliciatti por su padre, a quien también su esposa había sido destinada por el suegro. De blanco frente al altar, con todos los permisos y plácemes familiares recibidos, sociales y religiosos otorgados, regodeóse por vez primera imaginándose a solas con Feliciatti. Feliciatti, de exactamente el doble de su edad.
Espléndida ella por simple existencia, sin artificios, casi sin poses. Feliciatti, barnizado comerciante en comestibles, en cambio, ampuloso y plagado de latiguillos. Amante ponderable después de todo, lograba estremecerla. Los gemelos, como dije, robustos, nacieron sin dificultad.
El flechazo entre Valentina y la fresca y pimpante criatura prodújose en la fiesta donde descubrieron que la progenitora de Valentina, en su condición de obstétrica, había asistido a la progenitora de la progenitora de los gemelos en el parto en el que vio la luz.
Cuando la obstétrica enviudó, Feliciatti, por despecho, enterado de la incidencia de Valentina en su cónyuge, decide seducir a la obstétrica. Empieza la noche misma del velatorio del marido, y redondea la entusiasmante tarea, semanas después. Valentina y la destinada a Feliciatti festejaron el salpimentado romance.
Cristalizadas perduran más o menos así las cosas. Socios y barnizados comerciantes, habiendo adoptado con naturalidad los latiguillos alocutivos de su padre, los gemelos, hombres de bien, se mantienen indeclinablemente robustos y ampulosos.
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segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Os urubus e Deus (Nilto Maciel)


























– Qual a diferença entre a alma e um passarinho?
O que é a alma, Isaac Leão Peretz

(...) formavit igitur Dominus Deus hominem de limo terrae et inspiravit in faciem eius spiraculum vitae et factus est homo in animam viventem (...)
Vulgate, Genesis, 2:7

O urubu avistou o corpo do menino, empinou-se e bateu as asas. Não pude fazer nada. Aliás, nunca posso fazer nada. Não devo fazer nada. Não posso estorvar os impulsos instintivos dos urubus, nem dos leões, nem dos sapos. Todos eles precisam sobreviver. Os olhos da alma do menino pareciam horrorizados. Então ele, um ser humano, pequenino ser humano, recém-nascido, indefeso, deveria morrer para que urubus sobrevivessem? Não entendia a lógica da morte. 

sábado, 4 de agosto de 2007

Uma história secreta (Tércia Montenegro*)


Agora que estamos envelhecendo, Ismália, posso ter tua mão entre meus dedos enquanto penso que talvez seja improvável que me abandones, porque afinal continuo gordo e lento, mas fiquei velho e ninguém repara mais em mim, e tu também – embora tenhas conservado as medidas de solteira – perdeste o viço da pele; agora que provavelmente muitos homens já não te olham com desejo, posso ficar mais tranqüilo. É verdade, Ismália, que se torna difícil acostumar-me com o sossego, quando por vinte anos sofri, esperando que cada dia fosse o último, que me dissesses Estou farta, e batesses a porta sem mesmo levar tuas coisas. Nem quando estiveste grávida fiquei certo da tua permanência em minha casa; pelo contrário, a cada enjôo ou irritação sentia-me culpado e te levava a passeios, e te achava aborrecida comigo, pensando no que eu poderia ter feito de errado, e depois do parto, quando esperei que ficasses mais gorda, recuperaste em pouco mais de um mês a silhueta, apenas teus seios cresceram, e isso te fez ainda mais bonita. Bonita, apesar do ódio que sentias ao acordar com o choro da criança querendo mamar – muitas vezes temi que sufocasses o menino, tão enraivecida acordavas, a camisola mostrando um seio, os cabelos desalinhados. Quando teu filho se acidentou, aos quatro anos de idade, e não voltou do hospital, tive certeza de que partirias. A morte da criança era motivo suficiente para que dissesses que nada mais te ligava a mim (e eu poderia responder que o menino nunca fora uma ligação entre nós, pois não era meu filho), mas nem assim me deixaste.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Um passarinho (Nilto Maciel)




















Viviam numa casa de campo Mateus e Maria. Às vezes ela o chamava de velho, quando ele dizia ou praticava tolices. No entanto, esta história teve início assim: Um gavião ia ao encalço de um passarinho. Na busca de salvação, a caça desceu mais e mais e avistou uma casa. Voavam sobre as copas das árvores, quase a tocá-las. E se a casa estivesse fechada? Arriscaria entrar por uma brecha da porta ou de uma das janelas e, assim, escaparia das garras do predador. A casa se aproximava mais do coitado. Entretanto, as janelas pareciam escancaradas. Logo, o gavião também invadiria a casa. Voava o passarinho já quase sem forças. O pio agudo do gavião soava nos ares. Não havia outra saída, quer dizer, outra entrada, a não ser a janela. Súbito o choque, a dor, o desmaio. Havia um vidro na janela.
Em outra ocasião, Mateus contou a história assim: Perseguido, assustado, em busca de abrigo, ninho, comida (suposições), ofuscado pela luz do Sol, pela neblina (não lembrava mais a hora e a estação do ano), um passarinho esbarrou no vidro de uma janela. O ruído provocado pelo encontrão despertou o dono da casa. Seria ladrão quebrando o vidro? Pedra jogada por moleque? Cauteloso, dirigiu-se à janela. Não, o vidro permanecia intacto, apesar de maculado de sangue. Olhou para o lado de fora: Nem ladrões, nem moleques. No chão, ao pé da janela, agonizava um pássaro. Chamou Maria. Precisava de ajuda.
A mulher contava a segunda parte da história de outro modo: O vento açoitava portas e janelas, em prenúncio de chuva. Mateus passeava pela casa, inquieto. Aproximou-se da janela, a resmungar: “Essa ventania não pára”. Maria queria ouvir notícias na televisão, saber de vendavais, furacões, tempestades, porém o vento atrapalhava e o marido não parava de grazinar. Sentia dor? Não, mas precisava de ajuda.
O homem correu até a sala, abriu a porta, aos gritos, e se precipitou no jardim. O pássaro se debatia, no chão. O vento zunia nas árvores. Formigas se acercavam do corpinho. Uma dúvida ocorreu de imediato: Abandonava a avezinha ou lhe dava socorro? À porta, Maria observava a cena e fazia perguntas. Acocorado, o homem levou as mãos ao chão e, com cuidado de pai, ergueu a criatura à altura do peito. O passarinho piava sem parar.
Para Maria, mal se aproximou da ave, Mateus se ajoelhou e, quase a chorar, se pôs a dar consolo ao moribundo. Acolheu-o nas mãos, ergueu-se e voltou para casa, a perguntar pela gaiola. Tempos passados livrara um pássaro mantido na prisão. E a gaiola, por que não a destruiu? Porque não havia mal nenhum nela. Mal havia no aprisionamento de pássaros.
A mulher buscou a gaiola e, às pressas, a depôs aos pés do homem. Não, antes de aprisionar o passarinho, urgia fazer-lhe curativos, dar-lhe alpiste. Onde achar alpiste? Servia qualquer comida: Arroz cozido, banana, água. Dias e noites de cuidados. Acordava assustado: Teria morrido a avezinha? E se o gavião voltasse, disposto a rematar a caçada? Maria se irritava. Fosse cuidar da casa, do jardim.
Nunca mais apareceu o rapinador, e o passarinho sarou, cresceu, cantou. O homem se animava, a rezingar: Filhos e netos precisavam ver a ave. Maria se agastava: Os filhos precisavam cuidar de si mesmos e dos próprios filhos; os netos careciam de brincar, estudar, viajar. Passarinhos gostavam de matas, liberdade. Soltasse o passarinho. Mateus cuidava cada vez mais do prisioneiro.
A mulher contou o último capítulo da história assim: O velho fez questão de convidar filhos e netos para um almoço. A casa vivia tão sem graça, silenciosa, sossegada! Necessitava de gente, barulho, vida. Não se acostumava a viver sozinho com Maria.
Para Mateus almoços e jantares significavam alegria. Saudades dos tempos de infância dos filhos. Naquele tempo tudo, até o choro dos meninos, terminava em riso.
Naquele almoço de fim de vida, Mateus serviu o passarinho aos filhos e netos, como se servisse arroz, feijão, legumes.
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segunda-feira, 30 de julho de 2007

