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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Cinzas (Ailton Maciel)



Que é feito do viver daqueles tempos?
Onde estão da casinha os habitantes?
A primavera, que arrebata as asas...
Levou-lhes os passarinhos e os amantes!...
Castro Alves


Aparece, ó visão de minha vida!
Vem decantar comigo o amor luzente...
Não vês, menina, a chaga dolorida
Que fervilha em meu peito penitente?...

O vem, ó vem, eu, louco, desespero!
Vem sentir desta vida os seus sabores...
Vem, açucena, eu todo dia espero
Os momentos ditosos dos amores!

Não te lembras, então, dos belos dias,
Que passamos felizes, lado a lado,
Só sentindo prazeres e alegrias
Sob o tempo, feliz, enluarado?!

Ainda recordo a nossa feliz vida:
Eu beijava a sorrir os teus cabelos.
Hoje o meu ser é chaga dolorida,
Hoje os sonhos são frios pesadelos!

Quão ditosos nos foram os momentos
Quando em tempo atrás juntos passamos...
Hoje restam visões e mil tormentos
Dos tempos auros em que nos amamos!

Hoje só restam cinzas... devaneios...
Recordações fatais pras nossas vidas:
Tu tens o corpo de carícias cheio,
E eu de chagas e fatais feridas!

Fortaleza, 7/10/64.
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domingo, 10 de maio de 2009

Petrarca em Minas Gerais (Adelto Gonçalves)



I
O petrarquismo como fenômeno literário sempre esteve atrelado à existência de uma corte. Sua importação pela América portuguesa, no século XVIII, foi uma contradição à própria origem e razão da existência do fenômeno, pois nunca houve corte no Brasil até o começo de 1808, quando desembarcou no Rio de Janeiro a família real, em fuga das tropas napoleônicas que invadiram Portugal em novembro de 1807.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Açúcar (Sarah Forte*)













Chocolate. Barras de chocolate ao leite, com flocos de arroz. Brigadeiro. Leite condensado escorrendo. Bananas caramelizadas. Bombons. Trufas. Cerejas ao licor. Chocolate derretido. Churrasco. Carne gorda, mal passada, o sangue pingando. Mesmo que comer um boi todo. O grosso do sal. A coca cola estupidamente gelada com rum. Cerveja. Vinho. Tantas comidas para tão curta vida. O mundo oprime de tanta vontade de comer. Escorre pela boca o sangue do porco. Tão imponente o porco dourado com a derradeira maçã a distingui-lo dos suínos comuns. A maçã era o que menos interessava. Tenro, o porco oferecia-se, pleno. Enigmático, sussurrava casualmente: Decifra-me ou te devoro. Restava devorá-lo. Sem remorsos. Comê-lo como se fosse o último porco da terra. Depois, abandoná-lo. E comer arroz, feijão, grossas lingüiças vermelhas. A gema do ovo sobre o queijo derretido incitava loucuras. O macarrão encarnado e rico em cebolas atraia irresistivelmente. E os bolos. Os brigadeiros. Os infinitos salgadinhos sobre brancas bandejas. E o desmanchar-se das comidas por entre os dentes. A sutileza do peixe frito e suas espinhas. Lutaria com todas as forças para destrinchá-lo. Guerrearia com aquele robalo, até que um dos dois vencesse!
Em cada esquina, um pastel de frango, de queijo, de carne. Em cada rua, um pouco de caldo com pão de ontem. Na geladeira, muito doce, que é o que salva. Torta de leite condensado, coco ralado e chocolate. Durante o trabalho, bombons variados. Não importava a marca, deveria ser doce, extremamente doce. Então descobrira o incurável problema. Deveria usar expressa e eternamente aspartame.
Mas como é que pode... logo ele? Ele que vivia para os doces, e também para os salgados? Que passara dois quartos de século mais todos os dedos de uma mão a comer? A viver os alimentos intensamente, como que procurando o melhor sabor? Não... isso era um pesadelo. Ainda não achara o sabor dos sabores. A vida tem um cerne crocante, ele ainda não conquistara o que havia de mais delicioso.
E continuou a comer. Agora, escondido. Um marginal das comidas. As pessoas vigiavam-no. E os tempos áureos dos churrascos haviam acabado. Somente alimentos pálidos e sem gosto. Alimentos tristes. Chuchus antipáticos. Pepinos depressivos. Ele reclamava. Dizia que preferia a morte. Que sonhava com uma existência entre doces. As pessoas lembravam que no mundo há quem passe fome e que ele deveria dar graças a Deus. Deus? Que Deus é esse que nega ao seu filho o açúcar? Oh, como sofria aquele homem.
Então, numa chuvosa noite, ele saiu. Todos dormiam. Metodicamente, abriu a porta. Tomou as ruas. Livre, enfim livre. Num mercado 24 horas, comprou doces, o que de mais doce havia. Doces crocantes. Salgados de toda a espécie. Bebidas adocicadas. Sentou-se na calçada. E devorou tudo. Depois, saiu correndo no meio do temporal. Estava no ápice da felicidade. Tão feliz. E tonto. Terrivelmente tonto. Desmaiou no meio fio.
Pastosamente, acordou. Sentia-se como argila despedaçada, massa de pão sem fermento. Cometera um grande crime. O terrível pecado. Comera. Mas não estava arrependido. Faria tudo outra vez. E que não o vigiassem mais. A vida não pode ser insossa. A vida é doce. É caramelizada. É crocante. Por favor, parassem de chateá-lo! Arranjassem logo uma bandejinha de brigadeiros ou ao menos um saco de pipocas. Não tinha tempo a perder. Não tinha doces a perder. As pessoas, sempre as pessoas, olhavam-no incrédulas. Aquele homem queria morrer. Oh, sim, ele morreria por uma causa justa, por um ideal honrado. Se morresse, morreria sem fome. Satisfeito.
Certo dia, para a surpresa de poucos, não mais acordara. Para o velório, a esposa encomendou dois centos de docinhos e salgados sortidos. Quentinhos, fumegantes, no ponto em que gritam: Devore-nos, porém, antes, mergulhe-nos no molho.
Secretamente, todos sorriram, íntimos, irmãos, numa volúpia de sabores. O morto, reflexivo, concentrado, encontrara o cerne crocante da vida.
 

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* Sarah Forte possui Graduação em Letras (Português-Literatura) pela Universidade Federal do Ceará - UFC, com experiência em produção e revisão de textos diversos. Mestranda em Literatura Brasileira pela UFC, com o projeto: “Homens do sertão - Representações Culturais em "Buriti" - Noites do Sertão - de João Guimarães Rosa”.

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domingo, 3 de maio de 2009

A parceria (Belvedere Bruno)

















De todos os lados, as opiniões convergiam: - "É o casal perfeito. Cúmplice e amoroso!", diziam. Por décadas, mantiveram-se em aparente estado de felicidade e realização.
Ela imaginava-se de cabelos brancos e bengala, ao lado daquele homem maravilhoso. Não tinha dúvida de que a relação seria a mesma, na alegria e na dor, até que a morte, a ceifadora, desfizesse aquela parceria. Temia tal momento e rogava aos céus para que ele fosse o primeiro a ser escolhido, pois tinha consciência da falta de estrutura emocional dele para absorver-lhe a partida. Ela, ao contrário, estaria preparada, devido aos anos de psicoterapia, sua religiosidade, seus amigos. Ele sempre fora um cético. Tinha pouquíssimos afetos, abominava religião e dizia não ser louco para entregar sua cabeça a psicoterapeutas. Ali residia o mérito daquela relação. Eram diferentes, mas se adaptaram para que vivessem pacificamente.
Eis que um dia, em plena avenida, ela tem um infarto agudo, e morre, sem ao menos ter tempo de ser socorrida. Ele manteve-se calmo e assim ficou até que o corpo fosse sepultado.
O padre, os amigos e vizinhos comentaram a força dele no momento, mas, depois de um mês, como ele continuasse aparentemente imune à dor da partida, pensaram na possibilidade de um "estado de choque", e chamaram um profissional para vê-lo, conversar com ele e saber o que realmente sentia.
- Livre das amarras! Por vinte e cinco anos, convivi com tudo o que não gostava: terços, bíblias, terapeutas, livros de Freud, Jung, teorias aos montes, que me enchiam a paciência, sempre tentando explicar o inexplicável. Tudo o que eu desejava era aproveitar a vida, longe dos amigos medíocres que ela trazia aqui pra casa. O que posso sentir agora, a não ser uma sensação de leveza e felicidade?-
E tirou a cor azul da fachada da casa, colocando um tom terra; pintou de vermelho o quarto que fora do casal, para que a cor quente reacendesse as paixões. Aquele tom gelo, segundo ele, sempre fora um banho de água fria na vida sexual deles.
Da antiga decoração da casa, nada restara. Não tinha afinidade com nenhum dos objetos, mobiliário, biblioteca. Sobre a nova mesinha de cabeceira, o Kama-Sutra.
Todas as manhãs, cantarolando, regava seu canteiro, antes ocupado por plantinhas de temperos que ela utilizava nas refeições do dia-a-dia. Ali, agora, havia as mais lindas flores, com diversos matizes, parecendo acompanhar o estado de alma daquele homem que, a partir de sua liberdade, se tornara cada dia mais feliz...
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Rosas vermelhas (Valéria Nogueira Eik)
















A rosa vermelha e o sorriso cativante foram entregues ao final do dia.
Amélia, olhos baixos, fez um muxoxo de menina e tentou alongar a mágoa.
Encarou o riso inocente e esqueceu as palavras rudes da noite anterior.
A rosa era tão linda!

Duas rosas vermelhas foram entregues no início da noite por um sorriso suplicante.
Amélia exibia um pequeno corte na boca. Derramou soluços incontidos e mais algumas lágrimas.
Olhou as rosas. Sorriu tristemente. Desculpou a ressaca matinal.

Três rosas vermelhas foram entregues, quando duas ou três estrelas salpicavam o pedaço de céu que se condensava diante da janela.
Amélia, deitada na cama, invadida por todas as dores, relutava em perdoar.
O sorriso dele, quase paternal, delineava motivos e a absolvição das culpas.

