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segunda-feira, 5 de maio de 2008

A “missão francesa” em pratos limpos (Adelto Gonçalves*)




I

Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830) foi um pintor francês acadêmico que gostava de pintar paisagens, mas que, obrigado pelas circunstâncias, teve de compor quadros históricos e morar por cinco anos na acanhada e ingênua Rio de Janeiro do início do século 19, a uma época em que a cidade teve de se inventar a si mesma para receber uma corte que, se não se comparava em luxo e riqueza às das grandes nações européias, tinha lá os seus encantos.

Mas, ao contrário do que se lê numa historiografia mais antiga e oficialesca, nem Taunay nem os demais artistas franceses que o acompanharam na travessia pelo Atlântico, formando o que se convencionou chamar de “missão francesa”, vieram a convite do príncípe regente d. João (1767-1826). Vieram mesmo de oferecidos, liderados por Joachim Lebreton (1760-1819), secretário da classe de belas-artes do Instituto de França. Até porque d. João não seria tão parvo a ponto de chamar exatamente artistas que tanto haviam louvaminhado o inimigo francês, que em 1807 forçara a sua vinda para o Brasil.
É o que mostra Lilia Moritz Schwarcz (1957), professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), em seu novo livro, O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d. João, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, com apresentação do poeta e africanista Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal.

De fato, os artistas franceses que aportaram no Brasil em 1816 – Taunay, entre eles –, depois de exaltar os feitos de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e seu império, vinham descrentes nos destinos da Revolução e desapontados com as oportunidades profissionais que então se apresentavam em Paris. Fugiam, isso sim, da Restauração dos Bourbons, das guerras, das suas desavenças particulares e de uma França que não existia mais.

Vinham por iniciativa própria e dispostos a criar no Rio de Janeiro uma Academia igual à que já existia no México. E, naturalmente, de olho nas burras dos nobres portugueses e grandes comerciantes negreiros cariocas que pudessem pagar por sua arte. Mas só quando já estavam no Rio de Janeiro é que Antônio de Araújo e Azevedo (1754-1817), o conde da Barca, ministro de d.João, animou-se com a idéia de criar no país uma academia semelhante à francesa.

Considerado o membro mais importante do grupo, Taunay pensava mais alto e trazia na bagagem a intenção de se transformar em pintor do rei. Mas, ao contrário do que imaginavam, nem Taunay nem outros artistas que o acompanhavam, como Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Grandjean de Montigny (1776-1850), tiveram vida fácil no Brasil. O que os arquivos mostram é que Taunay escreveu a d.João uma carta oferecendo seus serviços, fosse na qualidade de professor de desenho dos príncipes ou das princesas, fosse no cargo de conservador de seus quadros e estátuas.

Como era comum à época, o pintor humilhou-se e bajulou o quanto pôde o monarca que, como não dispunha de muitas opções, acabou por aceitar a oferta. E, assim, Taunay acabou contratado pelo prazo de seis anos com um vencimento de 800 mil réis, a mesma quantia de seu colega Debret. Mas não se pode dizer que tenha “feito a América”.

De fato, o destino seria bem diferente daquele que Taunay traçara para si antes de deixar a França: sem muito espaço na corte de d.João, o artista iria se refugiar numa propriedade que haveria de adquirir perto de uma cascata – e que imortalizaria num de seus quadros – na Floresta da Tijuca. E, mesmo depois da morte de Lebreton em 1819, nunca alcançou no Brasil uma posição de grande prestígio. Cinco anos depois, decidiu retornar a França, com a situação financeira bastante abalada. Morreu em 1830. Mas, a exemplo de Debret, deixaria muitos quadros sem os quais, hoje, conheceríamos bem menos costumes e aspectos do Brasil, principalmente, do Rio de Janeiro daquele tempo.

II

Diz a investigadora que o ato de misericórdia nas aspirações do grupo francês no Rio de Janeiro foi a criação da Academia Real de Belas Artes em 1820, cujos cargos principais os artistas franceses esperavam que lhes fossem destinados. Mas o pintor Henrique José da Silva (1772-1834) foi mais ágil e habilidoso nos conchavos de bastidores no paço real.

Segundo Lilia Moritz Schwarcz, Henrique da Silva era um “professor e artista português pouco conhecido, bastante desprezado pelos franceses e recém-chegado ao Brasil”, mas foi ele quem ficou com o cargo de diretor da Academia, com um ordenado um pouco superior ao de Taunay, nomeado lente de pintura de paisagem. Teria sido por causa dele que Taunay refez as malas de retorno a França.

Já o padre Luís Rafael Soyé (1760-1831), que também viera para o Rio de Janeiro depois da mudança da corte, ficaria como secretário da Academia e Escola Real, o que irritaria ainda mais os franceses. Debret, por exemplo, chamava os portugueses de “intrusos”, enquanto para os demais integrantes da nova escola os franceses é que eram “estrangeiros intrusos”. Para Debret, Henrique da Silva era “um pintor medíocre e pai de numerosa família” que “vegetava em Lisboa”.

Se alguma informação se pode acrescentar a esse livro, é para dizer que esse Henrique José da Silva foi o mesmo que, em 1804 ou no começo de 1805, subiu os degraus do prédio de nº 11 do Beco de André Valente, no Bairro Alto de Lisboa, para pintar o retrato do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805). Não se pode dizer que seria um artista de poucas qualidades, pois o quadro que fez de Bocage não fica em nada a dever a tantos quantos Taunay pintou de outras personagens da época. Mas, claro, em paisagens, Taunay era um artista como poucos. E Debret não lhe ficava atrás, embora sua fama tenha mesmo se restringido ao Brasil.

De Bocage como pagamento, o que Henrique José da Silva recebeu foi um soneto em que o poeta lhe agradeceu “o primoroso desempenho” com que o retratou. Mas, depois, é de supor que Henrique da Silva tenha levantado um bom dinheiro graças à fama do poeta, pois chegou a um acordo com o famoso gravador florentino Francesco Giuseppe Eligio Bartolozzi, que viera para Lisboa em 1802, este sim, a convite do príncipe regente para atuar como mestre de gravura na Impressão Régia. Bartolozzi fez uma estampa com base no retrato produzido por Henrique da Silva e, um mês depois da morte de Bocage, abriu subscrição pública para a venda de gravuras com a efígie do poeta.

Como se lê na Gazeta de Lisboa de 21/1/1806, as gravuras foram vendidas a 800 mil réis na Casa da Gazeta, ao Terreiro do Paço, e no café de José Pedro (das Luminárias), ao Rossio. Quatro anos depois, os dois artistas continuavam ganhando dinheiro com as estampas de Bocage. Dos papéis da irmã de Bocage, Maria Francisca, que repousam no Arquivo Distrital de Setúbal, porém, não há registro de que, algum dia, tenha recebido algum tostão por essa iniciativa da dupla.

III

Mas não era só de Henrique da Silva e de Soyé que os franceses se queixavam. Também reclamavam da perseguição de Maler, cônsul francês no Rio de Janeiro, que, obviamente, não podia ver com bons olhos a presença de bonapartistas em solo brasileiro e não perdia oportunidade para insinuar que seriam perigosos conspiradores dispostos a botar fogo no Brasil com seus ideais de revolução.

Fosse como fosse, desiludido, Taunay, o mais velho e graduado dos artistas franceses, percebeu que não teria mesmo muito futuro no Brasil e convenceu-se de que estava mais do que na hora de voltar a Paris, onde, prudentemente, deixara aberta a possibilidade de retornar ao Instituto de França, do qual apenas se licenciara. Lembra a autora que, enquanto permaneceu no Brasil, Taunay seguiu sua “missão particular”, registrando os “seus trópicos”, enquanto Debret se mantinha fiel à tradição de Jacques-Louis David (1748-1825), o pintor preferido de Napoelão Bonaparte, e “procuraria no passado uma solução para o presente”.

Como iluminista, Taunay sempre se sentiu incomodado num país em que os escravos serviam para tudo: até como meio de transporte para que as damas não molhassem os pés, como se pode ver em quadro do artista. E os pintou como figuras extremamente diminutas, como se fossem borrões na tela, talvez para que passassem despercebidos em meio à exuberância da paisagem tropical. Como diz Lilia Moritz Schwarcz, Taunay sempre reclamou da luz excessivamente brilhante da América, dos verdes "excessivos" das florestas e do céu do Rio de Janeiro, que considerava absolutamente "exagerado".

IV

Quem colocou a andar a versão de que d.João teria mandado contratar os artistas franceses foi Hippolyte, único filho de Taunay que retornou com o pai para a França, já que os demais permaneceram no Rio de Janeiro. De sua estada no Brasil, Hippolyte Taunay escreveu, em co-autoria com Ferdinand Denis, Le Brésil ou histoire, moeurs, usages et coutumes des habitants de ce roiyaume (1822), que, além de importante fonte para a compreensão daquele período, fornece uma versão bem parcial da história do pai.

