Translate

sábado, 15 de dezembro de 2007

Águas de Badu (Nilto Maciel)



















Moscas voejavam ao redor do cadáver. Choravam filhos e amigos, noras e netos, vizinhos e filhas, genros e netas. A mulher, se chorava, só Deus sabe. Nos olhos do cachorro Chué, no entanto, não se viam lágrimas. Quiçá ainda não soubesse do fim do seu protetor. Eu não chorei. Para que chorar, se o choro não conta histórias? Cabia a mim acompanhar os últimos momentos daquele ser entre os vivos. Retribuir, de alguma forma, o muito que dele ouvi. Pois de sua boca saíram dezenas e dezenas de crônicas sertanejas, todas elas por mim transformadas em contos. Consolar os seus parentes e, até, pagar as despesas do sepultamento. Antes, porém, devíamos velar o corpo mirrado do velho Balduino. Não, Balduino não, Badu, como gostava de ser chamado. Quem quisesse ser seu amigo não o chamasse pelo nome de batismo. Isso vinha desde os tempos de rapaz. Ora, se até o major Saulo o tratava por Badu, não ia permitir cerimônias de outros.
De vez em quando alguém espantava moscas da cara enrugada do finado. E dos olhos cerrados, da boca murcha, da testa franzida. Badu parecia imagem de museu. Como se estivesse apenas a dormir. A qualquer momento se sentaria na rede, pediria uma caneca d’água e passaria a contar histórias. No sertão... Não, eu não tinha vontade de chorar. Talvez porque acostumado a fins e fins e a ver nele, o velho vaqueiro, apenas mais um homem que conheci e de quem colhi histórias.
Cerca de sessenta anos atrás vivia Badu na Fazenda da Tampa, vale do Rio das Velhas, Minas Gerais. Montava cavalo e cuidava de gado, como tantos outros nas terras do major Saulo. Quem sabe fosse melhor dizer “viveu”, “montou” e “cuidou”, porque apenas dois meses durou sua estada naquele lugar, de dezembro a janeiro. Tempo suficiente para conhecer Ritinha e por ela se engraçar. Para Ritinha dele se aproximar e desprezar Silvino. Para Silvino se encher de ódio e prometer vingança. Pois esse Silvino passou, então, a dizer a uns e a outros que não tardava a hora de meter uma faca nos peitos do rival. Pretendia matá-lo na primeira oportunidade. Sangrá-lo como se sangra porco. Badu, no entanto, não queria briga. Nada de porfiar com o sujeito.
Conheci o antigo vaqueiro por acaso. Entrei num boteco do Pirambu, em Fortaleza, perto da praia, para matar a sede. Pedi água mineral. Três ou quatro velhos conversavam na calçada, sentados em tamboretes. O sotaque de um deles me pareceu estranho. Demorei-me com a água, a escutar a conversa. Ao perceber minha curiosidade, ele se calou. O que tanto eu assuntava? Pedi mais uma garrafinha. Ele falava de um burrinho heróico que atravessava uma correnteza, em noite escura. Dele mesmo nada dizia. Não se pabulava de nada. Na história só havia um herói: o burro. Dias depois pude saber o motivo do seu receio. Eu talvez fosse espião do major Saulo ou de quem o tivesse sucedido no comando da fazenda. Aquilo podia ser uma arapuca. Se não me conhecia, não podia confiar em mim.
Tudo mudou quando me apresentei como professor, pesquisador, jornalista, folclorista, o levei ao meu apartamento, apresentei-lhe minha família, meus livros, escancarei minha vida. Do alto do edifício, no Meireles, mostrei-lhe o mar. A princípio, como se em êxtase, ele não disse uma só palavra, olhos afundados nas águas azuis. Ou verdes. Nos verdes mares bravios. Súbito, sem piscar, sem tirar os olhos da vasta pintura, e como se eu fosse sábio, quis saber de onde vinham e para onde iam tantas águas. Tentei uma explicação científica. Ele então compreendeu que eu não sabia tudo. Aquilo era muito bonito, mas preferia o chão, o sertão. O homem não fora feito para as alturas. Quem vivia pendurado em galhos era macaco. E nas águas viviam os peixes. Perguntei se queria ouvir umas histórias. Só se fossem de matutos. Serviram sorvete de graviola. Corri às minhas gavetas, trouxe uns cadernos e passei à leitura. Às vezes ria; outras, se entristecia. E não deixava de mirar o mar.
Com ele saí a passeios pela cidade, como se turistas fôssemos. Caminhamos pelo calçadão da Beira-Mar, pela Ponte dos Ingleses, fomos à Barra do Ceará, ao Mucuripe, à Praça do Ferreira, vasculhamos toda a cidade. Ele não conhecia esses lugares ou os conhecia de relance. Um dia, ao voltarmos de um desses passeios, estacionei o carro diante de sua casinha e me despedia, quando ele me convidou a conhecer sua família. Mandou eu me abancar. Mostrou um banquinho de madeira. Deixou a sala e entrou pela casa. Morava com um filho, a nora e alguns netos. Falou dos outros familiares, de onde moravam, do que faziam. E se pôs a contar a sua vida ou parte dela. Sobretudo a partir do dia da grande desgraça acontecida num rio, quando ele, bêbado, montado num burro velho, em fins de vida, se salvou da correnteza, enquanto os seus companheiros de jornada morreram afogados. Cavaleiros e cavalos arrastados pelas águas. A custo o burrico alcançou a casa da fazenda. Mais morto do que vivo. Badu encharcado de água e cachaça. Apeou e se recostou na parede. Atordoado, com medo, sem rumo, resolveu arribar, fugir daquele lugar o mais cedo possível. Montou de novo o animal e enveredou para o norte. Mas o burrico, de tão velho, não suportou tanto peso, tantas veredas. Diante do cadáver, Badu chorou. Retirou o cabresto, porque disso ele não carecia mais. Nunca mais. Beijou-lhe a testa, abraçou-lhe o pescoço, ajoelhou-se diante do corpo e agradeceu por estar vivo. Abriu uma cova rasa e nela o enterrou. Fez uma cruz de paus, fincou-a sobre a terra e seguiu em frente. Sempre a pé. Pois desse dia em diante nunca mais montou burro ou cavalo. Fez a jura. Andou por veredas, matas, dias e noites de fome e sede. Para sobreviver, topava qualquer serviço. E assim aprendeu de quase tudo um pouco. Um dia cavava cacimba, uma semana apanhava feijão, um mês cuidava de porcos. Areou-se todo o tempo, sem saber se ia para cima ou para baixo. Meteu-se nas brenhas, sem avistar vivalma durante dias e noites. E, por acaso, se viu diante de muitas águas. Seria o Velho Chico? Esperou, esperou, até avistar um barco. Mas dessas peripécias ele não quis falar muito. Sem saber onde se achava, sem atinar com geografias, fugia do passado e de Minas. Queria atravessar o São Francisco e seguir em frente.
Cerca de um ano depois alcançava o sul do Ceará. Entretanto as histórias de cangaço e de lutas entre grupos políticos o empurraram do Cariri. Não queria conhecer padre Cícero? Não, não e não. Queria conhecer sossego. E se enfiou de novo pelo sertão, até alcançar a serra de Baturité. Arranchou-se num sítio nas proximidades de Mulungu. Precisava de descanso e, se não fosse pedir demais, um pouco de comida. Falava quase nada, com receio de se enrascar nas conversas. Arranjou serviço de capinar. E outros e outros serviços. Trabalhava do nascer do sol ao escurecer. Sempre calado e obediente. Precisava se aprumar na vida e esquecer pelo menos aquele dia de mortes. E conheceu a cabocla Joana, com quem se casou um ano depois. Disso também contou pouco. O tempo passava devagar. Às vezes pensava em voltar, rever os pais e irmãos. Com certeza o tinham por morto. Ora, e se não conseguisse acertar o caminho de volta? Melhor mesmo virar cearense de vez e esquecer o passado. Aprendia aos poucos a fala do povo da serra. Nascido o primeiro filho, perdeu a vontade de voltar. Joana não fazia perguntas. Só falava do ontem dela. E do hoje do menino. Badu gostava disso. O tempo andava lerdo. Outros meninos nasciam e cresciam. Joana não fazia perguntas. Só falava de seus meninos, rapazes e moças. Badu gostava muito disso. E criava bodes, cabras, galinhas, porcos. O tempo corria. O primeiro filho inventou de morar na capital. Queria ser chofer. Na serra não se viam caminhões nem jipes. Só em Mulungu, Baturité, Guaramiranga. Um tempo Badu olhou para trás, para o sítio, para os matos, para a mulher e não viu mais os filhos. Todos tinham arribado para Fortaleza. Um dia o mais velho chegou com jeito de lorde. Queria levar pai e mãe para a cidade. E levou.
Esses enredos se alongaram, sempre pacíficos, sem correntezas e sem secas. Para contar tudo, porém, seriam precisos dias e noites de fala. Até o último dia, até aquele momento de despedida: Badu deitado numa rede, sem vida. Seu povo triste, choroso. O cachorro Chué a vadiar entre as pernas das pessoas. Badu, por que esse nome Chué? O velho não ria nunca, mas sabia fazer rirem os outros. Mais chué do que este vira-lata só o mais chué dos cachorros. E Mais Chué existe? Devia existir. Em razão da idade, quem sabe, o velho vaqueiro muitas vezes confundia a natureza do animal com a de outro. Com voz sumida, chamava Chué de “meu burrinho”. Num desses momentos de afago ouvi – creiam – a promessa: “Chué, não vou deixar ninguém montar você”.
E o burrinho pedrês? O vaqueiro pouco sabia dele. E, se sabia muito, pouco dele falou. Não lhe lembrava o nome nem as características. Recordava tão-somente a sua bravura naquele dia de angústia e mortes. E quiçá nem lembrasse muito, porque a cachaça escureceu-lhe a mente durante algum tempo.
Parecia coisa do destino ou o avesso dele. Pois quem imaginava que um jegue velho, miúdo, magricela, quase cego, pudesse salvar uma vida? Que um homem bêbado sobrevivesse à travessia de um rio em rebuliço, após a chuva? E que cavalos bonitos, de estirpe, naufragassem, como pedras, e com eles levassem tantos vaqueiros valentes no roldão das águas?
A partir daquele dia Badu nunca mais foi o mesmo. Nunca mais tomou suas bicadas. Parou de beber, numa ojeriza sem par de aguardente. Não por isso, passou a ter sonhos esquisitos. Num deles, vagava no mar montado num burro. As ondas vinham, gigantescas, e os jogavam para o alto. Logo não havia mais burro. Badu montava, então, enorme peixe, porventura um peixe-boi. E mergulhava no abismo. Fazia frio, faltava ar. No fim do pesadelo, Badu não sabia mais de burro nem de peixe: agarrava-se a um pedaço de pau, um galho de árvore. E a correnteza os levava para os confins do mundo. Ancorava numa ilha. No entanto, cobras na praia não o deixavam pisar a terra.
Tudo começou quando o major determinou o ajuntamento de uns bois para serem levados à estação do arraial distante quatro léguas da fazenda, onde seriam embarcados em trens. Coisa corriqueira. Entretanto, o dia começou com chuva. Não fazia mal. Precisava, para tanto, de todos os vaqueiros, dos onze da fazenda. Mas faltava um cavalo. Sendo assim, que o burrico servisse de montaria a um dos homens. E a viagem se começou. Badu num velho poldro pampa; os outros nos seus cavalos e no burro; o major no seu cardão. Não fosse tanto boi para tão poucos cavalos, talvez Saulo não se lembrasse do jumento. Não fossem de Ritinha o amor e de Silvino o ódio, possivelmente Badu não tivesse bebido tanta cachaça. Não fosse a bebedeira, certamente Badu tivesse voltado no velho poldro. E assim teria morrido como tantos outros levados pela correnteza.
Deixados os bois nos trens, despediu-se o fazendeiro dos vaqueiros. Precisava pernoitar no arraial. Para seu lugar nomeou um deles. Conduzisse os homens em paz. Ficasse de olho em Silvino e Badu. Impedisse briga, discussão, muita conversa. Não queria saber de morte. Voltassem para a fazenda. Antes, porém, foram os homens comer e beber. Após o que, cada um pegou a sua montaria. Menos o vaqueiro do burrinho, que se engraçou do poldro de Badu. Restou o jegue, a um canto, solitário. Bêbado demais, o último a chegar ao telheiro onde os cavalos descansavam, Badu se irritou. Como voltar naquele burro sem serventia? Ora, se não quisesse o muar, que seguisse a pé. Passou a perna sobre o animal, equilibrou-se como pôde e saiu no encalço dos outros. Tudo escuro ao redor. E a chuvinha insistente. No fim da rua, os cavaleiros se haviam ajuntado para confabular sobre a situação. Quem sabe fosse melhor esperar o amanhecer. Ou o estiar. Se o córrego tivesse enchido, seria perigoso tentar atravessá-lo. Ao deixar para trás os cavalos, no passo lerdo do jumento, Badu ouviu risadas. Caçoavam dele. Não se importou com aquilo. Queria voltar para a fazenda e dormir. Mesmo debaixo de chuva e escuridão. E se deixou levar pelo animal. Seguiram-no os cavaleiros pelos caminhos molhados, aos pares. E a chuva engrossou. Pouco a pouco, tudo ao redor se transformou num aguaceiro medonho. Um balcedo só, as patas dos animais afundavam, enquanto o breu da noite envolvia o mundo.
Na sala do casebre o choro ia e voltava. Lamentavam a morte inesperada do velho Badu. Tão cheio de saúde! Deus o tivesse em bom lugar. Chué entrava e saía, desconfiado da novidade. O seu protetor jazia numa rede, calado e inerte. Nunca mais o chamaria para passear. Nunca mais passaria a mão em sua cabeça. Badu, você gosta muito de Chué? Ora se gostava. Como não gostar dos brutos, se dos homens só recebiam maldades em troca de trabalho, companhia, amizade? Por acaso algum homem é capaz de servir de montaria? De conduzir um homem bêbado de um lado a outro do rio? Chué passava horas aos pés de Badu. Ouvia-lhe histórias de burros, cavalos e bois, compenetrado, sisudo, sem um riso de deboche.
Naquela noite de breu, depois de muita chuva, o mundo parecia um alagadiço só. Mas os homens precisavam voltar para a fazenda e não havia onde se arrancharem. Galoparam, galoparam e, ao se aproximarem da margem do córrego, sofrearam os cavalos. As águas tinham inundado tudo. Então deixassem o burro ir à frente. Se conseguisse atravessar o rio... “Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair!” Como se não temesse as águas, a correnteza, a escuridão, o burro meteu as patas no córrego. Chapinhou, chapinhou, alcançou o meio, afundou-se até a barriga, seguiu. Badu agarrava-se ao seu pescoço, equilibrava-se. Os cavalos se viram obrigados pelos vaqueiros a tentar a travessia. As águas, porém, aumentavam de volume e tomavam mais ímpeto.
Encerradas as rezas, as mulheres se retiraram para a cozinha. Os homens sentiram vontade de beber uns goles. A meninada andava há muito pela calçada, a correr e rir. Apenas Chué permaneceu na sala. Súbito deu alguns passos e se postou ao lado da rede. Olhou para os lados, retesou as orelhas, ergueu-se, levantou as patas e as pousou no peito do morto. A rede balançou. Badu se despedia da vida como se ninado. Despedia-se de nós, parentes e amigos, daqueles que gostavam de ouvir suas histórias do sertão, de bichos e gentes. Sua derradeira história ele me contou numa tarde muito quente. À noite, dormindo, ele se finou. Parece ter sido um sonho. Ou invenção. Ele via do alto, como se flutuasse nas nuvens, as águas saindo do mar pelos caminhos dos rios e correndo para o sertão. Ao mesmo tempo, ele caminhava pelo chão, ao lado de um burrinho que às vezes latia. Molhava os pés na beira do rio, banhavam-se, alegres como meninos em brincadeira.
Um menino entrou no recinto e viu o cão a lamber o rosto de Badu. Mas não lhe pareceu um cão como os outros. Semelhava, antes, outro tipo de animal. Talvez um burrinho. Pois nas faces do defunto aflorava um tímido sorriso, como se agradecesse o carinho. Chué se pôs a relinchar baixinho, como se dissesse ao amigo palavras de consolação. Ou como se rezasse e dele se despedisse. Como se dissesse: eu fiz o que pude, cumpri o meu dever. Cumprimos nossas sinas. O menino levou as mãos à cabeça e quis gritar. O cachorro lambeu de novo o rosto do homem e saiu cabisbaixo no rumo da rua. E Badu voltou a ser morto.
Fortaleza, junho/julho de 2005.