Quatro rosas vermelhas foram entregues quando a madrugada cobria a cidade.
Amélia, amontoada no chão, ainda recolhia os cacos do próprio corpo.
O riso infantil implorava por perdão e afagos.

Cinco rosas vermelhas foram entregues, quatro ou cinco dias depois, por um par de olhos desesperados.
Amélia, de malas prontas, queria ir, queria ficar.
As marcas arroxeadas e a pele costurada começavam a ganhar tons suaves.
E suaves ficaram as dúvidas.

Seis rosas vermelhas foram entregues por um sorriso impessoal.
Amélia, agasalhada por outras tantas flores e pelo brilho das velas, não pôde ver nem perdoar.
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Consequência imprevista de alguém seriado (Cunha de Leiradella)



Ontem, a merda de um dos elevadores do Acaiaca enguiçou. E bem no meio de dois andares. Tava todo mundo descendo pra almoçar e a porra tava mais cheia do que saco de juiz de futebol. Mas tava tudo jóia, descendo legal, sabe como? Só que, de repente, ó, a porra dá um tranco e quem diz que mexe? Mexe nada. O Eduardo, meu xará, é que tava naquele turno. Gente fina, só de cabineiro daquele carro já tem pra mais de ano, e já tá habituado. Vira e mexe, aquela porra tá enguiçando. Mas, mesmo assim, o xará ficou puto. E eu não tiro a razão dele, não. Quem que gosta de ser aporrinhado? Mas o xará até que foi maneiro. Quem que apertou a emergência? Ninguém tinha apertado a porra da emergência, aquela merda enguiça à toa, todo mundo sabe. Só que, quando o xará perguntou, quem que apertou a emergência?, foi aquela merda. Logo, logo, todo mundo olhou pra mim. Toda vez que tem pepino na porra daquele edifício, é sempre a mesma merda. Todo mundo diz logo que sou eu. Mas eu sei por quê que nego fala isso. É porque eu não sou chefe, sou bói. Se fosse chefe podia era torrar todo mundo que ninguém falava nada. Que nem o puto do meu chefe, que fode todo mundo e, ó, todo mundo lambendo a bunda dele, numa boa, senão já viu, sifu. Ah, mas eu não tou nem aí, foda-se. Pro que o filho da puta me paga, não merece nem a metade do que eu faço. E olha que eu só faço, porque comigo é ali na chincha, na moral, senão fazia era o cacete. Por isso, é que fiquei puto quando o xará me encarou, sabe como? Mas não adiantou ele encarar, não, que eu também encarei. E encarei firme. Firme mesmo. Cara feia, pra mim, sempre foi cu de mico. E, além do mais, desta vez, eu não tava nem perto da porra do painel. Por isso, encarei firme, até que ele se mancou e deixou eu. Cara, se tem porra que me torra é nego vir pra cima de mim sem moral. Torra mesmo. E o xará sabe disso. E tanto sabe, que se virou pro outro lado e, ó, não era nem mais com ele, só mexe que mexe na porra dos botões e o pessoal, olha que olha, se cagando. Mas a porra não desenguiçava, nem por um cacete, e, aí, uma dona gordona, com um par de mamas maior do que a bunda da Marilene, se cagou. Não vai andar, não, moço? Tava bem na minha frente e o suor escorria no rego dos mamões, que nem quando a Marilene me pede pra mijar na bunda dela, sabe como? E a gordona se cagando, e aqueles mamões ali, treme que treme, bem na minha frente. Cara, vou te contar, fiquei dum jeito, doidão mesmo, sabe como? E a gordona, ó, só naquela de tremedeira. Moço, moço. Mas o xará, não era nem com ele. Larga de apertar a merda dos botões e encosta na porra do painel. É. Enguiçou mesmo. E a gordona treme que treme. E agora, moço? A voz tremia igual às mamas e eu já tava que tava. Sou vidrado em mamas, daquelas grandes, que a gente aperta e sobra tudo, sabe como? Marilene fica puta, não tem mesmo. Mas o que salva, é que ela gosta de ser comida daquele jeito e, aí, sabe como é que é, a bunda salva a pátria. Mas, aí, a gordona dana de mexer e as mamas, já viu, naquela de mexe que mexe, cola firme no meu braço. Cara, foi a conta. O pau ficou daquele jeito e eu ali, sabe como? A porra é que todo mundo tava vendo e, aí, sabe como é que é, eu tive que manerar. Mas a gordona tava que tava. Moço, moço, pelo amor de Deus. Cagava de medo e o meu braço, ó, cada vez mais metido naquele rego. Cara, que bunda de Marilene, que nada. Mil vezes aquelas mamas, feito que nem geleia, puta que pariu. E, aí, não deu mais pra manerar. Deixei o pau rolar e dei uma geral. Todo mundo enfiado, que nem bacana flagrado chupando pau de michê dentro do carro. E tinha um do outro lado, já mais pra lá do que pra cá, gravatinha daquelas, sabe como? Daqueles que bota moral até na mãe, mas na hora do vamos ver, adora é cacetão. Conheço o jeitão desse gado, cara. Por isso que falo. E o coisinha, pra lá de machão, não é que vai e mete os peitos, o merdinha? O senhor não pode verificar o defeito, não? Cara, o xará pulou feito pipoca. O defeito? Aí, o vaselina, não teve jeito, derreteu. Será que não haveria um jeitinho... Mas o xará não deu nem bola. Mas que jeito? Não tá vendo que o jeito é abrir a porta, pô? Aí, cara, a gordona danou-se. Joga o corpão todo pra cima de mim e abre as pernas, e, ó, foi aquele barulhão. Mas peidão mesmo, cara, que saiu até zoando. Moço, pelo amor de Deus, abre logo. Aí, cara, o xará, não teve como. Engrossou mesmo. Abre como, dona? Não tá vendo que esta merda enguiçou, não? E vê se toma jeito, viu?, que isto aqui não é privada, não. Dava até pena, meu irmão. A gordona enfiou e eu, mas quê que eu podia fazer, hem? Só aproveitar, é ou não é? Lasco o pau no coxame e as mãos por baixo do braçal, e mandei ver, foda-se. Mas, aí, o xará melou tudo. Olha aí, gente. O jeito, agora, é esperar os bombeiros, viu? Aquela porra tinha ventilador, mas o fedor do peidão, vou te contar, fodia tudo. E o pessoal suava, que suava, melecado feito que nem porra. Mas eu tava na minha e fiquei, sabe como? Mandando ver nas mamas da gordona, me esbaldando. Mas aí, uma moça magrinha, que eu conhecia lá do meu andar, resolveu dar uma de gostosa. E como é que chama os bombeiros? Cara, não teve jeito, o xará descabelou. Descabelou mesmo. Como é que chama? Ora, dona, chamando, qual que é? Cara, a magrinha era só osso, mas era carne de pescoço, sabe como? E quem que vai chamar? Você? Aí, cara, o xará nadou de peito. Qual que é, dona? Tá me estranhando, é? Quem que vai chamar é a portaria. Ou tá pensando que isto nunca aconteceu? Nós tamo no Brasil, dona, não tamo... Se fosse eu, sabe o quê que eu falava? Nós tamo é na puta que a pariu, viu, dona? Mas o xará, vai ver, precisa daquela porra, e já viu, deixou pra lá. E foi aí que a D. Dores resolveu entrar na dança. A D. Dores é a secretária do meu chefe, conheço ela, ó, pior do que tricha malcomida. Mesmo quando pegaram ela chupando o pau do chefe, lá no gabinete dele, nem aí ela tremeu. Diz que botou a pica dele na braguilha, como se não fosse nem com ela, e botou todo mundo pra rodar. Numa boa. D. Dores é foda, cara. Se tivesse pica seria macho, isso eu garanto, porque culhão, cara, ela tem mesmo, viu? E, vou te contar, quando ela olhou pro xará, cara, ela já tava era bufando. O senhor veja como fala. Aqui não tem gente da sua laia, não. Ah, mas o xará matou no peito. Matou mesmo, cara. Ah, D. Dores, não enche, tá? Não enche, não, que senão... Cara, do jeito que o xará olhou a pirua, tenho certeza que tava lembrando direitinho ela chupando o pau do chefe. Ah, tava. Todo mundo no Acaiaca sabia da porra da chupada, cara. E teve gente bateu punheta, ó... Até eu. E foi aí, cara, que um bostinha, cabelinho daquele jeito e voz fininha, sabe como? Foi aí que o putinha deu pra dar chilique, vê se pode. Este elevador é sempre assim, é? Aí, cara, o xará pulou a cerca. Às vezes, cai no poço. Por quê? Mas o merdinha não medrou, não. Encarou, cara. Perguntei com educação, viu? Aí, não deu. Até o xará teve que rir. Fica frio, cara. Desmunheca não, tá? Mas o merdinha tava que tava e mandou ver. Tava só perguntando, eu, hem? Falta de educação. Aí, cara, não teve jeito. O xará se queimou mesmo. E eu tava só respondendo, falou? Se manca. Se manca, vai. Cara, o xará engrossou tanto, que até a gordona se mancou. Não sei se eu tava pegando firme demais na mamoada ou se o pau tava machucando, sei lá, mas ela me olhou dum jeito, cara, que eu até pensei que ela ia era botar a boca no trombone. E fiquei na minha, sabe como? Se a gordona armasse berreiro ia ser aquela merda. Ah, ia. Ia mesmo, cara. Mas sabe o quê que a filha da puta faz? Só me encara e continua firmando a bunda no meu pau, vê se pode. E, aí, cara, aí eu liberei geral e deixei ela se esbaldar. E a filha da puta sabia como, sabe como? Pra não dar bandeira fingiu até que deu chilique. Moço, moço. Cara, eu não sabia nem se apertava ou se enfiava, e nem sei se o xará matou a jogada, tá entendendo? Mas que ele foi cem por cento, isso foi. Calma, dona. Calma, que dá. E vai que pisca pra mim, o filho da puta. E foi aí, meu irmão, que eu percebi que ele tava na minha, deu pra entender? Mas até estranhei. E estranhei, porque teve um tempo aí que a gente não se cruzou lá muito, não, sabe? Não foi por nada, não, mas eu bem que desconfiei que o filho da puta tava querendo era comer a Marilene. Mas manerou e coisa e tal, a Marilene me dizendo que eu tava era vendo chifre de boi em cabeça de cavalo, e o caso esfriou. E, de lá pra cá, a gente se respeita. A Marilene, cada dia, mais grudada e eu levando, sabe como? Por isso, estranhei aquela piscada do xará, tá entendendo? Mas como ele piscou e virou pro outro lado, deixei pra lá. O meu negócio não era esquentar à toa, não, era a gordona, sabe como? E deixei ela se esbaldar. E foi aí, cara, que a D. Dores pensou que ainda tava no gabinete do chefe, vê se pode. Este elevador não tem telefone, não? Cara, eu só queria que tu visse o xará. Mais puto do que um puto, tá entendendo? Claro que tem. Só que não funciona. Ou a senhora não sabe, hem? Mas a pirua, cadê que a pirua se calou? Calou nada. Mas isso é um absurdo. Cara, aí, danou tudo. O xará botou pra foder mesmo, sabe como? A senhora sabe o quê que é um absurdo, D. Dores? Olha que eu sei, e muita gente também sabe, tá bom? Cara, naquela hora, fissurei na porra do xará. Fissurei mesmo. Se tivesse filmado a porra da chupada, dava até uma cópia pra ele. Dava mesmo. O cara merecia, cara. Enfrentar um trem feito que nem a D. Dores não é mole, não. É troço paca. Mas que ela também já tava, ó... Depois das catucadas do xará e do calorão que fazia naquela porra, não era mais aquela, não. Já