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segunda-feira, 1 de março de 2010

Livro italiano sobre Fernando Pessoa tem ensaio de Adelto Gonçalves


(Adelto Gonçalves)

O ensaio "Ambiguità e ossimoro: simboli dell'universo e del mistero in Fernando Pessoa" (Ambiguidade e oxímoro: símbolo do universo e do mistério em Fernando Pessoa), do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, professor do curso de Direito da Universidade Paulista (Unip) e de Jornalismo Impresso da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos, faz parte do livro Studi su Fernando Pessoa, a ser lançado dia 9 de março por Edizioni dell'Urogallo, de Perúgia, sob a direção do professor Brunello De Cusatis, responsável pelas Cátedras de Literaturas Portuguesa e Brasileira e de Línguas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perúgia. Segundo De Cusatis, a obra reúne onze estudos de alguns dos maiores especialistas hoje na obra de Fernando Pessoa em todo o mundo.

Na apresentação do livro, De Cusatis explica que a obra estava prevista para sair à luz em 2008, à época do 120º aniversário de Fernando Pessoa (Lisboa, 13/6/1888), mas "razões profissionais e familiares" acabaram por retardar o seu lançamento. O livro é dedicado à memória do crítico cubano René Pedro Garay, diretor do Departamento de Literaturas Hispano-americana e Luso-brasileira da The City University New York (Cuny), falecido em 30/4/2006 e co-autor com Raúl Romero do ensaio "Epifanía y poema en prosa: El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares", que também será publicado com o título Il Livro do Desassossego di Fernando Pessoa/Bernardo Soares: epifania e poema in prosa em Studi su Fernando Pessoa. Nesse ensaio, os autores apontam o livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus, de Adelto Gonçalves (Santos: Universidade Santa Cecília, 1997), como texto pioneiro em referência ao poema em prosa na obra de Fernando Pessoa.

Além dos ensaios de Adelto Gonçalves e de Raúl Romero-René Pedro Garay, a obra traz estudos: do próprio Brunello De Cusatis; de Alfredo Margarido, poeta, artista plástico e professor da Universidade Lusófona, de Lisboa; de José Blanco, bibliógrafo pessoano e ex-administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa; de Manuel G. Simões, ex-responsável pela cátedra de Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira das Universidades de Bari e Veneza; de Ivo Castro, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; de Jerónimo Pizarro Jaramillo, colombiano com doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa e em Literatura Romana pela Universidade de Harvard; de Fernando J. B. Martinho, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; de Vera Lúcia de Oliveira, professora brasileira da Faculdade de Letras da Universidade de Perúgia; e de Andrea Marcigliano, jornalista e professor de Filosofia e História.

O ensaio "Ambiguidade e oxímoro: símbolos do universo e do mistério em Fernando Pessoa", agora traduzido para o italiano por Brunello De Cusatis, foi publicado originalmente na revista Forma Breve, nº 4, 2006, pp.303-313, da Universidade de Aveiro, Portugal. Já o ensaio "Epifanía y poema en prosa (El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)" foi publicado originalmente em castelhano na revista Forma Breve, nº 2, 2004, pp. 71-79, e na Revista do Centro de Estudos Portugueses (Cesp) da Universidade Federal de Minas Gerais, de Belo Horizonte, v. 25, nº 34, jan-dez, 2005, pp.13-22.

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP). Fez trabalho de pós-doutorado com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) na Universidade de Lisboa em 1999-2000.

Jornalista desde 1972, trabalhou em O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Editora Abril e A Tribuna, de Santos. Foi correspondente em Lisboa da revista Época em 1999-2000. É colaborador do quinzenário As Artes entre as Letras, do Porto, e dos jornais Diário dos Açores, A Tribuna, de Santos, Jornal Opção, de Goiânia, A Tarde, de Salvador, e revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa, Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, e Forma Breve, da Universidade de Aveiro, entre outras. É sócio-correspondente da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil), do Rio de Janeiro.

Estreou na literatura em 1977 com o livro de contos Mariela Morta. Em 1980, ganhou menção honrosa do Prêmio Nacional José Lins do Rego da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, com o livro Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981). Em 1986, obteve o Prêmio Fernando Pessoa da Fundação Cultural Brasil-Portugal, participando do livro Ensaios sobre Fernando Pessoa.

Conquistou os prêmios Assis Chateaubriand de 1987 e Aníbal Freire de 1994, ambos da Academia Brasileira de Letras. Em 2000, com Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), seu trabalho de doutorado, ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras.

