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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Quarteto (Nilto Maciel)



























Impressa tenho n'alma larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Camões

- I -
Jacira morreu numa sexta-feira à tarde. Um tiro no coração. Segundo Diana, o assaltante ou estuprador atirou e fugiu. E nunca o encontraram. Fizeram-se retratos falados e nenhum deles se parecia com os detidos.
Quando Isaque chegou, a rua semelhava uma feira-livre. Carros da polícia diante da casa. Os parentes de Jacira choravam, gritavam, revoltados. Telefonaram para Daniel. Pegasse um avião. Lamentava muito a morte da cunhada, contudo não via necessidade da viagem. Nada podia fazer. Além do mais, andava sem dinheiro. Não falaram isso a Isaque. Seria uma segunda morte para Jacira. Insistiram, e Daniel chegou no dia seguinte, após o sepultamento. Regressou a São Paulo, às pressas. Não queria ver a ex-mulher.
A todos Diana contava a tragédia: as duas conversavam na cozinha. Preparavam café. Nunca trancavam a porta da rua. Só quando saíam ou iam dormir. Um rapaz entrou na casa e, pé ante pé, chegou à cozinha. O susto das duas. Até derramaram café. A polícia encontrou xícaras quebradas no chão. O sangue de Jacira se misturava ao café.
Não havia pegadas, indícios da presença do assassino. O que havia levado? Dinheiro e o revólver. Pegara a arma no quarto de Diana. Deixava-o sempre sobre o armário. Numa caixa, junto à bolsa, aos documentos, ao dinheiro. E chegara a molestá-las sexualmente? Disse algumas obscenidades. Apontou a arma e mandou as duas para o quarto. Tirassem as roupas. Aos gritos de ambas, atirou e fugiu. Desesperada, Diana só pensou em socorrer a amiga. E não viu mais nada.
A polícia convocou os vizinhos. Ninguém vira nada. Só ouviram o disparo.
Diana chorava o tempo todo. Prometia vingança. Daria a mesma morte ao homicida. Não sossegaria enquanto não o pegassem.

- II -
Ao separarem-se, Daniel saiu de casa, ficando Diana só. E todo dia ia ela à casa de Isaque e Jacira. Como antes. Ele fugia à presença da cunhada. Ia para a rua, a casa dos pais. Incomodava-o ver Diana. Sobretudo porque sabia da dor do irmão. E ficava confuso com isso – ora, Daniel nunca fora namorado e marido apaixonado.
A atitude de Isaque fez com que Diana também o evitasse. Ia à casa dele somente quando se convencia de que Jacira se achava só. E o tempo todo dedicava a queixar-se de solidão... Não quisera a separação. Aliás, não sabia o verdadeiro motivo dela. Por que não voltava para junto dos pais e irmãos? Não, jamais faria isso. Eles provavelmente não a aceitariam de volta. Separação significava para eles, sobretudo para o pai, um erro gravíssimo. Quase um crime.
De tanto insistir, convenceu a amiga a aceitá-la em casa. No entanto Isaque não daria o sim. Insistisse, chorasse. Precisavam uma da outra. Por que romper uma amizade de tantos anos?
Por dias e dias Isaque se manteve insensível ao pedido de Jacira. Temia a própria desunião com ela. Diana acabaria contaminando-os de intrigas.
Ao saber do propósito da ex-mulher, Daniel se irritou. Isaque não devia curvar-se aos assédios “daquela maluca”. Resistisse, mesmo à custa do pior.
Passado um mês da separação, Isaque cedeu aos rogos de Jacira. E Daniel viajou para São Paulo, sem um adeus ao irmão. Traidor!

- III -
Os vizinhos não viram o assassino. Ninguém viu o assassino. Exceto Diana e Jacira. Logo, o crime podia ter sido cometido por Diana – concluiu o delegado.
Convocados a depor, vizinhos de ambos os lados da casa de Isaque disseram que as duas discutiam sempre. E gritavam, ofendiam-se com palavras.
O depoimento de Isaque incriminou Diana ainda mais. A cunhada estudava tiro numa academia e até comprara um revólver. O mesmo utilizado para matar Jacira. A acusação falou em crime premeditado. E os motivos? Ora, por recusar Jacira o amor da amiga. Ou por não aceitá-la mais em casa. Ou por não querer separar-se de Isaque e viver com ela.
Isaque não admitia tais hipóteses. A amizade das duas não chegava a tanto. Jacira lhe teria falado isso. Nunca guardava segredos para ele. Se Diana a matara mesmo, o motivo teria sido outro. Talvez estivesse apaixonada por ele. Daí a separação. Se amasse Jacira, não premeditaria matá-la. Por que não?

- IV -
Após três dias de investigações, Diana passou a indiciada no inquérito. Sobretudo ao chegar de São Paulo uma longa carta de Daniel. Incontinenti, Isaque a levou ao delegado.
Tinha certeza de que Diana matara Jacira. Não as unia a simples amizade. Talvez mantivessem uma relação homossexual desde os tempos de colégio. Espécie de amor platônico de Diana por Jacira. Casadas, teria acreditado a segunda na “cura” da amiga. Coisas de adolescentes. Entretanto só se agravara a “doença”. Teria feito propostas mais objetivas, nada platônicas, após o casamento.
A carta deixou todos estarrecidos. E se Jacira tivesse se deitado com Diana? Isaque transtornou-se ainda mais. Sua ex-mulher teria sido apenas vítima das perseguições? Ou teria cedido aos desejos de Diana? E se, em vez de perseguida, também tivesse desejado a outra?
Segundo a carta, a assassina vivia aos pés de Jacira. Nunca a deixava em paz. Até se dar a separação de Daniel e Diana. Não suportou ele ver sua mulher deitada com outra. Não pediu explicações. Todavia Diana disse, nervosa, estarem com sono e calor, e terminaram dormindo.
Formado o processo, tudo levava à condenação. Antes disso, porém, Diana se matou.

- V -
Daniel sempre escreveu aos pais e, especialmente, a Isaque. Nunca, ainda assim, havia feito nenhuma referência à sua separação. A não ser por meias-palavras. Não suportava mais Diana. Nunca mais queria revê-la. Esquecessem de vez aquele passado repugnante. Tinha até nojo da ex-mulher.
Isaque pedia maiores explicações. Não atinava com a causa da separação. Chegavam outras cartas, e nada de clareza.
Ao separar-se, Daniel asilou-se numa pequena pensão, e raramente ia à casa dos pais. Nunca visitava o irmão. Só se viam quando este o procurava na pensão ou no escritório onde trabalhava.
Por insistência dos pais e de Isaque, um mês após a separação voltou para a casa paterna. Entretanto logo arranjou jeito de ir embora. E partiu para São Paulo, sem emprego, quase sem dinheiro.
Diana permaneceu na casa alugada por Daniel. E negava ter sido a causadora da separação. Inventava motivos: ciúmes de Daniel, a falta de filhos. E quem causava ciúmes? Os amigos. Qualquer um. Tudo sem nenhuma razão. E por que não planejavam um filho? Sim, podiam pensar nisso. Porém já era tarde. Daniel não voltaria jamais.
Jacira não dava opinião. Fugia às perguntas, mudava de assunto, escorregava pelos cantos. Não sabia de nada.

- VI -
Ao anunciar sua ida para São Paulo, apresentou Daniel um só motivo: queria melhorar de vida. Fortaleza não lhe dava oportunidades para progredir. O empreguinho no escritório já ia para dois anos, e o salário não passava daquela ninharia. E nenhuma promessa de melhoria.
Os pais tentaram convencê-lo a ficar. São Paulo ficava muito longe. Além do mais, fazia um frio dos diabos e a violência andava solta.
Para anular os argumentos paternos, escrevia cartas cheias de otimismo. Arranjara emprego em menos de uma semana. Salário bom, três vezes maior do que o do escritório de Fortaleza. Frio, nem tanto. Já se acostumara à garoa. Gostosa até. Enfim se livrara daquele calor insuportável do Ceará. E já arranjara amigos. Muitos cearenses, trabalhadores, honestos, camaradas. E até já andava namorando uma baianinha.
Perguntava sempre por Daniel e os outros irmãos. Jamais mencionava o nome de Diana. Nem o de Jacira. Como se não existissem, ou nunca tivessem existido. Mesmo nas cartas a Isaque. Este, no entanto, contava tudo: a presença constante de Diana em sua casa, o apego dela a Jacira, a insistência para aceitarem-na como hóspede.
Não, não aceitasse aquilo. A “maluca”, a “sem-vergonha”, a “maldita” não merecia a acolhida de ninguém. Sobretudo dele, Isaque. Melhor acolher uma cobra venenosa, uma cascavel medonha. Não cometesse a loucura de tê-la debaixo do mesmo teto. Nunca, nunca, nunca! Se o fizesse, iria se arrepender amargamente. Para o resto da vida.

- VII -
Os desentendimentos entre Daniel e Diana tiveram início logo nos primeiros dias do casamento. Ele nada contava ao irmão, muito menos a outras pessoas. Nem saberia dizer o que acontecia ou não acontecia. Ausência de amor, paixão? Frigidez? Talvez não. Sentia simplesmente angústia, insatisfação, ansiedade. Para que se casara com Diana? Podia continuar solteiro, a namorar uma e outra. Como sentia saudades daqueles bons tempos! Os dois, ele e Isaque, amigões, companheiros. Sempre juntos nas praias, nos bares, nos clubes noturnos. Garotas à vontade. Sem compromissos. Até conhecerem as duas amigas.
Muitas vezes saía só. E Diana corria atrás do outro casal. Isaque e Jacira riam. Deixassem de tolices, parassem de brigar. Infantilidades. Não, não, o casamento ia mal, muito mal. Isaque deixava de rir. Por quê? Ciúme, só podia ser ciúme, muito ciúme. E quem provocava tais ciúmes? Diana se confundia. Ora falava de ex-namoradas do marido, ora de ex-namorados seus. Daniel negava tudo. Não havia nada daquilo. Invencionices de Diana. Na verdade, dera um grande passo em falso. Não devia ter casado com Diana. Não havia amor, quase nada. Isaque levava na brincadeira. Amor surgia na cama. Com Diana talvez nunca. Havia algo mais. Não sabia explicar. Como se houvesse uma barreira a separar um do outro. Um bichinho a roer os mínimos laços que pudessem uni-los. Deixasse de loucuras. Que bichinho podia ser aquele?

- VIII -
Diana e Jacira sempre juntas. Nos ônibus, a caminho do colégio. Nas praias, uma deitada ao lado da outra. Nas festinhas do bairro. E sempre sós, sem namorados ou amigos. Isaque e Daniel, também sempre juntos, brincavam. Quem seria capaz de separar uma da outra? Pelo menos por uns dias. Fácil. Bastava um deles namorar uma delas. E apostaram uma dúzia de cervejas. Quem preferia quem? Daniel riu. Se era de brincadeira, qualquer uma servia. E saíram a campo – caçadores. A princípio se mostraram esquivas. Fugiam, medrosas. Nem respondiam aos gracejos dos rapazes. Porém após dias e noites de caçadas infrutíferas, já quase descrentes da conquista, encontraram-se os quatro a sós. Numa pracinha do bairro. Elas comiam pipoca, eles fumavam. Pararam diante delas. Não fugiram mais e, cinco minutos depois, conversavam como velhos amigos. Ou novos namorados.
Ao se despedirem, já os dois casais haviam combinado novo encontro. E Isaque e Daniel foram comemorar a dupla conquista. A cervejada ficava por conta de ambos. Criara-se, assim, um problema. Quando dariam por encerrada a brincadeira? E quem tomaria a dianteira? Só nova aposta.
Um ano depois, casados, reconheceram as derrotas. E nada beberam.

- IX -
Durante o namoro os quatro sempre saíam juntos. Aos domingos iam à praia, quando não faziam pequenas viagens ao interior. Em Juazeiro do Norte participaram da romaria do padre Cícero. Visitaram o antigo Colégio dos Jesuítas, na Serra de Baturité. Banharam-se nas praias de Jericoacoara e Canoa Quebrada. Conheceram a Gruta de Ubajara e as dunas de Almofala. E não deixaram de ir aos cinemas e às festas dançantes. Pareciam ainda namorados. Contudo Isaque e Daniel esqueceram o costume de beberem nos bares. Os amigos zombavam deles. Amarrados, não podiam mais jogar sinuca e ouvir Waldik Soriano.
O dinheiro era minguado e mal dava para o aluguel das casas, a alimentação, o transporte. No entanto não deixavam de se divertir. Como ao tempo de solteiros.
Além do mais, elas nada ganhavam. De estudantes passaram a donas-de-casa.
A união deles e delas também nada sofreu. Isaque e Daniel tornaram-se até mais amigos. Assim como Diana e Jacira. Às vezes um dos casais dormia na casa do outro, quando voltavam tarde da noite. Não dormiam na mesma cama, todavia no mesmo quarto. E conversavam até altas horas.
De manhã, os irmãos saíam para trabalhar, enquanto as amigas dormiam.
Até que um dia Daniel voltou para casa mais cedo. E encontrou despidas na cama Diana e Jacira.

- X -
Numa das cartas Daniel relatou episódios de sua vida com Diana. Desde os primeiros dias de casamento ela recusava manter relações sexuais com ele. Alegava indisposição. Sono, cansaço. Parecia sentir asco ao contato com ele.
A princípio não suspeitara homossexualismo. Porém ao vê-la deitada com Jacira, uma chispa de dúvida o deixou atormentado por dias e dias. Quis conversar com Isaque. Não teve coragem. Com certeza o outro não ouviria com tranqüilidade suas palavras. E se estivesse enganado? Afinal, as mulheres são sempre mais amáveis umas com as outras, sobretudo se amigas.
Melhor conversar com Jacira. Como começar? E onde? Não, não saberia o que dizer. Não dispunha de outros dados para chegar ao assunto, a não ser o da cena na cama. Aquilo seria suficiente para caracterizar lesbianismo?
Conversou com um amigo. Contou a historinha da cama, sem dar nome às personagens. O amigo não teve dúvida – tratava-se mesmo de homossexualismo.
E aqueles olhos apaixonados queimando o corpo de Jacira? Quem não via aquilo? Isaque nada via. Parecia hipnotizado.
Depois o crime. O amor não correspondido armara a mão de Diana. Só um idiota não entendia assim.

