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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homem não chora, não é, Airton Monte? (Nilto Maciel)



(À direita, em pé, Airton Monte)

Um dia eu conheceria Airton Monte. Num bar, numa livraria, num encontro de escritores, numa calçada, apresentado por amigo. Estava escrito. Porque escrevíamos e morávamos na mesma cidade, não tão grande ainda. No entanto, meu ingresso na Universidade (1970) propiciou, mais rapidamente, esse conhecimento. Pois na Faculdade de Direito conheci alguns escritores (principiantes, como eu) que falavam muito bem de um estudante de Medicina – certo Airton Monte. Tinha ele pouco mais de 20 anos e pertencia ao Clube dos Poetas Cearenses, do qual foi um dos fundadores. Grupo de jovens que escreviam versos. Reuniam-se, com frequência, na Casa de Juvenal Galeno, sob a liderança de Carneiro Portela. Liam seus poemas, elogiavam-se, faziam planos, publicavam coletâneas. Com o tempo, desapareceu e, com ele, quase todos os seus poetas. Poucos deles persistiram, como Airton Maranhão, Barros Pinho, Batista de Lima, Iranildo Sampaio, Márcio Catunda, Ricardo Guilherme.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Inextricável Liturgia de um Boçal (Ilidio Soares)



Eu, Antonio Silveira, vosso criado, digo que o que mais me espanta é o seu rebolado. Ficou bom, não? Então deixa eu começar de outro jeito. Eu, Antonio Silveira, seu escravo, digo que entre o seu rebolado e a minha serventia o que me deixa doido, mas doido mesmo, é o seu jeito escrachado. E que o bom deus a abençoe e guarde, mas só pra mim, porque de sacanagens esse senhor não entende. Quer dizer, entender ele entende, mas a sacanagem dele é por carência, nunca por abundância, porque enquanto ele cintila lá no céu é você quem vaza na cama; e como hoje em dia é bom se precaver contra certas injustiças, não custa pedir que ele a abençoe e guarde. Com abundância, das coxas ou línguas, não importa, o que vale é a guarda, sobretudo a benção. Essa coisa beata, com som de harpa, mas quando bem tocada até que funciona.


E já que tocamos no tema funcionamento, diz pra mim Glorinha, por que quando você cruza os braços os seus seios estufam? Como você faz isso? Isso não é coisa de anatomia, parece mais de demônio, demônio sacana, diga-se, que não tendo mais com que me azucrinar põe seus peitos à mostra para me provocar uma exploração minuciosa, prazerosa e conclusiva, como um geólogo diante das crateras de vulcões ativos. Dois inencontráveis cerros, isolados, inesquecíveis, como uma insônia onde se repensa temas sérios ou como a primeira trepada lá pelos quinze. A estrutura deles é coisa pra especialistas, gente que passa a vida estudando núcleos, gases, cataclismos. Só no olhar vamos da terra a lua sem passar pelos chicotes gravitacionais tão incômodos para os que querem alcançar o gozo declinando das expectativas. Seus seios, Glorinha, é a minha falta de ar que, fora a porra da pressão, eu deveria passar a vida inteira tendo.


E já que tocamos no tema ter, diz pra mim Glorinha, por que você não me quer? Eu já disse, seu escracho não me incomoda, até peço bênçãos, e em toda tarde aqui no escritório eu lembro do sacolejo ronronante que sai da sala da secretária e vem dar mais trabalho aos que eu já tenho comumente. Procuro ir pra casa mais tarde, invento eventos diversos, só pra turma de lá não me encher o saco com os meus contumazes adiamentos. Quando eu a chamo pelo ramal e você diz alô, eu levito, dá um curto-circuito danado que quando eu me reconecto foi você quem me desconectou. E se isso não fora bastante ─ gostou do pretérito, tenso, né não? ─ eu mudo o rumo dos compromissos para garantir que eu vou ver seu gingado, sem interesse algum pelo trabalho, mas focado no perfil fisionômico e intransferível do seu rabo. Eu sei que você quer mais, quer que eu resolva problemas que nem os neurologistas sabem solucionar, quer que eu dê um pé na bunda da Olga, mande a Laura e o Rodrigo procurarem outro pai porque esse aqui já tem dono e adora invencionices que a mãe deles nunca soube criar. Veja, não é bem assim. A Olga é boa mãe, boa marida, tivesse mudado de lado eu diria que a Olga é um baita macho para sustentar essa merda toda de rebolado, adiamentos, faltas e aleivosias. Mas acontece que ela só é sustentável no dia seguinte, no dia posterior ao da Glorinha, do seu rebolado, do escracho e de nossa sacrossanta putaria.


E já que tocamos no tema, diz pra mim Glorinha, ô, saco! Tem alguma importância eu comer a Olga ao longo do mês apenas alguns dias? Sabe, eu às vezes acho que você desliga o telefone pela manhã só pra partir prum tudo ou nada irritante a fim de definir logo o dia. Esse sujeito é ou não é meu? Veja, a coisa não funciona bem assim. Primeiro precisamos definir a quem pertence o rebolado. O escracho e o rabo são seus, não resta duvida, mas o rebolado é pra quem? É pra mim, pro Silvério, pro patrimônio dessa companhia, seu Isidoro, enfim, pra quem você rebola enquanto eu invento histórias sem compromissos com o fim? Se for para mim, veja Glorinha, todo envolvimento supõe fuga, seja da Olga, da Laura ou do Rodriguinho, mas sempre há fuga. Pelo menos do colchão que denuncia facilmente o evadido. É sério. Da perplexidade física com os vulcões, desfeita quando se atinge o ridículo de uma rotina, sinceramente Glorinha, os vesuvinhos da Olga até que não são ruins. E não veja nisso qualquer demérito, os seus são colapsos insistentes, como o seu rebolado, que antecipa uma distribuição equânime do corpo e desorganiza qualquer ser vivente. Mas fugir, fugir mesmo, eu não fujo. Eu, Antonio Silveira, afirmo que apesar do seu rebolado, do escracho que é a marca do seu perfume, com a mente altiva e numa prece onde eu só encontro graças, digo não se preocupe, pois eu sou você amanhã, pelo menos na subserviência, do seu sempre e inesquecível Antonio Silveira vosso criado.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Reinventar (Pedro Du Bois)


Reinventada


a roda


se assemelha


em raio


e circunferência






destoa a origem


na repetição


com que roda


o espaço elementar


do tempo.

*****
outros poemas:

http://pedrodubois.blogspot.com

http://valeemversos.blogspot.com
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sábado, 17 de outubro de 2009

Primeira carta (1976) de Airton Monte a Nilto Maciel

 – Nilto, o primeiro sentado (à esquerda); Airton, o primeiro de pé (à direita) –

Amigo Nilto, como você já devia saber, nunca fui nem pretendo ser crítico literário, sou antes um criador e um sensitivo fruidor de literatura ou de outra qualquer forma de expressão artística. Portanto, as opiniões que aqui exponho sobre seu trabalho nada mais são que frágeis e sinceras sensações que seu trabalho há me despertado. Espero que me perdoes a superficialidade e a falta de originalidade dos meus comentários, mas que são, isso eu asseguro, profundamente francos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dimas Carvalho e o reino da Poesia (Nilto Maciel)


(Dimas, Nilto, Felipe Barroso e Poeta de Meia-Tigela, na casa do segundo)


Conheço a literatura de Dimas Carvalho há muito tempo. Li quase todos os seus livros. Meu conhecimento dele, porém, veio depois. Vi-o pela primeira vez numa tarde de janeiro de 1997. Inaugurava-se o Bosque Moreira Campos (Faculdade de Letras da UFC). O evento está registrado em fotografias, três delas reproduzidas nas páginas derradeiras do Almanaque de Contos Cearenses, daquele ano.

Não lembro mais quem me apresentou a Dimas. Talvez Pedro Salgueiro, relações-públicas da literatura cearense. Conhece todo mundo: acadêmicos engravatados, cordelistas de chapéu de couro, poetas de todos os naipes: enigmáticos, sorumbáticos, asmáticos. Frequenta, com desenvoltura, o banquete dos escritores de fraque e cartola e a alcova das hetairas. Pois deve ter sido ele o autor da apresentação de Dimas a mim.

