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terça-feira, 8 de julho de 2008

A peleja de Dom Zé Alcides e o dragão de Sobral (Raymundo Netto)



Dados os últimos acontecimentos fenomenológicos e sísmicos que vêm, literalmente, abalando o Ceará, ouço, todas as manhãs, falas sobre “vórtice ciclônico de ar superior”, “diminuição da temperatura no oceano Pacífico”, “zona de convergência intertropical” entre outros palavrórios pouco convincentes, principalmente após a famigerada noite pirotécnica de relâmpagos que despertou a cidade de Fortaleza. Digo despertou, para os outros, pois eu mesmo nem dormia, e descobri in loco a razão de tudo isso.
Era tarde. Vinha passando ao lado da catedral que, à solidão da noite, de tão sombria, chegava a dar calafrios. Na barra da saia da Matriz, demônios com unhas maiores que os dedos, entre cusparadas, invadiam as virilhas de meretrizes, sugando a alma das jovens criaturas. À ladeira do Forte, homens e mulheres seminus surgiam embriagados com garrafas na mão e olhos perdidos.
Pressenti ter que sair logo dali. Contudo, rompeu a chuva e me abriguei embaixo de uma lona velha da feira. Sons, que mais pareciam os de latas caindo nos telhados, emouqueciam. “Que trovões!”, pensava, pois relampejava tanto a ponto da noite quase parecer o dia. Nisso, baratas, escorpiões e os pombos do Palácio do Bispo se dirigiam a caminho da praia. Morcegos campeavam a praça dos Leões, enquanto na igreja do Rosário dos Pretos, ossadas esquecidas, intuindo a presença do mal, se arrastavam pela escadaria. Gatos de cemitério saltavam de todos os lados, como numa peste. Mesmo diante da chuva, o calor era tão grande que estalavam as paredes e vitrais. No ar, talhos de galhos secos e linhas comidas por cupins dos telhados históricos. Os bêbados, os drogados, as prostitutas, os passantes noturnos do centro da cidade clamavam ao deus do Ceará: “É o fim do mundo, o fim do mundo!”
Sentindo meus pés úmidos, constatei que as águas do Acaraú, diante da epigênese epifânica da vida, subverteram em trombas d’água na Fortaleza impassiva, enquanto que, na colina do Marajaik, os verdes abutres voavam a grasnar ameaçadores.
Do horizonte, uma imensa nuvem de poeira deitou-se sobre a praça da Sé sufocando a todos, inclusive os comerciantes da feirinha despejada.
Logo correu a notícia de que outros homens, a entupir os corredores dos hospitais da aldeia, apareceram com manchas vermelhas, dores no corpo e olhos injetados em sangue, vítimas de um vírus latente trazido na poeira da destruição. Foi então que vi, em meio à negra nuvem, a imagem grotesca de um dragão voador. Lembrei a profecia: “Reza a lenda que o mundo vai se acabar pelo Ceará. Um dragão monstruoso dormiria silencioso em sua morada sob uma cidade que, embora tenha muitas igrejas e santos padres, estaria condenada à destruição. Esta cidade é Sobral!”
Sim, leitor amigo, os tremores de terra em Sobral foram causados pelo monstro desperto, a cumprir a sentença de pavor e morte, mandando às favas as placas tectônicas e os vulcões submarinos. Da mesma forma, aqueles “trovões” eram frutos da inexperiência aeronáutica da criatura que tombava nas torres da catedral e nas casas velhas da Justiniano de Serpa. Aliás, não sei se vocês souberam, mas elas desabaram!
Pasmo, assisti à romaria de sobralenses descambando, e até assumindo cargos públicos, em Fortaleza. Viriam os vivos, viriam todos e tudo, até o eclipse.
Foi quando chegou um homem magro, pele marcada de sinais e nariz quase tombando sobre o bigode alvo. Reconheci: era o poeta José Alcides Pinto.
— Ainda por aqui, Zé? — estranhei.
— Mundico, quem pode afirmar com absoluta certeza se o morto não está vivo, embora morto esteja? — respondeu, arregaçando as mangas e puxando o cinto da calça.
O cego curandeiro, João da Mata, e os tremembés de Almofala partiram em luta contra os demônios, e muitos, inclusive os filhos de Janica, foram abatidos.
— Maldição, maldição, maldição! — gritou, aborrecido, Alcides ao dragão que, ao reconhecê-lo, pôs-se a vomitar chicotes de fogo que mais pareciam relâmpagos revelando uma cidade que já não mais dormia.
Zé Alcides corria e saltava, de um lado para outro, fugindo do dragão. Num momento, arrancou um pedaço de raio fincado no asfalto que derretia, ostentando-o como lança diante da fuçalha daquele que o encarava. Eram criador e criatura num embate final. Foi quando ele abriu a braguilha e, para fúria do lagartão, mijou em suas patas. Humilhado, o monstro lançou o poeta contra a parede da catedral, coiçeou, mas ele resistia. Mesmo enfraquecido, Zé Alcides conseguiu lançar, na venta do dragão, uma garrafa com uma mosca presa, fazendo com que ele se dobrasse em dor:
— Ainda vai, filho de uma égua? Lascou-se! — comemorava, alquebrado.
O dragão, como mágica, transformou-se em constelação e seus demônios renderam-se em cinzas; o sol nasceu brilhante e a esperança despontou. Aos pés da calçada, em meio à lama do Acaraú, meninos de rua passaram a catar siris, enquanto as pessoas chegavam desenterrando a cidade. Em pouco, na falta do que dizer de uma vida monótona, só se falava na noite chuvosa, nos trovões incomodantes, nas fagulhas dos céus, nos tremores de terra, na peste da dengue. No centro da praça, entre palhaços, pervertidos e meretrizes, o poeta, prostrado ao colo da jovem Berenice — senão não seria o Zé Alcides —, esgotava:
— Não tenho mais nada a fazer no mundo. Vou conviver com os peixes e as sereias, os corais e as algas, afinal, tudo o que vive se acaba, tudo que foi criado terá fim!
— Morreu o poeta maldito; bendito seja o poeta! — gritava um louco, enquanto Santana do Acaraú fechava os olhos, deixando os moradores às escuras...

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José Alcides Pinto (1923-2008), o poeta maldito, nasceu no povoado de São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Ceará. Abandonou empregos públicos para se dedicar à literatura. Autor de O Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e Diário de Berenice, dentre outros. Alguns dos trechos do texto foram adaptados da obra de Zé Alcides.

(Especial para O Povo - www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/796778.html)

Raymundo Netto. Só. Contato: http://mail-b.uol.com.br/cgi-bin/webmail?Act_V_Compo=1&mailto=raymundo.netto@uol.com.br&ID=IxkP56wNWz8cUQFvZGgVsY5jwYRGR6MZ0cDvJ6sr&R_Folder=aW5ib3g=&msgID=9081&Body=0
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domingo, 6 de julho de 2008

Poeta do Altiplano (Reynaldo Domingos Ferreira)


(Anderson Braga Horta)

Na poesia de Anderson Braga Horta, que agora estréia em livro, editando-se em Brasília, há, antes de tudo, uma inquietação pela forma.
Parece que a arquitetura e o traçado urbanístico desta cidade – que inspira o primeiro poema do livro – aprofundaram ainda mais, no poeta, a preocupação pela técnica e pelo apuro estilístico, já evidente em obras anteriores, que se conservam, porém, inéditas.
As palavras, na poesia de Braga Horta, procuram ser exatas, tão exatas que, em alguns poemas, se ressentem de uma abertura, um deslize, que o poeta não lhes permite jamais. Sente-se que ele as obriga a se ajustarem ao seu tom, procurando extrair delas tudo o que pode e tudo o que quer, na medida adequada ao seu ritmo lento, pausado e comedido. Dir-se-ia que, por vezes, faz falta, em tanto apuro técnico, aquele “desregramento de sentido” de que falava Rimbaud, em uma de suas cartas, sobre o jogo poético. O aprimoramento, entretanto, que Anderson dá à estrutura do verso, nos proporciona composições perfeitas como aquele poema retilíneo, que se intitula “Mão”:

Clara amanhece
Natura e canta,
liricamente
dilucular.

Crótalos clamam,
clarins ressoam,
sobre as cabeças
lírios revoam.

Nas veigas nuas
de ensolarar
incautas notas
tremulam no ar.

Langue, Natura
suspira, expira
no meio-dia
plenissolar. (...)

Nota-se, neste poema, a felicidade com que o poeta transmite as imagens que seleciona, dando-lhes, diríamos, uma fulguração, que permanece fácil em nossa memória:

Crótalos clamam,
clarins ressoam,
sobre as cabeças
lírios revoam.