- XI -
A notícia da morte de Daniel soou perto da meia-noite. Telefonema de sua segunda mulher. Isaque desesperou-se e viajou na manhã seguinte. Para o sepultamento. E só então conheceu Maria Helena e os dois filhinhos do casal: Daniel e Isaque. Como se dera o acidente? Dirigia em alta velocidade. Havia bebido muita cerveja. Perdeu o controle e o carro capotou. Morte dolorosa. O corpo todo esfacelado. Fraturas generalizadas.
O segundo casamento de Daniel aconteceu poucos meses após chegar a São Paulo. Um ano depois nasceu Isaque. No seguinte, Daniel. Dissera várias vezes: nunca mais voltaria a Fortaleza. Talvez na velhice. Queria esquecer o passado. Sobretudo o mais recente. Nem lhe falassem dele. Seus pais e Isaque insistiam para que passasse umas férias em Fortaleza. Queriam conhecer os garotos. Mandou diversas fotografias. Os meninos lembravam-no pequeno. Ele, no entanto, parecia outro. Alguns quilos a mais e um semblante triste. Até quando aparecia sorrindo ou gargalhando, a tristeza inundava seus olhos.
Maria Helena disse ter feito tudo para que parasse de beber. Ainda assim cada vez bebia mais.
Isaque tentou levar os sobrinhos e a viúva para Fortaleza. Porém os pais dela se mostraram inflexíveis. Só admitiam um passeio. Cuidariam dela e deles.
A partir de então Isaque se voltou também para o álcool. Não se conformava com a morte de Daniel. Chorava sempre. A culpada de toda aquela desgraça chamava-se Diana.
Entretanto ela já não existia também.

- XII -
Sempre amigos, Isaque e Daniel. Desde adolescentes. Quando meninos brigavam todo dia. Nos jogos de futebol trocavam caneladas. Nos jogos de botão nenhum aceitava a derrota de seu time. Em conseqüência, acabavam surrados pela mãe. Queria-os unidos, bem unidos. E os atava um ao outro, como castigo.
Estudaram nas mesmas escolas. Iniciaram-se nos movimentos político-estudantis na mesma época. Engajaram-se na mesma agremiação política. Nas manifestações de rua um protegia o outro. Corriam juntos da polícia.
Ao concluir o curso científico, Isaque se afastou das lutas estudantis. Desiludiu-se dos estudos e arranjou emprego no comércio. E dedicou-se mais e mais às farras. Daniel continuou os estudos por mais um ano. Insistia para que Isaque voltasse a estudar e participar do movimento estudantil. Logo, no entanto, seguiu o mesmo caminho do irmão. O período mais ativo de suas vidas. Viviam em festinhas, bares, praias. E nunca mais voltaram a falar de política. A polícia caçava os estudantes mais ativistas. E muitos até freqüentavam a casa de Daniel e Isaque. Davam notícias horríveis: fulano preso e torturado, sicrano desaparecido, beltrano fuzilado no meio da rua.
Aterrorizados, Daniel e Isaque afastaram-se definitivamente dos velhos amigos.

- XIII -
Após a separação, Daniel saiu de casa e hospedou-se numa pensão. A muito custo voltou à casa dos pais. Isaque, todavia, no mesmo dia da morte de Jacira fechou sua casa e só deixou a de Seu Francisco e Dona Luisa para casar-se de novo. Nem sequer cuidou da mudança dos poucos móveis para a casa dos pais. Seus irmãos trataram da entrega das chaves da casa. E, posteriormente, da venda dos móveis.
De São Paulo chegavam-lhe convites para deixar Fortaleza. Daniel não cansava de escrever cartas tentadoras. Isaque precisava mudar de ares. Esquecer tudo. Iniciar nova vida. E todos em casa concordavam com isso. Ele, entretanto, relutava. Não queria abandonar os pais. Necessitavam dele, de sua presença. Caminhavam para a velhice. E não iria casar outra vez? Tão novo, não devia permanecer só. Até para esquecer Jacira. Se casasse pela segunda vez, a mulher iria morar com os sogros. Seu Francisco e Dona Luisa riam. Coitado do filho!

- XIV -
Isaque conheceu Violeta num clube. Dançavam e bebiam. Todos alegres. Sentado, só, sentia-se um estranho. Não conhecia mais ninguém. Nenhum amigo ao lado. Nenhuma daquelas garotas bonitas de anos atrás. E, sobretudo, a ausência de Daniel.
Cotovelos grudados à mesa, bebia, fumava, sem coragem de convidar alguma garota para dançar. Como se sentia mudado! Quase um velho solitário. Distante do salão de danças.
Já desiludido, pronto a pagar a conta, Violeta passou, olhou para ele e sorriu. Convidou-a para dançar. Também sentia-se só. O namorado andava com outra. Aliás, o ex-namorado.
Nas noites seguintes falou mais dela e de um tal Genésio. Abandonou-a, após mil promessas de amor. Um aproveitador!
Durante dias e meses Isaque e Violeta se divertiram a valer. Festas, praias, camas. Até dizer-se grávida. Ele se assustou, se aborreceu, ameaçou acabar com o namoro. Porém, antes de o filho nascer, casaram-se. O menino recebeu o nome Carlos. Um ano depois nasceu outro: Frederico. Homenagens a Marx e Engels. Violeta gostou dos nomes, embora não soubesse nada daqueles “revolucionários”.
Apesar do novo casamento, Isaque não deixou de beber. Reencontrou alguns ex-amigos, e todas as noites os encontrava nos bares.

- XV -
Vez por outra, Isaque acordava além da hora de chegar ao escritório. Não conseguia sequer sair da cama. Até ser demitido.
Aluguel atrasado, obrigou-se a entregar a casa alugada ao proprietário. Violeta queria voltar para seus pais, levando os meninos. Para evitar a separação, Isaque conseguiu um quarto na casa de Seu Francisco e Dona Luisa. Além do quarto, refeições.
Sem beber por uns dias, pôs-se a escrever versos. Violeta não dizia nada. Se Isaque não procurava emprego, também não bebia.
Dos versos passou às cartas. As do irmão morto. Lia e relia todo o pacote. Mudo, no quarto, feito um prisioneiro. Nem sequer brincava com Frederico e Carlos.
Violeta, contudo, não sossegava. Visitava os pais, levava os filhos a passeio. E procurava emprego para o marido.
Passado mais de um mês recluso e abstêmio, Isaque saiu de casa para apresentar-se ao futuro patrão. Emprego certo. Por obra de Violeta.
No entanto Isaque só voltou para casa perto da meia-noite. Bêbado como nunca. E voltou transtornado: queimou todas as cartas de Daniel, discutiu com os pais, os irmãos, Violeta. E falou pela primeira vez em suicídio.
Adormeceu pela madrugada. E não acordou para ir trabalhar. No mesmo dia Violeta o abandonou, levando os filhos.

- XVI -
Após a fuga de Violeta, tudo piorou para Isaque. Ameaçava trazê-la de volta à força. Dona Luisa chorava, desesperava-se. Seu Francisco convocava os filhos a tomarem atitudes mais enérgicas – se possível, a internação de Isaque num asilo de loucos.
Tudo indicava loucura em Isaque. Passava quase o tempo todo nos bares. Em casa brigava com todos. Se parava de beber, sofria alucinações, não conseguia dormir. Noites inteiras falando só. Dizia conversar com Daniel. E parecia estar mesmo diante do irmão. Ria, contava casos, relembrava fatos de suas meninices, as brincadeiras, as brigas, tudo em minúcias. Ia recordando, recordando, e parava exatamente nos dias de namoro – dele e Jacira, de Daniel e Diana. Como se daí em diante nada tivesse existido, acontecido.
Bastava, porém, beber, e todo o passado recente – do casamento ao presente – ressurgia. Feito vulcão. E ele se transtornava, o ódio, a fúria, o desespero em erupção. Daniel morto, Jacira assassinada, a diabólica Diana viva. Não a acreditava sem vida. Mentira de todos.
E, assim, um dia rapazes musculosos vestiram-lhe uma camisa-de-força, alojaram-no numa camioneta e o conduziram a um sanatório.
Concluído em 4.8.1993.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Taciba vai ao céu (Nilto Maciel)



















- I -
Desde o passado mais remoto, viviam os Himenos exclusivamente de colher frutos silvestres. Se não semeavam, se desconheciam a agricultura, de maneira nenhuma poderiam ser chamados de preguiçosos. Apesar disso, vez por outra se metiam em acaloradas discussões a respeito de trabalho.
– Não vivemos melhor porque só sabemos fazer isso – dizia um mais exigente.
– Nada disso – gritava outro. – Cada um faz o que sabe e todos vivem. Vejam: as abelhas apenas fabricam mel – e dele nem se servem – e, no entanto, estão aí no mundo.
– Em compensação, nunca vão passar de fabricantes de mel – arrematava com ironia o exigente himeno.
Apesar de simples apanhadores, de todo o atraso, essas contendas verbais não passavam de entretenimento, brincadeira, exercício intelectual, e os Himenos viviam em paz, felizes na sua eterna luta pela colheita do pão de cada dia. Porque, mesmo trabalhando tanto, o faziam para si mesmos e, por isso, nunca faltava nem comida nem água. E, por serem os campos vastos, quase sem fim, não lhes faltava sobretudo liberdade. Sim, podiam andar, correr, viver livremente.
Como seus irmãos, a pequena Taciba vivia sua vidinha simples, quando ouviu o zunzunzum de que sua amiga Tacibura havia desaparecido. Procurada pelos arredores, dela não se teve mais notícia. Diziam uns ter sido devorada pelas feras, provavelmente pelo monstro Batará.
– Que malvadeza!
Os mais otimistas achavam ter a pobre Tacibura simplesmente saído à procura de terras desconhecidas, enredando-se nos fios da aventura de bater pernas. E nisso não havia novidade nenhuma.
– Desde que o mundo é mundo – sentenciava um ancião – sempre se ouviu falar de cabeças ocas que, de repente, abandonam suas terras, seus lares e se vão por aí afora, feito barquinhos de papel nas águas turbulentas das chuvas.
O desaparecimento da amiga deixou Taciba triste. Perguntava-se pelo fim da outra e bastava imaginar o monstro Batará para cair no choro.
– Não fique assim, minha filhinha – tentava acalentá-la a mãe. – Sua amiga foi apenas dar um passeio e logo estará de volta. Vocês ainda vão brincar muito juntas.
– Mas se for verdade o que andam dizendo?
– Sobre Batará?
– Sim. Ele é muito malvado e já deve...
Dona Taçuira beijava-lhe o rosto, enxugava-lhes as lágrimas e, para não chorar também, mudava de assunto:
– Onde andam suas irmãzinhas, hem?

- II -
Aos poucos, a imagem de Batará foi se apagando das preocupações de Taciba. Talvez porque a maioria dos Himenos não gostasse de falar no monstro e visse no desaparecimento de Tacibura apenas uma aventura infantil. Por outro lado, Dona Taçuira bastava ver a filha triste, pelos cantos, chorosa, para inventar esperanças:
– Qualquer dia desses sua amiguinha aparece.
– Será mesmo, mamãe?
– Tenho certeza. Ela anda por aí, pela casa de alguma tia.
O tempo passava e nada de Tacibura voltar. Alguns nem se lembravam mais dela. Seus pais e irmãos até já viviam conformados com a idéia de sua morte.
Dentro de Taciba, porém, a amiga continuava não só muito viva mas havia adquirido feições de heroína. Nada de devorada por Batará, nada de morta, nenhuma tragédia. Também não acreditava na conversa boba da mãe. Casa de tia, coisa nenhuma! Tacibura andava era no mundo. Ah! se pudesse seguir as pegadas da feliz companheira! Sim, feliz, porque não haveria maior felicidade do que buscar o ignorado, o vasto mundo além do chão que se pisa. Não pensava, porém, acompanhar a antecessora. Sonhava com imitá-la somente, se possível buscando outros rumos, caminhos opostos até. Queria descobrir o eldorado por conta dos próprios pés, alheia a todo rastro. Quem sabe, aportaria nalguma nova América, na terra prometida ou sempre ansiada.
Dona Taçuira pegou por diversas vezes a filha a sonhar, olhos voltados para a estrada, completamente absorta.
– Venha cá, filhinha. Você tem estado tão esquisita ultimamente. Conte para mim o que se passa nessa cabecinha.
– Não é nada, não, mamãe.

- III -
Um dia, antes de os seus despertarem para a labuta habitual, saiu Taciba, pé ante pé, pela vereda que ia dar nos campos de colheita, entre pedras e montes, e seguia, mais tortuosa e íngreme, para o ignorado, as terras dos perigos, onde viviam, em constantes tropelias, os mais variados bichos – terrores sempre lembrados pelos mais velhos.
– O monstro Batará devora dezenas de Himenos de uma só vez. Tem o tamanho de mil Himenos. Uma só unha sua vale por dez de nós. E, não bastassem seus enormes pés, que nos esmagam, seu bico é capaz de causar verdadeiras mortandades.
– E a gente não pode se esconder dele?
– Pode e deve. Mas, afora os Batarás, que são muitos e andam à solta, o mundo lá fora é repleto de animais gigantescos, perigosos, malvados.
Taciba perdia o sono de tanto medo, só de ouvir essas histórias.
Decidida a imitar Tacibura, afastava do pensamento as lendas dos Himenos. Ora, tudo isso é mentira, dizia de si para si, conversa fiada dos pais para manter os filhos em casa, frear os ímpetos da juventude. Sim, os pais só sabiam falar de prudência. Ora, prudência! Quem já descobriu ou inventou alguma coisa com prudência?

