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domingo, 18 de novembro de 2007

A bicicleta (Nilto Maciel)




Sorveu Nivaldo a cerveja do copo e olhou para a pracinha. Meninos corriam, brincavam. Homens e mulheres, sentados às mesas do bar, falavam alto. Nas paredes, jovens seminus e esbeltos sorriam e mostravam garrafas coloridas. Mocinhas seminuas posavam em praia. Estirou as pernas debaixo da mesinha e virou a cabeça para a rua. Vendedor de picolés empurrava carrinho e gritava. Garotos atenderam o chamado. No tempo de milho verde o melhor talvez não fosse comer pamonha ou canjica. Às vezes a mãe cozinhava e assava espigas. Das palhas fazia petecas. Nivaldo e outros meninos jogavam nas calçadas e dentro de casa. Nas tardes quentes, irmãs e primas se balançavam em redes, cantavam e comiam batata doce. “Índia, teus cabelos nos ombros caídos...” “Meu primeiro amor foi como uma flor que desabrochou e logo morreu”. Dia de festa quando a mãe decidia assar castanhas de caju. Ora no próprio fogão, ora em braseiros no quintal. Das cascas das castanhas manava um líquido quente. Tostadas, eram retiradas do fogo e descascadas. Nivaldo sorria para os meninos na praça. Eles também riam, mas para eles mesmos. O vendedor de picolés gritava de vez em quando e se abanava com chapéu de palha. Nivaldo lambuzava os beiços de cerveja. Carros passavam entre a calçada e a praça. Na Palma do tempo das irmãs e primas a balançarem-se em redes apenas dois carros assustavam meninos, cachorros, jumentos: um jipe e um caminhão. O trem apitava longe e sumia detrás das matas. Nivaldo corria à janela e só avistava a fumaça. No dia da morte de Vargas (ou terá sido de outro personagem?) a cidade parecia silenciosa. Não, não havia silêncio. Rádios tocavam desde cedo música fúnebre. Nenhum menino na rua, nas calçadas. O sol se escondia atrás das nuvens. Mandaram-no à casa de um vizinho. Um velho, sentado numa cadeira de balanço, escarrava e cuspia numa bacia, a todo instante. A música inundava o ar de melancolia, morte. O chão frio, o silêncio, tudo cinzento. O mundo parecia próximo do fim. As portas da igreja-matriz fechadas. Pombos e passarinhos voavam para lá e para cá. À música fúnebre sucedia-se outra.
Nivaldo bebeu mais e mais. Na praça a vida fervilhava. A vida fervilhou ou fervilhava? E o cheiro de batata doce? Ia à janela, espiava a rua, queria sair, brincar. O sol, entretanto, de tão quente, o impelia a zanzar dentro de casa, descalço, nu da cintura para cima. E ouvir irmãs e primas no balanço das redes: “Índia, teus cabelos nos ombros caídos...” Por onde andava a mãe naquelas tardes? Talvez dormisse, sofrida. E os irmãos? Talvez matassem lagartixas no quintal. O pai certamente conversava lorotas na mercearia.
Homem de cabelos brancos arrastou cadeira e se sentou. Garçom dele se aproximou com lepidez. Uma cerveja bem gelada. Sorriram, como se se conhecessem há muito. Uma agora, outra depois. Nivaldo sorriu também. E levou aos lábios o copo. Nas paredes, mulheres e homens jovens, bonitos, seminus abriam sorrisos de dentes alvos e perfeitos e mostravam bebidas de variados nomes e marcas. Pela rua passavam carros em disparada. No horizonte, luzes e luzes brilhavam em postes, prédios, casas, em infindável tabuleiro de cores. Nivaldo mirou o perfil do homem de cabelos grisalhos. Talvez o conhecesse. De onde? Desde quando? Colega de faculdade, trinta anos atrás? E o nome? Arnaldo. Não. Cesário. Não. Fagundes. Também não. Mas o conhecia, sim, senhor. O outro o viu a observá-lo e franziu o cenho. Ora, ora! Sair para beber cerveja e ter de aturar um estranho a analisá-lo! Era pedir a conta e se retirar. Nivaldo chamou o garçom, em voz alta, e dirigiu-se ao vizinho: Você é de Palma? O homem quis se fazer de desentendido e virou a cabeça para um lado, a olhar para o interior do bar. Nivaldo insistiu na pergunta e só então o outro fitou os olhos nele. No entanto, Nivaldo queria contemplar a praça e ver os meninos. E quase se assustou ao avistar ao longe, como uma aparição, um corpo estranho em movimento. Vinha de longe para perto, no meio da praça. E era somente uma bicicleta e um garoto a se locomoverem lentamente.
***
Nivaldo deu três passos, parou ao lado de Venâncio e encheu de cerveja o copo do conterrâneo. Puxasse cadeira. Agradeceu o convite. Não ia perguntar a idade do outro, mas, pelas aparências, seria uns dez anos mais velho que ele. Venâncio se pôs a falar de Palma e do passado. Quando o pai lhe comprou uma bicicleta, sentiu-se muito importante. Nivaldo sondava os olhos do outro. Semelhantes aos de um rapazinho que um dia apareceu montado numa bicicleta. E nela se deu o seu primeiro passeio na garupa.
Nivaldo pediu licença para se sentar em outra cadeira. Gostava de olhar para a pracinha. Venâncio riu. Também gostava de praças. Sua família o queria padre. A idéia lhe parecia excelente, porque nascido e criado católico, ao lado de uma igreja. Lembrava-se dela? Nivaldo examinava ora a rua, ora os olhos daquele homem que não podia ser outro senão o rapaz de quase meio século atrás. Daquela bicicleta enorme, quase do tamanho de um burro. Coisa nunca vista na cidade. Cheia de adereços, fitinhas, buzina, farol. Quando crescesse, queria ter uma bicicleta como aquela.
Uma noite avistou de longe o rapaz na calçada, agarrado à bicicleta. Depois o viu montar nela e pedalar até a calçada de sua casa. Queria passear de bicicleta? Talvez estivesse caçoando dele. Queria ou não queria? Num minuto subiu à garupa e saíram pela praça. O jovem pedalava com suavidade, como se flutuasse. E conversava. Não falava da bicicleta. Fez a volta na praça, passou diante da igreja e se dirigiu a uma rua pobre. Acendeu o farol. Meninos corriam. Mulheres sentadas às calçadas. A bicicleta entrava em becos e vielas escuras ou semi-escuras. Com lentidão, como se nunca mais fosse parar. Tomasse cuidado para não aproximar os pés das rodas.
***
Venâncio pediu mais cerveja, beberam, conversaram. Nivaldo também chamou o garçom outras vezes. Na pracinha já não se viam os meninos a correr. Casais se agarravam nos bancos. Carros passavam diante do bar em disparada. Venâncio falava sem parar. Após alguns anos no seminário, decidiu seguir outro caminho. Viajou para São Paulo, onde viveu alguns anos. A bicicleta passou aos irmãos mais novos e nunca mais a viu. Os pais morreram velhos. Chamava o garçom, queria beber. Em dado momento, Nivaldo voltou ao sanitário e, ao regressar, não mais viu o outro. Chamou o garçom: Onde andava Venâncio? O rapaz sorriu: Seu Venâncio era assim mesmo; quando se embriagava, saía sem pagar e noutro dia saldava a dívida. Nivaldo permaneceu no bar. Talvez o outro voltasse para completar a história. Se não voltasse, beberia sozinho. Talvez surgisse outro cidadão de Palma. Trouxesse outra cerveja.
Nivaldo olhava para a pracinha. Aonde andavam os meninos? E a bicicleta com o garoto? Talvez dormissem. Sorveu mais uns goles da bebida. Por que Venâncio se tinha retirado, sem uma despedida? Teria se lembrado do passeio de bicicleta? Sentiu no estômago um peso. Não agüentava mais cerveja. Precisava ir para casa. Quis levantar-se, não conseguiu. Uma bicicleta parecia girar ao redor de sua cabeça, ora com sofreguidão, ora muito lentamente.
Fortaleza, maio de 2005.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Carnavalha, algumas impressões (Astrid Cabral)