Também o historiador Afonso de Escragnole Taunay (1876-1958), bisneto de Nicolas-Antoine, em A missão artística de 1816 (Brasília, Universidade de Brasília, 1983), iria reforçar a versão de que d. João, influenciado pelo conde da Barca, entre as medidas que imaginara para arrancar o Rio de Janeiro de um atraso secular, mandara buscar artistas na França. Foi esse Taunay quem idealizou o termo “missão” para o que antes era conhecido como “colônia francesa” ou “colônia Lebreton”. Segundo Taunay, esses artistas seriam “abnegados, apaixonados pela arte, valentes trabalhadores” que teriam vindo ao Brasil para arrancar a colônia “da modorra secular”.

Laudelino Freire (1873-1937), em Um século de pintura0 – apontamentos para a história da pintura no Brasil: de 1816 a 1916 (Rio de Janeiro, Tipografia Rohe, 1916), recuperou argumentos utilizados por Henrique José da Silva para mostrar que os artistas franceses haviam chegado ao Rio de Janeiro sem que tivessem sido oficialmente convidados. E o fez com base num texto publicado no Diário Fluminense, de 12 de janeiro de 1828, de autoria anônima, mas redigido evidentemente por partidários do pintor português. Tudo isso contrariou não só Afonso de Escragnole Taunay como o historiador Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973) que, em 1942, voltou a defender a interpretação hegemônica de que teria havido uma “missão francesa” no Brasil , procurando corrigir o que lhe parecia ser “uma espécie de má fé”.

Fartamente ilustrado, com 103 imagens em preto-e-branco e mais dois cadernos coloridos com 45 telas que Taunay realizou na Europa e no Brasil, O sol do Brasil, além de colocar no lugar muitos fatos da História brasileira do começo do século 19, chega no momento em que ocorrerão duas grandes exposições internacionais sobre a obra do artista: no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro (de maio a junho de 2008) e na Pinacoteca de São Paulo (de julho a setembro de 2008), ambas com curadoria da historiadora.

Entre outros livros excepcionais, Lilia Moritz Schwarcz é autora de Retrato em branco e negro (1987), O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998) e A longa viagem da biblioteca dos reis (em co-autoria com Paulo Azevedo, 2002), todos publicados pela Companhia das Letras. O espetáculo das raças e As barbas do imperador (Prêmio Jabuti/Livro do Ano) também foram publicados pela Farrar, Straus & Giroux Publishers, de Nova York, em 1999 e 2004, respectivamente.

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SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO, de Lilia Moritz Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 412 págs., R$ 43,60. E-mail: editora@companhiadasletras.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Livro "Quartas Histórias" é estudado na Sorbonne




Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarãres Rosa, organizado pelo contista e professor Rinaldo de Fernandes e editado pela Garamond (RJ), em 2006, será objeto de leitura nas aulas de Literatura Brasileira na Sorbonne. Jacqueline Penjon, titular da matéria, fez da obra de Guimarães Rosa tema de sua tese de doutorado e está curiosa para ver como os autores desse livro idealizado por Rinaldo releram e revisitaram contos ou novelas do autor de Grande sertão: veredas. Os escritores que integram o livro e que terão seus contos estudados por Jacqueline Penjon são: Aleilton Fonseca, Amador Ribeiro Neto, André Sant’Anna, Antonio Carlos Secchin, Antonio Carlos Viana, Ataíde Tartari, Bernardo Ajzenberg, Carlos Gildemar Pontes, Carlos Ribeiro, Cecília Prada, Deonísio da Silva, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Geraldo Maciel, Godofredo de Oliveira Neto, João Anzanello Carrascoza, José Castello, José Rezende Jr., Leila Guenther, Luzilá Gonçalves Ferreira, Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Maria Alzira Brum Lemos, Marilia Arnaud, Mário Chamie, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Paulo Franchetti, Pedro Salgueiro, Raimundo Carrero, Ricardo Soares, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Correia de Brito, Ruy Espinheira Filho, Sérgio Fantini, Silviano Santiago, Suênio Campos de Lucena, Tércia Montenegro e W. J. Solha.

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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ponto final (Belvedere Bruno)




Naquela manhã, caminhando pela orla, admirava o céu azul e sentia o cheiro de maresia, relembrando cenários de infância. Catar conchinhas, procurar tatuís, fazer castelos na areia... Subitamente, fui tirada do paraíso pelo som insistente do telefone celular.
- Senhora X ?
- Sim.
- Lamento informar que seu filho,Y, foi atingido por uma bala perdida. Está morto.
Gritei um não como se fosse explodir.
Desde então, aquelas malditas palavras martelam minha mente e dilaceram o que restou de meu coração. Três anos...
Morta estou para todo o sempre. Recuso-me a falar, a ouvir e a pensar que exista um mundo que vibre lá fora, se nele não há mais o sorriso de meu filho.

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domingo, 27 de abril de 2008

Estilo pit-bull, macho ou fêmea (Adelaide Petters Lessa)





















Crava os dentes de fúria e derruba
o equilíbrio da inocência irmã.

Ódio ancestral avilta a língua impune
no despudor de se lamber de sangue.
.
Venenos e aversões estraçalhados
em cada veia íntima da vítima.

Vexame de ciúme, dignidade
em lama pública, piso de rua.


Sobrevivente, ao abandono, a vítima
sorveu a extroversão da ré fugida.

Do trauma, livra-se a cabeça, pasma !
Às tontas, não conspira, busca o prumo.

Ergue-se, ética, dessa calçada
do desamor, em nome de seu lema:

-Tenho muito a doar e ainda sobra.

Muito mais do que o piso desse cuspe.
Muito aos maldosos e aos covardes, muito.

- Dar meu perdão em vida não me custa.

*

Quarta-feira de Cinzas, fevereiro 2005.
Para gente violenta e desatinada ,
já se usam os termos pit-boy, pit-man, e pit-girl, pit-woman.


Da minha coleção de Humanos.
Adelaide Petters Lessa, São Paulo

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Poemas de Eunice Arruda
















ENGANOS
Uma luz me aproximo é escuridão
Brilha agora em ouro o que ontem foi pó e não

O POEMA
Ouço seu som bater de asas inseto aflito
Mas ele me recusa
não se deixa ser
por mim escrito
Um dia leio este poema de outro poeta

UMA SUGESTÃO
Quem sabe indo a
Minas
Lembra
Há um céu farto de nuvens
na estrada levando a Minas
Um sonho se abrindo branco
algodão ao sol de Minas
Quem sabe indo aMinas
Lembra
Há o embalo dos berços nas viagens

CONSEQUÊNCIA
Em silêncio vimos o sofrimento
rio escuro
se alastrando
alagando a casa
Em silêncio respiramos
sob escombros
o peso
forçando os ombros
Metade do que éramos viveu

OBSERVANDO
Há uma hora
em que tudo
apodrece
Em que tudo recua e
respira com esforço
o rosto no muro
E os anjos
hesitam entre a
espada e a nuvem

CLANDESTINIDADE
Vivi na clandestinidade anos
No escuro nos bares na periferia
anos a fio
escondida
envolvida
em fumaças teorias
Na paixão. Na clandestinidade
Até que um dia me entregaram
à vida

OLHANDO
Não é o sim
não é o não
nem o talvez
A lua anda alta no céu
Fonte: http://orebate-selmovasconcellos.blogspot.com/

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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Pietá (Viegas Fernandes da Costa)




N’“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford, faz-se verso o som do vento nos rochedos, “as tristes redes do meu pai”. Em “Powaqqatsi”, Godfrey Reggio nos mostra a Pietá de carne e lama escalando a mina, a cabeça rachada pela pedra. A vida corre assim, entre bestas e amantes, como entender? A mão que planta a terra verga a planta, ceifa o caule, suga o sumo: há uma bandeira no alto do Himalaia, tremula onde ninguém vê, por agora; amanhã tremula um farrapo. Ouço, no entanto, os sinos na torre, os gritos da feira, os uivos dos cães. 10.02.1960 – 23.03.2008: está resumida uma vida, e o rosto na fotografia me sorri a sentença de que fujo. Gravo a eternidade em papel, em placas de bronze, em suportes digitais, e descanso para reler a fábula de La Fontaine: a cigarra, as formigas, e a promessa da fome no inverno; com que direito traumatizam crianças com La Fontaine? Hás de ser formiga, e assim não passas fome! Mentira, porque a função da formiga é dar de comer à rainha, e morrer! Mas esta noite não é cáustica não: retorno a velha poltrona que reinava no sótão do meu avô, às mãos o livro de Lobato e sua Emília. Como seria uma vida de sítio? – matutava. Trepar em árvores, banhos de rio, um Barnabé habitando as margens. O doce torpor de rememorar as noites de livros no sótão do meu avô, o adulto que não chegava em mim. Era o tempo em que ainda havia pés dispostos a correr, a chutar uma bola, a embrenhar-se nos matos da vizinhança. Hoje não há mais pés, tampouco há muita mão, desta resta muito pouco: uma sombra de dedos, uma palma sem alma. Suspiro! O medo de ser abandonado criança à porta da escola, no morrer da tarde: tic tac tic tac tuntum tuntum, e de repente a figura do pai que despontava na curva, o sorriso no rosto. Assim faz-se verso o tempo no sótão, o passeio entre os mortos, as lápides, os epitáfios. Faz-se verso o medo dos tantos trovões que preenchiam os verões e suas tempestades nas férias escolares. E isto que agora se faz verso, era então emoção e idílio. Mas cresceram-me os olhos, e por isso sei da Pietá de carne e lama, sei também de outras Pietás: as de carne e chama, as de fome e ossos, as de pedra vulgar. Sei das Pietás que se arrastam nas sarjetas e pedem esmolas, das Pietás que preenchem de buracos seus peitos tão parcos, e de tantas Pietás que o cinzel e o formão não cansam de compor. Mas no mosteiro persistem as rezas, e nos terreiros e nas capelas. Melhor assim. Ao fim estamos todos parindo um grande poema, um grande e único poema que dirá do vento nos rochedos, do eclipse lunar. É só o que nos resta.

