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sábado, 6 de outubro de 2007

O ponto de vista das sombras (Stélio Marras*)



(A propósito do livro Nó de sombras**, de Chico Lopes)


“Localizar o ponto inicial, o fundamento das sombras. Preciso de tranqüilidade, depois virá a clareza. Preciso entender ”. (Do conto Um corpo no rio, de Chico Lopes, p.36)

Pergunto-me que outro título poderia expressar assim tão fielmente esse autor. Para quem o conhece um pouco, saberá intuir o rendimento metafórico que as sombras lhe alcançam. O Cinema e a Pintura, duas das artes com que Chico divide a sua vida, ambas dependem das sombras como condição de existência. Isto é, a luz só é possível contrastada à sua ausência. Sem o jogo do claro-escuro não há cinema, as cores do quadro não se distinguem, não há imagem qualquer que se defina. Pois a literatura de Chico acusa o mesmo. Retomamos o claro e o positivo pela ótica induzida da sombra e do negativo.

Era inevitável que logo às primeiras páginas um feixe de relações se armasse e alguns escritos de Pedro Sanches, Coelho Neto, João do Rio e sobretudo de Jurandir Ferreira viessem agora fazer face à leitura dos contos de Chico Lopes. E percebesse que desse embate saía claramente destacado seu ponto de vista destoante sobre ocorrências de uma cidade então pequena – mas daí além. De fato, se muito do referencial provém de tudo aquilo que sentiu e observou em Poços de Caldas, o caso é que o filtro de Chico, seu tratamento dado à matéria da realidade sensível do cotidiano e as conseqüências alcançadas, levam sua escritura para bem longe de Poços. É quando aquele compartilhar físico com tal ou qual pessoa na espera do ônibus no ponto, experiência banal ou corriqueira, reaparece mais tarde, cotovelos à escrivaninha, quando a rua invade o quarto do escritor, e as impressões do dia irão transcender-se em personagens e fina literatura. Então, Poços, o ponto de ônibus e a tal ou qual pessoa desprendem-se de si mesmos. Mas também, e vice-versa, a escritura instrumentaliza-se e retorna à cidade submetendo aquela mesma notação da realidade micropautada a um diferente – original, talvez aterrador – exame.

Em Chico o ponto de vista é o das sombras. É daí que o mundo dá-se a conhecer. Aquela mesma cidade, já nem tão pequena, espraia-se em periferias, estende margens antes insuspeitas. Chico nos arranca do velho e aparentemente pacato centrinho e nos atira para as bordas – segundo a propriedade de quem, qual etnógrafo ou verve jornalística, a experimenta no dia a dia. De súbito, caímos noutro lugar. De volta, o que havia da imagem antiga já não permanecerá incólume. O deslocamento é a sensação forte que atravessa o leitor na leitura diagonal dos contos. Muda o foco, agora as sombras é que clarificam. O periférico ilumina o centro e denuncia que um não pode ser compreendido senão remetendo ao outro, como o imoral ao moral, a sandice à sanidade, a solidão a dada economia das relações sociais. O positivo é considerado na revelação do negativo. Mas o negativo é a posição de partida.
O argumento das sombras torna-se paulatinamente robusto à medida que penetra com semelhante e simétrica persuasão a escala psicológica e sociológica. A mais funda introspecção da experiência pessoal da personagem reencontra inteiro seu pólo coletivo. O fragmento funda a perspectiva da escritura e torna-se a chave interpretativa que submete e deriva o mundo. Por isso, em pouco tempo, o leitor nota que a temática é mais vasta do que porventura imaginara. O referencial do espaço (periferia-centro) replica-se na oposição sociológica (ser periférico-ser central) e adquire estatuto simbólico (impuro-puro, imoral-moral, perversão-culpa etc.), assim descolando-se da imanência empírica, de onde partiu, mas que pode voltar a ela e explicá-la, porém em escala muito mais abrangente. É quando aquele referencial restrito a dada coordenada tempo/espaço (esta de uma certa pequena cidade) transborda destes seus signos primeiros e passa a dizer respeito seja à periferia de grandes cidades, seja à periferia interna do ser psicológico. Entre as diversas dimensões – eis o ponto – resultam razões de continuidade.

Se o leitor seguir pari passu a analogia direta com a cidade (eixo possível, mas restrito, de leitura), terá logo de saída que lidar com a realidade de uma contradição e assentá-la no espírito. Todos aqueles traços de esgarçamento social, até então típicos de grande cidade – medo, desconfiança, solidão, terror – caem de chofre a arrasar qual imagem de um comunitarismo romântico da tida pequena cidade. Se tal imagem nem mesmo o gênio de Jurandir algum dia teve a inocência de esculpir, agora é que ela se tornaria sumamente anacrônica. Chico nos obriga a dar meia volta e olhar ao redor, reconhecer a existência dos mais de cem bairros de Poços de Caldas. De volta ao ângulo inicial, repito simbolicamente, o centro não será mais o mesmo.

Porque aqui já não é mais aquela vila de Jurandir Ferreira, com seus recatos de comunidade, a organização tradicional de pequenos agrupamentos, onde todos sabiam dos vícios e virtudes uns dos outros. Agora a vila cresceu, está repleta de anônimos. Mas cresceu muito mais, desproporcional, a dramática da coesão coletiva. Compare-se a experiência dos personagens por meio de ambos os autores:

“Desconhecidos? Haverá desconhecidos? (...) Ficamos os dois por ali a malhar o nosso arroz aéreo, longamente colhido. Voltamos ambos ao Palácio dos Dias Antigos e descobrimos novamente todos os seus prodígios e seus tesouros. Enquanto isso, em torno de nós desapareciam os arranha-céus, os grandes edifícios, o alastrado casario moderno. A cidade tumultuária como que, sob nossas evocações, se desfazia do peso de suas cargas de atualidade e reassumia os sorrisos e os perfumes da vila montanhesa, com ruas que eram ainda como estradas para carros de bois, enfeitadas pelos verdes do capim nativo e pelas borboletas que desciam do mato vizinho.” (Jurandir Ferreira, “O arroz longamente colhido”. In “A visita”, São Paulo, Ed. Do Escritor, 1977, pp.80-1)

Para este que nasceu em 1905 e agora via aquela cidadela expandir em prédios, ruas, “cargas de atualidade” com seus ruídos e seu “casario moderno”, lícito que seu personagem pergunte se “haverá desconhecidos”. Mas logo o arroz colhido dos Dias Antigos obra diminuir a distância entre os desconhecidos postos face a face, bem como o peso de atualidade do entorno, e enfim ambos se reconhecem mutuamente, pois provenientes de uma mesma semeadura. Não, malgrado os arranha-céus, não haverá desconhecidos. O outro ainda continua em mim.

Situação oposta é a dos personagens de Chico. Arrisco dizer que entre eles não há, como em Jurandir, algo como uma memória mediadora que unifique estranhos e assim rapidamente dilua o anonimato. Em Chico, o anonimato não é diluído, mas impelido a radicalizar-se. O tempo e o espaço são outros, e o Palácio dos Dias Antigos, quando insinua aparecer, apenas ressurge pálido e confuso, e nada funda ou semeia no presente das relações entre estranhos – nem mesmo dentro da família. Estamos na “faixa periférica” (“A fresta”, p. 108) da cidadela que não há muito tempo contava “15 mil habitantes” e que neste momento apenas “deixava entrever saudades do povoado,dos arrasta-pés”, do “fugaz sanfoneiro” (Idem, p.111). Um passado nebuloso rápido se esvai e somente resta amargar as sombras de existências resignadas, remediáveis, dramas introspectivos a pôr em curso perversões e egoísmos, revolver angústias e recalques, mas também – paradoxo aparente – criar perspectiva enormemente humana. Contudo, nada tece de coletivo, e o eu permanece “agulhinha”, solitariamente fiando retalhos com que visar o mundo.