De longe, avistei aquela figura esquisita, a sorrir e palrar. Supus tratar-se de algum cigano (Pedro se dá bem com todas as maiorias e minorias), em busca da mulher perdida. Vestia calça de linho branco e camisa colorida (talvez portasse um punhal na cintura). Na cabeça, chapéu de feltro. No pescoço, cordão dourado. Nos braços, relógio e pulseiras de ouro. “Não vá se assustar. Dimas gosta de se mostrar assim. Além disso, anda sempre com, pelo menos, duas mulheres jovens e belas. É o dândi da ribeira do Acaraú.” Não me assustei, porque nem a poesia mais enigmática me assusta.

Depois daquele dia festivo (Moreira Campos merece mais homenagens como aquela), Dimas e eu pouco nos vimos, ele na sua Acaraú, eu em Fortaleza. Estivemos em bares e encontros de escritores, palestras em faculdades, lançamentos de livros, entrega de prêmios (as paredes e estantes de sua casa estão repletas de certificados, medalhas, etc). Tanto abocanhou prêmios que julgadores de concursos já dizem: “Não, desta vez Dimas não deve ganhar. Precisamos democratizar os concursos literários.” Não concordo com certas práticas democráticas. Pois isso ocorreu em certo concurso, do qual fui julgador. Dimas concorreu na categoria “livro publicado”. Dei meu voto, convicto de estar escolhendo o melhor. Os demais julgadores, no entanto, votaram em outra obra: “O livro de Dimas é o melhor, sim, mas ele já ganhou prêmios demais. Agora é a vez de outros.”

Amante das fêmeas humanas, Dimas escreve com um olho na folha de papel e outro nas ancas das moças. Apesar disso, não há uma só página em sua obra em que se vislumbre ao menos uma curva mais erótica.

Admirador de padre Antônio Tomás, sabe-lhe de cor todos os sonetos. E os diz, ufano, como se cantasse o Hino Nacional Brasileiro. Como o primeiro quarteto de “Verso e reverso”:

Essa mulher de face encaveirada

Que vês tremendo em ânsias de fadiga

Estendendo a quem passa a mão mirrada

Foi meretriz, antes de ser mendiga.

É sua intenção publicar em livro a obra do grande poeta de Acaraú.

Dimas é viajante nobre. Todo ano vai à Europa. Conhece, palmo a palmo, as ruas das principais cidades européias. E tem memória fabulosa. Narra até os pormenores de seus passeios por Lisboa, Paris, Roma. Para o ouvinte é como se estivesse ao lado do poeta nas caminhadas pela História.

Por tudo isso, já valeria a pena conhecer Dimas Carvalho. Mas há ainda o poeta e o contista, ambos excelentes. É ler seus livros, suas fábulas perversas, suas pequenas narrativas, suas histórias de zoologia humana, seus poemas. O mais recente – Acaraú & outros países – é uma homenagem ao seu pequeno reino, a oeste do império dos tapuias. Nele há também um poema longo, monumental, desses que só os maiores conseguem compor: “Outros países”. São 21 sonetos de esquemas variados. Assim, os 11 primeiros se apresentam dentro do chamado modelo inglês. Todos – ou o todo – compostos como numa partitura. E então se vê, sobretudo, o rosto de Camões (não só nos versos “é para muito além que eu não desejo / cruzarmos os olhares redundantes / por mares nunca navegados dantes / dormem os caminhos que pra nós prevejo”) e o olhar iluminado do Jorge de Lima de Invenção de Orfeu (“Ser que nasceu bem antes do princípio / e que decerto nunca há de ter fim / pois ele é o próprio abismo, o berço, o início”).

Para ser poeta da estatura de colosso, bastaria este poema. Obra de quem se situa entre o eterno e o universal.

Fortaleza, 24 de agosto de 2009.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O ponto (Aníbal Beça)



De ponta a ponta me aponta um .

no apronto da escritura.

Seguido ou final

há-de se entretê-lo

nos cascos do poema

cavalo passado do passo ao trote

e

ao

solto

ga

lo

pe



Na senda branca:

meu desafio.

Fio em que meu ato

desata desatentos pontos

de vista

nem sempre convergentes.



Às vezes o . é pedra subindo ladeira

para depois rolar ladeira abaixo

e novamente subir ladeira acima.

Outras, o . empaca teimoso

asno turrão

no meio do caminho

no meio da selva selvagem.



Gosto

em especial

do . rolado

no verde relvado

dos campos de futebol:

no . como na bola

- sua pareceira -

há que saber parar

para fazer o gol.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Herança azul (Clauder Arcanjo)



Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
(Carlos Pena Filho, em Soneto do Desmantelo Azul)


Das roseiras que pouco plantei, gostaria de ficar tão-somente com as pétalas das rosas mais simples, daquelas que, caídas ao chão, são relegadas pelos enamorados, ou nunca atraentes para compor os buquês das vitrinas. Ou, quem sabe, com o perfume mais ocasional das begônias, e com os espinhos das flores mais murchas, a fim de espicaçar a tristeza das horas infindas. Das amizades as quais muito insisti, queria ter hoje o bálsamo das risadas loucas, folgança despretensiosa da conversa franca, e pouco, mas muito pouco mesmo, do atrito das querelas insípidas, do ciúme injustificável pela ventura de um amigo.

Das manhãs de inverno — gotejantes no telhado dos anos, raros momentos onde o destino me brindava com a lassidão da preguiça, junto com a dádiva de permanecer, quieto e mudo, na rede aquecida e cheirosa dos lençóis de Djanira —, me honraria muito o mero prêmio dessas lembranças, augustos momentos que eu, infelizmente, não fui digno de eternizá-los.

Dos banhos de rio — mergulhos no Acaraú da minha província, no olho do remanso da Licânia dos meus fantasmas —, ousaria pretender, pela última vez, a falta de fôlego da ousadia maior de infante. Era quando pulava, de ponta-cabeça, do alto da ponte nova, orando para que o batismo da água me encobrisse o corpo, protegendo-me do possível perigo de uma pedra, temida, mas, graças a Deus, nunca encontrada.

Das viagens que pouco fiz, ficou, cá dentro de mim, a marca da primeira. Era o tempo do êxodo do garoto para a capital. A engenharia sonhada fazia-me necessariamente optar pelo desterro. No ônibus de linha, um halo de lágrima, e um gosto amargo nos lábios. Nos olhos dos meus pais, o silêncio da bênção trêmula. E, desde tal dia, carrego a pecha do degredo.

Das fantasias, aspiro à máscara de um pierrô teimoso, solitário e gauche, amigo do passe hesitante, adorador do gracejo de picadeiro, a arrancar o riso das faces por demais doridas. Rasgando as máscaras que vem encobrindo, há tempo, os rostos de velhos abandonados, de crianças envelhecidas, de namoros malogrados, de casais a fingir felicidade, ao tempo em que vivem mergulhados no vinho negro do rancor.

Da poesia, eu ficaria com o soneto de pé quebrado, escandido por um vate bissexto e desatento, que busca a melopéia inaudita na forja das lágrimas, na incandescência da impossibilidade, e sob o fole da pertinácia. Ao cabo, um poema a ferir o rigor da métrica, mas a trescalar a sândalo dos puros de coração.

Das utopias, eu, pelo menos agora, abriria mão. Ficaria tão-só com a fome que habita os olhos dos desesperados, dos incansáveis sonhadores, dos ditos e havidos como fazedores celerados. Há sementes de utopia por demais sobre a face da Terra, a tal semeadura é que vem sendo sobremaneira adiada.

Das aulas, dos colégios, das universidades, dos doutos do conhecimento, eu solicitaria a lição dos humildes, daqueles que soem fazer o que é entendido e decifrado na prática dos dias, no laborar da vida; e pouco, ou quase nada, entendem da teoria que não se eterniza em flores e frutos.

Dos jovens, queria apropriar-me da crença na imortalidade, aliás, melhor diria, do nem sequer imaginar a existência da Indesejada da gente. E, ao assim proceder, fazer, de cada ínfimo instante, uma celebração maior ao hoje, um tributo ao infinito que habita o nosso íntimo.

Das simpatias, eu evocaria a do primado da singeleza; singeleza que, para mim, só vejo existir, na sua forma pura, nos lábios dos que sabem emitir um riso de esguelha, mesmo ao serem trucidados pelo ferrão dos poderosos, ou sob a égide da (in)justiça oficializada.

Das borboletas, eu tenciono o vôo branco das menores e por deveras tímidas; das que não precisam da completa primavera para transmudar-se no milagre do vôo, nem muito menos abrem mão da cadência da lagarta na curta viagem no rumo da furtiva luz.