Blumenau, 20 de abril de 2008.

© Viegas Fernandes da Costa, autor de “Sob a Luz do Farol” (2005) e “De Espantalhos e Pedras Também se Faz um Poema” (2008). Site: http://viegasdacosta.blogspot.com/
Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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sábado, 19 de abril de 2008

Notas poéticas: Um audaz flâneur (Henrique Marques Samyn)



Todos os ventos (Nova Fronteira, 2002), volume que reúne a obra poética de Antonio Carlos Secchin, de fato demonstra o que, em seu prefácio, observa Eduardo Portella: se houvesse alguma dúvida sobre a qualidade da obra deste poeta – que é, ao mesmo tempo, um dos mais renomados ensaístas e professores de literatura do Brasil –, esta seria dissipada pela riqueza da obra reunida neste livro. Na verdade, podem guardar tais dúvidas apenas os que desconhecem a instigante trajetória poética secchiniana – na qual ressalta, sobretudo, a ousadia do poeta que peregrina entre líricas paragens (“Um sol sagrado afronta meu sossego / e faz do medo sua dor e dote”), irônicas instâncias (“A poesia está morta. / Discretamente, / A. de Oliveira volta ao local do crime.”) e horizontes reflexivos (“Poemas são palavras e presságios,/ pardais perdidos sem direito a ninho.”).
Antonio Carlos Secchin não hesita em explorar a miríade de potencialidades da poesia, e é precisamente este gosto pela experimentação o que determina sua fartura, tanto de temas quanto de registros. A lira soa como o poeta a faz soar: pode tanto ser afinada pelo diapasão simbolista (veja-se “Cisne”, à maneira – e à memória – de Cruz e Sousa) quanto assumir uma dicção próxima do coloquial (veja-se “Três toques”); tal unidade plural (o oximoro vem bem a calhar) é característica da poesia secchiniana – poesia que atravessa “escolas” e dilacera categorias.
Diga-se de passagem que é justamente neste ponto que suposta oposição se resolve: o Antonio Carlos poeta e o ensaísta Secchin, na verdade, caminham juntos e na mesma direção – o poeta alimentando-se dos múltiplos caminhos que a poesia percorreu ao longo de sua história, tão bem conhecidos pelo ensaísta; e este, por sua vez, levando para seus textos a precisão e a elegância da palavra poética. Audaz flâneur, é assim que Antonio Carlos Secchin caminha pelas avenidas da poesia: recolhendo o que lhe interessa e perfazendo o que lhe apetece.
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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Na soleira da porta (Manoel Hygino dos Santos)



Emanuel Medeiros Vieira acaba de lançar, pela Thesaurus, "Cerrado Desterro", primeiro volume de suas memórias, com orelhas de Victor Alegria. A primeira consideração é de que me parece muito cedo para ingressar nesse gênero.
Emanuel nasceu em Florianópolis no ano em que Vargas desceu as escadas do Catete, em 1945, sem descer à sepultura, como na segunda vez, em 1954. O período de vida do autor é relativamente curto para cogitar de reunir lembranças.Mas o escritor de Santa Catarina achou que a hora era chegada, e ele mais do que ninguém sabe de si e de seu cronograma e perspectivas. O primeiro volume soma quase quatrocentas páginas, e há mais três temas nos trilhos.A primeira idéia é de memórias serem elaboradas ou organizadas quando a marcha etária ultrapassa a casa dos 70 anos. Assim fez Pedro Nava, e acertou plenamente. O seu legado para as letras e a história brasileira é fantástico.
Mas Emanuel Medeiros Vieira encontrou motivos para deslanchar antes o projeto. Com o primeiro volume se constata que ele tem razão. Viveu momentos difíceis, duros, até horripilantes da crônica brasileira no século passado. Esteve junto aos acontecimentos, sofreu-os, teria o que revelar.
Andou por estes Brasis que não são tanto mais de meu Deus, para passar aos numerosos demônios que o habitam. Mudou de acampamento com diploma da Faculdade de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul e sentou praça em Brasília, o centro do poder. Escreveu muito, vários livros, alguns com títulos cinematográficos. Escreve bem, conhece-se e reconhece-se. O primeiro volume de suas memórias traz uma amostra do que será a obra, como um todo. Reúne lembranças, depoimentos em jornais, pensamentos alheios que o impressionaram, fragmentos, que dão testemunho de uma época.
A "revolução" de 1964, com tantos erros cometidos, com crimes e torturas, o pegou em suas malhas. Esteve preso, por motivos em que incorreriam e incorreram homens de bem, jornalistas, escritores, artistas, intelectuais.De uma hora para outra, descobriu que álcool não faz bem. Todo mundo sabe que assim é, mas somente a experiência pessoal, traumática às vezes, convence. Parou de vez. Nem por isso deixou de ter padecimentos. No início de seu livro, afirma: "E a Morte, encostada na soleira da porta, quis dançar comigo um tango argentino. Fingi, disfarcei. Cínica, ela abanou. Fechei os olhos, cama de hospital, botei o cobertor na cabeça. Fui baixando, olhei, ela ainda me contemplava, o sorriso desaparecera, olhar mais grave – alguma compaixão?" À indesejada proposta do tango, disse: "Sou muito desajeitado, não sei dançar, esbarro em todo mundo. Há parceiros melhores". Mas ela não abria mão de sua preferência. Uma grave enfermidade cardiológica quase o tirou do meio do salão da vida. Encontrou médicos excelentes, enfermagem de alto nível, carinho e apoio da família. A cirurgia foi plena de êxito, recuperou-se. Agora, verifico que as memórias de Emanuel Medeiros Vieira eram inadiáveis, devem e precisam ser lidas.

(Publicado no jornal Hoje em Dia, 1º/4/2008)

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quarta-feira, 16 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Breve Crônica da Brevíssima... (Anderson Braga Horta)

Breve Crônica da Brevíssima Estada do Eoreano Ozévop na Capital do Reino do Zirb-Al (Conforme Relato dele Mesmo Adaptado do Original Eóreo por Árot Gáharb e Traduzido do Zirbalês por Anderson Braga Horta)






* Manuscrito encontrado, com dicionários, cartas celestes e outros livros, junto aos destroços de um disco-voador, nalgum ponto do cerrado, entre Luziânia e o Distrito Federal. Seu inestimável valor reside em ser o único manuscrito, em meio a razoável abundância de textos impressos; não, por certo, nas qualidades de estilo, inexistentes; nem nas informações que veicula, óbvias aqui, evidentemente fantasiosas acolá. Os caracteres zirbaleses foram decifrados com um tanto de sorte e outro de inspiração, do que, a par de notícias daquela terra e seu sistema solar, dará conta comunicação em preparo. (N. do T.)