“Aliás, eu também não gosto de ninguém, não me permito. Tudo bem. Imune, liso, funcional. Natural que a cidade se interesse tanto por mortos no jornal, os acidentes, os cadáveres em fotos minuciosas de primeira página: só vale a sensação forte, a discernível, a única perceptível numa ruína ontológica. Eu, agulhinha.” (Chico Lopes, “O quarto e a rua”, p.28).

O outro permanece estranho e inspira pavor, o “outro que se esgueirava entre gente na calçada” (“Do outro lado”, p. 58), os “tipos insondáveis que passavam sem boa-noite.” (“Do outro lado”, p.54), “os rostos que fluem, inúmeros, inúteis, ninguém que possa ser um amigo, nada que possa estar livre e da necessidade e do desencanto letais.” (“Uma das mil noites”, p.75). Neste mundo de mônadas incomunicáveis, o diálogo entre os personagens aparece sempre breve, ríspido, lacônico. A figura do mudo (“Nos fundos”) é por isso paradigmática da unidade do livro, é o emblema da ausência de comunicação e diálogo. Diferente de Jurandir, enfim, o anonimato de Chico apresenta-se irredutível. O outro me descontinua.

Figura recorrente entre os contos é a do pai distante, esquivo, rival; que por tal distância o ego-personagem surpreende-se simetricamente mais próximo da mãe, às vexes da irmã ou até mesmo do irmão, a sugerir a atmosfera do incesto, porque a aliança que se deveria encontrar fora de casa, o afim externo, tal não sucede, não sem traumas e bloqueios, cujas razões são exatamente provenientes da vida ensimesmada, socialmente mínima, econômica quanto possível, a vida seca (de um Graciliano que, não será por acaso, tanto impressiona Chico e lhe fornece metáfora). E porque a relação com o de fora (tanto da família quanto, no limite, do indivíduo) é tão dificultosa, o par alteridade/identidade acaba tendo que voltar-se para dentro (eis o mecanismo próprio da perversão), para as relações internas à família, e aí mesmo operar. É quando a consanguinização atinge níveis insuportáveis e explode.
É a “vida até aí talvez triste, mas cômoda” (“A fresta”, p. 114), dessa comodidade de contra-senso, porque apequenada, embrutecida, encerrada numa resignação claustrofóbica, que a pulsão sexual, esta porém incontrolável, sobretudo em meio estimulante como o nosso, por isso mesmo de súbito aflora violenta, homicida, suicida, mal sublimada, pervertida, mas também emancipadora. Coerente, pois seria de esperar que a afinidade com o de fora de casa sucedesse bem nesse mundo desconfiado e retraído, de migalhas materiais e afetivas tão disputadas? Ir buscar-se fora, nas ruas? Mas estão “as ruas povoadas de sombras que poderiam censurá-lo, interrogá-lo, barrá-lo “ (“O recado”, p. 129). Então eis que surge a prostituta (“A fresta”) a dar escape a sonhos surdamente tramados, seja pai seja do filho, a prostituta vizinha que quando passa faz a mal recatada filha-irmã “morder cobras” de repulsa e inveja. Pois então está a prostituta a ocupar o lugar possível e provisório de uma alteridade truncada nesse mundo em que o outro mais apavora que fascina. Por isso a prostituta, como sempre, está lá, à disposição, sem juízo de censura ou palavras de acusação, ela dispensa cerimônias e ritos relacionais, já que nesse mundo atomizado, solitário e nada solidário, imperam as relações secas e ariscas. Pois alguém haveria, de um modo ou de outro, que promover alguma troca de afetos, de fluidos, o irredutível impulso da troca para estas almas sedentas e estes corpos desesperados por contato. Então a prostituta, é ela o que de mais viçoso se destaca dentre aqueles da vizinhança – mas que por tal viço pagará seu preço (como aquela Geni de Chico Buarque).

“Deus, Deus, é sempre isso, sempre repetir? Todos fixos, todos erráticos, vão de sombras a sombras, adensando-se, e os saciados são igualmente tristes, vácuos que imploram. (“O quarto e a rua”, p. 30).

Vê-se que nem mesmo os “saciados” estão saciados. Ninguém escapa às sombras. Todo o tecido, por desigual que seja, apresenta-se igualmente corroído pelas traças que não conhecem limites de classe. Mas somente nos é dado reavaliar o positivo quando, pela mão de Chico, seguimos o encalço do negativo. É mesmo sua estratégia. A periferia ensina a ver o centro, porque só há um contra a existência do outro. Por isso seus heróis recorrentes situam-se entre os de baixo, seja na hierarquia etária e geracional (irmão menor/irmão maior; filho/pai), seja na de gênero (esposa/marido), seja na distribuição social de poder (desempregado/empregado; insuficiência de meios/suficiência de meios etc.) Segui-los é caminhar junto centímetro a centímetro o pavimento das sombras. Dialeticamente, contudo, é nessa mesma ótica sombria que reside a fonte imaginativa e luminosa de seus heróis (penso em Chico pensando nas tramas psicológicas dos filmes de Hitchcock, cineasta dos seus preferidos). Porque as sombras, a todo despeito, logram edificar mentes psicologicamente complexas, introspectivas, cerebrais, elaborativas. Dessas mentes é que se estendem as redes através das quais o mundo se arvora, ainda que frágil ou terrível. Delas é que floresce – como a rosa drummondiana no asfalto – um embaraçoso, mas coeso e pertinente, ponto de vista por meio do qual visamos o mundo, esta perspectiva dos que se sabem reprimidos, amuados, obrigados a sempre admirar. Instalados, pois, nesta posição observatória, os heróis se engrandecem soberbamente. Aparente paradoxo que se desfaz. Compreendo enfim que a miséria, talvez a pior delas, assombre muito mais os saciados, porque estes não sabem que intimamente já conhecem as sombras.

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*Stélio Marras é mestrando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e membro do corpo editorial da revista Sexta-Feira – Antropologia, Artes e Humanidades.
** São Paulo, Instituto Moreira Salles, 2000.

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quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Mea culpa (Nilto Maciel)

















Algumas horas após o cometimento do crime, familiares, amigos e vizinhos da vítima se dirigiram à delegacia de polícia da pequena cidade. Revoltados, gritavam, exigiam a imediata prisão do criminoso, ameaçavam invadir o prédio. Se o celerado já estivesse preso, que o soltassem. Queriam linchá-lo. A multidão crescia e a rua parecia em pé de guerra. Nenhum soldado aparecia. Passados alguns minutos, o delegado se aproximou da porta, aparentemente muito calmo. O povo urrava sem parar. Cadê o criminoso? Queremos fazer justiça! O homem pediu serenidade de ânimo e silêncio. E iniciou breve discurso. Meia dúzia de frases sem sentido, obscuras, incompreensíveis, como se falasse latim. Para encerrar, convidou as pessoas a se dirigirem à sua sala. Uma a uma ou casal após casal. Primeiro os pais da vítima. Fizessem fila. Dois minutos depois, o casal saiu, silencioso e cabisbaixo. E caminhou na direção de casa. A terceira pessoa voltou mais silenciosa e mais cabisbaixa ainda. E assim aconteceu com todos e a rua da delegacia voltou à paz de antes.

Passaram-se dias, meses, anos, e nunca mais na pequena cidade se falou do crime ou do criminoso. Na rua os cidadãos apenas se cumprimentavam, ainda cabisbaixos: bom-dia, boa-tarde, boa-noite. E voltavam para suas casas, calados.

Fortaleza, 24/25 de setembro de 2004.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O dragão (Anderson Braga Horta)





Eu levo um dragão comigo.


Outros têm um gato, um cão,
um passarinho, um lagarto,
um sapo, uma tartaruga
por bicho de estimação.


Eu,
tenho um dragão.


Se o dragão é meu amigo
não sei: ele me devora
mente, sonhos, coração.
Ele rouba o que eu escrevo
mesmo antes que o tenha escrito,
me embaralha os pensamentos,
faz sentir o que não sinto,
namora a mulher que eu sonho
e inda me chama de irmão.


Carrego um dragão comigo
como quem leva o seu cão.