Efeito mais ou menos semelhante, porém mais dinâmico e bem mais atuante, é o que Braga Horta extrai da primeira estrofe do poema dedicado à fundação de Brasília:

Antes do começo,
era o sertão, só e ríspido.
Vegetais cheios de ódio fitando os céus impossíveis
e apontando a terra sáfara.
Dedos torcidos de séculos.
Bênçãos dissimuladas sob a raiva.
Natureza virgem à espera da posse.

É uma “intensidade de expressão”, como disse Carlos Drummond de Andrade, através da qual o leitor não só vislumbra a imagem deste planalto esquecido, que antes era, como participa também de sua milagrosa transformação, feita por “mãos nodosas / magras mãos / mãos rudes / mãos férreas / mãos”. E vem ainda do poema o cheiro forte de terra, quando do preparo do terreno, que daria nascimento à cidade:

Cresce uma pétala na rosa-dos-ventos.
Desviam-se para Oeste os rios do orvalho,
de que o asfalto, o aço, o concreto,
o abstrato,
tudo é resíduo.
Cruz resumindo sacrifícios,
avião demandando o futuro.
Símbolos.
Reais são os mortos, alicerces nossos;
real é o presente, imenso,
bruto
canteiro de obras.

O que dizer de um poema como este?
Anderson Braga Horta, a nosso ver, reconstruiu Brasília, em termos de poesia, numa forma insuperável. Seu poema, como esta cidade, tem cheiro, tem cor, tem luz, tem sons de eternidade. E, depois do altiplano, ele também inventou a noite, fez quatro sonetos em lá e falou assim do cordeiro e da nuvem:

Os homens plantaram no deserto ásperas maravilhas
Cogumelos de vidro abrem chapéus
de sol
Invertidas funções
chove
embaixo
uma fórmula nova
Os homens semearam medo e morte
de instantânea colheita

Mas no deserto onde só
mineral flora enseiva os caules
e umbelíferas cospem
na boca dos ventos
letal pólen
nasce um cordeiro
sob a nuvem atômica
(...)


(Publicado no Correio Braziliense, 30-7-71.)
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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Autores atuais reescrevem Machado de Assis



No centenário da morte de Machado de Assis, com organização do premiado contista, doutor em Letras pela Unicamp e professor universitário Rinaldo de Fernandes, a Geração Editorial lança a antologia Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte, que, além de incluir os dez melhores contos de Machado, traz um conjunto de narrativas recriando esses dez melhores contos e passagens/situações do romance Dom Casmurro. São autores renomados, emergentes e jovens promessas da literatura brasileira atual que reescrevem Machado de Assis na antologia: Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Hélio Pólvora, Cecília Prada, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Ivana Arruda Leite, Andréa del Fuego, Marcelo Coelho, Deonísio da Silva, Daniel Piza, Godofredo de Oliveira Neto, Bernardo Ajzenberg, João Anzanello Carrascoza, Antonio Carlos Secchin, Leila Guenther, Marilia Arnaud, Rinaldo de Fernandes, Raimundo Carrero, Mário Chamie, Aleilton Fonseca, Tércia Montenegro, Maria Valéria Rezende, Maria Alzira Brum Lemos, W. J. Solha, Amador Ribeiro Neto, Carlos Gildemar Pontes, Nilto Maciel, Aldo Lopes de Araújo, Suênio Campos de Lucena, Carlos Ribeiro, Ronaldo Cagiano e Sérgio Fantini.
Diz Rinaldo de Fernandes, no texto de apresentação da antologia: “O conto ‘Missa do Galo’, de Machado de Assis, é aqui recriado por quatro escritores. Osman Lins, na década de 70, já havia preparado um livro propondo o mesmo a cinco autores: Antonio Callado, Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles e Nélida Pinõn. O próprio Osman Lins, com uma narrativa inédita, integrou o livro, intitulado Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema. Retomei o projeto do autor de Avalovara e o ampliei. Agora não apenas ‘Missa do Galo’ é refeito, mas ainda nove outros contos de Machado. O conjunto dos dez contos aqui reescritos: ‘Missa do Galo’, ‘A Cartomante’, ‘O Espelho’, ‘Noite de Almirante’, ‘A causa secreta’, ‘Pai contra mãe’, ‘O Alienista’, ‘Uns braços’, ‘O Enfermeiro’ e ‘Teoria do medalhão’. Foram, na ordem em que estão, escolhidos como os melhores do Bruxo por dezessete escritores brasileiros, em enquete que realizei”. Diz ainda Rinaldo: “Para ampliar ainda mais o projeto em que me baseei, aqui são reescritos também trechos/situações do Dom Casmurro (um resumo do romance foi feito pela professora de literatura brasileira Sônia Maria van Dijck Lima). Há ainda alguns ensaios, fechando o livro, que investigam aspectos importantes da ficção, da poesia e do teatro machadianos.” Ensaios imperdíveis, de autores importantes, como Silviano Santiago, Luiz Costa Lima, Pedro Lyra, Regina Zilberman e André Luís Gomes.
Enquanto, no presente, para prestar homenagem aos cem anos de morte do autor, alguns lançamentos acumulam-se buscando cobrir as tantas facetas da produção de Machado, este Capitu mandou flores consegue abarcar várias delas de uma só vez: traz narrativas insuperáveis do célebre escritor, as recriações dessas narrativas e ainda ensaios bastante esclarecedores de aspectos fundamentais da obra do autor de Brás Cubas.
Com certeza, este livro ficará entre as obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Um exercício de reescritura de Machado de Assis até aqui nunca proposto em nossas letras, abrangendo tantos autores e textos de qualidade. Pode-se afirmar sem medo: um livro ímpar, para ser lido por gerações. Um livro imperdível!
http://www.geracaoeditorial.com.br/
Rua Major Quedinho, 111 – 20º. andar - 01050-030 – Centro – São Paulo – SP - Brasil
55 11 3256-4444 – Fax 3257-6373 – Email geracao@terra.com.br
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terça-feira, 1 de julho de 2008

Homenagem a José Alcides Pinto (Pedro Salgueiro)



O velho dragão José Alcides Pinto ganha homenagem na crônica de Pedro Salgueiro, tão polêmica e atrevida quanto a pena do saudoso poeta, falecido no último dia 3.

"Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (...) O que está no limiar e afogado no abismo." (José Alcides Pinto, 10/9/1923 - 3/6/2008)