O manuscrito (Dimas Carvalho)




Epaminondas Pitágoras da Cunha trabalhava numa livraria decrépita, um prédio velho de dois andares, situado numa ruazinha decadente do centro da cidade. Era o único empregado, além de dono, seu Eleutério, muito idoso, surdo, reumático, quase cego. De modo que Epaminondas se via quase que como proprietário absoluto daqueles milhares de livros velhos e empoeirados, perfilados em estantes antigas, e aos quais praticamente ninguém procurava. Porque os clientes, como era de se esperar de tal estabelecimento, eram raros, e também eles antigos, decrépitos e decadentes.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O último troiano (Nilto Maciel)


 
















Quando mais uma pessoa caiu do edifício Tróia, a história das tragédias lá ocorridas voltou à baila. Relembraram repórteres as outras mortes no prédio de vinte andares. Um ano atrás, uma jovem se havia espatifado na calçada, caída do 18.º andar. E ainda não se concluíra o inquérito. Inoperância da polícia – asseguravam jornalistas. Para o delegado, podia se tratar de suicídio, hipótese não aceita pela família da vítima. No ano anterior a esse, um homem voou do 19.º andar. Portava asas de papelão e uma máscara. Disseram ser réplica da face de Cristo. Nos dias anteriores à inauguração do edifício, ainda em obras, um operário escorregou de um andaime do último andar e deu início à série de tragédias acontecidas no lugar. No dia seguinte alguns jornais noticiaram o fato, sem alarde. E ficou nisso.

domingo, 22 de julho de 2007

Uma mulher, infinitas escolhas (Belvedere Bruno)


Zenaide, com oito meses, a barriga pesando, aguardava a presença de Carlinhos, para que ele, enfim, dissesse se registraria a criança.

Carlinhos era mulherengo. Acomodara-se a uma vida descompromissada. Aos 45 anos, ainda estava na casa da mãe, com a desculpa de cuidar dela. Pura questão de economia. O que Carlinhos queria era que sobrasse dinheiro para suas noitadas, que incluíam carteado, bebidas e mulheres. 

What a wonderful world (Belvedere Bruno)


Houve um tempo em que não precisávamos de muitas palavras para viver em sintonia. A vida fluía de forma simples, mas nem por isso com menos emoção. Houve um tempo que sequer percebíamos a escassez das coisas. Tudo parecia perfeito, em plenitude. Recostada a um sofá estilo art-déco, ouço Louis Armstrong – What a wonderful world... Sua voz eriça meus pêlos e, como uma gata, me enrosco, revendo mentalmente cenas de um passado longínquo e ingênuo, quando simples trocas de olhares eram celebradas com tons que só almas puras possuem.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A leste da morte (Nilto Maciel)



















Personagem menor de novelinha de costumes, nesta crônica quero me engrandecer. Talvez me redimir. Sou Tomé, jornalista, professor, filósofo, para alguns. Não, nada disso significa para muitos ou quase todos. Afinal, não é a mim que vou narrar. É novamente outro o herói. Este, porém, não vou expor à sanha da palavra, nem à dos vilões, nem à dos leitores. Antes, quero também redimi-lo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Um olhar sobre Eu vou esquecer você em Paris (Aíla Sampaio)



Eu vou esquecer você em Paris, de Carmélia Aragão, é um dos livros mais leves e, ao mesmo tempo, dos mais fortes que li ultimamente. Percebe-se logo o manejo da técnica da narrativa curta e da linguagem sóbria, sem rodeios, por vezes propositalmente elíptica, ora coloquial, ora formal, marcando a diversidade de personagens, enredados em seu universo urbano quase sempre trágico. Os textos são curtos, enxutos, concisos, mas densos.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

A lágrima (Nilto Maciel)


















(Juego de niños - Goya)


Deitado de bruços, mãos no fuzil, Fernando circunvagou a vista pelo sítio. Corpos caídos aqui e ali. No entanto, o comandante caminhava e gritava: batalha vencida, hora de voltar às montanhas. Fernando ergueu-se e se pôs a andar no encalço do comandante e dos outros guerrilheiros. Deu alguns passos e por pouco não pisou no peito de um inimigo. Olhou para baixo. O homem ainda vivia. Daria o tiro de misericórdia? Ergueu o fuzil. "Não atirem após a batalha, a não ser em caso de extrema necessidade”.O soldado gemia, olhos semi-abertos. É você, Vicente? Quando meninos haviam jurado amizade eterna. Quando eu for grande vou ser médico. E você? Não, médico eu não quero ser. Não posso ver sangue. Besteira, Fernando. É bonito curar as pessoas. Corriam para lá e para cá, jogavam bola no meio da rua, riam à toa. Formavam times e, às vezes, jogavam em lados opostos. Quando se chocavam, caíam, tombavam, ajudavam-se, pediam desculpas. Mas também brigavam. Até por motivos fúteis. Intrigas de outros meninos. Estudavam na mesma escola, trocavam colas*. Não vamos mais brigar, não é? Os olhos de Vicente se apagavam em lenta agonia. O comandante e os guerrilheiros se afastavam às pressas. Atire. Quero morrer. Não agüento mais tanta dor. Fernando se abaixou. Vicente, você está me reconhecendo? Eu sou o Fernando. Uma cobra se arrastava a dois passos da cabeça do soldado. A vida antigamente parecia muito bonita. Guerras só no cinema e nos livros de História. Tudo muito distante, como se fosse apenas ficção. Grandes formigas pretas se afogavam em rios de sangue. Urubus sobrevoavam o sítio. Um dia vou ser médico, para salvar muitas vidas. Tenho medo de sangue. Não sei ainda, mas talvez vá ser engenheiro. Não, jogador de futebol. Chuta forte, Vicente. Nunca mais vamos brigar, não é? Nunca, eu juro. Vamos ser amigos para sempre. Inimigos, nunca. O comandante e os guerrilheiros haviam sumido no mato. As formigas tentavam se salvar do afogamento nos riachos vermelhos. Os urubus crocitavam, em algazarra. Os olhos de Vicente se abriram desmesuradamente e fitaram os de Fernando. Agora somos inimigos. Mate-me de vez. Fernando pôs o fuzil no chão. Uma lágrima custou a sair do fundo de seu olho. No entanto, saiu, resvalou por seu rosto e, lentamente, como se nunca fosse cair, se alojou no olho do moribundo. Adeus, amigo.
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segunda-feira, 9 de julho de 2007

