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domingo, 13 de janeiro de 2008

A paixão pelos livros (Enéas Athanázio)


(Enéas Athanázio)


Quando teve início a difusão da Internet, repetiram-se as profecias no sentido de que o livro, em seu formato tradicional, estava com os dias contados e acabaria por desaparecer num futuro não muito distante. A freqüência com que surgiam esses vaticínios deixou deveras preocupados os amantes do livro, mas foi uma preocupação vã porque até agora aquelas profecias não se realizaram e os fatos parecem indicar que estavam equivocadas. Com efeito, nunca foram publicados tantos livros e sobre os mais variados assuntos como nos dias de hoje, inclusive no Brasil, e o consumo também cresceu de forma considerável. As Bienais do Livro, tanto em São Paulo como no Rio, são visitadas por um público cada vez maior e vendem milhões de exemplares de todos os gêneros. É verdade que, em termos comparativos com nossa população, o percentual de compradores de livros ainda é pequeno, mas houve uma evolução sensível desde que comecei a freqüentar essas feiras. Sempre que visito as livrarias, em especial as grandes, fico impressionando com a quantidade, a qualidade, a variedade e o tamanho das obras publicadas. Livros sofisticados, impressos em papel especial, em várias cores e recheados de ilustrações revelam uma indústria livreira competente e arrojada, sinal de que confia no mercado e investe pesado. Afirmava-se também que os livros grandes, com muitas páginas, não encontrariam público, mesmo porque o tempo dos leitores é cada vez mais escasso. Puro engano: obras enormes, em vários volumes, beirando o milheiro de páginas, figuram muitas vezes entre as mais vendidas, apesar do preço elevado. Em recente viagem a São Paulo conheci a “Livraria da FNAC”, num imenso subsolo da Avenida Paulista, cuja exposição é tão grande e variada que mais parece um shopping livreiro, exigindo tempo e paciência para uma simples visita. Ela promove, todos os meses, inúmeros eventos relacionados ao livro e à literatura a que denomina “Encontros na FNAC”, atraindo considerável público interessado. Por outro lado, tanto os catálogos das editoras como as notícias de lançamentos de novos títulos, publicadas nos jornais, informam a respeito da grande quantidade de obras novas que são colocadas no mercado a todo instante. O jornal “Folha de S. Paulo” criou a “Publifolha”, espécie de editora paralela de livros, e tem feito o lançamento de obras importantes, nacionais e estrangeiras, a preços reduzidos e com boa qualidade gráfica. A “Biblioteca Folha” publicou uma coleção de clássicos a preços baixos em relação aos de mercado, incluindo obras de Hemingway, Graham Greene, Somerset Maugham, Franz Kafka, Vargas Llosa, F. Scott Fitzgerald, Joseph Conrad, James Joyce, Vladimir Nabokov, Graciliano Ramos e outros. Conclui-se, pois, que aqueles que previam a substituição do livro pelo computador estavam completamente enganados.
Aqui no Estado a situação não é tão promissora. Nossas feiras do livro são fracas e não dispomos de boas livrarias, com poucas exceções. E o mais grave é que não temos livreiros, na verdadeira acepção da palavra, daqueles que conhecem e amam o métier, com as poucas exceções de praxe. Consta que existem no Estado cerca de cinqüenta editoras, entre as quais as oficiais. A rede de livrarias no território estadual é pequena, o mesmo ocorrendo com as bibliotecas públicas, muitas delas apenas nominais, mas que não funcionam ou o fazem de forma precária. A visita a muitas delas é desanimadora. Creio que nunca houve, pelo menos que me lembre, um esforço sério e contínuo para dotar o Estado de bibliotecas públicas bem aparelhadas, com um acervo razoável e pessoas qualificadas.
No plano nacional, tem aumentado o número de livrarias convencionais. Ao lado delas funcionam os sebos, muitos deles de luxo, embora a maioria seja popular, instalada nos mais diversos locais, inclusive nas calçadas das vias públicas. Os primeiros compram e vendem obras raras, esgotadas e de difícil acesso, atingindo algumas delas preços incríveis. É o caso da “Leart – Livraria e Encadernação”, pertencente à minha amiga Zelina Castello Branco, viúva do escritor, jornalista e bibliófilo Carlos Heitor Castello Branco, o maior expert em livros que pude conhecer. Instalada no bairro de Pinheiros, em São Paulo, possui livros que fazem a alegria de colecionadores de todo o país e que a visitam de tempos em tempos na incansável pesquisa de raridades. Os sebos “Brandão” e “Calil”, da mesma cidade, também são admiráveis pela quantidade e variedade de obras à venda. O primeiro deles ocupa nada menos que nove andares com as paredes recobertas de estantes repletas. Numa visita ao “Calil”, o gerente ficou muito aborrecido porque não encontrei nenhum dos três títulos que procurava. Outros sebos bons existem também no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Blumenau e outras cidades, muitos deles com aquele cheiro característico do livro usado que os identifica à distância. Sebos populares vendem livros a preços inferiores ao de um exemplar de jornal. Só não lê quem não quer.
À margem desse mercado oficial do livro se desenvolve imensa rede informal constituída pelas pequenas editoras, edições feitas pelos próprios autores (edições do autor), edições feitas em sistema de cooperativas, obras editadas por empresas e instituições culturais e obras fora do comércio. Em tiragens maiores ou menores, quase nunca chegam às livrarias ou só são expostas em algumas, realizando seus autores as vendas diretas aos interessados, com largo uso do sistema dos correios para a distribuição. Circula dessa forma grande volume de livros, cujo número é impossível precisar. Houve um período bastante longo em que ocorreu verdadeira “febre” de antologias, todas publicando e vendendo. O encarecimento dos custos diminuiu essas edições, embora muitas ainda continuem sendo feitas. A publicação por tais meios nem sempre influi na qualidade das obras; muitas vezes são de qualidade literária superior às que contam com grande divulgação e esmerada distribuição. A maioria dos best-sellers que pulula nas montras dos livreiros é de valor literário inferior. Em literatura, distribuição agressiva e divulgação constante na mídia não constituem garantias de qualidade. Muitos autores célebres preferiram publicar seus livros em pequenas edições pessoais e bem elaboradas que em tiragens mecânicas e impessoais saídas de grandes prelos. O escritor português Miguel Torga é um exemplo; a britânica Virgínia Woolf criou pequena editora artesanal na qual dava a público obras artísticas em conteúdo e feição gráfica. Por outro lado, muitos autores que publicam por conta própria vendem bem, tornam-se conhecidos e até se transformam em escritores profissionais. Suas obras, com o tempo, conquistam espaços, vencendo os óbices criados pela ausência de divulgação e se impõem. Tenho conhecido escritores que viajam pelo país com suas obras embaixo do braço, vendendo-as aqui e ali, e vivem apenas dessa atividade. Muitos nomes poderiam ser lembrados.
Falando-se em livros, não podem ser esquecidas as sociedades ou agremiações que reúnem bibliófilos, bibliômanos, bibliomaníacos, colecionadores aficionados ou simples leitores. Entidades do gênero existem em todo o mundo. Aqui no Brasil, merece referência especial a “Confraria dos Bibliófilos do Brasil” (CBB), com sede em Brasília. Criada por José Salles Neto, com número limitado de associados (apenas 350), edita obras escolhidas pelos seus integrantes em volumes numerados para cada um deles, conforme a ordem de sua inscrição. São livros de reconhecida qualidade literária, sempre que possível publicados em datas que relembram eventos da vida de seu autor, em formato grande, com sobrecapa e caixa, ilustrados de forma exclusiva por artistas plásticos de renome.
A Confraria editou, até o momento em que escrevo, 13 obras, sendo a última saída do prelo, “Dez contos selecionados de Clarice Lispector” (2004). Escolhidos com esmero, com o auxílio do próprio presidente, os contos constituem uma antologia única, revelando inúmeras facetas da contística da autora em suas diversas fases. O livro foi composto em linotipo, a impressão do texto e das vinhetas foi realizada em máquina tipográfica manual, a encadernação e o acabamento executados por técnico especializado, no miolo foi utilizado papel de elite, a capa e a sobrecapa feitas em papel fabricado à mão com fibras vegetais por artesã papeleira. As ilustrações foram reproduzidas em serigrafia a partir dos originais. Elas são de autoria do artista plástico Marcelo Grassmann, muito conhecido, que apresenta, no final do volume, uma suíte com várias páginas de desenhos, em outra tonalidade de cor, enriquecendo ainda mais o livro.
Como se vê, uma obra similar ao que se faz em todo o mundo nas melhores editoras artísticas. Em paralelo, a Confraria lançou as “Edições da Confraria”, publicando livros com venda aberta ao público e com as mesmas qualidades. Em nosso Estado a entidade conta com apenas dois associados. (Contatos: Caixa Postal 8 6 3 1 – CEP 70312-970 – BRASÍLIA/DF).
Como existem livros sobre todos os assuntos imagináveis, é natural que também existam livros sobre livros. O já mencionado Somerset Maugham, leitor aficionado, daqueles que, à falta de outra coisa, liam até guias telefônicos, costumava dizer que não pode haver objeto mais inútil que livro que fala de outros livros. E, no entanto, ele próprio se entregava com prazer à leitura desses livros. Pensando bem, de que serve ler livros sobre outros livros? Não seria mais útil e proveitoso ler os próprios?
Para mim, embora reconhecendo que sou dos poucos, essa leitura ainda tem encantos. Passam os anos e não me canso de ler coletâneas de ensaios literários, como acabo de fazer, trilhando as páginas amareladas de um velho volume denominado “Método e Interpretação”, de José Aderaldo Castello (Edição do CEC/SP – 1964). Nele o autor reuniu textos analíticos de livros de diversos autores, entre os quais Lima Barreto, Monteiro Lobato e Gilberto Amado, nada menos que três dos meus monstros sagrados. Mesmo sendo um exigente exercício de leitura, foi uma experiência agradável, mostrando quão vastos são os caminhos que uma obra pode abrir para um crítico competente.
Li também uma coletânea de crônicas sobre livros, esta mais voltada à análise da paixão livresca, publicada por pequena editora Trata-se de “A paixão pelos livros”, reunindo depoimentos de autores brasileiros e estrangeiros, como Carlos Drummond de Andrade, D’Alembert, Flaubert, Petrarca, John Milton, Camilo Castelo Branco, Montaigne, William Saroyan, Varlam Chalámov, Plínio Doyle, José Mindlin e outros. A disparidade literária entre os textos salta aos olhos, mas o conjunto é interessante. Mindlin e Doyle não são escritores, embora tocados pela mesma paixão que fez deles os maiores bibliófilos nacionais. Os depoimentos do russo Varlam Chalámov e do norte-americano William Saroyan são tocantes, como também o empenho de Doyle para obter algum livro desejado. Como se sabe, ele foi o anfitrião do “Sabadoyle”, reunião de escritores que acontecia em sua residência, no Rio de Janeiro, e que tive ocasião de freqüentar. O livro faz indagar sobre a forma como se inocula a “doença livresca” e o apego que se desenvolve na pessoa, tantas vezes inibindo-a de se desfazer de um livro que nunca serviu para nada, é um autêntico trambolho, mas que tem algo de especial e indefinível aos olhos de seu dono. Como tem acontecido comigo.
E os livros que não se vendem? Nelson Palma Travassos, editor que passou a vida fazendo livros, próprios e alheios, costumava dizer que livro que não se vende é inútil. É claro que tal afirmação era uma brincadeira, pois, se assim não fosse, os livros mais importantes que existem, ou pelo menos a maioria deles, nunca teria sido publicada. O próprio Travassos, homem culto e escritor de talento, sabia muito bem disso, tanto que publicou inúmeros livros de vendagem duvidosa mas de significação cultural ou literária. Como se isso não bastasse, ele próprio publicou um livro denominado “Livro sobre livros” (Editora Hucitec – S. Paulo – 1978), reunindo parte do que produziu de melhor.
Eis aí algumas observações, muito pessoais e empíricas, de quem tem vivido os últimos trinta anos às voltas com os livros, lendo-os, divulgando-os, escrevendo-os e viajando sempre com eles embaixo do braço.
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Vasto abismo - quarta parte (Nilto Maciel)

