- IV -
Disposta a levar adiante seu plano – o descobrimento de seu próprio mundo – Taciba apressou o passo, andou, andou, saltou pedras, transpôs montes, perdeu de vista as terras conhecidas. No peito o coração pôs-se a batucar de medo. Pensou em voltar, antes que fosse tarde demais. Diria em casa e às companheiras: “Tive uma crise de sonambulismo e saí ao léu. Quando despertei, assustada, só então senti o quanto havia caminhado, dormindo.” As outras ficariam horrorizadas, fariam mil perguntas e ela não saberia respondê-las. Melhor pensar logo o que dizer, inventar qualquer desculpa. Podia falar de sensações esquisitas e, com isso, até fazer-se mais inteligente, sabida, quem sabe, poética. “Vocês já sonharam voando, sendo carregadas pelo vento? Pois eu me sentia mais ou menos uma borboleta. Era como se estivesse passeando sobre nuvens mansas, esquecida de tudo, um frescor percorrendo o corpo, acariciando-o.” Florearia, saberia engabelar as curiosas. Ficaria até mais vista e respeitada. Afinal, nunca se ouvira falar de tal coisa. Dar-lhe-iam crédito, certamente, e tudo estaria normalizado. Voltaria ao trabalho, ao agasalho do lar, à tranqüilidade do mato, às boas palestras nas noites de lua clara. Ouviria dos pais e avós histórias terríveis de monstros como Batará e dormiria em meio a sonhos fantasiosos. De novo, a vidinha de sempre, a monotonia de trabalhar, comer, dormir. O mesmo dia-a-dia sem aventuras, sem novidades. E mais uma vez teria vontade de arribar no mundo, bater pernas, arriscar-se a morrer devorada pelos bichos soltos no mato ou ser esmigalhada por alguma pata desastrada de gigante. Feito Tacibura. Coitadinha!

- V -
Prosseguiu, propensa a não dar ouvidos ao medo, à covardia, ao sentimento de insegurança, ao repuxo insistente das raízes da carne, que tentavam prendê-la ao chão antigo e grudá-la, por hipnose, aos olhos dos Himenos.
Mais com pouco, o outro mundo principiou a dar sinais de existência real, de proximidade e o apelo para seguir foi mais forte. Correu, quase voava, como se realmente descobrisse um país fantástico, diferente de tudo o que até então vira. Ouvia barulho de máquinas e mais se agitava, na tentativa de captar, pelos sentidos, a aproximação do porvir. Corria, o coração aos pulos, os olhos muito arregalados, o corpo todo num frenesi, a alma um infinito adiante do corpo.
Havia de sair vitoriosa dessa primeira e significativa batalha. Como não? Ia mostrar à mãe, ao pai, aos irmãos, a todos os Himenos sua imensa capacidade. Até desejava encontrar pela frente Batará, enfrentá-lo, derrotá-lo. Provaria que nem sempre a força física vence. Seria o novo Davi, o vencedor do gigante Golias. Quem sabe, mudaria até os destinos do mundo. Ou pelo menos dos Himenos.
Pena não descobrir o destino de Tacibura. Ah! se se encontrassem pelo caminho! Seguiriam juntas, irmanadas pelo mesmo objetivo, invencíveis. Uma ajudando a outra. Se Tacibura fracassasse, estaria ela pronta a soerguer a amiga. E se ela mesma, Taciba, sentisse o peso da caminhada, cansasse, se ferisse, Tacibura estaria presente para curá-la, ampará-la, confortá-la. Não, não, isso nunca. Preferia vencer só.

- VI -
Chegou à margem de uma estrada muito larga, centenas de vezes mais larga que as veredas de sua terra. Autos para lá e para cá, em velocidades espantosas, levantando poeira, açoitando árvores. Em seu interior, gigantes iguais a outros já vistos a andar pelos campos, com suas botas muito pesadas, capazes de arrasar de uma só pisada centenas de Himenos. Quer dizer, ouvia falar dos tais seres sem tamanho. Ver mesmo, nunca vira. E até desconfiara de sua existência. Conversa para fazer boi dormir. Agora se arrependia de ter chamado os pais de mentirosos. E relembrava as descrições feitas por eles das tais criaturas.
– E eles são monstros?
– Não, não são irracionais, como os Batarás, não andam à cata de seres menores, não perseguem Himenos, até porque não nos vêem.
– Então são cegos?
– De jeito nenhum. É que, sendo muito grandes e andando eretos, feito macacos, passam por nós e nem se dão conta de nossa existência.
– Orgulhosos, pedantes, hem?
– Talvez não, porque se tivessem tais defeitos, próprios de monstros, fariam como os Batarás: farejariam o mundo à procura de Himenos e outras criaturas indefesas.
– Então são nossos amigos e inimigos dos Batarás?
As opiniões se confrontavam aí. Para uns, essas criaturas não ofendiam a ninguém, apesar de seu tamanho quase descomunal, e, se chegavam a esmigalhar os seres pequenos com suas botas, o faziam sem querer. Outros os pintavam com tintas de sangue:
– Esses gigantes são mais terríveis do que os próprios Batarás. Primeiro porque medem dez vezes mais do que os Batarás. Aliás, estes coitados são constantemente aprisionados por eles e, enquanto servem de entretenimento, não são levados à panela.
– Entretenimento?!
– Vou explicar. Os terríveis gigantes costumam se divertir, botando para brigar um batará contra outro. Geralmente morre um, quando não sai cego e aleijado.
– Que barbaridade!
– Pois é assim mesmo. Além do mais, uma das comidas preferidas desses monstros é batará ou fêmea de batará.
Taciba se horrorizava diante de tão fantásticas informações, mas não sabia em quem acreditar: se nos que consideravam os comedores de batarás simples gigantes inofensivos ou nos outros.
– Ninguém me respondeu ainda: eles são nossos amigos ou inimigos?
– Escute bem, Taciba: eles não nos bicam, não nos devoram, não nos comem, porque gostam de muita carne, como a dos batarás, mas, em compensação, cometem verdadeiros morticínios contra nós. Sabe como? Despejando substâncias venenosas na terra e nas árvores. Com isso, conseguem exterminar num só dia milhões de nós.
Tudo isso Taciba rememorava à beira do caminho. E prosseguia em sua andança.
Por temor dos autos, decidiu não atravessar a grande vereda negra. Seguiria paralelamente a ela. Para a direita ou para a esquerda? De que lado estaria a terra maravilhosa do nunca visto? Provavelmente dos dois, uma vez que aquela estrada só poderia ser sua própria extensão. Nunca fora dela, pois tudo o mais era mato, covil de feras e maldades.
Para a direita sucedia um maior afluxo de autos e gigantes a pé. Viriam de um centro menos desenvolvido em demanda da capital, do eixo da civilização superior. Bem poderia dar início à nova vida pela parte inferior, para não sentir um impacto mortal diante das coisas grandemente nunca vistas. Não, seria bobagem. Não haveria tanta diferença entre uma e outra parte, assim como no campo tudo parecia igual – aqui mais matos, ali mais pedras, além mais feras. Mas sempre matos, pedras e feras. Invariavelmente. Um inferno! O paraíso então seria um só, com ligeiras diferenças setoriais.

- VII -
Tomou o rumo da direita, afinal, muito cuidadosa de não ser despedaçada por um daqueles autos. E admirava-se da velocidade com que corriam. Assim, chegariam ao mesmo lugar num só dia de viagem. Ah! se pudesse andar tão depressa! Logo logo estaria no miolo do novo mundo. E se conseguisse uma carona! Impossível, ninguém a via, ninguém notava sua presença à beira da estrada, acenando uma folhinha verde no meio de tanto verde, gritando e agitando-se, em tempo de rasgar a goela e espatifar-se ao vento. Tudo como diziam os velhos Himenos. Esses gigantes não tinham olhos para as pequenas criaturas, pareciam muito orgulhosos, cheios de si, como se tivessem o rei na barriga.
O negócio era andar mesmo, utilizar os próprios pés. Afinal, tinha o costume de percorrer quilômetros a fio. Até mais difícil, porque escalando montes e pedras de todos os tamanhos, quase sempre com um fardo às costas. Ali a estrada seguia reta, embora não pisasse o asfalto. Iria a pé, sim. Não cansaria facilmente. E se sentisse fome e sede, o mato se erguia ao alcance da boca, à margem do caminho. Fazia uma paradinha e pronto. Fartava-se. Como na sua terra. Como no passado. Ah! saudade danada da mãe, do pai, dos irmãos! Daquela vidinha sossegada, apesar do eterno medo dos Batarás, das histórias de horror dos mais velhos. Deveria voltar, correr para os braços da mãe Taçuira, pedir-lhe perdão pela traquinagem?
– Por onde você andou, Taciba?
– Fui dar uma voltinha.
– E não teve medo de se perder, de ter o destino daquela infeliz Tacibura, de ser devorada pelo monstro Batará?
– Qual nada, mãe. Eu não tenho medo de nada, já sou grande, sei me defender. Além do mais, Tacibura não é infeliz. Deve andar conhecendo o mundo, as maravilhas da vida. Qualquer dia desses vai voltar coberta de glórias, cheia de novidades, falando outras línguas, talvez até arrastando o corpo de algum Batará.
– Deixe de dizer besteiras e vá já ajudar seus irmãos. E nunca mais faça isso.
– Sim, nunca mais.
– Se seu pai souber que você cometeu semelhante doidice é capaz de perder a cabeça.
– Não diga nada a ele, não, mãezinha.
– Só se você prometer ser boazinha e não der mais tanta preocupação.
– Prometo.
Acordou desse passeio mental ao ouvir a própria voz dizendo “prometo” e tratou de esquecer o passado, a mãe, a família, sua terra. Nada de rendição a sentimentalismos.
– Adiante, Taciba – gritou para si mesma.

- VIII -
De repente, ao levantar a vista, divisou o que deveria ser a tal civilização superior, o centro do tal mundo desconhecido. Sentia-se cansada, como se tivesse trabalhado dias e dias sem parar. Doíam-lhe os pés, as pernas, a cabeça, todo o corpo. E como havia caminhado! De sua terrinha, nem mais sinal. Deveria estar muito longe dos seus. Coitados, preocupados! O que estariam dizendo a estas horas? Todos a correr para um lado e outro, onde se meteu Taciba, que diabos fez essa criaturinha? E uma só acusação – mais uma vítima de Batará.
Porém as distâncias são muito relativas – começava a compreender Taciba. Ora, só fazia um dia de sua fuga. Não devia estar tão longe assim de sua terra. Com pezinhos tão pequenos, passadas tão curtas, não podia ter andado tanto assim. Os gigantes percorriam aquela distância numa hora. Muito menos disso. Havia uma explicação: lá no meio da mataria não poderia enxergar aquelas construções quase sem fim, tocando o azul do céu.
Saiu a tropeçar nas pedras, às carreiras, estonteada, maravilhada. A um passo do fantástico. Das pessoas muito civilizadas, educadas, poderosas, mas nunca monstruosas, assassinas, como Batará. Deixava para trás o mato, o atraso, a terra das maldades, dos perseguidores dos pequenos viventes, dos caçadores vorazes de Tacibas e Taciburas. Finalmente alcançava o respeito mútuo, o amor, a paz. Ninguém devoraria ninguém. Um mundo onde coabitavam gigantes pré-históricos e microscópicos insetos, mamíferos, reptis, batráquios, ovíparos, toda a sorte de criaturas.
Como se apresentar a uns e outros? Dirigir-se primeiro a quem?
– Eu sou Taciba, mensageira dos Himenos. Venho em missão de paz.
Restava saber também se a ouviriam. E se nem sequer olhassem para ela? Não, andar tanto, arriscar-se a tantos perigos, para sofrer decepção?
– Ouçam todos minha mensagem, abaixem-se, por favor. Não tenho voz como vocês, sou um simples e ignorado Himeno, habitante do mato, trabalhadora da terra. Não possuo os conhecimentos de vocês, sou um pequenino e insignificante ser. Por outro lado, venho carregada de heroísmos. Enfrentei monstros e venci-os. Inclusive alguns Batarás.
Não, vangloriar-se podia irritar os ouvintes, torná-los antipáticos à sua bela causa. Melhor seria dar rumo inverso ao discurso de apresentação.
– Chego de braços abertos, disposta a dissipar todos os mal-entendidos. Claro que eu nunca acreditei nas maledicências dos eternos inimigos da comunhão universal, dessa aproximação entre civilizações tão diferentes entre si. Do contrário, não estaria aqui.
Taciba inventava discursos, arranjava palavras, frases feitas, vasculhava a memória à cata de informações para enriquecer sua oração. Que tal principiá-la pela lenda da origem dos Himenos? Achariam engraçado isso, bateriam palmas, dariam vivas, em meio a risos incontrolados? Ou se aborreceriam, sentir-se-iam melindrados?
Melhor preparar dois ou três tipos de discursos e, conforme a recepção, optar por este ou aquele. O diabo seria na hora misturar um a outro e terminar fazendo aquela salada de frases. Por exemplo:
– Como vocês podem ver, se é que podem me ver, meu mundo não é deste reino. Desculpem o trocadilho, a brincadeira. Perdão. Mas, em verdade, eu vos nego: cada macaco em seu galho. Explico-me: a terra é de todos e tanto faz estar lá como aqui.
Isso poderia representar o fim de tudo, o fracasso da missão, seu linchamento e morte.

- IX -
Nessa ruminação, não percebeu Taciba o quanto havia caminhado. Quando deu por si, viu-se ao pé de uma parede verticalíssima, que ia em linha reta dar ao céu, tocar as nuvens. Sim, senhor, acabava de encontrar a chave da civilização. As pessoas aspiravam ao céu, ao azul infinito, ao lugar das delícias. Eis por que vinham todas do lado do mato, perseguidas pela vontade de mudar radicalmente, de trocar o verde e outras cores pelo azul encantatório, o cheiro de terra pela amplidão dos ares, a vida mortal e perigosa por outra deliciosamente eterna. Por aquelas paredes subiam todos para a civilização das civilizações, alegres, redimidos, sabedores de que deixavam alguns pequenos deleites efêmeros por um sem tamanho êxtase. Mas por que não subiam as paredes? Estranho! Em volta, seres gigantescos iam e vinham, apressados, sem sequer olhar para o alto, mais preocupados com o chão rasteiro. Por certo não precisavam das paredes. Quem sabe, eram informantes, orientadores, enviados do céu à terra, encarregados de explicar aqui embaixo as regras do bom subir. Os construtores de paredes, simples mercadores que preferiam a vida rasa do chão à vida elevada do céu, onde o poder se exercia coletivamente. Seriam benfeitores, de qualquer forma, pois sem eles impossível se tornaria subir. Sem eles não existiriam as paredes, as escadas necessárias à grande escalada. “Deixa-te de especulações bestas, Taciba, e trata de subir o quanto antes.”