Por sua complexidade estética, o último livro publicado de Nilto Maciel requereria um alentado estudo. Restrinjo-me, entretanto, às impressões de uma rápida primeira leitura. Quem conhece outros livros do autor não se surpreende pelo alto grau de consciência literária que orienta esta nova produção ficcional.
Em Carnavalha, o projeto literário logo se impõe. Ninguém se iluda com as frases curtas e desataviadas, o ritmo apressado. Assim como os arquitetos trabalham seus edifícios de tijolo e argamassa obedecendo à planta baixa inicial, os criadores de mundos verbais estruturam suas narrativas buscando equilíbrio e harmonia a partir de planos definidos de antemão. Afinal, ficcionistas da categoria de NM não se comportam com o descompromisso ingênuo dos contadores de história embalados pelo simples desenrolar anedótico. Escritores operam se pautando sempre pela construção de um sistema integrado e coeso, a palavra a serviço de um conjunto racionalmente previsto.
O tema do carnaval, tão caro e freqüente em nossa literatura, é desenvolvido neste romance a partir de uma seqüência de painéis, que guardam entre si obsessivo parentesco. A festa do carnaval na pequena cidade Palma vai avançando das tradicionais manifestações lúdicas do Brasil popular para uma carnavalização delirante, culminando com o desenlace de falso assassinato numa delegacia de polícia, a tragicômica morte e ressurreição do bêbado Zuza.
Os múltiplos e breves segmentos componentes do romance mantêm relativa autonomia e representam etapas mais reiterativas que progressivas. Isso imbrica na abolição do tempo narrativo direcionado para um fim, porque o que aí se enfatiza é a duração de um momento especial, o enredo feito à base de modificações bastante sutis. Embora a narrativa seja intensamente dinâmica, seu processo se repete de modo uniforme, sem encadeamento evidente de causa/efeito. Para isso também contribui o quase absoluto espaço público da ação. Note-se que tudo decorre praticamente na rua ou em praças, natural exigência do tema. Os personagens, que permanecem em casa debruçam-se às janelas ou trazem cadeiras para as calçadas, atraídos pelo eletro magnetismo do evento a céu aberto. (Disso se excluem as duas partes centrais do livro, as batalhas que se passam em outros locais e a série elaborada na perspectiva da visão da coruja/estrige, em que ocorre a substituição do espaço exterior pelo interior doméstico, ambos se sobressaindo de modo mais nítido a partir do contraste.)
Observa-se que no desenvolvimento do romance, o autor, arrebatado pela contemporânea hegemonia do visual, faz parcimonioso e conciso uso das palavras. Assim é que nos apresenta uma perspectiva cinematográfica, relatando ocorrências de caráter inteiramente exterior: aquelas que olhos captam, ou que ouvidos testemunham através de diálogos e monólogos. Os personagens surgem, portanto, privados da dimensão introspectiva fornecida pelos pensamentos, e são totalmente arrastados pela euforia carnavalesca, que não deixa disponibilidade à contemplação ou reflexão, tamanha a orgia dos sentidos convocados.
O não aprofundamento dos personagens os torna, em conseqüência, esquemáticos. E uma vez que estamos diante de uma infinidade deles, o enfoque do autor concentra-se no coletivo. Pode-se dizer que não existe hierarquia entre eles, e a habitual distinção entre protagonistas, antagonistas e secundários resulta praticamente imperceptível. Com mão de mestre, NM apresenta-nos um painel social bem desenhado, em que se pode inclusive detectar o conflito estabelecido pelos habitantes locais e o grupo de turistas vindo de Brasília, comunidades timbradas por seus diferentes centros urbanos.
A manipulação dos personagens em Carnavalha traz-me à lembrança outro importante romance brasileiro focalizando o carnaval. Refiro-me à Cidade calabouço, do mineiro Rui Mourão. Há nesse item alguns pontos de semelhança entre eles, pois a grande festa popular contribui para o sufoco das individualidades, dissolvidas que são na presença compacta da massa.
A meu ver, a grande jogada de Nilto Maciel é a introdução dos animais na categoria personagens. Palma, local geográfico da ação, por se constituir num mundo urbano ainda rústico, propicia, em viés realista, a presença e o convívio desses seres da natureza. Estes, porém, comparecem embrulhados pela magia das lendas populares e emblematizam com vigor o lado instintivo e primário do carnaval. A presença dos animais frisa o limiar entre o natural e o urbano e tal ambigüidade impulsiona o fluxo das fantasias pessoais do autor. Vejam-se as sete admiráveis batalhas travadas (com Boi da Cara Preta, Megalinha Choca, Cães Danados, Gato Borralheiro, Cabrão Pretinho, Pangaré Branco e Barrão das Lajes)
É deveras apreciável o intenso intercâmbio promovido pelo escritor entre o plausível e o implausível, o racional e o irracional. Nas partes centrais do livro (quarta e quinta), que poderiam até ser interpretadas como um parêntese de carnavalização na trama fundamental do carnaval propriamente dito, é onde mais se adensam as incríveis ousadias da imaginação emancipada do realismo. Beirando o non-sense, dá-se uma espécie de dança delirante nos fatos aí narrados. (Ressalta-se no meio destes a impressionante questão dos dentes). É como se o leitor tivesse nas mãos um caleidoscópio de cenas originais, eróticas e hilariantes. Cada uma delas introduzida pelo olhar da coruja, a sábia ave noturna, cuja função é revelar o que jaz obscuro e escondido em nossa absurda humanidade.
Antes de finalizar, comento de relance a intencional mestiçagem lingüística à que NM procede na fatura de Carnavalha, em total consangüinidade com o tema escolhido. Se o autor adota de preferência o registro coloquial com vocábulos e expressões populares, lugares-comuns, gírias etc., valorizando a presença do povão personagem, nem por isso abre mão da cultura de elite que lhe pertence como criador urbano. O livro é rico de rastros literários, não só os explícitos nas numerosas epígrafes, mas os que surgem camuflados testemunhando a forte presença bíblica, bem como as heranças cervantina e kafkiana.
Carnavalha é obra que condensa tanto realidade social quanto fantasia pessoal, assim expressando Carnapalma e carnavalma, significativos neologismos do autor.
10/11/07

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sombra não identificada (Nilto Maciel)








Humberto ligou a televisão e se sentou no sofá. Locutor falava sem pestanejar. Presidente da República viajava mais uma vez. O homem olhou para o ventilador. Pela janela, nenhuma brisa invadia a sala. Levantou-se. Avião caiu nos confins do mundo, com 120 passageiros. Acionou botão para acelerar a rotação das hastes. Vento, vento, vento. Objeto ou inseto não identificado voou nas proximidades da lâmpada presa ao teto. Voltou ao assento. Agricultores invadiam fazenda no Pontal do Paranapanema. Bandeiras vermelhas, gritos, foices. Cruzou perna, coçou nariz. Televisão precisava de limpeza. Poeira até na cara do papa. Sujeira nos quatro cantos da casa, nos quatro pontos cardeais. Cisco intrometeu-se nos seus olhos. Assalto a loja no centro da cidade. Locutor franziu cenho. Cenas de barbárie gravadas pelo circuito interno de televisão. Bandidos entram armados no estabelecimento comercial. Alguns fregueses conseguem fugir. Homem encapuzado aponta arma para consumidor idoso. Por más artes, a arma se dispara na cabeça do freguês, que tomba inerte. Bandidos recolhem em saco dinheiro da loja e fogem. Sombra de objeto ou inseto não identificado passeia aos pés de Humberto. Locutor reaparece para rematar a reportagem: o morto é Humberto Dias Tavares, aposentado, morador do bairro de Fátima, que havia ido ao centro comprar ventilador. Rosto do morto em close. Humberto se pasma. Morto? Como?, se via tudo: a televisão, a poeira acumulada nela, a sombra do objeto ou inseto não identificado, o ventilador, os próprios pés, o sofá, as paredes da sala. Põe-se a rir. Como a vida podia ser tão cheia de coincidências? Corre ao banheiro, mira-se no espelho. O telefone toca. Ajeita-se, alisa o nariz, penteia-se, volta à sala. O locutor falava sem pestanejar. Alô. Pai, você está bem? Muito bem, filha. A Sinfônica apresentará peças de Berlioz, Mendelssohn e Mussorgsky. O homem passa mãos na testa e nos cabelos. Deve ter enlouquecido. De novo a sirena do telefone, feito alarme de incêndio, tragédia. Da casa de Humberto? É ele mesmo. Você foi morto? O vento açoita as pernas do homem. A luz da televisão pisca. Soldados se matam no deserto. Presidente dos Estados Unidos fala de paz. Humberto desliga a televisão, se senta no sofá, alisa o queixo. Como pode ter morrido no assalto?, se via tudo com nitidez: o sofá, os próprios pés, a sombra do objeto ou inseto não identificado, o ventilador com as hastes em rotação acelerada. O que havia entre o teto e o piso? Entre o céu e a terra? Luz, insetos ou objetos não identificados? Sombras em movimento? Batem à porta. Humberto deixa o sofá, espanta a sombra do mosquito invisível e pergunta: quem é?
Fortaleza, abril de 2005

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

“Carnavalha”: Surrealismo e Carnavalização (Aíla Sampaio*)



“Carnavalha” é o 7º romance de Nilto Maciel, recém lançado pela editora Bestiário (Porto Alegre, 2007). O romance agrada o leitor a partir do trabalho gráfico apurado (o mesmo do livro anterior, a coletânea de contos “A leste da morte” (2006)) até a extensão dos capítulos, sempre curtos e nominados. A história se passa na cidade de Palma, no Ceará, espaço (imaginário) recorrente em livros anteriores, e o leitor fica suspenso no questionamento: a rotina foi modificada pela festa momina ou a cidade é um antro de loucos, que vivem o ‘carnaval’ permanentemente? Afinal, como diz o Zuza: “A cidade é cheia da fantasias. O Carnaval é o cotidiano” (p.147).
A narração faz desfilar uma galeria de personagens que surgem, desaparecem e ressurgem como num desfile de carnaval; o ritmo constante e denso dá a impressão da passagem ‘tumultuada’ de blocos carnavalescos, que é o que constitui, de certa forma, cada capítulo. O discurso do narrador, em 3ª pessoa, predominantemente no pretérito imperfeito do indicativo, um tempo que expressa um fato passado contínuo, coloca o leitor diante de acontecimentos passados, mas de incerta localização no tempo: tudo se passou e parece estar ainda se passando. A idéia de simultaneidade está presente, sobretudo, na quinta parte, quando os capítulos enfocam especialmente um personagem (ou um par), o que é reiterado pela alternância de vozes: o narrador fala e faz ecoar a voz dos personagens, por meio da mistura contínua dos discursos indireto e indireto livre.
Embora o Zuza apareça no início e no desfecho da narrativa, o enredo não tem personagem central – todos estão inseridos no mesmo enfoque delirante do narrador onisciente – a protagonista da obra é a própria vida. Os personagens aparecem invariavelmente submetidos a situações que transpõem a racionalidade, imersos num mundo surreal, que tem a sua própria lei: a do absurdo. Não há nenhum questionamento por parte deles sobre o delírio em que vivem; a transgressão da normalidade aparece como natural. Os acontecimentos que fazem o enredo estão, pois, libertos das exigências da lógica e da razão, vão além da consciência cotidiana e se expressam através do desvario: “Montado num dromedário, Aluísio passeava pelas ruas de Palma. Seguiam-nos outros dromendários, cavalgados por seus amigos de Brasília. Iam pela Avenida Dom Bosco, no rumo da matriz /.../ Súbito os animais se punham a correr pelas ruas, em desabalada carreira. “Sou Lawrence da Arábia. Vocês não me acham parecido com Omar Sharif?”. Aos gritos uma multidão de meninos corria atrás da caravana.” (p.125).
De fato, exatamente como preceitua o manifesto surrealista, “Carnavalha” rejeita “a chamada ditadura da razão e os valores burgueses. Humor, sonho e contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo a nova ordem, as idéias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas”. Essa filiação não está apenas no conteúdo, mas na própria forma: percebe-se que “o impulso criativo artístico se dá através do fluxo de consciência despejado sobre a obra”. Há uma ‘avalanche’ de situações que se sucedem, literalmente regurgitadas pelo narrador, e nenhuma obedece à lógica referencial. Vejamos outra passagem, quando o sagrado e o profano se colocam lado a lado: “Foliões invadiam a igreja, escancarando as portas laterais e da frente. Fantasiados, de roupas coloridas, pintados e seminus, gritavam, cantavam e pulavam. Maroca leva as mãos à boca horrorizada:”Padre, padre, veja que profanação!”. Porém os fiéis se misturavam aos carnavalescos e se punham a dançar, pular e cantar /.../ E então o pároco, acolitado ainda por Alzira, surgia às suas costas, não mais de batina, porém vestido de uma capa preta, chifres enormes, um rabo a balouçar, língua de fora /.../ Encapetado, o padre buscava Maroca e a encontrava ao lado do altar. Agarrava-a por trás e fazia menção de violentá-la” (pp.100-101).
Na sexta parte, os fatos surreais são interrompidos, e o bêbado Zuza volta às atenções ao perturbar, com a inconveniência e a sinceridade dos ébrios, conterrâneos e visitantes que brincam o carnaval. Durante o tão esperado baile no balneário, seu corpo aparece boiando na piscina. No capítulo “As Cinzas”, simbólico porque marca o fim do carnaval e o fim também do carnavalesco Zuza, todos são interrogados pelo delegado Pedro Cabral. O romance termina com a descrição do baile e a fala do Zuza, em cima do palco: “canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma, carvalha, canavialha, carnavialma, bando de canalhas, macacos, cambada de farsantes” (p.173). A orquestra pára, as luzes apagam e sons conexos e desconexos ressoam na multidão. Como no capítulo anterior sabe-se que o Zuza morreu, supõe-se que tenha sido esse o seu momento final. Nenhuma elucidação do crime, entretanto, é dada ao leitor: suicídio? Assassinato? O romance termina.
Além do imenso elenco de personagens, há uma infinidade de bichos e insetos que pululam o universo delirante de Palma: cachorros, dromedários, cavalos, onças, gatos, galinhas, baratas, aranhas, corujas, ratos, abelhas, todos nivelados ao homem na mesma aparente naturalização do irracional: “O gato miava, agigantava-se, fazia-se onça e saltava ao pescoço do estranho” (p.74) ”/.../ “Eu não entendo como pode um homem se entender tão bem com um cão e deixar de lado a cadela”. A da casa brincava: “Você não queria dizer a cadele?"Vicente se levantava e saía para a rua. Guiomar ia a seu encalço. A mulher corria à porta e se punha a imitar latidos" (p.78). /.../ “O cachorro se punha a latir e caminhava em direção à dona da casa, dentes à mostra. “Ou a senhora fica com ele, ou eu o mando morder as suas nádegas”” (p.85). Um mundo fantasioso se instaura e nada é o que aparenta ser.
Muitos intertextos permeiam a voz do narrador e dos personagens. São passagens de obras ou referência à Bíblia sagrada, a Sheakespeare, Hamlet, Dante Alighieri, Cervantes, letras de música, à carta de Pero Vaz de Caminha: “Alguns homens traziam os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau. Entre eles, cinco ou seis moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas. Traziam suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que mais pareciam meninas” (p.75). Aliás, a Carta está em todo o capítulo “As cinzas”. O nome do delegado é Pedro Cabral e o escrivão, ao datilografar os depoimentos, mantém uma cópia ao lado e fica a repetir passagens. O delegado, ironicamente, vive consultando um “Livro de ditados” e a cada depoimento desfere um como uma verdade irrefutável.
Fora das fronteiras do Fantástico, gênero tão bem exercitado em obras anteriores, “Carnavalha” é um romance ousado, subversivo da ordem e dos cânones tradicionais. O irônico se mistura ao trágico e ao cômico e cria um universo simbólico pleno de representações. Nilto Maciel demonstra total domínio do texto ficcional, autonomia e capacidade de brincar com as coisas sérias. Daí ser impossível ler “Carnavalha” e não referir, também, Bakhtin e sua teoria sobre a ‘carnavalização’ na obra literária. Embora na obra do Nilto o cômico esteja ligado ao trágico – há muito sofrimento, num desmascaramento das agruras da própria existência – nela o carnaval representa a festa dos loucos (festum stultorum) e predomina o realismo grotesco de que fala Bakhtin; há muitas imagens deformadas e exagero, há confusão e dissolução de identidades e a total liberdade de transgredir, inclusive a lógica. Entre o Surrealismo e a Carnavalização, Nilto Maciel escreveu um dos romances mais interessantes que li nos últimos tempos. Vale a pena conferir!