QUARTA PARTE

Ana vivia ultimamente triste. Quase não via seu pai. Deixou de ser aluna estudiosa e até repetiu o último ano do primeiro grau. Talvez se sentisse só. Por que seus pais não lhe “fizeram” uma irmãzinha? Repetia a pergunta de muitos anos atrás, quando confundia bonecas de pano e plástico com criaturas de carne e osso.
Isaque ainda tentou arranhar desculpas para suas ausências. Andava lendo muito, pesquisando, preocupado com sua vida íntima de escritor. Precisava encontrar novo rumo. Sentia-se perdido, atônito, confuso. Teria valido a pena escrever aqueles seis livros? E se construísse um grande romance? Sim, de vez em quando imaginava-se autor de um livro como Ulisses. Talvez lendo os clássicos gregos e latinos encontrasse o fio da meada. Um herói do século XX inspirado na Grécia ou em Roma antigas.
E falava de poetas antigos para a menina. Lia em voz alta versos em latim:
Nec bibit inter aquas, nec poma petentia carpit
Tantalus infelix, quem sua fata premunt;...
Onde andava o velho dicionário de latim? Terminou comprando novo dicionário. Àquele faltavam a capa e várias folhas. Precisava traduzir Salústio. Se não tivesse voltado à biblioteca, tudo teria sido diferente? Talvez o destino explicasse aquela história. Vânia havia sido posta em seu caminho pelos deuses. Inútil querer a vida de outra forma. Nec bibit inter aquas...
Ana não sabia latim, não gostava de poesias e fugia dos livros. Uma vez até chorou, após ouvir uma sátira de Horácio. Choro sem explicação.
Isaque teve vontade de também chorar. Ou gritar, fugir, sumir. Aninha não merecia um pai como ele. Nem Fátima merecia aquela traição. Tão boa, tão dedicada ao lar. Não deveria ter rivais. Não, aquilo era apenas uma paixão passageira. Logo esqueceria Vânia. Aliás, talvez nem se tratasse de paixão. Apenas desejo.
Quando Fátima descobriu a ponta do fio, nada disse a Isaque. Talvez esperasse novas provas. Não lhe fez sequer uma pergunta. Ele negaria tudo.
Certo de que ninguém no mundo sabia de seus novos sentimentos, Isaque vivia aquela paixão em toda sua plenitude. Para ele, Fátima não imaginava um só átomo de seu tormentoso momento. E por que andava tão nervosa? E a menina, macambúzia, arreliada?
Fátima chegou a seguir os passos de Isaque. Sim, ele só podia ter outra mulher. E queria saber quem era ela. Esteve no banco onde ele trabalhava. Conversou com colegas dele. Sondou diversas pessoas. Não encontrou o menor indício da outra. Pensou em contratar um detetive.
Além do mais, Isaque se dedicava então aos versos. Dia e noite a rabiscá-los. Com certeza havia paixão ali. Ninguém escreveria “versos apaixonados”, se não vivesse uma paixão.
E o nome dela até aparecia em alguns poemas. Sim, chamava-se Vânia. E iria conhecê-la, encontrá-la. Talvez matá-la.
De tanto seguir os passos de Isaque, chegou à Câmara. Perdeu-o de vista logo à entrada. Voltaria noutro dia. Não, melhor esperar. E meia hora depois Isaque saía, acompanhado de uma mulher. Exultou. Enfim descobrira a amante de seu marido. Por que não matá-los logo? Não conduzia arma. Uma faquinha sequer.
Nervosa, Fátima os seguiu. Mais adiante ele se despediu da mulher. Nem um só beijo. Não, aquela não poderia ser a amante, a musa dele. Até porque parecia ter a idade dele, se não fosse mais velha. E nenhuma beleza.
Conseguiu aproximar-se da estranha. Chamava-se Joana e trabalhava na Biblioteca da Câmara. Conhecia, sim, Isaque. Porém há pouco tempo. Ele freqüentava a biblioteca, à cata de livros antigos. “E você quem é?”
Fátima passou a ler todos os manuscritos, rascunhos, anotações de Isaque. Queria a história completa da traição. Desde quando ele a traía e não mais a amava.
Leu até as memórias, as poucas folhas já escritas. Quem seria uma tal Alice? Talvez mais uma das namoradas de Isaque. Não, ele falava de um passado distante. A pobre Alice havia desaparecido em 1970. Provavelmente assassinada pelos militares.
Deixou de lado aquele caderno melancólico. Revirou outras gavetas e encontrou os versos traduzidos de Salústio Segundo. Talvez fosse o próprio Isaque. Um pseudônimo. E uma tal de Julia não seria outra senão Vânia.
Quando leu o “Soneto da paixão insana”, quase ensandeceu. Ali estava a prova mais concreta do crime. O nome da outra aparecia com todas as letras. Tudo às claras. Como se Isaque fizesse questão de revelar sua traição.
Quis rasgar, queimar tudo. Não deixaria um só registro daquela malfadada paixão. Tolice. Com certeza havia cópia.
Leu, com sofreguidão, o prefácio para a edição brasileira dos poemas de Marcus Sallustius Secundus. E só então se convenceu de que não eram de Isaque aqueles versos às vezes tão repletos de lubricidade.
Depois encontrou o velho exemplar do Gurgite vasto. Tudo latim. Isaque não teria escrito aquilo. E nunca lhe falara de tal livro. Tentou ler alguns versos. Inútil. Não entendia nada. "Vivamus, mea Julia, atque amemus..."
Sim, Julia vivera há 2.000 anos. Estava morta, virara fóssil. E sentiu um desmedido alívio, como se de sua alma todos os tormentos sumissem no Infinito.
Mesmo assim, nada mudou na vida dos dois. Continuaram distantes um do outro. Cada vez mais distantes. Como se caminhassem em sentidos opostos. Ela para leste, ele para oeste.
Aconteceu, então, o primeiro ato da tragédia. E Isaque por pouco não perdeu o juízo. Um acidente automobilístico deixou Vânia ferida. E o causador de tudo teria sido Humberto. Bebera em demasia. O carro chocou-se contra um poste de iluminação pública. Vânia foi lançada contra o painel.
Isaque só soube do fato no dia seguinte. Queria visitar Vânia. Precisava vê-la, ter certeza de que nada havia de grave. Não, Joana não tinha razões para mentir. “Você não deve ir à casa dela.” Então telefonaria.
Não, não deveria telefonar. Vânia talvez nem falasse nada. Ou dissesse alguma grosseria. Como naquela tarde muito quente em que a convidara para saírem juntos. O primeiro “não” dela. Um golpe fundo na carne. Para curar a ferida, só a bebida. E sentou-se numa cadeira de bar, bebeu cerveja e escreveu uns versos amargos. É desse dia o pequeno poema “Vasto abismo”:
A dor,
seja a de ficar,
seja a de partir.

O amor,
por mais negado,
por mais aceito.

Tudo é abismo,
o vasto abismo,
onde se afunda
o Ser.

Porém aquele “não” de Vânia já era passado. Agora precisava saber do estado dela. Mesmo por telefone.
Isaque não se identificou e Humberto não insistiu. Passo o fone a Vânia, que falou com tranqüilidade, segurança. Voltaria ao trabalho em quinze dias.
Foram quinze dias de ansiedade para Isaque. Como desejava rever Vânia! Aquilo só podia ter sido proposital. Humberto quisera matar a esposa. Ou matar-se com ela.
Não demorou muito, Humberto e Vânia se separaram. Decisão menos trágica que a morte. Conheceria outras mulheres. Talvez menos tontas que aquela.
Só às vésperas da separação Humberto contou a história a seus irmãos e amigos. Não a mesma que tentou narrar ao sargento Fernandes, no bar. Agora havia mais capítulos. Artur fez-se pasmo e em nenhum momento falou em reação violenta. Se o mano desejava aquilo, só restava cuidar da papelada.
E por que não matar o outro? A idéia veio à tona como uma purgação. Houve até risos e comemorações. E todos quiseram pagar a despesa. Artur quase chorou ao ombro do irmão. O sargento Fernandes dançou, deu vivas ao colega, despejou cerveja na mesa.
Muito antes dessa noite, porém, já Humberto andava no encalço de Isaque. Descobriu onde morava e trabalhava, assim como os lugares que mais freqüentava.
Por muitas noites estiveram no Beirute. Quase sempre próximos um do outro. Humberto ia só e sentia dificuldades em arranjar mesa. Pedia um cantinho, quase por caridade. Como precisava estar ali, sentir a presença de Isaque, o inimigo, a presa! Cada palavra dele soava-lhe como um insulto. Cada gesto uma bofetada. O copo levado aos lábios significava talvez a morte.
Humberto remoía ódio, embebedava-se de solidão e silêncio. Aquele homem a seu lado, cercado de amigos, a falar de livros, poesia e amor, parecia feliz.
Não, não devia atormentar-se tanto. E passou meses sem sequer passar diante do Beirute. Cambada de bêbados, veados, vagabundos!
Voltou com muito alarde. Como a retomada de uma praça de guerra. Humberto e um grupo de sargentos. Seguidas sextas- feiras. Bebiam à vontade e só se retiravam de madrugada.
O primeiro encontro não se repetiu. O grupo de Humberto chegou cedo e ocupou duas mesas. Ao perceber a chegada de Isaque, fez desocupar uma das mesas. E logo chegaram amigos do escritor.
Propositalmente, Humberto e seus amigos falavam alto. Iam de futebol a fórmula um, de mulher a política.
Isaque reconheceu logo Humberto. Porém nem sequer o cumprimentou. O sargento parecia transtornado. Como quando Isaque o viu pela primeira vez. “Um grande escritor”, brincou Vânia, o belo sorriso nos olhos, na face. Aquilo deve ter ferido ainda mais o militar. Para vingar-se, apertou com força a mão de Isaque. Poderia quebrar-lhe os dedos frágeis.
Isaque olhou várias vezes para Humberto. Não sentiu medo, ódio ou ciúme. Talvez um pouco de compaixão. Teve vontade de falar do rival aos amigos. Terminou nada dizendo. Nas vezes anteriores nunca o “vira”. E nem pudera, pois o militar usara disfarces.
Perto da meia-noite o sargento deu um viva à “Revolução de 64”. Houve vaias, algum tumulto. Isaque não se manifestou. Até sugeriu irem embora.
Em casa anotou o incidente num diário bissexto. E lembrou de retomar as memórias. Escreveu dez linhas sobre as passeatas estudantis de 67 e 68. Mais uma vez relembrou Alice, a colega de Faculdade desaparecida em 70. Enquanto escrevia, seus olhos se molharam. Sentiu-se muito deprimido. Tentou escrever uns versos. A indignação, porém, o sufocava. E nada mais escreveu naquele dia.
Depois disso esteve poucas vezes naquele local. Havia ultimado a tradução do livro de Salústio e procurava editor. Escreveu cartas a mais de trinta editoras. Duas ou três deram-lhe resposta: não tinham interesse em publicar poesia. Pensou em arcar com a despesa da edição. Venderia o carro, reduziria os gastos domésticos e pessoais. Não, não valia a pena nada disso. Bastava o malogro de sua própria literatura. Seis livrinhos medíocres, nenhum comentário nos jornais. E talvez nem meia dúzia de leitores. Apenas parentes, amigos e sobretudo “colegas de ofício”. Muita desilusão acumulada. A vida inteira dedicada a inutilidades. Sim, seus livros não passavam disso. Para que, então, gastar dinheiro editando outro livro?
A editora acabou sendo Vânia. Belíssima impressão, com uma homenagem comovente a Isaque, escrita por Nilto Maciel, a pedido de Vânia.
Na primeira folha a dedicatória há muito escrita: “À minha última paixão – Vânia Verbena.”
Isaque tencionava escrever um livro de poesia dedicado a Vânia. Dele fariam parte o “Soneto da paixão insana” e alguns outros dados como concluídos. Porém a maior parte dos poemas restaram inacabados ou simplesmente rascunhados.
E sua última paixão não teve o privilégio de ser musa em livro.
A última sexta-feira de Isaque, o epílogo de sua tragédia não teve sequer testemunhas. Havia bebido duas garrafas de cerveja e voltava para casa. Caminhava absorto para seu carro, após esperar duas horas por uma pessoa. Haviam se conhecido há dias, apresentados por Nilto. Marcaram encontro no Beirute. Trocariam livros. “Ao novo amigo Emanuel Medeiros este As sete patas do monstro, com grande admiração.”
Como o tempo corria! Há dois anos descobrira o secular Marcus Sallustius Secundus. E como sua vida havia mudado de lá até aquele dia! Aliás, dupla descoberta num só dia: o poeta romano e a bela Vânia. Nem sabia qual dos dois lhe trouxera mais prazer.
A dois passos de seu carro recebeu o primeiro tiro. O segundo varou o livro, levado instintivamente ao peito, como escudo. Tombou junto ao veículo e mais quatro balas se alojaram em seu corpo.
E assim findou o tempo de Isaque Paiva, seu vasto abismo.
Brasília, 1991.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Vasto abismo - terceira parte (Nilto Maciel)

