Proust: além do reducionismo das biografias (Chico Lopes*)



 
Deve ser irresistível, para biógrafos, dispor de uma personalidade como a de Marcel Proust para cavar, aprofundar e revolver. Nos últimos anos, algumas biografias novas saíram. Tive acesso a duas, suponho que as mais notadas em livrarias – “A pomba apunhalada”, de Pietro Citati (Companhia das Letras), e “Marcel Proust”, de Edmund White (Objetiva). Mas, Proust falou tão bem e tão fundo de si que nenhum biógrafo pode ser mais interessante que ele mesmo, fazendo ficção, o foi. Só mesmo com uma arte literária aproximada à ficção pode-se fazer justiça a ele. O livro de Citati tenta isso.

sábado, 7 de julho de 2007

Hipnose (Nilto Maciel)


 














Andrew Albee chegou a Palma numa tarde quente. Maleta à mão, desceu do ônibus. Um menino ofereceu ajuda. “O senhor vai para o hotel?” O americano perguntou onde ficava o melhor hotel. “Aqui só tem um. Ali do outro lado da praça. Hotel Canuto.” 

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A cidade morria devagar (Enéas Athanázio)



A pequena cidade de São Roque de Minas definhava na letargia de uma vida sem futuro, agravada ainda mais pelo desmembramento de Vargem Bonita, berço do rio São Francisco. Ali tudo marchava para trás, a olhos vistos, sem que alguma panacéia salvadora pudesse ser entrevista. Não possuía agência bancária, o comércio fraco perdia fregueses para a cidade vizinha, os aposentados recebiam em outras praças, a pecuária e a agricultura claudicavam, a educação e a saúde eram precárias. Ninguém atinava com a solução, os filhos da terra, angustiados, só pensavam em emigrar e as mudanças se sucediam, tal como num conto meu, já bem antigo. Só que a aparente solução, em minha estória, veio de repente, nas asas de um bilhete lotérico, enquanto no caso mineiro ela chegou devagar e com tremenda luta: foi quando lá aportou, disposto a viver na terra natal, o recém-formado agrônomo João Leite, jovem e solteiro. Chegava com a decisão heróica, talvez quixotesca, de tirar da terra sáfara o sustento e, um dia, a própria riqueza.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A reunião (Nilto Maciel)




















Os homens se acomodaram ao redor da grande mesa. Falavam baixo, cochichavam, mãos postas sobre a tábua ou os papéis. Que notícia traria o Presidente? Teria alguma relação com a morte do vereador de Sapoapé? Não, Sapoapé não – Cipoaté. Ou com o nascimento do cabrito com duas cabeças? Possivelmente não. Aquilo interessava muito mais aos biólogos do que aos políticos. Um ou outro alisava garrafinhas com água e copos. A luz das lâmpadas no teto não provocava sombras. Súbito a grande porta se abriu e por ela entrou o Presidente, boca cheia de sorrisos e bons-dias. Os ministros se levantaram de uma vez, como se tomados de repentino susto. Estrépito de cadeiras arrastadas no chão. O coro de vozes roucas retribuiu a saudação. A autoridade maior se sentou e, com um aceno, autorizou o sentar-se de seus auxiliares. Olhos fitos no rosto do comandante, os homens nem sequer piscavam, paralisados, imóveis, inertes. O que diria o chefão? Sapoapé, Cipoaté, cabrito, vereador? Olhar vidrado, ele engolia palavras, sem mastigar. Um ou outro ministro cruzava as mãos suadas. Nenhuma sombra se mexia sobre a mesa, nas paredes, no chão. E nada de o mandachuva abrir a boca. Ao longe, garçons cochilavam, surdos e mudos. A ponta do sapato de um cupincha encontrou a ponta do sapato de outro cupincha à sua frente. Arregalaram os olhos. Qual o significado daquilo? Estaria ficando louco? Retirasse o pé dali, imediatamente. Deixasse de gracinhas. Alguém ousou levar as mãos a um copo. Reprimenda geral, com os olhos. Não fizesse aquilo. Deixasse a autoridade se servir primeiro. O silêncio fazia ouvirem-se os mais remotos e insignificantes ruídos: na boca de um, nos lábios de outro, a respiração de fulano. Olhares se cruzavam de ponta a ponta. O do vizinho à esquerda do chefe fulminava o sétimo à direita dele. O terceiro à direita piscou discretamente para o quinto da coluna frontal ao frontispício central. Por que o homem não falava nada? Teria perdido a fala? Estaria dormindo? Seria sonâmbulo? Teria enlouquecido? E se o interpelassem? Quem o faria? Não, ninguém ousaria interromper o sono do Presidente.
A mim cabia somente filmar a reunião. E também nada dizer ou perguntar.
Fortaleza, agosto de 2005
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terça-feira, 3 de julho de 2007

Um acontecimento literário (Adelto Gonçalves*)


«O Viúvo», de Ronaldo Costa Fernandes, é um romance surpreendente. As frases curtas, diretas, rápidas e cortantes reconstituem um clima pesado e sombrio à Fernando Pessoa em «O Livro do Desassossego», atribuído ao heterônimo Bernardo Soares, em que o estado mental de quem escreve transborda para a palavra.

Não é o mesmo estilo em que oxímoros e frases paradoxais permeiam o texto. Além disso, o português que usa é o do Brasil de hoje, sem floreios, sem gírias ou palavras de baixo calão. É como se Machado de Assis tivesse renascido na segunda metade do século XX e, incorporando todas as conquistas literárias das últimas décadas, renovado o idioma e produzido este texto que é o depoimento apurado de um homem atormentado. Costa Fernandes faz exatamente isso: dá um salto para a linguagem moderna, mas sem perder a raiz brasileira que, mais ao fundo, ainda é portuguesa.

domingo, 1 de julho de 2007

Palmas e tochas (Nilto Maciel)



















Abriu a porta e o som do piano o inundou todo. Não conseguia enxergar nada. A não ser o palco, o pianista, o piano, mesmo assim sob uma luz pouca. Tateou espaldares de cadeiras. Tocou os dedos numa orelha. Ouviu um muxoxo feminino. Seguiu a passo de medo. E se não encontrasse uma cadeira vazia? Já quase acostumado ao ambiente, ainda mal enxergava as cabeças dos espectadores. Todos em silêncio, atentos à música vinda do palco. O artista não tirava os dedos das teclas. O retardatário parava, forçava a vista e nada de ver onde sentar-se. Caminhou mais para as primeiras filas de assento. Diante do palco finalmente viu uma cadeira vazia. Sentou-se, ajeitou-se e olhou para o homem de terno preto no palco. Conhecia a