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*Aíla Sampaio, professora de Português e Literatura da Unifor e da SEDUC. Poeta, contista e ensaísta com dois livros de poemas: Desesperadamente Nua e Amálgama.
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sábado, 10 de novembro de 2007

Maneco, futebol e cerveja (Nilto Maciel)




















Morreu ontem Maneco, ou Manoel dos Santos Pereira. Há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna, poucas pessoas devem se lembrar do atacante. Aliás, há raríssimos registros de sua passagem pelos clubes cearenses e muitos dirigentes e cronistas chegam a negar a sua existência como jogador de futebol. No entanto, parentes e amigos são testemunhas de sua vida dedicada ao esporte. A viúva, Maria do Socorro Pereira, afirma ter ele vestido a camisa do Ferroviário em 1963, não sendo certo haver jogado no campeonato estadual. Nelson Silva, amigo de Maneco desde o ano anterior, nega as informações prestadas por dona Maria: “Nunca chegou a um time profissional. Jogava em times de bairros, principalmente do Benfica, das Damas, do Jardim América. Apesar disso, dominava a bola como poucos, driblava a torto e a direito, chutava com os dois pés, fazia gols de primeira”. Outro amigo do craque, Jonas Craveiro, mais velho três anos, lembra do dia da apresentação de Maneco ao Fortaleza, por indicação de um veterano do time. Infelizmente não foi aproveitado, motivo de desgosto para o craque. “Chegou a se embriagar durante vários dias, tão decepcionado ficou”. O historiador Rafael Macedo não nega as informações prestadas pelos amigos de Maneco. Pelo contrário, dá notícia da apresentação do jovem ao Ceará (talvez para se vingar da humilhação sofrida no time rival) e de nova decepção, pois nem sequer teria sido recebido pelo treinador. Jair Pereira, um dos filhos de Maneco, sabe de todas essas histórias e de outras. Segundo ele, o pai procurou todos os clubes da capital e por nenhum foi aproveitado. E é esta a razão de seu desgosto pelo esporte. O que fizeram ao seu pai não foi pouco. Segundo Perilo Duarte, outro amigo do falecido, a causa do fracasso do atacante só pode ter sido a bebida. “Desde muito novo o Maneco vivia na boemia. Eu, ele e outros amigos. Muita cerveja e futebol”.
Para Everaldo Silveira, amigo de infância do falecido, desde menino Maneco queria ser goleiro. Aos domingos, após as missas, realizavam-se jogos na Praça da Matriz de Palma. Pois Maneco não nasceu em Fortaleza, como muitos supunham, mas na pequena Palma. O “campo” lhe parecia enorme. No entanto, talvez não passasse de cinqüenta metros de comprimento. Apenas uma parte da praça. Os rapazes vestiam uniformes coloridos, calçavam chuteiras. Os goleiros se paramentavam de joelheiras e camisas de mangas compridas. Muita gente saía à rua para ver o espetáculo. O garoto achava tudo maravilhoso. Vem desse tempo sua paixão pelo futebol. Da noite para o dia, porém, os jogadores sumiram. Não havia mais jogos na praça. O prefeito ou o vigário devem ter proibido tais jogos diante da Prefeitura e da Matriz.
Maria do Socorro lembra detalhes da infância de Maneco, apesar de se terem conhecido quando jovens, em Fortaleza. O menino morou em três casas em Palma. Casas enormes, de tetos muito altos e chão de tijolo. Quando chovia ou o sol esquentava demais, jogava bola, com os irmãos, na sala ou nos quartos. Os chutes desajeitados levavam a bola para o forro de pano da sala. E nem adiantava cutucá-lo com vara. Nunca mais a veriam. A não ser quando algum pedreiro ou pintor fosse trabalhar, levasse escada e atendesse seus rogos. Ou quando o pai resolvesse trocar o forro. Mesmo assim, as bolas estariam endurecidas, mofadas, rasgadas.
A mãe tinha horror a bolas. Menos aquelas das cartilhas. Mesmo quando os filhos confundiam bola com bala. Então vinham castigos físicos ou de proibição. Três dias sem bola e sem bila. Ou três dias lendo bulas. Mas como viver sempre estudando? No quintal não havia lugar para jogos e brincadeiras. Somente árvores, plantas e animais domésticos. O gato caçava borboletas, a correr e saltar entre as bananeiras. As galinhas iam e vinham, a cacarejar, enquanto o galo passeava galante. Os porcos roncavam no meio da lama. As lagartas infestavam a horta.
Everaldo passa horas a falar do passado. Naquele tempo poucos garotos conheciam bolas de couro. Em compensação, todos tinham “bolas-de-meia” ou “bolas-de-pano”. A primeira denominação seria a do gênero; a segunda, a da espécie. De meia, porque o envoltório da bola era essa peça. Meia usada, furada, imprestável para o uso apropriado. O recheio podia ser de algodão, pano ou papel. Essas bolas não serviam para jogos em chão de terra. E menos ainda em dias de chuva. Os meninos jogavam nas calçadas. Quando não o jogo, os simples chutes de um lado para outro da rua. As paredes serviam de anteparo e, ao mesmo tempo, de linhas de gol. Às vezes dois garotos de cada lado. Um chute para cada “time”. Vencia quem fizesse primeiro de­terminado número de gols. Ao vencedor cabia, como “prêmio” (não seria “castigo”?), jogar, em seguida, com outro “time” ou jogador. Maneco se dedicava de corpo e alma ao futebol. Dedicou-se ao esporte como poucos. Apesar disso, há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna, poucas pessoas devem se lembrar do atacante.
Na calçada, o pequeno goleiro quase voava, em busca da bola-de-meia. Os outros garotos o elogiavam. E ele se enchia de amor-próprio. Sim, quando se tornasse rapaz, iria jogar no Fortaleza. Por muito tempo sonhou tornar-se goleiro profissional. Não conhecia ainda estádio. Não sabia o significado de um espetáculo esportivo. O sonho, no entanto, cedo se desfez, e de forma melancólica. Convidado a treinar num time de futebol-de-salão, engoliu numa tarde mais de sete gols. Um fracasso! Maneco não passou do primeiro treino. Chamaram-no de frangueiro, e nunca mais o convidaram a entrar na quadra. Não o convidaram, é certo, porém voltou muitas vezes a ele, para ver a seleção municipal ser derrotada por times de outras cidades. Nelson Silva desconhece o primeiro fracasso do amigo. No entanto, conheceu muito o atacante: “Nunca chegou a um time profissional. Jogava em times de bairros, principalmente do Benfica, das Damas, do Jardim América. Apesar disso, dominava a bola como poucos, driblava a torto e a direito, chutava com os dois pés, fazia gols de primeira”.
Lembra-se Everaldo daquele tempo como se hoje fosse. Às vezes ia à casa do amigo, para tirar dúvidas de português ou matemática. Porém Maneco não estudava muito. Na hora do estudo, recortava fotos de jogadores e times dos jornais e das revistas e as colava num caderno velho. Passou a gostar de outras fotografias: atrizes de cinema, animais, carros, cidades. Adorava fotos de cidades grandes. Os arranha-céus o fascinavam. Passava horas a catar restos de revistas no lixo. Num terreno ao lado das salas de aula do colégio dos Salesianos. Deviam ter pertencido aos alunos internos.
Havia um “muro” a separar os alunos internos dos externos. Aqueles vinham de outras cidades, sobretudo de Fortaleza. De famílias ricas. Os da cidade, eram quase todos pobres, filhos de comerciantes, funcionários públicos. Nunca os dois lados se misturavam. Brincavam em pátios separados. Até na igreja, construção contígua ao colégio, a separação se manifestava. Os bancos destinados aos internos se situavam na parte mais próxima do altar. Apesar disso, por algum tempo os alunos externos foram convidados a participar das brincadeiras e jogos de fim-de-semana no colégio. Entravam por um portão pequeno, que ia dar numa escolinha para crianças carentes, moradoras da periferia. Havia muitas mangueiras e o rio corria bem próximo a uma cerca. Os internos jogavam num campo grande, com traves, rede, uniformes, chuteiras, bola de couro. Os da cidade ficavam ao largo, chutando uma bolinha ou outra, junto aos meninos mais pobres. Para Maneco, a bola parecia excessivamente pesada. Nunca havia chutado uma bola de couro. Os pés só conheciam as bolinhas de meia. O capim molhado e alto feria os dedos.
Todo garoto de Palma jogava bola. E torcia por um time de Fortaleza. Essa torcida se manifestava também no jogo de botões. Futebol de botões. Cada menino possuía dois ou mais times. Os de Maneco chamavam-se Calouros do Ar e Gentilândia. Os irmãos se dividiam entre Ceará, América, Fortaleza, Ferroviário e Usina Ceará. A viúva do craque, Maria do Socorro Pereira, afirma ter ele vestido a camisa do Ferroviário em 1963, não sendo certo que tenha jogado no campeonato estadual. Não importa se vestiu ou não vestiu. Pois os irmãos de Maneco também não se tornaram jogadores profissionais. Quando os times de um deviam se enfrentar, convocavam um dos irmãos para manejar os botões da equipe secundária. Os campeonatos duravam poucos dias. Aconteciam diversos jogos por dia. A mãe gritava: “Vão tomar banho”; “Venham almoçar”. Os garotos perdiam a noção do tempo, entretidos com os botões, quase todos de paletó. De onde vinham, como os adquiriam? Talvez nos armarinhos. Raspavam as bordas a gilete. E cada botão recebia um nome de jogador. Maneco sabia de cor os nomes de todos eles. Servia de campo uma mala de madeira, antiga, de mais de meio metro de altura. E a bola? Ah, a bola não rolava, porque nada tinha de redonda. Deslizava, atingida pelo botão. Ou voava para o gol, levantada pelo toque sutil ou violento do “jogador”. A bola parecia uma miniatura de panela – uma tampinha de creme dental. A meta, a baliza, o gol, a trave media cerca de dez centímetros de largura, cinco ou seis de altura. Feita de madeira, trazia ao fundo um pedaço de véu ou tecido mais resistente, como se fosse a rede. O goleiro equivalia a uma caixa de fósforos, recheada de pedras.
Desde Palma, Maneco acompanhava transmissões de jogos pelo rádio. Ao se mudar para a capital, não perdeu o hábito. Parava diante das lojas, para ouvir as locuções radiofônicas de jogos, quando voltava para casa, à noite, vindo do Liceu. Caminhava até o ponto do ônibus de Joaquim Távora. Às vezes ia e voltava a pé, com os dois irmãos. Quando perdiam o horário do ônibus ou quando os estudantes saíam às ruas em protestos. Arrancavam os paralelepípedos das ruas Liberato Barroso e Guilherme Rocha, para impedir a circulação dos veículos. Com medo, os motoristas recolhiam os ônibus às garagens. Ou por ordem dos patrões. Quase ninguém nas ruas. As luzes dos postes mal iluminavam as vias públicas. Cachorros ladravam.
Em Monte Castelo, onde a família de Maneco morou pela primeira vez em Fortaleza, havia sempre quermesses, festas populares, religiosas ou simplesmente um alto-falante todas as noites a irradiar canções em voga. Nelson Gonçalves, com “A volta do boêmio”, não parava de cantar.
Jonas Craveiro chora quando lembra do dia da apresentação de Maneco ao Fortaleza, por indicação de um veterano do time. Infelizmente não foi aproveitado, motivo de desgosto para o craque. “Chegou a se embriagar durante vários dias, tão decepcionado ficou”.
Maneco foi sepultado no Cemitério Parque da Paz. Ao velório compareceram apenas os parentes mais próximos e dois ou três amigos e vizinhos.
Fortaleza, 9 de março de 2005.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Nilto Maciel: Próximo da Carne (Carmélia Aragão) [1]

