Humberto não sabia explicar, mas sentiu que aquele homem magro, moreno e feio seria, ou já era, seu inimigo. Lembrava-se perfeitamente daquele fim de tarde, do calor, da agitação nas ruas. Havia no ar algo de diferente dos outros dias. Talvez uma molécula de ódio. Como um ser invisível, a voar em torno de sua cabeça. O demônio, qualquer espírito mau.
Vânia conversava animadamente com o sujeito. Certamente tramavam novos encontros. E aquele devia ser o décimo, o centésimo.
O momento exato do surgimento do diabinho deve ter sido quando foram apresentados um ao outro: “Isaque, meu marido; Humberto, um amigo.” Ou logo a seguir, quando Isaque se retirou, apressado. Provavelmente com medo, rabo entre as pernas, feito cachorro.
Um dia teria que acontecer aquilo. Mesmo não sendo comum ir à biblioteca buscá-la. Naquele dia, porém, conseguira sair mais cedo do quartel. E decidira encontrar Vânia. Doutras vezes nada disso lhe passava pela cabeça. Ia para casa, ficava na rua, procurava amigos, tomava cerveja. Daquela vez, porém, o demônio já devia rondar-lhe a testa. Um dia aconteceria o pior.
Há algum tempo, no entanto, percebia nervosismo em Vânia. Por tudo se irritava. E alegava excesso de trabalho. O chefe exigia demais, os colegas não colaboravam. Discutiam quase todo dia. Chegaram a falar em separação, divórcio. E os meninos? Quem cuidaria deles? Ela se arrependia, chorava, pedia desculpas.
Até então Humberto de nada suspeitava. Não lhe chegava à cabeça nenhuma idéia de adultério. Acreditava no amor de Vânia. Na sua sinceridade, na sua honestidade.
Mas vieram os poemas de Salústio, e o veneno da dúvida se instalou no peito do sargento. Nenhum mal haveria se os versos fossem de Camões ou de Vinícius. Poderiam até ser de Gregório de Mattos. O mal estava em terem sido copiados por um amigo de Vânia. De quem eram os versos? “De um poeta romano.” E desde quando ela gostava de versos? Ali havia mistério, com certeza.
Por que mentia? Por que aceitara a papelada? Talvez não imaginasse que o marido lesse um só verso. Ou, mesmo lendo, não percebesse seu teor. Ingênua! Chamava-o de burro e agia tão asnamente. Ou pusera em prática a teoria de que o esconderijo mais seguro é o guarda-roupa do chifrudo.
Humberto ainda quis exigir explicações de Vânia. Não, talvez não valesse a pena. Afinal, toda mulher é tentada com palavras e gestos. Mesmo as feias, ou as mais feias. O que dizer, então, de Vânia? Muitas vezes percebia os olhares ávidos dos homens, absortos à passagem dela. Sim, tudo nela chamava a atenção: o porte, as ancas, os cabelos lisos e castanhos, o rosto bem delineado, o jeito de olhar, falar, andar. Portanto, o tal amigo dos versos romanos devia ser apenas mais um tentador à espreita da bela presa.
Mas outros versos apareceram entre os objetos de Vânia, em suas bolsas, em gavetas. Com certeza escritos pelo amiguinho brasileiro, o tal Isaque, embora não houvesse neles indicação de autoria. Pois soavam bem atuais, diferentemente dos primeiros. Em vez de Vênus, vestais e quimeras, só uma mortal neles aparecia – Vânia. Como no “Soneto da paixão insana”. O cúmulo da indecência!
Ainda assim preferiu Humberto esperar. Aquilo não significava traição de sua mulher. Não podia acusá-la de nada. Talvez de receber versos de um dom-juan. Que é o mesmo que ouvir palavras de sedução na rua. E toda mulher as ouve. Até as surdas.
Pensou em falar aos irmãos. Ou apenas a um deles – Artur. Vez por outra trocavam idéias, confessavam pequenos pecados. Um confiava no outro. Desistiu da idéia. Artur poderia tomar alguma decisão precipitada. Talvez até agisse sozinho, com uso de violência. Melhor procurar um amigo, algum colega de farda. Seus familiares jamais saberiam a verdade. Lembrou-se de Fernandes. E o convidou para uma cervejada. Quem mais iria ao bar? Ninguém. Precisava fazer uma confidência.
Tomaram duas cervejas, e nada de Humberto contar o segredo. O outro chegou a se aborrecer. Se Humberto não confiava nele, por que fizera o convite?
A história terminou mal contada. Os personagens não se chamavam Vânia, Humberto e Isaque. De qualquer forma, havia um poeta que enviava versos a uma mulher casada. Aquilo só podia ser coisa de veado.
Não soube quantas cervejas tomou. Só voltou para casa tarde da noite. Vânia fingia estar adormecida. Humberto pôs-se a despi-la e ainda ela apenas resmungava, como sempre. Tudo fingimento dela. E ele gostava que fosse assim. Talvez o estranho desejo de possuí-la em sonho.
Como de outras vezes, ela disse que o amava muito e ele repetiu que adorava possuí-la. Repetiu também a ameaça: se soubesse de qualquer traição dela, matava-a. Vânia mais uma vez reafirmou fidelidade conjugal.
E estava mais acordada do que nunca.

(Continua)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Vasto abismo - segunda parte (Nilto Maciel)



 






(Gravura de Rembrandt)

SEGUNDA PARTE

Humberto perguntou como ia o escritor. Vânia se fez de desentendida. A que escritor ele se referia? Na televisão passava um filme publicitário. A seguir passou outro. Ela se aborreceu. Havia propaganda em demasia. Queria ver logo a outra parte do drama.
Finalmente acabou o tempo dos comerciais e Las Vegas reapareceu na tela. Cassinos iluminados, homens e mulheres elegantes a jogar. Humberto e Vânia calaram-se.
Mesmo longe da biblioteca, vez por outra ela sentia cheiro de livro velho. E jurava mudar de função. Voltaria à máquina de escrever. Preferível passar o dia datilografando ofícios a andar fedendo a traça e mofo. Além do mais, aparecia cada tipo esquisito à procura de cada livro estranho!
Isaque talvez não fosse um tipo esquisito. Nem lembrava mais a primeira vez em que o vira. Quando se deu conta de sua presença, já ele havia passado talvez horas a mirá-la. “Hoje vim aqui só para te ver”. Sorriu, e lhe perguntou o nome. Procurava livros de autores antigos. De preferência gregos e romanos. Se houvesse uma seção assim... Havia, sim; ficava mais para o fundo.
Tantas vezes ele voltou, que ela não mais o esqueceu. Fazia perguntas sobre livros e sobre ela. Ia e vinha, namorava aquele ambiente de cheiro forte, perdia-se entre as estantes. Disse-lhe, com certo prazer íntimo, ser casada e mãe de dois meninos. Só não falou da idade. Se ele não perguntava, não tocaria no assunto. Se tivesse 30 ou mais, subtrairia 4 ou 5.
Isaque não disse logo ser escritor. Até brincou: “Sou um leitor inveterado, sem cura.” Ela também gostava de ler. Não autores antigos. Preferia os modernos. Lia desde menina. E até escrevera poesia. Agora lia menos. Dispunha de pouco tempo. Os filhos, a casa, o trabalho. De qualquer forma, ele queria dar a ela um de seus livros. “Você é escritor?”
Não teve coragem de levar para casa o livro ofertado por ele. Aquela dedicatória, se lida por Humberto, seria causa de briga. Chamava-a de flor e falava em amizade e admiração.
Falou de Isaque a algumas amigas. Estaria ele querendo envolvimento amoroso com ela? Ou apenas amizade? Uma delas, Joana, arregalou os olhos, quase entrou em pânico. Melhor dar um basta naquilo. Falar sério com ele. “Você não disse ser casada?” Dissera, sim. E mesmo assim ele continuou a atacar? Só podia ser um grande sem-vergonha. Cuidado, muito cuidado! Aquilo acabaria em tragédia! Bastava a história chegar aos ouvidos de Humberto.
Seguiu à risca os conselhos das amigas. Ao primeiro convite para saírem juntos disse “não”. Ele não insistiu, mas voltou nos dias seguintes à biblioteca. Vânia escondia-se, fugia dele. Passava horas em aflição, feito criança medrosa. Por que não enfrentá-lo?
Ocorreu, então, outro curto e áspero diálogo entre eles. Não desejava nenhuma amizade com Isaque. Nada de intimidades. Se não fosse possível conversarem como simples conhecidos um do outro, melhor ele sequer lhe dirigir a palavra. Como se nunca tivessem se conhecido.
Sabia ter sido ríspida, mal-educada. Talvez Isaque não merecesse aquele tratamento. Pois apresentava-se sempre muito amável. E poderia mesmo querer somente amizade.
Não, Joana tinha razão. Um homem não importuna uma mulher senão com intuitos amorosos. Claro que alguns contestam isso. E até essa contestação faz parte do jogo da conquista.
Além do mais, adorava Humberto. Não exatamente a pessoa, mas o macho. Com ele satisfazia-se plenamente na cama. Um homem ideal. Chegava a ser bruto, animalesco. Sobretudo após beber. Ameaçava-a de morte, caso ela o “traísse”.
Vânia não entendia o motivo das ameaças. Pois nunca dissera a Humberto nada como: “Não me traia, para não ser traído.” Pelo contrário, jurava amor e fidelidade até a morte. Não descumpriria o juramento prestado perante Deus.
E todos os domingos assistiam à missa. Desde crianças.
Pois exatamente ao regressarem da igreja, num domingo chuvoso, Humberto encontrou em casa umas “poesias imorais”. Dez ou mais folhas de papel. Entre as páginas de um velho romance. De certo Boter Wrigus. Presente de aniversário de Vânia, dado por uma amiga.
Humberto não conseguia ler nada. Só jornais. Lia os cadernos sobre esportes, boletins do Exército, folhetos da Igreja. Qualquer livro dava-lhe sono, preguiça, tédio. Folheava-o, lia uma frase aqui, outra ali, e nada lhe despertava interesse por aqueles pequenos objetos feitos de papel.
A curiosidade, ou a ociosidade, levou-o a folhear o romance de Boter Wrigus. Um dos maiores vendedores de livros do mundo. “Esse escritor é americano, meu bem?” Se não fosse americano, seria inglês, australiano, irlandês... De qualquer forma, um homem muito rico.
Retirou as folhas de papel de entre as do livro e leu um verso. Sentiu-se mais curioso. Aquilo cheirava a “porcaria”. Leu todo o primeiro poema. E passou a outros. Sim, um amontoado de bobagens. E quem as trouxera para dentro de seu lar? Talvez a doméstica. Sua mulher não seria capaz de ler tamanha imundície.
Ainda desejou rasgar as folhas, queimá-las, levá-las à lixeira. Só desistiu disso quando percebeu que as palavras Marcus Sallustius Secundus constavam em todas as folhas. Seria o autor das poesias?
Ao vê-lo às voltas com os versos, Vânia pensou em arranjar um bode expiatório que a livrasse de reprimendas ou mesmo agressões. E pôs-se a rir. Ele ergueu a mão que segurava as folhas: “Estou esperando uma explicação para isto.” Ela continuou rindo. Brincadeira de uma amiga. Aliás, não lera ainda uma só folha. Pois não devia ler mesmo. Pura imoralidade! E quem escrevera aquilo? Um poeta romano. Ele riu. Desde quando ela gostava de poesia? Se ainda fosse “poesia romântica”! Nem prostituta lia aquilo. Qual o nome da amiga? Joana não seria capaz de tanta baixeza.
Pressionada, Vânia acabou contando parte da verdade. Aquela papelada pertencia a um amigo. “E com que intenção ele lhe deu isto?”
As rusgas tornaram-se freqüentes. Ela vivia nervosa, agitada. E ora se sentia culpada, ora inocente. Via-se adúltera e mal conseguia olhar nos olhos de Humberto. Com remorsos, transformava-se em cozinheira, copeira, arrumadeira. Ele estranhava as atitudes dela. À noite ela o provocava, beijando-o, abraçando-o. E jurava a si mesma dar um ultimato a Isaque, no dia seguinte. Ou ele deixava de perseguí-la, ou ela contaria tudo a Fátima e Humberto.
Não, não diria nada nem à mulher de Isaque nem a seu marido. O tiro poderia sair pela culatra. Não acreditariam em sua versão. Humberto diria sempre que estupro só acontece com criança. Mulher adulta sabia se defender, se quisesse. Machista como o resto dos homens!
Nesses momentos sentia-se apenas vítima dos desejos de Isaque. Sem culpa e sem pecado. Inteiramente inocente. E jurava não cozinhar, não arrumar a casa, não lavar a louça. Deixar tudo por conta de Cristina. E, se Humberto não a solicitasse de noite, dormiria o melhor dos sonos.
Uma noite teve um sonho inusitado. Após ler os poemas de Salústio. Banhava-se numa fonte com outras ninfas. Súbito, de entre os arbustos, surgiam alguns faunos. Entre eles Isaque. Apavoradas, punham-se a correr. E assim terminava o sonho.
No dia seguinte ele a convidou para saírem juntos. Lembrou-se da perseguição noturna e disse-lhe não. Melhor afastarem-se um do outro. Se fossem solteiros, poderia ser diferente. E, sempre que o via aproximar-se da biblioteca, escondia-se, retirava-se. Contava com a ajuda, o socorro de Joana. “Ele chegou” – avisava. Logo Isaque percebeu o jogo de Vânia. E durante dias seguidos não apareceu. Já acreditava ter ele desistido dela, quando Isaque reapareceu. Só restava ameaçá-lo. Caso continuasse a perseguí-la, faria escândalo.
Parecia até brincadeira, jogo de esconde-esconde. Quando menos esperava, ele reaparecia. Se o aguardava, ele não dava sinal de vida. Ou Isaque tramava outras maneiras de se fazer presente. Como quando enviou ao endereço dela um envelope recheado de versos. Ao recebê-lo, das mãos de Humberto, sentiu um arrepio em toda a pele. Como se adivinhasse o nome do remetente. No entanto Isaque utilizou nome feminino – Quésia. Na verdade, um anagrama. “Quem mandou essa carta?” Vânia titubeou e terminou dizendo: “Uma amiga”. Apesar de não se lembrar de nenhuma Quésia.
Eram poemas do próprio Isaque. Todos escritos para Vânia. Um deles – “Soneto da paixão insana” – deixou-a profundamente comovida. Talvez pela declaração de amor.
Uma loucura aquela atitude de Isaque. E se Humberto lesse os versos? Melhor, pois, queimar toda a papelada. Quando, onde? Pois não se queimam cartas de amigas.