Uns alimentam no peito,
a vida toda, um poema
ou qualquer outra ilusão:
capa de herói, luz de sábio,
halo de santa paixão.


Eu alimento um dragão.


Ele me esfola, me estripa,
me cospe fogo, me engana,
ah! e diz que é meu irmão.
Ele me mata! e é, no entanto,
quem me permite viver.


Eu tenho um dragão comigo,
meu irmão, meu inimigo,
meu sósia e minha abusão;
e ele sou eu, que sou ele,
e é meu verdugo e meu cão.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O perdão (Nilto Maciel)

















(El Velorio, 1972, de Carmelo Sobrino)


“– Tu agüenta mesmo um homem?”
Os anões, Moreira Campos

O anão chorava abraçado ao corpo da anã. Descontrolado, fazia a rede balançar, como se embalasse a morta. Uma vizinha entrou no casebre. Por que chorava o anão? Nem sequer olhou para a mulher. Outros vizinhos se aproximaram da porta da casinha. Meninos tentavam sondar o interior da sala e saíam correndo para o mar. Amanheceu morta, o coração parado. Pobre Lourdinha! Coitada, deve ter morrido dormindo. Melhor assim; não sofreu para morrer. O anão chorava sem parar. Acendessem uma vela. Onde arranjar vela? Uma mulher se esgueirou. Lembrava-se de um toco de vela em cima da mesa. Ia num pé e voltava noutro. Começassem a reza. O bater das ondas na praia cadenciava a reza. Ave-maria, cheia de graça. Trouxeram uma garrafa de cachaça. O anão recusou a bebida. Precisava chorar. Sua pobre Lourdinha havia sofrido muito. Não por causa dele, mas dos outros. Nunca nela bateu e ela estava ali como testemunha. Outros, sim, quiseram usar o corpo dela, tão pequeno, como de menina. Como aquele negro safado, anos atrás. Consolavam o anão. Bebesse um tiquinho para se acalmar. Ele voltava à rede, ao corpo da mulher. Ave-maria, cheia de graça. Acenderam o toco de vela. Ia ter caixão? Procurassem o padre na igreja. E se Lourdinha estivesse ainda dormindo? Costumava beber muito de noite? Nunca, nunca bebia. E como tinha sido a história do negro? Muitos anos atrás, quando ainda moravam num armazém abandonado, perto do Mercado Central, um homem arrombou uma das portas. Acordaram assustados. Na mão do bandido o relógio de ouro de Lourdinha. E o pior: o deboche, a perguntar se ela agüentava mesmo um homem. Não conseguia esquecer aquilo. Anos e anos passados e ainda assim a figura do negro aparecia diante dele, a resmungar imundícies. Depois daquilo, Lourdinha nunca mais foi a mesma, sempre nervosa, com medo de tudo e de todos, chorosa, querendo ir embora para bem longe. Uma casinha na beira da praia. Não rezavam mais, a garrafa de cachaça vazia e o toco da vela apagado. E o padre? Tome um golinho, vizinho. Não lhe pronunciavam o nome nem o chamavam de anão. Quem ia arrumar a defunta para o enterro? Súbito assomou à porta a figura musculosa de um negro. O anão arregalou os olhos, fez um esgar, rangeu os dentes, retesou-se todo. E correu para junto da rede e do corpo da anã. Os outros se afastaram para os cantos das paredes. O mar rugia feito um monstro em fúria. O visitante juntou as mãos, como se fosse rezar, e disse: vim pedir perdão pelo que fiz e trazer um relógio de ouro para a sua mulher.
Fortaleza, 10/9/2004.
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domingo, 30 de setembro de 2007

Poesia (Caio Porfírio Carneiro)




– Leu a minha poesia?
– Li. Leu a minha?
– Li. Linda, linda.
– Linda é a tua. Eu quase choro.
– Eu também senti um nó na garganta quando li a tua.
– Deixa eu te dar um beijo de agradecimento.
– Deixa eu também dar um em você.
– Quando é que a gente troca de novo outra poesia?
– Vou fazer outra pra você no fim da semana.
– Eu também.
– Então tchau.
– Tchau.
Caminharam, em sentido contrário, ao longo do quarteirão. Ela conduzindo a sacola de livros e cadernos do colégio. Ele também.
Ele chegou na esquina de cá, ela na de lá. Viraram-se. Ele deu sinal de adeus. Ela também.
O quarteirão ficou deserto.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A fila (Nilto Maciel)









Esbaforido, Luís se aproximou do fim da fila e se postou atrás de um homem. Ah! Se tivesse chegado antes! Mas o ônibus rodou devagar pelas ruas, repleto de passageiros. Meia hora atrás talvez encontrasse apenas vinte pessoas na fila. Tentou contar as cabeças: uma, duas, três... Homens e mulheres, cabelos negros, loiros e até brancos. Ora, o que faziam aquelas pessoas idosas numa fila para emprego? Melhor assim. Seriam eliminadas de pronto. A empresa não trocaria um jovem saudável e disposto a trabalhar dia e noite por um senhor grisalho, já sem forças, talvez doente, cheio de catarro, pernas bambas. Boa idéia para trocar com o homem à sua frente. Quem teria mais chance de ganhar a vaga: ele ou aqueles senhores de cabelos brancos? O homem virou a cabeça para trás: vaga de quê? Ora, do emprego de encarregado de distribuição de senhas. Não era isto que constava do anúncio no jornal? O homem não sabia de anúncio nenhum. E estava ali pensando tratar-se de quê? Luís olhou para trás. Mais de dez pessoas atrás dele. O mais próximo quis saber se a fila não andava. Queixou-se da demora do ônibus. Carros passavam diante da calçada. Luís coçava a orelha. Aquele barulho contínuo o deixava impaciente, nervoso. Nem sabia mais por que se chamava Luís. Às vezes pensava besteiras. As pessoas dentro dos automóveis olhavam para as filas como quem olha para as pernas das moças. O rapaz sorriu. Também se chamava Luís. Poderiam chamar aquilo de fila dos luíses. Eu sou o Luís I e você o Luís II. Quem seria o terceiro? E os outros também se chamavam Luís? E se fizessem a pergunta a cada um? Besteira! Luís II sorriu de novo. Carros passavam em disparada. Ao pé do meio-fio acumulavam-se pontas de cigarro, papéis rasgados e sujos, latas. Se o emprego fosse para gari? Luís I quis saber se o outro sabia distribuir senhas. A moça atrás de Luís II olhava atentamente para ele e para Luís I. Não havia tarefa mais fácil do que distribuir senhas, mas preferia não fazer nada. Como se chamava? Luzia da Silva. A mãe fizera promessa a Santa Luzia: se ela, a menina, nunca ficasse cega, a mãe jamais olharia para o Sol. Ela pagou a promessa? Não, e já morreu, a coitadinha. E você sabe distribuir senhas? Não sabia e não queria saber. Quando lhe entregassem a senha, entraria correndo no teatro. Há dias só pensava naquela peça. Quando chegava a vez dela, as portas se fechavam. Sempre assim. Mas hoje contava com a sorte. O homem à frente de Luís I se irritou. Parassem com tanta conversa besta. E saiu da fila, a gesticular. Pareciam doidos. Os luíses e a moça riram. Fosse então embora, deixasse a vaga para quem queria trabalhar. Fosse embora, deixasse a vaga para quem gostava de teatro. Luís II esfregou os olhos com as mãos. Por que a fila não andava? Ou o velório já tinha se encerrado? Quem morreu? O governador. Luís I arregalou os olhos e se retirou. Ia averiguar direito aquilo. Atrás de Luiza um rapaz falou em exposição de fotografias. Os jornais falavam em fotos de guerra. Luís se dirigiu a outro. Queria jogar numa loteria. Ou aquela não era a fila da loteria? Luís II e Luiza conversavam animadamente. Todos mentiam. Ou inventavam histórias para engabelar os idiotas. Riram de novo. Outros também riram. Luís I voltou para perto de Luís II. Sentia fome. Guardassem o seu lugar. Em quinze minutos estaria de volta. A moça falava de teatro e parecia num palco: To be or not to be, that is the question. Os carros passavam em disparada pela rua. A fila andava lentamente. Homens e mulheres pediam licença e furavam a fila: precisavam entrar na loja cuja porta não conseguiam ver. Luiza repetia Hamlet: Vamos, vamos, sentai-vos: não vos movereis, nem saireis daqui, sem que eu vos ponha aos olhos um espelho onde vejais o fundo de vossa alma. Houve vaias e aplausos. Luís I apareceu no meio da rua, entre os carros. Procurava Luís II e Luiza. Andava para lá e para cá, a fazer perguntas irrespondíveis. Onde se achava a moça do teatro? Riam dele. Correu em busca do início da fila. À porta um guarda impedia a entrada de quem não fosse chamado. Por favor, é preciso preencher alguma ficha? O guarda se irritou: procurasse o final da fila. Luís se exasperou e correu pela calçada. Chegou ao fim da fila. Quem viu Luís II e Luíza? Riam, respondiam com gestos, chamavam-no de doido. Voltou devagar, a olhar demoradamente para os rostos. Fila para comprar ingressos para o jogo de futebol. Andou, andou, andou, voltou ao guarda, recebeu ameaças. Fila para marcar consulta médica. Coçava a cabeça, puxava as orelhas, amassava o nariz. Ia ser entregador de senhas. Luiza surgiu do outro lado da calçada. Gritou por ela. Os carros passavam entre ele e ela. Luís quis atravessar a rua. Gritou por Luiza. Depois não a viu mais. Voltou-se de novo para a fila. E se fosse para o fim?
4/8/2004
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domingo, 23 de setembro de 2007