tava muito mais pra boi ladrão do que pra onça, sabe como? As pelancas borradas que nem cocô e a tal da piruca que parecia até pentelho de cachorro. Mas não era problema meu, e, aí, larguei da pirua e mandei ver foi na gordona. Cara, vou te contar. A bunduda tava que tava. Bufa que bufa e a bunda lasca que lasca no meu pau. Cara, mais um sei lá o quê e eu, ó, fodia era a cueca. Não dava mais nem pra parar, sabe como? E tou eu no quase quase, e não é que a filha da puta abre um berreiro do caralho e vai de tapa na cara dum coitado, que tava do lado dela, e fode tudo? Cara, tu conhece aquela estória do tal do elefante que comeu a formiguinha, troço doido pra caralho? Pois é. A gordona armou uma zorra que nem a porra da formiguinha, nunca vi. E foi aquela confusão, cara. Pisão, cotovelada, o caralho, sabe como? E o berreiro? Cara, só a gordona parecia que tava era gozando no cu e no caralho, puta que pariu. E, aí, não teve jeito. O xará teve que sair na moral mesmo. Senão virava zorra, sabe como? Porra, dona. Vê se cala a boca, puta merda. O xará, vou te contar, tava pior do que cabaço no cacete. E tava certo. Na hora da cobra fumar quem se fode é quem dá fogo. Na hora de D. Dores chupar o pau do chefe quem se fodeu foi D. Ló. E olha que D. Ló, coitada, já não via pica, ó, só a minha já fazia mais de ano. E tu sabe quem que fodeu ela? Seu Pedro, um escroto dum viado, peixinho da pirua, que falou que foi ela que inventou. Inventou nada, cara. Todo mundo viu foi a porra da chupada. Meu irmão, diz que Deus é grande e é mesmo, sabe como? O filho da puta tava ali na minha frente e tava, ó, fodidão mesmo. Que nem cu depois de peido, sabe como? Mas como tava do lado da filha da puta, deu pra dar uma de machão, vê se pode. O senhor tem que abrir essa porta. Tem senhoras aqui dentro. Cara, o xará encara o puto de um jeito, que eu até pensei que fosse matar ele, puta merda. E por quê que tu não vem abrir, hem, seu viado? Diz que, eu nunca vi, mas a Marilene é que diz que Seu Pedro andou chupando o xará, troço rapidindo, entra no banheiro, sai do banheiro, sabe como? E diz que ele não pagou e o xará ficou puto, e pegou ele. E diz que deu até, ó. Mas como o puto tava ali escorado na pirua, aí pensou que era hora de tirar a diferença, sabe como? Mas sifu, cara. Sifu. Sifu mesmo. Mas o mais gozado não foi só isso, não. O mais gozado foi aquele gravatinha, lembra dele? Aquele que perguntou pro xará se o xará não tinha jeito de dar um jeito, lembra, e o xará pulou em cima? Agora, vê se pode, o xará puto com o escroto do viado e vem o porra do gravatinha e mete bronca. Vê se pode, cara. Mais educação, viu? Não tá vendo que tem senhoras aqui dentro, não? Cara, o merdinha sapateava e ciscava que só vendo, vai ver, assim, ó, com o escroto do viado, comida dele, só pode, e o xará tá que tá, só olhando, sabe como? Aí, cara, o merdinha, vai ver, pensando que tá escorado no escroto, estufa os peitos e manda ver. O senhor sabe com quem está falando? Assim mesmo, cara, o senhor sabe com quem está falando? Cara, tu tinha que tá lá só pra ver. O xará passa a mão no colarinho do puto e, ó, não quer nem saber. Tou falando com um viado, e aí? Cara, tu tinha que tá lá mesmo, sabe? O merdinha dá uma de peitudo e vai pra cima do xará, mas não deu nem prá saída. Foi a mão do xará encostar nele e o porrinha cafunga que cafunga, que nem eu quando arrumo uma legal, sabe como? Cara, taí, gostei do xará. Todo mundo só querendo pisar firme e o cara, ó, segurando as pontas numa boa, só na moral mesmo. Era a gordona, era a pirua, era o escroto, era o gravatinha, todo mundo ali calado, ó, que nem cu de surubim. Mas, aí, o putinha, aquele que tinha dado chilique, lembra dele? Aquele do cabelinho daquele jeito, que tinha perguntado se aquela porra era sempre assim, sei lá o quê, e o xará mandou ele se mancar, lembra? Cara, que trem esquisito que deu nele, puta que pariu. Sem mais nem menos, mete os pés na parede e empurra todo mundo, e pega de berrar que nem puta em camburão. Me deixa. Me deixa. Me larga, que eu abro... Abriu, porra nenhuma. Desmilingüiu foi na hora. E, aí, cara, foi que zoneou mesmo, puta que pariu. Era grito, era empurrão, era pernada, ai, meus Deus, aperta, não, calma, gente, quê que é isso, empurra, não, vai se foder, o caralho, sabe como? E eu só rindo. A gordona tava que parecia de pedra, dura mesmo, e a pirua, cara, essa tu precisava era de ver. Se o chefe tivesse ali, duvido que deixasse ela chupar o pau dele. Duvido. Duvidêódó. A filha da puta fodidona e eu só rindo, sabe como? Aí, sua vaca. Chupa aqui, sua puta. Ou tu pensa que só chefe é que tem pica, hem? Mas não deu nem pra levantar a merda do cacete. Quando eu tava vai que vai, não é que a porra do gravatinha se escora em duas moças e manda ver no colo delas? Cara, eu não sei se tu já viu um porra vomitar na tua frente. Cara, é do caralho. Um nojo mesmo. Mas, aí, cara, quando as moças bota a boca no trombone, cara, nem te conto. Liberou geral e foi aquela zoneada. Era outra vez grito, era empurrão, era pernada, era o cacete, sabe como? E o pior foi a gordona. Mete os pés em todo mundo e, ó, não sei nem se foi o vestido que rasgou ou que porra que ela fez, as mamas fica tudo cá de fora. Aí, cara, aí não teve nem jeito. Puxo a mamoada pra mim e não tou nem aí. Quem quisesse que se fodesse, sabe como? E foi do caralho, cara. Quando a filha da puta bota aquela mamoada toda na minha cara, cara, nem te conto. Foi a maior gozada que eu já dei na minha vida. Sinceramente. Que bunda de Marilene, que nada, cara. Aquela peitaria não tem outra. Mas sabe o quê que aconteceu, ainda eu tava mamando na gordona? Isso aí, cara. Isso aí. A chupadora de chefe parte pra cima do xará e quer meter a mão na cara dele, vê se pode. Cara, foi a conta. O xará segura a filha da puta e a filha da puta berra, e não é que o escroto do viado de Seu Pedro quer dar outra de machão? Larga a D. Dores, cafajeste. Aí, cara, fodeu tudo. Fodeu mesmo. O xará manda o puto prá puta que o pariu e mete a mão nos cornos dele, e joga a pirua pra cima da gordona. Óqui, gente. Ou todo mundo se manca, ou esta merda vai pro poço. Cara, quando o xará falou aquilo, tu tinha era que ver. Uma lourona que tava lá do outro lado, daquelas que até santo quer comer, sabe como?, não sei que dá nela, ranca a piruca e empurra todo mundo, e, ó, vai que é mole pra cima do escroto do viado. Pára com isso. Pára com isso. Aí, cara, pra mim danou-se. Ah, já tava de saco cheio, sabe como? E aí, sabe quê que eu fiz, só pra zonear de vez aquela porra? Hem? Isso aí. Mando ver mesmo e, ó, sai que lá vai peido. Sério, cara. Lembra do peidão da gordona? Foi pinto, cara. E, aí, meu irmão, aí fodeu tudo. Fodeu mesmo. A porra da luz apaga e a merda do ventilador vai pro cacete, e foi aquele fuzuê. Mas aí, cara, nem te conto, viu? Baixa um troço em mim, cara, que não tem nem como segurar. Passo as mãos na gordona e, ó, o berro foi até na casa do cacete. Vai cair. Cara, foi do caralho. Fim de mundo mesmo, cara. Nego berrando, nego rezando, nego chorando, nego, sei lá, se cagando e mijando, do escambau, cara. E eu, ó, na minha, sem essa de medo, só rindo. Só esperando baixar a poeira pra mandar outra zoneada, sabe como? Mas, aí, cara, fodeu tudo. Cada um é como é e eu sou do meu jeito, sabe como? Depois da gozada, mulher, pra mim, é home. Marilene fica puta, mas é assim que eu sou, quê que eu posso fazer? Gozei, cabou. Cada um pra seu canto, até o pau levantar outra vez, sabe como? E eu tava nessa, cara, e não é que a gordona cisma de aprontar? Vem pra cima de mim e bota a mão onde não deve, e foi aquela merda. Se tem troço que me torra é filha da puta saliente, sabe como? E ia meter o pé na bunda da filha da puta e quê que a filha da puta faz, cara? Se joelha e pega no meu pau, e, ó, cai de boca em cima dele. Aí, cara, não deu pra segurar. Eu tava puto, tava mesmo, mas não deu pra segurar. Quanto mais a filha da puta mamava, mais eu ria. E era riso, cara, do caralho. Aí, deixei rolar, sabe como? A gordona mama que mama e eu só rindo. E quanto mais eu ria, mais o pessoal se calava, sabe como? E ri tanto, mas tanto, cara, que o pessoal todo se calou. E quando o pessoal se calou, aí, cara, aí eu tava pronto. Prontinho. Peguei os braços e cresci eles, e abracei todo mundo, sabe como? A gordona, a pirua, a lourona, o xará, todo mundo. Todo mundo se borrando e eu abraçando todo mundo, cara. E quanto mais o pessoal se borrava, mais os meus braços crescia e mais eu abraçava todo mundo. E numa boa. Numa de irmão mesmo, sabe como? Mas, aí, cara, a gordona larga a minha pica e dá aquele berro. Ai, meu Deus, que eu vou morrer. Aí, cara, foi a conta. Fiquei puto. Puto mesmo. Ah, vá prá porra. Se não quer acabar, não começa, é ou não é? Cara, cresci o corpo todo e foda-se. E quanto mais os puto se cagava, mais eu crescia, sabe como? E cresci tanto, e tão puto, cara, que o xará mela na minha frente e pede perdão da Marilene. Cara, nem te conto. Garrei a cabeça do filho da puta e, ó, cabei a raça dele. Cabei mesmo. Aí, foi a pirua. Filha da puta, por quê que tu nunca me chupou, hem, filha da puta? O escroto, esse, não deu nem prá saída. Cagou tudo e morreu de boca aberta, como se fosse me chupar, o escroto do viado. Os outros, foi mais ou menos. As moças mija nas calcinhas, a lourona quer me dar e eu não quero, o gravatinha pede pra rezar não sei o quê, e fui levando, sabe como? Nem meia hora depois, todo mundo tava morto. Caladão mesmo, cara. Aí, meu irmão, aí eu tive que decidir. Ou mandava aquela porra pro poço, ou me mandava, sabe como? Aí, me mandei. A Marilene tava me esperando e ela fica puta quando eu não apareço. Aí, cara, acendi a luz, liguei o ventilador, e saí. Subi pela escada e fui à sala do chefe. Cara, foi só o puto olhar pra mim e, ó, foi aquela tremedeira. Mas eu não tou nem aí, sabe como? Mando uma porrada nos cornos do filho da puta e tu sabe o quê que o puto faz? Joelha na minha frente e quer chupar o meu pau, vê se pode. Cara, aí, já viu, ganhei o dia. Mijei na boca do filho da puta e vim embora, sabe como? Aí, cara, fui à lanchonete do térreo e mandei vir um bauru e um refresco. Cara, eu merecia. Eu era mais eu, sabe como?
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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quero do nada... (Pedro Du Bois)