Dos desejos, eu pleitearia ficar com todos. Minha única herança. Em especial, o desejo mais azul, anseio dos que colorem de azul a quem nunca seria azul por jamais ter o azul nas pupilas. E se, mesmo assim, algum dia me encontrarem sem nada, que, pelo menos, me julguem louco, no entanto um louco que sonhou com o azul, quando outros, funéreos, morriam abraçados com a cor vazia do nada.

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clauder@pedagogiadagestao.com.br

Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão,

espaço Questão de Prosa, edição de 25/03/2007.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mendoza: vender novelas como churros – Adelto Gonçalves (*)



I

No começo dos anos 90, a editora Círculo de Lectores, de Barcelona, quando imaginou lançar a coleção Maestros Modernos Hispánicos, dentro de sua Biblioteca Universal, convidou o escritor Eduardo Mendoza (1943) para dirigi-la, encarregando-o de selecionar títulos e autores. Sem maiores títulos acadêmicos, além de um diploma de advogado, o catalão Mendoza sempre foi um leitor contumaz do melhor das literaturas espanhola e hispanoamericana, além de ser hoje talvez o maior romancista espanhol vivo, o que, de certa forma, é reconhecido não só por boa parte da crítica como pelo grande número de tiragens e edições que seus livros alcançam. Por isso, não lhe foi difícil desempenhar uma tarefa que, de antemão, já se sabia que seria muito difícil e sujeita a polêmicas.

Escreveu, assim, 24 apresentações para os títulos que escolheu, além de dois prólogos, que agora saem reunidos em Quién se acuerda de Armando Palacio Valdés? Explica-se: os outros 22 prólogos foram escritos por autores que, ainda que não fossem especialistas, eram ao juízo de Mendoza personalidades afins à obra ou ao autor em questão. A coleção abrangia autores que viveram no período histórico que vai do final das guerras napoleônicas até o início da guerra civil espanhola (ou da Segunda Guerra Mundial, no caso da América espanhola), uma época extensa e extremamente agitada, marcada por guerras, revoluções, quebra de convenções sociais, ascensão de ideais reformistas, “grandezas e misérias de uma sociedade complexa e desorientada”, como diz o autor no prólogo que escreveu para as 24 apresentações e os outros dois prólogos.

Repetia, assim, tarefa que Jorge Luís Borges (1899-1986) desempenhou em 1974 em Prólogos com um prólogo de prólogos (Buenos Aires, Torres Aguero Editor, 1975), que reúne os quase quarenta prólogos que escrevera entre 1923 e 1974, exercitando um gênero que, como observou, “na triste maioria dos casos, confina com a oratória de sobremesa ou com os panegíricos fúnebres e abunda em hipérboles irresponsáveis, que a leitura incrédula aceita como convenções do gênero”. Não é, porém, o caso de Borges e muito menos o de Mendoza. Quem vier a ler ambos os livros só terá a ganhar, pois equivalem a um precioso roteiro para um curso de literatura em língua castelhana, no primeiro caso, e de literatura universal, no segundo. Até porque, para repetir Borges, o prólogo, “quando são propícios os astros, não é uma forma subalterna de brinde, mas uma espécie lateral da crítica”.

II

Como não poderia deixar de ser, Borges também faz parte dos autores selecionados por Mendoza, com sua Historia universal de la infamia (1935), que, por sinal, encerra o ciclo cronológico da coleção. E o que o selecionador faz questão de ressaltar é que, quando em seus verdes anos descobriu Borges, o que mais lhe chamou atenção foi a erudição do autor, que “parecia utilizar seus insondáveis conhecimentos para inventar fábulas e urdir alegorias impensáveis”. Só mais tarde descobriria que muitos dos conhecimentos de Borges eram, na realidade, apócrifos: versículos da Bíblia que não existem, edições de antigas enciclopédias que nunca vieram à luz.

É de lembrar que no “prólogo de prólogos”, Borges revela que tinha em conta escrever um livro de “índole análoga” em que reunisse uma série de prólogos de livros que não existem, com citações exemplares dessas obras possíveis. “Há argumentos que se prestam menos à escritura laboriosa que aos ócios da imaginação ou ao indulgente diálogo, tais argumentos seriam a impalpável substância dessas páginas que não se escreverão”, justificava. É de destacar ainda que em Historia de la eternidad (1936) Borges faz a resenha de um livro que só existia em sua imaginação e que para Ficções (1944) escreveu prólogo em que deixou esta observação: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

III

À falta de espaço, não se pode aqui tecer comentários sobre todos os autores escolhidos por Mendoza para a coleção que dirigiu, mas deve-se lembrar que, entre os escolhidos, além de Borges, estão grandes nomes como Benito Pérez Galdós (1843-1920), Ramón del Valle-Inclán (1869-1936), Pío Barroja (1872-1956), Juan Valera (1824-1905), Leopoldo Alas Clarín (1852-1901), Rosalía de Castro (1837-1885), José Zorrilla (1817-1893), Miguel de Unamuno (1864-1936), Carmen de Burgos (1867-1932), Emilia Pardo Bazán (1852-1921) e Ramón J. Sender (1901-1982), entre os espanhóis, e Horacio Quiroga (1879-1937), Lydia Cabrera (1899-1991), Ricardo Palma (1833-1919), Rómulo Gallegos (1884-1969) e Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), entre os hispanoamericanos.

Até aqui, temos nomes conhecidos, pelo menos entre os estudiosos da literatura hispânica, mas o que surpreende é que Mendoza tenha ressuscitado também autores que o esquecimento havia atirado ao limbo, como a cubana Gertrudis Gómez de Avellaneda (1814-1873) e Antonio Ros de Olano (1808-1886), nascido em Caracas, filho de um militar catalão e igualmente oficial do exército espanhol, que se tornou mais conhecido por ter inventado um gorro militar que leva o seu nome (ros). Ou ainda Armando Palacio Valdés (1853-1938).

IV

Mas quem foi Armando Palacio Valdés? Ao responder essa pergunta no extenso prólogo de 15 páginas que escreveu, Mendoza lembra que Valdés, até sua morte, foi um dos mais célebres escritores não só na Espanha, mas também em outros países, como Estados Unidos, onde era admirado por estudiosos e por um público-leitor expressivo, e na França, onde recebeu a Legião de Honra. Além disso, seu nome figurou freqüentemente entre os candidatos ao Prêmio Nobel. E vários de seus romances foram levados ao cinema.

Hoje, porém, seu nome figura apenas em rodapés dos modernos manuais de literatura espanhola. E o Wikipedia, na Internet, só lhe reserva duas linhas e uma foto, além da lista de suas obras. A única biografia que lhe fizeram é de 1949 e está fora de catálogo, prejudicada por uma retórica franquista. Por que teria sido condenado a tão implacável olvido? É o que Mendoza procura responder em seu ensaio à guisa de prólogo.

Nascido em Entralgo, aldeia de Astúrias, Valdés era proveniente de uma família bem posta na vida: seu pai fora um advogado que preferira deixar a profissão para cuidar da propriedade rural da família da mulher. Estudou em Oviedo e, depois, em Madri, onde se diplomou em Leis, como o pai, mas nunca exerceu a advocacia. Atraído por amigos literários, fez-se sócio do Ateneo, entidade equivalente a uma academia literária, da qual foi presidente, cargo a que renunciou por causa da postura subversiva de seus sócios, que criticavam a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930). Por aí se vê que seria um homem de idéias de direita.

Foi, porém, mais tarde, republicano militante, ainda que nunca tenha se candidatado a cargo público. Fosse como fosse, ainda que de convicções algo retrógadas, diz Mendoza, Valdés foi sempre um republicano confesso, de opiniões moderadas, afável no trato, que vivia de rendas e escrevia por gosto. Casou-se duas vezes e foi por influência de sua segunda mulher que se tornou profundamente religioso. Mas nunca foi extremista: inimigo de todo fanatismo, defendeu o voto feminino e condenou sempre a injustiça social flagrante que existia na Espanha de seu tempo.

Liberal, segundo Mendoza, Valdés encarnou um velho sonho espanhol: o de uma direita civilizada. Seus escritos, sobretudo os dos últimos anos, estão, porém, impregnados de um ar de palácio e sacristia que tanta irritava seus contemporâneos, diz. Mas não era um autor que encarnasse a velha direita espanhola, que haveria de empolgar o poder depois da guerra civil com o general Francisco Franco à frente. Literariamente, pertencia à escola naturalista francesa: seus personagens não tinham muita profundidade psicológica. Mas era um romancista raro: um católico com sentido de humor. “É um homem cujos rígidos princípios morais vão perdendo força, talvez sem que ele saiba, por influência voltaireana”, define Mendoza.