Era a primeira vez que Ozévop visitava Ai-Zirb-Al, a jovem e bela capital do Reino do Zirb-Al, e sua pequenina alma provinciana se estarrecia e se amedrontava ante as maravilhosíssimas conquistas do Progresso. Ozévop nascera e vivia em Aul, no interior do vizinho Reino de Eórea, e por nada deste mundo abandonaria, um minuto que fosse, a pureza natural de sua vida. Nada, exceto um pedido de Érbop, velho amigo, confiante em seus préstimos para não morrer sem ter resolvido uns negócios pendentes no Zirb-Al.
Os eoreanos orgulhavam-se de ter desenvolvido a mais refinada tecnologia sem destruir a natureza; a mais bela ciência sem se destruírem; as mais puras artes sem se xingarem; a mais alta filosofia sem epígonos besteiros; enfim, de, por uma lacuna, serem os mais bem aquinhoados dentre os homens: jamais conheceram a burocracia.
Eram, decerto, praticamente ignorados — Eórea nem figurava nos mapas do resto do planeta. Procuravam mesmo isolar-se, pois sabiam quem perde no encontro do Canto com o Ruído. Por isso, mal se importavam quando um de seus raros viajantes regressava com a notícia de que, para o mundo, o Reino de Eórea era apenas uma lenda gerada na cabeça de algum trêfego poeta.
Não obstante, ao chegar, de avião, a Ai-Zirb-Al, após curta passagem por pequenas cidades, começou Ozévop a pensar se tudo o que ouvira dizer sobre ele não seriam injúrias ao vizinho e tão distante país; se o germe —aliás estrangeiro— da xenofobia não estaria contaminando Eórea; ou, pior ainda, se os governantes não teriam razões ocultas para ocultar do povo as maravilhas de outras civilizações. Porque a cidade era linda e bem traçada, os edifícios magníficos, e seus verdes contrastavam alegres com a paisagem agreste do entorno. E a Ozévop afigurava-se lícito concluir que um povo capaz de tal poema urbano viveria, necessariamente, em plano evolutivo maior. Intrigavam-no, é verdade, uns pontos obscuros aqui e ali, de modo especial os grandes depósitos de madeira e detritos que formigavam em diversas partes não muito distantes do núcleo. Mas não sabia o que eram — como, simplesmente, reconhecer o nunca visto?
No aeroporto, alugou um carrinho e, como fosse muito cedo, se dispôs a um passeio pela cidade. Teve sua primeira decepção no posto de combustível, que supôs de propriedade duma estatal: o funcionário, nem bem o atendera, teve o descaramento de reclamar "gorjeta" (algo assim como um pagamento extra merecido por certos atendentes por terem cumprido sua obrigação), e Ozévop, perplexo ante as explicações fornecidas pelo não menos perplexo servidor do público, deu-lhe uma moeda, saindo com a estranha sensação de tê-lo humilhado. O que mais o assombrou foi aprender que em determinadas repartições tal prática chegava a ser oficiosa. Enfim, cada terra com seu uso, diz o ditado universal. (Em pouco aperfeiçoaria esses novos conhecimentos, e aprenderia palavras novas ou renovadas, a eles referíveis, como propinoduto, mensalão, cuecodólar, sanguessuga...)
Mas muitas maravilhas viu Ozévop. E mil outras veria, com certeza, não fora o seu lamentável despreparo psíquico...
Assim foi que, passeando no carrinho alugado, pôde admirar o zelo de funcionários a escorraçar crianças dos gramados — feitos para o retempero de embotadas vistas adultas, não para as bolas e os pés de pirralhos endiabrados. Examinando requintadas vitrinas de lojas, viu televisores numa festa colorida de programas infantis, e eram filmes de guerra e desavenças familiares ou acerca de heróis violentos e tolos; donde colheu a evidente e pedagógica intenção de preparar a infância para a verdade da vida, e contra a insidiosa, suprema inteligência do mal. Não precisou caminhar muito para anotar pelo menos três conquistas sociais ainda não conhecidas em sua pátria: mulheres ofertando-se em locação, o que lhe pareceu genial, como fórmula proponível para a solução do desemprego feminino em Eórea, se o houvesse (mas, que estranho! algumas dessas mulheres pareciam homens); maltrapilhos de todas as cores, idades e sexos, pedindo "gorjeta" sem a contraparte do serviço, o que também lhe pareceu genial, por maioria de razão; e forasteiros em busca de trabalho sendo recambiados, de graça! às cidades de origem.
No decorrer de suas andanças Ozévop fez duas observações importantes que, se não serviram para fortalecer sua primeira e aérea impressão de Ai-Zirb-Al, pelo menos terão contribuído para sublinhar o caráter extremamente original da cidade: a de que é este, sem dúvida nenhuma, o único lugar do mundo em que a repartição encarregada de controlar o trânsito atrapalha o trânsito; e a de que é também, provavelmente, o único estado em que os órgãos governamentais não aceitam títulos emitidos pelo Estado, autorizado por lei nacional, marchando mesmo para a recusa do dinheiro fabricado pelo governo, pois já se fala na possibilidade de os pagamentos serem feitos obrigatoriamente em ouro.
O que, porém, subverteu os miolos do outrora tranqüilo eoreano foi a visita a duas repartições ditas públicas, onde, ao fim de algumas peripécias, liqüidou simultaneamente os negócios do amigo Érbop e a vontade de permanecer no Zirb-Al ou em qualquer ponto da esfera que não sua querida Eórea. Na primeira, foi liminarmente expulso pela guarda devido à inescrupulosa ausência, em seu pescoço, da espécie de pequena forca a que chamam "gravata". Comprou uma a um vendedor ambulante, pendurou-se nela e foi afinal atendido. Na outra o caso foi mais grave.
Entrava Ozévop filosoficamente no belo edifício que a duras penas localizara, e quase é mesmo enforcado, por um grupo de guardiães, com outro e ainda mais curioso:tipo de "gravata". Detido e arrastado sob suspeita de espionagem, muito lhe custou recuperar a voz e convencê-los de que só por ignorância —de todo injustificável— tentara alcançar o elevador privativo das Autoridades, perfeitamente identificável como tal pelo fato singularíssimo de estar vinte centímetros mais longe do mais próximo que os demais. Em seguida, por pouco não o fuzilam, ao verificar-se que não passara antes pela Identificação na Portaria — tudo com gritadas maiúsculas. Desfeito o equivoco, foi gentilmente empurrado àquela extraordinária Instituição, onde o obrigaram a trocar sua carteira de identidade por um cartão vermelho plastificado, cuja posse, a essa altura, lhe redobrava as apreensões. Exibido o cartão, conseguiu viajar de elevador até o pavimento F, onde saltou. Ia entrando na ante-sala que parecia convidá-lo, quando outro guarda o interpelou: já conferira seu cartão? Súbito, arrebatando-o de sua mão, o homem passou a examinar um quadro fixado numa parede de vidro e em que se encaixavam fitas plásticas de várias cores. Azul, amarelo, verde, cor-de-rosa... faltando o vermelho; sinto muito, não confere. Estava para ser despachado de torna-viagem; por sorte, nesse momento chegou um funcionário e afixou no quadro uma fita vermelha, o que —deduziu Ozévop com afoiteza— o autorizava a entrar sem mais delongas. Muito polidamente, o guarda lhe fez ver que não raciocinara bem: tinha de preencher uma ficha com o nome, procedência, pessoa com quem desejava falar e assunto. (Enquanto o fazia, viu um senhor, que se identificara como o Visconde de Não-Sei-Onde, ser desenganado por declarar a pretensão de tratar, ali, assunto de seu singular interesse. Explicaram-lhe mais tarde que o figurão caíra em desgraça por ter-se recusado a molhar a mão —mas o que seria isso?— de alguns graúdos num processo de licitação.) Satisfeita a ficha, foi conduzido à sala de espera por uma bela jovem uniformizada. O homem na escrivaninha solicitou-lhe, com os melhores modos, a carteira de identidade que fora persuadido a deixar na Portaria. Ozévop, presa de não sabia que misteriosa inibição, tartamudeava, e teria perdido a peregrinação, com toda a segurança, não se tomasse o homem de filial carinho por suas sereníssimas cãs. Grato à providência pelo iminente fim do atribulado périplo, descobriu, ao tentar o elevador, que faltava força, e que a grade da escadaria era trancada a cadeado. E em caso de incêndio? perguntou ao guarda, recebendo em troca um sorriso de conforto. Nas onze horas e quarenta minutos que teve de esperar, conversou com esse funcionário, que bondosamente lhe explicou, pedindo sigilo, pormenores secretos do funcionamento da repartição. Foi-lhe informado, por exemplo, que nem mesmo aos servidores era permitido entrar no prédio um minuto antes da hora do ponto ou permanecer um minuto além do expediente. Não quis indagar por quê (ficou sabendo, entretanto, que os furtos motivadores da proibição continuaram depois dela e passaram a ser debitados a uns “fantasmas” que assombravam aquelas salas e corredores). Ao sair, voava, e tão afobado que novamente quase o estrangulam: esquecia-se de devolver o cartão e retomar seu documento.
Já fora do edifício, respirando aliviado, olhou para trás e leu: Palácio da Comunicação. E como (sempre se soube em Eórea) quem não comunica se trumbica, começou imediatamente a difícil viagem de volta.
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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sem duelos (Valéria Nogueira Eik)




















Desisti dos duelos quando compreendi a relatividade dos fatos e a finitude da vida.
Enterrei as armas antes de ser sepultada por elas.
Guardei as minhas verdades na alma para não perder meu coração.
Não me agrada ditar verdades. Mesmo porque, contrariando o nosso Einstein, elas são relativas.
Não me agradam os grupos. Prefiro a solidão dos pensamentos.
Também não me agradam as palavras ditas em altos brados. Gosto dos sussurros.
Não me agradam os finais de tardes. Aprecio a noite, o luar, o surrealismo das estrelas.
Também não me agradam conceitos. Prefiro a loucura que, por um triz, não se transforma em lucidez.
Acostumei-me a andar na corda bamba e sentir o fio teso da vida prestes a arrebentar.
Quando menos se espera ela termina. E todas as verdades caem no esquecimento.
Restarão as mentiras, intactas, pairando no ar, num renascimento incessante.