Quero do nada o barulho das coisas
silêncio em que envolvo a noite
onde sombras apresentam tormentas
cães imóveis nas beiradas das casas
zelam o sono dos donos espiam o que quero:

ínfima parte repartida
antes da aurora e do acordar da amante
corpo sobre a cama imensa de vazios
meus pobres pedaços
vontade ânsia angústia e morte recolhidas

nada e tudo rodeado em vida
recolhida nos desvãos das luas novas
escuridão em que os espíritos tateiam as paredes
corpos roçam vontades
mães sobressaltadas na perdição dos sonhos.

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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Suma-dor (Clauder Arcanjo)
















O néctar da noite
exala o augúrio da tarde,
e trescala a dor da madrugada.
Que já perto desponta:
infinita, profunda e pesada.
Macaé-RJ, 18/05/2007

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sábado, 11 de abril de 2009

Interminável (Inocêncio de Melo Filho)
















Para Joyce Mesquita


Colho metáforas nos teus olhos


Deixo-as cair no solo


Dos nossos sentimentos


Para que nada se perca


Para que tudo se transforme


Numa interminável colheita

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os contistas cearenses (Batista de Lima)




O escritor Nilto Maciel, além de talentoso narrador, prova que é possuidor de raro destemor, ao resolver organizar uma antologia dos contistas do Ceará. Isso porque esta nossa terra é um celeiro de narradores respeitáveis e de contadores de histórias que se consideram gênios da narrativa, tão geniais que toda a literatura russa teria que se curvar para beijar-lhes as mãos. Mas o Nilto Maciel fez sua escolha e saiu-se bem, principalmente pelos comentários e pelos estudos bibliográficos de cada um dos escolhidos. Isso não vai impedir de receber desaforos e rabissacas ao longo de seus dias.Além disso tudo, surpreende o valor didático da obra. É tanto que se for feito o mesmo trabalho em torno da poesia, do romance e da crônica, nós passaremos a ter um panorama completo de nossa evolução literária alencarina. É preciso, no entanto, muita paciência para catalogar tantos autores e tantos textos, além de elaborar um parecer crítico sobre cada um. É exatamente através desses pareceres e da fortuna crítica de cada autor, levantada por Nilto Maciel, que fica patenteada sua performance como pesquisador e teórico da literatura.

Não se pode negar que o autor deve ter tido muito trabalho para, ao longo de 343 páginas, traçar um panorama da arte do conto entre nós. O apoio que recebeu da Secretaria de Cultura, para a edição do livro, através da Imprece, foi fundamental, tendo em vista que das tantas obras que apareceram no cenário cearense em 2008, essa se revela como uma das mais significativas. Não se detectam apadrinhamentos para a veiculação de nomes e textos, nem a presença de defeitos que mereçam ênfase.

A ordem com que os autores aparecem, segue uma via cronológica, o que traz à tona, em primeiro lugar, como representantes do século XIX, apenas Oliveira Paiva e Adolfo Caminha. Nilto Maciel não foi cativado pela infeliz idéia de Braga Montenegro de considerar José de Alencar como contista cearense, nem veiculou os racontos de Juvenal Galeno, de Cenas Populares, todos captados da tradição oral e pesquisados entre os nossos iletrados sertanejos da época. Mesmo assim ele não prescindiu, como fonte principal de suas pesquisas, os ensaios de Braga Montenegro, ´Evolução e natureza do conto cearense´, e de Sânzio de Azevedo, ´O conto cearense, de Galeno ao Grupo Clã´.

Ao longo de sua garimpagem, o pesquisador verificou que o manancial de contistas entre nós é tão vasto que necessária se faz a elaboração de um volume 2 para se contemplarem nomes que não foram destacados neste primeiro volume. Para nós leitores, será também interessante encontrarmos nesse próximo volume, contista do interior cearense, principalmente do Cariri e da Zona Norte, celeiros de narradores em torno do fantástico.

Outra sugestão para Nilto Maciel é de que seria mais profícua a elaboração de um trabalho similar em torno dos melhores poetas e poemas de nossa literatura cearense, nos mesmos moldes desse seu volume sobre contos. Em um momento posterior, o mesmo poderia ser feito em torno de nossa crônica, gênero injustiçado entre nós, mas produtor de valores incontestáveis para a nossa literatura.Mas voltando aos contos, como é bom o reencontro do leitor com narradores como Hermam Lima e Gustavo Barroso, Fran Martins e Moreira Campos, Juarez Barroso e Yehudi Bezerra, Paulo Veras e Natércia Campos, só para citar aqueles que já nos deixaram e foram contar histórias em outras dimensões. Depois, verificar a quantidade enorme de contistas jovens e talentosos surgidos nos últimos dez anos entre nós.

Com relação ao título da obra, Contistas do Ceará: d’A Quinzena ao Caos Portátil, fica clara a delimitação temporal em que se enquadra sua pesquisa. Afinal, antes do surgimento daquele periódico porta-voz do Clube Literário e após a novel publicação organizada por Pedro Salgueiro e Jorge Pieiro, pouquíssimo de contos pode ser constatado nesta nossa terra. Diferentemente do título de sua obra anterior, Panorama do Conto Cearense, de 2005, com essa abrangência indefinida, agora tem-se um trabalho com suas fronteiras bem definidas e de bem fácil compreensão.

Diante disso, bastava para Nilto Maciel, ao confeccionar sua Síntese Cronológica, ao final da publicação, iniciar exatamente em 1887, com o aparecimento de ´A Quinzena´ que ele chama de jornal, mas que na Introdução aparece como ´revista´, e terminar em 2005 com a criação de ´Caos Portátil´. É praticamente insignificante em termos de narrativas curtas, o que nos aconteceu antes e depois desses dois limites, respectivamente. Por isso que Nilto Maciel, diante desse seu criterioso inventário de nossa produção em contos, se inscreve como historiador de nossa literatura, nesse seletíssimo quarteto de pesquisadores, em companhia de Dolor Barreira, Barão de Studart e Sânzio de Azevedo.


(Diário do Nordeste, Caderno 3, Fortaleza, 31 de março de 2009)

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ruínas (Ailton Maciel)



Meu Próximo, medita em mais: talvez, até,
Lá para o diante, se hoje o punho ultriz levantas.
Verme - talvez alguém te esmague a ti com o pé!

(Júlio Maciel, "Do homem ao verme")

Sinto em mim a dirupção do meu viver,
e da calma que guia e me conduz
no duro labirinto do sofrer,
morre em mim a doçura, a vida, a luz!

Prazer não sinto, nada me seduz,
impassível estou ao padecer,
vendo, dia a dia, aumentar a cruz
que à vida rouba todo seu prazer!