Quando morre um poeta o mundo fica lastimavelmente mais pobre. Terrivelmente mais triste. Inevitavelmente mais feio. Às 11h15min de um sábado, dia 31 de maio de 2008, um imenso dragão, disfarçado de motocicleta, atacou impiedosamente o velho poeta, de 85 anos, José Alcides Pinto, em plena rua General Sampaio, bem em frente ao palacete conhecido como Vila do Barão, de ladinho da praça da Bandeira, nos arredores da Faculdade de Direito do Ceará. O rapaz da banca de revista próxima disse que ele havia passado cedo com alguns envelopes na mão, "dessa vez não vinha com a moça loura", completou; no envelope iam os dois livros recém publicados, mas ainda não lançados, que despacharia para alguns amigos do Rio e São Paulo. Voltava devagarinho (talvez ainda não recuperado do cobreiro que o maltratara meses atrás), esperou debaixo de uma árvore o trânsito acalmar, apressou o passo e... Parou no meio da pista ainda molhada pela garoa de fins de maio, quando finalmente avistou o pássaro enorme em vôo rasante, ainda deu pra notar o vermelho dos olhos da fera, as teias de aranhas das asas e o barro seco das garras, que era com certeza lá das coroas do rio Acaraú. O poeta saiu quebrado numa ambulância, o motoqueiro foi manquitolando atrás; a moto esquecida na sarjeta. Quarenta minutos depois, sua filha passa tranqüilamente na mesma calçada; o rapaz da banca grita para avisar do acidente, ela apressa o passo fugindo do enxerimento. Quem deve ter lhe contado a triste notícia? No dia 2 de junho a alma, também magérrima, do nosso saudoso poeta maldito foi, na frente, esperar pelo corpo que já ia em cortejo rumo a São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Fazenda Terras do Dragão, comboiado por Sérgio Braga, Lustosa da Costa, Audifax, José Teles, Carlos Augusto Viana e outros amigos do peito. Deu tempo ainda de pôr os últimos números em sua lápide, que havia sido meticulosamente preparada por ele anos antes. Não havia tido coragem de adivinhar o último algarismo. Reencontrava enfim seu pai, sua terra, sua paz... Sob o signo da polêmica Na juventude freqüentava a casa de Otacílio de Azevedo, convivendo com os filhos do pintor e poeta, Rubens, Miguel Ângelo (Nirez) e Rafael Sânzio; já tinha um jeito despojado e falaz. Sua alcunha entre os estudantes era "Alma de Gato", talvez pela magreza exagerada. Sua ida para o Rio, sua volta à terrinha, sua saída do emprego na Universidade Federal do Ceará, seu uso de um traje franciscano, sua adesão ao nascente concretismo, seus amores e desamores, enfim, seu comportamento de uma vida inteira foi marcado pela polêmica. Enquanto os outros grandes poetas de sua geração vestiram o paletó e(ou) a camisa da oficialidade e(ou) o da reclusão, ele arriscou a jaqueta surrada da marginalidade e da maldição; enquanto uns cavavam prêmios e condecorações e outros se fechavam mais e mais em seus casulos, ele corria calçadas, mexendo com as moças, instigando jovens poetas sujos e cabeludos, espalhando boatos difamatórios sobre si mesmo. Criou uma imagem tão forte e polêmica sobre ele próprio, que às vezes ele mesmo esquecia quem realmente era: um sujeito frágil e religioso, bom pai, que ia à missa toda semana e rezava antes de dormir. E tinha uma das gargalhadas mais sinceras que conheci. Sempre estava cercado (e ajudado) por uma leva de boas almas, mas também por uma corja de parasitas, cujas benesses (e elogios) ele sabia manipular com maestria; todos admiradores de seus poemas e de seu comportamento arrojado. Sobre os de boa-fé quase sempre despejava injúrias, não raro alguns de seus melhores amigos e colaboradores saíram magoados de seu convívio; em cima dos oportunistas jogava iscas, elogios falsos e prefácios não escritos. Sempre esteve acima do bem e, principalmente, do mal; todos debitavam suas ações polêmicas ao seu gênio literário. Os ofendidos perdoavam sempre; os canalhas engordavam à sombra de suas asas negras. Estava acima do bem e do mal: tanto fazia engendrar um poema genial (e pendurá-lo no arame do varal) como caluniar um amigo que tanto o ajudara. Todos o perdoavam com um rizinho de escárnio. Estava acima do bem e do mal. Uns altos muito altos, uns baixos... Ao amigo que me dizia que ele tinha altos e baixos, eu retrucava: "- E qual o poeta que não os têm!?". Depois lembrava que para cada poema fraco dedicado a Lady Diana ou Chico Mendes (ou algumas rimas escatológicas) ele tinha no mínimo uma dúzia de versos endiabrados. Precisaríamos de alguém com muito talento, coragem e ética para fazer um inventário de sua vida e obra; alguém com isenção estética e moral para mapear suas forças e fraquezas. Talvez com a devida distância do corpo físico. A caverna do Dragão Na minha Crônica da Gentilândia, do livro Fortaleza Voadora, digo: "...e o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras - quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia". À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta. Sua residência mais famosa foi a da rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito freqüentada; ainda hoje muitos contas histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não. Já o conheci na Vila Cordeiro, na avenida Tristão Gonçalves, bem próximo à vilinha em que ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casa conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor. Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas. Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, Editor de Insônias (1965), e uma miscelânea, Reflexões, terror, sobrenatural (1984), além de alguns inéditos datilografados em folhas amarelecidas. Em 1997, o dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, Editor de Insônia e outros contos, pela Coleção Alagadiço Novo. Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta: "- Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "- Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada. A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o Buraco da Gia, pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio. Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão. E parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu A Guerra do Fim do Mundo, Vargas Llosa), com sua gargalhada sempre sincera, dizendo - e apontando pra si mesmo - para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra: "- Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!" "Eu sou aquele que come as flores do aniversário." (José Alcides Pinto, 10/9/1923 - 3/6/2008)

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*Pedro Salgueiro tem dois filhos, dez irmãos e derrubou algumas árvores para fazer diversos livros. Faz uns continhos que, de tão curtos, estão quase desaparecendo. Tem uma mãe que faz o melhor capote da cidade. Sente muita saudade de um pai que era sapateiro de chinelos e idéias.

(Especial para O Povo, 30/6/2008)


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sábado, 28 de junho de 2008

Sobre Gilbertos (Pedro Du Bois)



Não me refiro aos gilbertos passados,
digo dos presentes em palavras soadas
na exatidão da terra e da vontade
persistente. Não digo dos gilbertos idos,
falo sobre os apresentados em obras
permanentes. Não falo dos gilbertos
ausentes, escrevo sobre os residentes
na perpetuidade da amizade.
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terça-feira, 24 de junho de 2008

Subverso (Raymundo Netto)

















Horas. Horas. Horas.
Insistia o relógio na parede: desista, homem!
A manhã sobranceirava à ruína da caneta embotada há tempos.
Imerso num oceano de sem-idéias, o gramático se rendia à evidência:
“Não consigo escrever... Logo eu?”
De fato, descobria-se engaiolado entre velhas regrinhas endurecidas da palavra. O rigor afetado e a gramatiquice, quase não o deixavam pensar. Tinha ele a mania de concordar com tudo, tropeçar em vírgulas, falar quase que soletrando. Como todo homem-nalgas, elevava a metáfora à potência logarítmica e se enfurecia com o desrespeito às conjunções; mas daí a detestar a liberdade “quase imoral” dos poetas? “Necrófilos!”, afirmava.
Escrevia, escrevia, escrevia... direto ao cesto de papel. Nada o contentava. Nada, nem significado nem significância.
Naquele dia, porém, desbastou-se em sua mágoa vernácula. Pegou o caderno repleto de imbróglios de norma culta e, suspendendo-o à janela, pôs-se a sacudi-lo, furioso, esparramando toda aquela gramaticagem no jardim, até deixar suas páginas completamente em branco. Por outro lado, a grama, agora adjetivada, estava verde, linda, sublime e viçosa.
Em sedição contra o dogma, gizou, na parede mesmo, um círculo que chamou de “ó”. Afastou-se, estendeu o braço e o polegar, fechou um olho, voltou à parede. Ladeou seu “ó” de letrinhas imbricadas e ponteou, ponteou, ponteou finalmente. Alucinou: enquanto o mundo gira, somente as estátuas ficam paradas. Na parede, apenas:
“Oras. Oras. Oras.”

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terça-feira, 17 de junho de 2008

A bolha ilumina-se (Entrevista com Nilto Maciel)













Registro histórico nos arquivos de O POVO: Nilto Maciel (à direita) ao lado do recém-falecido José Alcides Pinto (Foto: Banco de dados)



Em entrevista ao Vida e Arte Cultura, o escritor Nilto Maciel, autor de As Insolentes Patas do Cão, reflete sobre a literatura local e antecipa detalhes da nova versão de Panorama do Conto Cearense(Jornal O Povo, Fortaleza, Ceará, 15/6/2008)


O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) costumava comparar a estrutura do conto a de uma bolha de sabão. Ele a descrevia como intrincada, concentrada e altamente volátil. De modo geral, sugere a pesquisadora Nádia Battella Gotilib em Teoria do conto, volume que integra a série Princípios, os bons autores partem do interior imponderável da bolha para uma exterioridade - a realidade - cuja estrutura também se articula de forma desordenada. Em seu livro, Nádia varre a história desse gênero controverso, porque cambiante, e a revira à procura das mais variadas explicações que já se deram na longa e mal-fadada busca por definições mais precisas de uma modalidade narrativa imprecisa. Escritor e editor da revista Literatura, Nilto Maciel, 63 anos, dedica parte do seu tempo ao exame da bolha de Cortázar. Em Panorama do Conto Cearense (2005), livro que ganhará versão ampliada e revista ainda neste ano, por meio do edital da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará -, Nilto inventaria contistas de ontem e de hoje. Conciso, o livro também traz uma síntese cronológica dos principais autores e também dos periódicos e grupos literários que marcaram a história das letras cearenses. Em entrevista a O POVO, Nilto fala sobre a escrita do livro, a experiência de O Saco e a ausência de uma crítica literária no Ceará. (Henrique Araújo, especial para O POVO)