(Continua)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Vasto abismo - primeira parte (Nilto Maciel)





















Apparent rari nautis in gurgite vasto.Virgílio, Eneida


Primeira parte


Durante mais de vinte anos, Isaque Paiva se imaginou um homem incomum, quase excepcional. Dias antes de morrer, porém, compreendeu quão vulgar havia sido sua vida. Mesmo enquanto durou aquela paixão tão censurada e tão repelida. Uma ligação perigosíssima, é certo, mas ainda assim vulgaríssima.
Acreditou-se, desde adolescente, fadado aos livros. Lia tudo, com sofreguidão. Enquanto seus irmãos brincavam na rua.
Aos 36 anos havia escrito e publicado seis livros. Porém uma enorme insatisfação o roía. Não passava de um principiante, um ilustre desconhecido. As seis edições tomavam conta de todas as brechas das estantes de sua casa. Além disso, não via mais qualidades em nenhuma das obras que escrevera. Tudo inutilidades.
A idéia de recomeçar, deixar o passado para trás, ser um novo Isaque, engendrar outro sonho conduziu-o aos antigos. E pôs-se a ler e reler Homero, Virgílio, Horácio, etc. Logo descobriu a imensa pobreza das traduções brasileiras da velha literatura, sobretudo a grega e a latina. As livrarias dispunham apenas dos livros mais conhecidos. Autores como Teócrito, Calímaco e Plauto não constavam sequer nos catálogos das editoras. Isso o levou a interessar-se por obras raras e autores esquecidos. Mas onde os encontrar? Talvez nas velhas bibliotecas.
Chegou a elaborar uma lista enorme de nomes de escritores antigos e esquecidos, assim como de suas principais obras. Entre eles os poetas Joaquim de Sousa, Mário da Silveira e Alf. Castro.
De posse de tantos nomes e títulos, Isaque bateu às portas da Biblioteca da Câmara. E num só dia fez duas descobertas maravilhosas: o secular Marcus Sallustius Secundus e a vintaneira Vânia Verbena.
O livro parecia não ter sido sequer manuseado alguma vez. Pois as folhas dobradas assim permaneciam. No entanto recebera capa dura e letras douradas: GURGITE VASTO – Marcus Sallustius Secundus.
A curiosidade de Isaque se aguçou ao perceber que não se tratava de tradução. Sim, tudo em latim. Embora a edição fosse inglesa e datasse de 1847. Na última folha havia até uma referência à recente publicação de O Morro dos Ventos Uivantes.
Tentou ler alguns versos. Não conseguiu entender quase nada. Seu latim não ia além dos aforismos mais divulgados: Abyssus abyssum invocat. Manus manum lavat. Verba volant, scripta manent. Et coetera.Com certeza não havia tradução portuguesa daquela obra. Não se lembrava sequer daquele nome. Havia, sim, outro Salústio, porém Caius Sallustius Crispus.
De qualquer forma, levaria o livro por empréstimo. Não poderia perder a oportunidade de “ler” aquela obra rara. Sim, rara. Talvez raríssima.
E dirigiu-se, com afobamento, a uma funcionária. Queria levar um livro. Quanto tempo poderia ficar com ele? E se não conseguisse ler o livro dentro do prazo?
Diante da moça assustada, de rosto sereno e belo, Isaque lembrou-se das ninfas e deusas da mitologia. Mas precisava sair logo dali, voltar para casa, folhear o livro, ler aqueles versos latinos. Noutro dia olharia com mais atenção para aqueles olhos tão doces. Não, nada de ninfas, nada de mitologias. Devia, sim, cuidar de sua literatura, de seus interesses de escritor. Poderia, por exemplo, reescrever tudo. Pelo menos os versos. Não, jamais conseguiria transformá-los em boa poesia. Obra da juventude. Alguns escritos há vinte anos. Quase um menino ainda.
Reconhecia, embora tardiamente, sua mediocridade. Seis livros medíocres! Uma vida inteira dedicada a escrever, acreditando-se um escritor talentoso. Vinte anos enganado. Enganando-se. Primeiro dizendo-se poeta. Depois contista e romancista. Por último crítico literário.
Procurou o velho dicionário de latim. Faltavam folhas, além das capas. Uma relíquia! Nem lembrava mais como e quando o adquirira. Melhor comprar outro. E por que não voltar à Biblioteca? Assim reveria a funcionária bonita.
Sentiu no peito uma pontada. Remorso. Ana não merecia um pai daqueles. E Fátima, tão boa, tão dedicada à casa, à filha, a ele mesmo, nunca deveria ter rivais.
Ora, não havia nada entre ele e a moça de biblioteca. Nem sabia o nome dela. Talvez tivesse um nome horrível. Geraldina, Raimunda, Salustiana.
E que mal havia em achar bonita uma mulher? E mesmo admirá-la? E até desejá-la? Quem se julgasse livre de tais “pecados” que lhe atirasse a primeira pedra.
Saiu então decidido a ir às livrarias. Compraria uma gramática e outro dicionário latim-português. Terminou, porém, indo logo à Biblioteca. E, ao cabo de uma hora de idas e vindas pelos corredores, colheu duas importantes informações: a moça chamava-se Vânia e era casada.
Ao ver Isaque, ela o reconheceu, pois sorriu e perguntou pelo “poeta romano”. Se já iniciara a leitura.
Nos dias seguintes ele voltou à biblioteca. Olhava as lombadas dos livros, folheava um ou outro e, ao final, se dirigia a Vânia.
Um dia ofereceu-lhe exemplar de seu livro As sete patas do monstro. Ela devia gostar de ler, pois trabalhava entre livros. Sim, adorava ler. Sobretudo romances.
Na primeira folha ele escreveu: “Para Vânia – uma flor em pessoa – com a amizade nascente e a admiração crescente de Isaque Paiva.”
Em casa e no banco dedicava horas seguidas a estudar latim. Fazia exercícios, declinava vocábulos, traduzia frases. Lembrava o tempo de estudante, menino ainda. Os colegas, o colégio, os estudos. O professor de latim, a exigir que os alunos decorassem tudo. Fábulas de Fedro, historinhas curtas e cheias de graça. Fame coacta vulpes alta in vinea... Trechos das catilinárias: Quosque tandem, Catilina, abutere nostra patientia? E também da guerra gaulesa de Júlio Cesar: Gallia omnis est divisa in tres partes...
Porém não conseguia tirar da cabeça a imagem da funcionária risonha. A vontade de revê-la arrastava-o de casa ou do banco para a rua, e desta para a biblioteca. E a vontade logo se fez necessidade. Precisava ver todo dia aquela criatura.
Mas o que diria ela? Com certeza já percebera o excesso de idas dele à biblioteca. E os outros? Já conhecia porteiros, ascensoristas, bibliotecárias. Melhor passar uns dias sem pôr os pés na Câmara. Podia xerografar o livro de Salústio, devolvê-lo e nunca mais ver aquela moça.
Xerografado o livro, Isaque tratou imediatamente de devolvê-lo à biblioteca. Sentiu até um alívio, como se retirasse um peso da cabeça, da consciência.
E pôs-se a pensar com persistência na hipótese de ter em mãos uma obra latina nunca traduzida para o português. Mas quem poderia tirar essa dúvida? Logicamente que especialistas em literatura latina, professores de latim, etc. E quem eram essas pessoas? Não se lembrava de conhecer uma só delas.
Escreveu cartas a alguns amigos escritores. Falou de Salústio e do livro. Suspeitava ter descoberto uma raridade. Não se referiu, no entanto, ao sonho de traduzi-lo.
Sim, se Gurgite vasto não tivesse tradução portuguesa, ele, Isaque Paiva, poderia se tornar um homem famoso. Por descobri-lo e por traduzi-lo.
A notícia do achado de Isaque logo se propagou pela cidade. Poucos, porém, lhe deram importância. Outros riram. Então já havia até descobridores de livros?! E quem seria esse tal de Isaque Paiva? Decerto algum impostor. Brincadeira de desocupado. Adrino Aragão chegou a declarar que tudo – Isaque, Salústio, livro –, tudo era obra de Nilto Maciel. Houve risos no bar Beirute. Emanuel Medeiros pediu até outra cerveja. “Essa é por conta do amigo Nilto Maciel.”
Nada, porém, afastava a imagem de Vânia do pensamento de Isaque. Se tentava ler os versos do romano, toda puella assumia as feições da moça. E a via no lugar de toda dea, confundia-a com Vênus. Se escrevia cartas, o nome dela teimava em aparecer no papel. Rememorava com exatidão os mais triviais gestos dela. Recapitulava todas as palavras ditas por ela.
Tais ruminações logo deixavam o leito do acontecido, do vivido, para conduzi-lo a caminhos imaginários. Da biblioteca saltava para as ruas. Destas para os parques. Destes para os bosques. E terminava príncipe encantado a beijar a bela adormecida.
Acordava-se, assustado. Para que tanta fantasia? E voltava à Câmara, a tal dia, àquelas palavras tão cheias de graça, àquele olhar tão misterioso.
Não, não devia ficar ruminando o passado. E muito menos sonhando encontros. Devia, sim, procurá-la, convidá-la para tomarem um chope. Se ela dissesse não, insistiria. Persistindo a recusa, só lhe restaria desistir de tudo. E voltar a Salústio, aos romanos, ao latim, à velha e destruída Roma.
Afinal encontrara um novo ruma na vida. E não devia evitá-lo. Ao contrário, seguí-lo apaixonadamente. Pois perdera vinte anos de vida, a escrever uma literatura de quinta categoria. Iludido, certo de ter versos eternos e histórias modelares.
Lembrava-se perfeitamente da emoção sentida quando da publicação do primeiro livro. Título latino, a evidenciar erudição. Sentira-se um novo gênio. Revelação no gênero conto. Tivera até a breve ilusão de um dia viver de literatura. Tornar-se novo Jorge Amado. Porém o livro não chegou sequer aos jornais. A pequena tiragem teria encalhado em três ou quatro livrarias, não tivesse Isaque oferecido a parentes e amigos a maior parte dos exemplares.
Procurava fugir dessas recordações. Como se fossem aves agourentas. Espantava-as, irritado. Aliás, só queria mesmo o presente. Nada de passado. A não ser o dos livros. E por falar nisso, quem teria sido aquele poeta Salústio? Pois nenhuma enciclopédia o citava. O único Sallustius célebre fora historiador, e não poeta.
Se Marcos Salústio Segundo não tivesse existido, quem teria escrito Gurgite vasto? Ora, aquele nome poderia ser um pseudônimo – brincou Guido Heleno. E quem garantia ter sido escrito ao tempo de Roma Antiga? Por que os versos não podiam ser de muito depois? Mesmo do século 19? Talvez de algum inglês extravagante.
Não, Isaque não queria simples hipóteses. Em algum livro deveriam constar referências ao seu Salústio. E pôs-se a consultar Histórias de Roma, biografias de escritores latinos, ensaios, estudos, tudo sobre a literatura romana.
Diariamente voltava à Biblioteca da Câmara. E conversava com Vânia. Falavam dos livros, do trabalho dela, da pesquisa dele, disso e daquilo.
O primeiro “não” ele ouviu dela numa tarde muito quente. Desapontado, instalou-se numa cadeira de bar e só se retirou quase à meia-noite. Bebeu algumas cervejas e rabiscou versos sobre versos.
O “não”, pensando bem, poderia ter sido um “sim”. Questão de som. Pois ela o disse a rir e sem qualquer sombra de hostilidade.
No dia seguinte, porém, o “não” se confirmou em toda a sua plenitude. Pois Vânia mal cumprimentou Isaque. E até, em dado momento, deixou a mesa onde trabalhava, para só voltar muito mais tarde, quando confirmou ter Isaque ido embora.
Sentira-se ofendida. Por ser casada, comprometida com um homem. Se aceitasse o convite, estaria maculando sua própria imagem. Como se jogasse fezes no espelho onde se mirasse.
Ele tentou reaproximar-se dela. Nada, porém, fazia Vânia mudar de idéia. Melhor Isaque afastar-se definitivamente dela. Não a procurasse mais. Como se nunca tivessem se conhecido.
Desesperado, ele bebia e lia poesia todo dia. Releu em duas semanas alguns livros. Sobretudo os poetas líricos. Fez uma seleção dos versos que julgou mais adequados a seu estado de espírito. Tirou cópia deles e os enviou, pelo correio, a Vânia. Ao mesmo tempo se pôs a também escrever poesia. Primeiro aventurou-se pelo latim. Mas logo desistiu dele. Jamais realizaria tamanho intento.
É desse período o “Soneto da paixão insana”:

Este é o soneto da total insânia,
da mais completa, mais total loucura.
Nele o amor não vem da antiga Albânia,
não tem segredos, muito menos jura.