Que importa tudo: – a luz, o ouro ou a glória,
o fracasso, a desonra ou a vitória;
pó, só pó, é afinal, o que somos!

... E quando à vida a esperança roube o mundo
ou a morte venha, só por um segundo
deixamos de ser tudo e o mais que fomos!

Fortaleza, 26/2/65
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

José Daniel, rival de Bocage (Adelto Gonçalves)



I
Ao contrário do que muitos imaginam, ao final do século 18, em Lisboa, não eram de Bocage os versos que mais se repetiam na boca dos cultores de poesia. Pelo menos entre aqueles que cultuavam uma espécie de poesia mais popular, senão chocarreira. Não é que Bocage não tenha pago o seu preço ao duvidoso gosto da época — e o fez com abundância, com versos que, mais tarde, lhe garantiriam um lugar de destaque entre autores fesceninos que seriam procurados com outros propósitos que não o de reverenciar a qualidade do poema —, mas é que a maioria de suas composições — digamos assim — mais sérias não atraía esse tipo de gente que freqüentava tascas e casas de pasto nos arredores do Rossio. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O pai a flecha a gosto (Clodomir Monteiro)



Quem gera a flecha octogonal

I
Introdução do pai outono
o pai na flecha que o define
não finda o fim de quem o tem
se quem não tem vivo o seu arco
vive a procura pela haste
arremessada sem a ponta
II
constante arte armadeira
constante a haste de madeira
provida pedra aguçada
pontuda tem inconstante ferro
flèche a origem fala mecha
penas ou barbas nesta langue
III
objeto forma da flecha
se quem ataca quer vencer
munida vem de um entalhe
adaptado à corda d`arco
o pai será bem conformado
ele objeto flecha e seta
IV
pai geometria octogonal
a quem do raio perpendicular
à corda o pai acerta geometria
flecha jungida entre esta e o arco
gera figura a outra flecha bela
da natureza parteira da vida
V
na arquitetura dos arque dutos
agulha de piramidal remate
da torre igreja obra sacro oficio
templo arquiteto demais edifícios
o pai agulha construtor profano
provê fachada santos aquedutos
VI
paterna construção mecânica
Pai curvatura viga que situa
peça obediente transversal esforço
integra inteiro o seu comprimento
à largura abaixo e acima flutua
não cria só com a terra mãe atua
VII
reina sagittaria montevidensis
na embocadura também reina flecha
do pai rebento enxerto terminal
flecha galocha a proteger a brecha
inflorescência fogo das gramíneas
pai planta aquática ornamental
VIII
botão da paternidade botânica
sinal do desenho certeira flecha
durante a vida educa e dirige
pai quase sempre martim - pescador.
busca comida outonando amor
flecha de parto filho pai revive

Rio Branco, 1 / 2 – 8 – 2007
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Realismo carnavalizado (Fernando Py)



O livro de Nilto Maciel é bem curioso. A cidadezinha de Palma, no interior do Ceará, recebe a visita de jovens estudantes brasilienses, justo durante o carnaval. É grande a balbúrdia: animais e homens se misturam, quase todos os homens estão fantasiados de bichos, e o bêbado Zuza se confunde todo ao olhá-los. É o começo da história, e o clima permissivo do carnaval reforça a estranheza da narrativa. O leitor se vê apresentado a um ambiente de luxúria, violência, humor e nonsense, descrito em cores realistas, mas de um realismo muito sujeito a ser atingido por uma sátira que o desqualifica, um realismo carnavalizado (no sentido definido por Bakhtin), onde nada do que ocorre pode ser como é descrito: por exemplo, a matança de cães, no início da quarta parte, não é para ser tomada ao pé da letra, pois os cães sacrificados voltam a aparecer no fim da história. Assim, verdade, invento, realidade e mentira podem ser vistos como sinônimos, duas faces da mesma moeda, tão iguais e legítimas que seria difícil, senão impossível, distingui-las. Servindo de pano de fundo ao desenrolar do entrecho, o próprio carnaval permite e alimenta os equívocos, sobretudo na quinta parte, onde uma coruja espia o sono de diversos personagens que sonham as coisas mais doidas e extravagantes. O romance termina com o capítulo único da oitava parte, passado num baile de “frenesi contagiante”, com danças, rebolados, mãos dos homens nas nádegas femininas, etc. o romance de Nilto Maciel pode ser encarado como uma sátira... a quê? Aos destemperos das pessoas durante o carnaval, quando se julgam livres para fazer o que quiserem, principalmente seguindo suas fantasias sexuais? À vida monótona dos povoados do interior – não só no Ceará? Ao próprio gênero romance, que aqui sofre desarticulações em uma narrativa até certo ponto desconexa? A tudo isto, nos parece. Nilto Maciel é um escritor de larga experiência na criação de tipos e ambientes. Carnavalha, com seu sentido alusivo, desde o título (que pode se decompor em carne, carnaval e navalha), fornece o possível aproveitamento de palavras isoladas, como faz o bêbado Zuza no último parágrafo, e previne o leitor para o lado puramente humorístico da trama. Vale a pena ler e reler com atenção.
(Tribuna de Petrópolis, 23/1/2009, caderno “Lazer”, p. 5)
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Madrugada (Clauder Arcanjo)





















O sol, ao beijar os lábios da alvorada, lhe açoitava as carnes, a rasgar sua coragem, a matar-lhe o ânimo. E José Madrugada, oprimido e sem forças, recolhia-se no fundão dos seus despojos. O dia custava a passar. Se José se arvorasse dono de si, pondo os pés fora de casa, por sobre o mosaico de calor e luz, o látego zunia forte sobre as suas costas magras, uma dor habitava o seu corpo, e um grito pungente ganhava os ares da pequena vila. E a noite, então, era ansiosamente esperada. De olhos fechados, um rosário de prece a quebrar o silêncio dos seus lábios, antes exclusiva morada do rito da dor. Mas quando o ocaso chegava, Madrugada ganhava ares de ressurrecto, e um sorriso trigueiro assoviava dentro do seu peito.
— Salve, bendita noite. Salve, salve! — espalhava aos quatro ventos.
Quando a escuridão reinava, toda a pequena Licânia dormia, ao tempo em que ruas e vielas eram palco de ganidos lascivos, de luxúrias inomináveis. No adro da Matriz, uma jovem senhora era vista a rasgar as vestes, queimada pela insana vontade de ser possuída por José, carinhosamente saudado como Lobo da Madrugada. As mães oravam por suas filhas, tampando-lhes os ouvidos para que elas não ouvissem os uivos licenciosos na noite. E toda a madrugada era invadida pelo odor de um coito louco, fragrância que deixava os jovens entregues aos próprios desejos, e os velhos a rememorar libertinagens de outrora. Quando o sol beijava as nuvens da manhã seguinte, e o campanário convocava os fiéis para a missa das seis, os casais voltavam às ruas com ares sérios e circunspectos. Era chegada a hora de José Madrugada voltar para a sua sina, recolhido a um infecto quartinho escuro, até o império da nova madrugada.
clauder@pedagogiadagestao.com.br
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Brasil sob a sombra de Oliveira Martins (Adelto Gonçalves)


 
(Joaquim Pedro Oliveira Martins)

I
Ainda está por ser estudada em profundidade a influência do historiador e cientista social português Joaquim Pedro Oliveira Martins (1845-1894) na cultura brasileira, mas o ensaio que o professor Paulo Franchetti dedica ao tema já oferece quase todas as pistas para quem tiver disposição de fazer esse trabalho de rastreamento, que não será fácil, já que essa sombra é imensa e chega até aos nossos dias. O ensaio “Oliveira Martins e o Brasil” faz parte do livro Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa, que Franchetti acaba de lançar, reunindo outros 16 textos que abrangem os três núcleos de interesse do seu trabalho de pesquisa - a poesia brasileira, o romance oitocentista português e o exotismo.
Como o autor informa na apresentação, os textos foram quase todos publicados anteriormente em revistas acadêmicas ou na Internet. De assuntos variados, o que os distingue é que foram escritos de olho num público amplo, não especializado, o que os torna leitura agradável, nada acadêmica.
Em “Oliveira Martins e o Brasil”, Franchetti alerta para o fato de que as idéias do historiador oitocentista ainda são parte da cultura brasileira “de uma forma muito mais intrínseca do que poderia parecer a uma primeira vista de olhos”. E cita como exemplo que, em 1995, quando do lançamento do filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, o escritor Antonio Callado (1917-1997), ao escrever uma resenha para o jornal Folha de S.Paulo, deixou explícita a sua admiração por História de Portugal, de Oliveira Martins.
Jornalista consagrado e autor de Quarup, hoje um clássico da literatura brasileira, Callado nunca foi historiador, o que talvez justifique as referências elogiosas que fez ao filme, um pastiche de todos os estereótipos que Oliveira Martins escreveu sobre a figura balofa do príncipe regente D. João e sua mulher ninfomaníaca, Carlota Joaquina. Sem qualquer rigor histórico, o filme não agradou não só por seu descompromisso com a História como por seu orçamento modesto que obrigou a diretora a excessivas cenas de estúdio.
Depois de Dom João V no Brasil: 1808-1821, obra máxima de Oliveira Lima (1867-1928), publicada em 1908, e do recente Carlota Joaquina na corte do Brasil, de Francisca L. Nogueira de Azevedo (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003), entre outros tantos livros compromissados com o rigor documental, não dá mais para levar a sério as imagens parciais construídas a partir da abordagem da vida pública e privada tanto de D. João como de Carlota Joaquina. Como se sabe, tudo isso fazia parte da propaganda subterrânea empreendida pelos republicanos que, como na França, o que pretendiam unicamente era desmoralizar e fazer ruir a monarquia a qualquer preço.