Os dez dias de Raimundo (Nilto Maciel)

















Meu único filho viveu apenas dez dias. Cheguei do laboratório há pouco. A morte dele ocorreu ontem. Os médicos da equipe científica responsável pela experiência exigiram de mim absoluto sigilo. Eu, no entanto, não cumprirei a promessa. Muita gente me chama de louco, mentiroso. Quase ninguém acredita na história desses dez dias. Mesmo quem viu de perto Raimundo. Mesmo quem acompanhou o seu desenvolvimento físico e mental em tão pouco tempo. Quem foi a mãe? Não houve mãe. Ele nasceu em laboratório. Ao nascer, deram-lhe leite e mo entregaram. Leve-o para casa e cuide bem dele – aconselhou o dr. Ângelo. Traga-o amanhã, para avaliação. Entregou-me também um manual de instruções. No capítulo relativo a unhas e cabelos lia-se: Cortar unhas e cabelos, três ou quatro vezes, somente no primeiro dia. A partir daí, unhas e cabelos crescerão tão pouco que somente no último dia de vida da criatura será preciso chamar barbeiro e manicura. Criatura é o nome dado pelos cientistas ao meu filho, o ser criado em laboratório. Deitei-o no banco do carro e corri para casa. Durante o percurso, jogou fora os panos e se pôs a pular no banco e balbuciar palavras. Coloquei-o no berço, fui tomar banho e almoçar. Durante este tempo não parou de gritar. Ao meio-dia se arrastava pelo chão da casa. Algumas horas depois, falava sem parar, corria para lá e para cá, chutava bolas, gritava. Pediu-me para ir à praia. Prevenido pelos médicos, havia comprado roupas e calçados de diversos tamanhos. Fomos ver o mar. Ele parecia acostumado às ondas. Nadou como um peixe. Regressamos no início da noite. Falava tudo, conversava sem parar. Vasculhou minha biblioteca e leu, em meia hora, alguns livros. Cansado, dormiu cedo. Também dormi cedo, preocupado com o rápido desenvolvimento de Raimundo. Cedinho voltamos ao laboratório. O dr. Ângelo nos recebeu sorridente, abraçou o menino e o conduziu ao consultório. Está muito bem – assegurou, após os primeiros exames. É como se tivesse dez anos de idade. Prepare-se para a adolescência, ainda hoje. No carro, o menino olhava através do vidro para as meninas nas ruas. Ria, piscava, mandava beijos. Seria aquele meu pior dia? Chegados à casa, o garoto abriu a geladeira diversas vezes. Sentia muita fome. Recebi um telefonema e passei quase uma hora em conversa. Dr. Ângelo me dava conselhos: saísse a passeio com o menino, viajasse para o campo. Para me libertar do médico, chamei Raimundo. Nada de resposta. Corri a casa em busca dele. Por onde andava o safadinho? Cansado de perambular pelas ruas, busquei o apoio do dr. Ângelo. Ele me deu sossego. O rapazinho andaria à cata de mocinhas. Voltasse para casa e aguardasse Raimundo. À noite ele voltou. Ele e uma garota muito bonita. Falavam sem parar, de paixão instantânea, amor sem fim. A barba dava-lhe ares de maturidade. A mocinha parecia não perceber nada, nenhuma mudança no corpo dele. Como se estivesse cega. Chegada a noite, dormi no sofá. Eles tomaram conta de um quarto. De manhã ele me contou, em segredo, ter passado a noite em conúbio com a moça. Hoje ela ainda chora a morte prematura do seu grande amor. Disse estar grávida. Será meu primeiro neto. E eu só tenho vinte e poucos anos de idade. Ao fim do terceiro dia ele saiu de casa. Não suportava mais aquela prisão. A jovem chorou muito. Tentei impedir tal aventura. Regressou dois dias depois, cabelos grisalhos, cansado, sujo, maltrapilho. Fui conhecer o sertão. A mocinha se apavorou. Não acreditou no que viu. Aquele homem envelhecido não poderia ser o seu belo Raimundinho. Deveria ser o nosso pai. Para ela, eu e Raimundo éramos irmãos, pois parecíamos ter ambos vinte anos, quando nos conhecemos, os três. Conduzi-a à biblioteca e contei-lhe a verdade. Ela riu de mim, chamou-me de louco, mentiroso. Só voltou a me ver no dia da morte de meu filho. No sexto dia levei-o ao consultório do dr. Ângelo. Sentia dores na cabeça. O médico não se mostrou preocupado. É assim mesmo. No dia seguinte levei o velho Raimundo para casa. Lia sem parar, falava esquisitices, andava pela casa, ia às ruas. No nono dia percebi a loucura instalada nele. Não me conhecia, não se lembrava de quase nada. Conduzi-o de novo ao doutor. Ele me segredou: Hoje ou amanhã a criatura morrerá. É como se tivesse cerca de cem anos de idade. Deixe-o comigo. A experiência está apenas começando. Eu me retirei e à noite fui vê-lo pela última vez. Já não vivia o meu filho. Eu, no entanto, não poderia retirar o cadáver. Raimundo não existira para o mundo. Nem nascimento, nem óbito. Uma experiência, apenas.
Fortaleza, 21/6/2004.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Os mistérios de Barcelona (Adelto Gonçalves)