O amante não nasceu na Mauritânia,
sequer andava em busca de aventura.
Não se chamava a bela moça Jânia,
talvez não fosse muito bela e pura.

Essa paixão assim mediterrânea
é faca que maltrata, que perfura,
amor que pode dar em desventura.

O nome dela é, meus leitores, Vânia,
e esta paixão é tão terrível e dura
que até na morte não teria cura.

Enquanto isso, lia e relia autores latinos e tentava traduzir o Gurgite Vasto. Logo fez outra importante descoberta: Sallustius parodiava as poesias de seus compatriotas.
Isaque conhecia pouco a literatura latina. Talvez meia dúzia de livros: O asno de ouro, umas fábulas de Fedro, odes de Horácio, A arte de amar, Eneida, etc. Lidos ao longo dos anos, em traduções nem sempre elogiadas. Agora, porém, queria mais. E de uma só vez levou para casa quase trinta autores, de Apuleio a Virgílio. Uns em latim, outros em português.
A descoberta de Isaque se deu por acaso. Havia lido durante horas umas epigramas de Marcial. Chegou a fazer observações à margem das folhas do livro e até decorou uma das poesias. Em seguida voltou a Salústio e defrontou com uma epigrama curiosa. Salvo engano, já a conhecia. E pôs-se a cismar. Daí a pouco correu de volta a Marcus Valerius Martialis. Sim, uma epigrama imitava outra.
A partir de então se dedicou a um duplo trabalho: traduzir o livro de Sallustius e esquadrinhar as obras de outros escritores. Até encontrar nestes peças parecidas com as daquele.
No entanto a vespa da paixão não deixou de ferroar Isaque. Precisava rever Vânia. E pedir-lhe explicações. Afinal, não eram adolescentes. Se ela recusava uma aventura, por que não serem amigos? Para que fazerem-se inimigos?
Sim, iria procurá-la. No máximo ela diria ser casada, direita, e gostar muito do marido. Com mais otimismo, Isaque poderia ouvir uma confissão fundamental: ela jamais namorara outro homem, após o casamento, porém não gostava do esposo. Apenas o suportava. E então estaria aberta uma porta para a aventura. Tudo dependeria dele, de sua habilidade de cortejador.
Munido de tais raciocínios, dirigiu-se à Câmara. Na bagagem levou ainda uma relação de títulos de obras latinas. Ponto de partida para chegar à moça.
Antes de alcançar a biblioteca, encontrou uma amiga de Vânia. Haviam se conhecido lá mesmo. Por que não voltara mais? Desculpou-se: trabalhando muito, sem tempo para os livros.
O nome de Vânia logo veio à baila. Cheia de problemas. Pensando até em pedir remoção para outra seção. Seria, pois, de boa prudência que Isaque não visitasse tão cedo a biblioteca.
E Joana o chamou a um canto. Vânia andava apavorada. Pois, se Humberto descobrisse “tudo”, uma tragédia poderia ocorrer.
Ainda fingiu não estar entendendo nada. Não conhecia nenhum Humberto. A moça sorriu. Sabia de todos os detalhes do caso. Por pouco Humberto não vira as poesias enviadas a sua esposa por Isaque. Tomasse muito cuidado. Não repetisse tamanha tolice.
Num primeiro momento sentiu enorme pavor. Viu-se morto, um tiro no coração, estendido no meio da rua. E a multidão a correr, gritar. Não, Vânia não devia ter contado nada ao marido. E nem contaria.
Procurou um barzinho. Precisava se acalmar. Nada de apavoramento. Contudo não enviaria outros versos a ela. Não cometeria mais esse pecado juvenil. Aliás, aquela poesia melosa estava fora de moda. Nenhum homem nestes tempos de “sexo explícito” seria capaz de seduzir mulher com versos românticos. Coisa ultrapassada. O tempo das serenatas há muito passara.
Por que não levar a Vânia as poesias eróticas de Salústio Segundo? Pois todos os poemas do romano tangiam a lira de Eros. Pelo menos aqueles já traduzidos. Como a paródia do “Anni tempora”, de Ovídio.
Com certeza ela não se escandalizaria. Até porque já devia ter lido muita porcaria. Sobretudo nos romances norte-americanos. Pois adorava esse tipo de literatura. Apesar de trabalhar junto a livros tão diferentes disso.
Isaque não a censurou por ler aquelas histórias feitas de crimes, espionagem e sexo. Apenas riu e prometeu-lhe seus próprios livros. Ela iria gostar muito de O punhal de Brutus – brincou. Devia ser um “romance emocionante” – ela dissera, emocionada.
Não conseguia vender seus livros. A não ser nas sessões de autógrafo. Vinte a trinta pessoas, todas parentes e amigos. Depois a corrida atrás dos leitores. Deixava dez exemplares em cada livraria da cidade. O resto levava para casa, enviava a escritores desconhecidos ou ofertava.
Acusam-no de amadorismo. Escritor não devia dar livros. Nem pagar para ser editado. Antes exigir pagamento de direitos autorais e deixar por conta dos livreiros a comercialização dos livros. O leitor – diziam – não respeita escritor amador. Não respeita e não lê.
“De uma forma ou de outra, sou escritor” – objetava Isaque. E ria dos “escritores eternamente inéditos”.
Porém ria sem convicção. Sua obra talvez não merecesse mesmo ser publicada e lida. Daí a decisão de não mais escrever. Pelo menos durante um ou dois anos. E se dedicar à leitura dos clássicos.
Tão devotado andava a ler os latinos e a traduzir Salústio que chegou a sonhar escrevendo versos em latim.
Uma feita acordou em pleno sonho. Pulou da cama, agarrou caneta e papel, e anotou – Odi et amo: quare id faciam, fortasse requiris.
Imaginava ter escrito o verso para Vânia. Mas logo percebeu o engano – Catulo escrevera a epigrama para Lésbia.
Sonhava também vivendo no tempo dos Césares. Num desses sonhos procurava Marcus Sallustius Secundus. Andava pelas vias de Roma, a perguntar pelo poeta. Ninguém conhecia tal cidadão. Cansado de vagar pelas colinas, terminava o dia no interior do Coliseu. Súbito ouvia um rugido de leão. E acordou.
Enquanto traduzia, Isaque tentava esboçar uma biografia de Salústio. Mas como fazê-lo, se as enciclopédias nenhuma referência faziam do poeta?
A primeira pergunta seria: em que tempo ele vivera? Sua própria obra poderia dar a resposta. Bastava encontrar menção a nomes de imperadores, cônsules, tribunos, etc. Ou de poetas, historiadores, filósofos, etc. Para começar, relacionou alguns nomes, bem como os respectivos anos de nascimento e morte.
Descobriu, então, num dos poemas de Salústio, alusão a Lucio Apuleio. Logo, teria sido, no mínimo, contemporâneo deste. Ou seja, poderia ter vivido entre os anos 125 e 170.
Antes descobrira semelhanças entre algumas epigramas de Salústio e de Marcial. Como este viveu até 104 d.C., aquele havia sido posterior a Catulo, Estácio, Horácio, Ovídio, Plauto, Terêncio, Virgílio, e outros poetas.
Assim, Salústio Segundo teria nascido durante o governo do imperador Antonino e morrido sob Sétimo Severo. Suspeitou Isaque haver o grande parodista cometido suicídio.
Satisfeito com seus achados, escreveu a alguns amigos e telefonou a outros. Logo a notícia se espalhou. Muitos escritores, porém, novamente não lhe deram crédito. Jair Vitória riu. Que interesse podia haver naquilo? Afinal, latim era língua morta. Guido Heleno fez trocadilhos, inventou piadas: Salústio Segundo vivera até demais, pois chegara a Sétimo Severo. Outros dois, no entanto, deram importância à nova. Nilto Maciel e Salomão Sousa. Este quis até conhecer Isaque Paiva: “Apresente-me a ele, Nilto.”
Entretanto Isaque só queria rever Vânia. E comunicar-lhe o resultado de seus estudos. Aproveitaria a ocasião para mostrar-lhe os poemas já traduzidos. Mas como seria recebido?
Encontraram-se à saída da Câmara. Ela assustou-se e apressou o passo. Ele precisava falar-lhe. Só um minutinho. Ela ainda opôs resistência. Não queria mais conversa com ele. Seu casamento corria riscos. Humberto seria capaz de matá-los.
Isaque mudou de assunto. Só desejava falar-lhe do livro de Sallustius. E pôs-se a falar. Sentia-se agora um homem singular. Ninguém antes havia traduzido ao português aqueles poemas. Além do mais, o romano era completamente desconhecido. Nem as enciclopédias o citavam. E tudo graças a ela. “Por quê graças a mim?” Não fosse ela, jamais teria achado aquela raridade. Pois foram seus olhos que o prenderam àquela biblioteca. Iria publicar o livro em português. E o dedicaria a ela.
Ao despedirem-se, ofereceu-lhe cópia dos poemas já traduzidos. Lesse e desse opinião. Ela disse não estar interessada em ler poesia. Mas enfiou na bolsa a papelada. E saiu, quase a correr. Como que petrificado, ele se deixou a olhar para aquele vulto serpeante e lesto, que ora sumia, ora reaparecia, no amplo estacionamento.
Quando se deu conta da solidão em que se achava, Isaque pensava nas suas memórias. No projeto de escrevê-las. Há mais de ano recolhia documentos pessoais e de familiares. E fazia anotações. Sobretudo de datas e fatos importantes. Como o seu ingresso na Universidade. O agitado 1967. As grandes passeatas, jornalecos revolucionários.
No entanto só lembrava os nomes de dois ou três colegas de Faculdade. Recordava, sim, as feições de quase todos. E alguns fatos do cotidiano. Os livros, os namoros, uma colega bonita chamada Alice. A vontade de aproximar-se dela, atraí-la para si. Chegaram a estar a sós na sala de aula. Ela, porém, não o deixou abrir a boca. Falou o tempo todo, talvez meia hora, do Camarada Mao, da Guerra Popular, da necessidade da luta armada...
À noite, Isaque escreveu um conto. Intitulou-o “A camarada”. Uma estudante maoísta chamada Célia, que amava um poeta chamado Basílio. Esse conto está no seu primeiro livro, editado em 1971.
A maravilhosa Alice ele nunca mais a viu. Disseram-lhe ter desaparecido ainda em 1970.
Quando recordava pessoas já mortas, Isaque se deprimia e pensava em desistir de escrever as memórias. Melhor ler os clássicos. Até que Salústio Segundo apareceu e o fez esquecer os pesadelos do passado: “Vivamus, mea Julia, atque amemus...”
A quem teria Sallustius amado? Descobriu Isaque alguns nomes de mulher nos versos do poeta. O mais citado talvez seja Julia. Há, porém, ainda Justina, Livia e Lucila.
Julia teria sido amante do Imperador Cômodo. Pois um dos poemas de Salústio termina assim: “Amada minha, que teu senhor te esqueça e nunca mais te incomode.”
Uma de suas mais bem realizadas paródias foi escrita a partir do famoso poema que Catulo dedicou a sua amada:
Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum...

Quase toda a poesia de Salústio fala de amor. Daí parodiar poetas que dedicaram muito de sua arte a Cupido. Há até um pequeno poema cujo título copia o do notável Ars Amandi de Ovídio.
Outras vezes Salústio simplesmente utilizava provérbios para intitular seus poemas. Como Amor tussisque non celantur (Não se pode esconder o amor e a tosse). Ou Nit transit amantes (Nada escapa aos amantes).
Um dos poemas satíricos do parodista intitula-se Rerum novarum. Fala de escravos e senhores. Para Isaque ocorreu mera coincidência ao haver Leão XIII dado o mesmo título à sua famosa encíclica.
O escritor Guido Heleno dava explicação para a “coincidência”: Salústio vivera após 1891. Seu verdadeiro nome poderia ser Isaac, Isaque ou mesmo Nilto.
Ao tomar conhecimentos da pilhéria, Isaque Paiva se aborreceu. Arrancaria a peruca de Guido, em pleno Beirute, num sábado à noite.
Zangado ainda, dirigiu-se à Câmara. Precisava desabafar urgentemente. E só Vânia lhe servia de confidente.
Ela riu do chiste de Guido. Devia ser uma pessoa muito engraçada. E os poemas, lera? Sim, pareciam bem escritos. E bem traduzidos. Parabéns pela tradução!
Conversavam animadamente, quando apareceu Humberto. Fora buscá-la de carro. Saíra mais cedo do quartel. Vânia apresentou um ao outro, meio assustada. “Isaque é um grande escritor”. Humberto apertou, com firmeza, a mão do rival. E perguntou se o expediente já encerrara. Isaque alegou estar apressado, e retirou-se da sala, quase a correr.