Ítalo Calvino, profundo conhecedor de “cidades invisíveis”, diz que as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa. Dessa forma, Nilto Maciel também edificou Palma no interior do Brasil. Já retratada em diversos contos e romances do autor, como Os varões de Palma (romance, 1994), A Rosa Gótica (romance, 1997), A última noite de Helena (romance, 2003), A leste da morte (contos, 2006) e Os luzeiros do mundo (romance, 2005), a cidade reaparece, nesse ano de 2007, no romance louco e lúcido, Carnavalha.
Agora é carnaval em Palma. A festa pagã, cujo sentido primeiro, após ser resgatada pelos cristãos na Antiguidade, significava carne levare, “afastar da carne”, porque então começava a quaresma, está impregnada na vida e na alma dos habitantes de Palma, unindo a carne e seus prazeres, sendo, ao mesmo tempo, protagonista e antagonista da narrativa, o ponto de convergência entre as histórias que se cruzarão ao longo das oito partes que compõem o romance.
Na primeira parte, intitulada "Palma Gira", o autor nos apresenta Zuza, o bêbado da cidade, que, no entanto, parece ser aquele que tem a visão mais lúcida do efeito da festa sobre as pessoas. “Tudo girava ao redor de Zuza: vira-latas, pessoas, casas, carros, carroças, árvores, passarinhos, nuvens, o Sol, as estrelas”. Os outros personagens se apresentarão na segunda parte, "O Desfile", título que não reporta apenas ao desfile carnavalesco, mas também à vitrine de uma gama de tipos e personalidades que se mostrarão na trama como as irmãs Maroca e Alzira, o médico Juarez e sua esposa Jacinta, Noé, Tavinho, Néo Bento, Rocilda e o marido traído, Viriato. Alguns querem fugir, como a condenar a festa, o comportamento apoteótico das pessoas, porém, ao colocarem suas cadeiras na calçada, ao abrirem as portas ou janelas de suas casas, já não estão mais a salvo do efeito “destrutivo” do carnaval.
A realidade de Palma é descrita em uma linguagem realista, crua, sem pudores: “Enquanto Dalva arrumava a cama, Néo Bento se dirigiu ao banheiro. Entrou, fechou a porta, deixou os chinelos ao pé dela [....] uma barata passeava ao redor dos chinelos... [depois] puxou a cordilha da bomba. A descarga de água provocou um redemoinho de fezes.” Mais adiante, a narrativa atinge um tom apocalíptico, no entanto, as palavras proféticas saem da boca dos animais como nas fábulas. Vale ressaltar que a fabulação faz parte de uma das principais características do absurdo utilizado por Nilto: “Súbito o barrão ergueu as patas dianteiras e se pôs a falar: ‘nada mais sujo do que o mais limpo, nada mais limpo do que o mais sujo’ E, voltando-se para Silveira, sorriu”.
Os paradoxos, como o sagrado e o profano, parecem unir-se em Carnavalha. São claras as intertextualidades bíblicas: a destruição de Sodoma e Gomorra, a tentação de Cristo, as trombetas do Apocalipse. Mas, afinal, as visões de Zuza seriam os prenúncios da desgraça, de sua própria desgraça? Seria um profeta ou um simples bêbado? “Zuza arregalou os olhos. Na torre, a coruja piava [....] corriam e zanzavam cachorros, gatos, galinhas, porcos, bodes... Uma profusão de animais nunca vista [....] e de todos os lados surgiram homens, mulheres e crianças,... furiosos, aos gritos, partiram contra os animais”.
Na contramão desse discurso alucinante, temos um escritor fiel às nossas raízes, fiel às descrições peculiares e psicológicas de uma cidadezinha do interior e seus tipos, assim afirmou Manoel Hygino sobre o universo de Nilto Maciel em seu artigo “Rebelião em Palma”, de dezembro de 2005, em Belo Horizonte: “O mundo imaginário de Nilto Maciel é rico em figuras raras, mas no fundo, localizadas e identificadas aí pelos sertões. É gente como qualquer outra, com as idéias mais comuns ou raras, claras ou birutas”.
Vale destacar que, da quarta à sexta parte, na forma dos antigos romances de fragmentos do século XVIII, o autor passou a colocar sob os títulos epígrafes de outros autores, porém, privilegiando os cearenses como: Francisco Carvalho, Moreira Campos, Carlos Augusto Viana, Dimas Macedo, Sânzio de Azevedo, Juarez Leitão, Natalício Barroso, Adriano Espínola, Batista de Lima, Márcio Catunda, Alcides Pinto, Virgílio Maia, Floriano Martins, Linhares Filho, Pedro Henrique Saraiva Leão e outros.
É importante ressaltar que Nilto Maciel detém uma vasta obra literária e que, há anos, é um dos principais divulgadores de nossa produção por todo o país com a revista Literatura, a revista do escritor brasileiro. Carnavalha, seu novo romance, demonstra também sua visão ácida sobre a nossa realidade, diríamos até, uma visão pessimista, mas que, ao mesmo tempo, retrata nossa essência festeira, como diria Zuza: “Podia ser carnavalma”.


[1] Carmélia Aragão faz mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC) e é autora do livro de contos Eu vou esquecer você em Paris, ganhador do III Edital de Incentivo às Artes (Secult).
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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Para que esses olhos arregalados? (Nilto Maciel)






















Arnóbio de Barros andava armado da cabeça aos pés: revólver amarrado à perna, outro na cintura, pistola junto ao peito. Maria de Fátima, sua mulher, devota de Nossa Senhora, rezava toda noite. Nenhum mal acontecesse ao delegado. No entanto, aconteceu. Ou quase se deu a desgraça. Homem assaltou loja. O comerciante tremeu e entregou dinheiro, relógio e outros bens. Os dois empregados não tugiram nem mugiram. O bandido fugiu. Para uns, usava máscara.
Quando se sentava atrás da mesa, Arnóbio pedia café, enquanto punha na gaveta as armas. Lambia as bordas da xícara e tirava os sapatos. Ligava para Fátima. Tudo em paz? E folheava autos. O crime da Rua Morgue. Não gostava de literatura, mas conhecia de nome alguns escritores. Predispunha-se a ler um ou outro, estimulado por colegas. Lesse O Processo, de Kafka. Não conseguia ir além da primeira página. Preferia alisar as armas, contar os projéteis, falar de crimes e castigos. Quando chegasse o retrato falado do bandido da luz vermelha queria ser o primeiro a vê-lo. Sim, senhor. Precisava ficar só e brunir as armas assinaladas com as letras AB. O ajudante, no entanto, deu meia-volta: o retrato do assaltante da loja... Arnóbio se irritava com frases compridas: trouxesse o retrato. Abrigou o revólver na gaveta e esperou a novidade. Passados dez segundos, o auxiliar abriu a porta e olhou para o governador aposto na parede, dois palmos acima da cabeça do delegado. Na xícara mosca lambia os lábios de Arnóbio. O governante parecia sorrir de tudo e de todos, das identificações, das informações, dos traços fisionômicos, dos bandidos, dos insetos, da polícia.
O delegado mandou o rapaz se retirar e abriu o envelope. Aquele rosto não lhe pareceu estranho. Voltou-se para o retrato do governador. Calçou os sapatos e se dirigiu à porta. Não o importunassem durante os próximos vinte minutos. Deu duas voltas na chave e retornou à cadeira. Pôs sobre a mesa o retrato falado: testa ampla, olhos arregalados, bigodinho preto, queixo redondo. Dirigiu-se ao banheiro e se postou diante do espelho. Se estivesse com uma das armas, daria um tiro naquela testa ampla.
Durante dias e meses Arnóbio dormiu mal, olhos fixos no retrato do assaltante da loja. E se arquivasse o inquérito? Fátima se retorcia na cama. Para que aqueles olhos arregalados? Para te ver melhor. Ela suspirava, como se rezasse a Nossa Senhora. Ele alisava o bigodinho, como se afagasse a pistola. Melhor incinerar os autos.
O tempo escorria pelos pés do delegado, abria e fechava a porta, trazia e retirava o ajudante. O tempo espantava as moscas da xícara, folheava autos, afagava armas. O tempo mantinha o sorriso do governador, apresentava retratos falados, comentava crimes desvendados e misteriosos. Até chegar o dia em que Arnóbio de Barros levou para casa os autos e o retrato falado do assaltante da loja e os queimou. Cortava o mal pela raiz. À noite, arregalou os olhos e viu a piedosa Maria de Fátima coberta de lençóis. Apalpou o queixo redondo, mirou as armas e abraçou com força a mulher.
28/2/2005
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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Caça e Caçador (Nilto Maciel)