O POVO - Publicado em 2005 e prestes a sair em uma nova edição, Panorama do Conto Cearense tem um caráter de apanhado ou apresentação breve da produção literária de contos ao longo da história. Como foi o processo de pesquisa para a escrita desse livro?
Nilto Maciel - Eu tinha conhecimento dos contistas antigos, Oliveira Paiva, Herman Lima e outros. E também dos contemporâneos, da minha geração: Airton Monte, Carlos Emílio Correia Lima, Gilmar de Carvalho... O pessoal que surgiu em torno da revista O Saco. Depois fui embora pra Brasília. Fiquei 25 anos lá. Começava minha carreira literária, com dois livros publicados. Mas acompanhava o pessoal daqui. Todo ano eu vinha pra cá. Sabia das novidades de cá, recebia muitos livros autografados. Alguns escritores eu não conhecia pessoalmente. Por exemplo, Francisco Carvalho e Moreira Campos. Este eu devo ter visto umas duas vezes. Depois comecei a conhecer os novos, Dimas Carvalho, Tércia Montenegro, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro. O Panorama surgiu dessas leituras. Escrevi vários artigos sobre contistas cearenses. E aí, conversando com amigos em um bar, porque essas idéias sempre surgem em bar, a idéia surgiu. O Pedro (Salgueiro) perguntou: “Por que tu não escreves sobre o conto cearense?” Sânzio (de Azevedo, professor de literatura cearense da UFC) publicou um ensaio sobre o gênero. Braga Montenegro também. Eu fiquei instigado com as observações do Pedro Salgueiro. Passei então a ler e reler todo mundo, tanto os velhos como os novos, e passei dois anos escrevendo. Fui reler todos os contos do Juarez Barroso, do Moreira Campos, de todos. Ainda neste ano vai sair uma edição ampliada dele, aprovada em edital da Secult. Tem 300 páginas. Nele, eu coloquei um conto de cada grande autor analisado. Vai ter 25 contos. Por exemplo, junto à análise dos contos de Rachel de Queiroz ou Caio Porfírio Carneiro virá um conto deles. O título talvez seja Da Quinzena ao Caos, por sugestão do Sânzio de Azevedo. Eu queria Da Padaria ao Caos, mas A Quinzena, jornal de um grupo literário importante, é anterior à Padaria Espiritual. Espécie de ensaio da Padaria. Muitos dos autores padeiros estiveram n’A Quinzena.

OP - Quem foram os primeiros cultores da narrativa curta no Ceará?
Nilto - Oliveira Paiva e Adolfo Caminha. Os dois escreviam e publicavam nos jornais da época. Existiram outros contistas bons, mas que não se tornaram nomes nacionais. O Juvenal Galeno ficou mais conhecido como poeta. O Araripe Júnior não é tido como um bom contista. Esses foram os autores que marcaram o século XIX. No século seguinte, Gustavo Barroso e Herman Lima são dois nomes importantes.

OP - Que momentos da literatura cearense o livro alcança?
Nilto - Ele começa no século XIX, com Juvenal Galeno e outros, vai, sem se deter muito, até os anos de 1970. Passa por Rachel de Queiroz, Moreira Campos. Depois o livro se concentra nas gerações que deram origem ao O Clã, O Saco e Siriará. Passa por Airton Monte, Gilmar de Carvalho, Natércia Campos. Enfim, caminha até os anos 1990, quando surgem Pedro Salgueiro, Jorge Pieiro, Carlos D’Alge, Dimas Carvalho, Paulo de Tarso Pardal, Ronaldo Correia de Brito, Rinaldo de Fernandes, Tércia Montenegro e outros. Panorama do Conto Cearense vai até os primeiros anos do século XXI.

OP - Quais as diferenças existentes entre o seu livro e “Evolução e natureza do conto cearense”, do Braga Montenegro, ambos voltados exclusivamente para o conto produzido aqui?
Nilto - O trabalho do Braga Montenegro é mais crítico. Ele começa falando do conto mais amplamente, contextualiza bastante. Vai avaliando, mas fala pouco dos autores. Procurei fazer como uma enciclopédia. Não que o meu seja melhor. Posso chamá-lo de trabalho jornalístico, de um leitor curioso. Não me considero crítico. Sou apenas um leitor curioso, que cutuca os autores.

OP - No Ceará, os escritores parecem surgir a partir de revistas e de agremiações. Por que isso costuma acontecer?
Nilto - Acho que isso era comum. E continua um pouco. Menos hoje, com a internet. Com ela, pouca gente se atreve a criar revista impressa. Todo mundo cria revista na internet. Muita gente me procura, pede contos. Mas as revistas impressas são poucas.

OP - Ela acaba contribuindo para que menos revistas literárias circulem?
Nilto - Eu acho que contribui, sim. Mas tem mais gente escrevendo do que lendo. Só na área da literatura, é impossível acompanhar tudo que surge. Tem muito veículo, mas está faltando leitor. Por exemplo, surgiu em Porto Alegre a Bestiário. Eu nem conhecia o editor, que me pediu ajuda. Então mandei uns 500 contos de gente do Ceará e do resto do país. Boa parte foi publicada.

OP - Por falar em revistas, fala um pouquinho sobre a criação de O Saco.
Nilto - Foi assim. Na ditadura, quando a repressão começou a ficar muito forte, os diretórios acadêmicos foram fechando. Os jovens estudantes se aproveitaram dos mimeógrafos para fazer jornais literários. Saíram de cena os jornais contra a ditadura e vieram esses outros. Foi nesse tempo que fiz Intercâmbio, jornal que dialogava com gente de todo canto. Carlos Emílio Correia Lima perguntou por que a gente não fazia uma revista mais bonita, com um cuidado maior. Os suplementos tinham desaparecido. Os dois jornais que ainda tinham suplementos publicavam apenas os consagrados, os escritores mais conhecidos. A gente sentia muita dificuldade para publicar. Aí surgiu a pergunta: quem vai bancar a revista? Procuramos o Manoel Coelho Raposo. Eu e Carlos Emílio à frente. Apresentamos o projeto pra ele.

OP - Como era a revista?
Nilto - A revista era solta, sem grampos, dentro de um saco. Apenas quatro cadernos: poesia, contos, jornalismo e imagens. Começou com 7 mil exemplares. Coube ao Raposo ser o carro-chefe. Ele tinha dinheiro e conhecia os negociantes. A cada mês saía um número. No número 7, a crise se instalou. Houve um problema com a Superbancas, a empresa que fazia a distribuição em todo o País. Eles disseram que não iam poder mais distribuir porque não valia a pena, a tiragem era pequena. Muita gente achou ter sido a censura a causa do fim da revista.

OP - Esteticamente, quais eram as grandes preocupações de vocês?
Nilto - A minha geração tinha uma grande preocupação com a forma e em não ser regional. De ser mais universal, sem esquecer o regional. Não queríamos ser regionalistas. Queríamos uma linguagem mais universal.

OP - Voltando aos cânones da narrativa curta cearense. Que lugar ocupa, por exemplo, Moreira Campos?
Nilto - O de maior contista da história cearense. Ele se dedicou àquilo. Algumas pessoas dizem que ele é bom porque se dedicou só ao conto. Mas não é isso. Eu o considero o maior contista cearense. E acho difícil aparecer outro durante um bom tempo. Moreira Campos continua sendo o melhor. Mas gosto também do Dimas Carvalho. É um dos melhores da nossa terra. Bom contista e bom poeta. E cito também o Jorge Pieiro, que lembra muito o Gilmar de Carvalho. Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Carmélia Aragão. Luciano Bonfim é mais revolucionário do que todo mundo. A Natércia Campos também é muito boa.

OP - Como você avalia essa produção mais contemporânea?
Nilto - A maioria dos contistas de hoje tem uma vontade de chocar maior. Mas cadê a preocupação com a linguagem, com o tema? Eu sou muito preocupado com a linguagem, a forma... A frase mal-construída. Falando especificamente do conto, se tem alguma novidade nele, se não é uma simples história, isso me agrada. Gosto dos contistas que fogem dos modelos. Aí eu anoto.

OP - Anota?
Nilto - Sim. Eu leio para encontrar defeitos. Eu sempre li e gostei de julgar o livro que leio. Leio sempre anotando. E ninguém vai querer o livro, porque está todo anotado. Tenho mais de 200 artigos sobre livros. Quando leio Machado de Assis, eu não risco nada. Leio por prazer. É assim com todos os clássicos. Mas quando o Pedro Salgueiro, por exemplo, me manda um livro, eu risco. Não costumo ler por prazer.

OP - Mas tem um prazer nesse tipo de leitura, certo?
Nilto - Tem, sim. Um prazer sádico (risos).

OP - E o que você lê hoje?
Nilto - O que é de hoje. Já li todos os clássicos. Posso até reler, mas por gosto. Tenho dez livros novos aqui em cima da mesa. Eu vou ler, esculhambar e elogiar. As pessoas me pedem pra fazer isso. Me mandam os livros. Eu pergunto: Você quer mesmo que eu comente? Não vai se zangar? Uma vez eu estava em um bar lá em Brasília. Uma moça me entregou os poemas dela e me pediu pra dar uma opinião sobre eles. Queria que eu lesse lá mesmo. Eu li. Ela disse: “E aí?” Eu respondi: “Sinceramente, não publicaria”.

OP - Voltando à questão dos “novos”. Em termos de conteúdo e forma, o que muda entre a geração atual e as que vieram antes?
Nilto - O Braga Montenegro fala de evolução do conto. Não acho que seja isso. Cada geração fala de um jeito. Na geração do Fran Martins os contos eram de dez, quinze páginas. Nos anos 70, o que mudou foi a linguagem. A linguagem do Pluralia Tantum, do Gilmar de Carvalho, é revolucionária. A estrutura frasal, a composição do conto, se você ler o Gilmar você diz que não é conto. Não tem enredo.