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Melodias em uníssono (Valéria Nogueira Eik)
























O vento corre pelo canavial provocando um ruído muito parecido com chuva. Olho para a folhagem escura que se agita sob a ventania e desejo sentir felicidade. É bom estar aqui, na quietude do campo, embora o silêncio traga desassossego à minha alma tão acostumada ao movimento frenético da cidade. As lembranças chegam e se deitam aos meus pés criando uma atmosfera irreal, onde passado e presente cantam em uníssono a melodia das horas.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

O livro infinito (Nilto Maciel)




















Mensagem
Como costumava fazer durante as manhãs de sábado, Antônio Sollos, em pé, folheava livros desde cedo, numa livraria. Nada de praias, bares, visitas a parentes. Buscava novidades e antigüidades. O novo contista, o romancista esquecido, o escritor de sua predileção. Agarrou com unhas e dentes um volume de contos de Kafka. Queria conhecer “Durante a Construção da Grande Muralha da China”. Cheirou o livro, como se fosse um charuto, admirou a capa e se pôs a ler um trecho: “O imperador – assim consta – enviou-te, a ti, a ti que estás só, tu, o súdito lastimável, a minúscula sombra refugiada na mais remota distância diante do sol imperial, exatamente a ti o imperador enviou do leito de morte uma mensagem.” Desde a chegada, não via freguês. Apenas vendedores. Alguma novidade? Muitas, muitas, Seu Sollos. Ouviu vozes de quem entrava na loja. Voltou ao livro: “Aqui ninguém penetra; muito menos com a mensagem de um morto”. As vozes e o arrastar de pés calçados o fizeram levantar a vista. Não conseguiu distinguir de quem eram. Vozes de mulher e homem. Um casal, certamente. Gostou da voz dela. Até lhe lembrava uma voz doce de uns tempos passados. O som dos passos se aproximaram dele. Sondou os arredores. O casal só podia estar do outro lado da estante. Ergueu-se nas pontas dos pés. Viu uma testa robusta, corada, de homem, e uns fios de cabelos quase louros, lindos. Abaixou-se e, pela brecha da prateleira, viu uns lábios rubros que parecia sorrirem para ele. Descontrolado, largou o livro e se pôs a caminhar lentamente pelo estreito corredor. Ao fim dele, virou para a esquerda e parou. A dois ou três metros, avistou o homem de lado, mãos erguidas na direção da prateleira. Só podia ser o marido de Ana. A mulher ao lado dele seria, então, Ana. Não queria revê-la. E se voltou, para atravessar a sala pelo corredor perpendicular àquele em que o casal se achava. Saiu apressado, disposto a fugir. No entanto, antes de alcançar a porta, se viu frente a frente com Ana. Quis sorrir, olhou para os lados, cumprimentou-a com duas palavras, contemplou os olhos dela e saiu da loja.

Um vulto
Ana e Mino entraram na livraria de braços dados, sem pressa. Olharam para os lados e ele a arrastou para o interior da loja. Soltaram-se e se puseram diante da primeira prateleira. Ela passou à frente e deu dois passos, como se soubesse aonde ia. Ele a seguiu e parou ao seu lado. Ela deu mais dois passos. Desejava Kafka ou Borges. Nunca se mostravam juntos naquela livraria. Sollos sabia onde localizar cada escritor, seguindo a ordem alfabética. Também vivia para ler! Ela, não, não podia viver de livros. Pretendia, sim, escrever um livro. Talvez de poemas, ou de contos. Não teria fôlego para um romance. Quem sabe quando estivesse mais velha? Mino se encostou nela. Procurava que livro? O Castelo. Para que, se em casa havia um? Deram mais dois passos. Falasse baixo. Sabia onde achar Joyce? Semana passada o tinha visto, não lembrava onde. Possivelmente do outro lado. Um funcionário da livraria se aproximou deles. Apertou mão do cronista. A crônica do dia não podia ser mais perfeita. Ana sorriu, como se o elogio fosse para ela. Mino se voltou para o rapaz. Nem lembrava mais o assunto. Ana deu mais dois passos. O funcionário voltou. Mino se acercou da mulher e retirou da prateleira um Neruda. Do outro lado da estante um homem se movimentava, como se quisesse vê-los através das brechas entre uma prateleira e outra. Só podia ser Sollos. Ana se voltou para Mino. Precisavam ir embora. Não havia na bolsa um centavo. O homem não concordou com a retirada. O banco não fechava nunca. Sollos se dirigia para os fundos da loja e Ana rapidamente caminhou para o lado oposto. Não queria estar frente a frente com Sollos, pelo menos quando estivesse ao lado de Mino. Por um instante, o cronista virou a cabeça para a direita. Para onde ia Ana? Empertigou-se e, de relance, viu um vulto ao fundo da loja. Seria Sollos?

Sollos a sós
Para onde se dirigia Sollos? Caminhava a esmo pelas ruas, sem se lembrar do plano de ação traçado na noite passada: ir a uma livraria, comprar um ou dois livros, almoçar num restaurante, voltar para casa, descansar, ler um pouco. Ao chegar à Praça do Ferreira se sentiu cansado e sentou-se num banco. Um homem fumava ao seu lado. Podia apagar o cigarro? Não, não pediria nada ao estranho. Melhor se acalmar, procurar outro banco ou ir almoçar. O homem se retirou, levando a fumaça. Sollos abriu as pernas. Ana teria querido falar mais com ele? Para dizer o quê? Sentia-se feliz ou infeliz? Um menino se ofereceu para engraxar os sapatos dele. Quanto custava? Só um. Engraxasse, sem pressa, mas com capricho. O olhar de Ana aparentava de felicidade. Por quê?

A ver Neruda
Mino abriu a porta do carro, sentou-se no banco e aguardou a mulher se acomodar. Ana ajeitou os cabelos. Estaria o marido aborrecido? Não, não haveria de ter visto ela e Sollos frente a frente. O homem acelerou o carro. Por que Ana o tinha deixado a ver Neruda? Só podia ser em razão da presença de Sollos na livraria. Onde ele se encontrava antes de o vir? Ana, calada, alisava o cabelo. Por pouco Mino não bateu o carro na traseira de outro. Ainda pretendia ir ao banco ou havia desistido? Ela abriu a bolsa e se pôs a revirá-la. Ia ou não ia? Por que não imaginar a possibilidade de se defrontar com Sollos na livraria, se há muito o passatempo dele consistia em passar horas e horas de todos os sábados cercado daqueles livros? E se ele continuasse com a idéia de serem namorados? Não, não podia ser. Sabia de seu casamento. O pior não era isto, mas passar Mino a ter ciúmes. Talvez estivesse exagerando, pois nunca contou a ele detalhes do relacionamento dela com Sollos. O cronista suava. Não havia motivos para pressa. O dia todo pela frente. Por que Ana fugia do escritorzinho? Sabia da amizade deles. Conheciam-se de tanto se verem em livrarias, lançamentos de livros, encontros de escritores. Amigos apenas. Aliás, colegas de profissão. Mino havia gargalhado. Profissão de escritor era medicina, arquitetura, jornalismo. Não, não desconfiava de nada. Desconfiar de quê?