Dias e dias seguidos Saul perseguiu com os olhos a pequena Raquel. Seguiu-lhe os passos pelas ruas. Quando se aproximava dela, havia sempre alguém por perto. Dava meia-volta e se metia na próxima rua transversal. No entanto, sabia onde ela morava. E quase todo dia se postava na esquina, olho na casa dela. Aparecia alguém à janela. Ele se zangava e se punha em retirada. Urgia apressar o bote. Talvez já o conhecessem naquela rua. Já reconhecia até o sorveteiro que empurrava um carrinho. Tanta sede, pensou em comprar um picolé. Não, o homem puxaria conversa, olharia para seu rosto.
Como um dia é da caça, outro do caçador, Saul finalmente conseguiu saciar o desejo. Horas depois a polícia saiu no encalço do assassino, a multidão aos gritos, armada de paus e pedras. Saul, contudo, andava longe do local do crime. E assim andou por longos anos.
Como um dia é da caça, outro do caçador, Saul terminou seus dias como animal pequeno nas garras de uma fera. Numa noite de bebedeira discutiu com outro homem, de nome ignorado. Saul não conseguiu se livrar do ataque e o outro desferiu nele diversas facadas. Antes de morrer, se disse arrependido do crime cometido contra a menina e sua alma voou até a presença de Deus. No mesmo instante a alminha de Raquel se aproximou do Supremo. Por que Saul se achava, se a estuprou e matou? Ora, pequena, ele se arrependeu de tudo. Além do mais, eu quis assim. Saul sorriu e caminhou para a menina, que tremeu e quis chorar. O Todo-Poderoso a tranquilizou. Não tivesse medo. Saul não lhe faria mal. “Aqui não há pecado; não há caça nem caçador”.
(14/2/2005)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A música (Nilto Maciel)








Após banhar-se e jantar, ligou a vitrola, pôs sobre o prato em rotação o primeiro disco do dia e levou a agulha à borda. Correu para a poltrona e se deitou. Quando cruzava os braços sob o pescoço, sentiu na cabeça uma dor. Não exatamente uma dor, mas uma sensação estranha. Ora, não se lembrava daquela música. Não a conhecia
Há anos, quase todo dia, praticava os mesmos gestos e sentia as mesmas sensações. Irritava-se quando a chuva deixava lento o trânsito de veículos e o impedia de chegar à casa na hora de costume. Mas diante da eletrola esquecia o incidente e desligava o telefone. Não queria ser importunado por ninguém. Se algum vizinho batesse à sua porta, pulava da cadeira feito uma fera, pronto a esmurrá-lo. Quando o sono chegava, desfazia todo o processo, lentamente, como num ritual. Punha os discos no final da fila, para voltar a tocar neles dias e dias depois. Apagava as luzes e se deitava, deliciado.
Naquela noite, porém, todo o seu modus vivendi começou a se esfacelar inexplicavelmente. Ora, como podia ouvir uma composição que não conhecia ou não constava em sua pequena discoteca? Alguém teria ido à sua casa e deixado aquele objeto. Quem? Um dos filhos, um primo, um amigo? Rememorou todas as visitas recebidas nos últimos dias. Olhou para a capa da gravação: nenhuma palavra, apenas um desenho. Não, aquilo não lhe pertencia. De quem seria, então? Passeou pela sala, dirigiu-se à cozinha, bebeu água, se irritou com a barata que se escondeu atrás do fogão. Ora, por que não escutar as outras músicas do disco? Pôs a vitrola para funcionar de novo desde o começo e se deitou na poltrona. Decididamente não conhecia aquela peça. Uma polca de Strauss? Talvez não. A segunda faixa lhe pareceu mais estranha ainda. E assim se deu por quase uma hora.
Na noite seguinte se postou diante da discoteca, certo de que era a noite de uns noturnos. No entanto, não os localizou. Teriam roubado aquela preciosidade? Quem seria o gatuno? Insultou filhos, primos, amigos. Bando de ladrões! No frenesi da raiva, não viu os noturnos ao lado do objeto desconhecido e se lembrou da noite anterior. Ora, por que não ouvir novamente aquelas músicas incógnitas? Um dia descobriria toda a verdade. Repetiu o ritual e aguardou o início da execução da primeira polca. No entanto, para espanto seu, não ouviu uma polca, mas uma valsa. Ora, ora, ora. Que significava aquilo? Sentiu medo, angústia, raiva. Ergueu-se e se postou diante da eletrola, olhos no disco a girar. Desvairava-se o homem, tremia da cabeça aos pés, febril, alucinado. Estaria louco? A música seria capaz de enlouquecer, mesmo os mais sensíveis, os mais tranqüilos, os mais sensatos seres? De onde surgira aquela valsa? Quem a gravara de um dia para o outro? Ou se tratava de outra gravação? Mas onde se achava a primeira? Correu à estante e, descontroladamente, se pôs a mirar e remirar um a um os discos. Não, não havia nenhum novo, apenas os antigos, os conhecidos, os Tchaikovsky, os Grieg, os Bach, os Haendel, os Listz, os principais clássicos, todos ouvidos repetidas vezes, cem vezes, mil vezes. Súbito inicia-se a “Dança Eslava nº 2”, de Dvorak. Espantou-se mais uma vez o homem. Restaurava-se a normalidade em sua casa, em sua sala, em seus ouvidos, em seu ser. O seu Dvorak reaparecia belo, pujante, perfeito. Aquela dança constava de um de seus Dvorak antigos. Seguiram-se obras ignotas, mas belas. Apesar disso, o cidadão não se tranqüilizava. De quem seriam elas? E por que a mesma gravação, o mesmo objeto, de um dia para o outro se havia transformado?
Nos dias seguintes o fenômeno se repetiu: as músicas eram sempre diferentes das composições ouvidas nas noites passadas, umas conhecidas, outras não. E o homem se foi acostumando àquilo. Passados alguns meses, tinha conhecido centenas de novas melodias. E isso o conformava. Pelo menos não precisava comprar mais discos nem escutar as mesmas obras, embora aqui e ali também ouvisse as mais conhecidas peças dos mais famosos compositores, tudo na mesma gravação. Pensou em procurar os jornais, as rádios, as televisões. Seria a mais fantástica reportagem. E se o chamassem de louco? Convocou os filhos para a confidência. Os rapazes saíram acabrunhados da casa do pai. Desistiu de dar publicidade ao fenômeno. Melhor permanecer em casa, calado, entregue à música, como sempre quis. Ouviria toda a obra musical composta até então. Coisa de que nenhum vivente seria capaz. Poderia escutar a peça nunca composta. E disso ninguém saberia. Somente ele, privilegiado ouvinte.
Porém um dia o disco desapareceu, sumiu, evaporou-se, com capa e tudo. E o pobre homem não soube mais o que fazer em casa, na sala, na cozinha, no quarto, na rua. Não soube mais o que fazer da vitrola, da poltrona, da geladeira, dos ouvidos. E desapareceu, sumiu, evaporou-se, sem deixar rastros nem notícia. E nunca mais se ouviu falar dele. Como se nunca tivesse existido.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O último do Gabo (Benilson Toniolo)




1.
Final de ano. Amigo-secreto em família.
- Alaor, o seu amigo-secreto quer saber o que é que você quer ganhar.
Acostumado com a pergunta que se repete todos anos –em casa, no trabalho, até entre os amigos semanais do boliche- ele não titubeia:
- Diz que eu quero o último livro do Gabriel García Márquez.
A esposa repete silenciosamente o nome, somente os lábios se movem, tentando não esquecer o nome do autor e pensando: Esse Alaor. Ele precisando de um cinto, uma cueca nova, sei lá, pede um livro.

2.
Na cama, antes de apagar a luz, três dias depois. Ela, em tom ameaçador:
- Alaor, você tem alguma coisa pra me dizer?
- Não, não tenho não. Por quê?
- Nada.
- Não, fala. Por quê? Que que eu fiz?
- Esse livro aí, que você falou. Qual é o nome?
- Qual?
- Esse que você quer ganhar do seu amigo-secreto.
- Ah, o do Gabriel García Márquez? “Memória de Minhas Putas Tristes”.
Silêncio.
- Então o nome é esse mesmo, não foi erro meu nem engano do vendedor?
- Não, o nome tá certo.
Silêncio.
- Tá. Deve ser muito interessante.
- Ah, sem dúvida. Não é qualquer Nobel de Literatura que anda lançando livro por aí. Além do quê, é um dos meus preferidos. Colombianozinho danado...
- Deve ser mesmo, pra escrever um livro com um nome desses.

3.
A mãe, em tom ameaçador:
- Deu pra pornografia agora, Alaor?
Ele, sem desgrudar os olhos do jornal e desinteressado:
- Por quê?
- Isto é livro que se peça, meu filho? Coitada da tua mulher, anda aí com minhoca na cabeça.
- Qual o problema, meu Deus? Só por causa do nome do livro? Besteira...
- Mas o livro é sobre o quê, afinal?
- Ah, mãe, é um livro de um escritor de quem eu já li quase tudo.
- E elas contam tudo mesmo?
- Elas quem?
- Ora, você sabe. Elas.
- As put...
- Não fala, Alaor! Não foi essa a educação que eu te dei!
- Não, não é nada disso. É sobre um homem que resolve comemorar a festa de seus 90 anos num bordel, junto a uma menina de 15 anos, e...
- Você depois de velho deu pra me dar trabalho.
Alaor volta ao jornal.