OP - Nos anos de 1970, ao lado do poeta satírico Glauco Mattoso, você organizou uma coletânea chamada Queda de braço: uma antologia do conto marginal. De onde partiu essa idéia?
Nilto - Na época, todo mundo se considerava marginal. Porque era todo mundo novo, sem dinheiro, desconhecido e sem condições de poder publicar. Pensei em organizar uma antologia do conto marginal aqui em Fortaleza. Na época, o Glauco andava querendo a mesma coisa. Não lembro se ele veio para cá ou se a idéia chegou até ele, em São Paulo. Mas o Glauco ficou sabendo e propôs: vamos fazer isso juntos. Você cuida do Norte e eu cuido do Sul. Não concordei com essa divisão e a gente reorganizou tudo. Queda de braço saiu em 1977. O título foi dado pelo próprio Glauco. Reuni contos de uns amigos e mandei pra ele. Foram publicados Carlos Emílio, Rosemberg Cariry, Airton Monte e outros.

OP - Pra finalizar, Nilto, como você avalia a crítica literária feita no Ceará?
Nilto - No Ceará, atualmente, não há crítica literária. O Sânzio é historiador, o Linhares é mais da academia. O Dimas Macedo elogia todo mundo. Críticos são F.S. Nascimento e Braga Montenegro. Existe a resenha, que é um artigo curto que fala bem de um livro para ser vendido. A crítica é para avaliar.
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sábado, 14 de junho de 2008

Noir (Astier Basílio)

















a cada etapa
do aprendizado
fui me deixando.
Meus olhos só abriram
arrancados.
Marca alguma me fixou:
o amanhã é minha multa,
o reverso, minha verdade.
Eu sou
o que não tem parte
com os espelhos.
Me desfazer de todos
até sobrar o que
não fui.
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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Vou dormir (Antonio Carlos da Matta)

















Vou dormir


Quando meu Pai quiser.


Face a face, julgado.


Erros e acertos,
Sentimentos...


Minhas causas


Aparentemente perdidas.


Vou dormir


Quando meu Pai quiser.
Amanhã... Nossos rostos


Sem lágrimas nos olhos.


Juntos estaremos


Quando o Sol se puser.


Não haverá mais desertos,


Pedras no caminho, mares,


E vales a nos separar.


Tu és a divina Luz!...


Toda língua confessará.


Sobre as nuvens


Em Nova Jerusalém,


Louvores eternos


Sempre iremos cantar.


Vou descansar...


Quando meu Pai quiser.


Amanhã... Nossos rostos


Sem lágrimas nos olhos.


Juntos estaremos


Quando o Sol se puser.


Amanhã...

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domingo, 8 de junho de 2008

Dois pontos (Aníbal Beça)



No meu caminho
dou de encontro
com :
tisnados em paralelas
à espera da sentença
dialogando
com o chão


Essa conversa de pés
claudicante
tartamuda
gagueja
em tropeções
naquele que vem embaixo
rebatendo em eco
para o que está acima
pássaro preto
no telhado azul


Pelo vão desses :
de cabeça me arremesso
aventura em travessão
no sonho que não se quer
linha reta
horizontal
O . de cima leva sonhos
Epifania
O . de baixo lavra a pedra
Epitáfio
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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Moacir Amâncio: um poeta multilíngue (Adelto Gonçalves*)




I
Um poeta que expressa seus sentimentos em vários idiomas – esse é Moacir Amâncio (1949), que acaba de reunir vários livros num só, Ata, que vem acrescido de vários poemas inéditos, com o excelente ensaio “Poesia nômade”, de Berta Waldman, que permite ao leitor acompanhar a trajetória incomum de uma obra provavelmente única na poesia brasileira, como assinala na apresentação Odile Cisneros.
Ata inclui os livros Do objeto útil, Figuras na sala, O olho do canário, Colores siguientes, Contar a romã, Óbvio, At e Abrolhos. Seu título corresponde aos múltiplos sentidos que o poeta quis dar ao livro, muito bem desvendados por Berta Waldman, desde a ata em português (registro ou registo escritural) até a preposição at em inglês, passando pelo atá em hebraico (pronome pessoal masculino e advérbio de tempo correspondente a agora em português).
É preciso que se diga que Amâncio, embora tenha surgido para a literatura nos anos de chumbo (1964-1985) e circulasse nos ambientes de esquerda da imprensa paulista na década de 70, não teve de viver obrigatoriamente no exílio por causa de suas idéias ou atos. A sua ausência no solo brasileiro, se houve, geograficamente, foi durante o tempo em que ganhou uma bolsa para estudar na Universidade Hebraica em Jerusalém já nos anos 80. Como observa Berta Waldman, o exílio de Amâncio nunca foi geográfico, mas na alma, a partir da necessidade de construir territórios de enunciação, como diz George Steiner em Extraterritorial: ensaios sobre literatura e revolução lingüística (Barcelona, Barral, 1973). E ocorreu de maneira consciente na ânsia de encontrar em línguas estrangeiras o que já não achava disponível no idioma português.
II
Amâncio estreou na literatura com a novela O saco plástico, de 1973, e, depois, surpreendeu a crítica com a prosa fragmentária e experimental de Estação dos confundidos (São Paulo, Símbolo, 1977), romance que trata da vida de Joaquim Chapeta Arruda, um deserdado da terra perdido na desumana e impessoal cidade de São Paulo.
Redator de texto conciso e preciso, Amâncio, que passou a maior parte de sua vida profissional nas redações dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, publicou ainda o livro de contos O riso do dragão (São Paulo, Ática, 1981), em que parecia já disposto a extravasar as fronteiras do gênero, deixando de lado um certo convencionalismo dos primeiros livros, embora o fragmentarismo e as quebras de frase já indicassem o caminho futuro.
Esse procedimento se acentuou em Súcia de mafagafos (São Paulo, TA Queiroz Editor, 1982), que reúne duas histórias bastante fragmentadas e com a linguagem da prosa já se misturando com a poesia, num tom meio juvenil.
O autor não renega sua obra anterior, mas, aparentemente, prefere deixá-la esquecida, pois não consta dos dados bibliográficos que aparecem em seus livros mais recentes. O que se conhece é que se rendeu à poesia a partir de 1992, quando lançou Do objeto útil (São Paulo, Iluminuras), disposto a oferecer uma nova proposta ao gênero, como se tivesse por meta escapar de uma certa linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um século de experimentação, repetição e diluições, para se assumir aqui o que o romancista Eustáquio Gomes escreveu na apresentação de Contar a romã (São Paulo, Record, 2001).
Essa virada, por coincidência ou não, deu-se depois que Amâncio imergiu na cultura judaica, a partir da temporada que passou em Jerusalém, que não só lhe inspirou parte dos poemas de Do objeto útil como o fez há poucos anos reencaminhar a sua vida como professor de Literatura Hebraica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ao deixar para trás o cotidiano da redação de O Estado de S. Paulo, passando a atuar apenas como colaborador de seu caderno de variedades.
Também aqui fez carreira inversa: preparou-se muito bem antes de entrar numa sala de aula como professor numa altura da vida em que a maioria dos docentes já sonha com a aposentadoria. Doutorou-se na área de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo com a tese Dois palhaços e uma alcachofra (São Paulo, Editora Nankin, 2001) em que discute as diferentes formas de se ver o Holocausto. Em poemas recentes, tem buscado um diálogo com a Ibéria hebraica de Sevilha e Córdoba.
III
Em Do objeto útil (Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, 1992), como um autêntico poeta pós-croncreto, mostra-se decididamente preocupado com a síntese, talvez como reflexo de sua atividade profissional, pois, à época dedicava-se a escrever as chamadas de primeira página de O Estado de S.Paulo, que sempre exigiram do redator um alto poder de síntetização. Veja-se este poema a título de exemplo: A lembrança da cinza/ destrói a porta./ O vento invade tudo,/ varre cantos, as frestas,/ assoalho, teto, ossos./ Deixa apenas metáforas.
Em Figuras na sala, de 1996, o autor faz uma homenagem à melhor tradição modernista brasileira, assumindo-se como herdeiro do impulso poético de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999), mas também paga um tributo ao poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), que se valia de símbolos para expressar seus sentimentos através da sugestão, mais que da narração.
Em 1997, publica um livro de reportagens e artigos, Os bons samaritanos e outros filhos de Israel (São Paulo, Editora Musa), interrompendo a seqüência de livros dedicados à poesia. Mas logo volta com O olho do canário (São Paulo, Musa Editora, 1998), que, aliás, diferencia-se de seus livros anteriores de poesia na alternância e variedade dos ritmos, como observou Carlos Vogt na apresentação, e na linguagem elíptica que emprega.
Como gosta de jogar com a idéia de que as línguas latinas são, na verdade, um só idioma, defendendo o argumento de que determinadas emoções e idéias só caberiam adequadamente em italiano, outras em francês, em português, romeno, catalão ou espanhol, Amâncio publica Colores siguientes (São Paulo, Musa Editora, 1999) em que reuniu poemas escritos em castelhano. É o livro que marca o início de uma série de peregrinações poliglotas, que vão atingir o seu auge com Abrolhos em que várias composições estão escritas em hebraico. Esses poemas em hebraico formam um conjunto, na verdade, um livro, que foi inteiramente publicado pela revista Etc., de Curitiba.
Antes, o poeta já havia experimentado no parcialmente inédito At a construção em inglês de um universo paralelo ao português. Já em Contar a romã (São Paulo, Record, 2001) presta homenagem ao idioma de Góngora, Quevedo e Cervantes, especialmente em "Duelo de la nariz y la cara" em que transita do espanhol para o português e igualmente da poesia para a prosa poética (e vice-versa) sem perder o sentido.
IV
Professora do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Berta Waldman destaca para análise o poema “Àlef”, de Contar a romã, que dialoga em primeira instância com a Cabalá, mas que remete também para o conto “El Aleph”, de Jorge Luís Borges (1899-1986), em que a primeira letra do alfabeto é apresentada como um ponto no espaço que contém todos os pontos, ou seja, um ponto que agrega todos os sentidos.
A partir daí, a estudiosa sugere que o idioma hebraico tenha passado a ser, durante essa trajetória, uma das bases que sustentam a poesia polivalente de Amâncio, ele mesmo um estudioso dessa língua e também do Talmud. “Amâncio incorpora a estrutura de ambos, lançando-os como o ponto zero de sua poesia”, explica. Eis um trecho de “Álef”: Segundo Spinoza,/ lentes fabricante/ a vogal permite/ o fazer a fala/ sendo a alma dela./ Ou como entender/ a matéria simples,/ LF só rocha.
V
Antes de Ata, Amâncio lançou pela Travessa dos Editores, de Curitiba, Óbvio, em que radicaliza as preocupações estéticas de livros anteriores, desta vez, compondo um poema, "Arghvan", em inglês, a exemplo do que fizera em espanhol em Colores siguientes, quem sabe inconformado com as amarras lingüísticas e possíveis limitações do português. Esse longo poema, que melhor seria definido como um conto em versos, constitui a segunda parte do livro, mas se entrecruza com as duas outras partes.
A primeira parte, "Óbvio", que ocupa a maior parte do livro, é também um longo poema, outra vez em decassílabos. Ao largo desse poema, sente-se a presença da tradição judaica, nunca descrita, mas sugerida, de que Amâncio, hoje, no Brasil, é um dos maiores conhecedores.
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ATA, de Moacir Amâncio. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, 584 págs. E-mail: record@record.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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segunda-feira, 2 de junho de 2008