Sinfonias inacabadas
A tarde demorou a passar. Sollos se deitou na cama, fechou os olhos. Tencionava descansar, dormir, esquecer a manhã. Ana lhe aparecia a todo instante. Falava de livros, do marido, do passado, do tempo em que se encontravam e passavam horas a fio no apartamento dele. Levantou-se e deitou-se cinco ou seis vezes. Apanhou na estante um livro, leu duas ou três frases, lavou o rosto, quis telefonar para um amigo. Ana figurava-se mais sedutora do que antes. Abriu uma cerveja e sentou-se no sofá. Pôs-se a ouvir Scarlatti. Onde estaria Ana? Quantas vezes estiveram naquela livraria, a folhear Kafkas, Borges, Joyces! Trocou Scarlatti por Haydn, sem saber quem tocava. Bebeu mais cerveja, esqueceu sonatas, prelúdios, concertos para piano. Os olhos de Ana mais pareciam sinfonias inacabadas. Bebeu mais cerveja e buscou nas gavetas fotos dela. Haydn se confundia com o riso de Ana. No outro dia iria procurá-la. Ou não iria a lugar nenhum? Dirigiu-se ao banheiro e sentiu arrepios, como se ela o abraçasse e o sugasse.

Ana e o Castelo
Quando Mino pegou no sono (estaria mesmo dormindo ou fingindo?), Ana abriu os olhos e se pôs a olhar para o teto. Talvez Sollos fosse um bom amigo. Poderiam, ela e Mino, fazer dele um amigo, de freqüentar a casa um do outro. Com o tempo, Sollos passaria até a jantar na casa deles. Solteiro, seria convidado a dormir uma noite. Um quarto para ele, cama bem arrumada. Quando Mino viajasse... Não, Mino não viajava nunca. Ora, viagens eram como jantares – arranjavam-se, inventavam-se. Observou as costas de Mino. Dormia ou pensava? Sonhava ou urdia planos de detetive? Precisava deixar de falar em Kafka. Mais dia, menos dia, Mino veria Sollos num jornal a falar de Kafka. E se desse O Castelo para uma colega de trabalho? Quem poderia gostar dele na empresa? Todas as moças liam e viam somente revistas de fofocas. Nada de romances, contos. E se dedicasse o seu exemplar a Sollos? Com a amizade de sempre, ofereço-lhe o meu Castelo. Sua admiradora Ana. Ou admiradorana? Ele gostava de invenções desse tipo. E ainda lhe daria um abraço muito apertado.

Romance feito de lavas
Mino acordou no meio da noite. Virou-se para Ana. Dormia o sono das amantes. Não, Sollos não passava de um sonhador. Por que não convidá-lo para jantarem juntos? Falariam de Kafka, Borges, Joyce. Beberiam uísque e o outro liberaria o vulcão adormecido. Precisava anotar aquela imagem. Daria boa crônica. Algum vulcão histórico, o Vesúvio, e as paixões humanas. Ou um livro, um romance sem pé nem cabeça, feito de lavas. Sim, uma estréia de causar inveja a esses contistas de meia-tigela. Deixaria de ser apenas um cronista. Mudaria o nome. Nada de Minotauro.

Na muralha
Antônio Sollos se revirava na cama. Ana o chamava para conhecer de perto a muralha da China. Ele sentia medo de altura, de se aproximar do Sol, queimar-se, morrer. Ela ria. Um sol não deveria ter medo do Sol. Ainda mais sendo um sol duplo. Sollos se ajoelhava. Jurava não ser vaidoso. Milhares de chineses se aproximavam deles. Ana sumia na multidão e ele se punha a bradar por ela, que ria, falava, dizia estar ao lado dele. Sollos pedia socorro, gritava o nome de Ana, que ecoava pela muralha e pelos vales. Ela reaparecia. Ele sabia o significado do Sol? Falava de calendários, dias, meses e anos. Ele a chamava de louca. Por que o tinha abandonado? Porque se chamava Ana, a mulher do ano. E ria, gargalhava. Não brincasse com as palavras. Chineses o cercavam. Uma chuva forte caía sobre a muralha. Trovões e relâmpagos. Antônio Sollos sentia a urina inundar-lhe as pernas.

Com Teseu
Ana se debatia no leito. Sollos a convidava a conhecer um labirinto. Se fosse o de Creta, não desejava nem chegar perto. Tinha medo do minotauro. Deixasse de besteiras. Tudo era mito, apenas mito. Além do mais, a fera há muito não existia. Matou-a a mitologia. E a puxava pelo braço e a chamava de Ariadne. Ela fincava os pés no chão. Mesmo assim, Sollos a arrastava e se dizia o herói Teseu. Ouvia um rugido de fera e se assustava. Não tivesse medo, ele mataria o animal. Escurecia. Os bramidos se faziam mais próximos.

O vulcão
Minos mexia os lábios, como se falasse. Ao longe, vislumbrava o topo de um vulcão adormecido. Sentava-se numa pedra. Sentia calor, suava. Olhava para o vulcão e percebia, distantes, pequeninos, dois vultos humanos. Aguçava a vista e reconhecia neles Ana e Sollos. O que faziam ao pé de um vulcão? Punha-se a bradar os seus nomes. Abandonassem o local. As lavas não tardariam a subir. Gritava, gritava, e nada de ser ouvido. E nunca poderia se aproximar deles. Não conseguiria chegar a tempo de evitar uma tragédia. Desesperava-se. Viessem, correndo. Tinha para eles presentes: todos os livros de Kafka, Borges e Joyce. No entanto, a boca do vulcão já vomitava fogo.

Um livro imenso
Sollos, deitado, ouvia música há horas, dias. Ansiava ouvir a sinfonia do Castelo pelo resto da vida. Quem a compusera? Sabia Ana, sabia Mino? Ou nunca a compuseram? Ana lia trechos de O Castelo. Mino sorria. Ainda seria o grande cronista do Universo. Batiam à porta. Um mensageiro dizia estar ali em nome do imperador da China. No entanto, escondido por máscara, poderia ser Mino? Atrás dele uma mulher jovem e bonita. Seria Ana? Trazia, em nome do monarca, a história da Grande Muralha da China. Lesse, traduzisse para todos os idiomas e divulgasse pelo mundo. Corriam os três pelas ruas de Fortaleza, seguidos de multidão a clamar e cantar. Chegavam à Praça do Ferreira e, diante da Coluna da Hora, se punham a fazer um discurso coletivo. A multidão se calava. Irmanavam-se os três num discurso sem fim e sem sentido E se olhavam e riam. No entanto, toda a cena diante deles se desenrolava numa tela de cinema ou televisão. No sofá, Sollos, Ana e Mino liam um imenso, quase infinito livro aberto diante deles.
(Abril/ 2003)
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segunda-feira, 25 de junho de 2007