- X -
Iniciou a subida. Logo encontrou-se à altura dos gigantes. Via-lhes os olhos, a boca, o nariz. Passeavam para lá e para cá, como se a vida fosse um simples passeio.
Súbito os planos se inverteram. Achou-se numa superfície horizontal. Diante dos olhos, claridade ofuscante, objetos nunca vistos e gigantes atarefados. Que faziam? Seriam escavadores da terra infinita? Ocariam o sagrado muro dos céus, no afã de se resguardarem da competição dos de fora? Ou simplesmente nada disso intentavam, apenas se preparavam para subir mais um andar? E por que assim não procediam logo? Com certeza utilizavam-se de escadas interiores ou de outro meio que os elevava.
Deixando de lado a sala, Taciba voltou à parede externa e continuou viagem. Um dia alcançaria o fim e estaria no céu. De lá olharia para baixo e mais se admiraria de os outros continuarem naquele vai-e-vem sem termo. No chão, os gigantes cada vez menores, achatados, pequeninas criaturas deslizando como bolinhas. Teria enlouquecido? Só ela com aquela febre de subir? O melhor seria averiguar direito as coisas, conversar, informar-se. Mas com quem? Com aqueles gigantes? O que diziam? Que língua falavam? Se ao menos encontrasse Tacibura ou outra de sua raça!

- XI -
Alcançada a segunda janela, olhou em volta: gigantes sentados, móveis, luzes, tapetes, decorações. Tudo muito limpo, bonito e vasto. Seria aquilo um pedacinho do céu? Por acaso não se enganara, sonhando demasiadamente, o céu já sendo o próprio edifício? Por que não? Quem disse que o céu são as nuvens, o espaço mais inacessível? Sim, ali não se viam matos, monstros, a eterna briga entre os seres, tudo transcorria em paz. Aquilo era outro país, o mundo fantástico sempre sonhado. Só podia ser. O céu mesmo era inatingível. Apenas para ser olhado, adorado. Regozijou-se com a grande descoberta. Agora iria viver uns tempos ali, desfrutando a paz, o bem, a vida. Um dia regressaria à terra natal e contaria tudo aos seus, tintim por tintim. Causaria inveja até. Sentir-se-ia orgulhosa. E se tornaria muito respeitada. Fora a descobridora da civilização. Seria chamada de heroína dos Himenos. Teria um pedestal, quem sabe. Levaria todos eles para um passeio turístico pela terra encantada dos gigantes. Lá seriam recebidos com honras e foguetes e convidados para construírem juntos o futuro do futuro, unidos pelo mesmo afã celestial.
– Então você é a célebre Taciba, a humilde filha dos Himenos que ousou um dia deixar o mato e descobrir a civilização?
– Sim, sou eu. Mas tudo devo a minha amiga Tacibura.
– Não estamos entendendo. Quem é essa Tacibura?
– Já que estamos todos juntos, numa festa de confraternização, vou reconhecer publicamente que tive uma antecessora, embora todos neguem tenha ela chegado aqui – começaria Taciba seu grande discurso.
– Não temos nenhum interesse em mentir, falsear a História, embora alguns de vocês, os Himenos, possam desconfiar de que aprisionamos ou assassinamos essa tal Tacibura – diria o Chefe dos Civilizados.
– De jeito nenhum. Longe de nós tamanha ingratidão. Ora, quem recebe tão bem estrangeiros, como vocês o fazem agora, não pode ser uma Nação de Assassinos. Nenhum de nós desconfia de nada. Não é, meus companheiros? Tacibura deve andar por outra civilização. Porque não acredito tenha sido ela devorada pelo monstro Batará. Na verdade, ela foi nosso primeiro navegante, se assim posso me referir, nosso primeiro aventureiro. Se não teve a sorte de encontrar povo tão pacífico e bondoso como o de vocês, resta-nos acreditar na sua inteligência. Estará bem, não digo melhor do que nós, porque seria impossível.
E Taciba sonhava com o glorioso dia em que todos os Himenos seriam recebidos no centro da Grande Civilização. Uma nova era. Sim, adeus mataria, sol de fogo, trabalho pesado, caminhadas sem fim, perigos de vida, monstros, adeus, Batará. Livres de todo o mal e felizes para todo o sempre. Amém.

- XII -
Cuidou, passeava sobre um plano azul, muito mais azul do que o céu, de um cheiro nunca sentido e mais delicioso do que o de todas as seivas já provadas. O paraíso em miniatura. Decerto postava-se diante do manjar dos deuses ou mesmo dos escolhidos para a ceia do divino. Caiu de quatro sobre o prato. Com sofreguidão de retirante, lambia o azul em que pisava. Com pouco, sentiu tontura, vontade de dormir, enjôo. Desconfiou da esmola. Talvez tudo não passasse de um ardil. A provação, tal como na história da maçã. Necessário conter-se, retirar-se o mais rápido possível, fugir ao canto da sereia.

- XIII -
Deu uma passeada pelo salão. Quase esmagada por um enorme pé. Certamente não fora de propósito. Não a viam. Deveria esconder-se então, sair do chão, procurar os cantos das paredes. Ou conversar com os gigantes? Explicar tudo. Falar da fuga, da viagem, dos encantamentos. Contar toda a sua história.
Refugiada num cantinho da enorme sala, pôs-se Taciba a ouvir as vozes de trovão daqueles estranhos seres.
Como fizesse grande esforço para ouvir e entender as vozes, Taciba tapou os ouvidos e voltou a admirar o ambiente e a matutar. Precisava descobrir a forma de entrar em entendimento com aqueles seres esquisitos, falar-lhes. Mas como, se não seria entendida? Na certa o céu era assim mesmo, um lugar onde ninguém se entendia, mas todos viviam em paz. Cada um no seu lugar. Gigantes aqui, Tacibas ali. O prédio se dividiria em vários compartimentos. Até os Batarás teriam seu lugarzinho. Porém seriam pacíficos. Regenerados, sem aquela fúria, aquele ódio na ponta do bico, aquela vontade de devorar Tacibas e Taciburas.

- XIV -
Nessas conjecturas, viu Taciba os gigantes se retirando por uma porta. Iriam para um salão mais próximo do céu? Talvez a escalada fosse lenta, regrada. Um dia aqui, outro ali. Até alcançarem o azul infinito. Uma hipótese para civilizados. De qualquer forma, não se arriscaria a ser pisada. Não deixaria os cantos enquanto os gigantes estivessem na sala.
Olhou, olhou, não viu ninguém. Podia muito bem andar pelo salão. Ir e vir, sossegadamente. Pôs-se a passear de lá para cá. Esquadrinhou tudo, subiu paredes, vagou pelo teto. Aproximou-se das luzes, escorregou nos vidros, pisou nos papéis.

- XV -
Passada a tontura, voltou a lembrar-se do azul gostoso. Correu, rebolando-se toda para o prazer. Deu gritinhos, brincou nas pontas dos pés, feito uma menina travessa que descobre docinhos. Passeou primeiro sobre o fruto escondido, escorregou e lambuzou-se toda de azul. Teria uma noite de muito gozo. Não precisava pressa. Uma vida inteira de prazer. Tudo tal qual imaginara. Ora, só podia ser assim mesmo. E como agradecia à amiga Tacibura. Não fosse ela, e não estaria ali, naquele éden. Tivesse ido na conversa dos pais, dos mais velhos, acreditando na potoca de que o mundo era dominado por monstros, assassinos, e jamais teria conhecido civilização tão cheia de bondade.
Deu uma lambida na iguaria. Deslizou como se dançasse balé, saltitou, cantarolou, festejou. Sentiu-se tonta de novo, numa embriaguez prazerosa. Deveria retirar-se antes que fosse tarde? Mas não podia perder tempo, os gigantes voltariam de uma hora para outra e adeus prazer de lamber aquela coisinha cheirosa, maravilhosa, fogosa. O ápice do gozo. Por que não aproveitar a oportunidade? Lambeu, cheirou, apalpou novamente aquele azul celestial. Sentiu-se mais tonta, sonolenta. Cambaleou, as forças lhe fugiam. De repente imaginou que não só poderia aquilo representar o convite à desobediência a alguma norma secreta, como, sobretudo, ao suicídio pela superexcitação do gozo material. Repensou, num segundo, toda sua vida, a terra onde havia nascido e sempre vivido, seus pais e irmãos, as companheiras, Tacibura, o trabalho, o mato, o medo, os monstros, Batará. Teve um arrepio. Contorceu-se. Estaria apenas delirando de prazer? Não se contorcia, não sentia dor alguma, a morte não viria. Extasiava-se tão somente. Contorcia-se, mas nunca de dor. Continuou contorcendo-se, vendo tudo mover-se lentamente, como num sonho.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O julgamento de Rui (Nilto Maciel)