José Alcides Pinto:1923-2008 (Nilto Maciel)







Acordei sobressaltado hoje. O telefone tocava sem parar. Imaginei cobradores e outros chatos. Era o contista Pedro Salgueiro: "Já sabe da notícia?" "Que notícia?" "José Alcides Pinto morreu". Quase morri de susto, embora esteja ciente de que todos morreremos e de que o velho poeta estava doente. "Atropelado por uma moto". Outro choque. Acidente de trânsito. Mas lembremos o poeta, contista, romancista Alcides Pinto, um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos. Os livros dele estão nas livrarias, nas bibliotecas públicas e particulares e devem ser lidos e relidos. José Alcides Pinto, nascido em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, Ceará (1923), tem sido muito mais poeta e romancista do que contista. Apesar disso, é também nome fundamental do conto cearense. Seu primeiro livro no gênero é de 1965, Editor de Insônia, seguido de Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias, de 1984. Em 1997 ambos foram reeditados, sob o título Editor de Insônia e outros contos, e, como informa Pedro Salgueiro, organizador da reedição, “muitos outros contos foram resgatados do ineditismo na presente edição”.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Terceira dimensão (Rosani Abou Adal)


A cidade nua, sem vestes e sem verde.
São Paulo dorme acompanhada da solidão.
Nada de peixes nos leitos dos rios,
nem flores e frutos nas árvores de cimento.
O amor se fragiliza e se recompõe
entre vigas de concreto e o calor humano.
Uma cidade dividida entre
a riqueza e a pobreza.
Caviar e champanha nas mesas da zona sul
e os farelos nos pratos da periferia.
Colméias nos prédios, casas,
casebres e embaixo das pontes.
A vida em contraste se anula
diante do silêncio dos homens.
Nos jardins as mansões escondem a hipocrisia.
No centro a fome planta sementes nas calçadas.
Na Praça da Sé a Catedral pede clemência
aos homens de boa vontade
e ninguém lhe dá ouvidos.
Um garoto de olhar triste implora
para comprarem lixas de unha.
Sabe, se não vender nada, enfrentará
os olhos mudos da sua mãe ao chegar em casa.
Nas escadarias do metrô um homem
a vender dois isqueiros, oito pilhas,
duas colas ao preço de um real.
Um gato faminto come e devora
a pomba que morreu atropelada.
Na outra esquina um menino pede
um prato de comida e nada consegue.
No calçadão um senhor grita pega ladrão
e ninguém para ajudá-lo.
O policial vem socorrê-lo e não alcança
o assaltante que se perde
entre o mar de camelôs e a população.
Observo a cidade em terceira dimensão
e vejo que São Paulo ainda é
o melhor lugar para se viver.
Na frieza dos concretos as flores humanas
plantam sementes de amor
em nome da Vida.
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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Frantic (Rolando Revagliatti*)



Junto a quem busca
serei também buscada
Junto a quem me imagina viverei mais
Intensa vida junta
quem busca.

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“Frantic” (“Busqueda frenetica”), filme dirigido por Roman Polanski.
*Extraídos do livro Trompifai, Libros del Empedrado, Buenos Aires, Argentina, 1997, em tradução por Nilto Maciel.
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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Simetria (Ana Maria Ramiro)


(Quadro de Kandinsky)

Leve folha toca o solo

Intento homólogo. Do céu,
icto raio ilumina o branco,
extrai uma labareda, risca
uma chama incontroversa

Forjar o signo
um vórtice no cálice

Leve folha toca o solo
e o dizer destilado escorre
do relicário

Língua,
frágil elo
entre nave e pássaro.
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sábado, 17 de maio de 2008

sobre o amargo do beijo (Jorge Mendes)



você não conhece meus óculos escuros o amor se não ofusca os olhos,
dilata a escuridão
- cioram

sabe, menina feia, o sol do meio dia sempre foi um palhaço assassino comigo. daí esse inverno rigoroso nos olhos, a fúria das esquinas, a solidão dos becos. daí os óculos escuros, menina feia.

então, menina feia, não chega ser completamente injusto dizer que você não será minha adorável putinha e nem eu o seu encantado sapinho.

o negócio, menina feia, é que busco uns sonhos da pesada daquele lado infernal da cabeça. um incêndio abrupto na garoa fria, um calor assim. portanto, menina feia, por pura perversidade, engano as estrelas da hora sublime. decepciono por prazer e fogo aflito deuses e demônios.

estas mãos cavam buracos escuros na claridade das manhãs, você sabe. tenho nada, menina feia. só desespero e horror. sim: pulo do alto pra sentir o gosto do sangue no céu da boca. você, porém, prefere brincar de esconde-esconde, cabra-cega. quer fazer da cidade em ruínas sua casa de bonecas. então foda-se, menina feia.

escuta, menina feia, tem tudo pra dar errado. tenho hábitos de vôos suicidas. meu poema de concreto voador grita na madrugada anêmica dos heróis acrilíricos e o inferno é o lugar mais próximo do paraíso onde posso chegar. estou dizendo, menina feia, que meu futuro não é brilhante. meus olhos não são brilhantes. meus dentes não são brilhantes. a cabeça do meu pau não é brilhante. nada em mim brilha ou quer estéril luz, menina feia.

entenda, menina feia, os cães me farejam o sangue porque desconhecem o nome do medo (e não é porque sou canceriano que a lua vai me fazer de otário, sem chances). ademais, caminho devagar pela escuridão porque tenho febre e dores que causam rupturas. meu amor, aliás, não é relâmpago insípido nem asséptico rosa. antes é azul cortante, nuvem selvagem, osso elétrico, verbo sangrando o ar.

não é pálida nem fóssil jardim minha palavra no vento voraz, menina feia. por outro lado, menina feia, você sabe que perdi na rodada do SEJA CANALHA SORRINDO (prometo ganhar na roleta russa, creia), meus navios e arco-íris naufragaram na tarde dos ratos e, contudo, menina feia, - e isso nem eu e nem você entendemos direito - entro no oxidável mundo das aparências de peito aberto e sigo respirando pássaros mortos nos ambientes neutros, na boa.