A dança simbólica de Luciano Bonfim (Angel Cabeza)



 
Escrever literatura em um país que “quase” não lê literatura é uma tarefa árdua. Muitos ficam pelo caminho. Outros entram na miragem do deserto literário e jamais retornam. Escrever é padecer de suas palavras. Escrever não é um dom, mas um trabalho em que poucos são destacados e muitos são crucificados.

domingo, 24 de junho de 2007

Hora de despertar (Nilto Maciel)

























Filho desnaturado – disseram vizinhos de Bartira.
Num domingo de muita luz, Oliveiros beijou a testa de sua mãe, pôs uma fita no gravador e saiu, pé ante pé. “A qualquer hora o espectro do sono flutuará na penumbra da sala.” Pareceu-lhe ouvir o chamado da doente e voltou. Os olhos dela o fitaram como se o fitassem há tempos, desde o princípio de tudo. “A qualquer hora seremos amputados pelo alfanje do vento.” Ele a beijou de novo e arrastou para mais próximo dela a mesinha com as fitas e o gravador. Quando quisesse ouvir outra fita, bastaria esticar o braço. E garantiu voltar logo.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

O menino e o poeta (Nilze Costa e Silva)


(Dimas Macedo)



Querer bem à poesia de um autor. Quase não se fala assim. Pois eu digo que quero muito bem à poesia do Dimas Macedo. Principalmente à poesia do seu lado menino, retratado inicialmente no seu livro “A Distância de Todas as Coisas”, em que traz explícito o desejo de recuperar a criança perdida. Nos ritos emocionais, o gosto de reativar sensações passadas, religar-se, percorrer espaços e alcançar estrelas, em cujo centro se desenrola o renascimento espiritual do homem. Em parte da sua obra poética, o menino Dimas Macedo mergulha nessa sedutora viagem de ritmos, melodias e metáforas, reencantando seus caminhos, suas buscas, suas trilhas, partilhas e até mesmo as incertezas.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Paisagem celeste (Nilto Maciel)

























Pé ante pé, mão a roçar a parede, Luís deixou o quarto, passou pelo corredor e alcançou a ante-sala. Em cada mão um sapato. Parou, conteve a respiração, desceu o primeiro degrau e o segundo. Olhou para trás. Tudo calmo. Levou a mão à porta. Nada de barulho ao retirar a trave. Se Maria ou os filhos acordassem, inventaria alguma desculpa: esquecera de trancar a porta. E voltaria à rede. Sondou de novo a retaguarda: a parca luz da lamparina se infiltrava pela brecha da porta e alumiava uma nesga de chão do corredor. Ninguém tossia nem roncava.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Com os pés fora do chão (Aíla Sampaio)



Não sei por quanto tempo fiquei trancada naquela sala. A consciência era um fio de náilon oscilante. Eu a atingia por um ângulo indefinido. Ia e vinha, de modo que o tempo se repartia em pedaços de cenas que eu entrevia na escuridão. Já sabia que a consciência tinha me sobrado. Do resto, nada podia dizer; não sentia o meu sangue ferver nem gelar. Eu era só um corpo sujeito a reparos inevitáveis, centro de urgentes atenções.

Eu tinha um mundo e aquelas pessoas, outro. Elas não conheciam o meu, mas eu tinha noção do delas. A ligação estava naquele ser derramado ali, sem pudor e creio que, na concepção delas, sem um mundo imediato. 

domingo, 17 de junho de 2007

Aníbal e os livros (Nilto Maciel)

















Bárbara fez uma fogueira de todos os livros de Aníbal, apesar da oposição dos filhos. Melhor vendê-los aos sebos. Doá-los a bibliotecas públicas. Fazer um leilão. Bárbara ainda leu os títulos de alguns livros, antes de lançá-los ao fogo. Talvez descobrisse a causa essencial, primeira, da tragédia de seu marido, nas letras das capas. Ou nos desenhos. Ou nos nomes dos autores. Não, não adiantava descobrir nada. E deu início ao lento esforço de empilhar os volumes no quintal da casa: On The Origin of Species, Charles Darwin; Animal Sharpshooters, Anthony D. Fredericks; The Cannibal, John Hawkes; La Bãete du Gâevaudan: l'innocence des loups, Michel Louis; Cannibal, Terese Svoboda; Viagem ao Brasil, Hans Staden ...

Conversa decisiva (Valéria Nogueira Eik)


O quarto luxuosamente decorado abrigava o homem à beira da morte. Ele estava quieto como um defunto, olhos pregados no lustre suntuoso, e as mãos cruzadas no peito. A sua respiração, no entanto, denunciava ainda um resto de vida, e o ventre volumoso parecia singrar um mar ondulado, ora subindo, ora sumindo. Deu pela presença da moça e olhou-a de alto a baixo, avaliando se era realmente a pessoa certa. Balançou a cabeça numa negativa resignada. Fez sinal para que o enfermeiro deixasse o aposento.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O menino e o lobo (Nilto Maciel)




















Da janela de casa, avistou um menino, à beira do lago, o silêncio da noite. Um lobo se abeirou das águas, olhou para o céu e venerou a Lua. Sedento, abaixou a cabeça e bebeu o claro círculo. Súbito o mundo escurejou. Atônito, o animal se contorceu, gemeu, se pôs a expedir clarões e se arrojou às águas. Banhou-se pelo resto da noite, até que o Sol surgiu enorme, límpido, feito um disco d’ouro. No lago o lobo ainda se debatia, como se garras o puxassem para o fundo. Tentava emergir, respirar, e mais se afogava. Voltava à tona, avistava nesgas de luz e suplicava ao Sol socorro. Em vão, porque nuvens de chuva se ajuntavam. Desesperava-se, sem forças já. Iniciava-se a chuva. O lago se revolvia, inflava. Peixes em festa saltavam em todas as direções. As águas se avolumavam mais e mais. O lago avançava sobre as terras e se confundia com riachos, rios, correntezas. O dilúvio, talvez. O mundo escurecia, repleto de águas. O menino, debruçado à janela, observava tudo com apreensão. Quando as águas desceriam para o mar? Quando o Sol voltaria a aquecer a Terra? Quando reveria as árvores, os animais, as pessoas, o chão? Aos poucos, porém, a chuva se abrandava, as nuvens sumiram, as águas baixaram e o lobo reapareceu à beira do lago, a uivar feito um deus. A Lua brilhava de novo. O animal se abeirou do lago, olhou para o alto e venerou o disco dourado. O menino transpôs a janela, correu na direção do lago e espantou o lobo. À beira da água, avistou a Lua a tremeluzir. Sedento, abaixou-se e bebeu feito um lobo. Súbito o mundo se cobriu de trevas. Apavorado, o menino sentiu náuseas. Como se tivesse engolido todo o fel do mundo. Contorceu-se e se pôs a vomitar restos de luas. No alto da colina, o lobo olhava para ele e o lago, como se entendesse de dores e desejos, como se pudesse impedir a tempestade e o desespero.
Junho de 2005.
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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Apresentação de Alberto da Cunha Melo (Urariano Mota)


(Alberto da Cunha Melo)

Pediram-me uma apresentação do poeta Alberto da Cunha Melo. Mas que posso eu fazer de mais eloqüente que copiar, humilde e em silêncio, trechos do seu “Oração pelo poema”?