Quando ela chegar em sua carruagem de névoa, estarei pronto para a partida. Terei arrumado as malas, tomado banho, trocado a roupa. Tudo estará em ordem: móveis, papéis, semoventes. Abraçarei parentes e amigos, e, sereno, caminharei até a sege. O cocheiro, impaciente, olhará para trás. À janelinha, direi adeuses. E, talvez chorando, partirei.
Sim, logo chegará minha vez de partir. Antes, porém, quero deixar anotadas algumas recordações. Não para o público, que não sou escritor, mas para meia dúzia de parentes.
Não falarei de minha infância nem de minha mocidade. Não é aquele passado tão remoto o que me interessa e atormenta. Principiarei do meio do caminho. Depois de juiz, casado e pai.
Minha intenção é recordar Cândida, seu tempo. Talvez para esquecer sua tragédia, seu fim. No entanto não poderei falar dela, sem lembrar-lhe a morte.
Encontraram o corpo de minha filha a boiar num poço do rio das Lajes. Havia ferimentos na cabeça, nos braços, nas pernas. E rasgões no vestido.
O achamento do corpo se deu graças a uns meninos. Costumavam tomar banho naquela parte do rio. Pulavam de cima das pedras.
Os exames médico-legais não foram conclusivos. Cândida poderia ter escorregado nas pedras e se afogado. No entanto ela sabia nadar. Além disso, nunca tomava banho em rio. Talvez nem conhecesse aquele rio.
Falaram em suicídio. Padre Divino repeliu de pronto tal hipótese. Fez-nos ameaça: não daria sepultamento cristão à morta, caso tivesse havido suicídio.
Não, Cândida não tinha razões para se matar. Todos falavam de sua beleza. Não aquela beleza cinematográfica. Talvez beleza angelical. Nenhum problema para atormentar-se, quer de saúde, quer financeiro.
Havia ainda a hipótese de homicídio. Quem faria isso? A menos que um louco a tivesse encontrado às margens do rio.
Ainda hoje guardo alguma suspeita de Rui de Alencar. Não há, porém, nenhuma prova a incriminá-lo. Não foi sequer indiciado, apesar de seu comportamento esquisito.
Diziam nutrir ódio a Cândida. Por não dar ela a menor importância a ele. Segundo outros, sentia ciúmes insuportáveis. A própria Cândida dizia, no entanto, ter ele inveja dela. Desde os tempos de menina. De suas tranças balouçantes, de seus pulinhos na calçada, de seu riso exuberante.
Aos 15 anos se elegeu Rainha do Partido Azul, nas festas da padroeira da cidade. A mocinha do Partido Vermelho, ou Encarnado, quase morreu de indignação. Teve médico à cabeceira. E reza prolongada dos pais. Retornou à vida dias depois, completamente sem cor.
Para comemorar o feito, realizou-se outra festa no Clube Esportivo de Palma. Algumas brigas entre os rapazes. Todos disputavam o amor da bela filha do juiz.
A beleza de Cândida chamou a atenção de homens e mulheres desde seus primeiros anos. “Parece um anjo do céu”, diziam. Referiam-se às figuras pintadas na cúpula da igreja matriz.
A comparação se tornou mais crível no dia da primeira comunhão dela. Trajada de anjo, com asinhas e vestido longo, encantou meia cidade. A outra metade não saiu de casa, não foi ver a cerimônia.
Nesse dia Rui sofreu como nunca. A beleza da menina o martirizava. E esse martírio se desenvolveu ao longo do tempo. Quanto mais Cândida crescia, mais Rui se atormentava.
Embora não tenham sido sequer namorados um do outro, Rui vivia espionando Cândida. Certa feita, ao flagrá-la em beijos com outro rapaz, aprontou um memorável escândalo. Toda a cidade comentou o espetáculo. Ora, circo só aparecia de ano em ano, e ninguém se afoitava a sair da linha. A não ser durante bebedeiras. Mas bêbados se repetiam, e ninguém mais os achava escandalosos. Mesmo quando caíam ou urinavam nas ruas.
A fúria do rapaz parecia incontrolável. Sentia-se ultrajado. Sobretudo porque chegou a seu conhecimento que Cândida o chamara de besta. E o insulto teria sido pronunciado em local público, diante de várias pessoas, a plenos pulmões.
Se o “besta” tivesse sido circunstancial, em razão do beijo, Rui talvez tivesse esquecido logo o insulto. Porém Cândida o considerava besta por muitos outros motivos e momentos. Como por ele se vangloriar de ser advogado, orador, poeta, professor e futuro vereador. O homem mais importante de Palma. Um petulante!
Se ela apenas visse defeitos nele – presunção, por exemplo –, Rui ainda poderia ter esperanças de enamorado. Na verdade, ele significava um defeito ou os defeitos. Em conseqüência, ela não gostava nada dele. Nunca aceitou os galanteios dele. Se pudesse, nem sequer o veria. Quando para ele olhava, seu olhar refletia desdém. Como o espelho do punhal à luz do sol reflete luz. E cega, fere, mata.
Ó amor-próprio ferido! Pois quantos sonetos ele rabiscou, burilou, soletrou para ela!
Um deles, de uma pieguice imensurável, ela rasgou, queimou, jogou ao lixo. E mandou recado: faria o mesmo a tantos quantos ele enviasse.
***
Até no cabaré de Ana Souto se soube da beleza de Cândida. Para desespero de Rui, as raparigas constantemente traziam à baila o nome dela e sua formosura. Chamavam-na de “tua namorada”, “tua amada”, quando com ele falavam. Ele se zangava. Não queria o nome “dela” ali, naquele ambiente de pecado, devassidão, sujeira.
Desesperado, chegou a culpá-la de tão constrangedora situação. Se fosse mais recatada, menos mostrada, exibida, espevitada, seu nome não estaria na boca de todos. Até das raparigas.
E para que escrever versos e publicá-los no jornal? O cúmulo da vaidade! De fato, Cândida havia rabiscado uns versinhos, coisa bem ingênua e sem nenhuma poesia. Umas quadras cheias de flores e amores. Dei-lhes retoques, impus métrica e as mandei para a folha do comendador Jeremias.
Não saíram maus versos. Como os de minha juventude. Sim, aos vinte anos fui poeta. Não sei o destino de tantas odes e cantigas. O tempo, o casamento, a magistradura, tudo se encarregou de sepultá-los.
Talvez Rui não tivesse gostado da concorrência. Poeta só ele em Palma.
Motivos não faltaram, pois, para que Rui desejasse a morte de Cândida. O mais grave deles talvez tenha sido a suposta platônica paixão dela pelo tenente Benévolo. Alguém deve ter cochichado horrores aos ouvidos dele. Sim, aquilo cheirava a sem-vergonhice. Pois o delegado tinha esposa e filhos, além de ser muito mais velho que ela.
E uma agravante – ele, poeta, ser trocado por um soldado!
Por tudo isso, não me convenço da inocência de Rui. Sobretudo por ter sido visto, naquela tarde, nas proximidades do rio das Lajes.
Regressava ao cento da cidade, a pé, quando testemunhas o avistaram. Parecia nervoso, agitado, além de ter as roupas molhadas e sujas de lama. E aquela gota de sangue coagulado no rosto? Só pode ter sido provocado por unha.
Porém Rui negou tudo. Não gostava de rios, mal sabendo nadar. E naquele dia, bem longe do rio, escorregara numa poça de lama, daí os leves ferimentos e a roupa suja.
Testemunhas afirmam ter visto o rapaz nas proximidades do local onde o corpo de Cândida foi encontrado. No entanto o delegado chamou-as de mentirosas. Ameaçou-as de prisão e tortura. Como costumava agir. Os gritos dos presos assustavam as crianças à noite.
Benévolo não escondia sua simpatia pela pena de morte. Antecedida de prolongada tortura. E não foram poucos os presos mortos nas celas da Delegacia. As conclusões eram sempre duas: suicídio e assassinato (cometido por outro preso). E logo o “outro preso” também amanhecia morto.
Como Cândida conseguiu gostar de tão feio carniceiro? Águeda me falava desse amor, dessa paixão. A menina sonhava com o monstro. Em seus sonhos ele virava cavaleiro andante, salvador de donzelas, amante fiel, herói insuperável.
Casado, pai de quatro ou cinco meninos, Benévolo vivia no cabaré de Ana Souto. A pretexto de fazer ronda, não perdia oportunidade de se deixar arrastar para a cama das raparigas.
Conquistador bem sucedido, não desprezava também as empregadas domésticas e as moças mais pobres.
***
Cinco foram as paixões de Rui.
A primeira aconteceu aos oito aninhos de Cândida. Brancas pernas roliças, longos cabelos castanhos, peraltice pelas calçadas, parecia a dona do país das maravilhas. Lá fora, no entanto, reinava o terror. O governo cassava deputados, feito gato atrás de ratos. Rui, sempre solteiro, ria dos ratos, perseguia Cândida com olhos de gato. E tinha 34 anos de solidão.
Alguns anos depois, mataram Lamarca. Minha filha fazia 13 anos. Atolado na dor, Rui andava pelas ruas de Palma feito sonâmbulo. Acontecia sua segunda paixão. As pernas de Cândida estavam mais roliças e tentadoras, seus cabelos lembravam o vento, seus olhos pareciam cisternas profundas.
Mais uma vez Cândida não tomou conhecimento de nada. Nenhuma paixão a visitava. Nenhum terror a martirizava. Tudo nela devia ser cor-de-rosa.
A terceira paixão de Rui se deu em 73. Acabava de entrar na casa dos quarenta, um ou outro cabelo branco a surgir na vasta cabeleira. Seus versos falavam então de adolescência, flor desabrochada.
Mais dois anos, e uma quarta paixão feria seu já gasto coração. No dia da morte de Herzog, bebeu em demasia e terminou numa das camas de Ana Souto. Começou louvando a morte de todos os comunistas e acabou chorando aos pés de uma rapariga, que confundiu com Cândida.
E veio a última das paixões. Minha filha chegava perto dos vinte anos e havia concluído o curso de normalista. Parecia mais bela que nunca. Rui e outros a chamavam de deusa, ninfa, graça. Nas grandes cidades, multidões se manifestavam nas ruas, pedindo liberdade. Rui se irritava com aquilo, e mais seus cabelos embranqueciam.
Dias depois o governo fechou o Congresso. E Cândida apareceu morta.
***
Menina-moça, Cândida já ouvia falarem de seu casamento com Rui. As amiguinhas brincavam: já nasceu com casamento pedido. Pois toda Palma sabia da paixão de Rui por minha filha. E o tempo passando, ele envelhecendo, enchendo-se de rugas e cabelos brancos.
Se se referiam à sua solterice prolongada, ele se zangava. Quando encontrasse a moça ideal, anunciaria o noivado a todos. Daria uma grande festa no Clube. Publicaria notícia no jornal do comendador.
Por que não se casava logo? Por que não se casara ainda, se havia tantas moças solteiras em Palma?
Como se acusado de grave falta, ele se defendia com unhas e dentes. Não ia casar-se com qualquer uma. Casamento para ele só com amor. Mas tivessem paciência: um dia a mulher de seus sonhos surgiria.
Às escondidas riam dele. Pelo jeito casaria com a morte.
***
Houve quem duvidasse da virilidade de Rui. Exatamente por sua solteirice crônica. Porém ele freqüentava com assiduidade o cabaré de Ana Souto. Não toda noite, é certo, mas pelo menos uma vez por semana. Nunca aos sábados e domingos. Detestava disputar as mulheres. E a companhia de bêbados.
Rui e Ana mantinham uma espécie de pacto. Ele não dava dinheiro às raparigas com quem se deitava. Em troca, se obrigava a dormir na cama dela uma vez por mês.
Conheciam-se desde a primeira mocidade dela. Nesse tempo já navegava Ana na barca dos cinqüenta anos. E já administrava, com sabedoria de vestal, sua casa repleta de mocinhas.
A fama do cabaré de Ana se mantinha desde os primeiros tempos. Lá viviam as mais novas e bonitas raparigas de Palma. O plantel se renovava constantemente. Coitada de quem adoecesse, engravidasse, abortasse. Nenhuma chegava aos trinta anos. Casa respeitada e freqüentada pelos mais importantes homens da região. Desconhecido de Ana não punha os pés no batente de sua casa. Só se conduzido e apresentado por algum amigo.
Assim, nunca o cabaré foi palco de qualquer briga. Além do mais, a polícia garantia a ordem na casa. Benévolo e seus soldados davam proteção a Ana e suas “meninas”. Em troca, não pagavam nada. Bebiam à vontade, dançavam e podiam escolher a mulher que lhes apetecesse.
Sempre bem vestidas, pintadas, perfumadas, as raparigas de Ana gozavam da mais alta admiração de todos. Seus nomes andavam de boca em boca e até nos versos de Rui.
Também Ana freqüentava a pena do poeta, como no poema intitulado “Caftina”, que assim começava:
Teu ofício é gerir o sexo,
fiscalizar a putaria,
qual se fosse da vida o nexo
usar a cama todo dia.
Apesar de versos assim e das noitadas no cabaré, havia quem afirmasse nunca ter Rui tocado uma só das mulheres de Ana. Outros se faziam menos cruéis. Ia para a cama, sim, mas após muita insistência. E, para não sair falado, mostrava-se o mais competente dos machos. Capaz de deixar cansada a mais calejada rapariga.
Finda a pândega, corria para casa, feito rato assustado. Como se tivesse enfrentado o mais temível dos gatos. De tão angustiado, não conseguia dormir. E só faltava supliciar-se ante as imagens dos santos. Rezava infinitas orações, ajoelhado, quase a chorar, coração a explodir de dor. E se banhava, uma, duas, três vezes. Cobria-se de espuma, gastava sabonetes e sabões, a água gelada a lavar-lhe o corpo pecador.
Nos dias seguintes, transfigurado, quase branco, cheirando a santo, lia seguidamente a Bíblia e vidas de santos e mártires cristãos. Rezava a mais não poder, assistia a todas as missas, confessava-se a cada madrugada, engolia hóstias atrás de hóstias. E ninguém via nisso exageros ou loucura. Padre Divino mostrava um riso contínuo, como o de algumas imagens da Igreja.
Na seqüência do delírio, Rui cantava intermináveis hinos, em casa, na rua, na igreja. E não só cantava, escrevia-os. E não só hinos, como salmos e versos religiosos da mais variada métrica.
Passados dias, semanas, meses nessa prática de asceta, Ana Souto enviava-lhe embaixadas. Aparecesse, fosse dizer umas poesias, alegrar a casa. Ele inventava doenças, viagens, afazeres muitos e inadiáveis. A Prefeitura, onde trabalhava, não lhe dava um dia de folga. Vida de cachorro!
Na verdade, nem ia trabalhar. Finda a fase de beato, desterrava-se em sítios de parentes ou continuava em prisão domiciliar. Quando ressurgia, gordo e cheio de novidades, apresentava uma das duas explicações: viajara ou estivera doente. Preferia, no entanto, as viagens, os lugares mais exóticos do mundo. Na terra dos anões, por exemplo...
Apesar disso, nunca o prefeito o censurava. No máximo, esperava uma explicação razoável. E o rol das doenças de Rui não parava de crescer. A primeira fora caxumba. Por causa dela quase não pôde comemorar a morte de Stalin.
Simples amanuense, passava os dias datilografando ofícios e carimbando documentos. Emprego arranjado pelo comendador Jeremias. Para pagar votos conseguidos pelo pai de Rui. Além do mais, o “menino” tinha estudos, quase chegara a padre. Recém saído do seminário.
Com o tempo, novas tarefas lhe foram impostas. De amanuense passou a assessor. Dos ofícios chegou aos discursos, aos relatórios. E tinha estilo – diziam.
Não demorou, tornou-se intelectual, poeta. Deixou crescerem bigode e cabeleira, arranjou roupas mais decentes, passou a carregar debaixo do braço sempre um livro diferente.
Para completar a figura, deu para beber. Poeta de respeito devia viver na boêmia. Logo, porém, mudou de idéia. Os mais velhos não gostavam de bebarrões. E passou a beber com moderação, quase nada. Para não cair aos pés dos postes e não causar escândalos.
No entanto bastava uma cerveja e se punha a discursar. Sempre em defesa da moral burguesa e cristã, do ideário político do comendador, do lindo pendão da esperança...
A afeição de Jeremias por Rui levou-o a abrir as portas de seu jornal ao jovem intelectual. E mensalmente A verdade trazia versos, crônicas e artigos do ex-seminarista.
Ler tornou-se um vício para Rui. Aos vinte anos já havia decorado meia Bíblia, duzentos sonetos parnasianos, uma infinidade de salmos e orações. Preso nessa babel, às vezes rezava apaixonados versos de Castro Alves. Outras vezes, bêbado, misturava o Pai-Nosso a versos de Casemiro de Abreu.
Gostava também Rui de jornais e revistas. Mesmo velhos. A morte de Stalin freqüentou suas conversas até os anos 70. Sempre calcado na notícia que leu num jornal de 1953.
Sem jornal, revista ou livro, não ia à latrina. Sem eles, nem sequer conseguia defecar. Prisão-de-ventre durante dias. Em compensação, um salmo longo lhe proporcionava a melhor das evacuações. Chegava a dar louvores a Deus, aos berros.