II
Não se faz aqui uma defesa do absolutismo monárquico, longe disso, mas apenas de uma maneira isenta e rigorosa do ponto de vista documental desse trabalho incessante que é a (re)interpretação da História. E Oliveira Martins nunca se preocupou com esse rigor. Talvez porque as circunstâncias da época em que viveu até o impediam. Se vivesse hoje, não lhe faltariam figuras bizarras de presidentes republicanos e seus ministros para expor ao ridículo.
Franchetti observa que, do ponto de vista de Oliveira Martins, a pujança de Portugal como nação não vai além do reinado de D. João II, atribuindo-se a senectude e decadência do país aos reinados de D. Manuel, D. João III e D. Sebastião. A Restauração de 1640, para Oliveira Martins, produzirá outra nação, igualmente sem força, fruto artificial das necessidades do equilíbrio europeu e, depois, reduzida a um protetorado britânico cujos feitores seriam os reis da dinastia de Bragança. Sem contar o interregno em que o general britânico William Beresford (1768-1854) comandou pessoalmente o país, depois da expulsão dos franceses.
Escarafunchando o pensamento de Oliveira Martins, Franchetti pergunta: como se processou a colonização do Brasil a uma época em que a metrópole morria? Para Martins, teria sido o caráter aventureiro dos paulistas que respondeu pela manutenção do gênio explorador português nesta parte do país, enquanto as demais regiões o perdiam pela vida ociosa, apoiada na escravidão e no luxo sem medidas. Talvez Oliveira Martins não suspeitasse que os paulistas dessa época teriam do português talvez apenas a fala, mas já um tanto arrevesada, e o espírito aventureiro ou heróico, pois eram de pele escura e cabelos lisos, como os paraguaios e os bolivianos de hoje. E sequer andavam no mato de botas, mas descalços.
Para Franchetti, foi Oliveira Martins quem, ironicamente, mais argumentos ofereceu ao discurso antilusitano e antibragantino que se organizou no Brasil pelo menos até os anos trinta do século XX. E que reaparece, por exemplo, em Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), e igualmente em A América Latina - males de origem, de Manoel Bonfim (1868-1932), que desenvolve a tese segundo a qual o mal de origem da América Latina seria o parasitismo das metrópoles, “perpetuado, depois, no parasitismo das classes dominantes”.

III
Franchetti lembra que Bonfim aproveita amplamente a visão de Oliveira Martins da história portuguesa, atribuindo os principais males do Brasil à (des)organização social da metrópole que teria sido transmitida à colônia. Mais: Bonfim usa não só a base ideológica como o próprio vocabulário de historiador luso, deixando de lado, porém, suas idéias racistas sobre a inferioridade congênita dos negros e a teoria segundo a qual os povos formados a partir do negro e do índio seriam incapazes para o progresso.
Para quem não recorda o vocabulário pitoresco de Oliveira Martins, Franchetti reproduz até um trecho de O Brasil e as colônias portuguesas (Rio de Janeiro, Topbooks, 1993), exatamente aquele em que o autor se refere à transferência da família real para o Rio de Janeiro em 1808: “Uma nuvem de gafanhotos, que desde o século XVII devorava tudo em Portugal, e ia pousar agora no Brasil, para, em casa, o digerir mais à vontade (...)”.
Com isso, diz Franchetti, Bonfim, baseado numa autoridade insuspeita, por ser portuguesa, desenvolve o argumento de que boa parte dos males brasileiros resulta dos vícios da metrópole, inclusive, atribuindo à separação em 1822 a conchavos palacianos para manter privilégios parasitários, sem a participação popular. Diga-se de passagem que falar em participação popular, no começo do século XIX, é um tanto anacrônico. Mas que a independência brasileira não saiu de um movimento arquitetado pelas elites coloniais, como na América espanhola, é bem verdade

IV
Franchetti encontra igualmente na obra de Gilberto Freyre (1900-1987) a gênese do pensamento de Oliveira Martins, embora não desenvolva a reflexão sobre que pontos, de fato, o antropólogo pernambucano absorveu as idéias do pensador luso. Não vai além por que considera o seu ensaio apenas o balanço parcial de um trabalho ainda inconcluso, o que prenuncia que deverá ser ele mesmo quem irá a fundo nessa tarefa de buscar as raízes do pensamento de Oliveira Martins na cultura brasileira.
Como se vê, se um instigante ensaio de 21 páginas já suscita tantas idéias e questionamentos, é por que estamos diante de um pensador de inegáveis méritos, capaz de transitar com segurança não só pela literatura como pela história comum de Portugal e Brasil e por vários de seus melhores autores, de Camilo Castelo Branco (1825-1980) e Almeida Garret (1799-1854) a Eça de Queirós (1845-1900) e Wenceslau de Moraes (1854-1929), de Gonçalves Dias (1823-1864) a José de Alencar (1829-1877), para terminar na poesia brasileira depois de João Cabral de Melo Neto (1920-1999).
Paulo Franchetti é professor titular de Teoria Literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Publicou, entre outros, os ensaios Alguns aspectos da teoria da poesia concreta (1989) e Nostalgia, exílio e melancolia - Leitura de Camilo Pessanha (2001), além da edição crítica de Clepsydra, de Camilo Pessanha (1995), a edição comentada de O Primo Basílio (1998), de Eça de Queirós, e Iracema (2007), de José de Alencar, a antologia Haikai (1990) e a novela O sangue dos dias transparentes (2003).

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ESTUDOS DE LITERATURA BRASILEIRA E PORTUGUESA, de Paulo Franchetti. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 295 págs., 2007. atelieeditorial@terra.com.br__________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Soneto (Ailton Maciel)



É bem tristonho o amor congratulado
entre sonhos que não se realizam,
e em dois olhos femíneos procurado,
sendo as próprias correntes que deslizam.

Sobre um peito deixando-o esfacelado;
sendo algozes sem dó que martirizam
o corpo e a alma!... Amor purificado
com sonhos que jamais se concretizam!

Assim é o teu amor: vives zombando,
eu te falei de amor, não me escutaste
e os ouvidos, sorrindo, tu vendaste!

Mesmo assim continuo ainda te amando,
que embora só desprezo tu me dando,
somente com um olhar me consolaste!
Fortaleza, 11/2/59
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Jogos (Pedro Du Bois)



Todos os sonhos
terminavam
no copo de cerveja
durante o intervalo

gratificado com o refrigerante
tentava entender por que os olhos
se modificavam em vermelho

paletó e gravata
chapéu

na volta
perdendo ou ganhando
não havia mais a graça da ida
nem conversas sobre sonhos
e futuros

só o bafo
e o cansaço do menino.

(Pedro DuBois, em O MOVIMENTO DAS PALAVRAS)
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domingo, 25 de janeiro de 2009

A construção poética de Napoleão Valadares (João Carlos Taveira*)

(Napoleão Valadares)


Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.

Vamos, pois, ao livro. Trata-se de Delírio Lírico, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, e lançado em Brasília em novembro desse ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Tróia (séc. XIII a.C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.

Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de Os Lusíadas a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.

Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heróico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de enjambement — o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios, sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria.”)

A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços lingüísticos e semânticos. E apresenta — et pour cause — um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho — para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas —, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido...

Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e, nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII — sobre Shakespeare — ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII — num encontro com Dostoievski e Tolstoi — pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estróina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.

Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.

Delírio Lírico é leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.

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* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de seis livros publicados, entre os quais Aceitação do Branco, A Flauta em Construção e Arquitetura do Homem.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dos amores (Pedro Du Bois)




Quando nos encontramos


além do agouro


dos pássaros


temos a certeza


da companhia




não é tardia


a nossa hora




o cansaço


relevado


no que os sentimentos


têm de sobra


e tempo.


(Pedro Du Bois, em DOS AMORES, poema 28)
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sábado, 17 de janeiro de 2009

Sobre Carnavalha (Marco Aqueiva)



Salue, caríssimo Nilto:

Temo enviar uma msg hiperbólica; mas se o faço, é porque fiquei literalmente possuído carnalmamente. Dei-me ao prazer de Carnavalha por duas semanas. Pena que não deu para protelar mais a leitura. Protelar só pelo Prazer, para não perdê-lo. Um amigo costuma dizer-me que, quando me apaixono por uma obra, leio como se fosse poesia. Carnavalha tomou-me na perspectiva ficcional e fez-me tremer amiúde como quando caio no terreno da Poesia. Li como poesia sim!
Sob pena de cair em esquematismos fáceis, permito-me dizer da poesia que se traça enquanto busca e revelação quando os habitantes de Palma, cada um deles em suas obsessões e volúpia inconfessável, adormecem e então entra a estrige, ave consagrada ao espírito de Hermes e seus mistérios, vindo libertar das personagens seus desejos inconfessáveis antropomorfizados e perseguidos porque só podem mesmo ser negados.
Carnavalha é, portanto, mistério que não se deve reduzir a esquematismo. Mas permita-me dizer um pouco mais. Carnavalha é rigorosamente a percepção de Zuza da canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma... carnavalização.
Carnavalha vale, ao que parece, como percepção carnavalesca numa perspectiva psicanalítica revelando o desencontro das personagens palmenses consigo mesmos (como dissemos), como o é também numa perspectiva sociológica revelando o desencontro de Brasil e Brasil. Brasília chega a Palma. A ordem inquieta-se com a desordem. Os belos jovens brasilienses desencontram-se dos feios velhos palmenses. Nessa perspectiva carnavalesca conjumina-se a grandeza/riqueza espiritual de Zuza posto à roda do sacrifício.
Tanto Zuza permanentemente embriagado quanto os palmenses adormecidos põem em funcionamento as engrenagens da poesia no moto-perpétuo de transformações, metáforas e desejos que são da própria natureza do Brasil e da poesia. Bingo!
Extrapolei? Diga-me lá...
Um forte abraço,
Marco Aqueiva
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sonata de silêncio (Clauder Arcanjo)

Para Paulo Bomfim



Antônio Triste, esgotado, após viver três vidas, imensas e misteriosas, naquela fração de tempo que caminha para o repouso de toda hora extinta, encontrou-se com Maria Felicidade. Dama graciosa e bonita, que fora enganada e vendida com seu vestido de chita. “Água que passa” — pensou. “Água que canta em minha tarde” — versejou. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Paris é uma festa! (Nilze Costa e Silva)


(Nilze Costa e Silva)