Em 1999, publicou o seu primeiro livro em Portugal: o romance Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), que saiu no Brasil em 2002 pela Publisher Brasil, de São Paulo. Em 2003, publicou pela Editorial Caminho, de Lisboa, Bocage: o perfil perdido, seu primeiro trabalho de pós-doutorado. Escreveu prefácios para dois livros de contos de Machado de Assis publicados em 2006 e 2007 pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia, em edição bilíngüe russo-portuguesa, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Atualmente, com bolsa da Unip, desenvolve pesquisas no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a atuação de ouvidores, juízes de fora e juízes ordinários na capitania de São Paulo (1709-1822). Tem prevista a publicação pela Ateliê Editorial, de Cotia-SP, do livro Aventureiros paulistas: a formação da capitania de São Paulo no século XVIII.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Balada para Fortaleza (Henrique Marques-Samyn)

(Impressões de viagem - julho de 2007)



Depois de conhecer-te, o olhar mais nada


encontra como outrora: a claridade


que emanas cada coisa renovada


já torna – soberana és, em verdade,


cidade-luz, serena e ensolarada.


Teu céu esplende em límpida beleza:


louvando-te ofereço esta balada –


cidade iluminada: Fortaleza!






Do Pajeú nasceste, assinalada


em teu seio a luzente majestade;


mesmo se és porventura maltratada


por maus senhores, vibra esta vontade


mais forte em ti, brava mulher dourada.


Teu mar esplende em límpida beleza,


à luz da lua, na alta madrugada –


cidade iluminada: Fortaleza!






Por que deuses assim foste forjada


com tal cuidado, formosa cidade


do Mucuripe, da Caranquejada,


de que te orgulhas, rútila em vaidade?


Por séculos serás ainda louvada:


teu sol esplende em límpida beleza,


o sol que nos teus braços fez morada –


cidade iluminada: Fortaleza!
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

“Lama e folhas”, de Moreira Campos: Obra-prima (Nilto Maciel)



Iniciou-se Moreira Campos (1914-1994) no mundo literário com o volume Vidas marginais (Fortaleza: Edições Clã, 1949), composto de doze peças ficcionais: “Lama e folhas”, “Náufragos”, “Vigília”, “Suor e lágrimas”, “Esmagados”, “Varela”, “Soldado da borracha”, “Coração alado”, “Dona Adalgisa”, “Dúvida”, “Sugestão do silêncio” e “Vidas marginais”. Entretanto, em 1947, um deles, “Coração alado”, foi incluído por Graciliano Ramos em Contos e novelas (Norte e Nordeste). É possível que os outros onze também estivessem prontos. Ou bem antes daquele ano.

Carnaval ou futebol? (Francisco Miguel de Moura*)




Meu ópio é a literatura. Mas, falemos agora de outros. No sábado passado não saiu meu artigo, neste jornal**. Atribuo a que a pauta estivesse cheia de comentários sobre o Carnaval e a minha crônica referia outro assunto. Não importa que este meu escrito venha a ser publicado depois da festa mais popular do Brasil – quando se estabelece um novo Reinado, o do Rei Momo. E todo mundo cai na folia. Afinal de contas, ninguém é de ferro para trabalhar o ano inteiro e não ter nem isto: 3 dias de Carnaval.

Sou mais cronista que articulista, e não apenas para elogiar ou criticar. Tenho vários tipos de leitores. Observando bem, digo que o ano do Brasil só começa depois da Semana Santa. Por quê? Ora... Janeiro é o rescaldo do Natal, e ainda estamos na Festa da Confraternização Universal (Festa de Ano Novo). Depois vêm as Festas de Reis com suas lapinhas e reisados onde ainda existem e noutros lugares com o bumba-meu-boi, tudo confirmando a religiosidade do povo brasileiro. Fevereiro já é o mês do Carnaval. E ai de quem dele não gostar! Vai mofar sentado num sofá, vendo-o pela televisão (pois não há outros programas) ou sai para ver os blocos que passam na rua, os carros de som que estouram nossos ouvidos e outras coisas do tipo. Sem tevê, temos o rádio, quase igual à tevê. Há lugares, hoje, onde o Carnaval continua quase o ano inteiro com nomes derivados do estado ou da cidade. E a música popular faz sua festa, claro. Pois Carnaval sem música não existe. Março! Bem, aí chega a Semana Santa, lá vem o sentimento religioso tomar conta de todas as ações do povo e do não-povo.