Outra mania de Rui: narrar num caderno seus sonhos noturnos. Espécie de diário do inconsciente. Acordava, corria à escrivaninha e se punha a escrever. Se ocorria esquecer trechos do sonho, inventava-os.
Alguns dos sonhos se repetiam sempre. Como aquele em que Cândida, ainda menina, fugia para o campo e se perdia no mato.
Nada irritava tanto Rui, afora esquecer seus sonhos, do que sentir quebrada sua rotina. Como não sair de casa após o jantar. Ou deitar-se por volta das 23 horas. Quando bebia ou visitava o cabaré de Ana – exceções em suas noites – sentia-se transtornado. Toda a rotina dos dias subseqüentes se quebrava: não conseguia ler na latrina, adoecia, deixava de ir à Prefeitura...
Rotineiramente jantava à hora do ângelus, perfumava-se, trocava de roupa e saía. Às segundas ia direto a casas onde houvesse moças. Sentados à calçada, lia ou recitava versos seus ou de outros. Sempre poesias líricas. Às terças procurava amigos mais velhos, para falar de política. Às quartas jogava bilhar. Às quintas percorria as ruas da cidade, a passo lento. Às sextas visitava parentes. Aos sábados vestia o terno de linho branco e sumia. Uns diziam que ia namorar, porém nunca se disse o nome da moça. Outros falavam de encantamento – Rui virava lobisomem. Aos domingos se dedicava a Deus: participava de terços, novenas etc. Se nada disso acontecesse em Palma, circundava a igreja matriz até alta noite.
***
Rui sempre foi de poucas amizades. Mesmo quando mais jovem. Mesmo ao tempo de colégio. Contavam-se nos dedos. E os anos se encarregaram de afastar dele aqueles poucos amigos. Um morreu, outro foi embora de Palma, fulano constituiu família, e assim por diante.
Súbito sentiu-se só. Os pais mortos, e sumidos os irmãos e amigos de infância e adolescência. Ninguém com quem conversar. A não ser os desconhecidos ou antigos desafetos.
Apegou-se, então, a pessoas como o comendador Jeremias, o padre Divino e eu. Pessoas socialmente importantes: o chefe político, o chefe religioso, o chefe da lei.
Nem sei como tudo começou. Talvez num julgamento de réu sem advogado. Haviam me falado de certa eloqüência, de alguma leitura, de umas crônicas do jovem José de Deus, então rebatizado para Rui de Alencar. Em conversa com o comendador, confirmaram-se os predicados do rapaz.
Vieram as primeiras audiências. Nomeado defensor de réus pobres, mostrou algumas aptidões. Porém desconhecia leis e doutrinas jurídicas. Mesmo assim, nossa rabulice não podia exigir nada além do palavreado de Rui.
Por uns tempos chamaram-no de Doutor Rui. E muitos até acreditavam tratar-se do famoso orador baiano. Outros, embasbacados, diziam: parece um padre. E realmente suas defesas orais lembravam sermões.
Rui quase chegou a padre. Pela vontade de D. Maria das Dores, o filho seria um apóstolo de Cristo. Não por promessa, apesar de muito carola. O rapazinho, porém, cedo demonstrou falta de vocação para o sacerdócio. Aquela vida de recluso não o cativava. E, mal lhe nasciam pêlos na cara, regressou ao lar materno. Voltou sombrio, solene e sábio. Falava com desembaraço e escrevia como ninguém na cidade. Até mesmo poesia. E logo o chamaram de poeta. Às vezes de padrezinho.
Nos quatro anos passados junto aos jesuítas, leu quase tudo, exceto romances realistas e naturalistas. E escreveu os primeiros versos. Chegou a receber elogios dos padres pelo poema “Desembarque na Normandia”. E contava apenas 12 anos de idade.
Às vésperas de deixar o seminário, soube do assassinato de Gandhi. E perpetrou um soneto, cujo primeiro quarteto dizia:
O grande Gandhi – luminoso guia
da paz na Terra – que se foi agora,
criou no Ganges longo a utopia
que o Ocidente nega, enquanto adora.
Não podendo estudar junto às normalistas e não querendo transferir-se para cidade maior, onde pudesse cursar o científico ou o clássico, abandonou os estudos. Não, porém, as letras, os versos. E logo todos o chamavam de poeta. Inclusive os comerciantes. E era como se o chamassem de louco, vagabundo, joão-ninguém.
Apesar de tudo, Rui se sentia poeta mesmo. Sobretudo quando outros rapazes o procuravam para mostrar-lhe seus versos. Sentia-se o mestre deles.
Na verdade, Rui conhecia toda a poesia brasileira. Pelo menos até os princípios do século XX. E tentava imitar ora Castro Alves, ora Raimundo Correia. Para mim não passou de um parnasiano retardado e sem talento.
Assim mesmo, elegeram-no o príncipe dos poetas de Palma. Por maioria absolutíssima. O segundo colocado recebeu apenas três votos e havia escrito até então somente algumas quadrinhas.
Toda a cidade participou da eleição. Como se escolhesse prefeito e vereadores.
Surgia o mito Rui.
A partir de então alguns rapazes passaram a bajulá-lo e imitá-lo. Até no modo de andar, nos gestos mais comuns, no jeito de ser.
Dezenas de mocinhas se apaixonaram por ele. Menos Cândida.
E faltava a Rui exatamente isto – o amor de Cândida. Além de outro sonho literário: publicar livros e fundar uma academia de letras em Palma. Tornar-se um pequenino Machado. Um Machadinho de Assis.
Para realizar mais este sonho, contava ele com o incentivo do comendador Jeremias. Sim, continuasse a escrever. O primeiro livro logo seria editado.
Porém o velho morreu antes do esperado. Em conseqüência, o jornal também deixou de existir. Assim mesmo, Rui continuou a escrever. Por algum tempo mais. Até perder completamente o interesse pela poesia e dar por encerrada a carreira de poeta.
Apesar disso, parte de sua obra sobreviveu a esta drástica decisão. É o caso da “Ode à cabra”, recitada em lares e praças, bares e becos.
Orgulhoso desse feito, planejou uma ode ao bode. No entanto não foi além dos três primeiros versos. Ficou num elogio aos chifres.
O melhor de Rui nunca foi publicado. Trata-se de uma quadra biográfica, cujo original ainda guardo:
Se eu fosse Rui de Alenca
e não de Alencar o Rui,
era como se fosse avenca
– aquilo que nunca fui.
Rui também gostava de paródias. Um de seus sonetos começava assim:
Arma minha viril que te partiram
qual seda em festa no sertão mais quente,
repousa lá no céu de minha gente
e viva eu cá no chão dos que mentiram.
Embora lesse desde os tempos de seminário, Rui passou a ler muito mais após o desaparecimento do jornal do comendador. E como não houvesse livraria e biblioteca públicas em Palma, poucas eram suas chances de ler. Na verdade, tirante a biblioteca do colégio dos salesianos, só duas casas abrigavam livros: a minha e a do comendador. Salvo algum clássico que me restou dos tempos de estudante, só havia em minha estante literatura jurídica. Assim mesmo, Rui devorou tudo.
Dos padres e de Jeremias leu vidas de santos, missais, alguns filósofos e uma enciclopédia.
Quando leu tudo, ainda andava na casa dos vinte anos. Viciado, apegou-se a jornais e revistas. Sempre com muito atraso. Alguns bodegueiros lhe vendiam ou davam restos de periódicos. Em algumas bodegas desfrutava o direito de escolher o que levar. Gato doméstico à caça de ratos.
De tanto ler, Rui estragou a visão. Quase não enxergava nada. E passou a usar óculos de grossas lentes.
Assim como a morte do comendador matou em Rui a vontade de escrever, propiciando-lhe o vício da leitura, este causou-lhe miopia e, em conseqüência, despertou-lhe o vício da fala. Tornou-se orador.
Se me fosse lícito elaborar uma análise psicanalítica do rapaz, eu diria, em suma, ter ele começado na fase da escrita, passado à da leitura e terminando na da oratória. Ou por outro ângulo: começou na fase da mão, passou à dos olhos e terminou na fase oral.
À falta de ouvintes, Rui falava aos ventos, às estrelas, à lua. Até descobrir o silêncio dos sepulcros. Todas as noites refugiava-se no cemitério e se punha a pregar aos mortos.
Descoberta sua nova mania, aconselhou-o padre Divino a fazer discursos fúnebres à hora dos funerais. Agradaria às famílias enlutadas e possivelmente aos recém-falecidos, sem precisar se expor aos fantasmas noturnos.
Nascia o primeiro necrologista de Palma.
Mal acordava, saía à rua. Queria saber das novidades. Que novidades? Se havia defunto novo na cidade. Se não, acabrunhava-se e até perdia a vontade de trabalhar. Caso contrário, corria à casa do morto para os pêsames e para colher informações biográficas sobre o cujo. Depois, à beira do túmulo, emocionado, choroso, tristíssimo, pronunciava o mais belo discurso fúnebre de sua vida.
Afastado das lides poéticas, aproveitava as exéquias para enxertar nos discursos seus versos mais piegas. Os parentes chorosos do morto só faltavam morrer de emoção.
O próprio orador não se continha e chorava feito um desgraçado. Mesmo não conhecendo o falecido e sua família.
Obcecado pela morte (dos outros), Rui amanhecia contando sonhos terríveis: acidentes, assassinatos, suicídios... Talvez pretexto para falar de morte. “Sonhei que Jonas morreu afogado no Rio das Lajes. Será verdade?”
Terminou amigo do mestre carpina. Vez por outra visitava a carpintaria de Seu José. Admirava a arte daquele homem rústico. Só um artista podia fazer móveis tão belos. Especialmente caixões. Que magníficos ataúdes!
Passava horas alisando a tampa, pegando nas alças. Sim, logo estaria ajudando a carregar aquele precioso esquife. “Tomara que seja defunto maneiro.”
Talvez essa fosse a esquisitice mais repelente de Rui. Porque admirar outras terras, o estrangeiro, ser quase um xenófilo não me parece grande defeito. Pois o poeta conhecia toda a geografia política da Terra. Cidades, montanhas, rios, tudo ele conhecia. Falava com desembaraço dos lagos Baikal e Malavi, do rio Murray, do Pântano de Kutch, de Odessa, Addis Abeba, os cafundós de judas.
Porém isso não significava xenofilia. Pois conhecia também o Brasil, desde as maiores cidades até os sertões mais desertos, a Amazônia, o Pantanal. Falava de São Paulo, suas ruas, seus bairros, como se falasse de Palma.
Muita gente acreditava ter ele viajado pelo mundo. Pois, quando reaparecia após prolongadas ausências, dizia ter viajado. E contava casos vividos ou presenciados em Fortaleza, Manaus, Livramento etc.
Tudo mentira. Nunca saiu de Palma. O resto do Brasil e do mundo ele conhecia de livros, revistas, jornais, mapas, cartões postais e toda sorte de informativos.
Pobre homem! Sim, Rui não passou de um sonhador e um derrotado. Sonhou ser poeta. Nunca escreveu poesia de verdade. Sonhou viagens. Nunca foi além dos sítios de Palma. Sonhou ser vereador, prefeito, deputado. Talvez governador. Talvez Presidente da República.
Candidatou-se diversas vezes à Câmara Municipal. Fazia comícios, redigia e distribuía manifestos, criava slogans estapafúrdios, prometia mundos e fundos. Um aeroporto. Vôos diários para todas as capitais do país e até para o exterior. Os amigos e vizinhos batiam palmas, gritavam “está eleito”.
Concluídas as apurações, revoltava-se. Não conseguia sequer uma suplência.
Talvez fosse sua a culpa pelo fracasso. Precisava então mudar de tática. Deixar o local e atingir o nacional e mesmo o universal. Em vez de chafarizes, jardins, aeroportos – a pátria forte, o heroísmo, uma ideologia.
E apegou-se ao integralismo. Andava de camisa verde, colava retratos de Plínio Salgado, explicava o significado do sigma.
Com a derrota de seu candidato, virou janista. Quando Jango assumiu, organizou uma passeata em defesa da liberdade, contra o comunismo.
Convidou-me a participar da marcha. Recusei. Sendo juiz, não tinha o direito de estar ao lado deles. Seria estar contra a lei. Embora não simpatizasse nada com Jango e seus aliados.
A passeata percorreu as ruas de Palma. À frente iam Rui, o comendador, padre Divino. A seguir, beatas e carolas. Carregavam estandartes e bandeiras de todas as cores e desenhos. Parecia uma palhaçada.
A última campanha eleitoral de Rui deu-lhe meia dúzia de votos. Dizia-se democrata. Prometia a mais autêntica das democracias. Se eleito, faria da pesquisa de opinião pública a ponto de partida para a elaboração das leis. Se a maioria quisesse mudar o nome da cidade, Palma teria outro nome.
Seriam feitas perguntas que poderiam mudar os rumos da Ciência: se o Brasil era mais populoso que a China; se a Terra era maior que o Sol; se o homem havia pisado o solo lunar...
O povo decidiria tudo.
***
José de Deus Evangelista. Esse o nome oficial de Rui de Alencar. Imposto por D. Maria das Dores, sua mãe. A contragosto de Seu Augusto. Para ele o nome do filho seria Isidoro ou Artur. Em homenagem à Revolução Constitucionalista, de que era fervoroso adepto. Por inspiração do comendador Jeremias Coqueiro, seu chefe. Desde aqueles belicosos tempos.
Três vezes prefeito, dono de inúmeras casas, sítios, tipografia, jornal, Jeremias mandava e desmandava em Palma. O vigário, o delegado e o juiz eram por ele indicados. Quando a indicação não partia dele, o nome do indicado precisava do seu aval. Minha nomeação demorou a sair exatamente porque o comendador não simpatizou com meu currículo. Na juventude fui poeta e socialista.
O tormento demorou. Só após muitas ponderações resolveu dizer sim.
No entanto outro tormento sobreveio. Porque interminável. Passei a ter sonhos horríveis. O comendador seduzia Cândida, violentava-a. Eu acordava desesperado. Águeda se assustava, queria saber de meus pesadelos. Eu calava, mentia, falava de monstros. Ela culpava a bebida. Sim, eu gostava de cerveja e cachacinha. Para suportar aquela vida apagada numa cidade de dez mil idiotas. E ainda ter de prestar contas de meus atos a Jeremias. Não só isso – decidir segundo a vontade dele. Só me faltou mandar prender vítimas.
À noite o comendador virava bicho, lobisomem, fauno, o diabo. Às vezes se confundia com o delegado. Outro sem-vergonha.
No entanto Cândida gostava do tenente. Águeda me relatou as confidências que nossa filha lhe fizera. Vivia sonhando com o homem. E não conseguia se livrar desses sonhos. Mesmo sabendo de seu estado civil. E pior: de sua extrema rudeza, de seu caráter de bandido, de seus hábitos de mulherengo.
Rui nunca soube desses sonhos de Cândida. Se tivesse sabido, como teria reagido? Talvez a matasse, se é que não a matou.
E o que sonhava Rui, vivendo tão triste, tão solitário?
Apesar de ser um dos mais velhos da família, terminou ficando só com os pais. Os irmãos mais novos foram aos poucos saindo de casa, por se casarem ou buscarem outras cidades. Dois deles faleceram ainda jovens.
O velho Evangelista morreu quando gargalhava. Assistia a uma novela de televisão – O Bem-Amado.
Viviam os dois em constantes rusgas. O pai chamava o filho de preguiçoso e indolente. 40 anos e ainda sem família, sem casa própria, sem nada, a não ser o empreguinho na prefeitura.
Mesmo assim, Rui chorou muito e quase conseguiu escrever uma elegia para o pai.
Restavam a mãe e Totonha, a criada negra que tudo fazia na imensa casa. Desde os tempos do casamento de Augusto e Maria.
O pior aconteceu três anos depois – a mãezinha também se foi.
Macambúzio, ao voltar do enterro encontrou a velha criada morta.
Definitivamente só, pensou em vender a casa, os móveis antigos, a prataria, e fugir para São Paulo, onde moravam alguns irmãos. Porém o rádio anunciou a explosão de uma bomba na rua Isidoro Dias Lopes. Lembrou-se do pai e chorou mais uma vez.
***
Lembro-me bem do nascimento de Cândida. Tempos difíceis, de seca e fome. Havia, porém, alegria no país. Na Suécia nossa seleção de futebol ganhou a Taça. Eufórico, Rui declamava nas esquinas versos de louvor a Garrincha, Didi, Pelé, cada um dos campeões. Eu também me sentia feliz. Nunca tinha sido pai. E o bebê parecia tão cândido!
No entanto viveu tão pouco minha filha!
Ou não morreu de verdade? Terá sido apenas um sonho ruim? Terei imaginado aquela morte horrível? Ou tudo inventei?
Não, lembro-me com nitidez do velório, das rezas, do padre Divino, da tristeza de todos. Depois o caixão sendo conduzido ao cemitério. Eu segurando uma das alças. Era de tarde. Rui chorava. Parecia desesperado. Em dado momento tomou a palavra e pôs-se a discursar:
Ó cândida menina de meus sonhos,
ó tu que para a eternidade partes...
Naquele momento eu ainda não suspeitava dele. E o aplaudi.
Agora não sei mais o que pensar, dizer.
Talvez esteja enlouquecendo. Ou indo ao encontro dela – a Morte.
(Julho/92)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Pontos da jornada (Anderson Braga Horta)