Em Março, Barcelona surpreendeu-se com o lançamento do romance La ciudad sin tiempo, de Enrique Moriel. Em poucos meses, o livro vendeu cerca de 60 mil exemplares. E quem era Enrique Moriel? Na sobrecapa do livro, a editora informava que Moriel havia nascido no século passado em Barcelona e era autor de reconhecida trajetória, que havia cultivado os mais diversos géneros literários. E que, a exemplo do protagonista de La ciudad sin tiempo, havia preferido ocultar sua verdadeira identidade, mas que, à diferença daquele, não pretendia fazê-lo indefinidamente.
Logo, os meios culturais da cidade descobriram que se tratava de um veterano escritor disfarçado atrás de um pseudónimo. Francisco González Ledesma (1927) era esse escritor, um jornalista que começara a escrever romances de Far West para Editorial Bruguera com o pseudónimo Silver Kane ainda na década de 40, para custear seus estudos de Direito. E que havia construído uma respeitável carreira literária ligada ao gênero policial, ou melhor, ao "romance negro", à boa maneira norte-americana, dividindo a preferência entre os amantes do género com Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003) e Eduardo Mendoza (1943).
A exemplo de Montalbán com seu detective privado Pepe Carvalho e Mendoza com o seu detective-louco, Ledesma criou o comissário Ricardo Méndez, protagonista de seis de seus romances negros, policial capaz de usar apenas o tirocínio para desvendar crimes aparentemente insolúveis ou grandes falcatruas no mundo das altas finanças. Acostumado a escrever de um jacto desde jovem, quando para cumprir um exíguo prazo de uma semana ou pouco mais ajudava a editora a aproveitar a sofreguidão com que os leitores espanhóis do final da década de 40 acorriam às bancas de revistas e livrarias em busca daqueles livrinhos de bolso, Ledesma nem por isso sacrificou a qualidade literária. Tanto que, aos 21 anos de idade, ganhou o Premio Internacional de Novela com Sombras viejas.
Formado em Direito, dedicou-se primeiro à advocacia, mas, depois, optou mesmo pelo jornalismo, dando vazão à sua vocação. Trabalhou em jornais como o Correo Catalán e, em seguida, no tradicional diário La Vanguardia, onde ficou por 25 anos e chegou a redactor-chefe. Ambas as profissões acabaram por lhe proporcionar um conhecimento profundo de Barcelona, de seus segredos, suas personagens, suas ruas, edifícios, seus políticos e seu mundo empresarial.
Em 1977, publicou Los napoleones, romance que fora proibido pela censura do regime do general Francisco Franco Bahamonde (1892-1975). E, à época de transição do franquismo para a democracia, quando a Espanha não deixou de flertar com o retrocesso político, ganhou em 1984 o Prémio Planeta com Crónica sentimental en rojo, em que Méndez aparece como protagonista.Tendo o comissário ainda como personagem principal, escreveu mais cinco romances: Expediente Barcelona (1983), Las calles de nuestros padres (1984), La dama de Cachemira (1986), Historia de Dios en una esquina (1991) e El pecado o algo parecido (2002), além de Historia de mis calles (2006). Expediente Barcelona foi traduzido para o francês e publicado pela famosa Editora Gallimard, de Paris, conquistando um êxito na França considerado mais estrondoso do que aquele que registrara na Espanha Com um currículo desses, obviamente, Ledesma não tinha por que se esconder atrás de um pseudónimo. Mas, por alguma razão, deixou que o editor inventasse Enrique Moriel como autor de La ciudad sin tiempo, talvez por uma questão de marketing - o que, de certo modo, foi uma opção vitoriosa porque ajudou a chamar mais atenção para o livro - ou por que não queria que sua nova obra fosse confundida com o género policial. Até porque La ciudad sin tiempo, embora tenha traços de "romance negro" e trate de uma investigação que começa a partir da misteriosa morte de Guillermo Clavé, destacado prócer da sociedade barcelonesa actual, vai muito além dos limites em que, habitualmente, os críticos enquadram o género.
Seja o que for, a verdade é que Ledesma aprovou o pseudónimo, artifício a que, a rigor, já estava bastante acostumado, diga-se de passagem. O seu novo romance também remete o leitor para essa época, pois diz que concebeu a sua trama há mais de trinta anos, quando escrevia novelas de aventuras proibidas pela censura. De facto, o romance trai um pouco o gosto desse tempo, quando o realismo mágico começou a se formar como género literário, alcançando o ápice em 1967 com o lançamento de Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (1928).
Afinal, em La ciudad sin tiempo, o que o leitor vai encontrar é a história de um vampiro que, como tal, não morre nunca e, por isso, conhece a fundo os mistérios que cercam Barcelona desde os tempos medievais, suas personagens duvidosas, os segredos de seu submundo, os cafés, os prostíbulos, os políticos e até os verdugos. Em resumo, conta a história de Marta Vives, jovem ajudante do advogado Marcos Solana, que, habituado a defender os interesses das famílias mais ricas da cidade, trabalha no esclarecimento da morte de Clavé.
Durante a investigação, Marta não apenas lida com forças ocultas e que têm muito a ver com o sinistro, como acaba por se envolver numa luta de séculos que a sua família mantém com outra estirpe muito antiga da cidade, os Masdéu. Ao seu encontro, para ajudá-la a desvendar o crime, irá o vampiro, na verdade, um inquietante narrador surgido da Barcelona medieval, perseguido pela Inquisição, cujo rosto sempre aparece em momentos decisivos da história da cidade. Com esse artifício literário, portanto, Moriel (ou Ledesma) consegue reescrever, praticamente, toda a história de Barcelona.Marta e este espírito maldito vão seguir, em capítulos intercalados e marcados por uma mudança de fonte na letra que facilita a vida do leitor, por uma fascinante busca, em meio a luzes e sombras, em que se discute uma questão que atormenta a Humanidade há séculos: que provas há de que no combate entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo, ganhou o primeiro? Afinal, basta abrir as páginas do jornal desta manhã para se encontrar provas abundantes que indicam exactamente o contrário daquilo que as religiões pregam por séculos.
Nascido num prostíbulo, filho de uma prostituta, o vampiro segue uma trajectória clássica na literatura espanhola, que remonta à segunda metade do século XVI e a primeira do XVII, a época de Lazarillo de Tormes, Guzmán de Alfarache e de El Buscón. Não por acaso, como Lázaro, o vampiro também vira ajudante de um sacerdote que perdeu a fé e exerce muitos outros ofícios, inclusive, o de ajudante de verdugo à época da Inquisição. Mas transmuta-se em várias personagens ao longo dos anos por uma questão muito simples: um vampiro nunca envelhece, mantêm sempre a mesma cara, como descobre, intrigado, o advogado Solana, que se espanta com um rosto que se mostra invariavelmente o mesmo, em épocas distintas, ainda que assumindo outras personalidades.
Escrito em linguagem vibrante, que, praticamente, impede o leitor de saltar páginas em busca do desenlace da trama, La ciudad sin tiempo é também um hino de amor e ódio a Barcelona, pois resgata várias das personagens que construíram a cidade, inclusive, o arquitecto Antoni Gaudí (1852-1926), construtor da ainda inacabada igreja da Sagrada Família - hoje ameaçada na sua estrutura por obras de um túnel subterrâneo para o comboio de alta velocidade –, que aparece como fornecedor do rico antiquário Masdéu. Para o vampiro, Gaudí diz algumas frases antológicas, que merecem registro, ainda que em tradução: "Já não tenho amores - disse-me -, perdi os amigos e nem tenho nem poderei ter filhos. Mas desaparecerei e tudo isso não significará nada. Imagino, em compensação, o que deve ser a eternidade, vendo morrer tudo o que se amou: as sucessivas mulheres, os sucessivos filhos, os artistas que admirei e deram sentido a minha vida, as casas que guardam as minhas recordações... Ver tudo isso convertido em cinza. Essa é a sua desgraça, amigo. (...) Creia-me, a morte é piedosa porque não deixa ver os horrores da vida, nem os horrores de nossa própria obra. A imortalidade é o pior castigo que se nos podem impor, e me compadeço de Deus porque também a sofre". "(...) Não sei se Deus está satisfeito com sua própria obra. Crê que a deu por terminada alguma vez?" Por aqui se vê que esta é obra que merece ser traduzida para o português o mais rápido possível. Afinal, se estiver certa a previsão de José Saramago (1922) de que, em breve, iremos todos os luso-falantes viver num país chamado Grande Ibéria, a nossa Meca literária será, então, Barcelona.