“A cem quilômetros por hora
solto a direção do automóvel
para escrever alguma coisa
mais urgente que minha vida...

Trem-fantasma (Nilto Maciel)
















O maquinista, logo após o desastre, deu um grito, levou as mãos à cabeça, pôs-se a chorar e recostou-se a um canto da parede, sentando-se. Descuido? Imprudência? A locomotiva partiu da estação primeira já em alta velocidade e, num segundo, alcançou a segunda, a terceira, feito bala, apitando, sem parar em nenhuma estação. Quando o maquinista percebeu o perigo, não havia mais tempo para frear o trem. O precipício abria-se à sua frente, profundo, mortal. O homenzinho fez careta, arregalou os olhos: os vagões resvalaram, despedaçando-se no fundo do abismo. "Ó meu Deus!" Porém havia um consolo: nenhum passageiro havia subido aos vagonetes. E ajudantes ele nunca teve. Assim, nada de vítimas. Mais sossegado, enxugou as lágrimas e engatinhou até o primeiro pedaço do trem. Pôs-se a juntar um a um os restos do veículo. Olhou para cima, para a grande mesa da sala, onde o desastre teve início.
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quarta-feira, 13 de junho de 2007

Medeiros e Albuquerque (Anderson Braga Horta)


(Medeiros e Albuquerque)


De Medeiros e Albuquerque se pode afirmar muita coisa; nada, porém, que induza a idéia de ordinarismo ou acomodação. Responsável por algumas das primeiras sementes do Simbolismo entre nós, não se procure nele o contemplativismo de um Alphonsus; narrador e dramaturgo de talento, erra quem lhe suponha a pacatez de um Machado; cronista e tradutor, longe estava da fixidade geográfica de um Drummond, nada inclinado às viagens. Era um homem dinâmico, não apenas no terreno da criação literária; à sua agitada vida pode-se aplicar, sem exagero, o adjetivo esfuziante. Cheia de lances pitorescos, histórias rocambolescas de amores clandestinos, tramas e tramóias nos bastidores do poder, brigas, tiros de revólver (um deles, consoante suas memórias, após arranhar o braço da vítima... “caiu-lhe no bolso do colete”!), cabe-lhe como a poucos o dito “sua vida daria um romance”, ou “daria um filme”. O romance, ele o escreveu em parte (veja-se, por exemplo, o que diz no capítulo “Uma Ordem bem Obedecida”, de Quando Eu Era Vivo...); o filme, bem que o merecia.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Uma página de Robbe-Grillet (Nilto Maciel)




















Quando Jean Denis Lanson esteve no Brasil, o repórter Guido Mocho foi incumbido de entrevistá-lo para o Diário da Tarde.

Segundo o editor, só Guido poderia realizar uma boa entrevista. “Você sabe francês, e basta”.
O repórter quis se esquivar. Ora, não entendia nada de literatura. Quando estudante, havia lido meia dúzia de romances, sem qualquer prazer. Alencar, um chato. Machado, enfadonho. E sempre confundiu Manoel Antonio de Almeida com Joaquim Manuel de Macedo. A Moreninha e Memórias de um Sargento de Milícias lhe pareciam do mesmo autor. “E quem lhe disse que o homem é literato?”

sábado, 9 de junho de 2007

Falsificadores e canibais (Nilto Maciel)

















Florídio Mandrano deixou apenas um caderno manuscrito. A caligrafia é um primor. Nenhuma rasura. O texto, no entanto, é pura desordem. Como se sua mente estivesse em ebulição. Nas primeiras linhas tentou justificar o não ter escrito nada até então. Fala de medo da mediocridade e da imitação. E cita trecho do livro A Arte da Falsificação, do sueco Vilgot Sucksdorff: “Quem falsificou a Bíblia? Segundo Domitius Tacitus, o primeiro falsificador do Gênesis teria sido o apóstolo Paulo”.

Tacitus escreveu uns comentários ao Gênesis, em latim. O livro permaneceu ignorado durante séculos. Sua primeira tradução se deu em 1785, por Nikolai Tcherenkov. No prefácio, o tradutor russo afirma ter tomado conhecimento da existência dos “comentários”, ao ler uma carta de Karl Thorvaldsen a Hans Staden. Nela, o pesquisador dinamarquês anuncia a publicação de seu Os Canibais da Ilha de Java.

Um dos capítulos mais intrigantes do livro de Thorvaldsen, intitulado "Como devoravam crianças", traz a seguinte descrição: “O matador aproximava-se da vítima e desferia-lhe um golpe na nuca. Logo lançavam o corpo à fogueira. Ainda mal assado, retiravam-no e punham-se a esfolá-lo”.

Acusaram Thorvaldsen de falsificar Staden. Todas as informações constantes de seu livro teriam sido colhidas em Staden. Ou seja, transportou os canibais do Brasil para Java. Criativo, narra minuciosamente diversas cenas de canibalismo.

Ao final do caderno, Florídio cita o livro Fundamentos do Canibalismo, de Sándor Thököly. Nenhuma referência ao livro de Thorvaldsen. Há, porém, diversas citações de Staden.

Uma das idéias centrais do escritor húngaro associa o ato canibal ao ato sexual. Neste, o sujeito passivo da relação estaria sendo devorado pelo outro. Sobretudo nas relações não atinentes à procriação, como o coito anal e a felação. E cita o exemplo clássico da aranha fêmea, que devora o macho após o acasalamento.

É também de Thököly o polêmico ensaio Violência e Morte. Analisa o comportamento violento de animais e do homem. “A inteligência superior — diz — não impediu que o homem continuasse violento. Nesse aspecto, o homem moderno em nada difere do primitivo”.

Sándor Thököly foi vítima da violência humana. Assassinaram-no a facadas numa rua de Budapeste. A polícia nunca descobriu o homicida. Ou os homicidas. Já Florídio Mandrano foi devorado por um leão de zoológico.
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quinta-feira, 7 de junho de 2007

O corpo (Silas Corrêa Leite)



Ligaram da Santa Casa de Misericórdia de Itapeva. Que fossem buscar o corpo do Pai. Ele tinha morrido de madrugada, na véspera do dia em que iria ter alta médica. Ligaram e o mundo desmoronou. Estava morto o Pai: morremos um pouco também naquela hora. Deveríamos arrumar um carro com um amigo da família. O corpo do Pai músico estava inerte para sempre. O irmão caçula chamou logo um táxi. Romperam-se as lágrimas e uma saudade ainda não tocada. Minha irmã mais velha, Erzita, chefiou a operação de resgate e pranto e dor. E esperamos para velar o corpo.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Concórdia na órbita da Terra (Nilto Maciel)























(Quadro de Frans Post)



Salomão Morais foi o primeiro brasileiro a traduzir o De Orbis Terrae Concordia, de Guillaume Postel. Aliás, contam-se às dezenas suas traduções de obras antigas. Entre outras, citam-se O Mistério de Eva, Canção dos Nibelungos e A Morte do Rei Artur.