Colho ainda frescos
nos lábios da noite
os primeiros fonemas da aurora

§

Tão cedo, e tropeço
nas pedras do dia.
Mas a flor é minha,
canto com Cecília.

§

De repente me sinto
um com todos os homens
e com todas as mulheres.
Eu sou as crianças do mundo!

§

A tarde chega
com seus pântanos.
De umas águas turvas e paradas
construo uma flor.

§

Outra noite me acena.
Prelibo o negror
de sua pele e seus cabelos.

§

Que oferenda levarei para as estrelas?

§

Arder, arder: outro nome do amor.
/////

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O bom selvagem (Nilto Maciel)


















(Retrato de índio tapuia, de Albert Eckhout)


PRESENTE
As noites aqui no Boqueirão já foram mais alegres. Agora nem saio mais de casa. Se há luar, olho para o céu, feito poeta de antigamente. Porém não dura um minuto sequer meu namoro com as estrelas. E volto ao caderno, onde escrevo em minha língua a História do Brasil. É uma tradução apenas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Notas poéticas: Métrica e visão de mundo de Augusto dos Anjos (Henrique Marques Samyn)


(Augusto dos Anjos)

Indubitavelmente um dos mais extraordinários nomes da poesia brasileira, Augusto dos Anjos, embora fosse poeta dos mais inspirados, parecia sempre compelido a asfixiar o lirismo em versos de uma rigidez assombrosa. Compreenda-se, no entanto, que esta expressão – “asfixiar o lirismo” – não se refere aqui a qualquer tipo de sobrevalorização da forma, mas sim a uma opção estética perfeitamente coerente com sua matéria lírica, como espero esclarecer nas próximas linhas.

A singular natureza do lirismo de Augusto dos Anjos deriva de sua não menos singular atitude perante a realidade, exemplarmente definida por Álvaro Lins como uma contradição entre as frágeis certezas de um materialismo de bases cientificistas e uma insaciável inquietação existencial com aquelas incompatível; deste modo, o poeta buscava o absoluto movendo-se em meio ao “círculo do nada físico”, para utilizar a precisa expressão do referido crítico. De onde as aporias nas quais Augusto dos Anjos incessantemente mergulhava, que podem ser exemplificadas pelo segundo quarteto de seu soneto dedicado ao filho natimorto, no qual os conceitos emprestados da ciência revelam-se inúteis para a compreensão da morte brutal: “Que poder embriológico fatal / Destruiu, com a sinergia de um gigante, / Em tua morfogênese de infante / A minha morfogênese ancestral?!

É desta contradição seminal que deriva a estética do vate paraibano. Dante Milano analisou-a com agudeza: Augusto dos Anjos utilizava reiteradamente decassílabos acentuados na sexta sílaba (heróicos), nos quais eliminava implacavelmente os hiatos (na feliz expressão de Milano, “nunca largava a tesoura para cortar a cabecinha das inocentes vogais que às vezes queriam brincar-lhe no decassílabo”) e entremeava proparoxítonos. O resultado eram versos de uma rigidez assombrosa que, por vezes, parecia prestes a se flexibilizar pela presença de algum proparoxítono; falsa impressão, logo desfeita por conta da repetição métrica – os fragorosos decassílabos que, sempre acentuados da mesma forma, criavam um andamento de uma solidez impressionante. As sinalefas de Augusto dos Anjos chegavam a criar alguns versos virtualmente indeclamáveis, como o que abre os “Mistérios de um fósforo”: “Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o” – que deve, evidentemente, ser lido como decassílabo!

A dureza dos versos do vate paraibano deve ser compreendida como a expressão mais adequada para sua visão de mundo: percebendo a matéria como uma espécie de cárcere em cujas celas a vida, convulsamente, espraia seus tentáculos e evolui em um implacável ciclo de destruições e renascimentos, também em seus versos constringia o lirismo com singular mestria; o resultado, por outro lado, não era um enfraquecimento deste, mas sua intensificação. Se nos versos de Augusto dos Anjos não havia frinchas que permitissem a passagem do ar, todavia o lirismo neles enclausurado permanecia vivo – e sem demonstrar quaisquer sinais de debilidade.

/////

sábado, 19 de janeiro de 2008

Boi da cara triste - terceira parte (Nilto Maciel)





 










CALVÁRIO

- I -
Navegava a lua para as bandas do Candeia, feito cabaça na correnteza, passavam por ela tufos de nuvens, latiam cachorros no mundo. E Zé Carroceiro escorregava pelos becos, tochas acesas, garras afiadas, sem um miado na goela seca.
Dormia o boi no curral, exposto ao sereno e aos morcegos, tadinho! Acordou, abriu os olhos, levantou a cabeça, remexeu-se. A sombra do carroceiro atravessava a cerca, a bosta, o chão, e foi se apagando cheia de psius, carinhosa, mansinha.
– Sou eu, amigo velho.
Os calos do homem alisaram a testa do antigo puxador de carroça, e o curral se encheu de cicios.
– Meu boi bonito, eu vim fugido, feito um gatinho, sem alarido, muito contrito, para bem pertinho só de você.
Explicou Zé Carroceiro o motivo daquela visita tão fora de horas, enquanto o boi concordava com as preocupações de sou protetor.
Ao fim do entendimento, deixaram ambos o curral e, pelos becos mais escuros, alcançaram o quintal da palhoça do homem.

- II -
Amontoados defronte o prédio da Prefeitura, os flagelados assopravam o sol. Queriam comida e providências, água e satisfações.
– Mate aquele boi.
Raimundo Pitanga se empapava de suor e cuspia soluções. A verba chegava de trem, o governo não ia falhar. Esquecessem o animal, funcionário da municipalidade.
Os homens escarravam, caras de herege, e num instante o cuspe virava mancha na calçada.
– Conversa para fazer boi dormir.

- III -
Num meio de noite, Zé deu um berro do tamanho do mundo e só faltou cair da rede. Maria não morreu, porém os meninos choraram até de manhã.
– Pesadelo doido, mulher.
A velha acendeu a lamparina e mandou os filhos de volta às fiangas.
– Doidice desse doido.
Na parede, o carroceiro cresceu, cabeça de tacho, orelhas de abano, ombros de aleijado, pernas de sete-léguas.
Tremia a chama da candeia e ora a venta de fole do narrador tomava o lugar de uma orelha, ora sua mão de alabarda destelhava a cabana.
Os meninos soluçavam uns por cima dos outros, cobertos de olhos por todos os lados, arrependidos de todos os pecados, mãezinha do céu.
O pai procurava facões debaixo dos pés e a mãe o agarrava pelas costelas e implorava a Deus.

- IV -
Plantado no quintal de Zé Carroceiro, o boi balançava as orelhas, o rabo e a caceta, guarda da casa de seu colega de lixo. Cuidou, o chão tremia. Varava a terra o dragão do fim do mundo ou andava ao léu a leva dos sem-terra? Esbugalhou os olhos na direção da assombração. Qual nada de fabuloso! Marchavam sobre o quintal eram os bichinhos de dois pés. Vinha nu e enfurecido o safado do prefeito, armado de espingarda. Junto ao seu ombro direito, Luiz Macedo carregava munição. Nos calcanhares deles, Joaquim Traçalha, e mais atrás Manoel Cotia abraçava buchas e mais buchas.
– Lá está ele.
Engrossava a procissão toda nação de gente, olhos fitos no boi, garras e dentes de fora, feito feras.
Enquanto o diabo esfregava o olho, derrubaram a cerca e cercaram o boi. À primeira cutelada, minou sangue dos chifres e ninguém podia contar as mãos que açoitavam o condenado.
Súbito Raimundo Pitanga ordenou silêncio e calma e se dirigiu à turba para uma última questão: queriam mesmo o boi ou preferiam esperar pela verba?
– O boi.
Então o prefeito se afastou e deu passagem aos urubus, que voltaram a surrar o animal.
Um deles correu a um canto da cerca, colheu uns galhos espinhentos, engendrou uma coroa e se precipitou para o local do sacrifício. E coroou o boi, em meio a gargalhadas.
– Salve, boi dos sertanejos.
E davam-lhe bofetadas, cuspiam-no, feriam-no com suas armas.
Tiveram a idéia de fazer uma cruz para maior alegria do pagode, saírem pelas ruas e crucificarem o boi, porém o dia amanhecia e urgia preparar o almoço.
E as todas facas da fome tiravam do boi o couro, rasgavam as carnes duras, faziam de matadouro o quintal do carroceiro, mineiros à cata d'ouro.

Junho/1980 a julho/1982.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Boi da cara triste - segunda parte (Nilto Maciel)




 


















(Retirantes, de Portinari)

Páscoa

- I -

Manuel sungou as calças, alisou a cabeleira, moleques atrás de uma bola-de-meia, caras curiosas nas janelas, calorzão dos infernos. Deu uma volta ao redor do veículo e pulou para riba do bicho.
No queixo do tratorista, canhões escuros apontavam para o mundo. Entre os beiços e os buracos da venta, um bigode preto assanhado. Cara dura fincada no pescoço grosso de touro.
***
No curral da prefeitura, o boi dormia em pé e berrava. Num canto, a velha carroça coberta de moscas. Aqui e ali, touceiras de capim amarelado.
– Só resta matutar, meu boizinho.
Zé largou a pá e alisou o lombo do companheiro.
E fungou.
***
No rio, a meninada brincava de procurar água, enfiava as mãos na areia, corria, pulava, dava bundacanascas, mentia de nadar e se afogar.
– Socorro.
***
No terreiro de casa, Zé Carroceiro amarrava mato seco a um pedaço de pau.
– Que diabo é isso, homem?
Ora, se não podia mais dirigir a carroça, ia varrer rua, arrastar vassoura no calçamento.
Nem sequer levantou a vista para Maria, as mãos calosas entretidas nos nós. Também não tinha mais idade e sustança para sair correndo de porta em porta, carregando latas de lixo, como Chico Preto. Nem perder o emprego. Deus o livrasse dessa desgraça.
Fizeram o sinal-da-cruz, beijaram as pontas dos dedos.
E a carestia?
– Tudo pela hora da morte.
- II -
Antes de ser boi-de-carroça, de carregar a porcaria das casas e da rua para o monturo, vidinha besta, porca, foi garrote o amigo de Zé Carroceiro. No sertão, fartura e fome, chuva e seca, e a promessa de virar cozido. Terras de Raimundo Pitanga. E a decisão do prefeito de a Prefeitura adquirir um garrote para os serviços de limpeza pública.
De tanto fazer força e o tempo passar, cresceu, virou boi, agigantou-se. Quando pisava, o chão tremia. E todo dia passeava defronte das casas, orientado por Zé, que pouco ou quase nada nele batia, seguido de Chico Preto, que enchia até à tampa a carroça.
Tudo se limpava para se sujar de novo.

- III -
Espantou-se o boi com a passagem de homens descalços, magros, cor de cera.
– Boi bonito, hem!
Magote de sertanejos sujos e pedintes.
– Aqui pelo menos tem sombra.
Arrancharam-se diante do Palácio Entre-Rios, cobertos de chapéus de palha esfiapados, calças remendadas, pele queimada.
– Esse prefeito tem que arranjar comida.
Choro de crianças, lamentos, pragas. Seios murchos de fora e bocas sedentas a chupá-los.
– É a fome, minha gente.
Raimundo Pitanga surgiu à porta, engomado, branco, duro, a cuspir verbos.
A multidão se alvoroçou na calçada.
– O povo quer é comer, seu prefeito.
A autoridade pediu paciência, calma. Se Deus não mandava chuva, rezassem. Cada um no seu lugar. Água salgada no mar, padre na igreja, sertanejo no sertão, sapo na lagoa.
– Só se for a sua lagoa.
Riram as multidões. E cada um disse a sua, gritou, socou o chão com os pés. Menino chorou, faca riscou o cimento. Se o prefeito não arranjasse comida, invadiam a feira.
O boi lá longe fez mum.
E ninguém riu.

- IV -
Pulou do jipe Pitanga, diante do armazém de Luiz Macedo.
– Um cafezinho, chefe.
No chão, pó de tudo quanto hai, montanhas de sacos de algodão, cheiro de milho, feijão e gorgulho.
O prefeito beijava a xícara, assoprava e revirava os olhos.
– Bando de esmoleres.
Bichinhos miúdos atacavam seus pés, fartos, redondos, muitos.
– E o que se vai fazer?
Escorria suor das caras do prefeito e do atacadista. Colarinhos amarelos, bigodes tabacudos, olhos acesos.
– Caso de polícia.
Aceso, o palito de fósforo caiu bem em cima de um bichinho preto, que esticou os cambitos, estorricado.
– É a única solução.

- V -
Zé Carroceiro apoiou-se na vassoura e cuspiu longe, em tempo de sujar o homem que puxava um jumento carregado d'água.
– Não foi por gosto.
Um pedacinho de riso arranhou os dentes de Chico Preto. A pata do animal cobriu o resto da masca de fumo.
– Toque-toloque-toque.
O jipe de Raimundo Pitanga freou ao lado da bomba de gasolina.
– O tratorista.
Um cachorro enfiou a venta no cuspo do carroceiro, deu uma fungada e sarpou.
– E o prefeito arribou mesmo?
Cotia cutucou o carro, disparou feito bala e a catinga de gasolina tapou a boca de Chico.
– Hein?
Voltaram os dois a barrer a coxia, envergados, num vaivém cadenciado.
– Lá vem o trator.
Atrás deles, montinhos de lixo, bosta de cavalo, ponta de cigarro, capim seco, jornal velho, resto de osso.
– Basta uma faísca para isso pegar fogo.
Longe, o magote de flagelados espiava o tempo, comia farinha de cócoras, espantava o sol com chapéus furados.
– Será que o prefeito vai trazer verba?
O trator roncou junto aos ouvidos dos varredores. Zé subiu a calçada de um pulo.
– Isso lá é carroça de gente.