(Recriação de “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa, para Quartas Histórias – Contos Baseados em Narrativas de Guimarães Rosa, org. por Rinaldo de Fernandes (Ed. Garamond, Rio de Janeiro, 2006)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O último voo de Rapina (Nilto Maciel)


















(Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem - Salvador Dali -1943)


Todos os habitantes de Anipar voaram durante toda a noite passada. No chão, aves pernaltas cantavam sonatas. Tudo parecia sereno, até o mar e seus peixes. No bico de urubus viam-se restos de vísceras de dinossauros. Os últimos sonidos das pedras ecoaram. Um lobo vermelho passeava a resmungar. Estertoravam leões e seus filhotes, mortas as leoas. De madrugada, a primeira pessoa-ave se estatelou. Muito sangue jorrou. As penas das aves se tingiram de vermelho e houve alvoroço no sítio. Famintos, os leões e os urubus se puseram em gritaria. Rapina acordou tarde. E se iniciou a tempestade nos campos de Anipar. Não ficou pedra sobre pedra.
Em Anipar há pouco mais de vinte anos viviam sete famílias. Os chefes dessas famílias descendiam de Serope e Tisuri. Não há notícia da origem do casal. Possivelmente salvos de um naufrágio. Os filhos nasceram na seguinte ordem: Peri, Rosu, Seti, Rose, Suti, Riti, Peso, Tise, Epore, Irusi, Pores, Rusit, Peroe e Risui. Segundo o rei e a rainha, o número de letras dos nomes dos filhos deve ser sempre inferior ao do pai ou da mãe. Formaram-se sete casais, ao longo de sete anos. Casaram-se, sob as bênçãos da rainha- sacerdotisa e do rei-sacerdote, ano após ano, a partir do 14° ano do primogênito Peri, que desposou Rosu. Há pouco mais de vinte anos as sete famílias haviam gerado exatamente 49 filhos.
Rapina apareceu do nada, para espanto da tribo de Serope e Tisuri. Sobrevoou os campos e as casas durante três dias e três noites, para finalmente pousar ao meio-dia do terceiro dia. Suas asas reluziam e de seu bico agudo despontou uma serpente. As crianças corriam, gritavam, choravam, buscavam esconderijos. Os mais velhos armavam-se de pedras e paus. No entanto, a ave se pôs a cantar em tão alto volume de voz que as árvores balançavam, como numa tempestade, e do chão se evolava uma poeira grossa. Ensurdecidos, homens e mulheres se prostraram e se puseram a rezar em voz alta, pedindo clemência ao estranho ser.
Imediatamente após o primeiro cantar de Rapina, toda a tribo caiu num profundo sono e dormiu durante três dias e três noites. Tiveram sonhos horríveis e fantásticos. Contados em voz alta, por ordem Dela, coube ao mais jovem habitante de Anipar anotar um a um os sonhos. Seria o Livro Sagrado da tribo. As tábuas, a tinta e os pincéis surgiram num átimo, a uma ordem da ave. O primeiro a narrar o sonho deveria ser o rei.

(O sonho de Serope) Súbito um trovão. Serope olhou para o céu. Aves voavam espantadas, sem rumo, aos pios. O homem ergueu as mãos, em prece. Gritavam, pediam socorro. Voltou os olhos para a terra: uma fenda se formava aos seus pés. O chão se rachava, se dividia em duas partes. De um lado, ele; do outro, sua gente. Imaginava dar um salto e alcançar o outro lado do abismo. Impossível. As duas bandas de terra se separavam aos poucos e nenhum homem conseguiria, de um salto, passar de um lado para o outro. Precisaria voar. A fenda se estendia cada vez mais. Até que Serope não conseguia mais ver a outra margem do mundo.
Rapina pediu silêncio. Antes do próximo sonho queria falar de asas e vôos. As crianças se agitaram e se aproximaram dela. A ave chamou-lhes de anjos. Ao redor das cabeças dos habitantes de Anipar rodopiavam insetos. Uma revoada de pássaros cobriu o sítio. Assustaram-se galinhas, avestruzes, perus e outras aves, numa algazarra sem fim. Afugentadas das cavernas, miríades de morcegos cobriram as sombras dos homens. Rapina sorria. Costumava realizar vôos cegos pelos confins do mundo. Nunca desistissem de voar, de se movimentar no ar. Sonhassem sempre com o infinito. Voassem alto.

(O sonho de Tirusi) Alvoroço na aldeia. Tisuri havia sumido. Provavelmente engolido por um monstro, pela boca da Terra. Serope ia e vinha pelo sítio, aos gritos de socorro. Corria para lá e para cá. Ensandecida, escorregava e caía à beira do abismo. Tentava agarrar-se às pedras, aos arbustos. Tudo em vão. Perdidas as forças, tragava-a a goela negra do Nada. E descia vertiginosamente. Para seu alívio, avistava o marido, também em plena queda. Abraçavam-se no ar.
Rapina passeou pelo palco e mais uma vez se dispôs a falar. Desta vez de abismos. As crianças se acercaram dela. Adultos pediram calma. Sentassem-se todos. Onde começava e onde acabava a Terra? Seria uma reta, um quadrado, um círculo? À beira dos precipícios não havia normas. O pó das pedras oscilava entre o efêmero e o eterno. Um leão rugia longe. Um rato esgueirou-se entre as rochas à retaguarda de Rapina.

(O sonho de Peri) Primogênito da tribo, Peri falava aos seus irmãos. O sumiço de seus pais lhe dava o direito de assumir o comando da nação. Mais falava, mais se agigantava. Os dedos alcançaram o tamanho de uma pessoa. Assustados, os animais fugiram para o mato. Os súditos, no entanto, permaneciam calmos. Peri prometia descobrir um jeito de dar a todos o tamanho de gigantes. Pronunciassem palavras mágicas. Houve gritaria: quais as palavras mágicas? Peri ergueu os braços, em busca de inspiração, de conhecimento. Gritassem o nome de Serope, o pai de todos. Gritaram, a um só tempo, a palavra mágica. E se deu o milagre: todos se puseram a crescer, enquanto Peri voltava ao tamanho anterior.
Após um longo bater de asas, Rapina se pôs a falar de gigantes. Conhecia a terra dos gigantes. Os animais de lá, no entanto, não pareciam diferentes dos demais. Os bebês nasciam do tamanho de elefantes adultos. O choro deles espantava as feras e fazia tremerem árvores e chão. Quando dois gigantes se punham a brigar, os outros, principalmente mulheres e crianças, choravam e se retiravam para muito longe do palco da contenda. Um dos brigadores arrancava uma árvore como se despegasse um arbusto e a arremessava contra seu adversário. Rochas enormes eram atiradas. Ao final, feridos, cansados, os dois caíam. Alguns não suportavam os ferimentos e morriam.

(0 sonho de Rosu) Ao ver Peri encolher, enquanto os outros cresciam, Rosu o abraçou, aos prantos. E se ele encolhesse tanto, a ponto de virar nada, desaparecer? Desesperada, soprou-lhe nos ouvidos. Ele gritou de dor. Não, não queria ensurdecer. Desse-lhe um beijo prolongado. Mostrava-lhe a boca, os lábios. No entanto, em vez de sentir desejo de beijá-lo, Rosu sentia asco do marido, porque de sua boca emergiam larvas e insetos. Ele se debatia, no chão, gritava, chorava, pedia socorro. Subitamente saltaram-lhe das entranhas sapos, cobras e lagartos. E Peri se sentiu aliviado e deixou de decrescer.
Rapina impediu o prosseguimento das narrações de sonhos. Precisava falar dos seres nauseabundos. Muitos engolem seres sujos, vindos da podridão. Alguns permanecem aparentemente limpos, apesar disso. Catou-se com o bico, urinou e defecou diante da platéia. As crianças riram. Ensinar-lhes-ia como evitar a náusea e o vômito. Cada um catasse, no mato próximo, quaisquer insetos, baratas, joaninhas ou outros animais pequenos. Chupassem-nos e depois comessem-nos aos poucos. Ao sentirem os primeiros indícios de náusea, olhassem para o céu. Fosse o Sol uma barata amarela perdida na boca do Espaço, seria a Lua uma joaninha dourada.