O resultado disso é que seus romances mostram de vez em quando alguns detalhes extravagantes que os redime de qualquer anacronismo. Para provar o que diz, Mendoza transcreve trecho de um dos romances mais célebres de Valdés, Marta y María, em que uma de suas protagonistas, a jovem religiosa María, para imitar os santos da antiguidade, decide se flagelar e, sendo moça de boa família, convoca uma criada para manejar o chicote, até que alcançasse o êxtase místico. Segundo Mendoza, são cenas que fariam corar o marquês de Sade (1740-1814).

Fosse como fosse, talvez isso explique por que os romances (ou novelas, em bom espanhol) de Valdés vendessem em sua época como churros. Tratava-se de um cínico? “Nunca o saberemos”, conclui Mendoza para logo observar que não há como deixar de sentir simpatia por um homem que, ao final da vida, ainda publicou um ensaio intitulado El gobierno de las mujeres em que defendia que a política fosse confiada integralmente ao sexo feminino porque governaria a coisa pública tal como a privada.

V

Eduardo Mendoza Garriga nasceu em Barcelona e viveu dez anos em Nova York (de 1973 a 1982), época em que trabalhou como tradutor da Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, vive em Barcelona dos direitos autorais de seus livros que igualmente vendem como churros. Surgiu para a literatura espanhola em 1975, três meses antes da morte do generalíssimo Franco, com a publicação de La verdad sobre el caso Savolta (até hoje não traduzido no Brasil). Seu grande livro é La ciudad de los prodígios (1986), publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1987.

Escreveu ainda outros bons romances que atraem por sua agilidade cinematográfica, como El misterio de la cripta embrujada (1978), El laberinto de las aceitunas (1982), Sin noticias de Gurb (1990), Una comedia ligera (1996), La aventura del tocador de señoras (2001), El último trayecto de Horacio Dos (2002) e Maurício o las elecciones primarias (2006). Em 1989, publicou La isla inaudita, romance bem diferente dos demais, que mostra a sua preocupação em não se repetir.

É autor de um perfil biográfico de Pio Baroja, Baroja la contradicción (2001). Escreveu ainda duas obras teatrais: Restauración (1990) e Gloria (2007). Em colaboração com sua irmã Cristina, é também autor de Barcelona modernista (1989). Suas obras, na maioria, foram publicadas pela Seix Barral, de Barcelona. Maiores informações na página oficial do autor na Internet: www.clubcultura.com/clubliteratura/.../mendoza/

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QUIÉN SE ACUERDA DE ARMANDO PALACIO VALDÉS?: escritores de lengua espanõla: veinticuatro presentaciones e dos prólogos, de Eduardo Mendoza. Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 118 págs., 2007, 14,90 euros.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispanoamericana pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.br
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domingo, 4 de outubro de 2009

Francisco Carvalho: Utopia e eutopia (Nilto Maciel)



Tenho lido Francisco Carvalho desde minha adolescência. Primeiro nos suplementos literários – que havia disso no Ceará. Publicavam-se neles, semanalmente, poemas, crônicas, contos, estudos dos bons escritores cearenses de então, quase todos do Grupo Clã.

Mais adiante, já taludo, já escrevendo também, já sonhando com ser poeta do tamanho de Francisco Carvalho ou contista da estatura de Moreira Campos (coitado deste sonhador), conheci o futuro autor de Exercícios de Utopia (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2009). Foi num dia de 1977, reitoria da UFC, onde trabalhava o poeta, época da revista O Saco, vésperas de eu arribar do Ceará em busca de melhores dias no Sul. O autógrafo constata: 1º de fevereiro. A obra: Pastoral dos Dias Maduros.

Todo o livro é pura poesia, desde os primeiros versos:

“A qualquer hora o espectro do sono flutuará

na penumbra da sala.

As mãos do morto afagarão a estranha latitude

do seu corpo.” (“A visitação)”

Até os derradeiros:

“Chuva, trigo do céu, hulha

na terra espúria do sonho.

Música da nuvem e leite do seu ubre.

Chuva que te quero rubra.” (“Chuva”)

Apresentou-mo o jovem e delirante Carlos Emílio, que frequentava, com desenvoltura, os velhos cultores do delírio em nossa terra, como se fossem seus pares. Além disso, lia Virginia Woolf em inglês, Proust em francês, Thomas Mann em alemão, Cervantes em espanhol. Um prodígio! Eu me contentava – e como ser diferente, se mal sabia ler Alencar em português? – com meus livrinhos ensebados e cheios de traça, comprados à beira das calçadas, no chão, nas ruas do centro de Fortaleza.

Depois, já fugido da seca, exilado no Planalto Central, então a ler traduções de Woolf, Proust, Cervantes, Mann, continuei a me entusiasmar com Francisco Carvalho e todos aqueles que durante muito tempo me ensinaram a ler nos suplementos literários.

Visitei o poeta de Russas, do Brasil e do mundo mais de uma ou duas vezes, se me não engano. Mas o li – e leio – sempre. Não digo todo dia, que mentir muito é feio. Agora – as retinas fatigadas pelo sol, pela sujeira dos dias, pela visita dos micro-organismos –, agora me chegou às mãos este pequeno conjunto de poemas intitulado Exercícios de Utopia. Li-os, entre um gole e outro de cicuta – mato-me aos poucos, por prescrição médica: um comprimido aqui, uma cápsula ali, uma colher de ácido ao meio-dia, outra às vésperas de delirar na cama.

Tudo é salutar nos livros de Francisco Carvalho. Neste, até a capa de Carlos Alberto Alexandre Dantas é de encher os olhos de bom espanto. A apresentação de Gilberto Mendonça Teles é de mestre. E poeta. Os versos, livres ou metrificados, têm ritmo de sonata. As rimas são sonoras, embora haja as comuns. Mas isso não é o mais relevante em poesia. FC é poeta da chuva e da estiagem, da pedra no meio do caminho e das galáxias em rodopio, dos pobres andrajosos e dos tetrarcas de reinos destruídos, dos pássaros, que são anjos em busca do canto, e dos anjos – pássaros emudecidos.

Tudo é pura poesia em Exercícios de Utopia, desde os primeiros versos:

“Acredito nos anjos

que não precisam de asas

para voar.

Moram em casebres de taipa

e recolhem mendigos

para a ceia.” (“Exercícios de utopia”)

Até os derradeiros:

“raios do vento

raios do fogo

raios da chuva

raios de ira de Deus

raios do paráclito

raios que o partam.” (poema 175).

O breve estudo de Gilberto Mendonça Teles se encerra assim: “O certo é que se trata de um excelente Exercícios de utopia, melhor dizendo, de Eutopia, de belo e de bom, deixando para o leitor a sensação de que o natural e o transcendente se juntam no sentido plural de toda grande poesia.”

Fortaleza, 17 de agosto de 2009.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Capitu narradora contemporânea: representações de Capitu por ela mesma (Fabiana de Pinho)




Resumo: O narrador de Dom Casmurro, em leituras possíveis, deseja provar a culpa de sua esposa. Assim, desenha uma menina/mulher Capitu como adúltera em potencial, dissimulada e diabólica. De acordo com Mary Del Priore, ‘Capitu foi descrita com todos os ingredientes de um diabo de saias’’. Essa descrição não foge às representações históricas nas quais as mulheres não só provocavam o mal, mas também seriam capazes de levar um homem à perdição. As representações femininas, construídas sob forte influência do patriarcalismo, estavam fortemente associadas à malignidade que precisaria ser domesticada, sobretudo pelo marido. A Capitu ambígua, vilã, vítima, uma discreta feminista antecessora do feminismo, com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, inspirou autores do século seguinte a criar contos, romances, filmes e outras manifestações artísticas. Muitas delas foram criadas depois do advento do feminismo e da abordagem teórica de que feminilidades e masculinidades são construções históricas, portanto, variáveis. Pensando no avanço das discussões sobre a redefinição de papéis masculinos e femininos e tentativas, inclusive teóricas, de desnaturalização das hierarquias de poder, pretende-se com este trabalho investigar em textos - como os contos Dez Libras Esterlinas, de Nilto Maciel, e Capitu: para que saber, de Lya Luft, – que dialogam com Dom Casmurro e cuja narração é conduzida por Capitu, e não mais por Bento Santigo, se ocorreram mudanças na representação da principal personagem feminina de Machado de Assis.