Depois disto, tome futebol o ano inteiro. Tem gente que torce por uma porrada de times: um em São Paulo, outro no Rio, mais outro do seu estado, e até do seu município onde nasceu ou mora. Já existem animados campeonatos municipais. Mas, como a maioria dos intelectuais, eu não gosto de futebol, e não vou dizer que gosto somente para agradar essa maioria que não lê, não escreve, não sabe o que é arte, nem mesmo no futebol. Quando o futebol é arte todo artista ou amante da boa arte gosta. Aos jogos decisivos de grandes campeonatos, muitos assistem: Copa do Mundo e Campeonato Brasileiro, etc. Mas assistir a toda partidazinha de pé-de-poeira de todo interiorzinho já chega a ser tolice.

E a gente tem que gostar de Carnaval ou de Futebol?

Não sei, acho que não. Que me lembre, quando era jovem, na cidade de Picos, brinquei, no Clube, uns três carnavais: No primeiro, peguei um fora de uma mocinha, irmã de minha colega. Esta colega bem que queria namorar comigo, mas eu teimava. Só queria a irmã mais nova. No segundo, tinha namorada. No último, já era casado recente. Se brinquei outros Carnavais “seriamente” não me lembro. Sei que naqueles tempos a gente ainda usava o tal “lança-perfume”, droga ainda não proibida. Assim, não posso dizer que gosto de Carnaval. Mas, num passado já bem distante, me perguntaram:

– De que você mais gosta, de Futebol ou Carnaval?

E eu, pensando acertadamente, respondi:

– Muito fácil! Carnaval só são três dias e Futebol é o ano inteiro.

Claro que ainda optaria pelo Carnaval. Mas, já começo a viver noutro mundo. Já existem carnavais quase o ano inteiro, no Brasil! Arre! Assim já não é divertimento, é trabalho.

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*Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras (APL) e da Associação Internacional de Escritores (IWA-sigla em inglês), Toledo, OH, Estados Unidos.
** Refere-se o cronista ao jornal em que costuma publicar crônicas.

E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

WEB: http://cirandinhapiaui.blogspot.com

http://abodegadocamelo.blogspot.com

http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Paixão (Poema de Pedro Du Bois)



Apaixonei-me pela luz e a persegui

em beira mares, tive com a areia

atritos indesejáveis: a luz

e os pés molhados; perdi

a batalha, meu refúgio é o escuro

vão da escada, onde guardo

tralhas desconsideradas: rabisco

a poeira com palavras versejadas:

poderia anotar os dias.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Carlos Vazconcelos: Próximo dos modelos (Nilto Maciel)



O début de Carlos Roberto Vazconcelos no universo dos livros se deu com Mundo dos vivos (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008), reunião de 32 peças curtas de ficção. O título é vulgar, o que não quer dizer quase nada, pois muitos títulos pomposos, esdrúxulos e mesmo poéticos escondem apenas lixo, rebotalho. Vulgar porque está até nos ditados: “o mundo é dos vivos”. Entretanto, como explica o autor em nota, “o mundo dos vivos é um assombro”. Seja como for, seria preferível o título de uma das narrativas, como “A inescrutável face da morte” e “Sem vento, à deriva”. Mas gosto não se discute, como diz outro ditado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A nova literatura angolana (Adelto Gonçalves*)



I
Il giorno in cui Paperino si è fatto per la prima volta Paperina e altri racconti: 12 storie quasi post-moderne (O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida e outros contos: 12 histórias quase pós-modernas), do angolano João Melo (1955), é o quarto volume da coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana que a Morlacchi Editore, de Perugia, Itália, vem publicando sob a direção do professor Brunelo Natale De Cusatis, responsável pela Cátedra de Literatura Portuguesa e Brasileira e Língua Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perúgia, com o apoio do Instituto Camões e da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, de Portugal, em edição bilíngüe italiano-português.
O objetivo da coleção, segundo De Cusatis, é dar a conhecer ao público italiano a obra poética e narrativa lusófona, com atenção particular à última geração que é pouco ou nada conhecida na Itália. Até agora já foram publicados os livros Frontiere perdute, racconti per viaggiare, do angolano José Eduardo Agualusa, Il caso del martello, do brasileiro José Clemente Pozenato, e Buona notte, signor Soares, do português Mário Cláudio. Com publicação prevista para este ano está Racconti, de Sérgio Faraco. Entre os brasileiros, estão dois gaúchos (Pozenato e Faraco), em razão do interesse que pode despertar naquele país a literatura produzida numa região marcada pela forte presença de imigrantes italianos, especialmente do Vêneto.
Com apresentação, edição e tradução de Marco Bucaioni, os contos de João Melo, publicados pela primeira vez pela Editorial Caminho, de Lisboa, em 2006, fazem parte da nova literatura angolana, até aqui mais conhecida pelas obras de José Eduardo Agualusa (1960), Pepetela (1941), ganhador do Prêmio Camões de 1997, e Luandino Vieira (1935), que obteve o Prêmio Camões de 2006, recusado por razões pessoais. Sua temática principal é a descrição da nova sociedade angolana nascida da luta pela independência (1975) e da guerra fratricida que se seguiu entre as facções do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), apoiada pelo regime soviético com a participação direta do governo cubano, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pelos Estados Unidos com a intermediação da África do Sul, dentro do contexto da Guerra Fria.