(O sonho de Seti) Ventos fortes e contínuos varriam a Terra. As pessoas se agarravam aos troncos das árvores, às rochas, buscavam refúgio em cavernas. Seti comandava a salvação da tribo. Somente ventos amigos poderiam afugentar os ventos inimigos. Todos, pois, a postos na tarefa de criar ventos amigos. Soprassem com todos as forças. Afastassem os ventos inimigos. E todos se puseram a soprar. Uns se cansavam logo e caíam exaustos. Os menos cansados alentavam-nos com água fria. A idéia de agigantarem-se tomava novo alento. Quanto mais corpulentos, mais fortes ventos produziriam. Chamassem Peri. Somente ele conhecia a arte do agigantamento. No entanto, Peri havia desaparecido.
Como se despertasse, Rapina agitou a penugem. Não apenas males causavam os ventos. Sem eles não voariam as aves. E voar significava liberdade, novos horizontes, descobertas. Ela, então, por voar, sentia-se dono do próprio nariz, do próprio bico. Sim, as aves de rapina e sua fome, as aves agourentas e suas lendas, os urubus e sua sanha. Conhecia todas elas. No entanto, todas necessárias ao conjunto da vida. Certa feita atacaram-na dezenas de falcões. Um desespero. Quanto mais fugia, rumo ao infinito, furando nuvens, esquivando-se de raios, quanto mais se afastava da atmosfera, mais o grito de morte dos falcões a enlouquecia.

(O sonho de Rose) Deitada junto ao tronco de uma árvore, Rose descansava, olhos fechados, pensamentos em revoada. Ouvia um chiado distante. Talvez as águas do riacho. Súbito uma picada no pescoço. Arregalava os olhos e se espantava: um vampiro sugava-lhe a garganta. E outros, inúmeros vampiros a atacavam. Mordiscavam-lhe os seios, as pernas, o ventre. Tentava livrar-se deles, afugentá-los. Debatia-se, aos gritos, e nada de os morcegos se retirarem. Sangue jorrava em todo o seu corpo. Desesperada, Rose intentava fugir. Estonteada, caía, resvalava no chão, reerguia-se, tombava. Enfurecidos, os seres mais cravavam nas carnes da moça os incisivos pontiagudos.
A ave sorriu. Não inventassem histórias. Contassem apenas os sonhos. E não omitissem nada. Antes da próxima narração, no entanto, queria contar uma historinha: "Já vivi numa gruta. Minha mãe se havia refugiado, com três filhotes, nessa gruta. Fugia dos predadores. Mal imaginava ela o que nos esperava. Ao perceber a presença dos morcegos, quis fugir. Nós, os filhotes, no entanto, já não tínhamos forças para novas aventuras. Mal sabendo voar, enfraquecidos, morreríamos, se buscássemos outros refúgios. Nossa mãe não dormiu durante um dia, olhos pregados em seus filhos. Os morcegos voavam a todo instante. Um deles pousou aos pés dela. Enfurecida, ela o bicou. Ensangüentado, ele voou”. As crianças, boquiabertas, aguardavam um final feliz. “Mais tarde contarei o resto da história. Agora vamos a outro sonho”.

(O sonho de Suti) Toda a tribo dormia. Suti acordava sobressaltado e abria a porta da tenda. Nada conseguia ver. Nenhuma estrela, nenhuma luz. Um nevoeiro forte tornava o mundo escuro. Caminhava sem rumo. Esbarrava num animal aparentemente morto. Parecia um urso. Seguia sem rumo. Ouvia urros e se assustava. Voltava-se e via um bicho gigantesco a se movimentar em sua direção. Buscava grutas onde pudesse se esconder. O urso se aproximava cada vez mais. Suti tentava correr, porém seus pés se atolavam no chão, na lama. Punha-se a gritar e mais a fera se irritava. E lançava aos olhos do homem um monte de lama e gelo.
A meninada pedia mais emoções. Suti teria conseguido se salvar das garras do urso? Rapina impôs silêncio. Quando jovem, muito jovem, num dia de muito nevoeiro, perdeu-se de sua mãe. Pousou num galho coberto de gelo e adormeceu. O vento frio soprava com força. De repente surgiu uma serpente, enroscando-se nos galhos da árvore. Como voar, se as asas se haviam congelado? Pôs-se a bater as asas. Espantado, o réptil fugiu. Uma parte das crianças queria o fim do sonho de Suti, outra preferia a história da ave. Talvez fosse hora do almoço. Caçaram, pescaram, colheram frutos? Sim, duas pacas restavam para a próxima refeição.

(O sonho de Riti) Andava, sozinha, por uma trilha estreita. Gotas de chuva molhavam-lhe o rosto. Um clarão medonho inundou o céu. Raios, muitos raios atingiam árvores. Iniciava-se um incêndio. Riti buscava refúgio sob rochas. O mundo parecia todo iluminado de uma luz intensa, da cor de ouro. Os animais corriam para lá e para cá, amedrontados. Riti saltava ao lombo de um búfalo e gritava para que corresse, fugisse. O animal saía aos pulos, a se esquivar da chuva intermitente de raios. Abria a boca para cima, como se quisesse beber a tempestade. E de fato os raios sumiam, aos poucos, engolidos pelo búfalo. Riti o fazia estacar: "Guarde os raios em sua barriga. Quando precisarmos de fogo e luz, você os terá”.
A grande ave bateu palmas, abriu desmesuradamente o bico e emitiu um grito de fazer tremerem os galhos das árvores. Bastava! Nada de narrações prolongadas. Fossem breves. Quando criança dormia ao ouvir histórias longas. O pai beliscava-lhe a cabeça, a mãe puxava-lhe as penas. Como doía ouvir histórias sem fim! Um garoto pediu licença para falar: queria saber se os búfalos engoliam fogo de verdade. Uma garota se ergueu e gritou: “É por isso que eles babam sem parar”.

(O sonho de Peso) Não era noite e não era dia. A luz do céu se apagava a todo instante, aqui e ali. No chão surgiam sombras de formas variadas: círculos, triângulos, quadriláteros. As crianças brincavam com as sombras. Quem fosse atingido por um círculo viraria estátua. As mulheres fugiam dos triângulos, apavoradas. Os homens mais corajosos pisavam o chão com ira. De ninguém se formava a sombra, como se todos fossem translúcidos. Exceto Peso. A sombra dele se movimentava, quando ele se movia. Os outros perceberam o fenômeno e se puseram de joelhos diante de Peso. E uma luz intensa tomou conta daquele pedaço da Terra.
A meninada permaneceu quieta e silenciosa, após calar-se Peso. Seus olhos arregalados emitiam luzes de pirilampos. Rapina sorriu e bateu as asas: “Vamos, acordem. O sonho acabou”. Segundo ela, as sombras não representam as trevas. Podem significar manchas, como as que surgem nos corpos vivos. Ou nódoas, máculas no espírito. Talvez o sonho de Peso tivesse um valor subjetivo. As crianças continuaram como em sonho. Algumas fecharam os olhos. Outras se arriaram no chão ou nos colos maternos.

(O sonho de Tise) Sentada ao pé de uma árvore, Tise meditava. O sol se escondia devagar. Pássaros voavam em cantos vibrantes. Súbito escureceu. Tise imaginou a noite das trevas. Olhou para as montanhas e não as viu. Dirigiu a vista para o arvoredo e nada enxergou. Contemplou sua casinha e não a avistou. Observou as pernas e tudo lhe pareceu vazio. Ainda sentada, chamou, aos gritos, Peso e os filhos. Percebeu a chegada deles, e também não os viu. “Estou cega ou é a grande escuridão?”
Rapina bateu as asas, como se batesse palmas. Deu parabéns a Tise. Belo sonho, bela narrativa! Continuassem nesse ritmo, mas nada inventassem. Fossem fiéis aos sonhos. E meditassem no seguinte: A escuridão está fora de nós ou dentro de nós? Um garoto se manifestou: “Às vezes a escuridão está fora de nós, quando escurece. E pode estar dentro de nós, se dentro de nós for sempre escuro”. A ave sorriu e fez um elogio ao menino. Uma garota quis competir com o colega: “Quando fecho os olhos tudo fica escuro. Então a escuridão só existe quando fechamos os olhos, quando queremos a escuridão”. Mais elogios de Rapina: “Vocês são muito claros, meus filhos. Procurem ser sempre assim: nunca sejam escuros”.

(O sonho de Epore) Sentia-se Epore perdido numa caverna, verdadeiro labirinto. Metia-se num trilho, a imaginar a saída, e mais se encafuava. Gritava, a pedir socorro. E seu grito ecoava longe, como se outras pessoas também pedissem socorro. Cansado de tanto caminhar, sentou-se à beira de um lago, viu-se no espelho da água e falou à imagem: “Epore, você está me vendo?” A pergunta correu em todas as direções. Gostou da experiência e bradou: “Nós precisamos sair daqui”. O eco de suas palavras parecia um lamento. Decidiu falar continuadamente o seu nome, bem como o de seu pai, o de sua mãe, o nome de cada um de seus irmãos, até que algum fenômeno ocorresse. E depois de mil ecos uma explosão se deu, uma luz surgiu, a saída – a salvação – se apresentou.
A grande ave permaneceu calada por alguns instantes, como se esperasse ouvir mais um ato da narrativa de Epore. No entanto, o marido de Irusi já se tinha sentado, a demonstrar nada mais ter a contar. Rapina balançou a cabeça e se fez sisuda: “Você certamente andou ouvindo histórias da mitologia grega”. As crianças quiseram ouvir o resto do sonho: Epore conseguira sair da caverna? Por que os ecos causaram a explosão? Rapina não quis dar a palavra a Epore e anunciou a vez de Irusi contar seu sonho.

(O sonho de Irusi) O céu escurecia. Nuvens baixas pintavam o horizonte de cor de cinza. Iniciava-se a chuva. Os moradores de Anipar corriam para suas cabanas. Irusi decidia permanecer ao ar livre. Chamavam-na Epore e seus filhos. O aguaceiro se agravava. Diante das choupanas formava-se um riacho. Irusi retirava as vestes e mergulhava na correnteza. Meninos e meninas ajuntavam-se a ela. O riacho se transformava em riachão. As águas carregavam algumas choças. Animais tentavam fugir para o seco, nadavam e se afogavam. O riachão se convertia em rio caudaloso. As árvores desapareciam. Irusi não via mais ninguém. As águas cobriam o mundo. A mulher buscava uma tábua de salvação. No entanto, só havia água ao redor de Irusi.
Rapina ergueu a cabeça, abriu os olhos e olhou nos olhos de cada um dos aniparenses. Os derradeiros sonhos talvez fossem os mais aterrorizantes. Preparassem-se para o final do dia e da história. “O dilúvio está no inconsciente de todos. Mas pode não ser a maior catástrofe”. As crianças tiritavam de medo. Queriam brincar, em vez de ouvir narrações de sonhos. A ave não permitiu dispersão do grupo. Restavam somente quatro sonhos. Tivessem um pouco de paciência. “Ouvir histórias também é diversão”. Pediram comida. Rapina pediu silêncio.

(O sonho de Pores) Andava Pores e seus pares pelas plantações. Uns colhiam frutos, outros arrancavam mandiocas; uns espantavam passarinhos, outros afastavam espantos. Um gafanhoto pousou diante de Pores, e outro e mais outros. Num repente milhares de gafanhões comiam e devoravam tudo ao redor de Pores e seus parentes. Os espantadores de passarinhos viraram enxotadores de insetos. E todos se punham a gritar e açoitar o ar e o chão com galhos de árvores. Nada, porém, impedia a sanha e a fome dos saltadores. Desesperados, homens e mulheres fugiam daquele inferno. Corriam para lá e para cá, e para onde iam davam de cara com a praga. Exausto, Pores tombava. Os gafanhotos o cobriam, prontos a devorá-lo vivo.
A ave demostrava cansaço e sono. A meninada se espichava no chão, cabeças nos colos das mães. Rusit coçava a cabeça, ansiosa por contar o seu sonho. Sossegasse um pouco – aconselhava o olhar de Rapina. Antes meditassem no sonho de Pores, na praga de gafanhotos. “As pragas acontecem não apenas quando a natureza é molestada pelo homem, mas também quando quer dar equilíbrio à vida”. Serope não gostou das palavras da ave. Bastava de filosofices. Rapina se fez circunspeta. “Um rei não deve melindrar os estrangeiros que visitam seu reino. Estou aqui em missão de paz. E não apenas isto: Vim mostrar o caminho da salvação”. O silêncio se instalou no recinto. “Rusit, é a sua vez.”