Bibliografia
BOSI, Alfredo. Historia concisa da Literatura Brasileira. São Paulo, Cultrix. 2004.
FERNANDES, Rinaldo. Capitu mandou flores. São Paulo, Geração editorial, 2008.
SCHPREJER, Alberto.(org.).Quem é Capitu? Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2008.
STEIN, Ingrid. Figuras femininas em Machado de Assis. Rio de Janeiro, Paz e Terra,1984.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O copo azul do menino Caio (Nilto Maciel)


(Caio Porfírio Carneiro)


Há dias não conseguia ler nada, não por mandriice ou fastio das letras, mas por obra de um vírus não-letal, que me deixou quase cego. E cadê tua Maria Kodama? – perguntarão os desconfiados. Para não lhes dar resposta indecorosa, dou um passo adiante.

O primeiro livro lido por mim após o arremetimento do pequeno ser é de meu amigo Caio Porfírio Carneiro. Não um amigo do peito, porque pouco nos vimos, sobretudo porque moramos em cidades bem distantes uma de outra. Ele sempre em São Paulo (“sempre” é exagero de linguagem), para onde se mudou em 1955. Naquele ano eu não o conhecia ainda, como não conhecia nenhum escritor, a não ser os dos livros célebres, como José de Alencar, Machado de Assis, Alexandre Herculano, todos mortos antes do meu nascimento. Enquanto Caio morava na maior metrópole brasileira, eu sobrevivia em Baturité (até 1961), depois em Fortaleza e Brasília. E nunca o via, embora lesse seus livros. Lia por sabê-lo escritor de alta linhagem, além de ser meu conterrâneo. Vi-o pela vez primeira numa tarde do início do século XXI, em Fortaleza, para onde voltei em 2002. Apresentou-mo (ora, eu já o conhecia dos livros, desde os anos 1970) o jovem Pedro Salgueiro, que conhece de perto quase todos os grandes escritores brasileiros nascidos no século XX. Frequenta ou frequentava casas e escritórios – onde toma ou tomava chá, come ou comia biscoito, cochila ou cochilava nos sofás – de nomes eminentes como Dalton Trevisan, José J.Veiga e Rachel de Queiroz. E eu me encantei com Caio, sua prosa nervosa e galopante. Sua simplicidade, sua simpatia. Recebe jovens e velhos sem pedantice, em todo o tempo a brincar.

Toda essa digressão poderá parecer enfadonha ao leitor. É que quero deixar de lado a pretensão de ser crítico literário. Ou escrevinhadeiro de resenhas ou comentários. Serei apenas um cronista que lê (desculpem-me os cronistas se os ofendo, eu que nem consigo escrever crônica) e se serve das leituras para rabiscar frases engatadas a frases.

E aqui começa de fato a crônica da leitura do novo livro de Caio. O título é simpático, embora simples: O copo azul (Scortecci, São Paulo, 2009). Pequenos contos, de uma a cinco páginas. De tão curtos, são poucos os narradores ou protagonistas com nomes explícitos. Mas não é por serem concisos que os nomes são omitidos. É porque Caio escreve alegorias, parábolas, como em “O ponto”. Caio escreve metáforas. É um filósofo. Quando há nomes, como Maria Viviane, o nome não é do narrador ou do personagem central. Maria Viviane é apenas uma lápide.

Alguns desses contos se aproximam perigosamente da nova tendência do chamado “realismo urbano” e destoam do conjunto, como “E daí” e “Capuz”. (Outros escritores muito conhecidos têm se perdido nessas ruelas, como Dalton Trevisan.) Outros relatos de Caio se abeiram da brincadeira literária, como “Pois é”, construído à maneira de peças teatrais. “A travessia” segue esta linha. O melhor do livro está no pintar a alma do homem, perdidos em si mesmos. Seres angustiados, desiludidos (ou ainda iludidos) com sonhos, amores, novidades. Homens velhos à procura do passado. Ou de mulheres que somem, desaparecem, se esfumam nas ruas.

E o que dizer da linguagem, sempre esmerada, tratada com cuidado de ourives, como se cada frase surgisse após longo alisamento manual, como o fazem os artesãos de pequenas peças de barro? Dedicação de artista, de escultor, de apaixonado pela própria obra. Quem escreve com raiva, ódio, vontade de ferir, maltratar, não alcança a arte. Mas falar disso não cabe aqui, pois muito já foi dito a respeito do que seja arte.

Caio Porfírio Carneiro escreve com arte. Até quando brinca, ele brincalhão por natureza, quase menino ainda aos 80 anos. Escreve certo por linhas retas, sem parecer jornalista. Sua linguagem é clara, como se conduzisse o leitor, lado a lado, em conversa franca, por caminhos estreitos ou largos, sob sol forte ou chuva. Ou ao luar. Não quer enganar o leitor, levá-lo a atalhos que vão dar em abismos. Não se embrenha pelos cipoais ou pela caatinga. Não é um regionalista típico. Também não é discípulo cego dos antigos. Caio é Caio. Pra todo tipo de leitor.

Fortaleza, 15 de agosto de 2009.
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domingo, 6 de setembro de 2009

Machado de Assis: ironia e sedução (Adelto Gonçalves*)




Qualquer que seja a antologia que se faça de contos de Machado de Assis (1839-1908) — e quaisquer que sejam os critérios —, nada há de dar errado. É claro que nem todos os contos de Machado de Assis — hoje reconhecido como o maior romancista brasileiro de todos os tempos — são de primeira grandeza e há até alguns que são bem frouxos, escritos ao correr da pena para publicação imediata em revistas de duração efêmera em troca de recompensa pecuniária e que, se dependessem da vontade do autor, continuariam imersos no olvido dos arquivos. Mas há muitos que continuam brilhantes e a desafiar o tempo. E que, mesmo traduzidos para outras línguas, não perdem o viço dos primeiros anos.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sá Bia do Sabiá (Eduardo Lara Resende)



Silêncios, ausências e duas bonequinhas de pano – eis o que foi dado a Beatriz receber quando veio ao mundo. As águas de uma enchente levaram logo as bonequinhas, enquanto silêncios e ausências cresceram com ela. E respostas eram raras como o pão. Beatriz virou Bia. Amava como intuía um amor que se entrega. Cultivou promessas, colheu desencantos. Insistiu nos sonhos, mas viu águas de outra enchente levarem o barraco e, dentro dele, Romeu, vulgo Sabiá. Bia então ganhou a rua. Foi morar sob o viaduto, na beira do rio. Uma confraria de iguais amenizou-lhe as dores de ausências e silêncios. Bia até sorriu quando virou Sá Bia do Sabiá. Numa tarde de inverno – e quase feliz – Sá Bia foi surpreendida pelo carro em sua direção. Atirada no rio e levada pela imundície, a mulher se debatia. De novo seus silêncios ganharam força e, com eles, a dor de uma espécie de saudade. Agarrada à tora de madeira plantada no leito do rio, Sá Bia resistiu até sentir faltarem-lhe as forças. Foi quando um soldado passou em sua cintura uma corda, puxada por seis lanternas que brilhavam na noite. Luzes que não existiam mais quando Sá Bia acordou, na enfermaria de um hospital. Dos pares de olhos à sua volta, um quase não se via, encoberto por farto buquê de rosas coloridas. A dona de olhos úmidos de tristeza colocou as flores sobre o peito de Sá Bia. Era a mulher do soldado que a havia salvo das águas do rio. E que, numa fatalidade, desaparecera arrastado pela correnteza. Os velhos silêncios de Beatriz então viraram lágrimas. Silêncios menores salpicaram pares de olhos suplicantes pelo ato seguinte. Repleta de dores, Beatriz pediu desculpas.
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terça-feira, 7 de julho de 2009

A canção da Ibero-América (Adelto Gonçalves)