- VI -
Amontoados debaixo das marquises, os flagelados resmungavam.
– Esse Pitanga não é flor que se cheire.
Um cutucava os dentes com um pedaço de pau, a fazer caretas, feito soim.
– Tanta carne e a gente com fome.
O boi deu um longo mugido para as bandas de longe.
***
Luiz Macedo saiu esmagando gorgulhos e parou à porta do armazém.
– Bom-dia, compadre.
O outro parou, acendeu um cigarro, pigarreou.
– E esses cassacos?
O atacadista franziu a testa, espantou a fumaça, abriu e fechou a boca, mexeu e remexeu os beiços, assanhou o bigode, engelhou a cara.
– A salvação é o boi.
***
Os varredores encostaram as vassouras na parede, tiraram os chapéus, pediram cachaça.
Joaquim Traçalha abocanhou a cortiça com os dentes, fechou os olhos, chegou a garrafa aos copos.
– E aquele boi da carroça?
Zé engoliu o seu bocado, estalou os dedos, cuspiu ao pé do balcão.
– Triste que só vendo.
Chico Preto pediu um tico de farinha, esfregou a costa da mão, nos beiços, lambuzou-a toda.
O bodegueiro apresentou-lhe a cuia cheia do pó.
– Se não matarem o boi, os flagelados vão saquear o comércio.

(Continua)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Boi da cara triste - primeira parte (Nilto Maciel)

(Parábola de escárnio e maldizer)


Meu boi bonito,
Boi zabumbeiro,
Espalha essa gente
Que está no terreiro!
(Do "Bumba Meu Boi")


PROFECIA

-I -
Deu um tapa no lombo do boi e saiu capengando. O animal entortou o pescoço em sua direção e berrou. Zé Carroceiro estacou e virou-se.
– Volto já.
Enfiou o chapéu na cabeça e retomou a marcha. Tropicava nas pedras mal assentadas da rua, olhos pregados no chão e no casario adiante. Risinho no canto da boca, resmungava, à cadência dos passos.
– Que será?
Diante da Prefeitura, parou, benzeu-se e levou às mãos o chapéu. Ciscou feito galinha e, de supetão, venceu os sete degraus da entrada e todo o corredor que ia dar na sala do prefeito. Resfolegava, camisa grudada no corpo. Escorreu o fura-bolos na testa e despejou gotas de suor no chão. Com a mesma mão bateu à porta, de leve.
– Entre.
Frente à autoridade, cumprimentou-a com o chapéu e abaixou a cabeça, solenemente.
Retratos a óleo do Marechal Deodoro, do Presidente da República, de personalidades estaduais e municipais há muito pendurados à parede cercavam Raimundo Pitanga. Ladeavam-no bandeiras do Brasil e do Ceará. Sobre a mesa, papéis, canetas, cinzeiros, cigarros, um jarrinho de flores. Toda a sala recendia a silêncio e respeito.
– É só para falar do lixo.
Zé dizia sim com a cabeça, testa franzida, olhos piscando, boca aberta, mãos atadas ao chapéu. Prendia a respiração, aquelas barbas, aquelas patentes, aquelas imponências falando pela boca do prefeito.
– O progresso, o senhor sabe.
A voz grossa enchia a sala de palavras escolhidas, bonitas, sonoras, difíceis, às vezes engasgadas. E se misturavam à mão-caneta que ia e vinha sobre o papel, riscando, desenhando, anotando. Um cigarro atrás do outro envolvia a carroça, o boi e o lixo da cidade num nevoeiro imenso.
– Um trator.
O carroceiro amolegava a palha do chapéu, fitava as autoridades, lambia os beiços, fazia caretas.
– Entendo, sim, senhor.
Uma negra trouxe café para o edil, que o sorveu devagar, caneta apontada para o funcionário.
– Carroça, coisa do tempo do bumba, não é?

- II -
Caminhava, lerdo, mãos estiradas segurando o chapéu surrado, chinelos varrendo a rua, assustando os cachorros dorminhocos.
– Do tempo do bumba-meu-boi?
Zé atravessava a praça, atrapalhando a brincadeira da meninada, que jogava bola-de-meia, corria e gritava.
– Pára.
Parou, franziu a testa e os moleques debandaram, sumindo detrás dos benjamins. A bola contorcia-se, pequena, indefesa, aos pés do carroceiro, que a chutou, desajeitado, zambeta.

***
O pagode começou já tarde da noite, o terreiro cheinho de gente, a lua ajudando os candeeiros.
– Viva o boi.
Zé fantasiado de chifres de mesmo, arranjados com finado Capitão Marcelino, vestido de couro de remendos, balançando o chocalho no rumo do povo, dançando feito uma dama, rindo para os que iam matá-lo.
E o boi morreu e renasceu depois de um tempão de brincadeira.
– Quede a cachaça, pessoal?
– Eu não era boi de vera, ele.

***
Chegou junto ao animal, alisou-lhe a cara, vagarosamente, e disse baixinho que se preparasse para receber a notícia: o prefeito ia trocá-lo por um tal de trator. O boi estremeceu, fitou-o com demora, gemeu e chorou.
– Você não é tão velho assim, nem nunca dançou, não é?
O boi balançou o chocalho, estendeu a língua para o companheiro, como se o quisesse lamber, e em seu focinho desenharam-se as marcas de um sorriso. O carroceiro abraçou-lhe o pescoço e fungou.

- III -
Montinhos de terra e capim ao longo do fio-de-pedra, aos pés do boi, como se arrumados sob medida. O poste pintado de branco até à altura de uma pessoa descia em sombra sobre o animal, cortando-o ao meio. As paredes amarelas do Grupo, o muro alto, uma lagartixa que acenava, janelas de combogós, tudo como numa paisagem desbotada.
– Amigo velho.

***
Passavam defronte à casa amarela de porta e janela azuis na Praça Waldemar Falcão e Chico Preto pediu que parassem. Saía sangue de sua mão esquerda.
– Foi nessa lata.
Zé bateu palmas à porta da casa e pediu qualquer coisa para fazer um curativo: água, álcool, pó de café, fiapo de pano velho que fosse. Veio uma velha coberta de cabelos brancos, debulhando um rosário nos lábios murchos e arrastando umas chinelas mofadas.
O boi mugiu qualquer coisa e tiveram que pedir auxílio aos vizinhos.

***
As portas laterais da Matriz fechadas. Morcegos chiavam desesperados entre as paredes seculares. As casas, ao redor da praça deserta, refulgiam como arco-íris, assediando a Prefeitura imponente. Do chão, do calçamento evolava a fumaça do meio-dia. O carroceiro cochilava sobre os chinelos gastos, pés rachados como o sertão, calças frouxas e remendadas, cintura amarrada a cordão, mãos calosas em busca da terra, feito papungu no meio do mundo.

***
No monturo, cheiro de podridão, urubus alvoroçados, saltitantes, cachorros, porcos e galinhas disputavam restos de comida, pedaços de ratos e baratas, molambos sujos de sangue e bosta.
– Eu não me acostumo com imundícia.
Zé e Chico despejavam mais lixo para o repasto dos bichos caseiros.
– E quem vai se acostumar?
– O diabo.
O boi deu um berro tão esculhambado que os cachorros saíram em disparada, os porcos escapuliram aos roncos, as galinhas disputaram o céu aos urubus, Zé benzeu-se e Chico subiu à carroça.
– Valha-me, Santo Deus.

***
Escanchado no fio, um passarinho escorregava montado num tufo de nuvem na direção da serra. A sombra do carroceiro beijava os pés do boi, recostando a cabeça comprida no travesseiro de terra e capim.
– Eita vontade de tirar uma modorna.
O animal ergueu os chifres, olhou para o sol e respingou baba sobre a cama de pedra da rua.
– Estou é brincando, bichinho. Vamos trabalhar.
***
O prefeito, montado no jipe, passou no rumo do Potiú que parecia uma bala. Nem olhou para a carroça carregada de lixo.
– Já vai, danadinho?
O boi deu uma risada da caçoada, sem se importar com a poeira levantada pelo carro.
– Lixo de rapariga é vidro de perfume.

***
Pelos pés do carroceiro passeava uma formiga apressada. Parou no unhão e caiu no chão. Nenhum outro animalzinho andava pelo corpo do velho. Só um urubu pousava pequenino entre o chapéu e o telhado do Palácio Entre Rios.

- IV -
Com pouco, apareceu de novo o focinho de gato do jipe velho do prefeito. Aqueles dois olhões de enxergar todo mundo, aquele riso escangalhado.
A poeira subia e os cachorros atrás, malucos, inconformados com a velocidade do bicho.
– Ainda mato um peste desses.
Custou a pregar as patas redondas no calçamento. Fuçava o chão, em tempo de botar os bofes pela boca.
– Quem é, Chico?
Não o montava mais Pitanga, cavalgava-o Manuel Cotia, dentes de ouro a ranger. Apeou-se, rodou a chave no dedo, balançou as calças.
– Sede da gota.
Nem piscava o olhão amarelo do sol em cima de tudo. O chão chiava de se crestar. Zé Carroceiro apertou os olhos. Da venta de Chico escorria catinga de lixo. No lombo do boi não encostava nem mosquito.
– Vai ser jipeiro agora?
Manuel arreganhou os dentes para morder o tempo, coçou o fundo, bateu nas ancas duras do carro. Gostava lá daquela geringonça!
– Sou é tratorista.
E a chuva, caía ou não passava da Bahia? Parecia até a seca do quinze. Coitado do povo do sertão, nem chão, sem são nenhum de proteção.
– Mas Deus é grande.
O carroceiro cobriu a vista com a mão do coração e se afundou nas lonjuras do céu.
O boi almoçava o capim da coxia, incréu e sem berro.

- V -
O relógio da Matriz badalou doze vezes e as tripas de Zé roncaram.
– Lombriga.
Chico Preto diminuía cada vez mais de tamanho, no rumo do Beco de Labirinto. Pisava lá e acolá, feito urubu cangueiro.
– Sou é tratorista.
Mais nem sinal do Cotia, nem do jipe.
Fungou o carroceiro, levantou um pé, inclinou o esqueleto, quase escorregou no próprio escarro. Arrastou as chinelas na fornalha da calçada, em perseguição da sombra de sua lerdeza.
A cachorrada se metia nas latas de lixo soltas no chão, fuçava, lambia, sonhava.
Pelas janelas abertas das casas saltava a zoada de colheres cavando pratos, de meninos enjoados, homens e mães enjoados.
– Se não comer, não vai brincar.
Na praça, burros arrancavam raízes dos pés de benjamins e o mundo sobre o chapéu de Zé era uma terrinha azul com uma gema de ovo no fundo.

- VI -
Escancaradas as portas da bodega de Joaquim Traçalha, feito portão de feira. Na boca do carroceiro, nem um tiquinho de cuspe. Língua de papagaio.
– Bote uma p'r'eu matar o bicho.
O bodegueiro deu-lhe as costas, chupou os dentes, alcançou as prateleiras.
– Colonial ou Guaramiranga?
Meiou um copo nas barbas de Zé. Se chegava ou completava.
Arrolhou de novo a garrafa e viu as gengivas podres do freguês. E a cachaça a ferver na goela e se encachoeirar no rumo dos peitos do carroceiro.
– Boa, hein?
Zé meteu a mão no bolso. Dinheiro amassado e sem valor. Cobrasse e botasse outra. Criar coragem de chegar em casa.
– Calor dos seiscentos.
O bodegueiro deu o troco, retirou a tampa da garrafa, despejou a cachaça no copinho. Enfiou outra vez os olhos dentro da boca de Zé. E encolheu o nariz.

- VII -
– Lá vem o pai.
Abaixou-se o carroceiro ao passar pela porta. E só faltou quebrar os chifres.
Desbotados, grudados na parede, São Francisco, padre Cícero e Virgem Maria olhavam para o dono da casa.
Num canto, o pote, inchado, da cor de nada. O cururu havia voltado. Não adiantou desperdiçar tanto sal.
– Bicho teimoso.
Maria esfregou as mãos nos remendos do vestido, deu um pito no cachorro, caçou a vassoura.
– Trouxe a farinha?
A que tinha não dava um pirão escaldado.
O cachorro velho, cego, carga de ossos, lambia os beiços debaixo da mesa. Um magote de caneludos coçava perebas, catava piolhos, chupava catarro, fedia a bosta e ceroto.
– Vá ali na comadre, Chiquinha, e peça uma xícara de farinha emprestado. De tardinha eu pago.
A menina ensebou as canelas e chispou.
Soprou a trempe a mulher, cinza para todos os lados. E o homem ali, a rondar a mesa, tropicar nos mondrongos do chão.
– Essa menina parece que foi buscar a morte.
Levantou a vista Zé, arrotou cachaça, remoeu o lixo da goela.
– Fala, cristão.

***
Olhava para as paredes limpas da sala do prefeito, mesa repleta de tinteiros, ordens, tudo lustroso, cercado de Osório, Caxias, Deodoro, Ananias.
– O progresso da cidade, o senhor entende?
As mãos de Raimundo Pitanga desenhavam arabescos, labirintos, encenavam dramas, tragédias, e tudo encandeava o carroceiro, fazia-o perder o sossego, o equilíbrio, a razão.
– Compramos então um trator.
Sobre o bureau, fotografias exóticas, um bicho de grandes rodas, sistema dum jipe aloprado.
– E, como o senhor compreende, contratamos um tratorista.
A sala toda se retorceu, feito animal debaixo de chicote, girou, deu cambalhotas, entrou num remoinho danado. O prefeito pulava a mesa, as cadeiras rebolavam, a tinta do tinteiro sujava as paredes, os heróis pulavam fora dos quadros e se atracavam, o Palácio só faltava desabar.
– É o seu Manuel.

***
Horrorizada, Dona Maria fazia os pratos de arroz, feijão e farinha.
– Agora é ser varredor de rua.
Os meninos mordiam os beiços, chupavam as línguas, devorando o barro das panelas, olhos cheios de garras.

(Continua)