(O sonho de Rusit) Deitada numa relva, Rusit ora fechava, ora abria os olhos. Borboletas sobrevoavam o corpo da moça e pousavam nas ervas. Maravilhada, Rusit se punha a cantar e falar aos insetos: “De onde vieram vocês?” Eles não paravam de dançar no ar: “Nós somos anjos”. A jovem ria. Não acreditava no que via e ouvia. “Anjos são invisíveis”. Eles desapareciam por um instante. “Onde estão vocês?” Assustada, ela se erguia e fazia menção de fugir. “Volte, Rusit. Estamos aqui para protegê-la”. E a cercavam, aos milhares.
Rapina cravou os olhos em Rusit: “Os sonhos bons devem ser longos”. Um garoto quis saber se eram anjos ou borboletas os seres do sonho da moça. A ave deu a resposta: “Os anjos estão presentes nos sonhos dos poetas e dos sensíveis”. O menino insistiu: “E as borboletas?” Rapina não titubeou: “As borboletas são anjos também”. Passarinhos passaram em bando no rumo da montanha. “São anjos ou passarinhos?” Rusit quis voar. Deram-lhe água fresca.

(O sonho de Peroe) Dançava a tribo ao redor de uma fogueira. Em dado momento Peroe se viu frente a frente com Risui. Uma labareda alta se formou e Risui desapareceu aos olhos de Peroe. E a cada volta em torno da fogueira Peroe perdia de vista mais um aniparense. Até que o homem deixou de ver todos os outros. No entanto, via a fogueira, as árvores, o chão, o céu. As pessoas se tinham feito invisíveis. Apenas invisíveis, eis que Peroe as tocava, ouvia, e sentia-lhes o cheiro. “Vocês estão me vendo?”
Rapina se disse apavorada, apesar de já ter vivido dias e noites de extrema tribulação. “A invisibilidade é um atributo dos deuses”. Peroe se prostrou diante da ave. “Levanta-te, homem, pois não sou uma deusa”. Risui se curvou aos pés do marido e se pôs a adorá-lo. Crianças choravam, cheias de medo. Rapina pediu calma e silêncio: “Murilo Mendes escreveu – o invisível não é irreal; é o real que não é visto”. Houve gritaria geral. Estariam fadados à invisibilidade? Como viver sem ver os pais, os filhos, as esposas, os maridos, os amigos? A ave se irritou: Pois se preparassem para a eterna invisibilidade.

(O sonho de Risui) Uma voz sussurrava ao ouvido de Risui: “Vai começar o período das transformações”. A moça não se assustava, apesar de não saber quem lhe falava. “Todos vocês serão transfigurados em animais, plantas e objetos”. Risui suplicava: “Não me transforme em serpente, por favor” E à sua frente foram aparecendo acauãs, bonecos, cactos, doninhas, éguas, flautas, gerânios etc. Concluída a metamorfose – Risui se viu feita jequitibá –, a voz se exaltou: “Agora estamos num tempo anterior ao homem. Tudo é apenas natureza. Nada de cultura. Vivam, pois, no Paraíso”. E se calou. Risui queria falar, locomover-se, abraçar Peroe e os filhos, porém só conseguia mover galhos e folhas e emitir sons sem significado. No entanto, – consolava-se – podia ver e entender quase tudo, quando antes só via o mais próximo de si e entendia pouco de pés, chão, árvores, seres vivos.
Rapina iniciou um canto de louvor e alegria. As pessoas riram e se puseram a dançar em ciranda. Ela voou para o centro da roda, abriu as asas, balançou-as pausadamente, provocando vento. Pediu silêncio por um instante. Daquele momento até o anoitecer todos deveriam se dedicar a jogos, corridas, danças, banhos no rio e nas cachoeiras e tudo o mais que os divertisse. Ao se pôr o sol, exaustos, todos deveriam se dirigir à grande cabana, para o sono coletivo. “Nesta noite vocês terão sonhos espetaculares. Num deles eu voltarei a voar e lhes darei asas. Voaremos, em bando, pelos céus mais altos, até alcançarmos o éden, o paraíso, a terra-sem-males, onde viveremos para sempre. Em outro sonho, o chefe espiritual de vocês, o pajé, o xamã, seja lá como o chamem, dará a seguinte ordem: “Enquanto ela estiver dormindo, vocês amarrarão pernas e bico e arrancarão as penas. Impedida de voar e de me defender, vocês a sacrificarão, queimarão e comerão a carne, para que adquiram os poderes dela”. O terceiro sonho terá um pouco de cada um dos outros, com um final diferente: Eu me livrarei de vocês e voarei para o mais longe daqui, para nunca mais voltar, e vocês ficarão nesta terra como sempre estiveram.” Boquiabertos, os habitantes de Anipar se prostraram diante da ave: Não, não queriam aqueles sonhos. Não queriam o paraíso nem voar nem devorar Rapina. Queriam apenas a mesma vida de sempre. A ave não lhes deu ouvido: “Quem não tiver os sonhos já programados dormirá para sempre”.
A aldeia amanheceu coberta de sombras estranhas, como se grandes aves voassem serenamente.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Gilberto Mendonça Teles: 50 anos de poesia (Adelto Gonçalves*)


(GilbertoMendonça Teles)


Meio século de poesia não é para qualquer um. Ainda mais se a poesia é de alta qualidade. Pois foi exatamente meio século de atividade poética que Gilberto de Mendonça Teles comemorou em 2005. Para assinalar a data, Eliane Vasconcellos reuniu no livro A plumagem dos nomes/Gilberto: 50 anos de Literatura, de 812 páginas, não só poemas dedicados ao poeta – entre os quais se destacam dois saídos da pena de Carlos Drummond de Andrade em 1970 e 1971 – como poemas do autor traduzidos para outros idiomas, além de depoimentos, resenhas e ensaios publicados em jornais e revistas, prefácios, excertos de teses e dissertações, entrevistas do homenageado, cartas recebidas e fotografias de várias épocas.
Que o livro só tenha saído em 2007, pela Editora Kelps, de Goiânia, com o apoio da Secretaria de Cultura da Prefeitura local, explica-se pela dificuldade da organizadora em juntar tão farto material sobre o poeta. Além de textos publicados em jornais e revistas de todo o mundo lusófono, reúne as comunicações apresentadas no seminário “50 Anos de poesia de Gilberto Mendonça Teles”, realizado de 10 a 14 de outubro de 2005, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
Deste articulista, consta a resenha “A influência de Camões no mundo lusófono”, publicada no suplemento Das Artes Das Letras d´O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 18/7/2004. De autores ligados a´O Primeiro de Janeiro, consta ainda o prefácio que Arnaldo Saraiva, professor de literatura brasileira da Universidade do Porto, escreveu para Falavra (Lisboa, Dinalivro, 1989), destacando que Gilberto Mendonça Teles pertence à raça dos poetas-professores, uma linhagem que abriga nomes como Samuel Beckett, Dámaso Alonso, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, entre outros.
Mas há ainda contribuições de outros críticos e professores portugueses, como Agostinho da Silva, Fernando Cristóvão, Jacinto do Prado Coelho e João Bigotte Chorão e da professora Vânia Pinheiro Chaves, há muito tempo radicada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Além, é claro, de textos de grandes poetas brasileiros como João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Joaquim Inojosa, Ferreira Gullar, Ledo Ivo, Manuel Bandeira e Ivan Junqueira e críticos e professores como Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde), Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi, Antonio Carlos Secchin, Fábio Lucas, José Guilherme Merquior, Adriano Espínola, Fernando Py, Leodegário A. de Azevedo Filho, Silvio Castro e Melânia Silva Aguiar, bem como estrangeiros de renome como o crítico espanhol Carlos Bousoño, o poeta espanhol Jorge Guillén, o alemão Curt Meyer Clason, tradutor de Guimarães Rosa, e a professora italiana Luciana Stegagno Picchio.
II
Gilberto Mendonça Teles nasceu em 1931 em Bela Vista de Goiás, antiga Suçuapara, e morou em várias pequenas cidades do interior goiano, acompanhando a saga do pai comerciante. Viveu em Goiás até 1965, quando, já professor experiente, ganhou bolsa para estudar em Lisboa e Coimbra. Depois, já professor concursado da Universidade Federal de Goiás, lecionou de 1966 a 1970 no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, em Montevidéu, por conta do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Foi aposentado em 1969 por ato discricionário do regime militar (1964-1985) em 1969, o famigerado Ato Institucional nº 5, tendo se transferido no ano seguinte para o Rio de Janeiro, onde começou a lecionar Literatura Brasileira e Teoria da Literatura na PUC-RJ, apesar das investidas da polícia política da ditadura. A seguir, transferiu-se para Porto Alegre, onde obteve os títulos de doutor em Letras e livre-docente em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em 1983, foi nomeado professor catedrático visitante de Literatura Brasileira na Universidade de Lisboa, onde ficou até 1985. Depois, transferiu o cargo de professor titular da Universidade Federal de Goiás para a Universidade Federal Fluminense, aposentando-se nele em 1990.
Apesar de todo esse périplo, é natural que a paisagem goiana assuma-se como pano de fundo de boa parte de sua produção poética. A paisagem, no entanto, é apenas pretexto para evocar a infância, as lendas do sertão e as figuras que povoaram o seu tempo de menino, numa poesia que lhe permite homenagear a terra natal, como o faz em “Lira Goiana”, de Saciologia Goiana, que reúne poemas escritos entre 1970 e 1981: (...) quero ser como um instante de arco-íris/ nos olhos das mulheres de Goiás.
Situado arbitrariamente na geração de 45, provavelmente porque em seus primeiros versos ainda convirjam influências parnasianas e simbolistas, Gilberto Mendonça Teles é um legítimo representante da geração de 60 não só por uma questão de idade como por praticar uma poesia impregnada de irreverência, inconformismo e, especialmente, experimentalismo, como são prova os poemas de Improvisuais, livro parcialmente inédito até a edição de Hora Aberta: poemas reunidos, que saiu em 2003 pela Editora Vozes, de Petrópolis-RJ, com organização de Eliane Vasconcellos e prefácio (que mais é um estudo introdutório) do professor Angel Marcos de Dios, catedrático da área de Filologia Galega e Portuguesa da Universidade de Salamanca, Espanha.
Hora Aberta guarda algumas das experiências mais avançadas já feitas em poesia – que se confundem com arte fantástica, surrealista, sem deixar de recordar os experimentos dos concretistas. Lírico assumido – “No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado”, diz na abertura do poema “Modernismo” de Cone de Sombras, que reúne peças escritas entre 1980 e 1985 –, o autor chegou, no 50º aniversário de sua atividade poética, a um estágio em que seu trabalho já prescinde dos rótulos e começa a influenciar novas gerações.
III
Ao estrear em 1955, aos 24 anos de idade, com Alvorada, e publicar logo depois, em 1956, Estrela d´Alva, ambos em edição de autor, e Planície, em 1958, ainda em Goiânia, Gilberto Mendonça Teles já despertara a atenção pelo lirismo que marcava seus versos. Não houve quem, ao resenhar seus primeiros livros, não saudasse o aparecimento de um poeta lírico e de aspirações nobres e previsse produções futuras da melhor qualidade.
Com mais de mil e cem páginas, Hora Aberta, além de abarcar 16 livros, quase todos premiados, inclui Álibis (2000), Arabiscos (inédito) e Improvisuais, cujos poemas têm sido divulgados em antologias. Traz na íntegra os dois primeiros livros, Alvorada e Estrela-d´Alva, de que se havia publicado – nas três edições anteriores – uma pequena seleção, reunindo ainda Poemas Avulsos, saídos à luz em jornais e revista antes da estréia e, no fim do volume, Caixa-de-Fósforo, aparecido em 1999.
Ao optar por reunir na abertura suas produções mais recentes, como as peças de Arabiscos, o autor convida o leitor, logo de imediato, a conhecer o seu estágio atual como sinalização autocrítica para o que veio antes. Dessa maneira, é possível, de modo inverso, acompanhar o percurso de um trabalho que pode ser dividido em três
passagens, como sugere no prefácio o professor Angel Marcos de Dios.
A primeira compreende o período de assimilação das técnicas retóricas dos clássicos, românticos, parnasianos e simbolistas, que corresponderia aos dois livros iniciais em que o poeta dirige-se ao seu “eu-poético”, voltado apenas para o seu interior, suas emoções: Deixa rolar no caos do pensamento largo/ a profunda amargura, o sofrimento amargo/ que habitam na tua alma entre ânsias sufocadas,/ entre anseios de amor e esperanças frustradas, diz no poema “Exortação” incluído em Alvorada.
Versos juvenis, os poemas de Alvorada trazem em seu bojo as matrizes românticas que presidem as primeiras manifestações do poeta, como se vê em “Lamento”: Pobre de ti, não tens uma ilusão sequer!/ Nunca provaste um lábio ardente de mulher/ virgem. Pungentes ais, nem suspiros tiveste/ De um seio de mulher. Qual sombrio cipreste/ passaste a mocidade à beira de um jazigo,/ desse jazigo obscuro e que trazes contigo/ dentro do coração, onde, parvo, enterraste/ todo o teu ideal e tudo o que sonhaste. No artista ainda jovem, surpreende a domínio que exibe da métrica tradicional, embora nunca deixe de acrescentar aspectos de renovação aos sonetos.
Já a segunda passagem do itinerário começaria com Planície, seguindo até Arte de Amar, de 1977, em que o poeta já se mostra mais preocupado com a linguagem. É exatamente a fase em que Gilberto Mendonça Teles alcança o reconhecimento como um dos críticos mais importantes do País, autor de pelo menos três obras fundamentais nos estudos literários: Drummond – a Estilística da Repetição, de 1970, Camões e a Poesia Brasileira (hoje na 4ª edição, revista e aumentada) e Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (hoje na 16ª edição), ambos de 1972.
Da segunda etapa, são pelo menos três grandes livros – Sintaxe Invisível, de 1967, A Raiz da Fala, de 1972, e Arte de Amar, de 1977. De A Raiz da Fala, é o poema “Signo” em que as experiências com metalinguagem se radicalizam: A tua forma é o movimento/ da música na fraude do pântano./ O teu rasto, o sinal cifrado/na linguagem do mar.
Neste período, que duraria quase duas décadas – pouco mais que o tempo de uma geração, segundo o célebre critério de Ortega y Gasset –, muitos críticos acreditam que a poesia de Gilberto Mendonça Teles tenha alcançado o seu maior grau de transcendência, o que deixaria supor que, a partir daí, teria entrado em declínio. Essa avaliação, no entanto, não corresponde à verdade porque é na fase seguinte – a atual – que o poeta aparece livre de todas amarras e influências, com uma linguagem própria, inconfundível.
Essa terceira fase, que se refere aos livros mais recentes, é de uma poesia mais denotativa, com uma linguagem o menos metafórica possível que busca decididamente a ironia e o humor. É marcada não só por um retorno à infância como por um psiquismo doloroso inspirado nas idéias de Gaston Bachelard, que, aliás, oferece a epígrafe que abre Plural de Nuvens, livro que reúne poemas escritos entre 1982 a 1985.
Se tudo o que o poeta toca não vira ouro, a exemplo do Rei Midas, pelo menos se transforma em linguagem: Tudo em mim é desejo de linguagem, diz o primeiro verso de “Poiética (fragmento)”, poema de Álibis, de 1997, que bem define a sua atual fase. Esse verso, aliás, pode ser tido como a metáfora-catalisadora de sua obra, até porque resume a atitude poética que levou muitos críticos a considerá-lo o “poeta da linguagem”, epíteto que desde então o acompanha.
Em “Poiética (fragmento)”, a contradição entre razão e experiência está posta de forma rigorosa: (...) minha própria emoção, esta passagem/ à espessura das coisas, o convite/ ao mais além da sombra e do limite/ e esta confirmação da realidade/ na plumagem dos nomes, na verdade,/ têm seu lado e segredo, é pura essência/ do que se fez em silêncio e reticência. O entendimento não alcança o que vai além do corpo, mas a poesia pode intuí-lo: (...) a criação se dá quando o perdido/ se transforma em sinal que alguém atende,/ alguma boa fada, algum duende,/ uma força maior que nos excita/ a deixar logo alguma coisa escrita.