Dois anos depois de o poeta cearense Floriano Martins ter lançado Un Nuevo Continente: Antología del Surrealismo en la poesia de nuestra América (San José, Costa Rica, Ediciones Andrómeda, 2004), sai à luz outra antologia de produções de poetas ibero-americanos, desta vez sob a organização de Gustavo Pavel Égüez, com tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Viana e José Jeronymo Rivera, todos membros da Academia de Letras do Brasil, de Brasília.
Trata-se da Antologia Poética Ibero-americana, lançada em Cuiabá, Mato Grosso, em edição limitada, com venda proibida, pela Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos (Associação de Adidos Culturais Ibero-Americanos), com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, da Organización de Estados Iberoamericanos (OEI), Organización del Tratado de Cooperación Amazônica (OTCA) e da Consejería de Educación de la Embajada de España.
Ao contrário da obra preparada por Floriano Martins, que teve por objetivo reunir as principais vozes do Surrealismo na América Latina, a nova Antologia Poética Ibero-americana não se limitou a extrair as melhores produções de poetas ligados a um determinado movimento, mas a traçar um panorama do que de melhor a poesia produziu nos países ligados à velha Península Ibérica, dentro do espírito que norteia a Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos de dar a conhecer as culturas oriundas do idioma de Miguel de Cervantes. Para tanto, cada embaixada ibero-americana acreditada em Brasília se encarregou de selecionar três poemas e três autores representativos de cada país.
O projeto só se tornou possível com o apoio do Governo do Estado de Mato Grosso, que elegeu a obra como edição comemorativa da segunda Feira do Livro Literamérica 2006, realizada em Cuiabá. Por isso mesmo, essa é uma edição bilíngüe que pretende servir de instrumento de integração para o conhecimento e divulgação dos idiomas castelhano e português, como diz na apresentação Pedro Alfonso Almario Rojas, presidente da Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos.
Da Argentina, que por uma questão de ordem alfabética abre a antologia, por exemplo, estão três dois maiores escritores do Rio da Prata: Jorge Luís Borges, Julio Cortazar e Alfonsina Storni. Já o Brasil está representado por Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e Augustos dos Anjos. Em nome de Portugal, aparecem Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Al Berto, enquanto Rafael Alberti, Francisco de Quevedo e Antonio Machado representam a poesia de Espanha.
Também estão representados Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. E, por fim, há uma homenagem à poesia produzida no Estado de Mato Grosso, com poemas de Francisco de Aquino Corrêa, José de Mesquita e Silva Freire.
De assinalar é a qualidade dos tradutores. Anderson Braga Horta (1934), poeta nascido em Carangola, Minas Gerais, encarregou-se dos poemas de El Salvador, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Uruguai e Venezuela. José Jeronymo Rivera (1933), nascido no Rio de Janeiro, ficou com os poemas da Argentina, Bolívia, Chile, Equador (exceto o de Jorge Enrique Adoum, traduzido por Fernando Mendes Viana) e Paraguai. E Fernando Mendes Viana (1933), nascido no Rio de Janeiro, ficou responsável pelos poemas da Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, Guatemala, Peru e República Dominicana. Esse foi um de seus últimos trabalhos, já que faleceu a 10 de setembro de 2006.
Como cada embaixada apontou seus eleitos e encarregou-se das notas biobibliográficas, não houve um critério de época ou de filiação poética. Assim, a antologia reúne autores do século 19 e contemporâneos. Ou ainda do século 17, no caso do espanhol Francisco de Quevedo. Não se sabe por que critério, há também poetas do Haiti, embora este país não esteja ligado à zona de influência ibérica: Rodney Saint-Éloi, Emmelie Prophète e Georges Castera, que escrevem em francês e em crioulo.
Na impossibilidade de reproduzir aqui alguns dos poemas, vamo-nos contentar com “A bala”, de um poeta nicaragüense, não o famoso Rubén Darío (1867-1916), mas Salomón de la Selva (1893-1958) na tradução de Anderson Braga Horta:
A bala que me fira
será bala com alma.
A alma dessa bala
será como seria
a canção de uma rosa
se cantassem as flores
ou o olor de um topázio
se cheirassem as pedras
ou a pele de uma música
se nos fosse possível
as cantigas tocar
desnudas com as mãos.
Se o cérebro me fere
me dirá: Eu buscava
sondar teu pensamento.
E se me fere o peito
me dirá: Eu queria
dizer-te que te quero!

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ANTOLOGIA POÉTICA IBERO-AMERICANA, de Gustavo Pavel Égüez (org.); tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Viana e José Jerônimo Rivera. Cuiabá-Mato Grosso: Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos, 2006, 278 págs.
______________________
(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Espera (Clauder Arcanjo)




Assim que o tempo clarear,
entrarei nas águas das lembranças.
Visitarei os remansos da mente,
desenterrarei incautos fantasmas,
e porei tudo sobre a mesa da sala.
Depois de um café fresquinho,
um catar de reminiscências fundas:
bisonhos pecados infantis;
namoradas, musas impossíveis,
endeusadas e inatingíveis.
Com os anos, tão sensaboronas.
Isso sem me esquecer:
dos remansos do Acaraú,
do pavor dos becos escuros,
dos quebrantos das ciganas,
e do mau-olhado dos invejosos.
— Cruz-credo! Cruz-credo!...
Assim que tudo clarear.
No entanto, caso permaneça o mau tempo,
fundearei nas correntezas do esquecimento,
e o passado submergirá, por enquanto,
dentro de mim. Bem junto a mim.

Macaé-RJ, 11/06/2009
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quarta-feira, 17 de junho de 2009

A ausência da inconsentida (Pedro Du Bois)



Esses olhos
na continuação
do avesso:
dança estática
de imobilidade aérea


esses os olhos
do começo
no que lembra
do espaço
fechado em ares


esses os olhos
não vistos
no reverso da história
recontada em lembranças
e funerais.
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sábado, 13 de junho de 2009

Fantasmas (Ailton Maciel)



I
Tive um sonho ... sonhei que me encontrava
Numa distante selva onde reinava
Só a violência e o medo.
E lá eu estava, pesaroso e aflito,
Com pasmo e medo, sem soltar um grito
Nesse horrível degredo!

II
Nesta agonia eu sucumbia aos poucos,
Os rugidos ouvindo, sevos, roucos
Dos leões esfaimados:
Em certa hora eu caía contorcendo,
A tremer, sem gritar, ia morrendo
Na boca dos malvados!

III
Mas, lesto alguém chegou, puxou da espada,
E correram os leões em disparada
Com um imenso furor!
E pasmado correu o meu algoz
E eu disse já a chorar, tremendo a voz:
– Diz-me quem és, Senhor!

IV
De repente eu vi homens estupendos,
E sete espectros, ápodes, horrendos
Em silencio profundo!
Depois só vi fantasmas, magros, feios,
De chagas e feridas todos cheios,
Só seres do outro mundo!

V
No mistério eu fiquei absorto,
Com sudorese fria, quase morto,
a cair e a gritar...
Então do corpo o medo eu dissipei...
Moribundo do chão me levantei,
Começando a falar:

VI
Ó tu, quem és, fantasma horripilante,
Com olhares de fera devorante
Quem és tu, estrangeiro?
Eu ... eu quem sou? Já te direi, espera...
O meu peito referve e dilacera
O corpo meu inteiro
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sobre "Olhos azuis - ao sul do efêmero" (José Antônio Zago)


Há mais de uma década tenho contato com os textos de Emanuel Medeiros Vieira. Recentemente li o primeiro volume de suas memórias, sobre o qual escrevi algumas linhas e as enviei ao autor.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Juniações (Clauder Arcanjo)



Entrou junho...
E, de maio, algo ficou?
Ficou, claro que ficou!
Um azul no corpo de Luzia,
uma oração nos lábios meus,
uma tristeza por entre as rugas,
um naco de gesto à Prometeu.
Entrou junho...
As fogueiras arderão nas ruas,
bandeirolas acenarão indecisas,
e, penso, juniações
haverão de pôr balões chinfrins.
Caso julho ainda me encontre
trôpego, calado... Vacilante, enfim.
Beberei a água do Acaraú,
e tudo se fará paz dentro de mim.