II
Mesmo com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a derrocada do regime soviético, a guerra angolana só teve fim em 2002, depois de ter causado imensos danos ao país, inclusive com uma diáspora de muitos cidadãos que não tiveram outra saída a não ser tentar reconstruir a vida em Portugal, Brasil, Estados Unidos, Canadá, França, Inglaterra e outros países europeus. Mas a Angola pacificada do século XXI já quase nada tem da colônia portuguesa de meio século atrás, isolada do mundo.
Aberta a investimentos estrangeiros, é um país que apresenta grande crescimento econômico, especialmente nas áreas de diamantes, petróleo e recursos minerais. A grande dificuldade, porém, está na repartição dessa riqueza à qual não têm acesso grandes parcelas da população, que vivem em condições subumanas.
Com esse período de conturbação já superado, a literatura angolana vive hoje outra fase, depois de ter explorado à exaustão as vicissitudes de uma sociedade pós-colonial sob o véu marxista-leninista. Agora, numa etapa em que já não podem atribuir todos os males ao colonialismo, os angolanos precisam buscar entre os seus pares os responsáveis pelo atraso econômico e pela manutenção de tantas diferenças sociais.
Mas, encerrado há tão pouco tempo aquele período, é claro que os dissabores da guerra ainda estão presentes nestes contos de João Melo. É o que se pode contatar em "A morte é sempre pontual" em que o desfecho trágico, embora anunciado, acaba por surpreender o leitor.
Ou em "O Canivete agora é branco" em que conta o reencontro que não se deu, 30 anos depois, de um ajudante de caminhão com seu antigo colega de profissão que, mais esperto, soube como cavar a vida, filiando-se ao MPLA, o movimento vitorioso, freqüentando a Universidade Patrick Lumumba, em Moscou, até virar quadro do partido e do governo para tornar-se administrador de uma empresa de diamantes e governador provincial. Metido até o pescoço em negócios escusos, o antigo Canivete transforma-se em empresário, virando até mesmo "branco", sempre acompanhado de seguranças. Quem sabe uma paródia do "homem invisível" do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).

III
Em "O escritor", João Melo, abusando, no bom sentido, da ironia, traça o perfil de um homem de letras que vivia angustiado à espera do sucesso que nunca chegava, embora já tivesse escrito quilômetros de poemas, estórias, teses, ensaios e recensões literárias, além de construir uma carreira politicamente correta, pelo menos aos olhos dos vencedores, pois, durante o colonialismo, tivera de prestar muitas declarações à Pide (a polícia política salazarista) e, na fase pós-independência, participara da campanha nacional de alfabetização e das brigadas que foram colher café, sem contar que, durante a guerra anticolonialista, nunca fugira do país. Mesmo assim, nunca recebera um prêmio literário. Talvez porque não fosse nem mestiço nem branco.
Já no conto que dá título ao livro, João Melo reconstitui a relação de dois adolescentes que teriam nascido e crescido a mesma época, entre famílias comuns, aos quais todos davam como certo um relacionamento seguro e um casamento duradouro: "Crescemos juntos. Brincámos de médico, professor, engenheiro. Brincámos de casamento. Brincámos de papá e mamã. Nesse dia, lhe mostrei a minha pila. Ela disse: - Ih, tão pequenina! - Depois levantou as saias: as suas cuecas floridas deixaram-me paralisado de admiração. Quando quis lhe dar um beijo, como aqueles que meu pai dava na empregada, quando a minha mãe não estava em casa, ela fugiu. Durante uma semana, não apareceu na minha casa". (p.96).
Por aqui se vê o estilo ágil e moderno de João Melo. E, se o final não se adianta aqui, é porque ao resenhador não é lícito antecipar os epílogos dos contos e romances que resenha. Ao final deste livro, há ainda um glossário indispensável não só ao leitor italiano como ao lusófono pouco acostumado à história e à geografia de Angola. Muitas expressões do coloquialismo do português escrito em Angola ficaram de fora deste glossário, mas o seu significado o leitor pode intuir a partir do contexto de cada conto.
Como se sabe, o português na África é uma língua restrita a escritores, jornalistas, pessoal do governo, professores e alunos, ou seja, àqueles que a escrevem. Até porque a imensa população é lusógrafa (para citar aqui uma expressão criada pelo mestre francês Jean-Michel Massa), não luso-falante. Cada grupo étnico fala a sua própria língua entre si e sempre que um estranho ao ninho deixa o recinto. Era isso o que este resenhador percebia quando, na casa de amigos angolanos, em Oeiras, ausentava-se para ir à casa de banho.