assim sendo, menina feia, sinceramente, era pra ter entrado de corpo e alma no fogo. era pra ter se aberto e se entregado e chupado gostoso. era pra ter caído em queda livre, ter virado ave do paraíso, menina feia. você não quis ou não conseguiu. fez cu doce. estacionou na beirinha do abismo e ficou ali olhando a paisagem cinza sem saber que a luz é indolor mas que a claridade cega, amor.

in http://aofimdanoite.zip.net/

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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Flores de vidro à Primavera (Henrique Marques Samyn)




No Campo de Santana fazia sempre o mesmo percurso: colhia, cuidadoso, as várias flores, nunca ao acaso – escolhia-as cuidadoso, com silêncio e parcimônia. Com os dedos tangia as folhas, retia as pétalas, vagaroso: só depois de sentir-lhes a tez e medir-lhes inteiras, cores e cheiros, podia colher as flores de exata medida para o seu intento – e ao fim da longa procura, sentava-se num banco, solitário, e punha-se a armar os ramalhetes: com vão esforço os tecia, fazendo-os ásperos e assimétricos. Suas mãos, cinzentas e grossas, sempre feriam as frágeis flores; rompia os caules ao entrançá-los – mas portava-se, ainda assim, como o mais severo ourives. Ao fim, erguia o corpo e retomava a caminhada – e como era hilária a figura: medido cada passo, crispadas ambas as mãos, agindo qual levasse vítreas flores nos seus braços. Pisadas dolorosas coxeavam sobre o asfalto; claudicante, a seca sombra oscilava sob o sol – repetia, todos os dias, um mesmo ritual. Quedo, achegava-se à amada; enquanto a fitava em silêncio, deitava aos seus pés as flores. Ela, inerte e fria, impávida e rija pedra: estátua que, como estátua, não podia vê-lo ou ouvi-lo – e que, em sua indiferença, permanecia a fitar o horizonte, lábios e olhos opacos, eterna distância do amor. Inércia que ele não via – não via ou queria não ver: todos os dias, voltava aos gestos, num afeto inabalável. E fiel se conservava, pois mantinha-se em vigília: quando chegava à amada, nos braços as flores de vidro, e via os pássaros a cercá-la, lançava-se ao combate – em meio aos curiosos, nunca poucos, que o fitavam: ingentes gargalhadas, inaudíveis, pois tão altas –, cumpria o seu dever: brandindo um pedaço de pau, gritava, pulava e lutava, valente em defesa da dama, com seus golpes, afoitos, equívocos; pombos, pardais revoavam, deixando uma chuva de penas; raramente algum era atingido. Quando enfim não restavam mais pássaros, seus braços pendiam, exaustos; a espada que achara em improviso tombava, esquecida, no asfalto. Então, com o olhar embaçado, deixava-se estar, cabisbaixo – ao redor, entre risos, fitavam-no os muitos rostos, em turvo suspense – limpava o suor do pescoço com as costas da mão enrugada, a barba cinzenta e rançosa, e corria de encontro à estátua – e a abraçava, a chorar, aos soluços, aos soluços, aos soluços; e, em meio aos alegres aplausos, gargalhadas, risos e estrépitos, chegava aos pés da estátua, claudicante andar solene, e ali deitava as flores, assimétricos buquês, frágeis flores de vidro.

No Campo de Santana fazia sempre o mesmo percurso: todos os dias, a mesma batalha, a animada platéia a seguir-lhe os passos. As crianças que o imitavam na escolha das flores, colhendo-as falsas: misturavam os ramalhetes, profanavam o exato gesto – e ele, a resmungar, retirava-os dos pés da amada: falsos buquês, falsos presentes, trançados com pérfida perfeição. Desfazia-os e, resmungando, os jogava em pedaços – sórdidas pétalas, vis, os canalhas! Porque ele, só ele, a amava – ele, apenas ele, o mais fiel dos servidores –
e um dia eles chegaram.

Pivetes, não mais que pivetes. Ficavam pelas redondezas, pedra e cachaça, cola e cerveja. Quando Anelísia foi morta, foram vistos andando por perto: Anelísia, travesti, vivia na Central, tinha ali seu ponto. Pobre e negra, não deixava desaforo sem revide: eles, em bando, a cercaram – entre os risos, doze facadas: no dia em que ela foi morta, foram vistos andando por perto; no entanto, era só Anelísia. Travestido, o cadáver à noite – a essas mortes, só resta o silêncio.

Eis que um dia eles chegaram e o viram fazer o seu percurso; e o viram colher as flores, e andar, canhestro e zeloso; e viram seu amor, torvo e austero, pedra e rito. E porque tudo viram, não tardaram a, entre risos, partir também ao combate: armaram-se, paus e pedras, puseram-se ao lado da estátua – e ele, ao longe, em cuidado, a colher as flores de vidro. Teceu seus tortos buquês, como pedia o ritual, e pôs-se a caminhar: sua amada o esperava.
Dolorosos passos curtos, caminhava, claudicante, e solene qual levasse vítreas flores nos seus braços. Enfim, chegou à estátua, e viu o bando ao seu redor: não pássaros, mas pivetes – armados com paus e pedras, e ao redor a multidão: estudantes e aposentados, camelôs e policiais, mulheres e vagabundos – olhares ansiosos entre os risos sussurrados.

Ele não hesitou: avançou de encontro aos muitos, em riste o pedaço de pau – e avançaram de encontro a ele. Em meio ao Campo de Santana, teve lugar o combate: ele lutava em silêncio, eles batiam-lhe aos risos – ao longe as vozes gritavam, porque o sangue lhe cobria: sob as rotas, velhas vestes, eclodiam manchas rubras, o corpo tombava aos poucos,
cercavam-lhe os paus e as pedras – cinco ou seis policiais saíram do meio da multidão e puseram um fim à algazarra. Correram os muitos pivetes; no chão um mendigo caído, flores de vidro estraçalhadas. Levaram-no, e para sempre: se vive, ninguém mais sabe.

No Campo de Santana permanece, inerte, a estátua. Seminua, celebra a primavera – solitária: quem passa não a vê. Ainda assim, visitam-na, por vezes, parcos pássaros.

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sábado, 10 de maio de 2008

Fortaleza antiga, uma cidade em prosa e verso (Batista de Lima)


(Fortaleza antiga)

Pacheco Espinoza é autor do mais antigo texto literário de exaltação a Fortaleza. Data de 1813 o seu soneto decassilábico e neoclássico, “Para o chafariz da cidade de Fortaleza”, em que é exaltada a figura do Governador Sampaio por criar aquele benefício para a vila. Ao mesmo tempo a cidade é enaltecida pelo seu desenvolvimento que já se estampa em algumas ruas. “Este manancial de água, o primeiro,/ Que fez surgir na Vila arte prestante,/ Para a sede saciar o caminhante,/O sábio, o nobre, o rico, o jornaleiro.”

Em 1856 Juvenal Galeno inaugurou o romantismo no Ceará com a publicação de seu livro de poemas Prelúdios poéticos. Juvenal Galeno era um apaixonado por Fortaleza e pelo Ceará. Centrou sua literatura na sua terra natal. Cantou as coisas da terra, o cajueiro e a jangada, principalmente. “Minha jangada de vela,/ Que vento queres levar?/ Tu queres vento da terra,/ Ou queres vento do mar?”

Na prosa é importante destacar escritores que encararam Fortaleza de forma diversa: Adolfo Caminha, Oliveira Paiva, Gustavo Barroso e Jáder de Carvalho. Adolfo Caminha, no seu romance A normalista, faz uma literatura de catarse, uma obra de maldizer da cidade. É um livro de crítica ao preconceito social existente na cidade de Alencar. Oliveira Paiva na sua novela A afilhada, não se envolve na narrativa. Destaca-se nessa obra, sua descrição da cidade de Fortaleza na última década do século XIX. As ruas da cidade são bem apresentadas, mostrando a importância do plano de urbanização de autoria do Dr. Silva Paulet. Gustavo Barroso em Coração de Menino, Liceu do Ceará e Consulado da China revisita Fortaleza com um certo tom nostálgico. São três livros de memórias suas e da cidade.

É também de Gustavo Barroso um dos mais belos cantos de louvor a Fortaleza, no caso, o "Hino de Fortaleza", com letra sua e música de Antônio Gondim. É uma letra que fala em "virente coqueiro", em "Iracema lembrando o guerreiro", no "mar nas areias ardentes", fala ainda de jangadeiros e chama Fortaleza de "a flor do Brasil". É por demais repetido seu estribilho: “Fortaleza! Fortaleza!/ Irmã do sol e do mar:/ Fortaleza! Fortaleza!/ Sempre havemos de te amar”.