6/abril/2008
Maringá/PR
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sábado, 5 de abril de 2008

O texto literário de Tereza (Dimas Macedo)



Tereza Porto é uma poetisa sensível como poucas escritoras que conheço. Sabe as tessituras do amor e os vários silêncios da palavra, mas é a teia da solidão e do cotidiano aquilo que a faz senhora da matéria poética que vai arquitetando.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Eça de Queirós redescoberto (Adelto Gonçalves*)




I
Por que ler Eça de Queirós (1844-1900), mais de um século depois de sua morte? Essa pergunta continua a ser feita hoje em dia nas escolas de ensino fundamental e médio por adeptos de um método pedagógico que se propõe a estimular os jovens à leitura. E não só Eça, mas boa parte dos autores clássicos portugueses e brasileiros. Esse método, que, ao que parece, faz muito sucesso, defende que se dêem livros de fácil leitura às crianças e aos adolescentes para que se habituem a ter um exemplar na mão por alguns minutos ou horas.
O argumento é o mais risível possível: imaginam que, se a criança acabar por pensar que a literatura é algo divertido, pode se afeiçoar ao livro, embora o que as pesquisas têm constatado é que, hoje, os jovens passam muito mais tempo diante da Internet do que de um livro. É possível que sejam mais bem informados do que éramos há 40 ou 50 anos, mas, com certeza, são bem menos capazes de escrever um texto com coerência, objetividade e clareza do que éramos naquele tempo. Também é preciso avaliar a qualidade da informação que recebem pelo meio eletrônico.
É provável que este articulista venha a ser considerado um dinossauro da imprensa ou das letras, mas nem por isso vai deixar de escrever aqui que, em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada. Em outras palavras: é preciso ensiná-los a se interessar pela dificuldade, não pela facilidade. Portanto, em vez da leitura tosca de um desses esotéricos da vida, que leiam Eça de Queirós ou Machado de Assis (1839-1908). Ainda que por obrigação.
Com certeza, hão de argumentar que ler os clássicos pode ser tarefa muito aborrecida, pois, às vezes, é preciso ter um pesado dicionário à mão. Mas é aqui que entra em ação o bom professor. Se não for para explicar os clássicos ou estimular a leitura, enfim, ensinar, para que servirá o professor?
Foi para facilitar o trabalho do bom professor – porque, certamente, o mau professor o que menos faz é ensinar, embora quase sempre se esconda atrás de uma personalidade extrovertida e espalhafatosa – que Paulo Franchetti, professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Campinas (Unicamp), e Leila Guenther, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), prepararam uma nova edição de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, que a Ateliê Editorial acaba de publicar.
Na apresentação que escreveu para esta obra, além de apresentar a história da produção e recepção da obra, Franchetti faz uma análise minuciosa e inovadora do romance. Já Leila Guenther procedeu a um extenso trabalho de anotação, relacionando preciosas indicações sobre os muitos instrumentos e inventos citados pelas personagens e incorporados ao dia-a-dia do nouveau reach Jacinto ao final do século XIX, bem como esclarecendo alguns vocábulos já em desuso no português falado hoje no Brasil, além de fornecer indicações sobre autores, pintores e personagens de livros que aparecem ao longo do romance.
II
Quando escreveu A Cidade e as Serras, Eça de Queirós já estava no fim de sua breve vida e, praticamente, consagrado como romancista, reconhecido e louvado por seus pares de Portugal e do Brasil, ainda que vivesse distante numa pequena casa dos Champs-Élysées em Paris, a uma época em que a Torre Eiffel já dominava amplamente o cenário da cidade-luz. Cuidava da revisão das provas tipográficas, mas não teve tempo de executar um trabalho que não se limitava a apurar frases ou eliminar hipotéticos erros de linguagem, mas sim fazer importantes ajustes, o que sempre o levava a modificar o manuscrito original. Àquela época, só diante do texto impresso é que o autor tinha uma visão mais completa de sua obra, o que o levava sempre a esses ajustes e, não raro, a acrescentar até capítulos inteiros.
No caso de A Cidade e as Serras, Eça de Queirós havia deixado o livro pronto até o capítulo IX. Com a morte repentina do autor, quem fez uma revisão radical na obra, a pedido da viúva, foi seu amigo Ramalho Ortigão (1836-1915), com quem colaborara em As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871.
Também o editor meteu-se a fazer cortes e adaptações, até que decidiu mandar de vez o livro à gráfica e colocá-lo, finalmente, nas livrarias, o que se deu em abril de 1901. Foi essa a versão que os contemporâneos de Eça conheceram, até que, em 1960, Helena Cidade Moura (1924), trabalhando com um autógrafo do autor, eliminou as contribuições de Ramalho Ortigão e as arbitrariedades cometidas por um editor nada ético.
Como observa Paulo Franchetti na apresentação, o trabalho de restauração preservaria até algumas inconsistências do manuscrito, como a troca de nomes de personagens e a falta de algumas palavras, esquecidas pelo autor no momento de passar para o papel o que lhe aflorava à mente.
Para Franchetti, que se deu ao trabalho de comparar as duas versões, a intervenção de Ramalho Ortigão também se mostrou desastrosa na medida em que tornou algumas frases menos precisas e o estilo menos coerente com a parte significativa do romance que havia sido revista pelo autor.
III
Portanto, esta não é a versão corrente do romance que ainda encontramos em livrarias. Nem é tampouco, claro, o livro que poderia ter sido se Eça tivesse tido tempo de revê-lo até o final. Mas é a versão que mais se aproxima dessa que teria sido a ideal.
Para quem ainda não o leu em nenhuma das duas versões, é preciso que se diga que o romance conta a história de Jacinto, jovem muito rico, de pais portugueses, que, nascido e vivendo em Paris, rodeia-se de tudo o que a civilização tinha de mais recente e promissor em termos de tecnologia e conhecimento. Enfim, um bon vivant, que não perdia uma festa de grã-finos e acompanhava durante o dia os seus muitos negócios espalhados pelo mundo.
Até que, um dia, entediado com tanto conforto, decide-se mudar para a zona rural, em busca de suas raízes, nas serras portuguesas. Surpreendido por um incidente de viagem, vê-se de repente sem o conforto e o aparato tecnológico a que se acostumara no berço da civilização. O resultado disso é um choque na vida de Jacinto: obrigado a colocar a mão na massa, como se diria hoje, acaba por descobrir a energia que tinha dentro de si. E vira Jacinto de Tormes.
Em outras palavras: o que Eça quis mostrar neste romance foi a supremacia da vida no campo em relação à vida na zona urbana, ainda que na principal cidade do mundo à época. Teria Eça, portanto, escrito um romance de tese que, segundo Massaud Moisés, constitui “uma narrativa que veicula uma doutrina, geralmente, explícita, tomada de empréstimo a uma forma de conhecimento não-estético, que o escritor encampa e luta por divulgar ou corporificar por meio de uma fabulação que lhe seja compatível” (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, 14ª ed., Cultrix, 2004, pp. 405-406).
De certa maneira, em A Cidade e as Serras, Eça retoma, com a ambigüidade e a ironia que marcam sua obra, um tema recorrente em seus romances: a oposição entre metrópole e província, entre tradição e modernidade, entre o tédio da vida moderna (ou do “excesso de civilização”) e as “vantagens” da vida simples do campo, o que, aliás, já era uma idéia comum entre os antigos (locus amoenus).
Em sua apresentação, o professor Franchetti, porém, expõe vários argumentos para rebater a idéia de que A Cidade e as Serras seja um romance de tese, embora a história que seu narrador (Zé Fernandes) apresenta seja uma exposição e comprovação de uma tese. Ou melhor: a tese exposta no romance não é defendida nem pelo narrador nem pelo autor.
Portanto, diz o crítico, o que dá graça ao livro é exatamente a dificuldade do narrador em sustentar a sua tese, “já que ele mesmo não se mostra, na maior parte do livro, convencido de que o percurso de Jacinto seja de fato um exemplo digno de imitação”. Aliás, como observa, Zé Fernandes até a sua última viagem a Paris não parece convencido de que o amigo teria feito a melhor opção, ao isolar-se no mundo rural.
Mais: Zé Fernandes, diz Franchetti, não é apenas uma testemunha da história e da mudança de hábitos de Jacinto, mas também uma personagem que se transforma sob o efeito da evolução que narra e acompanha de perto.
IV
Visto assim, este romance adquire novas nuances para quem já o leu em outros tempos e indica outros caminhos a quem vai percorrê-lo pela primeira vez. Até porque, como o leitor já deve ter percebido por experiência própria, cada obra tem um impacto sobre nós em função da época em que a lemos. Quantos livros que nos encantaram na juventude que, hoje, relidos, já não parecem carregar o mesmo fascínio?
Lembra Franchetti que, durante a ditadura salazarista, A Cidade e as Serras foi elevado à condição de obra-prima de Eça, com certeza porque fazia loas à vida saudável no campo, enquanto o Eça incômodo, socialista e revolucionário de As Farpas era deixado prudentemente de lado. Hoje, sabemos que há livros em que o autor se saiu melhor. Mas, de qualquer modo, vale a pena reler este romance que, entre outras coisas, induz o leitor a imaginar como seria a vida de Jacinto na casa de número 202 da Avenida Champs-Élysées neste começo de século XXI, cercado por tudo o que a tecnologia poder-lhe-ia oferecer.

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A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queirós, com apresentação de Paulo Franchetti, notas de Leila Guenther e ilustrações de Hélio Vinci. Cotia-SP; Ateliê Editorial, 334 págs., 2007, R$ 27,00. Site: www.atelie.com.br E-mail: atelie@atelie.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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terça-feira, 1 de abril de 2008

O boi santo (Nilto Maciel)




1.ª PARTE

JOSÉ (falando a outros romeiros):
Meus amigos, vejam só
que belo novilho vem
se aproximando de nós,
com jeito de boi mansinho.