IV
Jornalista, publicitário e professor, João Melo estudou Direito na Universidade de Coimbra e em Luanda. Graduou-se em Comunicação Social e fez mestrado em Comunicação e Cultura no Rio de Janeiro. Membro-fundador da União dos Escritores Angolanos, ocupou vários cargos nessa entidade. Atualmente, é diretor de uma agência de comunicação, além de ensinar numa universidade privada. É deputado no Assembleia Legislativa angolana.
Representante da "geração das incertezas", expressão alcunhada pelo grande crítico angolano Luis Kandjimbo, também poeta, João Melo começou sua trajetória literária na poesia, nos anos 1980, tendo lançado oito livros: Definição (1985), Fabulema (1986), Poemas Angolanos (1989), Tanto Amor (1989), Canção do Nosso Tempo (1991), O Caçador de Nuvens (1993), Limites e Redundâncias (1997) e Auto-Retrato (2007). Como contista, lançou mais três livros: Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir (1998), The Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não (2000) e Filhos da Pátria (2001). Na área de ensaios, publicou Jornalismo e política (1991).

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IL GIORNO IN CUI PAPERINO SI È FATTO PER LA PRIMA VOLTA PAPERINA E ALTRI RACCONTI (O DIA EM QUE O PATO DONALD COMEU PELA PRIMEIRA VEZ A MARGARIDA), de João Melo. Tradução de Marco Bucaioni. Perugia: Morlacchi Editore, 205 págs., 2009. E-mail: editore@morlacchilibri.com

Site: http://www.morlacchilibri.com/
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage, o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Romanceiro de Bárbara: Cantares de rebeldia (O Poeta de Meia-Tigela)

(Casa onde morou Bárbara de Alencar, na Praça da Sé, Município do Crato, Ceará).


Em homenagem aos duzentos e cinquenta anos de Bárbara de Alencar, nascida a 11 de fevereiro de 1860; e aos trinta anos do Romanceiro de Bárbara, de Caetano Ximenes Aragão (1927-1995).