O homem como todo dia (Clodomir Monteiro)


(A cama, Toulouse Lautrec)


O homem que matou o diabo
dorme comigo como toda noite
pela manhã acordo de lado
lado esquerdo da cama me chama


antes e depois de mim amado
pelada a pele podas açoites
sem chifre e garfos fita me frita
falo direito beijo abandonado


carmim espelha por todo lado
menarca espalha sobras nas frontes
sem lucifer é o que mais grita
calo e bico bicos da mama


depois dois por fim ato macabro
ménage lobas rinocerontes
sem calda e caldo vindo me agita
falo caido sua dor derrama


se daimônia tem lugar na mesa
sobem comigo toda manhã
homenagem é ménage à trois
lado direito da cama me aninha




diatribe que o homem matou
dorme comigo como todo dia
hominida salva a inocência
lado torto que o lençol alinha

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segunda-feira, 4 de junho de 2007

Vers sans rimes (Nilto Maciel)
























Gaspar Barbacena conheceu Laurent Tailhade numa noite de 1894. Dias depois, um atentado anarquista quase matou o poeta francês. No ano anterior, Laurent havia defendido Vaillant da acusação de ter lançado uma bomba contra a Câmara. 

A ação de Farquhar em Santa Catarina (Enéas Athanázio)




 




Caminho longo e tortuoso

Embora publicado em 1964 nos Estados Unidos, depois de mais de quatro décadas de marchas e contramarchas, saiu no Brasil, em tradução de Eliana Nogueira do Vale, o livro “Farquhar, o último titã”, de autoria do historiador e brasilianista avant la lettre norte-americano Charles Anderson Gauld (1911/1977). Trata-se, segundo a crítica, da mais longa e minuciosa biografia do empreendedor norte-americano, nascido em York, Percival Farquhar (1864/1953), cuja vida está estreitamente ligada ao Brasil em geral e ao nosso Estado em particular, onde sua ação teve sérias conseqüências, até hoje sentidas em algumas regiões. O volume tem mais de 500 páginas, custou ao autor ingentes esforços e se fundamenta em bibliografia imensa, como costuma acontecer com ensaios biográficos americanos que esmiúçam o tema até o limite. Para chegar às mãos dos leitores brasileiros o livro percorreu longo e tortuoso caminho, merecedor de explicações minuciosas da editora e da tradutora. Publicado pela Editora de Cultura (S. Paulo – 2006), o livro contém interessantes fotografias e vários anexos que o atualizam e trazem novas informações sobre fatos posteriores, além de colocar um ponto final em algumas dúvidas existentes. Ainda que o autor não veja com simpatia nosso País, antes pelo contrário, é incrível que um livro dessa importância para nossa história só agora seja acessível ao pesquisador nacional.

domingo, 3 de junho de 2007

Rato sonâmbulo (Nilto Maciel)














O compositor Francisco Vitória viveu entre 1731 e 1800. Deixou pouquíssimas composições. Algumas sonatas, meia dúzia de árias, cantatas, concertos, fugas, fantasias, serenatas e uma sinfonia inacabada. A mais conhecida é a Sonata Sonâmbula para Violino.

A última consoada (Robson Ramos)

























Caía a tarde, entrava a noite. Ele permanecia sentado na cadeira de balanço, quieto, embriagado pelas lembranças, vagando pelos pensamentos. Acompanhava o cair do Sol e o correr de um pequeno rio. O fiel cachorro, que nunca o deixara só, permanecia deitado, igualmente quieto, apenas as orelhas se mexiam, vez por outra, para espantar os mosquitos.

sábado, 2 de junho de 2007

Pintando o sete na Bélgica (Nilto Maciel)





















(Esboço a lápis d'Os Pastores da Arcádia, de 1630, de Nicolas Poussin)




Há na “Casa de Benedito Moreira” uma escultura de Constantin Meunier. Consta, porém, ser do brasileiro a peça. Chama-se Homem cansado, e deve ser de 1891.

Na “Casa”, dirigida por Heloísa Moreira, bisneta do escultor cearense, estão alguns utensílios domésticos e objetos de trabalho usados e utilizados por Benedito. Sem contar esculturas e quadros tidos como de sua autoria. Os mais valiosos seriam uma estátua de Napoleão, um retrato de Darwin, máscara de Brahms. Os quadros parecem imitações de obras famosas. O mais estranho é copiarem pintores de todas as épocas: Hugo van der Goes e Grant Wood, Adriaen van Ostade e Toulousse-Lautrec, Hans Holbein e Paul Cézanne, numa miscelânea dos diabos.

O vinho branco (Belvedere Bruno*)



















Sentado na cadeira que pertenceu a várias gerações da família, faço o inventário de minha vida. O que fiz com ela? Percorri os caminhos que deveria, ou preferi atalhos? Aos noventa anos, já não tenho como modificar meus traçados, equívocos, rezas tortas...
Sozinho, miro o firmamento. O ser humano envelhece, se encarquilha, mas, se não houver a mão do homem, os cenários da natureza nunca se desfiguram.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Lampião à italiana (Nilto Maciel)


















Ruggero Figini descobriu o Brasil em 1974. Desembarcou na Bahia e logo tratou de conhecer o Pelourinho. Porém queria muito mais que acarajé e candomblé. Cobiçava um papel no filme Dona Flor e seus dois maridos. De preferência o de um deles. Procurou Bruno Barreto. Talvez estivesse no Rio de Janeiro. E Sônia Braga? Ninguém sabia dela.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

O afeto que se encerra (Ilídio Soares)

(Toulouse Lautrec)

Eu só quero lhe perguntar como é mesmo que eu durmo, como é a ponta da minha língua, a mesa, a mesa que eu lhe ofereço o café, o pão e a manteiga. Se eu bebo vodka, disso você lembra, mas quando digo que o seu tesão não me fura mais o ventre, ah isso é provocação. Você me faz parecer um pedaço de velha, uma filha de Maria, destroços de roupas atiradas sobre uma poltrona nauseada e azeda. Achando-me única, na verdade sou sua melhor invenção pra se livrar das beatas abnegadas por uma tal de paixão. Mas deixa eu lhe falar, o que entristece são os doentes, os suicidas, os atropelados pelos carros e toda uma coleção de insetos esvoaçando sobre as feridas em obstinada putrefação. Eu, meu querido, eu sou apenas o desvio do seu olhar, a sua cordialidade sem receio de ficar idiota e impassível. A certeza que não se enganou de quarto e saiu desembestado agarrando a hóspede pelo cabelo. Eu sou isso, sim senhor. A esposa que não se confunde com a cunhada, o cumprimento da madame com donaire de vadia, e que você insiste confundir com a mãezinha enervada esperando por você no alto da escada.