(Continua)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Os livros proibidos do sótão (Viegas Fernandes da Costa*)




“Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta despertou minha curiosidade em aprender. (...) Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras. Meu senhor proibiu-a de me dar mais instrução... [mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora.”
Frederick Douglass (1)


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

A busca da paixão - primeira parte (Nilto Maciel)





















Constante viagem. Eterna viagem. Somos viajantes da eternidade. Odisséia de ser.

PRIMEIRA PARTE

Meus pés são raízes profundas enfiadas no chão desta cidade. Sou os próprios muros desta fortaleza, pedras entre si grudadas e na terra afundadas. Encantado, armo passos livres, intento arrancar-me, debato-me no asfalto, e o visgo dele mais me prende. Projeto o regresso, porém meu vôo morre no próprio sonho.
Engolido feito inseto, debato-me no bucho do sapo. Na escuridão, tateio caminhos de saída. Tonto, vejo expandir-se o próprio núcleo. A cidade é um poço onde me afogo. Nado, e mais me afundo. E é infindável o fundo.
Estou definitivamente aldeado nesta cidade que, quanto mais se alarga, mais me comprime. Já perdi a noção de suas quatro portas, e dia a dia mais me extravio em seus labirintos.
Aonde quer que eu consiga ir, já serei esta carga ambulante de angústia e medos. Talvez porque nascido sob o signo dos apocalipses. Desde cedo me feriram a consciência com notícias de fim do mundo.
Qual o sentido de um passeio, de uma viagem de férias, de uma visita às ruas do passado? Mais fácil imaginar-me menino a brincar de esconde-esconde.
Não, o sossego de uma ruazinha ainda calçada a pedra não me livrará da buzina que me soa nos ouvidos. O riacho mais perdido fluirá aos meus olhos como puro exotismo. Na estação de trem, onde durmam cachorros sobre os trilhos, parecerei tudo, menos um viajante e sua mala atulhada de saudades. Não terei mais bancos onde possa sentar minha solidão, nem mais águas que me lavem a ferida de tantos anos, nem mais trens que me carreguem a passeio.
Que ir fazer ao pé do altar, onde Cristo me expulsará a chicotadas? O jeito é adorar os ídolos da indústria e fugir-lhes das rodas. Que ir fazer ao pé das mangueiras, onde as frutas cairão podres sobre minha imagem de cidadão? O jeito é pedir a esmola de um aperto de mão e escapar aos esbarrões. Pois vá eu correr pelas ruas, e os fantasmas de verde me erguerão seus cajados. Vá eu esconder-me detrás dos muros, e as aranhas me espreitarão a palavra.
No entanto continuo tão perto de meu passado. Apesar disso, minha aldeia – nova Almofala* – o tempo a soterrou. E como me é difícil essa tarefa de arqueólogo! Aqui e ali redescubro pequenas aparências carcomidas pelo pó, restos de amigos e de mim mesmo, caricaturas apagadas de meus medos, destroços daquele mundo perdido.
Aqui vivo, a contar as iras cotidianas, para não roubar os que têm, sob pena de dupla punição.
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* Almofala, povoação litorânea cearense, famosa por suas dunas e por ter sido soterrada várias vezes por elas.
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Para seguir o exemplo de fulano, que, por ser manso e humilde de coração, recebe palmadinhas nas costas e decerto terá o reino dos céus. Para carregar ao lombo a lenha que acenderá o fogo do chefe, sob pena de desobediência.
Aqui estamos, eu e meu desespero, a guiar os passos para não pisar em falso e cair na arapuca.


Aqui nada lembra Palma. As casas não têm quintais, as ruas não têm jumentos a pastar, nenhuma cadeira na calçada vê a eternidade pousar nas pedras do calçamento. Não há uma serra a cem passos do olhar, verde, gigantesca, cheia de montes e picos. Não há um trem diariamente partindo, diariamente chegando. Não há, sobretudo, a menina mágica que aparecia e desaparecia, ao bel prazer dos devaneios do menino sereno.
Aqui há, sim, a idéia de partir, de buscar a bola que ficou presa no forro, um pedaço de sonho enlaçado nos punhos da rede, uma reza esquecida na hora do sono, um minuto de ternura debruçado na janela, um vago olhar a seguir os passos daquela menina incomum.


Nunca tive pretensões de ser viajante. Nunca imaginei viagens. Talvez por andar sempre à volta de mim mesmo. E estes passeios, estes volteios, esta ciranda me bastam.
Não consigo estar sempre no passado. Talvez se fosse cego o presente não me atraísse nem um pouquinho. Mas vejo, e as coisas velhas desta casa me falam de mofo. O armário de fórmica comprado há anos agora acolhe o rádio e as baratas. O rádio, enorme, de segunda mão, fala fanhoso e canta engasgado. Enche a casa de notícias obscuras.
Enquanto chafurdo no chão da angústia, meu pai cochila, embalado pela monotonia das horas. Nem se dá conta das moscas nem de mim. Talvez sonhe os velhos tempos, e nem imagine a labareda que é minha cabeça.
Vez por outra me conta pedaços de sua vida, e tudo me parece lenda. E, no entanto, quem acreditará em mim? Serei também personagem lendário? Mas inventar-se é fazer-se.
Quiçá ele venha inventando seu passado, como todos fazemos. É forçoso fundar os alicerces, quando já as paredes estão rotas e os caibros do telhado podres. Ou, se não, reforçá-los. E nisso vai sempre a invenção. Refazer também é inventar.

Vasculho as gavetas da memória e em nenhuma página me encontro. Se me encontro é perdido entre as folhagens de esmaecidos quintais. Ou a mirar heróis sem nome. Não sou nenhum deles. Sou mera figura sem vida. Ou espectador de casos. Minúsculos fatos que mal dariam uma página de romance. Figurante anônimo de comédia de costumes. Às vezes, mudo ouvinte de histórias e lendas.
Os heróis são os outros, gente morta. Nunca, porém, príncipes de contos de fada. São personagens pequenos de dramas de circo, homens desaparecidos na poeira, criaturas que não vingaram para as tragédias sociais. Nenhum Lampião, nenhum padre Cícero, nenhum Getúlio, nenhum Conselheiro.
Ainda assim, sinto-me tão personagem como os protagonistas da História. Pois vivi debaixo do mesmo sol e sob a escuridão da mesma noite deles.

Se minha epopéia se limitasse em mim mesmo, talvez eu fosse mais inteiro. Porém sou um velho retrato cortado em pedaços, como as próprias figuras que tento colocar neste álbum, de maneira mais ou menos coerente. Tarefa quase impossível, porque teimam em se misturar. Olho para meu pai, e logo me aparece a cara de outro homem. Como antigamente. Da mistura de personagens nasciam outros. Apareciam-me reis, que eram grandes homens barbudos, armados da cabeça aos pés, voz de trovão, braços cheios de músculos, roupas brilhosas e pesadas. Mulas-sem-cabeça andavam pelos caminhos, o sangue escorrendo do pescoço. Lobisomens cabeludos, focinhos de cachorro, braços compridos, tocaiados detrás das mangueiras, urravam danadamente. E bestas-feras, dragões, cangaceiros, etc.
Meus horrores nasciam das histórias contadas no alpendre, na sala, na casa de farinha. Chegava-me devagar, escondendo-me dos olhos trabalhadores, cioso de tudo ouvir. Durante a farinhada contavam-se histórias longas, e os ouvintes ora riam, ora permaneciam compenetrados, assustados.
Talvez eu fantasiasse demais e imaginasse aqueles personagens de histórias de trancoso, da carochinha e de cordel, segundo uma ótica toda minha.
Certas figuras não consigo apagar de meu álbum. Se me fosse possível, ao menos, sobrepor-lhes outras! Seria mais cômodo, no entanto, jogar tudo fora. Mas como? Quem poderá se livrar do passado?
A substituição é realizável e simples. Basta colar-se a figura de fulano em cima da de sicrano. Faz-se mister, no entanto, a semelhança das duas feições. Do contrário, os traços característicos de sicrano continuarão visíveis. Dar-se-á confusão de traços. Surgirá um monstrengo.
Se fulano se assemelha a sicrano, haverá apenas troca de atores. O drama será o mesmo. E, se assim é, para que a substituição?


Meu velho pai cochila. A morte o espreita. Moscas pousam em suas mãos enrugadas, em seu rosto gasto. Sua boca – que impropérios terá dito? – está aberta, feito a Gruta dos Morcegos. Ele também é meu príncipe, meu gerador. Porém não deve sequer saber de minha dor, tão grande, bem maior que uma caverna.
Meu pai, ele não me abandona. Sua figura pintada por mamãe e aquela por mim mesmo apreendida aos retalhos e montada pacientemente. Todas as figuras são costuradas, remendadas, quebra-cabeças. E nenhuma pode ser autêntica, se seus pedaços alguns se perderam no lixo, as traças roeram outros, o tempo os desbotou.
Meu pai! Sua fala na cabeceira da mesa, tão distante que parecia muda. Eu enfiava feijões nas brechas das tábuas, para desenterrá-los durante o cochilo da reza. Padre-nosso que estava no céu. E eu na terra, joelhos doídos, rezava meninas nuas e sujava o calção.
Quanta vergonha de ser pecador. Eu me confessava a Deus. Prometia-lhe não mais pecar, fugir das más companhias. E fugia de fato dos outros, de suas conversas escandalosas, de seus gestos e atos pecaminosos. De noite sonhava com cães celebrando missa e gatos passeando às tardinhas na praça, conversando e rindo feito mocinhas e rapazes.
Estes sonhos mais tarde me atormentaram, de tanto eu não saber encerrá-los.
As meninas de minhas noites não existiam, voavam feito borboletas nas manhãs e tardes de flores. Adiante eu as agarrava, sem querer mais largá-las. Presas entre meus dedos e punhos da rede, elas eram minhas. E eu me lambuzava no gozo, enquanto o mundo todo latia. Depois a sinfonia dos galos se alastrava pelos quintais e me despertava. Os sinos tocavam e eu espantava o sono das muriçocas com o pelo-sinal, os dedos grudados de prazer, que eu cheirava arrependido e saudoso.
Quando chovia, corríamos para casa. E pedíamos a Deus que aquilo parasse. Passado o temporal, abríamos portas e janelas. A água escorria veloz pelas coxias e carregava barquinhos de papel e lixo. E longe, bem dentro de meus olhos, uma menina brincava de se banhar na chuva, feito ninfa, feito flor.

Cutuco a memória como se fosse chão, à cata de brinquedos perdidos, de pedaços de minha vida – cacos de mim mesmo. Encontro-os sempre, mas sinto que a terra devorou muitos deles. O tempo os comeu – vermes de meu tormento.
Os trens descarrilaram nas ladeiras. Morreram os maquinistas, os passageiros. Um mundo de escombros. O matagal tomou conta dos trilhos. Não há mais estrada de ferro. Nem estação nenhuma.
Os cavalos de pau, os bois de melão, as galinhas não-sei-de-que – todos os animais se esfacelaram. Cavaleiros, vaqueiros, criadores – todos enterrados.
A própria terra onde viviam não existe mais. O mar a inundou. O grande mar do tempo. Aquele mundo é morto, destruído. País fora dos mapas. E tudo em mim é confusão. Águas tormentosas, mar encapelado, tempestade.

Havia em casa vinte portas e quatro janelas. Duas para a rua, duas para o quintal. Passarinho preso em gaiola, eu imaginava vôos e corria de uma ponta a outra. Um cachorro andava lerdo a virar latas. O burro do leiteiro capengava. Além das últimas casas o verde da serra anunciava onças. Porém tudo me parecia muito distante. E eu me lembrava do gato. Talvez vadiasse pelo quintal, à cata de andorinhas. De uma das janelas eu o avistava. Brincava de se perder entre as bananeiras. E eu seguia seus passos e me perdia. Até encontrar a menina invisível.
Enquanto as dúvidas me devoram, esquadrinho os meus arredores. Esta sala – clausura que me imponho bestamente. Estas paredes que sobem no rumo das telhas, inalcançáveis, furadas aqui e ali pelos caibrais de nossa genealogia, enfeitadas dos armadores do sono e dos sagrados quadros da família. Meu pai mira o mundo de cima de sua mocidade, minha mãe pousa seus sonhos na grinalda da servidão, e Jesus abençoa tudo, triste feito um condenado.
Por que não sair para as ruas, ver as pessoas, conversar, arranjar mulher? Tantas por aí. Não, não me dá vontade nada disso. É urgente vigiar estas moscas. Ou apenas vê-las nos quadros da parede, cevadas de defunto.
De tanto cismar, perco a noção do tempo. E diante do papel às vezes nem sei se estou em casa. Para mim esta sala era aquela onde eu me refugiava para pensar na menina de meus devaneios.
Visões, irrealidades, abstrações! Sim, mas tudo existe e não posso negar com palavras as realidades dos outros sentidos. Ainda quando passadas. Nas cavernas da memória estão gravadas as inscrições dos primeiros homens.
Ora, que importa o passado! Só o presente tem sentido. Sim, o presente.
Reparando bem, no entanto, o presente é aquela casa de aranha no canto da parede ou aquela mancha que a mão de uma goteira pintou. E já morreu.