Há trinta anos Caetano Ximenes Aragão publicava o seu Romanceiro de Bárbara, livro cujo título nos remete imediata e não casualmente ao Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. O autor parece querer estabelecer desde o princípio um paralelo entre os episódios da Conjuração Mineira tão magistralmente recriada em versos pela poetisa carioca, e a Confederação do Equador que, no concernente à participação do Ceará, teve na família Alencar alguns dos significativos protagonistas.
Movidos pelo descontentamento frente às medidas do então recente governo imperial de Dom Pedro I, camadas representativas de Pernambuco, da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará unem-se em oposição ao poder monárquico centralizador. Em nosso estado, depois de aguerridos combates, Tristão Araripe chega a empossar-se como Presidente da Província em 1824, no entanto pouco demorando como tal. A pronta e violenta reação das tropas legalistas leva-o à morte em combate, bem como instaura furiosa perseguição aos revoltosos, culminando com o fuzilamento, em 1825, dos mártires Azevedo Bolão, Ibiapina, Carapinima, Padre Mororó e Pessoa Anta — no antigo Campo da Pólvora, atual Passeio Público.
Se Bárbara de Alencar não esteve envolvida diretamente na intentona de 1824, foi figura emblemática em 1817. Não apenas “acobertara” as conspirações de seus filhos Tristão e José Martiniano (este, pai do autor de Iracema), mas alimentara o ideal revolucionário com sua força de — mais do que matrona — matriarca esclarecida do Crato. É o que atesta a carta-testamento do padre, médico e naturalista Manuel de Arruda Câmara: “A D. Bárbara de Crato, devem olhá-la como heroína”. Heroica seria realmente sua postura quando do fracasso, em apenas uma semana, dessa primeira experiência republicana cearense: assim como seus filhos, é presa e conduzida ao antigo Quartel de 1ª. Linha da capital, e encarcerada sem direito a regalia de qualquer espécie. Pelo contrário, viveria dias de extrema penúria até sua transferência por mar para a Fortaleza das Cinco Pontas em Recife e, dali para Salvador, onde finalmente fora libertada, após uma devassa que com seus respectivos sofrimentos e represálias, durara cerca de três anos. O retorno para casa não resultou, porém, exatamente numa alegria: com os bens tomados pelo Império, e o nome enxovalhado (os adversários políticos naturalmente aproveitando-se da ocasião para a disseminação de toda sorte de maledicência), tornaram-se uma espécie de “exílio domiciliar” seus últimos anos. Não se tem notícias do pertencimento de Bárbara de Alencar às insubordinações que se seguiram à sua soltura. Morre em 1832, a vinte e oito de agosto, aos setenta e dois anos.
Eis os fatos que servem de motivo à lírica de Caetano Ximenes Aragão e ao Romanceiro: escrito num período marcado pela agonia do regime militar e início da Abertura, o livro faz do canto a Bárbara um canto à liberdade. O que é simbolizado exemplarmente pela contínua aparição no poema da Ave da Madrugada que “canta de noite e de dia/ é sua maldição cantar/ cantares de rebeldia/ e aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia/ será sempre um encantado/ da ave da madrugada”. E que é revelado ainda pelo poeta no Posfácio à obra: “Este poema é uma metáfora sobre a liberdade. Nasceu em tempos de incertezas. Havia medo, exílio, prisões, torturas, homens e mulheres banidos. Bárbara Pereira de Alencar, primeira presa política do Brasil, na ordem do tempo, sofreu prisão, violência, maus tratos, exílio e teve seus bens confiscados. Mas resistiu e por isso e outras razões, é uma heroína marginalizada na História de nosso País”.
“Uma heroína marginalizada na História de nosso País”, diz-nos o poeta. Não deixa de ser verdade, se pensamos no espaço concedido a diversos vultos tornados referências nacionais. Não deixa de ser verdade, se pensamos no espaço concedido a outros vultos tornados referências em nosso próprio estado. Não deixa de ser verdade se confrontamos o que representam as imagens de Bárbara de Alencar e seu filho Tristão Araripe, quando comparadas à imagem que atualmente exportamos como sendo a tradutora de nossa cearensidade: a de um Ceará não só Moleque, mas cuja molecagem vem identificando-se, gradualmente, com o baixo humorismo. Enaltecemos com orgulho a figura de um povo irreverente a ponto de vaiar o próprio sol. Mas diminuímos o valor dessa mesma irreverência quando a igualamos ao riso fácil resultante da piada mal-contada, reprodutora de preconceitos e estereótipos, incapazes de sugerir quaisquer maiores enfrentamentos do status quo. Forjamos cada vez mais a face de um povo que sabe rir (de si); porém, não será esse contentamento algo um tanto forçado, esgar ao invés de sorriso? Quando Caetano Ximenes elege Bárbara de Alencar motivo de sua poética, contribui para o resgate de outra fundamental expressão de nossa formação como povo: a expressão da luta, do confronto, do heroico e do trágico, igualmente cearenses.
Tomemos como simbólico o não nos ter chegado um registro, desenho, nenhum esboço sequer, dos rostos de Bárbara ou Tristão: e empreendamos o avivamento de suas feições, o avivamento de nossas feições, estimulando a presença de seu exemplo entre nós. Se Zenon Barreto soube representar a ausência de tal registro na estátua erigida em homenagem à “Guerreira do Brasil” (para lembrar a obra de Roberto Gaspar), soube também postá-la retilínea e altiva, conforme a vemos na Praça Bárbara de Alencar, na Avenida Heráclito Graça. Felizmente há sempre quem insista na representação de um Siriará combativo, e que sabe fazer da festividade, inclusive, um momento de exaltação dessa “outra face” de que falamos: é o caso de inúmeros anônimos. É o caso também de Maria do Amparo, que mantém um pequeno museu na Casa do Sítio Caiçara em que Bárbara de Alencar nasceu, no município de Exu, sem apoio governamental ou particular algum. É o caso de Oswald Barroso à frente do anual Cortejo dos Confederados; e agora do Maracatu Nação Fortaleza e seu tema “Bárbara Luz da Liberdade”.
Vejam que não é absolutamente necessário que tomemos a vida negativamente, por a assumirmos heroica e tragicamente: é condição maior do trágico, não a dor, mas a insubmissão ante um destino demarcado. Sorriamos, pois: não com escárnio, mas com a felicidade dos que se sabem encantados pela “ave da madrugada/ que canta de noite e de dia/ (...) cantares de rebeldia”.