Fortaleza-CE, 05/06/2009
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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cinco séculos de poesia brasileira (Adelto Gonçalves*)



I
Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam se preocupar tanto para elaborar seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite “pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos”, como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.
O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), selecionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.
Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a selecionar 40 de seus poemas. Seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico “Prosopopéia”, que tem como modelo “Os Lusíadas”, de Luís de Camões (1524?-1580).
II
Com seleção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814).
Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego de seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses.
Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, “parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudônimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue”.
Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás Antônio Gonzaga que este articulista escreveu.
III
Antologia da poesia romântica brasileira, com seleção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as idéias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras.
Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de “O Guesa Errante“, poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica “Canção do exílio” e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira.
Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com seus versos grandiloqüentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja, Juvenal Galeno (1836-1931), com seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com seus poemas de monge atormentado.
IV
Com seleção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito de seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B.Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), única mulher entre os poetas reunidos.
Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.
Encerrada a questão da abolição da escravatura – embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efetivamente preocupado o governo e as classes dirigentes –, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo.
Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.
Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.
V
Com seleção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, “foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados”.
Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas “e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a idéia de desinteresse que se colou à produção simbolista”. Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam – a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés.
Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B.Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B.Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas.
Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequëntemente lembrados em estudos acadêmicos.
Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta “uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu”. Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas.
Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.
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ANTOLOGIA DA POESIA BARROCA BRASILEIRA, 157 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ÁRCADE BRASILEIRA, 126 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA, 286 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA PARNASIANA BRASILEIRA, 227 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA SIMBOLISTA E DECADENTE BRASILEIRA, 223 págs., 2008, R$ 22. Apresentação de Paulo Franchetti. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Lazuli Editora. Site: www.editoranacional.com.br
E-mail: editoras@ibep-nacional.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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domingo, 24 de maio de 2009

Beata Maria de Araújo (Nilze Costa e Silva)




Na minha loucura, desesperava-me por Deus me ter feito nascer num corpo feminino.
(Cristine de Pisan – 1364/1430)
Maria de Araújo, a Beata dos Milagres de Juazeiro, se lhe fosse permitido viver tanto tempo, estaria hoje, neste 24 de maio, completanto 146 anos.

Encontra-se no prelo o meu romance A Mulher sem Túmulo, tendo como foco a beata Maria Magdalena do Espirito Santo de Araújo, que sofreu tanto quanto as vitimas da Inquisição, as penas de reclusão, espancamento, calúnia, tendo morte social decretada pela Igreja Católica, a ponto de não ter direito nem mesmo a um túmulo, simplesmente por ser pobre costureira, negra, nordestina e analfabeta.
Foi difícil reconstituir a vida de uma mulher que não tem batistério, não tem certidão de nascimento (na época Juazeiro não tinha cartório), histórico escolar, nem atestado de óbito. Também não tem restos mortais, pois no dia 22 de outubro de 1930 seu túmulo foi aberto clandestinamente por ordem do Bispo do Crato. Seu corpo, mandado sepultar por Padre Cícero em 1914 no interior da Capela do Socorro, tomou um sumiço até hoje ignorado.
As pessoas que se interessam na sua reabilitação têm apenas duas fontes fidedignas: os dois inquéritos, nos quais constam os depoimentos de Maria, padre Cícero, e testemunhas oculares dos fatos miraculosos e algumas poucas cartas em que o padre a menciona.
Dos tantos livros que li sobre a questão religiosa de Juazeiro, poucos são os autores e autoras que se referem à beata com mais humanidade, no sentido de mostrar seu sofrimento e sua dor diante do descrédito da alta cúpula do poder eclesiástico. Falam da questão religiosa de Juazeiro, ocorrida em torno de 1889, sem colocá-la como protagonista dos milagres que mudaram visceralmente a vida do povoado.
Fecho os olhos e viajo no tempo. Na segunda metade do século XIX (1863) nascia Maria de Araújo, época em que os homens ainda detinham todo o poder no planeta: governavam as nações, dominavam o conhecimento, escreviam a história do mundo e determinavam o modo de viver de metade da humanidade - as mulheres. Diante do perfil de Maira de Araújo envolvendo gênero, classe, raça e religiosidade e diante da rigorosa hierarquia clerical masculina da época, convido o leitor e leitora para avaliar junto comigo o estupendo isolamento da sua existência.
Maria de Araújo foi o que fizeram dela. Mandaram que ela praticasse votos de castidade e pobreza. Obedeceu. De pobreza nem precisava, pois nasceu pobre e morreu mais miserável ainda. Nunca fez ouvir sua vontade e sua vocação. Foi vítima do trabalho infantil, da submissão feminina, preconceito racial, descrédito, calúnias, autoritarismo, truculência, proibição de manifestar sua fé, tortura, clausura, banimento social, doença seguida morte precoce e sumiço dos seus restos mortais. Aos 27 anos calaram-lhe a boca e ela foi proibida de falar sobre o que tinha certeza.
“A Mulher sem Túmulo” é um romance que traz como principal missão, subverter e mudar a perspectiva da história oficial sobre a chamada questão religiosa de Juazeiro, introduzindo outros pontos de vista a partir de uma história real. Procurei compor o perfil psicológico de Maria de Araújo com a intenção de reafirmar que a jovem de Juazeiro, responsável pelos milagres da hóstia e tantos outros, não é uma ficção. Existiu como uma mulher do século XIX, teve infância, sofreu com os tabus da primeira menstruação, os desejos impostos pela explosão de hormônios na juventude (que na sua fé seriam as tentações do demônio). Sua única opção de vida foi ter aceitado realizar um casamento divino com Jesus Cristo, acordo feito com o Próprio. E as duas únicas ousadias foram dar comunhão aos padres que a interrogaram no primeiro inquérito, e afrontar os que a fizeram comungar à força, com o fito de desmascará-la. Disse-lhe, por ordem de Deus, que eles não estavam em estado de graça e, portanto, a hóstia não podia sangrar (estes fatos integram os dois inquéritos instaurados pela Igreja Católica, na época).
De resto, só viveu para amar a Deus e a humanidade, ajudar os pobres famintos e flagelados de duas das mais perversas secas do Nordeste, transformando toda a sua vida numa rotina de jejuns, orações, penitências e dedicação aos pobres. Uma vida de martírio. Portanto, segundo os próprios cânones da igreja Católica Apostólica Romana, uma vida de santa.
E por que não operar milagres, se era tão íntima de Jesus? Por que não acreditar nela, nessa grande alma feminina santificada pela fé do povo do Juazeiro?

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Assuntos (Pedro Du Bois)

(joaomak.net)


Referendado, assunto
a platéia


(pais e mães
em holocausto
pela palavra dita)


modificado, o cânone
irrompe em paradigma
além do acontecido


(o dia anterior encerra
a necessidade).


A desventura da virtude
no virtuosismo do avançar
constante ao desabrigo.

(Pedro Du Bois, inédito)

meus poemas:
http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.worldartfriends.com/modules/publisher/userstats.php
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Cinzas (Ailton Maciel)



Que é feito do viver daqueles tempos?
Onde estão da casinha os habitantes?
A primavera, que arrebata as asas...
Levou-lhes os passarinhos e os amantes!...
Castro Alves


Aparece, ó visão de minha vida!
Vem decantar comigo o amor luzente...
Não vês, menina, a chaga dolorida
Que fervilha em meu peito penitente?...

O vem, ó vem, eu, louco, desespero!
Vem sentir desta vida os seus sabores...
Vem, açucena, eu todo dia espero
Os momentos ditosos dos amores!

Não te lembras, então, dos belos dias,
Que passamos felizes, lado a lado,
Só sentindo prazeres e alegrias
Sob o tempo, feliz, enluarado?!

Ainda recordo a nossa feliz vida:
Eu beijava a sorrir os teus cabelos.
Hoje o meu ser é chaga dolorida,
Hoje os sonhos são frios pesadelos!

Quão ditosos nos foram os momentos
Quando em tempo atrás juntos passamos...
Hoje restam visões e mil tormentos
Dos tempos auros em que nos amamos!

Hoje só restam cinzas... devaneios...
Recordações fatais pras nossas vidas:
Tu tens o corpo de carícias cheio,
E eu de chagas e fatais feridas!