Deve ser propriedade
do Coronel Costa Lobo,
se não vier do curral
do padre velho do Crato.

Reparem bem nos seus chifres,
como se fossem adornos
em sua cabeça postos
por mãos de mulher bonita.

Seu couro parece feito
de pano muito bordado,
com paciência de mãe,
esmero de bordadeira.

Meus amigos, vejam só
como ele é diferente
de quantos se vêem cá,
nas terras de minha gente.

É manso, de paz, ordeiro,
como boi de manjedoura,
e até parece um cordeiro
que comesse em nossas mãos.

(O boi aproxima-se mais dos romeiros.)

Que queres aqui, garrote,
a rondar os nossos ranchos?
Por que te chegas a nós,
comes de nossas migalhas?

Por acaso somos bois,
a ruminar como tu?
Por acaso és humano
e foges da solidão?

No lombo não trazes marca,
não sabemos de quem és.
Ninguém te reclama o couro,
nem o berro, bem a baba.

Terás nascido de um touro
e de uma vaca perdidos,
desses que andam ao léu,
cujo dono nunca os vê?

Ou teu dono é doutras terras,
de reinos desconhecidos
e não sabe que estás
no país do Juazeiro?

Este boi é diferente
de todos quantos já vimos,
não quer comida bovina,
de bicho de quatro pés.

Só come batata doce,
jerimum e macaxeira,
tudo cozido e salgado,
como se fosse cristão.

Terá sempre ele comido
alimento de cozinha?
Por acaso desconhece
o capim dos seus iguais?

Este boi é diferente
de todos quantos já vimos,
pois não tem medo dos homens,
antes nos tem amizade.

ROMEIROS (em coro):
Nosso Senhor Jesus Cristo,
afastai deste recinto
este boi aparecido
por acaso e maldição.

Cheia de graça Maria,
protegei o nosso povo
deste garrote sem dono
que come do nosso pão.

JOSÉ:
Não adianta rezar,
que castigo Deus dará;
vejam como se comporta
o danado do novilho.

Mal começamos a reza,
nem bem as mãos levantamos,
ele mesmo ajoelhou
aos pés de Nosso Senhor.

ROMEIROS:
Te esconjuro, boi perdido,
de Satanás enviado,
vai embora para longe,
para o inferno regressa.

Afasta-te deste chão
de sofrimento e milagre,
deixa as terras do Padrinho,
vai em busca do teu Cão.

JOSÉ:
Calem todos suas bocas,
acabem com os esconjuros,
este boi não tem maldade
nem nos chifres, nem nas patas.

Já seja ele acredito
do Divino um enviado,
pra dizer que até os bichos
no Padre Ciço têm fé.

PADRE CÍCERO (chegando):
Que se passa aqui, romeiros,
que tanta zoada fazem?
Mais parece feira livre,
onde todo mundo grita.

Quem mais vendeu e ganhou,
quem mais comprou e perdeu?
Quem vendeu este boizinho,
quem ganhou este garrote?

JOSÉ:
Meu Padrinho, meu Padrinho,
“eu não sei mais o que faça!
Quero a vossa proteção
com sua divina graça!”

Trago aqui este garrote,
sem marca, sem dono certo,
que talvez queira falar
em nome do Criador.

Peço perdão se blasfemo,
se digo alguma heresia:
ocorre que esta pessoa
parece vinda do céu.

Pois, sendo boi, se alimenta
da mesma comida nossa
e rezou ainda há pouco
junto com vossos devotos.

PADRE CÍCERO:
Meu bom beato Lourenço,
este aqui é um boi manso,
ainda sem nome dado,
pertencente ao meu rebanho.

Cuide dele como cuida
das almas dos sertanejos,
não o deixe escapulir
das terras de nosso reino.
(Retira-se)

BEATO LOURENÇO:
Este boi abençoado
por nosso Padrinho Ciço
eu não sei se faz milagre,
que é tarefa só de santo.

Meus irmãos, eu vos garanto
que este boi é diferente
de boi de pasto e repasto,
daquele de matadouro.

MANUEL:
Eu lhe faço, meu boizinho,
um pedido nunca feito:
interceda junto ao Padre
para graça eu alcançar.

Se você me atender,
eu prometo e até juro
dar-lhe um feixe de capim
do melhor que aqui houver.

BEATO LOURENÇO:
Preciso logo levar
o bichinho pro curral,
um lugar especial,
distante dos outros bois.

Vosmicês fiquem rezando
e fazendo penitências,
que o pecado anda solto
pelo mundo de meu Deus.
(Retira-se, conduzindo o boi. No meio do caminho, encontram Padre Cícero.)

BOI:
Meu protetor e meu santo,
venho aqui interceder
por um pobre penitente
precisado de favores.

O que deseja o coitado
é coisa de pouca monta
e nem milagre precisa
ser feito agora ou depois.

PADRE CÍCERO:
Eu já lhe disse, beato,
que este boi é um animal,
muito embora bem mais manso
do que muito ser humano.

Cuide dele como cuida
do rebanho falador.
Dê-lhe pasto, sombra e água
para a ceia do Senhor.
(Lourenço conduz o boi ao curral.)

MANUEL:
Muito obrigado, garrote,
pela graça que obtive,
eis seu feixe de capim,
conforme lhe prometi.

Pode comer à vontade,
matar a fome que exista
em sua barriga santa,
sem qualquer constrangimento.

Não aceita o pagamento?
Vire esse olhar para longe,
pare de tanto mugir,
como se me acusasse.

JOSÉ:
Cabra de peia, safado,
se o boi não quer teu capim
é porque sabe decerto
do roubo que praticaste.

Agora pede perdão
do pecado cometido,
ajoelha-te aos pés
do garrote justiceiro.

MANUEL:
Eu me ajoelho a teus pés,
teus pés de santo bezerro,
para pedir teu perdão
por roubo que cometi.

BEATO LOURENÇO:
Agora pega o chicote
e açoita teu corpo sujo,
derrama teu sangue imundo,
paga com dor teu pecado.

JOSÉ:
Milagroso e santo boi,
mostre-me cá seu pescoço:
com uma guirlanda de flores
queremos ornamentá-lo.

E nos seus chifres pequenos,
flores dos nossos sertões,
fitas as mais coloridas,
mil beijos dos penitentes.

A mim me dai o amor
da cabocla Bastiana,
um jumento ensinado
e terra para plantar.

PRIMEIRO ROMEIRO:
Quero uma cama de pau,
forrada de algodão,
e as noites todas do mundo,
repletas de quatro pernas.

SEGUNDO ROMEIRO:
Como não tenho coragem
de pedir ao Padre Ciço
a cabra que nos dá leite,
socorro-me do senhor.

TERCEIRO ROMEIRO:
Dou minha filha Vicença
a vosmicê, se a quiser,
caso a graça alcance
de ter a mulher de Pedro.

2.ª PARTE

LOURENÇO (com outros beatos, à certa distância do boi.)
Meus irmãos, me escutem cá
o que tenho pra dizer:
uma semana não faz
que o Boi Santo apareceu,

e centenas de milagres
por aqui se deram já.
E eu não sei o que fazer
diante das novidades.

Muita gente me pediu
um pouquinho da urina
do nosso garrote santo,
para evitar a cegueira.

Outra gente me rogou
uma raspinha do casco
do novilho milagroso,
pra se livrar de quebranto.

E eu não sei onde arranjar
tanto mijo e tanto chifre,
tanto casco e tanto boi,
pra tanta meizinha dar.

PRIMEIRO BEATO:
É preciso controlar
a ganância desta gente,
pois nem todos são doentes:
tem mais cego do que olho.

SEGUNDO BEATO:
É preciso vigiar
o sossego do garrote
e evitar que todo mundo
retire um pedaço dele.

TERCEIRO BEATO:
Pela minha sugestão,
nós devemos recolher
tudo o que dele vier,
seja mijo, seja bosta.

E depois distribuir,
conforme as necessidades
dos doentes, aleijados,
e também conforme a fé.

(Os quatro aproximam-se do boi e dos romeiros.)

PADRE CÍCERO (chegando, às escondidas, e falando para si mesmo):
Esse boi que acolhi
já não quer mais macaxeira,
agora só come papa,
bolo de milho e mingau.

Só quer comida salgada,
como se fosse cristão
e soubesse ser o sal
a marca de nossa crença.

E os romeiros nem sequer
vêm beijar a minha mão;
só me saúdam de longe,
sedentos de ver o boi.

Correm todos para o pasto,
do animal adoradores.
Comida farta lhe dão,
pagamento de promessas.

Da sapiranga se curam,
do tracoma e outros males
com o mijo do danado
– água benta e milagrosa.

Não se vê mais com quebranto,
bouba ou espinhela ninguém
– salva-os pedaços dos chifres
e dos cascos desse boi.

(Retira-se.)

PRIMEIRO ROMEIRO:
Não se aflija, meu garrote,
que seu mijo não tem fim,
nem seus chifres vão morrer,
nem seus cascos se acabar.