Este é o título de um livro do grande escritor Ernest Hemingway, que fez parte da comunidade de escritores e artistas expatriados em Paris, como Van Gogh, Paul Cézanne, Pissaro e Paul Gauguin, entre outros.
Paris é ontem, hoje e amanhã. Paris é maravilhosa pela alegria do seu povo. Sempre ouvira falar que os parisienses são mal humorados. Não são. Têm um aspecto risonho e feliz. As ruas e os prédios históricos são muito bem iluminados. Mas não olhe para o chão. Os turistas sujam muito, e o povo, principalmente os jovens parisienses fumam demais. Acho que eles não conhecem ainda um pequeno objeto chamado cinzeiro. O passeio de barco no Rio Sena é imperdível, bem como a visita à Torre Eiffel, símbolo romântico de Paris. Dizem dela que é forte como ferro, mas delicada como renda. A Rachel, nossa guia em Paris, nos falou que sua construção foi primeiramente ridicularizada pelos artistas e escritores da cidade, que consideravam a torre, erigida em 1889, um verdadeiro monstrengo. E que foi construída para comemorar o 100º aniversário da Revolução Francesa. Com o tempo foi se tornando símbolo de beleza, originalidade e magia da cidade de Paris.
Fui a Paris pela primeira vez e nada fugiu às minhas expectativas. Paris respira monumentos, pontes românticas, museus fabulosos, bistrôs e cafés. Ah, os famosos e românticos cafés de Paris... Com mais de 2 mil anos de história, a cidade fascina o imaginário humano, considerada a cidade mais famosa do planeta. Lá se dá um mergulho na história da civilização humana, ao entrar no Louvre, onde se encontram numerosas obras-primas dos grandes artistas da Europa, como Michelangelo, Ticiano, Rembrandt, Goya e Rubens. Telas famosas, como a coração de Napoleão Bonaparte, Santa Ceia, a famosa e enigmática Mona Lisa, esculturas como a Vênus de Milo, e mais enormes coleções de artefatos do Egito antigo, da civilização Greco-romana, artes etruscas, islâmicas, enfim, uma das maiores mostras do mundo da arte e cultura humanas.
É um privilégio quase divino poder passear no bosque de Luxemburgo. Mexe com o imaginário saber que ali vizinho está o túmulo dos filósofos Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. Com toda a intimidade, sentei numa cadeira do Jardim, colo em frente ao castelo da rainha Catarina de Médici. A beleza de Paris é externa e muito mais interna. É uma cidade de iguais, onde as pessoas negras se vestem bem, estão empregadas em locais de destaque, lojas elegantes, bancos, gerências de hotel e, quando jovens e crianças, estão em boas escolas. Pelo que nos falou um motorista de táxi, os imigrantes são bem aceitos, apesar da invasão constante. Existem mendigos nas ruas, mas muito poucos em relação ao Brasil. Geralmente alcoólatras que portam um cartaz: "Estou com fome". Estão agasalhados e geralmente junto a eles está um saco de dormir. Crianças na rua não existem em nenhum lugar da Europa, só vi crianças felizes, risonhas, saindo ou entrando nas escolas ou dentro dos museus.
Fui a Montmartre Montmartre, o bairro boêmio da cidade de Paris, encontro importante de artistas e intelectuais, famoso pelo passado de sua animada vida noturna. Modelos, cantoras, bailarinas e pintores como Degas, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir e Toulouse-Lautrec frequentavam o lugar. Hoje suas ruas ainda se animam com os artistas que pintam suas telas, cantam e escrevem poesias na praça principal. Turistas passeiam pelas ladeiras, seguidos por vendedores ambulantes. Os bares nas calçadas e os cafés refletem o romantismo de uma época.
Turistas, vendedores, ambulantes passeiam pelas ladeiras à procura de lugares famosos e bares bem abastecidos.
Montmartre foi imortalizado na musica de Charles Aznavour, assim traduzida:

"Eu falo de um tempo
em que os jovens de hoje não podem viver mais
Montmartre, ornamentada, coberta de lilás,
e sob janelas, humildes dormiam, em trapos de linho,
viviam nas ruas, ali nos conhecemos,
eu pintando a fome e tu posando nua.
Boemia, boemia, lazer, amor e distração".

Segundo a nossa guia, não se conhece Paris em 4 dias. Nem em 4 meses. E talvez não em 4 anos. Falou que as crianças estudam o dia todo de segunda a sexta em escolas públicas de boa qualidade. Mas as quartas elas não vão a escolas, pois é dia de ir aos museus, frequentar aula de dança, línguas, natação etc. Resultado, a violência é quase zero e não existem assaltos à mão armada, mas os descuidistas, chamados lá de "carteiristas", se aproveitam de um vacilo seu para surrupiar sua carteira.
Andar pela calçada da Île de la Cité (Ilha da cidade), primeira rua de Paris e entrar na Catedral Notre Dame, construída em 1163, nos faz ver que o Brasil é um feto diante da civilização.
Bom, em Paris seguimos o roteiro que todo o turista faz, mas não deu tempo para ver tudo em 3 dias. Claro que pretendo voltar lá para continuar meu passeio, mas morar mesmo, só aqui, na minha Fortaleza amada, onde se serve feijoada, baião de dois de feijão verde com queijo, etc.etc. Na França só presta o pão, embora seja conhecida com uma das melhores culinárias do mundo. Questão de gosto... Aliás uma amiga pediu escargot, num restaurante, e queria que eu provasse. Falei que se for pra comer caracol, pego aqui no mangue do rio Cocó, bem pertinho da minha casa, ora!
Mas se antes eu dizia "não morro sem ver Paris" hoje afirmo: não morro sem retornar a Paris, essa cidade emocionante, deslumbrante, mas que a gente precisa mais sentir do que ver.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Três (Viegas Fernandes da Costa)



I - O cheiro do poema

Deixar assim correr o tempo em meus dedos. Que quer este pássaro em meu quarto? Como ancorar este navio? Tecer de rendas ao som da vida, em uma tarde de verão. Por onde andarão as camponesas que um dia vi em meus sonhos de adolescente? Planger de violões no alto do morro, as redes arrastando os peixes de amanhã. Não conheço, porém, o cheiro do leito nascido dos úberes para meus lábios... sei apenas da cidade, da pequena cidade onde nasci, e deste gosto pasteurizado. Meus pés nunca me levaram ao alto da serra, e aquela estrada de terra que se perdia na mata, e que sempre desejei conhecer por completo, já não encontro mais. Assim, tamborilo duras falanges sobre o peito, esperando aquilo que deixei escapar, e sinto em meu rosto o azul de um céu empurrado pelo vento. Quero tocar aquele velho piano esquecido no canto escuro do teatro, o corpo tangido pelo espírito, e nu sair à rua, rodopiar de braços abertos em meio ao asfalto. O mundo secou, afinal, e cactos brotam dos olhos. Ainda é possível chorar... Assim ressuscitar a criança que corria descalça sobre a orla do mar, os bolsos cheios de areia. Compor a sinfonia do desejo do eterno. O feto embrulhado em seu próprio abraço. Na praça, o velho que grita, o Livro sob os braços. E há tantos fatos neste espaço! Há de se amarrar o bode à trave ali postada, as luzes cintilando em nossos medos. Vou correr, mas as pernas amputadas não se moveram e assim vejo fugir meus órgãos por entre os lábios: vísceras, veias, pulmões. Sou apenas este saco vazio pendurado sobre o cabide de ossos. Ainda assim, reconheço o cheiro do poema.


II - “Años de soledad”

Há tanto o som que ecoa escapa aos meus sentidos. Piazzolla toca em qualquer lugar distante, e faz-se sangue em minhas veias, por hora. Deixo seguir meus passos, meus pés adormecidos, e falanges cansam sobre as letras de um teclado. Que dizer? Há tanto mundo em meus ouvidos, tantos desejos, e tão pouco meu tempo: como Carmosina que suspira sobre as páginas dos seus livros, em espera e prece a Jorge que lhe devolva seu Amado. Ouço assim um saxofone que se anuncia baixinho, e cresce, como crescem as vontades ou a tela nas paredes da cidade no Cinema Paradiso. Saudade dos filmes proibidos que preenchiam minhas adolescentes madrugadas. Sinto-os como doce agonia acalentando minha memória. Caminhar é isto. No fim somos aquele personagem de Tarkovsky, em Nostalgia, que atravessa o leito seco da piscina com a chama de uma vela em suas mãos, afrontando o vento que insiste em nos fazer retornar ao princípio, os mesmos passos, o mesmo caminho, a mesma chama frágil em nossas mãos. Quando chegarmos, é porque terminou, e caímos. O que sobra? Somos, assim, sempre este milagre! Deus? Deus é um caso à parte! O mundo que nasce sob a sombra de uma Lua na alvorada de um tonitruante bandoneon. Talvez um tango, um tango a me levar tantas mágoas, mas danço apenas com as mãos. Meus pés engessados há muito silenciaram passos; amarrados, sabem que as maiores viagens independem deles. Assim, insisto no eterno epílogo, sempre uma vírgula e o desfiar de nova frase, o par de olhos sobre a nudez amante, uma promessa, uma saudade. Simples assim, como crer no credo que se desfia no mosteiro, como saber o texto um templo.