(La Ciudad Sin Tiempo, de Enriquel Moriel. Barcelona: Ediciones Destino, 2007, 459 págs., 20 euros. http://www.edestino.es/)
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Para escrever a caminho do nada (Nilto Maciel)

























A pequena obra de Tácito Bonifante, intitulada “A caminho do nada”, pode ser considerada conto, embora alguns críticos tenham falado em novela, conto-novela, novo-conto e quase-conto. O drama principal envolve dois personagens: Agnelo e Beatriz. No entanto Agnelo se confunde com Beatriz, como se fossem um só personagem: “Agnelo saiu de casa ao meio-dia. Vestia paletó preto. Subia os primeiros degraus do patamar da igreja, parou subitamente, ajoelhou-se e gritou: Sou pecadora!” Segundo um professor de literatura, ocorreu aí um erro editorial ou um cochilo do escritor. Para outro estudioso, Agnelo é, na verdade, a própria Beatriz. Lembra este trecho do conto: “Nas noites de sábado ele se transforma. Não bebe álcool, não fuma maconha, mas em seus olhos se vê o brilho das estrelas novas.” Isto é, Agnelo, o cordeirinho, se veste de Beatriz, a que faz feliz alguém.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sobre contos de Emanuel Medeiros Vieira: “Nunca mais voltaremos para casa” e “Amor aos vinte anos” (Hamilton Alves*)

(Emanuel Medeiros Vieira)


Emanuel Medeiros Vieira com o conto “Nunca Mais Voltaremos para Casa” (publicado no Jornal da ANE, edição de agosto de 2007) revela-se como um dos grandes nomes da literatura catarinense da atualidade. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

O invisível Isaías (Nilto Maciel)

























Nunca vimos Isaías e muito menos o seu coelho. Um vizinho nosso nos disse: Isaías mora num sítio, cercado de galinhas, perus, porcos, cabras, bodes. Tenho muita vontade de falar com ele, conversar. Se isto não for possível, quero vê-lo. Imagino-o de barba branca, chapéu velho, mas bem cuidado, roupas limpas, sandálias ou alpercatas, um cajado. E, se não for assim, não vou me decepcionar. Papai anda aborrecido ultimamente. Talvez porque Isaías não aparece. Perguntei-lhe se Isaías ainda será menino. Ele olhou para mim com espanto e saiu resmungando. Fiquei mais triste ainda porque Natália riu na minha cara, como se eu fosse um bobo ou papai não gostasse mais de mim. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

“Ave, Palavra”, de Guimarães Rosa: os pássaros e o Sul de Minas(Chico Lopes)



 
“Ave, Palavra”, deve-se dizer de início, é para fãs de Guimarães Rosa. Dificilmente alguém que não tenha freqüentado um tanto do universo do escritor e amado cada momento de, por exemplo, “Grande Sertão: Veredas”, poderá gostar do livro e aceitar as brincadeiras de Rosa com a palavra.

domingo, 9 de setembro de 2007

Menino insone (Nilto Maciel)




















Vontade de falar com a mãe: não conseguia dormir. As sombras das redes nas paredes, nas portas, no guarda-roupa, no chão escondiam almas. A luz da lamparina bruxuleava. Súbito uma novidade: o irmão menor bota as pernas fora da rede, senta-se, levanta-se e caminha em direção a uma das portas. Para onde irá? Abre a porta e some no corredor. O menino quer falar com a mãe. Ela dorme e poderá se assustar. Melhor ir atrás do outro. E se ele também estiver dormindo? Muitas vezes lhe disseram: não se deve acordar quem anda durante o sono. Pode morrer. O menino permanece de olhos bem abertos, atento à luz da lamparina, às sombras, aos pequenos ruídos. Por onde andará o irmão? Terá ido ao banheiro? Possivelmente não, pois não abriu a porta para o quintal. Um ratinho corre pelo canto da parede. O pai ronca no quarto ao lado. Um cachorro late longe. Outros dão resposta. Será nos quintais ou no meio das ruas? O dia está para chegar ou falta muito tempo para clarear? Nenhum galo cantou ainda. E o irmão? Estará dormindo no chão do corredor, da cozinha, junto às baratas? O menino fecha os olhos. O rato deve ter sumido num buraco. Será profundo, raso, estreito, largo? Outros ratos habitarão aquele mundo de trevas. Lá não deve haver lamparinas. Quem as acenderia? Quem compraria querosene? E o perigo de incêndio! Não, não há perigo. Tudo é calmo, tudo é calmaria. Bichinhos são lindos. Coelhos correm pelo chão gramado da praça. Todos muito brancos, olhinhos arregalados, focinhos trêmulos. Queremos comer cenoura, seu menino. Onde vou arranjar cenouras, meus amigos? Então vamos brincar de correr. Não havia mais ninguém na praça, um ventinho soprava as folhas das árvores, os cabelos do menino. Chovia fininho. Um arco-íris enorme cobria a praça, a cidade, a serra, o mundo. Tudo colorido. O sol se escondia atrás de um monte alto. Passarinhos voavam e piavam no céu. Outros meninos corriam e brincavam na praça. O menino abriu os olhos. A luz da lamparina parecia se apagar. Silêncio absoluto no quarto. O pai não roncava mais. Na rede ao lado o outro menino dormia. Pareceu-lhe ouvir um galo cantar.
Fortaleza, 3/6/2004.
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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Calma, Meritíssimo! (Joanyr de Oliveira)

 
 
 
Ao Nilto Maciel

Dois destinos paralelos, a fluir no mesmo palco, cada qual com suas bem definidas características. Um puxando para a esquerda, o segundo para o outro extremo; um para o vermelho dos dramas e tragédias, da revolta e da dor, o seu oposto para o pleno azul em que a paz e a vitória predominam. Para que a distinção seja bem posta, sem nenhuma dúvida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O sonho esquecido (Nilto Maciel)

























Numa grande cidade viveram, há alguns anos, Moisés, Salomão e Daniel. Suas histórias estão registradas na memória coletiva de seus descendentes. E também nos subterrâneos, nas galerias de esgotos, nas catacumbas, no submundo em que viviam e onde vivem seus filhos e netos. 

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Brasília nasceu no mar (Emanuel Medeiros Vieira)



Documentos revelam que Brasília nasceu no mar. No final de 1956, Lúcio Costa (1902-1998) viajara para Nova Iorque para participar de um evento. Foi na volta, a bordo do navio argentino Rio Jachal, que Lúcio fez o que é considerado o primeiro esboço do Plano Piloto. Sim, pensou a cidade no mar. No dia 11 de março de 2007 fez 50 anos que o urbanista e arquiteto entregou o trabalho à comissão julgadora que avaliaria os projetos apresentados. Ele venceu o concurso do plano urbano de Brasília, "com um trabalho de feição amadora, sem um único cálculo.” Para muitos, "nascia ali o maior mito do urbanismo brasileiro". (Ver suplemento "Mais", da Folha de São Paulo, 11 de fevereiro de 2007).

domingo, 2 de setembro de 2007

Meu filho Matias Beck (Nilto Maciel)

























Estive em Amsterdã durante três dias. Na bagagem levei um dicionário inglês-português, português-inglês. Em Paris procurei dicionário holandês-português, português-holandês. Não o encontrei e viajei preocupado. No entanto, ao me encontrar com Jacob Komrij, meu tradutor e futuro cicerone, voltei a sorrir. Mal nos conhecemos pessoalmente (durante um ano trocamos cartas e conversamos por telefone), ele me presenteou um pequeno livro, um dicionário holandês-português, português-holandês, de sua autoria. Porém avisou logo: eu não iria precisar do dicionário em nenhum momento. Ele estaria comigo durante os três dias de minha estada em seu país. E já havia programado todos os minutos de minha vida: livrarias, jornais, televisões, as igrejas góticas Oude Kerk e Nieuwe Kerk, a Casa de Rembrandt, o Museu Van Gogh, os canais da cidade etc. Ao nos despedirmos à noite, após o jantar no hotel, combinamos encontro na manhã seguinte, às dez horas. Iria ao hotel. Dormi logo, embora pensando naquela aventura. Ora, quem diria, conhecer quase toda a Europa, em dois meses. E ainda ver de perto alguns de meus livros em inglês, francês, espanhol e até holandês. Sentia-me o verdadeiro escritor satisfeito consigo mesmo. Não digo orgulhoso, vaidoso, que isto não tenho sentido quase nunca. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

A exposição Malfatti (Enéas Athanázio)

(A lavadeira, de Anita Malfatti)