SEGUNDO ROMEIRO:
Por mais cegos que tenhamos,
por mais fracos que aqui venham,
nem um dia sem milagres
o senhor há de passar.

JOSÉ:
Este boi que aqui chegou
vem fugido do Sertão,
espantado pelo índio,
qual se fora assombração.

Desgarrado da boiada,
se perdeu na caatinga,
quebrou a peia que o tinha
amarrado ao capelão.

Veio ter aos pés do povo
que acredita em salvação,
mas, não sendo São Garrote,
faz de conta que é Boi Santo.

ROMEIROS (ajoelhados diante do boi, cantam, em coro):
Divino e sagrado boi,
nós te rogamos, contritos,
um milagre no Sertão:
água, comida e sossego.

Em troca te oferecemos
nossas rezas mais compridas,
nossa fé mais arraigada,
todas nossas penitências.

Santo, santo, santo boi,
irmão de Cristo Jesus,
do Divino Esprito Santo,
do Padre Ciço Romão.

Tu és a Quinta pessoa
da Santíssima Trindade,
filho bendito de Deus,
Boi da Terra, Boi do Céu.
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quarta-feira, 12 de março de 2008

El largo invierno (Rolando Revagliatti)



Parece-nos recordar a Catalunha
Os infinitos pedaços


deste país saltando em pedaços!


As pedras permanecem
Porém sua permanência
nos golpeia




Os homens
Porém não todos os homens —
passam .


“El largo invierno”, filme dirigido por Jaime Camino.
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domingo, 9 de março de 2008

Os corvos de alumínio de Francisco Carvalho (Henrique Marques Samyn)


(Poeta Francisco Carvalho)

A precariedade da distribuição de livros no Brasil é um problema que, embora muito conhecido e denunciado, aparentemente permanecerá como tal por longo tempo. A internet, é verdade, representou uma solução para uma parte mínima desse problema: ao menos as grandes livrarias tornaram-se acessíveis para moradores de regiões nas quais elas não se encontram fisicamente presentes, o que assegura que, pelo menos, os lançamentos das maiores editoras estejam disponíveis para boa parte dos leitores brasileiros. Entretanto, a lógica que rege as grandes editoras é mais econômica do que propriamente literária, algo que atinge fatalmente a poesia, gênero literário cujo parco potencial lucrativo é conhecido – de modo que, se inúmeros bons autores estão fora das principais cadeias de distribuição literária, é possível afirmar categoricamente que, em sua maioria, são poetas. Quem perde com isso, é claro, é a literatura brasileira, que sofre com o esquecimento de obras de qualidade incontestável.Toda essa discussão não pode deixar de ser evocada quando se fala sobre um poeta como Francisco Carvalho. Aos oitenta anos, publicou mais de vinte obras, todas inencontráveis nos catálogos das grandes livrarias, a despeito dos dois prêmios de expressão nacional que constam de seu currículo – prêmios Nestlé (1982) e Biblioteca Nacional (1997). Fiel à sua certeza de que prêmios literários são apenas estímulos eventuais, Francisco Carvalho continua escrevendo e publicando uma obra em que transparece um apurado domínio técnico, capaz de transitar pelas mais diversas formas poéticas com resultados, não raro, assombrosos. Leia-se, por exemplo, este:

SONETO DA CONTEMPLAÇÃO

Na vida andei por solitária estrada,
meus caminhos não foram de veludo.
Os deuses nunca me ensinaram tudo
nem que do amor nunca se sabe nada.

Em tua ausência pus os meus cuidados,
todas as horas, todos os minutos.
O mais alto dos galhos onde os frutos
dificilmente podem ser tocados.

Onde pus esperança e pus empenho,
meu sonho ardeu como se ardesse um lenho
entre as chamas do cedro perfumado.

Nada espero do augúrio do adivinho.
Não beberei da espuma do teu vinho
nem serei por teus olhos contemplado.

Esse poema faz parte de Corvos de alumínio (Fortaleza: LCR, 2007), volume que reúne a poesia inédita de Francisco Carvalho, em que se pode atestar a riqueza de seu estro. Trata-se, afinal, de um poeta capaz de tematizar as mais díspares dimensões da experiência humana por meio de versos que vão do temário mais concreto, político e telúrico, ao mais abstrato e existencial. Seu sentimento lírico caracteriza-se pela cristalina lucidez com que retrata a condição humana, precária e efêmera, mas, ainda assim, plena de dignidade; é uma poesia que, em outras palavras, trata do Homem em seu mais universal sentido, de suas obras e de sua perene luta pela sobrevivência material e espiritual. Há momentos em que seu lirismo é francamente político:

MENINOS

Os meninos ficaram sem arroz
(os meninos esmagados pelos mísseis).
Os meninos chamaram pelas mães
e lhes pedem brinquedos e carícias.

Os meninos fugiram das granadas
dos campos semeados de explosivos.
Desenterraram bombas do tamanho
dos ovos dos maiores crocodilos.

Os meninos chegaram muito tarde
os meninos tiveram muita sede
os meninos sentiram muito frio.

Os meninos são filhos de leopardo
abrem fendas e escrevem na parede
odes de insônia para um deus sombrio.

Outras vezes, o poeta faz de seus versos diálogos com autores basilares da literatura universal: Camões, Cervantes, Borges. Não obstante, sob essa miríade temática, Francisco Carvalho resguarda seu compromisso essencial com o poético, que parece, na verdade, constituir sua própria forma de ler a história e estar no mundo. Se maior é a poesia que emerge da vida, cabe reiterar que, a despeito das contingências geográficas e mercadológicas, Francisco Carvalho está entre os nossos poetas maiores.
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sexta-feira, 7 de março de 2008

A ventura de um morto (Raymundo Netto)


Vinha batendo às paredes, puxando o nó da gravata com agonia. A boca seca deixava transparecer, num canto, uma espécie de baba branca. Suava demais a procurar algo nos bolsos. Havia largado a pasta a poucos metros. Tombou, ao fim, no chão.
As pessoas em torno estranhavam e apressaram os passos. Uns moleques aproximaram metendo as mãos nos bolsos de seu paletó, na camisa, na calça. Outro deles, já ia longe correndo com a pasta enfiada debaixo da camisa.
O movimento naquela calçada era grande, mas ninguém podia parar a não ser quem tinha seus interesses...
Dois rapazes beiraram o homem caído. Enquanto um chutava-lhe a costela com a ponta do sapato, outro lhe batia na face com um jornal. Ele não sinalizava coisa alguma, nem gemido nem ofensa. Nada. Eles deram com os ombros, tiraram-lhe os sapatos, os óculos escuros, a calça e o paletó. Foram.
As pessoas passavam por cima, tão atrasadas, não o percebiam.
O gari que varria a calçada reclamou do que rebolavam por ali. Com a vassoura, empurrou o homem até deixá-lo na coxia. Outro gari, que limpava a coxia, protestou de imediato “Aqui não, violão!” e empurrou o corpanzil, de bruços, para o meio da rua.
Os carros, que também não podiam parar; passavam-lhe por cima, macerando-o contra a pista. Trânsito caótico. Compromissos demais.
Alguém parou, desceu do carro, olhou indignado para o prostrado:
— E a prefeitura não faz nada? A gente paga impostos para quê? Poderia estragar o meu carro, ora! — voltou e ligou, do celular, para a Ouvidoria.
Uma senhora passando na calçada o viu estirado, empastado, sujo e, aproveitando o sinal, o arrastou até uma viela próxima. Chegando lá, examinou à sua volta, não viu ninguém e arrancou um olho, correndo com um sorriso maroto nos lábios: uma córnea! Com pouco mais, alguém viria buscar a outra.
Finalmente, a polícia chegou. Avistou o corpo seminu na rua e o recolheu: atentado ao pudor!
Na cadeia, os outros presos o viam com desconfiança, ofereciam-lhe bagulhos, contavam piadas, mas ele permanecia indiferente. Perceberam que ele não era um deles, se amotinaram e usaram-no como refém. A cena foi ao ar para todo o país: um jovem apontava-lhe o cano do revólver à testa, órbitas negras arregaladas, as veias do pescoço intumescidas e estranguladas pelo braço potente, a ameaça de jogá-lo pela janela. A equipe de socorro pedia-lhe calma, calmacalmacalma. O suor frio escorria na face exangue. Do ouvido, escorria outra coisa...
Logo a polícia contornou a situação. Rebelião desfeita. Os bandidos, porém, decidiram vingar-se do traidor. Espancaram-no, quebraram-lhe os dentes e o enforcaram com a própria cueca. No outro dia, a manchete: Refém de rebelião suicida-se!
A comoção foi geral. Algumas entidades se juntaram em vigília àquele homem — velas e faixas às portas da cadeia pública —, mais uma vítima da opressão e da violência. Choraram, rezaram por ele, abraçaram o prédio em nome da PAZ.
Um fato causou, então, maravilhamento: um aleijado, presente na multidão, soltou as muletas e se pôs a caminhar. As pessoas se horrorizaram: um milagre! O homem era santo, minha gente, era santo!
Os populares invadiram a cadeia e, quando trouxeram o corpo à rua, feito um cristo crucificado, a multidão o disputou. Todos queriam uma lembrança do corpo santo. O olhar vazio, a mandíbula deslocada para esquerda, a venta para a direita e, mesmo assim, alguém lhe decepou o braço, outro rasgou-lhe a perna, torceu-lhe os pés... Humildes, os malogrados se satisfaziam em banhar-se do sangue alaranjado vertido dos cotos dilacerados.
Diante do clamor público, os órgãos do governo decidiram enterrá-lo com honras de herói.
Cerimônia concorrida sob olhares marejados. Sobre o caixão, em momento solene, a bandeira, a chave da cidade, a comenda maior e o título de cidadão.
O esquife solitário parecia repousar à cova. As coroas de flores amofinavam a despedida. A terra, porém, apropriou-se dele, se arraigou e passou a extrair-lhe os tecidos frágeis, cada célula, cada fleuma arterial, não lhe poupando, desta vez, nem os cabelos, numa guerra silenciosa que se passa despercebida debaixo da grama verde que viceja. Diante da quietude, um estertor ralo, quase como um pensamento, emergiu:— Meus remédios, onde estarão os meus remédios?
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segunda-feira, 3 de março de 2008

o rosto zero: a literatura fora do sujeito (Nilson Oliveira)