“Bárbara era feita
de pedaços de brisa
certezas
e terra ensanguentada”

(Caetano Ximenes Aragão)
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Labirinto de tramas em Inventário das sombras (Nilto Maciel)




Depois de estrear com o volume de contos Dulcinéia em Hollywood (2006), sob o nome Cherlanyo Barros, mostra-nos Renato Barros de Castro o romance Inventário das sombras (Fortaleza: Governo do Estado, Secretaria de Cultura, Expressão Gráfica Editora, 2009). A obra tem duas apresentações de peso: de Tércia Montenegro e Ana Miranda. Para a primeira, as personagens de Renato “transitam por uma Polônia antiga, com paisagens misteriosas e solenes”. Segundo a jovem e talentosa contista, o forte no romance de Renato é a fabulação. Ou as intrigas e aventuras. A maravilhosa Ana Miranda, que inventou Gregório de Matos, refere-se à urdidura do romance, aos momentos de intensidade dramática, às tramas que se entrelaçam, com suas semelhanças com o conto gótico. E Renato se espreme entre essas duas maravilhas do mundo literário, sem desaparecer.

Inventário das sombras se passa numa Polônia imaginária, com referência a algumas cidades, como Cracóvia, e localidades no campo. Três notas explicativas do autor ajudam o leitor a situar a história. Na primeira parte, os personagens Michal Nowak e Irena Kaminska se acham em Cracóvia. Ao tentar pagar o trabalho de pintora dela, que lhe havia feito um retrato, ela o deixa surpreso: “Em lugar dessas moedas, me mostre a cidade. Afinal, nada conheço aqui”. Não há muitas descrições de ambiente (“a velha igreja, cuja assimétrica e intrigante fachada”; “as arcadas de um velho prédio da Praça do Mercado, depois ao lado do soberbo Castelo de Wawel e até mesmo nos arredores, nas galerias esculpidas em sal de Wieliczka”). Há descrições, sim, do aspecto das pessoas fictícias. Pode-se ver até certa glamurização da figura feminina em Irena: “Sua boca era rosada, e seu olhar mais lembrava o das virgens e ninfas dos antigos quadros da pinacoteca da cidade”. E este parece ser o ponto de vista de Michal, enamorado.

Não há nenhuma alusão a fatos históricos ao longo da narrativa. Nenhuma data, nenhuma menção a acontecimentos políticos ou sociais. Assim, o leitor não sabe se a história se passa na Polônia de hoje, na Polônia socialista ou numa Polônia mais antiga. Talvez o romancista tenha querido se esquivar de tratar assunto tão polêmico como o das transformações sociais e políticas ocorridas naquele país e naquela parte do mundo após a aniquilação do regime dito comunista no leste europeu, tendo à frente a Igreja católica (cardeal Karol Wojtyla, depois papa, e o sindicalista Lech Walesa, depois presidente da república) na luta contra o comunismo. Personagens andam de trem, mas também de carruagens. Nenhuma referência a automóveis. Entretanto, em todo o romance o que mais sobressai é o empenho das pessoas por aquisição ou conservação de propriedades imóveis, causa dos principais conflitos da narrativa.

A princípio, o leitor se depara com apenas dois personagens (Michal e Irena) e tem a impressão de que a história se desenrolará em torno deles. Entretanto, já na página 17 ocorre uma brusca mudança de foco, com o surgimento de diversos personagens alheios a um e outro (para o leitor). Os primeiros são Elzbieta, Bozena e Stanislaw Fiodorini, pai de Elzbieta. A moça, a caminho de um casamento, “com o filho do mais rico proprietário de toda a cidade de Torun”. Bozena, enteada daquela, está interessada em salvar a propriedade onde moram. O narrador se refere a um jantar das duas na casa do tal homem rico, Jan Poznanscy, pai de Polak e Antoni. Este se interessa pela visitante jovem. Surge o primeiro conflito: e Alicja? Como se vê, em poucas páginas, uma chusma de personagens invade a história e toma o lugar dos supostos protagonistas. E se inicia uma intercalação de pequenos dramas: Michal volta à cena, numa gare, em busca de Irena, enquanto Bozena e Elzbieta (que não o conhecem) também viajam no mesmo trem. Dá-se, então, a aproximação deles, e os jovens dialogam.

Michal aparece como protagonista desde o início e pode-se até fazer uma conjectura: a de que ele fosse o narrador. O romancista teria mudado o foco narrativo, entregando a um narrador onisciente a missão de contar a história. Pois Michal volta ao papel principal logo no capítulo (ou parte) dois. A participação de Michal no entrecho, no entanto, vai, aos poucos, se desvanecendo. Até se tornar um personagem secundário, quase uma testemunha, ou um repórter.