Comemora-se neste ano o 90º. aniversário da exposição pioneira de Anita Malfatti (1896/1964), um dos mais importantes eventos da fase pré-modernista no País, apontado mesmo como o seu marco inicial. Depois de ter estudado nos Estados Unidos e na Alemanha, sofrendo forte influência do que seria chamado “expressionismo” e das correntes de vanguarda européias, a pintora paulista abriu sua exposição em 12 de dezembro de 1917, na capital paulista, expondo 53 obras realizadas desde dois anos antes, além de pequena mostra didática de colegas americanos, tentando assim documentar a linha da arte moderna de então.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

O descanso do criador (Nilto Maciel)










E havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito.
Gênesis


 
O mágico chegou a Palma falando pouco e dizendo-se dinamarquês. Para facilitar a comunicação com os palmenses, escreveu numa folha de papel, em grandes letras, duas palavras: Egill Raunkiaer. E, rindo, apontou um dedo para o próprio peito.
As primeiras mágicas aconteceram imediatamente após a sua chegada. E só então o povo soube estar diante de um mágico. Egill se cercou de mais gente. A praça parecia em dia de festa religiosa.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

“Bolha de osso”: estética do inconcluso (Aíla Sampaio)



A Literatura pós-moderna tem como uma de suas principais características o ecletismo. Há espaço para todas as tendências: tradição e modernidade dialogam sem problemas, os gêneros se entrecruzam, legitima-se a pluralidade. Parte da geração 90, especialmente a da prosa, tem abolido o discurso linear e investido na fragmentação do texto, modelo que vem de experiências anteriores como as de James Joyce, Virgínia Woolf e Oswald de Andrade, entre outros transgressores em sua época. A tradição permaneceu ao lado dessas novas invenções. Nelson de Oliveira, no prefácio da coletânea Geração 90 – os transgressores, falando desse assunto, convoca o leitor a “deixar de lado a conotação apenas positiva do termo transgressão e meramente negativa de conservação”. Confirma, assim, a ampliação dos espaços para todas as tendências, ao dizer que tradição e ruptura são “forças equivalentes, ambas trazendo no bojo cargas igualmente positivas e negativas”. A esse respeito, Bauman diz: “Os estilos não se dividem em progressista ou retrógrado, de aspecto avançado ou antiquado. /... / Todos os estilos, antigos e novos, sem distinção, devem provar seu direito de sobreviver, aplicando a mesma estratégia, uma vez que todos se submetem às mesmas leis que dirigem toda a criação cultural, calculada – na frase memorável de George Steiner – para o máximo impacto e obsolência imediata”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Chão pintado de sangue (Nilto Maciel)













Há anos George Pinho escrevia umas prosas sem pé nem cabeça. E se regozijava com a cara de burrego dos leitores. Diziam não ter entendido nada. Ele ria muito e completava: o problema é seu. Mas se cansou de tanto rir dos outros e decidiu escrever contos urbanos realistas. Arranjava pretextos para passear pela cidade. Queria conhecer de perto os tipos populares, presenciar cenas do cotidiano. Anotava num caderno sinopses de histórias. Uma delas teria apenas dois personagens: um mendigo ou menino de rua, drogado, e um poeta popular ou panfletário. A ação se daria numa praça. Que ação seria essa? Que conflito ocorreria? Para encontrar as respostas, quase todo dia passava pela Praça do Ferreira, metia-se em lojas, lanchonetes, bancos, e, principalmente, andava de lá para cá, olhos e ouvidos atentos.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Poemas de Rubén Darío (Traduzidos por Anderson Braga Horta)

(Rubén Darío)




A JUAN RAMÓN JIMÉNEZ


¿Tienes, joven amigo, ceñida la coraza
para empezar, valiente, la divina pelea?
¿Has visto si resiste el metal de tu idea
la furia del mandoble y el peso de la maza?


¿Te sientes con la sangre de la celeste raza
que vida con los números pitagóricos crea?
¿Y, como el fuerte Herakles al león de Nemea,
a los sangrientos tigres del mal darías caza?


¿Te enternece el azul de una noche tranquila?
¿Escuchas pensativo el sonar de la esquila
cuando el Ángelus dice el alma de la tarde?...


¿Tu corazón las voces ocultas interpreta?
Sigue, entonces, tu rumbo de amor. Eres poeta.
La belleza te cubra de luz y Dios te guarde.




A JUAN RAMÓN JIMÉNEZ


Diz-me, jovem amigo, tens cingida a couraça
para a divina liça iniciar, valente?
Notaste se resiste o metal de tua mente
à fúria da espadada ou ao peso da maça?


Sentes que tens o sangue dessa celeste raça
que vida com o número pitagórico idéia?
E, como o forte Heracles ao leão de Neméia,
aos sanguinários tigres do mal darias caça?


Enternece-te o azul de uma noite tranqüila?
Escutas pensativo o sino que destila
badaladas pelo Ângelus, que diz a alma da tarde?...*


Teu coração as vozes ocultas interpreta?
Segue, então, o teu rumo de amor. Tu és poeta.
A beleza te cubra de luz, e Deus te guarde.




MARGARITA


¿Recuerdas que querías ser una Margarita
Gautier? Fijo en mi mente tu extraño rostro está,
cuando cenamos juntos, en la primera cita,
en una noche alegre que nunca volverá.


Tus labios escarlatas de púrpura maldita
sorbían el champaña del fino baccarat;
tus dedos dehojaban la blanca margarita,
“Sí... no... sí... no...” ¡y sabías que te adoraba ya!


Después ¡oh flor de Histeria! llorabas y reías;
tus besos y tus lágrimas tuve en mi boca yo;
tus risas, tus fragancias, tus quejas eran mías.


Y en una tarde triste de los más dulces días,
la Muerte, la celosa, por ver si me querías,
¡como a una margarita de amor te deshojó!




MARGARIDA


Lembras-te que querias ser uma Margarida
Gautier? Fixo em minha alma teu raro rosto está,
de quando ceamos juntos, na primeira surtida,
em uma noite alegre que nunca voltará!


Teus lábios escarlates de púrpura maldita
sorviam o champanha do fino baccarat;
teus dedos desfolhavam a branca margarida:
“Sim... não... sim... não...” – sabias que te adorava já!


Depois, flor de Histeria! tu choravas e rias;
teus beijos, tuas lágrimas minha boca provou;
tuas risadas, queixas, fragrâncias, possuí-as.


E numa tarde triste dos mais ditosos dias
a Morte, a ciumenta, por ver se me querias,
como a uma margarida de amor te desfolhou!






ITE, MISSA EST


A Reynaldo de Rafael


Yo adoro a una sonámbula con alma de Eloísa,
virgen como la nieve y honda como la mar;
su espíritu es la hostia de mi amorosa misa,
y alzo al son de una dulce lira crepuscular.


Ojos de evocadora, gesto de profetisa,
en ella hay la sagrada frecuencia del altar:
su risa es la sonrisa suave de Monna Lisa;
sus labios son los únicos labios para besar.


Y he de besarla un día con rojo beso ardiente;
apoyada en mi brazo como convaleciente
me mirará asombrada con íntimo pavor;


la enamorada esfinge quedará estupefacta;
apagaré la llama de la vestal intacta
¡y la faunesa antigua me rugirá de amor!




ITE, MISSA EST


A Reynaldo de Rafael


Adoro uma sonâmbula com alma de Heloísa,
que é virgem como a neve e funda como o mar;
seu espírito é a hóstia que em amorosa missa
alço ao som de uma doce lira crepuscular.


Olhos de evocadora, gesto de profetisa,
deixa ver a sagrada freqüentação do altar;
seu riso é o suave sorrir de Monna Lisa;
seus lábios são os únicos lábios para beijar.


E hei de beijá-la um dia com rubro beijo ardente;
apoiada em meu braço como convalescente,
fitar-me-á, assombrada, com íntimo pavor;


quedará estupefata a esfinge enamorada;
apagarei a chama da vestal intocada
e a faunesa primeva me rugirá de amor!