4.
- Quer dizer então que você é que é a minha amiga-secreta?
- Quem te disse?
- Sei lá, andou por aí em livrarias, atrás do livro.
- Nem me fale.
- Então, é você ou não é?
- Olha, Alaor, eu até nem queria mais fazer amigo-secreto. Mas não sou eu, não. É a tua mãe.

5.
- Olha, fala pra minha mãe que eu escolhi outro livro. Pronto, assim ninguém precisa passar vergonha na livraria.
- Excelente, meu amor. Tenho certeza que agora resolvemos tudo. Qual?
- Chama-se “Livro Sobre Nada”.
- Ou você está louco ou resolveu gozar o Natal da família.
- Mas qual o problema, pombas?
- Livro sobre nada, Alaor? Que que é, as páginas estão todas em branco? Olha aqui, depois que você começou com esse negócio de literatura ficou insuportável, sabia? Que saco!
- Que nada, é o último livro do Manoel de Barros. Poesia, sacou?
- Tá, saquei, mas quem não vai sacar nada é tua mãe, entendeu? Que coisa!

6.
Sábado á noite, depois do amor semanal. Ele ainda com o rosto enterrado entre os cabelos dela (ah, os cabelos dela...)
- Vem cá, será que não dá pra trocar de amigo-secreto?
Ela sorria, preguiçosa.

7.
- E aí, filho, gostou da bermuda que te dei?
Alaor sorria e balançava a cabeça, claro, daquela cor ainda não tinha nenhuma, mãe, a senhora é fogo mesmo, rárárá.
Alaor bebericava um Chianti escondido dos parentes que bebiam do garrafão que ele comprou no Supermercado. Afinal, podiam perceber que a cor dos dois é diferente e aí complicaria tudo. E pensava no embrulho estrategicamente escondido debaixo da árvore enfeitada, e que ele abriria avidamente depois que todos tivessem ido embora. Somente os dois sozinhos na penumbra da sala, sabe-se lá a que horas: Alaor e o último do Gabo.
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domingo, 21 de outubro de 2007

Livre-arbítrio (Nilto Maciel)










Um homem prenderam ontem. Acusam-no de violentar, matar e esquartejar meninos. Para o delegado, um caso sem precedentes, de horror. Familiares das vítimas choram e pedem pena de morte. Um dos pais anunciou vingança. Por outro lado, a mãe do monstro disse não ter mais como perdoar o filho. Da primeira vez a mãe o perdoou. José Pereira dos Santos, o assassino, havia sido condenado e preso por crime semelhante há alguns anos, tendo obtido liberdade recentemente. Ele pôs a culpa na fraqueza, na cachaça, na loucura, se disse arrependido e pediu perdão a ela. Agora, diante de tantas barbaridades, ela chora e afirma não poder mais dar perdão ao filho.
Quase sempre da mesma maneira agia o homem para atrair as crianças. A primeira vítima o criminoso encontrou próximo a uma padaria. Conduzia um pacote de pães. Saiu de casa, a mando da mãe, dez minutos antes. O homem o viu e o chamou. Convenceu a criança a segui-lo. Meia hora depois, a mãe se dirigiu à padaria e não obteve nenhuma informação do menino. O pacote de pães terminou em outras bocas, certamente. O corpo nunca localizaram. Por que José pratica tais crimes? O delegado faz discurso. Alguém fala de livre-arbítrio. Abre a Bíblia, lê salmos, provérbios, crônicas. “Não olharás com piedade, antes exterminarás de Israel a culpa do sangue inocente, para que te vá bem.” Agiu assim porque quis, por vontade própria. O delegado já decidiu: entregará o criminoso às feras, isto é, aos outros presos, para que também pratiquem o livre-arbítrio. Louvaram os pais das crianças assassinadas a decisão policial. Assim, o homem será violentado, morto e esquartejado na prisão, para que o livre-arbítrio se volte contra ele e tudo se explique e se justifique.
8/2/2005

sábado, 20 de outubro de 2007

Carnavalha: Novo Romance de Nilto Maciel (Francisco Carvalho)




De 1974 até agora, Nilto Maciel publicou dezenove livros de ficção e apenas um de poemas. O romance e o conto, conforme se pode observar, evidenciam as predileções do Autor, em seu longo itinerário de 33 anos nos domínios da literatura. Quem já leu seus livros de ficção terá notado, certamente, o cuidado do ficcionista na escolha dos nomes de seus personagens. Não seria nenhum despropósito pensar na elaboração de uma nomenclatura para todos esses figurantes que trafegam nas páginas de seus romances e histórias curtas. Zuza, Pedro Cabral, Eurico, Jesonias, Otávio, Noé, Alessandra, Cátia, Márcia, Aluísio, Orlando, Joice, Cida, Eleide, Cynthia, Ocelo e tantos e tantos outros que despertam a atenção do leitor para esse aspecto importante da carpintaria dos romances. Até os cachorros de Palma foram homenageados com apelidos que se destacam pelo seu ineditismo e originalidade: Alão, Brochote, Cafoto, Dentola etc.
O livro começa com a notícia da chegada de alguns rapazes e moças procedentes de Brasília. Eram funcionários públicos que vinham para as festas carnavalescas de Palma, cidade utópica criada pela imaginação de Nilto Maciel para o desenrolar dos acontecimentos do seu universo ficcional. Palma não deixa de evocar a legendária Macondo, palco das histórias fantásticas de Gabriel Garcia Márquez, em seu caudaloso romance Cem Anos de Solidão. Na página 15, o inusitado mostra o seu feitiço: “O galo cantou estridentemente. As galinhas correram, espantadas. Uma revoada de andorinhas encheu o céu dos quintais”. Só faltou acrescentar que ventos diluviais arrebataram crianças que sonhavam com os anjos enquanto dormiam.
A ficção de Nilto Maciel nos coloca no c entro de uma realidade fantástica, que nos leva às portas do surreal. Uma atmosfera de sonhos e pesadelos permeia as narrativas do romance. Seus capítulos, predominantemente curtos, exploram os conteúdos, sob perspectivas oníricas, das temáticas desenvolvidas no livro. Numerosos personagens contribuem com depoimentos pessoais para o desfecho das narrativas. Mas essa contribuição, eivada de contradições enigmáticas, paradoxalmente só fazem aprofundar ainda mais os mistérios em torno dos acontecimentos. A cidade e seus habitantes passam a impressão de atores de um filme de mistério conduzido por um diretor voluntarioso, que parece se divertir com seu elenco de fantoches.
Na página 96, uma sucessão de fatos provoca calafrios no leitor. Um dos gatos que farejam pássaros numa árvore começa, de repente, a crescer aos olhos de Jacinta. Enquanto outros felinos fugiam daquela visão aterradora, o gato assumia as proporções de um tigre, “abria a boca e avançava lentamente, ameaçador”. Juarez, marido de Jacinta, tentou dar cabo do animal, mas “a fera estraçalhava Juarez”. Como se observa, a leitura dessa narrativa exige do leitor um mínimo de conhecimento acerca do simbolismo de que se revestem certos aspectos do cotidiano. Pode-se afirmar, sem risco de equívoco, que o simbolismo está presente em grande parte da expressão literária do todos os tempos. E até mesmo nos atos mais rotineiros da vida das pessoas, sem que elas se dêem conta desse fato.
Em “Rodopio de moedas” (p. 97), Nilto Maciel volta a usar das mesmas estratégias insólitas para despertar a imaginação do leitor. A conhecida frase de Shakespeare (“Há muita coisa entre o céu e a terra a que não chega a nossa vã filosofia”) nunca foi tão justificada como nas páginas desse romance do escritor cearense. Suas narrativas são vertentes de onde jorram mistérios e enigmas da raiz das palavras. Bastou que uma ave fincasse “as unhas no telhado da casa de Quincas” para que fatos estranhos à lógica do senso comum começassem a acontecer entre Juarez e sua mulher. Moedas e cédulas, sacudidas por ventos misteriosos, vindos não se sabe de onde, caíam da mesa e espalhavam-se pelo chão. Tentavam alcançá-las, mas não o conseguiam. Como se mãos invisíveis os impedissem de tocá-las. Algo parecido com as artimanhas do diabo. Na tentativa de recuperar as moedas e cédulas, “Quincas estatelava-se feito um jarro de porcelana”.
A narrativa da página 27 evoca certas estratégias de Kafka. Da troca de palavras entre Gilberto, Jesonias, Aluísio e Orlando, fica-se com a impressão de que os personagens viajam no porão de um navio que fosse para a Atlântida ou, talvez, para a eternidade. A mesma densidade impenetrável envolve os diálogos obscuros. Lá pelas tantas, Gilberto produz esta frase de significado ambíguo: “Estou com viagem marcada para lá, numa expedição de alto risco”. Aluísio vomitava. “De sua boca saíam pequenos sapos, ratos, baratas. Gilberto se apavorava e também ia ao solo” (128).
Carnavalha não é, seguramente, livro de estrutura linear. Precisa ser lido com o faro de quem procura fragmentos de ouro numa peneira de cascalho. Todas as narrativas exigem leituras plurais, precisam atingir a profundidade das camadas estilísticas onde se encontram os veios simbólicos. A realidade desses escritos de Nilto Maciel é de outra índole. São realidades submersas que não se acham à flor da pele nem tampouco na superfície das palavras. Palma é uma cidade utópica onde criaturas utópicas fingem ter os mesmos defeitos e virtudes das pessoas de carne e osso. Ao leitor cabe decifrar os códigos desta linguagem que nos fala de um mundo possível para os que já nasceram condenados à morte. Ou por imprudência ou por todos os males a que estamos sujeitos. A única expectativa que nos acena é a certeza de que “Não se pode morrer na metade do quinto ato” de alguma peça de Ibsen.
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quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Caim e Abel (Nilto Maciel)
























(Abel e Caim, de Gustav Doré)