___________________

A PLUMAGEM DOS NOMES/GILBERTO: 50 ANOS DE LITERATURA. Organização, introdução e notas de Eliane Vasconcellos. Goiânia: Editora Kelps, 2007, 812 páginas. E-mail: kelps@kelps.com.br
HORA ABERTA: POEMAS REUNIDOS, de Gilberto Mendonça Teles. 4ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2003, 1113 páginas. E-mail: editorial@vozes.com.br

__________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
/////

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O sétimo aniversário de Branca de Neve (Nilto Maciel)





No final da tarde, Sandra e Morais davam ordens aos garçons e os últimos retoques no salão de festas, arrumavam os docinhos, os enfeites. Não paravam de falar aos filhos para que se comportassem. Nada de briguinhas, confusões. Queriam uma festa sem defeitos. Luzia, fantasiada de Branca de Neve, ia e vinha pelo salão, sorriso em todo o rosto. Olhava os ornamentos das mesas e paredes. Vistoriava o pequeno palco. Bruno se acercava das guloseimas, pronto a dar o bote. Saulo brigava com o irmão. Não metesse a mão em nada. Morais completava a admoestação. Nenhum deles devia se antecipar ao início da festa, servindo-se antes da chegada dos convidados. Impacientavam-se todos. As crianças corriam, os pais fumavam e se irritavam. E nada de convivas. “Será o trânsito?” Inquieto, Morais chamou um garçom. Sandra se exaltou. O marido não devia beber antes da chegada dos amigos. “Cerveja ou uísque?” A senhora acendeu mais um cigarro e se pôs a andar pelo salão, a revistar adornos e manjares. Um rapaz se apresentou, carregando uma filmadora. Morais pôs-se a dar-lhe instruções. Os meninos ora corriam, ora se abeiravam das mesinhas repletas de gulodices. O sol se punha atrás dos prédios.
A chegada de Xênia, Osvaldo e filhos causou exaltação nos anfitriões. Alegria geral, abraços, risos. Iniciaram-se as filmagens. A menina Ana correu ao encontro de Luzia e entregou-lhe um presente. As demais crianças se fizeram arredias. Sentaram-se os quatro adultos. Morais sorvia goles de cerveja. Cheio de euforia, gritou pelo garçom: trouxesse copos para o casal amigo. Sandra reclamou: queria também um copo. Luzia abriu o embrulho, com pressa, sob as vistas dos irmãos e visitantes. Bateram palmas, deram vivas. A aniversariante arrastou a amiguinha pelo braço: iria mostrar-lhe todo o salão. Branca de Neve e os Sete Anões, desenhados e pintados em folhas de cartolina e isopor, anunciavam fantasias. O palco, a cortina, o pano de fundo. “Vai haver uma peça, sabia?”
Sandra anunciou a chegada de Elizabete, Jonas e a pequena Vanessa. E levantou-se para recebê-los. A menina correu na direção de Luzia, presente à mão. Mais abraços, beijos, parabéns. Morais gargalhava, enquanto Jonas se esforçava para mostrar a musculatura do braço. Sandra falava alto. Os garçons serviam bebidas e salgadinhos.
Adão surgiu de mansinho, a esbanjar fumaça pelas narinas. Os anfitriões se disseram surpreendidos. Não o esperavam para tão cedo. O convidado conduzia um objeto embrulhado em papel colorido. Perguntou pela aniversariante. Gritaram-lhe o nome. Luzia sorriu e correu. Apresentavam Adão aos casais convidados quando se anunciaram Onira, Getúlio e duas meninas. Elizabete cruzou as pernas. Onira ajeitou os óculos, enquanto acariciava a filha: “Continua dando aulas?” Morais fumava, Sandra ria e gargalhava: “Continue filmando, rapaz.” Elizabete gritou por Vanessa. As meninas recém-chegadas se dirigiram a Luzia. Queriam entregar uma lembrança, apenas uma lembrancinha. Getúlio passava mão na testa, e parecia rir ou chorar. Osvaldo olhou para o relógio de pulso. Adão dava risada a gosto. Luzia controlava o sistema de som. As crianças iam e vinham pelo salão, olhos nas iguarias. Umas dançavam, outras conversavam. Sandra chamou a aniversariante. Hora de dar início à encenação. Rebuliço no salão. Mais convidados chegavam, carregados de mimos e sorrisos. “Vamos iniciar o teatro. Apaguem as luzes e silêncio.” Bateram palmas. A anfitriã dava ordens ao cinegrafista: não deixasse escapar uma só ação da peça. No palco, acendem-se algumas luzes. Dois personagens se mostram em vestes reais. Mimam uma boneca: a filha há tempos esperada. O rei (Morais) se dirige à rainha (Sandra): A filha teria por nome Branca de Neve. A platéia bate palmas. Xênia ajeitava o cabelo, olhos fitos no palco. O narrador anuncia a morte da rainha. O rei se põe a chorar. Sandra retira-se do tablado e corre à mesa, a rir. Movimento inverso realiza Xênia. O narrador anuncia: O rei terá nova esposa. Um padre passa a celebrar o casamento real. Getúlio mete mão no bolso. A meninada permanecia silenciosa. A nova rainha se mira frente ao espelho mágico: “Existe alguém mais linda do que eu?” A garotada grita “existe, existe.” Jonas alisava o queixo. Sandra fumava. Luzia entra em cena: “Sou Branca de Neve.” A rainha se observa diante do espelho e pergunta quem é a mais bela do reino. Uma voz vinda dos fundos grita: “Há uma menina muito mais bela do que Vossa Majestade”. Morais se retira do palco e chama um garçom: “Mais cerveja, que o rei está morto”. Risos e gargalhadas. Luzia pede silêncio, irritada. Sobe ao estrado Jonas. A rainha se dirige a ele e ordena: “Leve a menina ao bosque, mate-a, arranque o coração e o traga a mim”. Onira cochichava para Sandra. O caçador arrasta a princesa pelo braço. A menina grita e cai. Riem na platéia. Sandra brada: “Cuidado com minha filha.” Luzia se ajoelha e pede clemência: “Não me mate, por favor.” Jonas, o caçador, ergue a mão, olha para a menina e também se ajoelha: “Perdão, princesa. Vou enganar a rainha. Ela quer o seu coração, como prova de que a matei. Vou, pois, matar um cervo e arrancar-lhe o coração. Fuja para bem longe daqui”. Luzia corre para o fundo do palco e Jonas sai pela lateral. Reaparece no salão, a rir e ajeitar a camisa. Batem palmas. Onira olha de viés. Xênia se ergue e se retira. Branca de Neve reaparece no palco; ao fundo o desenho de uma casinha. Deita-se numa caminha e adormece. Jonas esfrega as mãos e levanta os ombros. Entram no palco sete anões, representados por meninos e meninas. Onira cutuca um pé de Sandra. A princesa desperta. Os anões se põem a conversar com Branca de Neve. Sandra quebra um copo. Alvoroço no salão. Morais fumava e batia pé no chão. Reaparecem a rainha e o espelho: “Quem é a mais bonita do reino?” Uma voz rouca ecoa no salão: “A mais bela de todas é Branca de Neve.” A rainha se desgrenha. Risos, vaias. Getúlio ajeita o cabelo com mão. Uma bruxa (Sandra), disfarçada de velhinha, carrega maçãs numa cestinha e bate à porta da casinha dos anões. Jonas enche a boca de empadas. A bruxa oferece uma maçã à princesa. Gritos, conselhos: “Não aceita a maçã; é envenenada.” Luzia sorri, olha para a platéia: “Eu tenho que aceitar e comer. Faz parte da história.” Dá uma mordida na maçã e cai. Os anões gritam, choram. Os convidados batem palmas. Xênia olhava para as coxas de Getúlio. Entra em cena o príncipe, representado por Saulo. Elizabete aproxima-se de uma das mesas, rebolando-se. A princesa ressuscita. Luzia se ergue e abraça o irmão. O narrador fala do casamento da princesa. E encerra, em voz pausada: “E viveram felizes para sempre.” Mais palmas, assobios, aplausos. Xênia pinta-se diante de espelhinho, calada. As luzes se acendem. Palmas, gritinhos, ovações, agitação na platéia. As crianças se dispersam, correm. Sandra olhava para a barriga de Jonas. A aniversariante pergunta se está na hora dos parabéns. Sua mãe levanta-se, retira-se da mesa e grita: “Vamos cantar os parabéns.” A criançada se agita e corre em direção à mesa maior. Luzia se posta junto ao bolo. Todos cantam “Parabéns pra você”. O grande bolo com sete velinhas é cercado de adultos e crianças. Aparecem fotógrafos de todos os lados. Luzia sopra e apaga as velas do bolo. O primeiro pedaço entrega à mãe ou ao pai? Abraços, beijos, gritos, cantos. Inicia-se a distribuição do bolo em pratinhos. Osvaldo não pára de falar: “Bebida é fundamental, tudo é droga.” Getúlio ajeita a cabeleira e anuncia, baixinho, para Osvaldo: “Sonho que sou escravo.” “Escravo da mulher? Só se for da melhor.” “Com mulher de farda nem o Diabo pode.” Onira deixa a mesa, irritada. Sandra sai atrás dela. “Ele tem outra.” Getúlio olha para elas e se volta para Osvaldo: “Casamento não foi feito para mim.” Adão ajeita os óculos e discorre sobre sexo imaginário. Xênia alisava a face: “Amizade com mulher, até certo ponto.” Onira olhava para o busto de Xênia: “Sabia do nascimento do bebê de Oxesiscrana?” Adão ajeitou os óculos, cigarro nos dedos, e separou-se do grupo. Osvaldo chupou o copo: “Todo governante é ditador.” “Todo ditador é governante.” “Não, toda mulher quer governar homem.” Morais olhava para Jonas: “Clube de futebol virou negócio.” “Tudo é negócio mesmo.” “Como é aquela frase? Tempo é dinheiro.” “Time is money.” Adão acendeu um cigarro: “Droga significa volta à inocência.” “Usar droga para não ser adulto?” “Ele quer dizer o seguinte: drogado parece criança.” “Não é bem isso.” Elizabete piscou para Sandra: “Homem tem de ser fogoso.” “Muito fogo para se queimar.” “Não vá me queimar com esse cigarro.” Sandra fumava e olhava para os quadris de Elizabete: “Homem só pensa em sexo na hora, pouco antes, muito antes, mas só por um minuto.” Sandra, Elizabete, Xênia e Onira se dão as mãos e se põem a dançar. “Na Idade Média o casamento...” “A idade média para o casamento deve ser aos vinte anos.” “Cadê os sete anões?” “Mais cerveja aqui, garçom.” “ E a aniversariante já fugiu com o príncipe?” “Quem quer bolo?” “O príncipe se escafedeu, se safou.” “Morais, ainda tem uísque?” Jonas mordeu orelha de Elizabete: “Adoro orelhas.” Ela se esquivou: “Adoro minhas crianças e odeio cigarro, bebida, conversa fiada.” Um casal com filhos se despedia dos anfitriões e da aniversariante. Derrama-se cerveja numa mesa. Crianças pulavam, corriam, se esgoelavam. Onira chamou o marido. Adão tentava conversar com Getúlio: Sabia o significado dos anões? “Uma louca!” Sabia? “São os sete pecados capitais?” Mais convidados se retiravam. “Por que já vão?” Espoucavam balões. “Mais cerveja?” Sandra se pôs a cantar como os anões. Palmas, assobios. Um dos anões chorava, aos berros. Outros se iam, atrás dos pais. Os anfitriões agradeciam os presentes e as presenças dos convidados. Os garçons cambaleavam. O cinegrafista ria. Pedaços de bolo e salgadinhos espalhados no chão. Cerveja e refrigerante derramados. Gritavam, vociferavam, gargalhavam, dançavam, corriam, caíam, choravam, reclamavam.
Súbito as luzes se apagaram. “É o fim do mundo.” “Passam anos e vêm anos e é essa mesma coisa.” “É o caos, meu amigo.” “Mãe, cadê você?” O vulto de uma bruxa passeava pelo salão. Uma voz sibilava: “A morte vem vindo.” Havia medo nos olhos das crianças e angústia em cada adulto. Meia-noite.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A noite da noite (Nilto Maciel)

