EL CISNE


A Ch Del Goufre


Fue en una hora divina para el género humano.
El Cisne antes cantaba sólo para morir.
Cuando se oyó el acento del Cisne wagneriano
fue en medio de una aurora, fue para revivir.


Sobre las tempestades del humano oceano
se oye el canto del Cisne; no se cesa de oír,
dominando el martillo del viejo Thor germano
o las trompas que cantan la espada de Argantir.


¡Oh Cisne! ¡Oh sacro pájaro! Si antes la blanca Helena
del huevo azul de Leda brotó de gracia llena,
siendo de la Hermosura la princesa inmortal,


bajo tus blancas alas la nueva Poesía
concibe en una gloria de luz y de armonía
la Helena eterna y pura que encarna el ideal.




O CISNE


A Ch Del Goufre


Foi numa hora divina para o gênero humano.
O Cisne antes cantava tão-só para morrer.
Quando se ouviu o acento do Cisne wagneriano,
foi em meio a uma aurora, foi para reviver.


Por sobre as tempestades de nosso humano oceano
se ouve o canto do Cisne; não se cessa de ouvir,
dominando o martelo do velho Tor germano
ou as trompas que cantam a espada de Argantir.


Oh Cisne! Oh sacro pássaro! Se antes a branca Helena
de um ovo azul de Leda brotou de graça plena,
sendo da Formosura a princesa imortal,


sob tuas brancas asas a nova Poesia
concebe numa glória de luz e de harmonia
a Helena eterna e pura que encarna o ideal




QUE EL AMOR NO ADMITE CUERDAS
REFLEXIONES


(A la manera de Santa Ffe)


Señora, Amor es violento,
y cuando nos transfigura
nos enciende el pensamiento
la locura.


No pidas paz a mis brazos
que a los tuyos tienen presos:
son de guerra mis abrazos
y son de incendio mis besos;
y seria vano intento
el tornar mi mente obscura
si me enciende el pensamiento
la locura.


Clara está la mente mía
de llamas de amor, señora,
como la tienda del día
o el palacio de la aurora.
Y al perfume de tu ungüento
te persigue mi ventura,
y me enciende el pensamiento
la locura.


Mi gozo tu paladar
rico panal conceptúa,
como en el santo Cantar:
Mel et lac sub lingua tua.
La delicia de tu aliento
en tan fino vaso apura,
y me enciende el pensamiento
la locura.


QUE O AMOR NÃO ADMITE PRUDENTES
REFLEXÕES


(À maneira de Santa Ffe)


Senhora, Amor é violento,
e quando nos transfigura
nos incende o pensamento
a loucura.


Não peças paz aos meus braços
que prendem os teus sem pejos:
são de guerra os meus abraços
e são de incêndio os meus beijos;
e seria vão intento
o tornar-me a mente escura
se me incende o pensamento
a loucura.


Minha mente se alumia
das chamas de amor, senhora,
tal como a tenda do dia
ou o palácio da aurora.
E ao odor do teu ungüento
te segue minha ventura,
e me incende o pensamento
a loucura.


Meu gozo teu paladar
rico favo conceitua,
como no santo Cantar:
Mel et lac sub lingua tua.
O dulçor do teu alento
em tão fino vaso apura,
e me incende o pensamento
a loucura.
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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Trapos (Nilto Maciel)



Tomás olhava para os carros em movimento. Trânsito maluco! Os motoristas dirigiam em alta velocidade. Agarrado ao volante, Gilberto nem piscava. Já se tinha acostumado àquilo. Dirigia em Brasília há quase vinte anos. E também no Rio, em São Paulo, outras cidades, estradas. Não apenas acostumado: não sentia nenhuma dificuldade em dirigir. O colega afrouxou o laço da gravata, coçou o queixo e se voltou para ele. Como as pessoas podiam se acostumar ao caos? Carro, o grande mal da humanidade. Se o homem não acabasse com o carro nos próximos dez anos, a vida ia ficar insuportável. Não falava apenas da poluição, porque os combustíveis usados hoje podiam ser substituídos por não poluentes. Falava do excesso de veículos nas ruas, dos engarrafamentos, dos atropelamentos, dos acidentes. Além disso, as pessoas não andavam mais, viviam dentro dos carros. Gilberto tentou falar. O outro aumentou o tom da voz. Sempre mais solidão, o isolamento das pessoas. Gilberto sorriu e levou a mão direita ao boné. Ora, não fossem os carros, seria muito mais difícil viver nas grandes cidades. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Seca: A estação do inferno (Dimas Macedo)


(Teoberto Landim)

A formação de um escritor de talento está ligada, indissoluvelmente, à capacidade por ele demonstrada de reduzir, ao plano literário, de forma continuada, obsessiva e sempre com ânsias de perfeição e aprimoramento, a dispersão do seu imaginário, dando-lhe unidade e sentido morfológico e polifônico.

Todo escritor que se preza é resultado desse desafio e dessa intermitência que se alojam nos recessos da sua vida interior. Já sustentei que a inspiração é um elemento secundário na perspectiva de um produtor cultural de estofo. Ela configura, às vezes, apenas um sinal ou pode expressar também um signo que o movimento das forças sociais coloca diante da realidade que se quer mutante em face de um mundo conturbado.

sábado, 18 de agosto de 2007

Restos de feijoada (Nilto Maciel)




















Depois do almoço, Alexandre dormiu. E logo se viu rei. Sim, rei de verdade, rei negro, rei ardente. Seu corpo ardia como nunca, mais do que nos dias de muito calor, de muita febre. Punha a mão no espaldar da cadeira real e logo os súditos gritavam: tire a mão daí, rei nosso, senão o trono pega fogo. Por onde passava, tudo se queimava. O chão se fazia vermelho, feito brasa. Ninguém ousava se aproximar dele. A rainha se esquivava a todo momento. Longe do pai, os príncipes corriam pelos campos, aos gritinhos. Alexandre se irritava com tanto medo. “Têm medo de morrer, desgraçados?” Furioso, agarrava até a morte os súditos mal-educados, mentirosos, impiedosos, desleixados, vaidosos... Aos prantos, os mais covardes se ajoelhavam aos seus pés, pedindo misericórdia. E mais ele os abraçava, ardorosamente. Amarrados pelos pés, os inimigos tremiam ao vê-lo. “Aproximem-se de mim.” Eles não saíam do chão, como se pregados. Os algozes os arrastavam. Os inimigos choravam, berravam, pediam clemência. Porém o rei os atraía e, vagarosamente, os ia queimando. Os inimigos viravam montes de carne assada. “Joguem tudo nas panelas. Hoje teremos feijoada para todo o reino.” Os cozinheiros do castelo haviam posto à sua frente panelões de água temperada. Para que isto, majestade? Para cozinhar os perversos, os maus, os inimigos do nosso reino. Fabricassem grandes caldeirões. Cozinharia todos os inimigos. Faria grandes feijoadas. Plantassem mais feijão preto, engordassem os porcos. Trouxessem feijão, água, toucinho, lingüiça, paio, orelhas e pés de porco, todos os ingredientes da melhor feijoada. E ria, gargalhava, bebia, enchia-se de cachaça, água, ardente como sempre. Súbito alguns de seus melhores amigos, conselheiros e parentes o agarraram e ameaçaram lançá-lo ao fogo ou dentro de um dos caldeirões. Iriam comê-lo com arroz, farofa e cachaça. E gargalhavam.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Diálogo entre Brasil e África (Adelto Gonçalves *)




Houve uma época, há meio século, apesar das dificuldades de comunicação de então e da ditadura salazarista que grassava, que havia maior intercâmbio entre os intelectuais do Brasil e de Angola, Moçambique e outras terras africanas em que se fala o português. Não acreditam? Pois leiam o que Salim Miguel, escritor brasileiro que anda na juventude de seus 80 anos, reuniu em «Cartas d´África e Alguma Poesia» (Rio de Janeiro, Topbooks/Academia Brasileira de Letras, 2005).