O pai de Caim e Abel não se cansava de elogiar o segundo. A mãe se irritava e saía em defesa do outro, como se elogios a um significassem censuras ao primeiro. Quando meninos viviam se atracando. Esmurravam-se por qualquer motivo. Chutavam-se feito cavalos. Sujavam-se nos lamaçais. O pai os punia severamente, mais a Caim. Dava-lhe surras demoradas. A mãe socorria o pobre filho. Nas brincadeiras e nos jogos, todos os gabos do pai iam para Abel. Cresceram como inimigos. Se Abel pretendia uma mocinha, Caim corria em busca dela, a falar mal do irmão. Se Caim se aproximava de uma jovem, Abel não sossegava enquanto não a fazia se afastar do outro. O pai sorria: o filho Abel se parecia muito com ele, até nas conquistas amorosas. A mãe ouvia aquilo irritada: Caim sabia cativar as mulheres.
De tanto se sentir ofendido, Abel passou a planejar vingança. Talvez afogamento no rio. O corpo de Caim apareceria inchado, roído pelos peixes. E se o atraísse para o alto do morro e o empurrasse? Noites e noites acordado, a sonhar o fim do irmão. Caim vivia então em constantes passeios noturnos. Possivelmente enrabichado por alguma dama. Saía de casa ao anoitecer e só regressava alta noite, às vezes de madrugada. Abel seguiu-lhe os passos, sorrateiro. Viu-o voltar sempre pelo mesmo caminho. Adquiriu uma arma de fogo. Daria o primeiro tiro nas costas. Caído o irmão, atiraria mais cinco vezes na cabeça, na nuca, nos pulmões, no meio da espinha. Fez tocaia durante várias noites. Caim parecia compreender o perigo, corria e chegava salvo à casa. Abel não conseguia disparar o primeiro tiro. Respiração quase a parar, as mãos tremiam, os olhos se enchiam de poeira. Mas finalmente viu o irmão se aproximar, todo contente, a assobiar modinhas. Detrás de uma árvore, Abel apertou o gatilho. A bala passou perto da cabeça. Caim correu e se meteu no mato. Abel se pôs a imaginar o que fazer. Iria atrás do irmão ou deixaria tudo para outra noite? Sentou-se. Talvez a bala tivesse atingido o desgraçado. Súbito um vulto apareceu, silencioso, lento. Nada Abel viu ou ouviu. Sentiu apenas uma pancada na cabeça. E tombou, o sangue a jorrar.
Fortaleza, 31/10/2004.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sintaxe do Desejo: Síntese da Poesia Visceral de Dimas Macedo (Aíla Sampaio)

(Dimas Macedo)

Ânsia visceral de mim
que a face me estrangula...
(“Espumas” p.42)

São raros os críticos que se mantêm fecundos produtores de textos literários. Dimas Macedo é uma das felizes exceções. Assíduo leitor, sobretudo da literatura local, escreve semanalmente um artigo sobre obras representativas, valorizando a arte de sua terra e levando ao público nomes muitas vezes desconhecidos. Sua disposição para a pesquisa, tanto na área do Direito quanto na da Literatura, rendeu-lhe publicações significativas que tiveram repercussão nacional: Lavrenses ilustres (1981), Leitura e conjuntura (1984), Ensaios de teoria do direito (1985), Lavras da Mangabeira – Roteiros e evocações (1986), O discurso constituinte (1987), Notas para a história de Alto Santo (1988), A metáfora do sol (1989), Ossos do ofício (1997), Tempo e antítese (1997), Martins Filho e Joaryvar Macedo (1998), A obra literária de Alcides Pinto (2001), Marxismo e crítica literária (2001), Crítica imperfeita (2001), Pesquisas de direito público (2001), A face do enigma (2002), Crítica dispersa (2003), Entrevista (2003), Décimas a Alcides Pinto (2003), Política e constituição (2003), Filosofia e constituição (2004), Bibliografia – roteiro para pesquisadores (2004), Ensaios e perfis (2004), A letra e o discurso (2006).
Como poeta, pode-se dizer que é um dos mais produtivos da literatura cearense contemporânea. Estreou em 1978, com Primeiros poemas, dois anos depois publicou A distância de todas as coisas, obra que marcou seu nome na história das nossas letras. Deu uma pausa para dedicar-se à carreira acadêmica e jurídica, e, em 1990, voltou à cena com Lavoura úmida; em 1994, lançou Estrela de pedra e, em 1996, Liturgia do caos. Mais uma parada, então para repensar sua trajetória, reeditou o segundo livro em 2001, e retornou em 2003 com Vozes do silêncio. Em 2006, ano do seu cinqüentenário, editou Sintaxe do desejo, uma coletânea que reúne seus mais antológicos poemas. Além de uma síntese de sua produção poética, esse livro é também uma celebração, um coroamento de sua trajetória (como poeta), quem sabe o fechamento de um ciclo.
Os textos selecionados representam um balanço do seu exercício na arte do verso, no transcurso dos anos de 1978 a 2003, marcos da publicação de seu primeiro e último livro (até então). O que se constata é a manutenção do mesmo universo temático e a estabilidade de seus procedimentos estéticos, sua criação consciente do texto como um trabalho de linguagem. Profundamente ligado às raízes, telúrico e sentimental, o poeta conserva na coletânea os principais poemas que louvam a cidade-mãe. “Lavras” (p.26) é o primeiro deles:

Longe daqui do tumulto,
lá no meio das coisas,
prostrada para o universo,
posto que existe,
Lavras é a cidade mais bela do mundo,
pois em cada rua
nasce uma saudade
que termina em meu corpo.

A exaltação da terra natal traz a voz de Drummond, em sua constante evocação de Itabira, mais ainda a de Caeiro: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia” (“O Guardador de Rebanhos”). É recorrente a crítica associar a poesia do Dimas à de Drummond, bem como à de Fernando Pessoa e seus heterônimos. A assimilação das leituras e a identificação temática e estilística está clara em “Ortônimo”, metapoema que norteia o espírito da criação macediana.
A última parte, “Dispersão”, traz ainda “Musa” e “Esfinge”, dois cantos de amor à sua Lavras, que, mais que cidade, é a imagem de sua infância: “Quando me lembro que nasci em Lavras, / a solidão de minha infância é tudo / e a expressão da existência é nada (...) pois as ruas de Lavras são paredes/ que se atravessam em mim como uma ponte.” Essa força que o liga ao passado, como as inquietações diante da existência, leva-nos a Cacaso (em “Lar doce lar”) “Minha pátria é minha infância / por isso vivo no exílio”. Há no homem um menino que guarda inexoravelmente sua infância e vive exilado de si mesmo, procurando o eterno retorno a um tempo impossível. Daí as perscrutações existenciais, a inquietação metafísica tão constantemente revelada em sua poética, o saudoso recordar (“Elegia”, p.36):

Lembro o meu pai
apascentando estrelas
e solidões
em tardes douradas
e a minha mãe
na sombra do alpendre
e olhos no algeroz.

A saudade, os questionamentos sobre a vida, o amor, tudo se transfigura em poesia. Ele mesmo disse, em entrevista ao Diário do Nordeste, por ocasião do lançamento de Lavoura úmida, em 1990, que “a Literatura é um lenitivo para o intelectual exasperado, mas é um lenitivo para quem busca uma resposta para a vida”. Com efeito, sua poesia é visceral, sangüínea, sua mais segura forma de sobrevivência e busca, como se lê em “Palavras” (p.39):

Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
Mergulho-me palavras.

A salvação do homem está na palavra. Sondando o enigma da existência ou levantando questões sobre o estar-no-mundo, o poeta lança um “Dilúvio” (p.30) de interrogações (aqui resumidas):

O que será esse mundo,
esses cosmos sem fim,
essa utopia?
Correm para onde, então,
essas filosofias?
(...)
Dai-me, Senhor,
conter em minhas mãos
o nada e o não-ser
e o desfazer de mim
a dor dessa introspecção.

Na solidão dos conflitos, o grito de angústia é indagação do mistério. O poeta pede a ajuda divina para livrar-se da dor de existir. A fé nesse Deus que “muda de residência”, mas “carrega a nuvem de seus passos”, é que o ajuda a “viver sozinho no deserto / buscando o amor / sentindo a esperança” (“Escudo”, p.110).
Em “Enigma” (p.66), é o tempo sua clausura. O vento, elemento do efêmero, aparece, em sua poesia, personificado. Se ele é a calmaria do tempo-espaço fundidos, é também seu confidente e cúmplice: “no centro da alma / há um castelo / no qual escuto / as confissões do vento” (“Ânsia”, p.79). A angústia diante do fugaz, bem ceciliana, é uma herança simbolista, e remete à busca de integração no cosmo, desejo de transcendência. Esse sopro simbolista está, inclusive, nos efeitos sonoros dos primeiros versos de “Metáforas”(p.46). “Ó conchas, ó conchas, ó formas”, onde se ouve claramente um sopro de Cruz e Souza, motivo do poema “Poeta”, de Vozes do silêncio (p.14): “João da Cruz e Souza: / eis o meu nome./Tenho a alma clara/ e de cintilações / é feito meu destino”.
A ansiedade de saber-se ou encontrar os sentidos da vida leva-o ao conflito existencial:

Porém a ânsia que sinto
é um conflito
muito maior
que a nave da existência.

A saída é a fé, como vimos no clamor ao Pai, ou a arte:

O mito de toda a existência é sempre a arte (“Lavragem”, p.37)
A arte: minha suprema realização (“Diário”, p.44)

A Literatura, sua arte por excelência, sem dúvida, é seu alento maior, como ele mesmo declarou em entrevista ao jornal O Povo, em outubro de 2006, na véspera do lançamento de Sintaxe do desejo:
“A literatura existe para substituir a vida, porque a vida por si mesmo não se justifica. A arte justifica a vida, porque a vida precisa ser reinventada e ela é reinventada fundamentalmente pela palavra. A palavra cria, a palavra transforma, a palavra liberta”.
Exercitando redondilhas, sonetos ou versos livres, Dimas mostra sua preocupação com a morte, mas não a coloca como centro de sua poética, talvez porque entenda que “O aprendizado da morte é a existência (...) (e) o sentido da vida é a suspeita/ de que a morte é a simetria de (sua) liberdade” (“Poética” p.68). É ainda o amor o seu estro, uma vez mais e sempre, celebrado de forma silenciosa, platônica:

As horas,
um amontoado de saudades,
minha idéia a encontrar-te
é como uma voz interior a ter-te.

Mas é irreal,
e o meu sonho, um sonho,
fundido com a minha angústia
como uma tarde sem horizontes.

Esse amor-falta, em outros versos, adquire carnação e torna-se erótico, até dionisíaco. Em “Banquete” (p.45), poema demais sensorial, há um rito na consumação do amor:

Entre ostras e pêssegos eu bailo
e bêbado
beijo o frutal de tuas algas.
Entre aspargos e vinhos
advinho o apelo de teus lábios.
(...)
E te possuo entre ostras e aspargos.
Entre vinhos e pêssegos eu te consumo
e te presumo mar absoluto e furioso.

Igualmente ocorre em “Frutos” (p. 81), poema sensual e bastante sugestivo:

A carne é fraca
e os frutos
maduros
são ditosos.
Apetitosos
os seios de Aline
na varanda
e as rosas brancas
no corpo de Marcela.

O amor-erótico se espraia em forma de desejo, no poema “Concha” (p.28): “Quero a louca / lâmina / da minha fantasia/ pastando no teu sexo” e se plenifica em “Casulo” (p.52), a mais bela peça romântica do livro:

Te amo sobretudo os lábios
e a resina viscosa dos teus seios,
pois a vulva dos teus olhos enlaça
a sedução invisível dos meus pelos,
onde começo a viver e me embaraço,
porque me mato de amor quando te vejo.