Maria sentada num banco da praça. Arranja a blusa, passa dedos entre cabelos. Alisa pêlos dos braços, passa perna sobre outra. Bate pé no chão. Lixo amontoado junto ao tronco de árvore. As praças poderiam ser imensos pomares. Frutas para famintos e felizes. Do húmus da terra nasceria a paz social. Ora, para que se preocupar com a felicidade coletiva? Precisava pensar em si mesma, viver mais, varar o tempo com serenidade. Pôs-se de pé e a andar pela calçada. Crianças brincavam, mulheres conversavam, homem lia jornal, dois cachorros catavam aventuras. Por onde andava o diabo? Talvez enroscado num galho da árvore. Em forma de formiga ou de lagarta? Maria ajeitou a blusa e deu meia-volta. Melhor não passar perto das crianças. Talvez se assustassem, chorassem, corressem, caíssem. Melhor ainda não se aproximar do homem do jornal. O grande crime do dia na manchete poderia estar fazendo o leitor pitar cigarro. Maria aligeirou o passo e se dirigiu ao outro lado da praça. Aproximou-se de um banco e sentou-se. O tempo passava com lentidão ou pressa? Quantos pensamentos já tivera desde a chegada ao logradouro? Quantas formigas mortas? Quantos crimes aconteceram na cidade? Por onde andavam Airam, Aimar, Ramia e Riama? Em casa, nas ruas, na vida? Pouco importava. Ora, ora, carecia de varar o tempo, puxar o futuro para o presente, torar os galhos do passado. E se nevasse naquele instante? Não, só havia neve no outro lado do mundo. Irritou-se e cruzou as pernas. Deu um grito – tempo! – de assustar cachorros, crianças, mulheres, homens solitários, todos os diabos escondidos atrás das árvores. Tempo, tempo, tempo...
***

Entrou o carro de Airam numa ruela. Como ler a carta logo, senão ali? Estacionou o veículo junto à calçada e desligou o motor. Deu beijo no envelope e rasgou-lhe a borda. Papel branco, letra miúda. Leu a data. “Airam, meu amor”. Levou o papel ao rosto. Cheiro de mofo ou de pecado? Seria real a existência de outra ou estaria com ciúme? Como não pecar todos os dias, se viver exigia olhar o mundo? Palavras, verbos, todos os verbos, substantivos, os mais comuns, adjetivos inúteis... Amor, ciúme, saudade, lábio, bocas, olhos, nariz, corpo, gozar, rezar, parir, viver. Tudo cabia numa carta, numa promessa, numa mentira. Jogou o papel no banco do carro. Meninos rumavam para a escola, risonhos, livros e cadernos debaixo dos braços. Nem olharam para o carro verde. Por que não conversar com Maria, tão ajuizada? Não, melhor com Aimar. Ou com Ramia? Não, Ramia falava demais. E Riama falava de menos. Meteu a chave na fenda da ignição e o motor zuniu. Precisava rodar pela cidade, esquecer o amor, o passado, viver nova aventura. Sarar feridas, sanar-se de vez. Passou pelos meninos, em disparada. Ouviu risos e gritos. Ainda sofreriam por amor ou desamor. Se não morressem cedo num grito de pavor.
***
Sentou-se Aimar numa cadeira, junto a uma mesa, e circunvagou o olhar pelas dependências do clube. Crianças e jovens nadavam nas piscinas, corriam, gritavam. Assentou óculos escuros à frente dos olhos. Agarrou um livro e se pôs a folheá-lo. Um garoto passou à sua retaguarda a borrifar água em torno de si mesmo. Alguns respingos molharam o livro. Aimar fez menção de lançar o objeto na direção do menino, que correu sem perceber o gesto inimigo. Ao longe, jogavam basquete. Moças com biquinis minúsculos passeavam para lá e para cá. Rapazes musculosos riam e cochichavam. Aimar abriu o livro. Rimar biquíni com mini ou com zine? Ou não rimar jamais? Buscou um lápis na bolsa ou no bolso. Fez um rabisco num verso. Rabasco, rabesco, rabisco, rabosco, rabusco. Conhecia um basco feioso, um Bosco bonito e buscava um besco ou um bisco. Pediu ao garçom creme com chocolate e leite. Nada de prato, colher e garfo. Queria luxar à sua maneira. Tomar o líquido sem temer o sólido. Uma ponta de sol inundou-lhe as pernas. Estirou-se mais na cadeira e jogou o livro sobre a mesa. Se Maria gostasse de clube, ela, Aimar, não estaria tão só. Mas Maria gostava mais de andar e andar. Perder-se nas ruas, no meio da multidão. E Ramia? Preferia olhar o mundo. Um clube para ela parecia muito pequeno. Como comparar uma piscina com o mar? Ora, para que comparações? Desde menina a falar de mares e marés. Nada parecida com Airam, tão ocupada com o amor. Como andava transtornada! Não olharia para a piscina, os rapazes, o livro, mesmo o mais repleto de amor. Talvez Riama gostasse de se sentar ao seu lado, fechar os olhos, falar de ontem, da manhã. Por onde andava Riama? Olhou para o livro aberto pelo vento. A leitura do livro pelo vento. Livro lido pelo vento.
***
Ramia sentou-se junto a uma barraquinha. Banhistas nadavam, pulavam, rolavam, brincavam, gritavam, riam. As verdes águas bravias. Longe pescadores remavam barcos. O vento levantava areia. A moça se ergueu e correu para o mar. Rapazes se voltaram para ela. Disseram graças, riram. Ela não lhes deu ouvido e se jogou nas ondas. Nadou, nadou, nadou. O sol esquentava tudo: olhos, águas, ventos. Ramia voltou à praia, sacudiu-se, ajeitou os cabelos e caminhou para o ponto de partida. Os rapazes repetiram as graças e ela mudou de pouso. Em pé se pôs a secar o corpo. Sentou-se, ajustou os óculos escuros no rosto e se deixou a olhar para o mar. Talvez tivesse chegado o tempo de arranjar namorado. Quem? Pedro Marinho ou Paulo Ribeiro? Riama não gostava deles. Uns vagabundos. Maria não os conhecia, ou, se os conhecia, deles não falava. Aliás, quase não falava, o tempo todo na rua, a bater pernas. Coitada! Examinou os dizeres do vento. Fechou os olhos para ouvir mais a voz do mar. Se sereia fosse, nadaria até o fim das águas, o fundo do oceano. Não, nada de ouvir ventos. Ao seu espírito pertencia olhar o mundo. Olhar tudo, do grão de areia ao Sol, da formiga ao Mar, dos pêlos de seu corpo ao chão. Arregalou os olhos o quanto pôde, até que o verde do mar lhe pareceu mais verde ainda.
***
Riama entregou o bilhete ao rapaz do circo e se dirigiu à arquibancada. Acomodou-se ao lado de uma mocinha. Lembrava Ramia quando mais nova. Não, o nariz da menina parecia mais achatado. Além do mais, Ramia não gostava de circo. Airam, sim, adorava animais. Cachorros, sobretudo. Ultimamente, porém, andava esquisita. Não conversava mais, trancava-se no quarto, acordava tarde. No picadeiro um homem forte se anunciou. Tigres enormes em jaulas. A menina se assustou, deu um gritinho. Não queria Riama ver a morte. Não queria a morte da hiena. Não queria o dardo no lombo do leão. Não queria domar a fera. Não queria sedar o tigre. Não queria ouvir uivar o lobo. Não queria laçar o touro. Queria no circo ver a vida. Queria ver o pavão e seu leque de cores. Todas as cores da natureza. Olhou as pessoas estarrecidas. Quis se olhar, mas não se lembrava do espelho. O palhaço falava e cantava sem parar. O outro palhaço imitava o primeiro. As crianças gargalhavam. O picadeiro era um altar agitado. Riama sentiu tremerem as pernas. E se a fera pulasse para fora da jaula? Quem poderia deter a sua fúria? Ó homem, temei o temível! Tambores tocaram. Bateram palmas, aplaudiram com estardalhaço. Não queria Riama ver a morte. Não queria mais o circo, o temor, o riso, a corda bamba. E se retirou, em prantos.
***
Cansada, sentou-se Maria no sofá. Abotoou a blusa e olhou para Ramia. Por que não voltavam ao pomar, todos os dias? Colheriam as melhores frutas, correriam, como antigamente, subiriam aos galhos mais altos. Riama se apresentou, a enxugar os cabelos com a toalha. Não se lembravam mais do vento? O verde do mar nunca mudava de cor. Maria abaixou a cabeça. Tudo mudava, pois se não mudasse seria inerte. Queriam ver como ela mudava de lugar? Ergueu-se e se pôs a passear pela sala. Sentada numa poltrona, Aimar despertou, como se estivesse muito longe dali. Pensava no livro que lia há dias. Não tinha nenhuma história. Apenas uma infinidade de ações, acontecimentos, numa confusão de personagens indo e vindo, em permanente vai-e-vem. Maria se irritou. Deixasse Aimar de se iludir. Por onde andava Airam? Estou aqui. E se apresentou, sonolenta. Maria cruzou as pernas. Por onde andava o diabo? Airam sentou-se numa cadeira. Por que não compravam mais um sofá? Naquele só cabiam duas pessoas. Três, se magras. Maior do que o amor só o ciúme. Deixasse de tolices. Somos todas tolas leitoras de cartas e livros. Pareciam uma só pessoa. Ramia fechou os olhos. Como sentia piedade das outras! A luz se apagou de repente. Seria a noite? Sim, a noite do tempo, a noite da morte, a noite dos olhos, a noite dos livros, a noite do ciúme. A noite da noite.
/////

sábado, 1 de dezembro de 2007

O diuturnalismo literário de AscendinoLeite (Franklin Jorge)

