(Stéphane Mallarmé)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
...
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
Álvaro de Campos [[i]]


Quem é o autor? Quais os caminhos da Obra? Qual a linha de fuga que apartam o autor da sua obra? Questões realmente antigas, mas por cento ainda pertinentes, ao ponto de vez ou outra, ativadas por uma força que é própria da literatura, romperem o lacre do esquecimento e surgirem como lâminas afiadas decepando ou afirmando questões de toda ordem, o que dá ao problema uma importância solar. Com efeito, o diálogo incide o seu ciclo fazendo dessas questões uma saúde que atravessa a literatura e a hidrata em cada volta. É realmente um caso de muito vigor. Portanto, da ordem do dia. Então vamos ao ponto: em alguns casos, para um escritor, o movimento definitivo para alcançar a literatura consiste no apagamento (o rosto zero), num árduo trabalho por fora da identidade e das funções que legitimam o sujeito e sua rotina social.

É precisamente a partir da experiência de Mallarmé, sobretudo em Igitur, que a distinção entre sujeito e obra se fortalece nos trazendo a bela diferença que aparta o Eu da linguagem e o Eu do sujeito. Com efeito, Mallarmé nos mostra como a linguagem vai se desenvolver precisamente onde o homem é apartado, fazendo da literatura o espaço em que o sujeito não cessa de desaparecer em proveito da linguagem. Onde isso fala, o homem não existe mais. É a partir do desaparecimento do homem em benefício da linguagem que obras tão intensas, como as de Malcolm Lowry, Maurice Blanchot, Fernando Pessoa, se proliferam. Toda a literatura está em uma íntima relação com a linguagem que é por sua vez uma relação com a vida: a vida que jorra por fora do sujeito.

Mas há também Céline e todo o seu repertório vociferante falando inicialmente como Bardamu [Viagem ao fim da noite], depois sem dissimulações na primeira pessoa de Ferdinand [Norte e Morte a crédito] e mais adiante abertamente como Céline [Castelo em castelo]. Mas o que Céline nos dá através da sua escrita passa alhures de um testemunho ou confessionário. Mesmo quando volta aos abismos da sua infância, ou de qualquer outro espaço do seu intenso repertório, o que fica são os buracos cavados no coração da gramática, a agressividade da sua escrita; uma marca que conduz a literatura para uma cena fora do pensado nas academias, o que somando compõe um obra amarrada por um estilo sem igual, hiperbólica, transfiguradora que, como nos diz Leda Tenório Mota, “derruba as abordagens mais toscamente temáticas ou mais politicamente corretas. Já que não se pode ignorar, por mais embaraçoso que seja o assunto de um grande escritor, ou por menos beleza moral que ostente, que o estilo não apenas conta, mas... significa. Ou, dito em outras palavras, que ele muda tudo” [[ii]].

“A partir do momento, efetivamente, em que o discurso pára de seguir a tendência de um pensamento que se interioriza e, dirigindo-se ao próprio ser da linguagem, devolve o pensamento para o exterior, ele é também e de uma só vez: narrativa meticulosa de experiências, de encontros, de signos improváveis – linguagem sobre o exterior de qualquer linguagem, falas na vertente invisível das palavras” [[iii]]; em vontade, força, desdomínio, no curso de um exercício em que o objetivo foi subtraído pela aventura, pelo desejo de, na linguagem, experimentar mais e mais, no âmbito de uma viagem onde o que conta é a viagem em si. Assim veio a constelação de Mallarmé, a esfera cintilante de Joubert, a escrita selvagem de Lautréamont.

Mesmo antes de Mallarmé há, no espaço literário, vestígios de uma vontade de superação do homem em detrimento da obra em experiências peculiares, como a de Joubert que viveu para a literatura, mas se recusou a publicar um livro se quer, deixando no entanto um rastro de coisas notáveis: anotações, diários, escritos de uma delicadeza tão intensa que arregimentou para o seu centro figuras como Maurice Blanchot e E.M Cioran. Joubert é o rosto rezo da cena literária, o escritor sem obra que viveu intensamente essa ausência, entrando para a literatura pelos lados. “Joubert teve esse dom. Nunca escreveu um livro. Apenas se preparou pra escrever um, procurando com determinação as condições justas que lhe permitiriam escrevê-lo. Depois, até esse desígnio ele esqueceu. Mais precisamente, o que Joubert procurava, essa nascente da escrita, esse espaço onde escrever, essa luz a circunscrever no espaço, exigiu dele, afirmou nele disposições que o tornaram impróprio para todo o trabalho literário comum ou o levaram a desviar-se dele. Foi, por isso, um dos primeiros escritores inteiramente modernos, preferindo o centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta das suas condições e escrevendo, não para acrescentar um livro a outro, mas para se tornar senhor do ponto de onde lhe parecia que saíam todos os livros” [[iv]].

É necessário que haja, na nossa linguagem escrita, voz, alma, espaço, ar livre, palavras que subsistam sozinhas e que transportem consigo o seu lugar [[v]]. Esse é o movimento de Joubert, uma escrita viva, intensa, autônoma, nutrida de uma potência que se desloca. Esse movimento nos arrasta a outro, Lautréamont, um caso de singularidade, sem dúvida um movimento de força na direção da escrita literária e a um só tempo para fora do autor, pois com Lautréamont o objetivo daquele que escreve é, sobremaneira, enterrar sua biografia na sombra e mergulhar no coração da escrita. Nessa jornada, o escritor só pertence à sua obra e a ela está vinculado, sem deus e sem razão, escrevendo até o extremo do que pode a escrita, em um tempo que se redescobre irreconciliável, o tempo da obra, pois “só a obra importa, a afirmação do que existe na obra, o poema na sua singularidade cerrada, o quadro no seu espaço próprio. Só a obra importa, mas afinal a obra só está ali para levar à busca da obra; a obra é o movimento que nos encaminha para o ponto puro da inspiração de onde vem e que aparentemente só pode atingir o desaparecimento” [[vi]]. Lautréamont mergulhou nas ondas da escrita, desapareceu sem deixar vestígios, todo o seu combate consistiu na edificação da sua obra, num trabalho sem recusa, fortalecido por uma vontade criadora que se afirma no momento em que atravessa a fronteira do estabelecido, do sujeito, da identidade: “minha poesia só consistirá em atacar, por todos os meios, o homem, essa fera, e o criador” [[vii]]. Mas a escrita em Lautréamont não é a expressão de uma reação e sim de uma Ação, de um ato criativo que faz da literatura uma máquina de guerra pelo possível da arte e da vida.

Lautréamont renuncia ao nome próprio e aos fantasmas da memória para incorporar uma escrita veloz, aliviada dos dramas da culpa do pai-mamãe da representação. Sua força é órfã, vem de lugar nenhum, nasce das dobras da literatura, no instante em que ergue a pena para escrever. E nesse momento fluído que se dá à poderosa força que separa sujeito e obra, pois aquele que escreve não pertence mais aos domínios do registro de nascimento. Por isso Isodore Ducasse deu passagem ao Conde Lautréamont, e com ele vieram Os Cantos de Maldoror e Poesias. Lautréamont é para literatura um caso do presente, sua atualidade persiste pela intensidade de uma obra que não se rende e por um imagem que ainda cintila.

[i] Álvaro de Campos. Tabacaria
[ii] Leda Tenório Mota. Celine volta a incomodar, publicado no caderno mais, folha de São Paulo.
[iii] Michel Foucault. O Pensamento exterior.
[iv] Maurice Blanchot. Joubert e o espaço.
[v] Pierre Joubert. Carnets.
5 Maurice Blanchot. O Livro por vir.
6 Lautréamont. Os Cantos de maldoror. Poesias. Cartas


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Nilson Oliveira é editor da revista Polichinello, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão [edições IAP 2006]
E-mail: nilson_olliveira@yahoo.com.br
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