Sou funâmbulo para mim mesmo. Na corda bamba da vida passeio. Rio e choro feito menino. Se cair – e sempre caí e um dia cairei definitivamente – chorarei a má sorte do palhaço.
Não poderei viver eternamente sobre arames ou cordas. O espetáculo não pode durar muito. O equilibrista é humano, cansa e quer descansar, dormir, sonhar.
Preso estou às teias que teci. Sou Ulisses. Meu destino tracei penelopemente. Tecido, ainda me teço. Teço o rei tido em aventuras. O rei sou eu. Meu rei, meu reino.

Eu queria apenas ser como um animal. A água do esgoto escorria sob os pés das galinhas, que cacarejavam, talvez a sonhar desconhecidos insetos, coloridos dejetos. E enfiavam o bico, sem medo, naquele pântano.
Nos becos havia sempre um jumento a espojar-se no chão. Livre para sujar-se, sem vergonha de seu corpo. Ouvido grudado ao coração úmido da terra.
Eu queria esconder-me nas copas das árvores, confundir-me com gafanhotos e lagartas. Desejo de perder-me para achar-me solto, sem compromissos nem amarras – gato doméstico voltado para sua natureza felina. Fera indomada e nunca pressentida. Correr pelo mato, alucinado de beleza e liberdade, liberto de panos pecaminosos, as roupas que nos escondem dos olhos dos outros. E dos nossos.

Ao me sentir perdido no jardim de minha intimidade, pareceu-me estar doido. O mundo rodou e eu não sabia em que lugar dele me encontrava. Daquele quintal em expansão, como se me tivesse reduzido a um olhar para dentro, ou paralisado no seu centro. Para todos os lados um fim de mundo, vastidão de terras verdes. Bananeiras, laranjeiras, limoeiros, jaqueiras.
Perdido, já não sabia onde ficava o esgoto por onde escorria a água suja e que, quando chovia, mais parecia um canal. Traria peixes em sua correnteza a caminho do Potiú? Inundaria a estação de trens, as ruelas, os morros? Levaria na enxurrada o sonho de um dia conhecer as raparigas e sua vida misteriosa? E, no seu constante escorrer, poderia engrossar o leito do rio e descer para o mar?
Não sabia mais onde ficavam as fruteiras, nem sequer os muros. Ao me achar, se me achei algum dia, todo o espanto do mundo havia feito de mim um sonhador incurável.
E por onde andava o bichano? Talvez a ressonar entre a folhagem, cansado de roncar e engolir pelancas. Velho, já não se atrevia a perseguir ratos na despensa, a meter-se entre as achas de lenha, todo fúria e unhas. Preferia arranhar as bananeiras macias e beber leite de vaca, preguiçosamente.
Em que latitude da infância eu me achava? Diante do muro, com toda certeza. Mas qual dos muros me afrontava? O dos fundos, o da direita, o da esquerda? Que direita, que esquerda? O da direita de quem vinha dos fundos era o da esquerda de quem partia de casa. Se ao menos pudesse olhar para o quintal do vizinho! As lagartixas espiavam o mundo de cima dos muros e me saudavam. Não, elas não me assustavam. Só me causava pavor ferir-me nos cacos de vidro.

Naquele dia de medo e ousadia, imaginava tudo, inclusive os caminhos da perdição. Ou o inferno cristão, o fim do mundo tão propagado nos sertões.
Naquele dia delirante todas as mínimas coisas cresceram em encanto para mim.
Para trás ficava a bola de meia no canto da parede, debaixo do armário, exposta ao sol no telhado. As galinhas de melão, os bois de sabugo, minha criação ao relento. O time de botão, toda sua grandeza e fama dentro de uma caixa de fósforos.
A voz das coisas silenciada. E como imaginar isso, se ainda permaneço o mesmo ouvinte de pedras e bichos? Meus ouvidos me acusam constantemente de ouvir palavras cruéis.
Naquele dia de perdição esqueci as rezas sem fim na boca da noite, marteladas na memória. Em nossa casa rezava-se em demasia, chorava-se diante de falecidos amados, pedia-se a proteção de um deus marmotosamente poderoso, fantasmagórico e pai de todas as assombrações.
Na angústia de me saber sem rumo, eu sentia a ausência de meu pai, do rádio velho, rouco, inerte, das pedras do calçamento mais toscas. De meu gato morto no bico imundo dos urubus. Esmagado pelo balanço da cadeira a rolinha e meu remorso. Tudo morreu naquela vez, menos o desespero de ser mortal.
Naquele dia tudo eu lembrei. Pendurado no cabide ficou o chapéu de meu pai. Perdidos no estirão da calçada os ecos de seus passos certos, contados, medidos. Mil para começar a manhã. Outro tanto para regressar e se empanturrar à mesa. Uma porção para enfrentar o sol quente. Mais mil para terminar o dia e descansar as pernas.

Perdi-me entre a última porta da casa e os muros do quintal. No pequenino território de minha primeira utopia, naquele país sem leis nem reis, cujas fronteiras o ligavam ao resto do mundo.
Tudo, porém, mudou. No mapa já não existe aquele Reino da Perdição. Agora a casa é outra e nem sequer se parece com aquela. Nem suas pedras são semelhantes às daquela, por mais minerais que sejam.
A casa de meu quintal-país era cheia de maravilhas e fadas, e nela vivi a história que nenhum trancoso escreveu. Hoje são escombros. Demoliram-na as pás da impiedade. De pé restaram apenas os muros dos castelos de areia, concretamente erguidos e firmes.
Perdi-me na geometria dos passos, por palmilhar o chão com as próprias asas. Perdi-me na geografia ilusória daquele quintal sem fim, por mera insensatez.
Perdi-me sobretudo em mim mesmo, nos tortuosos caminhos da solidão, para nunca mais me achar, nem encontrar jamais o caminho de volta, nem quaisquer outros que levem a algum lugar.

A história do quintal pode ter sido apenas sonho? Ou é sonho este momento? Como distinguir um tempo de outro, se no interior da caverna de minha consciência fujo pelos labirintos de mim mesmo?
Meus sonhos eu não os levo a ninguém. Antes, qualquer padre podia me mandar às penitências. Agora os analistas me ouviriam e se enriqueceriam de elementos para suas teorias, se eu tivesse dinheiro. Não dou mais esse prazer aos carrascos, nem vou servir à literatura dos outros. Eu me confesso e analiso todos os dias. Não me penitencio, porque sou vítima. Nem me arranjo curas, porque, se deixar de sonhar assim, terei me matado.
Vivo também o passado. É pouco viver só o presente. O homem é poço onde se mira enquanto mira.

Perdi-me em mim. Nos infinitos corredores desse labirinto de abstrações. Em vão busquei a porta de saída, o exterior de mim, a luz do sol, os outros. (Nem sei se há porta de saída. Talvez eu esteja aprisionado aqui, em mim, no infindável território da solidão. Mas, se entrei, há uma porta. E nela poderia estar a saída.) Em vão lutei nas trevas, tateando paredes, feito cego. No entanto eu via. Ora inscrições, ora insetos, ora nada. Como se lá tivessem estado outras criaturas, meus ancestrais. Como se aquilo fosse cemitério. Cidade subterrânea. O outro lado da vida.

Não busco mais saídas. Convenci-me de que em mim mesmo resido, sou. Perdi o complexo de ovo, feto. Minha casca é meu limite. As paredes da placenta me bastam. Conformei-me com ser criatura inacabada. Resguardo-me do chão de pintos, galinhas, galos. Do chão dos meninos sem razão. Ouvirei o piar de meus irmãos, longe deles. E seu canto. Seu choro.

Eu já falei da menina de meus sonhos? Se não, passo a falar. E começo dizendo que somos fictícios. Não existimos de verdade, nem eu nem ela. Imaginei-a, como ela deve ter me imaginado. Criamo-nos um ao outro.
Por que devemos ter existido de fato? Podemos ter sido apenas personagens de ficção. Nada comprova nossas existências na Terra. Como nos mitos e nas lendas.

Sentado no chão, escavaquei a terra, olhei de novo para o muro e, de repente, apareceu minha menina. Que nome tinha? Nem sei se é possível escrevê-lo. Ela, sim, existia mesmo e parecia uma fada. Seu sorriso nunca se escondia, por mais ausente que estivesse. E como adorava brincar! De ser ela mesma, de se transformar em mil seres diferentes e mágicos. Às vezes, cantora e bailarina, na cadência das nuvens, no rumo do infinito. Desaparecia depressa de diante de meus olhos e eu sossegava e me punha a inventá-la de novo. Partia do nome, aquele nome engraçado e bom de pronunciar. Dava-lhe muita boniteza, como a dela mesmo. Fazia-a rir, toda ela alegria. Convidava-a a brincar, de qualquer brincadeira, ao gosto dela.
Essa menina, de tão eterna, eu a recriei em outras. As reais, as imaginárias, as sonhadas. Os personagens dos sonhos são invenções ou recriações?
Esqueço os instantes fugidios de minha infância. Quero apenas aquela utopia deleitável da menina imaginária. Não, ela existia mesmo. Morava noutra rua, numa casa grande e azul. Devia ter mãe e pai e estudar na cartilha. Ou só vinha de férias, de outras terras, de bem longe, do mar, do sertão?
Pensar nela me dava prazer. Pensar muito, até esquecê-la, tê-la apagada de meus olhos. Esquecia-a, perdia-a de vista. E punha-me de novo a procurá-la pela casa, pelo quintal. Debruçava-me à janela, olhos inquietos a subir e descer a rua. Aguardava-a descida do sol, e chorava. Esperava-a descida da lua, das estrelas, e sonhava. Vãs esperas e buscas! Não a tendo de volta, confundia-a com outras. Surgiam na porta da rua duas pernas e um vestido que aos poucos me danavam. Aparecia no meio da praça um sorriso que logo se fazia careta estranha. Nenhuma era ela, e eu chutava a bola de meia para o céu, com força e raiva. A bola subia, não voltava mais, caía nos telhados, desaparecia.
A menina olhava para mim e ria. Sem jeito, eu também ria e olhava para ela, sua beleza. Como tinha aparecido ali no quintal? Só podia ser a menina das aparições, porque só ela aparecia assim de repente, sem aviso, quando eu menos esperava. Teria pulado o muro, vindo dos quintais vizinhos? Ou já vivia no meu quintal, escondida no meio das bananeiras, do mato, abandonada pela mãe, pela madrasta, castigada por não querer estudar, desobediência, má-criação? Tudo ela negou. E, aborrecida, ameaçou: Se eu continuasse cheio de perguntas, ia embora. Pedi que ficasse. Andava perdido, não sabia mais o caminho de casa, precisava de companhia. Chamou-me de besta. E riu. Compreendi: não queria me ofender; antes, me proteger. Aproximei-me mais dela, confiante e sem vergonha de me mostrar medroso. Mamãe podia me castigar, se eu não voltasse logo. A menina me olhou demoradamente. Também precisava ir para casa. E, súbito, desapareceu, como as fadas dos bosques. Olhei para todos os lados. Lagartixas me espiavam com olhos sutis. Entre as folhas das árvores avistei pedacinho da parede da sentina.
Que me restava fazer? Esperar infinitamente por ela? Ou buscá-la noutras latitudes, além das fronteiras daquele mundo feito de solidão, lodo e sombras?
Decidido, saltei o esgoto – como se atravessasse, de uma só passada, o Rubicão, e, vitorioso, alcançasse a Eternidade.
Chegando ao pequeno corredor, nem sequer desviei a vista para a sentina e o banheiro. Não, ela não se esconderia ali.
Na cozinha, mamãe atiçava o fogo do fogão. Nem me viu voar. Fui direto ao quarto de dormir e me escondi detrás do guarda-roupa. Sentei-me no chão frio e pensei seguidamente nela, na menina.
E ainda penso, porque a busco sempre.