Já em “Ausência” (p. 69), o poeta recusa o amor-sofrimento e celebra o amor-vida, confirmando a doação plena e o desejo de felicidade:

Não. Eu não me quero o suicida
que despenca do alto da torre.
Eu me quero vida para te ofertar rosas
e te colher a plenitude de espigas maduras.

Dimas tem a poesia como o sentido de sua vida, a poesia visceral e sangüínea, costurada com a alma. Evocando a infância ou suas raízes, procurando a lógica da vida ou indagando sobre os enigmas que a cerceiam, refletindo sobre o processo criador ou reinventando-se na ‘tessitura do caos’, lembrando a morte ou celebrando o amor, ele sintetiza seu percurso poético no trajeto de seus 25 anos de poesia, reafirmando seu talento para as letras e fazendo o coroamento de sua maturidade estética e ontológica. Resta-nos a pergunta: se Sintaxe do desejo fecha um ciclo existencial, o que virá agora? Conhecendo o poeta, arrisco uma resposta: a reinvenção (inclusive do novo), porque ele sabe, como Cecília Meireles, que “a vida, a vida, a vida... só é possível reinventada ”. Também a poesia!
Fortaleza, Junho de 2007
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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Porta fechada (Nilto Maciel)


























Carlos acordou sobressaltado. Os pais falavam alto, discutiam. Do lado de fora, uma pessoa esmurrava a porta. Por que discutiam àquela hora? O medo tomou conta do menino. Ou sonhava? Sonho feito de palavras sem sentido, sons confusos, tumulto indistinto, quase remoto.
Na verdade, Josias batia na tábua porque queria entrar em casa e o pai teimava em não abrir a porta. Dormisse na rua, com os cachorros. Mais gritos e fragor de pancadas. Carlos acordou de vez, o coração a bater em descontrole. A mãe exigia a abertura da porta. Josias não poderia dormir na rua. O homem bradava negativas, vociferava. Aquilo não eram horas de chegar. Fechada a porta, por ela ninguém mais entrava. Somente no outro dia. Dormisse na rua o vagabundo. A mulher chorava, implorava. Deixasse o filho entrar para dormir. O pai teimava. Havia determinado o horário de os filhos estarem em casa: dez horas da noite. Inconformado, o rapaz gritava, chutava e esmurrava a madeira. E ameaçava: se não abrissem a porta, ele a abriria à força.
Em dado momento, a porta pareceu ter sido derrubada. Talvez a tranca tivesse ruído ou os ferrolhos se deslocaram, à custa dos sopapos. Ou terá sido aberta pelas mãos do pai, para evitar o arrombamento? Iniciou-se uma correria dentro de casa. Cinto à mão, o homem se pôs a perseguir o filho sem-vergonha. Corriam, resfolegantes, a gritar. A mãe chorava, pedia calma. Assustados, os meninos se encolhiam nas redes. Pai, mãe e filho corriam pela casa, em fila, cansados, passavam de um cômodo a outro. Apavorado, Carlos se encolhia na rede. Josias passava e o jogava ao léu da noite. O pai o empurrava para mais longe. A mãe o socorria, mas também passava, aos prantos.
Aos poucos foram sossegando. Carlos não soube quando aquilo acabou e de novo dormiu. Talvez quando o pai e filho não mais tiveram forças para correr e falar.
Dias depois, Josias saiu de casa e Carlos nunca mais o viu.
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domingo, 14 de outubro de 2007

Dulcinéia em Hollywood (Cunha de Leiradella)




Não existem boas nem más estórias. Existem apenas estórias. Que podem ser bem ou mal contadas. Há mil e uma formas de contar uma estória. Mas só uma (e apenas uma) é a forma certa de a contar. E é, justamente, essa forma que faz a diferença. Que mostra o abismo entre um bom e um mau escritor. Entre o escritor que sabe trilhar o seu caminho e o escritor que, sem procurar sequer encontrar o seu caminho, apenas segue o rastro dos outros, e o que é pior ainda, sem saber como nem para quê.
Cherlanyo Barros não é desses. É daqueles. Daqueles que sabem trilhar o seu caminho. Os contos de Dulcinéia em Hollywood poderiam ter sido escritos de mil e uma formas. Mas Cherlanyo Barros soube escolher a forma certa. Mostrou-nos a essência dos seus personagens como ela deve ser mostrada. Todos os seres humanos se parecem nas suas contradições.
E o autor, ser humano que é, não escapa das suas próprias contradições. Não existem contos perfeitos no livro de Cherlanyo Barros. Existem apenas estórias bem contadas. E é esta aparente contradição que deixa no leitor a satisfação de ter feito uma boa leitura. Ser ou não ser é apenas uma questão. E o importante não é a questão, é a postura, poder ser. E a forma como Cherlanyo Barros conta as estórias de Dulcinéia em Hollywood dá ao leitor a condição dessa possibilidade. Poder ser.
Está nascendo no Ceará um excelente contista. Escutem-no. Ele tem algo a dizer.

Casa das Leiras
Portugal

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Bééé (Nilto Maciel)
























A charretezinha subia e descia a rua, o carneirinho a berrar. Animal altivo, sadio, de pêlo branco. Veículo pintado, envernizado, recoberto de frisos coloridos, bancos bem forrados. Verdadeiro carro de príncipes e princesas. O carneirinho berrava bééé. Jairo, na boléia, olhava loiro e feliz para os curiosos. À frente, puxando o cabresto, um homem, provavelmente o pai. Outros garotos, nas janelas e portas das casas, contemplavam o principezinho e sua carruagem real. O animal berrava, talvez para anunciar a passagem do menino rico.
Pela cidade não se viam carros, a não ser, de vez em quando, o jipe do prefeito, um caminhão que chegava num dia e saía no outro, o ônibus que vinha da capital duas ou três vezes por semana.
A quem pertencia a pequena charrete? Ao pai de Jairo? Teria adquirido o veículo apenas para divertir os filhos? Ou cobrava alguns réis pelos passeios? Talvez tenha ele mesmo construído o carro e adestrado os animais. Essas e outras questões faziam parte da conversa dos meninos.
Com o passar dos dias, meses e anos, deixaram de ver a charretezinha e nem se lembravam mais dela, e muito menos do carneirinho a berrar. No ginásio Jairo só falava de meninas e diversões. Não gostava das aulas e muito menos dos padres-professores. Andava a rir à toa, despreocupado de livros e lições, a perambular pelas ruas, a fumar escondido do pai. Pedia auxílio aos colegas nas aulas de português, matemática, inglês, geografia, de tudo. Não sabia nada.
Mais tarde conheceu o álcool, deixou de estudar, não trabalhava, vivia de favores de parentes. Até ser colhido por um veículo numa rua da capital. Andava bêbado, como todo dia. Tentou atravessar a rua e, passos lentos ou trôpegos, não alcançou o outro lado. Morte instantânea, o corpo esfacelado, moído, a sangrar muito. Longe, muito longe dali, um carneirinho berrava bééé.
Fortaleza, 19/10/2004.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Literatura e desvario (Henrique Marques Samyn*)




Nilto Maciel é, mais do que escritor, um guerreiro das letras. Mantém heroicamente, desde 1991, a revista Literatura, uma das poucas publicações brasileiras dedicadas exclusivamente às letras; paralelamente, constrói uma premiada obra como romancista e contista, além de assinar artigos, ensaios e poesias.
Carnavalha (Bestiário, 2007), sua obra mais recente, é uma espécie de romance em retalhos, construído por meio de uma laboriosa montagem de narrativas. O tênue fio que as une, o próprio motivo carnavalesco, dá azo ao vertiginoso desfile de cenas que se desenrola em torno de Zuza, bêbado e gauche, centro deste universo em que tudo tende ao desvario. O texto de Nilto comumente habita a fronteira entre o real e o fantástico, limite que também Carnavalha, com freqüência, desconhece; assim é que a narrativa entrelaça passagens em torno das mais prosaicas situações com textos de evidente carga simbólica. Carnaval, mundo feito máscara: nada é o que parece ser.

Se rótulos fossem necessários, talvez fosse possível qualificar Carnavalha como um romance etnográfico; categorizações, todavia, pouco importam no tocante à literatura, e mais vale observar que Nilto Maciel mergulha no universo carnavalesco para extrair dele a matéria-prima de sua criação literária – um romance em que a essência do carnaval mescla-se com a própria marcha da existência. Nas narrativas de Carnavalha, o que há é um desfile de efêmeras criaturas cujas vidas, árduas e dolorosas, sôfregas e retortas, só encontram algum sentido nos delírios dos que as vivem. Ainda assim, somos capazes de sentir, por esses miseráveis seres, alguma empatia – talvez por nos semelharmos mais a eles do que gostaríamos de crer. A navalha de Nilto Maciel fere, afinal, nossa própria carne.

*Henrique Marques Samyn: escritor, tradutor e pesquisador acadêmico, vive no Rio de Janeiro. Autor de Poemário do desterro e de diversos artigos acadêmicos. Sua obra literária já foi publicada em diversos periódicos brasileiros, na Venezuela e na Espanha. Cursa atualmente doutorado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com tese sobre poesia medieval.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Obituário (Nilto Maciel)




Quando o primeiro caderno se completou, Cleto desistiu do segundo. Não ia mais anotar os nomes dos falecidos e as respectivas datas de morte. Tudo começou quando o pai morreu. Comprou um caderno grande e deu-lhe o título de “Falecidos”. Quase todo dia anotava um nome: parente, amigo, conhecido, político, ator, cantor, escritor, jogador de futebol. Se lia ou ouvia notícia de falecimento, corria ao caderno e anotava: fulano de tal e a data. De vez em quando passava algumas horas a rememorar os seus mortos. Mulher, quem era Anacoluto dos Anzóis Pereira? Ana se irritava com a mania de Cleto: Sei lá, homem. Deve ser algum gramático sem pé nem cabeça. Outras vezes se lembrava de algum parente esquecido ou pessoa famosa. Já teria morrido? Consultava o caderno e não encontrava o nome. Mulher, Maria ainda está viva? Ana só faltava chorar: De que Maria falava o marido? Mulher, por onde anda aquela cantora carioca que regravou uma música de Noel Rosa? Não lembrava o nome e por pouco não ficava doido de tanto escavar a memória dele e de Ana.
Decidiu: não ia mais anotar os nomes dos mortos. Comprou outro caderno e deu-lhe o título “A falecerem”. Passou um dia a copiar nomes de parentes, amigos e pessoas famosas. Mulher, como se chama aquela sua prima que se casou com o Jorge caminhoneiro? Ana, quem é o presidente dos Estados Unidos? Não esqueça de escrever o seu nome, Cleto. Não escreveu, irritado, jogou o caderno na gaveta e se pôs a ler o jornal: “Previsão do tempo: Amanhã chove em todo o litoral”. Não choveu, mas Ana concluiu o primeiro caderno com o nome do marido.
Fortaleza, 12/10/2004.