Jáder de Carvalho, no seu livro Aldeota, apresenta de forma romanceada, a trajetória de um personagem de nome Chicó, que originado do sertão do Ceará, na região de Cariús, transfere-se para a Amazônia onde se torna arigó e depois volta para o nosso Estado, fixando residência em Fortaleza, onde enrica através de métodos fraudulentos. Chicó é uma figura picaresca que passa pelas mais variadas funções, até se tornar habitante da Aldeota, bairro nobre de Fortaleza, composto de bangalôs de importantes famílias, entre as quais algumas que enriqueceram com a sonegação de impostos, com o contrabando, com todo tipo de espertezas que se possa fazer para auferir riquezas.

Entretanto, não foi só o cearense que cantou Fortaleza. Há aqueles que se encantaram com essa terra e cantaram-na de alguma forma. É o caso do poeta pernambucano Manuel Bandeira que por aqui passando quando se dirigia à Serra do Estêvão, em Quixadá, em busca de saúde, cantou os verdes mares fortalezenses: “Clama uma voz amiga: – "Aí tem o Ceará"./ E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,/ Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.”

Um dos elementos lembrados por Manuel Bandeira em seu poema é o sol, o mesmo sol que Paula Ney fez desposar a cidade, no seu célebre poema "Fortaleza", cujo primeiro quarteto assim se apresenta: “Ao longe, em brancas praias, embalada/ Pelas ondas azuis dos verdes mares,/ A Fortaleza – a loura desposada/ Do sol – dormita, à sombra dos palmares.”

Não é um poema primoroso, inclusive com algumas achegas apontadas por Sânzio de Azevedo em seu livro A Literatura Cearense, mas imortalizou a expressão "Fortaleza- a loura desposada do sol", a ponto de outros escritores também referirem-se a essa loirice, como é o caso de Francisco Carvalho quando canta: “Ó loira e bela Fortaleza amada,/ Vem escutar meu sonoroso canto/ Que agora mesmo, para o céu levanto,/ A fim de honrar-te a gleba benfalada/”.

Assim como Francisco Carvalho, outro poeta que saudou poeticamente Fortaleza foi Otacílio Colares através do poema "Descante à cidade amada", onde apresenta tipos populares como: Chagas dos Carneiros, Jararaca, Zé Levi, Cheira-Dedos, Mimosa, Zé Lapada, Cabeção e a Siri. Nesse descante de Otacílio Colares poder-se-ia acrescentar o bode iôiô, Canoa Doida, Manezinho do Bispo, Burra Preta, Roberto Carlos, Vassoura, Zé Tatá etc. Esse é um dos 173 poemas que fazem parte do Cancioneiro da Cidade de Fortaleza, organizado por Artur Eduardo Benevides.

O próprio Artur Eduardo Benevides aparece como autor de um dos melhores poemas da coletânea, no caso, "Canto de amor a Fortaleza", onde ele diz: “(...) ó grande flor atlântica/ plantada mais em nós do que no chão.” Caracteriza-se esse cancioneiro por encerrar em suas páginas quase todos os poemas sobre nossa cidade. Isso levou à veiculação de muitos textos que se querem poemas mas que muitas vezes são apenas aglomerados verbais de encômios à cidade amada. Daí que dentre os poucos e belos textos sobre nossa metrópole, pode-se dizer que o melhor momento é exatamente a presença do único texto em prosa do volume, no caso, “Terna louvação”, de autoria do organizador. No texto, Artur Eduardo Benevides trata a cidade de “musa” e apela para seu “claro rosto e graça delicada”, chamando-a de “menina e mulher, ave e canção”, “cidade de ruas tão alinhadas como os versos de um soneto”, refere-se por fim ao “rosto hermoso” que Pinzon avistou quando aqui chegou. Esse cancioneiro constitui uma homenagem da Prefeitura Municipal ao sesquicentenário de Fortaleza, na administração do Prefeito Vicente Fialho em 1973. No seu canto de apresentação, Artur Eduardo Benevides não esqueceu de citar os folguedos que marcaram época na cidade: serenatas, cirandas, pastorinhas, retretas, fandangos, modinhas, minuetos, quadrilhas, varsovianas, a prenda, o anel, o santo, o solo inglês, a cabra cega, congos, lapinhas, pastorinhas e o boi surubim.

Cita ainda as valsas, as canções, as polcas, os dobrados, os hinos patrióticos. O Cancioneiro da cidade de Fortaleza é uma comprovação de que o fortalezense transmite seu amor à cidade quase sempre em forma de canção, não importa como. É o caso de Otacílio de Azevedo com seu livro Fortaleza descalça; Herman Lima, com Poesia do Tempo; Monsenhor Quinderé, com Reminiscências; Mozart Soriano Aderaldo, com História abreviada de Fortaleza; Raimundo Girão, com Fortaleza e a crônica histórica; Juarez Leitão, com Sábado: estação de viver; Sebastião Rogério Ponte, com Fortaleza belle-époque e Blanchard Girão, com O Liceu e o bonde, Narcélio Limaverde, Eduardo Campos com as peças teatrais Morro do Ouro e Rosa do Lagamar, Ciro Colares, Faria Guilherme e outros.

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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Virginia Woolf: uma leitora incomum (Clauder Arcanjo)


(Virginia Woolf)

A escritora inglesa Virginia Woolf é uma das minhas obsessões. Há poucos dias, na minha eterna mania de catar obras nas livrarias durante as viagens, deparei-me com um exemplar de O Leitor Comum. De início, aagradável surpresa. Há tempos procurava uma edição, em língua portuguesa, desse clássico de Virginia. Comprei e corri para o hotel, janteifrugalmente, tomei um banho rápido, e fui para a cama na companhia da autora de Orlando.

Coletânea de ensaios sem o ranço do academicismo, com a profundidade e atransparência dos grandes mestres, mas sem presunção, nem o menor enfado. Logo no texto de abertura, que dá título ao livro, uma demonstração inequívoca do talento de Woolf. E fico com a ligeira sensação de que,“talvez, valerá a pena prosseguir escrevendo algumas idéias e opiniões que, insignificantes em si mesmas, irão contribuir muitíssimo para umresultado”. Muitos ensaístas me aborrecem porque sufocam minha imaginação em lugar decolocá-la para funcionar. Não é o caso de Virginia, parafraseando-a: em cada passagem que leio, a presença discreta de quem sabe “revelar-nos osuficiente para que adivinhemos o restante”. Ou seja, “sugerir peladescrição, não revelar pela iluminação”. No ensaio “Montaigne”, um dos retratos mais sublimes do mestre francês, descreve-o como se fosse um relato sobre si mesma, “seguindo as próprias fantasias, dando o mapacompleto, o peso, a cor, e o diâmetro da alma em sua desordem, sua polimorfia, sua imperfeição”. Essa arte pertenceu a duas pessoas apenas, concluo: a Montaigne e a Virginia.

Em meio a todo esse rico universo crítico, alguns valiosos conselhos: “Ao escrever, escolha as palavras cotidianas; escape dos exageros e da eloqüência”. Para logo arrematar: “Porém, é bem verdade, a poesia é umadelícia; a melhor prosa é aquela que mais estiver entranhada de poesia”. Logo adiante, Virginia adverte-nos: “Leis são meras convenções, incapazesde salvaguardar vestígios da imensa variedade e do tumulto dos impulsoshumanos; os hábitos e os costumes são conveniências tramadas como amparopara naturezas tímidas que não ousam permitir a suas almas movimentos livres”. O Leitor Comum foi publicado em Londres pela Hogarth Press, a editora que Virginia Woolf mantinha com o marido, Leonard. Saiu na forma de doispequenos volumes — o primeiro, em 1925; o segundo, em 1932. Há exatos setenta e cinco anos. Mas nada nele prescreveu, são sínteses críticas detal forma apaixonantes que nos dão uma irresistível vontade de ler, ou reler, os clássicos citados, como para conferir, ou colher, tamanha belezaapreendida. Conrad, Jane Austen, Defoe, Dostoiévski, Joyce, Montaigne, Tolstói, Tchekhov, Sterne, dentre outros, se fazem presentes. Apresentadospor uma leitora incomum, “capaz de condensar em poucas palavras o fascínio destes mundos imaginários e verossímeis”. Virginia nos põe sobre os ombrosde cada escritor e nos faz “fitar através de seus olhos até, também, compreendermos em que ordem ele dispõe os variados objetos comuns que os romancistas estão fadados a observar: o homem e a humanidade; por trás deles a Natureza; e sobre todos aquele poder que por conveniência e brevidade devemos chamar de Deus”.

(Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 26 de agosto de 2007)
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