Aquele tempo da menina bonita, visão de meus olhos sonolentos, do quintal e suas fruteiras, é minha obsessão. Naquela época amanhecia de repente, tivesse sido noite ou dia claro, e eu corria ao terreiro para ver o sol. Minha mãe vivia sempre na cozinha, a abanar as brasas debaixo da trempe, e meu pai não parava de chegar e sair. Os galos cantavam engrossando o pescoço e as galinhas se arrepiavam e fugiam. E tudo em mim eram lembranças e uma vontade danada de falar e contar histórias engraçadas. Calava-me, ria sozinho, e me punha a desenrolar o carretel enovelado dentro dos olhos. Enrabichava-me a minha mãe e lhe falava de estripulias em cima dum cavalo branco muito gordo. Foi sonho, meu filho. Mas os bichos existiam de verdade, eu existia, estava ali vendo a tapioca dar pulo mortal e cair estirada no meio da caçarola.
Nós existíamos e vivíamos a mesma vida.

Como é fácil enganar com palavras! Quem perceberá o quanto estou iludindo? Ou estarei me enganando com palavras? Não, não existe engano, ilusão. Nós é que estamos inaptos para as sutilezas.
Ninguém pode escapar ao sortilégio das palavras que inventa. No entanto poucos são os inventores de palavras e sonhos.
A história de cada um de nós é a história que inventamos. Nós nos mitificamos a cada sonho, a cada delírio, a cada descida ao poço da consciência.
Há tempos sonhei com uma menina-moça. Seria a mesma menina do quintal? Terá se dado um reencontro no plano do sonho, depois de tantas buscas? E, se a achei (agora não é possível o verbo inventar), buscava e busco a Paixão. Toda viagem é a busca da Paixão. É sem sentido falar-se de passado no plano da consciência. Não temos buscas e paixões. Somos Busca e Paixão.

Apesar de tudo, agora me sinto quase feliz. Como se tivesse acabado de encontrar a solidão. Não a da casa abandonada, com teias de aranha, suja, empoeirada. Não a dos cemitérios, dos jazigos, das lousas frias. Não a das selvas, das florestas, dos matagais. Não a solidão da fantasia. Mas a solidão que busquei quando menino.
Estou quase feliz. Como se estivesse de partida para o paraíso. O paraíso sou eu mesmo. Eu e meu passado. Como se fosse uma fotografia. Ao fundo o muro manchado. Uma lagartixa passeia em seu dorso. Aos lados, ervas, bananeiras e seus cachos pesados. Ao centro, meus olhos de menino – e toda a felicidade do mundo.
Então nada existia, a não ser o riso e a vida.

(continua)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Poisson au poison (Anderson Braga Horta)



Dois potezinhos, um amarelo e outro azul. Num deles estava a morte. Um único engano e ele faria, inapelavelmente, sua última viagem.

Entressorria, no ônibus, pensando em como lhe daria a boa nova. Diria tudo de repente? aos poucos? Ora, podia combinar os dois modos. O choque seria a antecipação inesperada de seu regresso. A outra surpresa, bem mais agradável, poderia ser primeiro insinuada, e, depois, destilada lentamente.
Estirou-se na poltrona e, cismarento, descansou a cabeça nas mãos cruzadas atrás. Enfim, um pouco de sossego! A estabilidade, após tantos anos de viagens e viagens, canseira e desconforto. Não mais noites indormidas em sórdidos hotéis; não mais apertos, poeira e solavancos de todas as conduções do interior; não mais o terno barato, o sapato furado, — não mais essa miséria de vida. Doravante, de segunda a sábado, esperá-lo-ia às tardes o calor aconchegante do lar... Domingos nunca mais dissipados em bares e prostíbulos...
— "Doce lar!"— sorriu, amargo, de olhos quase fechando.
Antegozava o sabor da surpresa.
— "Um modelo de esposa. Ela merece isto."
Sorria.

***

Ela esforçava-se por demonstrar alegria.
— "Uma incerta" — pensava. "E o cretino espera que eu me derreta em sorrisos."
Sorriu, efetivamente. E, beijando-o nos lábios, com ódio, murmurou:
— Que bom você ter voltado mais cedo.
Lembrava-se que teria de telefonar, discretamente, desmarcando .tudo. Inventaria uma desculpa e telefonaria nas barbas do marido, que não manifestava a menor intenção de afastar-se. Estava certa de que ele a olharia daquele jeito estranho, meio de lado, como de propósito para envenenar-lhe a alma. Desconfiaria? Saberia já de tudo? Ora, não, por Deus! Ele sempre tão bom, tão estúpido...
— Alô! é D. Rosinha? Olhe, não posso provar o vestido hoje. Meu marido acaba de chegar de viagem... Logo que puder, telefono. Certo? Um abraço...
Bem, pelo menos ele nem a fitara. Parecia preocupadíssimo em bebericar aquela maldita batida de limão. Deus! aparecesse meia hora mais tarde!...
— Sabe, querida? — disse, afinal. — Tantos anos de casados, e nunca tivemos verdadeiramente um lar...
Sabressaltou-se. Que quereria significar com essas palavras?
— Não temos tido um lar, é isto — repetiu ele. — Eu sempre fora, e nem ao menos uma criança para alegrar a casa e lhe fazer companhia.
— Ora, você sabe muito bem que eu nunca desejei ter filhos.
— Não a estou culpando. Mas... Bem, você compreende...
— Não, Roberto. Francamente, não compreendo
— Querida! Não se amofine sem razão. Estou apenas tentando lhe dar uma bela notícia. De hoje em diante tudo mudará para nós. Começaremos de novo.
— Não me diga que você pretende mudar-se outra vez. Eu...
— Não, não é o que você pensa. Vou me mudar, sim, mas para cá.
— Não estou entendendo.
— Fui promovido, querida. Acabaram-se as viagens. Serviço burocrático, só. As cadeiras estofadas, o ar refrigerado do escritório... Não saio mais de Brasília. É quase uma aposentadoria! A partir deste momento, sou todo seu, todos os dias...
A mulher reteve a respiração. Crispou-se-lhe a face, quase traindo a sua decepção, o seu ódio. Mas da garganta lhe saltou, felino, um gritinho histérico:
— Oh! que bom! que bom, meu amor!

***

— "Preciso matá-lo" — pensou.
Guardava habitualmente açúcar num pote azul e veneno ("para matar rato", se ele descobrisse) num amarelo. Por muito tempo esperara que o marido se envenenasse acidentalmente. Mas o diabo do homem tinha boa cabeça. Guardara a fórmula "pote azul = açúcar" e nunca se equivocava. Também jamais se preocupou em perguntar o que havia no pote amarelo:
Até então, ela tivera escrúpulo — ou receio — de agir diretamente. Agora, teria de precipitar a coisa.
— "Cretino!" — gritava intimamente. — "Com certeza pensa que estou disposta a acabar meus dias apodrecendo a seu lado!"
Acendeu as lâmpadas, pensativa.
— Amor — ciciou. — Amanhã cedo, enquanto você descansa, vou ao mercado. Quero preparar um almoço especial para você...

***

Manhã. Diante dos dois potezinhos, ele sorria, olhando ora um, ora outro.
— "Azul e amare]o. Belas cores. O amarelo ou o azul? Que confusão, Senhor! Em qual deles?"
A testa interrogativamente franzida, comprazia-se nesse jogo irônico, solitário. Sentia-se novamente criança, a fazer caretas diante do espelho. Qual a mais terrível?
— "Um modelo de esposa... Ah! Imaginava então que eu não descobriria? E me supunha capaz de cair em tão ingênua ratoeira... Não faz mal. Tudo se encaminha como eu pensava.. O caçador cairá na própria armadilha."

***

— “Filé de peixe ao molho de camarão. Seu prato favorito. E não haverá estranheza por eu não comer: ele sabe que não suporto peixe. Além do mais, estou terrivelmente indisposta..."
Ao temperá-lo, bem picante (ele gostava, e a pimenta distrairia .o paladar de algum sabor porventura estranho), ouvia-o já dizer, como de hábito quando elogiava qualquer coisa sua:
— Cláudia, este peixe está diabólico!
— "Diabólico!" — sorriu ela, pegando um dos potezinhos. Uma boa dose de arsênico e ficaria um bocado próprio o adjetivo. — "Ah! querido, ainda lhe resta fazer uma viagem. Uma só..."

***

Ele comeu o peixe sem demonstrar estranheza, apesar do sabor diferente. ("Não vamos contrariá-la antes do café..."). E não esqueceu o elogio habitual:
Cláudia sorriu docemente.
— Não quer o café, querido? — perguntou, enquanto atirava na xícara umas colherinhas do pote azul.
— Não, tome-o você. Não agüento mais nada.
— Também não quero. Estou terrivelmente indisposta...
Ele encarou-a, surpreso. Não, não havia desconfiança em sua fisionomia. Todos os gestos da mulher exalavam serenidade e doçura. Deu de ombros — afinal, não havia pressa — e foi fazer a sesta. Pouco depois, começou a sentir-se mal.
Levantou-se, indeciso. Olhou mais demoradamente a esposa; desconfiado...
— "Será...?"
Mas nada parecia ter-se alterado, a mesma impressão de segurança e meiguice vinha de toda ela.
— Que foi, amor?
— Acho que não estou muito bom, sabe? Estou...
— Não se preocupe, filhinho. Deve ser o seu grande simpático novamente.
— O grande antipático! — pôde gracejar.

***

Enfim, não era mesmo para se preocupar. Não houvera sobremesa, recusara o café. Nada a temer, portanto. E os sintomas eram os que sentia tão freqüentemente. Tomou as últimas duas drágeas de um calmante e observou que precisava pedir nova receita ao doutor. Deitou-se e morreu.

***

Já estabelecida como causa mortis uma intoxicação, o comissário deitou olhares suspicazes à viúva, ouvindo-a, interrogada, falar no que fôra o almoço.
— "Então"— monologava — "ela abomina peixe e, apesar disso, não prepara nada diferente para si?"
Podia não ser nada, poderia ter havido mesmo a alegada indisposição. Mas era uma suspeita razoável. Uma vizinha menos discreta insinuara possíveis infidelidades, a firma em que trabalhava o morto dera prontamente todas as informações sobre sua vida funcional. E, como, para o comissário, um policial que se preza devia ter um mínimo de fantasia, pôs-se ele a armar as peças de um provável quebra-cabeça — por sinal, dos mais simples: uma esposa infiel, um marido viajante, a súbita notícia de sua transferência para setor sedentário... Se se tratasse realmente de crime, já estava elucidado.
Voltou a interrogar a viúva.
— Não! joguei tudo fora! — começou ela, visivelmente transtornada.
Mas era tarde: o policial abria a geladeira e retirava as sobras do almoço.
Só então percebeu, aterrorizada, o erro de não ter mesmo dado sumiço no prato. Como pudera ser tão estúpida!
Já não conseguia esconder o nervosismo.
— "Não há dúvida" — disse para si o comissário. — "Que primarismo!"
E à viúva, mordaz:
— Não se preocupe, madame, isto não quer dizer nada. Faz parte da rotina...

***

No dia seguinte, quando tocaram a campainha, Cláudia ainda estava acamada. A expectativa dessa hora quase a enlouquecia. Nada teria comido se as moças.do apartamento de cima não lhe houvessem levado um pequeno lanche de chá e biscoitos. Gostaria de ter tido forças para interromper a espera: o pote amarelo, seria suficiente adicionar umas colheradas ao chá, mesmo perante as vizinhas. Ninguém perceberia. Mas não o pudera. Só lhe restava enfrentar o sarcástico sorriso que certamente depararia ao abrir a porta.
O que encontrou, contudo, foi um sorriso encabulado:
— Boa tarde, minha senhora. Lamento incomodá-la ainda, mas asseguro que é pela última vez.
A resposta veio trêmula:
— Esteja à vontade. Desculpe-me por um minuto só, vou preparar um calmante e volto em seguida.
Foi à cozinha, entornou quase meio vidro de Passiflorine num copo e, diante dos dois potezinhos, hesitou. Deteve~se longamente ante o amarelo, fitando-o desesperada:
— "Neste pote está a minha salvação. Basta um pouquinho. Tudo será rápido..."
Entretanto, com um suspiro de desânimo — "Não, não tenho coragem" — recuou, optando pelo azul. Derramou grande porção sobre o líqüido, mecanicamente, e voltou à sala mexendo o remédio com uma colher.
— Como eu ia dizendo, madame, fizemos a análise e...
— E encontraram o veneno!
— Veneno? Não compreendo. Claro que não! Oh! lamento que a senhora se ofendesse com o nosso procedimento. Nós...
Cláudia estacou, incrédula. Mal ouviu as explicações do policial. Balbuciou qualquer coisa confusa e afinal sorriu palidamente, sob uma onda de alívio. Tomou de um só gole o conteúdo do copo.
— O camarão é que estava estragado — continuava o comissário. Não se pode confiar em camarão, principalmente quando vem de tão longe... Mas palavra, dona — concluiu, sob o olhar aterrorizado da viúva —, palavra que nunca ouvi falar de molho igual ao seu: estava que era puro açúcar!...

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