III – Pietá

N’“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford, faz-se verso o som do vento nos rochedos, “as tristes redes do meu pai”. Em “Powaqqatsi”, Godfrey Reggio nos mostra a Pietá de carne e lama escalando a mina, a cabeça rachada pela pedra. A vida corre assim, entre bestas e amantes, como entender? A mão que planta a terra verga a planta, ceifa o caule, suga o sumo: há uma bandeira no alto do Himalaia, tremula onde ninguém vê, por agora; amanhã tremula um farrapo. Ouço, no entanto, os sinos na torre, os gritos da feira, os uivos dos cães. 10.02.1960 – 23.03.2008: está resumida uma vida, e o rosto na fotografia me sorri a sentença de que fujo. Gravo a eternidade em papel, em placas de bronze, em suportes digitais, e descanso para reler a fábula de La Fontaine: a cigarra, as formigas, e a promessa da fome no inverno; com que direito traumatizam crianças com La Fontaine? Hás de ser formiga, e assim não passas fome! Mentira, porque a função da formiga é dar de comer à rainha, e morrer! Mas esta noite não é cáustica não: retorno à velha poltrona que reinava no sótão do meu avô, às mãos o livro de Lobato e sua Emília. Como seria uma vida de sítio? – matutava. Trepar em árvores, banhos de rio, um Barnabé habitando as margens. O doce torpor de rememorar as noites de livros no sótão do meu avô, o adulto que não chegava em mim. Era o tempo em que ainda havia pés dispostos a correr, a chutar uma bola, a embrenhar-se nos matos da vizinhança. Hoje não há mais pés, tampouco há muita mão, desta resta muito pouco: uma sombra de dedos, uma palma sem alma. Suspiro! O medo de ser abandonado criança à porta da escola, no morrer da tarde: tic tac tic tac tuntum tuntum, e de repente a figura do pai que despontava na curva, o sorriso no rosto. Assim faz-se verso o tempo no sótão, o passeio entre os mortos, as lápides, os epitáfios. Faz-se verso o medo dos tantos trovões que preenchiam os verões e suas tempestades nas férias escolares. E isto que agora se faz verso, era então emoção e idílio. Mas cresceram-me os olhos, e por isso sei da Pietá de carne e lama, sei também de outras Pietás: as de carne e chama, as de fome e ossos, as de pedra vulgar. Sei das Pietás que se arrastam nas sarjetas e pedem esmolas, das Pietás que preenchem de buracos seus peitos tão parcos, e de tantas Pietás que o cinzel e o formão não cansam de compor. Mas no mosteiro persistem as rezas, e nos terreiros e nas capelas. Melhor assim. Ao fim estamos todos parindo um grande poema, um grande e único poema que dirá do vento nos rochedos, do eclipse lunar. É só o que nos resta.
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* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de Sob a Luz do Farol (2005) e De Espantalhos e Pedras Também se Faz Um Poema (2008). Escreve no blog http://viegasdacosta.blogspot.com/ . Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Viagem ao universo africano (Adelto Gonçalves)

Para quem quer conhecer as literaturas africanas de expressão portuguesa Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários, de Rita Chaves, é um caminho seguro.




Reunindo textos que abrangem um esforço iniciado ao final da década de 1980, quando o interesse no Brasil pelas culturas africanas ganhou maior intensidade, e chegam até o começo do novo século, o volume é, porém, o resultado de um trabalho de três décadas de paixão pela literatura africana de Língua Portuguesa, pois foi em 1978, sob a orientação de Vilma Arêas, na Universidade Federal Fluminense, que a autora descobriu o seu caminho para o continente africano. Desde então, não se limitou apenas àquelas viagens interiores que se costuma fazer através dos livros, mas percorreu in loco a África do Atlântico ao Índico, tendo sido professora visitante na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, entre os anos de 1998 e 2000.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Soneto (Ailton Maciel)
















Et le voyant pleurer, je m'écriai:
Jeunne, homme,
Porquoi venir si triste en ce joyeux séjour?
Dis-moi pour te calmer le nom dont on te nomme!
Il me dit doucement: Je m’appelle l’amour.
Maurice Rostand
Numa noite calma de algidez cortante,
de tétricas visagens a vagar,
passava assobiando um viandante
entre insetos noctívolos a voar!

De repente... parou por um instante
e, tácito, ficou a meditar:
“Pra onde irei em passo ofegante,
“Se não tenho um casebre onde pousar!?

“Pra onde irei? Todos me querem um dia,
“depois me deixam assim sem pousadia,
“à procura de um lar sempre a errar?”

...E saiu a correr o viajor.
O seu nome reluzente era amor,
meu coração, coitado, era o seu lar.

Fortaleza, 14/2/65
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Eu sou aquele que come as flores do aniversário (Túlio Monteiro)


Refratário aos mistérios e enigmas do encantado, em atração constante pelo mito, pela magia, pelo difuso, pela penumbra da inconsciência, possui a grande ciência do texto lírico, belo, inovador e ousado. Travestido de compadre do diabo, é, entretanto, um romeiro devoto, capaz de fazer promessas e vestir o balandrau do Pobrezinho de Assis.
Finge regar os caminhos de Satã para vencê-lo de tocaia e ganhar as graças de Deus.
(Juarez Leitão)


I
Sábado Cedo!
Como de costume, levanta-se esticando músculos e ossos já utilizados, amiúde, por mais oito décadas. Passara a noite nu, porque o nu nunca lhe fora mais que beleza, liberdade corpórea, utilização da carne em prol da satisfação mútua dos corpos que, um dia, acolheram o seu em alcovas muito ou nada corretas - o que definitivamente não lhe importava - já que sexo nunca nada lhe mais fora que o prata emanado das estrelas e luas do caleidoscópio estridente de gozos bramidos noites adentro, pois todo homem que não presta e se preza faz sua mulher perder a vergonha, gemer e voltar sempre aos seus braços e beijos. Pois como a Lua excita a mente dos loucos, desperta o ciúme e a paixão dos poetas, levanta o nomadismo dos ciganos e faz com que o assassino vislumbre de longe a sua vítima, assim as mulheres e os homens livres de dogmas puritanos conduzem seus pares à sublimação e ao clímax... a Eros e Tanatos.
Não se queixava mais da vida, apesar de já ter perdido todos os “bicos” que fazia nos jornais, andando agora doente, os nervos escangalhados, o coração dando arrancos, muitas vezes infligindo-lhe noites em insônias rebeldes que o levavam a pensar em crimes, suicídios e outras coisas absurdas, satânicas até.
Sim! A velhice havia-lhe chegado qual grades intransponíveis. Olhos mirados nos espelhos da escrita, enxergava-se agora espectro, um velho sem família, sem parentes ou amigos. Um trapo, um bicho indefeso atirado aos abutres amontoados em colinas pontiagudas e labirínticas que certamente ocultam dragões, herdeiros, talvez, daquele que habitou - e por lá ainda durma pesado sono - as profundezas do Alto dos Angicos, pedaço do Ceará que o Coronel-garanhão Antônio José Nunes, em século já ido, arrebatou das mãos dos Tremembés.
Trinca-se o espelho da imagem envelhecida. Que se fossem, malditamente, para o mais abissal dos Infernos de Dante as lembranças de tempos, felicidades, sofrimentos e corpos passados. Valia-lhe mais o ali e o presente.
Oito décadas e meia pelo setembro que se aproximava, já tantas vezes havia sentido a morte roçar-lhe sobre os ombros com seu carrilhão de plumas eriçadas como a cauda de um réptil venenoso, que no mundo nada mais o assustava. Preferia repetir Fernando Pessoa e “exigir de si mesmo o que sabe que não poderia fazer. Pois não é outro o caminho da beleza”. Ou Byron, “onde todas as coisas que nasceram, só nasceram para morrer. E a carne é uma erva que a morte ceifará”.

II
A manhã daquele sábado já deslizava para a tarde quando decidiu sair, deixando de lado o passado remoto que sempre teimava em aborrecer-lhe com coisas que só lhes serviam de entrave na vida. O dia estava quase pelo meio e flanar pelas ruas com ou sem saída da velha Gentilândia seria o remédio maior para o tédio que o invadia. Era o revelho dragão que mais uma vez deixava a Vila Cordeiro para serpentear os ares da cidade que escolhera para servi-lhe de caverna.
Vôos tranqüilos rumo ao centro da cidade, quase nunca repetia percursos, algo assim sem querer deixar pistas, rastros aéreos de seu Norte Verdadeiro: a Literatura! E como escrevia furiosamente bem aquele sábio dragão, riscando os céus da prosa e da poesia com a maestria pertinente apenas aos guardiães da literariedade de primeira linha.
Entretanto, no final daquela manhã de sábado, o monstro fabuloso resolveu parar seu bater de asas e mergulhar em direção ao chão. Seguiria andando, podendo, assim, ver e rever velhos conhecidos que lhe cumprimentavam quase em reverência sempre que seus pés e braços alados tocavam o solo infértil e relegado aos desprovidos de almas poéticas. Nessas horas, transmutava-se em humano, disfarçando-se para não dar na vista, nem ser perseguido pela legião de admiradores que arrebatara desde seus primeiros anos de escrita.
Entretanto, desistir de seu vôo e descer ao solo tornou-se erro fatal. Ao tentar mudar de calçada, não percebeu que em sua direção um outro dragão se aproximava impiedoso, alta velocidade, urrando em vôo rasante e nefasto.
Foi pego com a guarda baixa o maior dos dragões brasileiros.
A pancada sofrida por seu frágil disfarce humano lançou-lhe longe, o asfalto como campo de batalha recebendo gotas de seu sangue real. Sem lhe dar chances de defesa, seu algoz o atingira em cheio no tórax e cabeça, incapacitando-o de ruflar asas e voltar à sua toca, onde certamente curaria as feridas como tantas vezes já ocorrera em combates passados.
Estava ferido de morte, o monstro áleo de Santana do Acaraú.
Ainda transmudado em corpo de homem, foi levado a hospitais onde bravamente agonizou por mais quase um dia, sob os cuidados dos sinceros amigos que sabiam de sua secreta identidade. Outros de sua estirpe? De uma casta linhagem que atravessou os séculos misturando-se entre homens comuns para acalmá-los nas horas de mais angústia e ânsia por poesias e um pouco de paz? Nunca saberemos!
Foi sepultado, como era de seu desejo, em solos da Fazenda do Dragão, encravada nas terras de São Francisco do Estreito, onde, segundo narra certa lenda, ele nascera em forma de gente.
Naquela mesma tarde, dizem os que por lá estavam presentes, um vento Aracati insistentemente soprava aos ouvidos dos iniciados um poema há muito escrito pelo Dragão que se fora:

O menino jaz atropelado:
Nossa Senhora salve o menino!
Deixe que eu morra em seu lugar.
Deixe que eu morra por ti, menino.
Deixe que eu morra atropelado.
Nossa Senhora Salve o menino!... *


* Desastre às 13h e 30 min. In: As Tágides, (2001), de José Alcides Pinto.
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