[franklinjorge@yahoo.com.br]

Com a morte de Josué Montello e de Antonio Carlos Villaça, reina solitariamente, no promontório do humanismo literário, seu último grande representante brasileiro, Ascendino Leite [Conceição do Piancó, 1915-], há mais de setenta anos surpreendendo-nos com o seu diuturnalismo literário, através do qual consigna e reflete com inteligência, perspicácia e sabedoria a vida das idéias na cidadela dos homens.
Obra que resulta de uma longa e obstinada paciência, só comparável em grandiosidade e minúcia aos cadernos de Leautaud – que preferia os animais aos homens e viveu grande parte de sua vida na companhia de uma macaca –, erigiu Ascendino, sem cansar nem desesperar das fraquezas humanas, um prodigioso túmulo de palavras – o seu “jornal literário” que não paramos de admirar, como culminância de uma arte literária que, entre nós, sobreviveu à cultura do êxito que faz a diferença numa época atéia.
Não há, em toda a literatura em língua portuguesa, nenhuma obra, no gênero, que se lhe compare. Somente Miguel Torga poderia ombrear-se com Ascendino, pois o seu Diário – igualmente volumoso – também constitui um monumento de inteligência e sensibilidade no trato das letras, que, nas mãos desses dois mestres, são a obra cabal da imortalidade mesma.Escrevendo em qualquer gênero, faz bem tudo o que faz, como o prova o diuturnalismo desse infinito jornal literário que se erige em monumento, compondo o panteão da nossa nacionalidade, que se faz, aqui, pelo esforço do talento de um autêntico homem de letras. Na ficção, também; para ser mais exato, no romance, gênero no qual se revelou um grande artífice, digno de figurar ao lado de outros que tanto louva, como Lúcio Cardoso e Walmir Ayala, como o próprio Ascendino, eméritos diaristas.
Revela-se em tudo o que escreve um notável estilista. Expressando-se num estilo ático, duma nitidez e concisão adequadas à substantividade de seus conteúdos inteiramente amalgamados de essência, dir-se-á dele que se trata de um clássico, capaz, no entanto, de se beneficiar do conhecimento posterior referido por Borges. Um clássico, pois, moderno. Contemporâneo. Por mais de setenta anos, tem registrado a crônica das artes, sem concessões ao compadrismo que sempre, de alguma forma, impera também sobre a cultura, como expressão do famoso jeitinho brasileiro. Avulta, no que escreve, a inteireza do seu compromisso com o idioma e, também, um certo mau humor – refinadíssimo – para com o embuste e a contrafação.
São quase duas dezenas de títulos [sem contar as obras de ficção, como A viúva branca etc] a fatura desse diuturnalismo literário praticado por Ascendino Leite, em estilo de homem, como uma espécie de apocalipse escrito com esse incrível bom senso de experiência feito. Confessando-se modestamente uma testemunha do seu tempo, Ascendino, a rigor, vai mais além do mero registro dos fatos – acrescenta-lhes o estilo, o seu estilo, seguramente forjado por suas leituras. Um estilo que reúne em si a ética do escritor e do cidadão que acreditam no belo e no bom.
/////

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Acerca da revista Caos Portátil nº 5 (Nilto Maciel)




A tradição cearense de publicação de jornais e revistas literárias se enobreceu em 2005 com a criação de Caos Portátil, Um Almanaque de Contos, por iniciativa dos escritores Jorge Pieiro e Pedro Salgueiro. Longe da tradição, porém, o periódico é dedicado exclusivamente ao conto. Sem deixar de lado os clássicos, os mortos e os contistas mais experimentados (alguns com vários livros publicados), os editores dão destaque aos mais jovens, aos principiantes. A edição nº 5, de 2007, exibe minicontos de Dalton Trevisan, “um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos”. Presentes outros nomes menos conhecidos, como Ângela Gutiérrez, Carmélia Aragão (apesar de muito jovem, já tem livro publicado e muito bem recebido pelos críticos), Floriano Martins, Genuíno Sales, Inez Figueiredo, Jorge Pieiro, Nilto Maciel, Patrícia Tenório, Paulo Veras (falecido precocemente), Pedro Salgueiro, Raimundo Netto e Ronaldo Correia de Brito. Os demais são muito jovens (à exceção de Alcides Matos, Aldir Brasil Jr., Gilberto Machado, Raimundo Rocha e Ruth de Paula), quase todos inéditos em livro.

sábado, 24 de novembro de 2007

A imortalidade pelas obras (Enéas Athanázio)



Calmon: o homem e a cidade

Miguel Calmon du Pin e Almeida (1879/1935), o sobrinho, nasceu na Bahia e pertenceu a uma família aristocrática de latifundiários e políticos ligados ao Império e à Primeira República. Herdou o nome do tio, o Marquês de Abrantes, figura de expressão na vida nacional da época. Outros membros da família ostentaram, mais tarde, idêntico nome, dizendo-se que existiram vários deles. Sempre me intrigou a razão pela qual a Vila de Calmon, então pertencente ao município de Porto União e hoje comuna independente recebeu esse nome e onde estaria a ligação daquele homem público com nosso Estado, justificando o batismo de uma estação, hoje cidade, à margem da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no Vale do Rio do Peixe, com seu nome. Minhas leituras a respeito pouco ou nada esclareceram e, agora, lendo um robusto livro a respeito, anoto aqui as conclusões a que cheguei.
Em 1936, cerca de um ano após o falecimento de Miguel Calmon, sua viúva, Alice da Porciúncula, doava ao Museu Histórico Nacional (MHN), do Rio de Janeiro, considerável quantidade de objetos que pertenceram à família e ornavam o palacete onde vivia o casal, no bairro de Botafogo. As intermediações para a entrega foram feitas pelo historiador Pedro Calmon, sobrinho do falecido e seu biógrafo, mais tarde o magnífico reitor da Universidade do Brasil. O historiador Gustavo Barroso, primeiro diretor do MHN, recebeu com entusiasmo a doação e aceitou de pronto as condições estabelecidas pela viúva. A Coleção consistia em móveis, objetos de casa, jóias, prataria, souvenirs de viagens, fotografias, tapetes e quadros, livros, documentos, obras do próprio marido etc. Pela qualidade e quantidade, recebeu o nome de Coleção Miguel Calmon e foi acomodada em sala própria, onde permaneceu durante trinta anos até que a direção do MHN mudou de orientação e desmontou a Coleção, espalhando-a no acervo e recolhendo em parte à reserva técnica da Casa. Partindo dessa doação, fato pouco comum entre nós e que completou 60 anos em 1996, a antropóloga social Regina Abreu publicou o livro “A Fabricação do Imortal” (Lapa/Rocco – Rio – 1996), onde estuda a memória, a história e as estratégias da consagração no Brasil. Analisando as condições da doação e o conteúdo da Coleção, escolhido com rigor e critério pela doadora, a autora mostra a preocupação em mostrar o lado público da vida de Miguel Calmon, aquela faceta a ser exibida e preservada, sem permitir intromissões e olhares indiscretos na vida privada do casal. Seria, em síntese, uma forma de “fabricar a imortalidade”, construindo a imagem do homem público circunspeto e dedicado ao País, perpetuando assim a sua memória. Sem herdeiros diretos, Alice da Porciúncula pôde realizar a doação sem problemas, merecendo por essa atitude elogios e reconhecimento, inclusive da autora do livro.
Ainda que não seja uma biografia e nem essa foi a intenção de Regina Abreu, o livro fornece inúmeras e importantes informações a respeito desse personagem ligado para sempre ao nosso Estado. Nascido em berço rico, Calmon mereceu esmerada educação. Freqüentou o tradicional Colégio 7 de Setembro, ninho da elite baiana, e depois se diplomou em engenharia civil pela celebrada Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Embora afirme a autora que ele sempre “manteve viva a solidariedade com os colegas”, pouco informa sobre essa fase universitária de sua vida. Nesse ponto, aliás, a obra comete curiosa omissão, uma vez que não faz qualquer referência ao escritor carioca Lima Barreto ou a suas obras. Como se sabe, ele foi colega de Calmon na Escola Politécnica e tinha por ele profunda aversão. Dizia ter sido menosprezado pelo baiano rico, a quem considerava um protegido da sorte e apadrinhado dos poderosos, enquanto ele amargava a mais vil pobreza, à margem da miséria. Seu panfleto “O Ideal de Bel Ami”, comprando Calmon ao personagem de Maupassant, é uma terrível crítica ao colega. Quando embriagado, Lima Barreto afirmava que “compraria uma espada para matar o Bel Ami.” Em sua biografia do escritor, Francisco de Assis Barbosa detalha as manifestações de Lima Barreto contra Calmon, inclusive com base em depoimentos de contemporâneos. Seja como for, parece que Calmon nunca levou em conta as investidas do colega ou fez por ignorá-las. Nada existe indicando que tenha se incomodado com isso.
Tudo indica que Calmon deixou os bancos da Politécnica bem preparado, tendo feito um curso esmerado. Formando-se muito jovem, retornou à Bahia para exibir aos conterrâneos seus talentos de engenheiro e tecnocrata competente. Nessa fase histórica os engenheiros, inclusive militares, desfrutavam de grande prestígio e acreditavam que a eles cabia a criação do Brasil moderno, alinhado com as recentes conquistas da ciência e da técnica. Calmon aliava essa busca da modernidade com a tradição de sua família de homens públicos destacados. Não tardou a conquistar uma cadeira na Politécnica local e iniciar importantes obras de engenharia. Nomeado Secretário de Estado da Agricultura, Viação e Obras Públicas, “seu programa de trabalho consiste em fazer progredir a terra natal.” Correligionário e admirador de Rui Barbosa, contando com a simpatia dele e o apoio poderoso do próprio pai, é eleito Deputado Federal pela Bahia. Mais tarde seria eleito Senador, mas perde o mandato com a Revolução de 30, afastando-se em definitivo da vida pública. Como Gilberto Amado, também Senador, encontrava-se na Europa por ocasião da vitória de Vargas e já retornou à pátria sem mandato, tornado-se um “carcomido” ou um “decaído”, como diziam os revolucionários vitoriosos dos políticos da República Velha.
Miguel Calmon foi duas vezes Ministro de Estado. Na primeira foi titular da pasta da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, considerado “o presidente das ferrovias”, entre 1906 e 1909. Na segunda ocupou a pasta da Agricultura entre 1922 e 1926. O exercício de tantas e tão variadas funções, aliado à observação e ao estudo, lhe conferiu vasta visão do país e de seus problemas, como deixaria registrado em seus escritos. Com efeito, entendia dos temas mais díspares e sobre eles opinava com seguro conhecimento. Sua bibliografia contém ensaios sobre aplicações do álcool, problemas do açúcar, valorização do café, produção e comércio da borracha, o algodão no mundo, a instrução pública, fastos econômicos, pedagogia moderna, problemas do cacau, o homem público e a história, cooperativas de crédito, tendências nacionais e influências estrangeiras, além de conferências sobre temas históricos e discursos. Celebrizou-se como o mais jovem ministro brasileiro, tendo assumido o cargo com apenas 27 anos de idade. Afonso Pena também deu nome a uma das estações ferroviárias no mesmo trecho – Presidente Pena.
Entre suas realizações como ministro alinham-se importantes obras, muitas delas referidas pela autora e outras omitidas. Avultam a Exposição Nacional, realizada na Urca, em 1908, em local amplo e com repercussão internacional; o apoio e a realização da Missão Rondon, com os objetivos de mapear o país, instalar linhas telegráficas e conhecer os indígenas, cuja homogeneização com o povo nacional era perseguida; a implantação de colônias agrícolas e missionárias no hinterland, buscando amansar e educar os indígenas bravios; a implantação do abastecimento de água de Paquetá; a melhoria do abastecimento de água do Rio de Janeiro; o povoamento do solo e o incentivo à entrada de colonos estrangeiros; a construção da estrada de ferro de Alcobaça (BA); a construção da estrada de ferro de Goiás; a construção da estrada de ferro de Mato Grosso; a instalação do telégrafo nas estações ferroviárias, ligando as populações ao sistema nacional de comunicações; realização de obras nos portos; saneamento de regiões insalubres; abertura e melhoramentos de rodovias etc. Como se vê, a ferrovia foi uma constante em suas preocupações, a idéia do trem cortando as matas parecia-lhe “a utilização da ciência em prol da domesticação da natureza” (p. 80). “Os trens – pensava ele, segundo a autora – significavam o poder do maquinismo, o domínio do homem sobre as forças da natureza. Sinalizavam, também, a integração das populações dispersas no território nacional.” Como dizia Machado de Assis, “o Brasil é uma criança que engatinha e só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro” (p. 103). As ferrovias integravam a permanente busca da modernidade que presidia sempre sua ação como homem público. Esse pensamento, infelizmente, foi esquecido por alguns iluminados do Século XX que optaram pelo estradismo, entregando as ferrovias ao abandono e à sucata em que se transformaram. Investimentos caríssimos e demorados estão hoje entregues à intempérie e ao vandalismo.
É curioso observar que a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no trecho entre Porto União (SC) e Marcelino Ramos (RS), cortando todo o Vale do Rio do Peixe (depois RVPSC e RFF S/A), nem sequer é mencionada. É verdade que Calmon deixou o ministério em 1909 e essa ferrovia só foi concluída em 1910, mas foi justamente nela que mereceu a grande homenagem de nominar uma cidade. Terá ele considerado aquele trecho uma obra menor? Terá ele visitado, em suas andanças ministeriais, aquela região? Terá conhecido o local da cidade que hoje tem seu nome? São perguntas de difícil ou impossível resposta.
Além dessas realizações materiais, assinale-se que foi escritor bastante ativo, tendo deixado ensaios, conferências, discursos, teses e relatórios que bem revelam um erudito muito informado e ligado às coisas de seu tempo. A biblioteca pessoal, integrante da Coleção, indica que muito lia e lia bem.
Concluindo, pode-se dizer que se Miguel Calmon não alcançou a “imortalidade fabricada” através da Coleção doada ao MHN e à postura do homem público e se muitas de suas realizações, em especial as ferrovias, desapareceram ou estão desaparecendo, ele alcançou a imortalidade por outro caminho: o batismo da cidade de Calmon com o seu nome. É uma homenagem imperecível que os calmonenses preservam com ardor e que perpassará os tempos, salvo que algum outro iluminado, algum dia, decida mudar o nome da cidade. Embora seja improvável, isso é possível, pois, como dizia Monteiro Lobato, os brasileiros se impressionam muito com as sonoridades e imaginam que trocando os nomes as coisas se modificam.
Vamos esperar, porém, que nunca aconteça.
/////