Fortaleza, 7/10/64.
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domingo, 10 de maio de 2009

Petrarca em Minas Gerais (Adelto Gonçalves)



I
O petrarquismo como fenômeno literário sempre esteve atrelado à existência de uma corte. Sua importação pela América portuguesa, no século XVIII, foi uma contradição à própria origem e razão da existência do fenômeno, pois nunca houve corte no Brasil até o começo de 1808, quando desembarcou no Rio de Janeiro a família real, em fuga das tropas napoleônicas que invadiram Portugal em novembro de 1807.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Açúcar (Sarah Forte*)













Chocolate. Barras de chocolate ao leite, com flocos de arroz. Brigadeiro. Leite condensado escorrendo. Bananas caramelizadas. Bombons. Trufas. Cerejas ao licor. Chocolate derretido. Churrasco. Carne gorda, mal passada, o sangue pingando. Mesmo que comer um boi todo. O grosso do sal. A coca cola estupidamente gelada com rum. Cerveja. Vinho. Tantas comidas para tão curta vida. O mundo oprime de tanta vontade de comer. Escorre pela boca o sangue do porco. Tão imponente o porco dourado com a derradeira maçã a distingui-lo dos suínos comuns. A maçã era o que menos interessava. Tenro, o porco oferecia-se, pleno. Enigmático, sussurrava casualmente: Decifra-me ou te devoro. Restava devorá-lo. Sem remorsos. Comê-lo como se fosse o último porco da terra. Depois, abandoná-lo. E comer arroz, feijão, grossas lingüiças vermelhas. A gema do ovo sobre o queijo derretido incitava loucuras. O macarrão encarnado e rico em cebolas atraia irresistivelmente. E os bolos. Os brigadeiros. Os infinitos salgadinhos sobre brancas bandejas. E o desmanchar-se das comidas por entre os dentes. A sutileza do peixe frito e suas espinhas. Lutaria com todas as forças para destrinchá-lo. Guerrearia com aquele robalo, até que um dos dois vencesse!
Em cada esquina, um pastel de frango, de queijo, de carne. Em cada rua, um pouco de caldo com pão de ontem. Na geladeira, muito doce, que é o que salva. Torta de leite condensado, coco ralado e chocolate. Durante o trabalho, bombons variados. Não importava a marca, deveria ser doce, extremamente doce. Então descobrira o incurável problema. Deveria usar expressa e eternamente aspartame.
Mas como é que pode... logo ele? Ele que vivia para os doces, e também para os salgados? Que passara dois quartos de século mais todos os dedos de uma mão a comer? A viver os alimentos intensamente, como que procurando o melhor sabor? Não... isso era um pesadelo. Ainda não achara o sabor dos sabores. A vida tem um cerne crocante, ele ainda não conquistara o que havia de mais delicioso.
E continuou a comer. Agora, escondido. Um marginal das comidas. As pessoas vigiavam-no. E os tempos áureos dos churrascos haviam acabado. Somente alimentos pálidos e sem gosto. Alimentos tristes. Chuchus antipáticos. Pepinos depressivos. Ele reclamava. Dizia que preferia a morte. Que sonhava com uma existência entre doces. As pessoas lembravam que no mundo há quem passe fome e que ele deveria dar graças a Deus. Deus? Que Deus é esse que nega ao seu filho o açúcar? Oh, como sofria aquele homem.
Então, numa chuvosa noite, ele saiu. Todos dormiam. Metodicamente, abriu a porta. Tomou as ruas. Livre, enfim livre. Num mercado 24 horas, comprou doces, o que de mais doce havia. Doces crocantes. Salgados de toda a espécie. Bebidas adocicadas. Sentou-se na calçada. E devorou tudo. Depois, saiu correndo no meio do temporal. Estava no ápice da felicidade. Tão feliz. E tonto. Terrivelmente tonto. Desmaiou no meio fio.
Pastosamente, acordou. Sentia-se como argila despedaçada, massa de pão sem fermento. Cometera um grande crime. O terrível pecado. Comera. Mas não estava arrependido. Faria tudo outra vez. E que não o vigiassem mais. A vida não pode ser insossa. A vida é doce. É caramelizada. É crocante. Por favor, parassem de chateá-lo! Arranjassem logo uma bandejinha de brigadeiros ou ao menos um saco de pipocas. Não tinha tempo a perder. Não tinha doces a perder. As pessoas, sempre as pessoas, olhavam-no incrédulas. Aquele homem queria morrer. Oh, sim, ele morreria por uma causa justa, por um ideal honrado. Se morresse, morreria sem fome. Satisfeito.
Certo dia, para a surpresa de poucos, não mais acordara. Para o velório, a esposa encomendou dois centos de docinhos e salgados sortidos. Quentinhos, fumegantes, no ponto em que gritam: Devore-nos, porém, antes, mergulhe-nos no molho.
Secretamente, todos sorriram, íntimos, irmãos, numa volúpia de sabores. O morto, reflexivo, concentrado, encontrara o cerne crocante da vida.
 

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* Sarah Forte possui Graduação em Letras (Português-Literatura) pela Universidade Federal do Ceará - UFC, com experiência em produção e revisão de textos diversos. Mestranda em Literatura Brasileira pela UFC, com o projeto: “Homens do sertão - Representações Culturais em "Buriti" - Noites do Sertão - de João Guimarães Rosa”.

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domingo, 3 de maio de 2009

A parceria (Belvedere Bruno)

















De todos os lados, as opiniões convergiam: - "É o casal perfeito. Cúmplice e amoroso!", diziam. Por décadas, mantiveram-se em aparente estado de felicidade e realização.
Ela imaginava-se de cabelos brancos e bengala, ao lado daquele homem maravilhoso. Não tinha dúvida de que a relação seria a mesma, na alegria e na dor, até que a morte, a ceifadora, desfizesse aquela parceria. Temia tal momento e rogava aos céus para que ele fosse o primeiro a ser escolhido, pois tinha consciência da falta de estrutura emocional dele para absorver-lhe a partida. Ela, ao contrário, estaria preparada, devido aos anos de psicoterapia, sua religiosidade, seus amigos. Ele sempre fora um cético. Tinha pouquíssimos afetos, abominava religião e dizia não ser louco para entregar sua cabeça a psicoterapeutas. Ali residia o mérito daquela relação. Eram diferentes, mas se adaptaram para que vivessem pacificamente.
Eis que um dia, em plena avenida, ela tem um infarto agudo, e morre, sem ao menos ter tempo de ser socorrida. Ele manteve-se calmo e assim ficou até que o corpo fosse sepultado.
O padre, os amigos e vizinhos comentaram a força dele no momento, mas, depois de um mês, como ele continuasse aparentemente imune à dor da partida, pensaram na possibilidade de um "estado de choque", e chamaram um profissional para vê-lo, conversar com ele e saber o que realmente sentia.
- Livre das amarras! Por vinte e cinco anos, convivi com tudo o que não gostava: terços, bíblias, terapeutas, livros de Freud, Jung, teorias aos montes, que me enchiam a paciência, sempre tentando explicar o inexplicável. Tudo o que eu desejava era aproveitar a vida, longe dos amigos medíocres que ela trazia aqui pra casa. O que posso sentir agora, a não ser uma sensação de leveza e felicidade?-
E tirou a cor azul da fachada da casa, colocando um tom terra; pintou de vermelho o quarto que fora do casal, para que a cor quente reacendesse as paixões. Aquele tom gelo, segundo ele, sempre fora um banho de água fria na vida sexual deles.
Da antiga decoração da casa, nada restara. Não tinha afinidade com nenhum dos objetos, mobiliário, biblioteca. Sobre a nova mesinha de cabeceira, o Kama-Sutra.
Todas as manhãs, cantarolando, regava seu canteiro, antes ocupado por plantinhas de temperos que ela utilizava nas refeições do dia-a-dia. Ali, agora, havia as mais lindas flores, com diversos matizes, parecendo acompanhar o estado de alma daquele homem que, a partir de sua liberdade, se tornara cada dia mais feliz...
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Rosas vermelhas (Valéria Nogueira Eik)
















A rosa vermelha e o sorriso cativante foram entregues ao final do dia.
Amélia, olhos baixos, fez um muxoxo de menina e tentou alongar a mágoa.
Encarou o riso inocente e esqueceu as palavras rudes da noite anterior.
A rosa era tão linda!

Duas rosas vermelhas foram entregues no início da noite por um sorriso suplicante.
Amélia exibia um pequeno corte na boca. Derramou soluços incontidos e mais algumas lágrimas.
Olhou as rosas. Sorriu tristemente. Desculpou a ressaca matinal.

Três rosas vermelhas foram entregues, quando duas ou três estrelas salpicavam o pedaço de céu que se condensava diante da janela.
Amélia, deitada na cama, invadida por todas as dores, relutava em perdoar.
O sorriso dele, quase paternal, delineava motivos e a absolvição das culpas.

Quatro rosas vermelhas foram entregues quando a madrugada cobria a cidade.
Amélia, amontoada no chão, ainda recolhia os cacos do próprio corpo.
O riso infantil implorava por perdão e afagos.

Cinco rosas vermelhas foram entregues, quatro ou cinco dias depois, por um par de olhos desesperados.
Amélia, de malas prontas, queria ir, queria ficar.
As marcas arroxeadas e a pele costurada começavam a ganhar tons suaves.
E suaves ficaram as dúvidas.

Seis rosas vermelhas foram entregues por um sorriso impessoal.
Amélia, agasalhada por outras tantas flores e pelo brilho das velas, não pôde ver nem perdoar.
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