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Muito antes disso (Nilto Maciel)

























(Meninos brincando, Cândido Portinari)



Joana plantava e colhia verduras no quintal. Comprava estrume e sementes e organizava canteiros, cercados de pedras. Erigiu também canteiros suspensos em estacas, para preservar as plantas da fome de gatos, ratos e galinhas. Convocava os filhos a ajudá-la no revolver a terra e aguar as verduras. As minhocas, retorcendo-se, davam nojo nos meninos. Sobretudo em Juvêncio. Para aumentar o sacrifício, foram obrigados a fazer entregas em domicílios e levar o produto da safra à feira da cidade. Uma vergonha!
Muito antes disso, Joana se escondia na cozinha ou no quintal, a lavar roupas. Juvêncio se arreliava quando ela o impedia de brincar na calçada. Escondia-se de si mesmo durante horas. Parecia dormir em pé ou sentado. Despertava assustado. Não sabia mais por onde andava a mãe. Talvez dormisse também, sofrida. E onde se achavam os irmãos? Talvez matassem lagartixas no quintal. O pai certamente conversava lorotas na mercearia.
De noite, no quarto, havia sempre uma lamparina acesa. Joana dormia numa rede, junto às dos filhos. O pai noutro quarto. Sem sono, ela saía da rede e se punha a matar muriçocas. Não demorou muito, apareceram em seu corpo eczemas. Ela se maldizia continuamente. Coçava-se sem parar. E mandava Juvêncio comprar pomada Minâncora. Fosse à mercearia pedir dinheiro ao pai. O caminho mais curto, uma ruazinha estreita, parecia ao menino o pior dos caminhos, porque de repente saíam dos quintais manadas de bois. Antes de dormir, o menino rezava e pedia a Deus e a todos os santos pela saúde da mãe. Não por medo dos bois, mas para não ver Joana sofrer.
Mais do que dos animais, Ju tinha pavor de tomar banho. Não da água fria, mas da grande caixa-d’água suspensa abaixo do telhado. Às vezes a água saía pelo ladrão. Ju olhava para cima e imaginava a caixa a desabar. Banhava-se às pressas. Joana se irritava: fosse tomar banho direito, tirar a rabugem. Ou queria virar porco?
Chegada a noite, outro medo maior se apossava dele: do escuro, da escuridão. Ir à cozinha, nem pensar. Ao lado dela a despensa cheia de baratas e assombrações. Ir à sala de jantar somente enquanto a mãe por lá estivesse, na cozinha, lavando panelas e pratos, ajeitando uma coisa ou outra, fechando portas e janelas. Se queria beber água, aguentava a sede. Se queria urinar, deixava para mais tarde, na rede, embora o castigo por isso fosse horrível. Almas e outras entidades habitavam as trevas.
Joana também precisava cozinhar. E novamente mandava Juvêncio à mercearia. Tarefa penosa essa de conduzir, nos braços, achas para o fogão. Não somente pelo peso delas, mas, sobretudo, pelo incômodo que causavam. Ora, da mercearia até a casa ia uma distância de mais de quinhentos metros, no mínimo. Os braços se feriam, se enchiam de calombos. E a vergonha de andar pelas ruas feito um burro de carga? Vergonha de que, se você não está roubando?
O pior se dava, porém, quando as baratas, aninhadas entre as madeiras, resolviam passear por seus braços. Não havia outra alternativa senão arremessar tudo ao chão. O pior momento ainda não seria esse, mas o anterior – quando descia ao porão da mercearia, pelos fundos, onde a lenha se amontoava. Uma descida aos infernos! Primeiro um portão de madeira, depois a treva. No meio dela, os paus arrumados horizontalmente junto à parede e, entre eles, toda a sorte de insetos e bichos: sapos, ratos, lagartas, aranhas, lacraias, formigas e as terríveis baratas. Todas enormes, pretas e fedorentas.
Antes de dormir, o menino pedia a bênção à mãe, fechava os olhos e suplicava a Deus e a todos os santos o prêmio maior da loteria para o pai e, para a mãe, a cura das eczemas. Acordava sobressaltado, quando a mãe batia em suas pernas na vã tentativa de livrá-lo dos insetos. O pai roncava no quarto ao lado. Durma, meu filho. Estou matando muriçocas. E ele dormia de novo.
Muito antes disso, porém, Juvêncio apenas brincava e via nos olhos de Joana um sorriso de quem era feliz.
Fortaleza, setembro de 2005.
/////

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Noite com a Poesia de Anderson Braga Horta (Romeu Jobim)


(Anderson Braga Horta)


Meu conhecimento com Anderson Braga Horta data do final da década de 1950, e ele era apenas um jovem de pouco mais de vinte anos. Porfiávamos os dois, na época, po um cargo de redator da Câmara dos Deputados e, como estivéssemos cumprindo a maratona, um dia o notei. Parecia um menino, mas é nos meninos que se encontram os homens. E Anderson já era o grande homem que continuou sendo.
Uma vez em Brasília e trabalhando juntos, nos cargos conquistados, descobri que se tratava também de excelente poeta e que, como poeta, já ganhava prêmios e da melhor categoria. E foi então que, com Altiplano, sobre a nascente Capital, mereceu diversos galardões, sendo esse um poema que, além de marcá-lo e acompanhá-lo em tudo que produziu depois, também se inscreveu entre os mais belos que já se fizeram sobre a nova Capital e a epopéia de sua construção.
Deste modo, pedindo a todos que imaginem Altiplano como um grande pano de fundo colocado neste auditório, rogo licença para deixar de dizê-lo, nas amostras que trouxe. Assim, do livro quase homônimo, já que intitulado Altiplano e Outros Poemas, leio apenas três, a saber: [“Criança Chorando”, “Minha Filha” e “O Legado”].
Por que escolhi esses poemas, entre tantos de igual ou maior beleza, segundo a óstica de quem conhece o livro em tela? Por duas razões muito simples: porque neles faísca o mais refulgente valor estético e porque revelam ainda, em plenitude, o pai e o chefe de família enlevado e envolvido nos cuidados da prole.
Nos dois primeiros poemas, aparecem seus gêmeos, o fruto da união com a companheira que lhe deram os céus – e por isso é que se chama Célia –, gêmeos que outros não são hoje senão a simpátioca Advogada Marília Santos Horta e o conceituado Médico Anderson Santos Horta, a primeira aqui presente, mas o segundo em algum hospital, salvando vidas.
No terceiro poema, além do pai zeloso dos próprios filhos, shá o intelectual do seu e de todos os tempos a excogitar sobre o sono e o despertar de todos os filhos do homem, a continuidade da espécie.
O poema que ora passo a ler é "Celacanto", do livro Marvário: ....
A escolha desse poema, escrito em sextilhas com seis sílabas poéticas em cada verso, eu a fiz não só pela magia do intrigante peixe – fóssil vivo de 300 milhões de anos, cujo mistério o poeta afirma que decifra e cala –, mas porque o poema como que indica uma das faces de sua personalidade, sempre um tanto enigmática, quem sabe em decorrência de sua condição de bom mineiro e bom poeta.
....
Na apresentação do livro Incomunicação, informa o escritor Alan Viggiano que contém poemas entre 1957 e 1963, portanto de uma fase coincidente com o fim da estada do poeta no Rio de Janeiro e o começo de sua presença em Brasília, acrescentado que “é um tanto sombria, algo tristonha e angustiosa, porém jamais pessimista e quase sempre lírica”.
....
Mas o poeta, que assim transubstancia a angústia e tantos sentimentos e visões em arte, também sabe irromper em protesto e revolta contra as injustiças, consoante se lê em muitos de seus poemas, como neste "O Menino", de Cronoscópio:
....
Exímio artista da palavra, capaz de usá-la na medida de sua plasticidade e magia, Anderson Braga Horta conhece, em profundidade, os segredos do ofício que exercita. Sua poética, por isso, no afã de chegar às rutilâncias e culminâncias a que chega, às vezes lança mão de recursos infreqüentes no mister, entre eles disposições visuais e termos com inserções que lhes multiplicam o significado.
....
Filho de mãe poetisa e pai poeta, ambos do melhor quilate, creio que nada como este "Retrato Indimensional", de 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor, para fechar esta amostragem:
....
Por certo que, com os textos lidos, não consegui mostrar o poeta em sua inteireza, tamanha é a quantidade, a diversidade e a qualidade de seus poemas, ao longo de uma vida dedicada à Literatura, sobretudo no gênero da poesia, mas também no da prosa, em que, com igual mestria, se dedica à crônica, ao conto, ao ensaio, à crítica literária e à tradução.
A verdade entretanto é que, se melhor houvesse sabido escolher, para esta amostragem, os poemas acaso mais representativos da arte poética de Anderson, ainda assim dele não teria dado uma visão plena. Troncos de grandes árvores não se estreitam num só abraço. Assim acontece com "O Jequitibá de Carangola", título de um de seus belos poemas (Pulso, 2000). Assim acontece, afinal, com Anderson Braga Horta. Só seus sonetos, por exemplo – e nenhum deles cheguei a dizer – exigiriam mais de uma noitada, como esta.
De qualquer modo, creio haver alcançado meu intento: o de homenagear o grande poeta, ao ensejo de seus setenta anos, a esta altura acrescidos de quase mais um, tantos foram os meses que tive de aguardar, na fila.
Mas um ponto me absolve e reconforta. De tanta constância e equilíbrio é o valor dos textos de Anderson Braga Horta, que todos os seus poemas, como se um apenas, à semelhança da flor tentada explicar por Marcel Proust, são, a rigor e simplesmernte, uma esplendorosa realidade artística. Apenas isso. Apenas isso? Não, tudo isso.
Por fim, como o nosso grande e iluminado poeta – e não me arreceio de afirmar ser este juízo unânime, entre os que o conhecem –, como o nosso grande e iluminado poeta, repito, se acha presente, gostaria de pedir-lhe que, para encerrar essa amostragem, nos honrasse a todos, dizendo, de viva voz, um ou alguns de seus poemas.
(Brasília, 2006.)
/////