Note-se a presença de servas na taverna de Piotr, onde Michal se hospedaria, na cidade de Zamosc. O que nos remeteria a uma sociedade pré-capitalista. Inicia-se mais um conflito. O dono da pousada se irrita com o viajante, ao perceber neste interesse em conhecer o “casarão da montanha de Zamosc”. E o expulsa. “Uma noite fria e tempestuosa o aguarda lá fora”. Sem saída, o hóspede pede desculpas e promete não mais tocar no assunto casarão. Entretanto, mais adiante, toca noutro assunto que irrita profundamente Piotr, ao perguntar por Irena. Mais uma vez consegue se livrar da frialdade da rua e termina acolhido. É quando surge outra personagem capital para o drama: a criada Jalanta. “Na primeira noite de chá, Jalanta chegou ao quarto trajando um longo vestido que lhe caía, vistoso, sobre as pernas roliças”. E o leitor se vê diante de ingredientes de um romance de aventura. Jalanta termina também narradora de alguns episódios, revelações e mistérios. Conta histórias ao visitante, como a da origem da família de Irena e a casa dos Sete Erros: “Há muito tempo, quando menos ainda construções e gente existiam em Zamosc, chegara aqui um forasteiro acompanhado de uma mulher, vindos de uma terra a qual todos desconheciam” (p. 43). Surge a figura de Cyprian Kaminski. O narrador faz um longo flashback. E o personagem Michal mais uma vez se mostra como estranho ao ambiente, um estrangeiro numa Polônia sombria, como se fosse mero espectador, testemunha de oitiva de histórias misteriosas, quase que alheias ao seu entendimento. A impressão que fica é de se trata apenas de testemunha ou de repórter perdido. Se narrador fosse (e poderia sê-lo), não passaria de narrador-testemunha.

Toda a narração é permeada de diálogos bem elaborados, com os tradicionais travessões e os verbos de elocução. Aqui e ali, uma descrição de ambiente ou de personagem, sempre necessários à composição do enredo. Renato aprendeu bem a lição dos mestres do romance, principalmente os europeus. Mas não se limitou a imitá-los. Um pouco de romantismo, um pouco de realismo, muito mistério, tramas bem urdidas, como num labirinto de ações, e temos um romance pleno de intrigas.

Fortaleza, janeiro de 2010.
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sábado, 16 de janeiro de 2010

As ousadias de Jorge Pieiro (Nilto Maciel)



(Jorge Pieiro)

Na avidez de converter em literatura quase tudo, projetei transformar em personagens alguns amigos escritores. Não porque eles sejam pitorescos ou modelares. Podem até ser. Eu, no entanto, não desenvolvi a capacidade de enxergar o fundo da alma deles. Ficaram apenas as aparências. Por outro lado, casmurro como sou, não me aproximei mais das pessoas. Permaneci ao largo, às vezes sem sequer as ouvir. Em razão disso, senti-me impelido a imaginá-las.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O nascer dos ares e dos pássaros (Pedro Du Bois)





Sua voz desperta o tempo de adormecidas horas


recomposto no cumprimento


com que o travo


da saudade aflora e fere e desacostuma


a vida silenciosa:


refestelados castelos de quase nada


prisões rarefeitas de prazeres


e esperas automatizadas no aguardo


do barulho com que o espantalho


espanta os pássaros sem mexer o corpo


e da reunião dos fatos ressurgem


as primeiras chuvas em úmidas gotas


de desespero


o tom e o som a entonação e o nome


ditos como se a surpresa superasse o sonho


e estivesse ao lado e à frente


os olhos abertos e sorridentes


e o nome repetido na confiança


da conquista.


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

No tempo dos capitães-generais (Adelto Gonçalves*)




Extraída de um sermão do padre Antonio Vieira (1608-1697), a metáfora do sol e da sombra dá titulo ao novo livro de Laura de Mello e Souza, professora de História da Universidade de São Paulo, O Sol e a Sombra: política e administração na América Portuguesa do século XVIII (São Paulo, Companhia das Letras, 2006), que reúne dez ensaios escritos ao longo dos últimos dez anos e que discutem problemas e trajetórias referentes ao império português, especificamente na região Centro-Sul da América portuguesa no século XVIII.

Embora a imagem possa servir para outras interpretações, a metáfora é utilizada por Laura de Mello e Souza para mostrar como funcionava a prática administrativa no império português à época, quando, com a Corte tão longe e separada por meses de viagem, muitos administradores régios tratavam de encontrar suas próprias soluções para os problemas que se avolumavam, além de aproveitar a distância para monopolizar os negócios dos colonos e garantir a recompensa material pelo sacrifício de viver tantos anos fora do Reino.

Isso não significa que todos governadores e capitães-generais, ouvidores e altos funcionários fossem rematados ladravazes, mas que havia implicitamente a idéia de aproveitar os anos no Ultramar para garantir um pé-de-meia e uma aposentadoria folgada no Reino, não há dúvida. Até porque os ordenados e emolumentos pífios pagos pela Coroa funcionavam como incentivo para que esses altos funcionários se imiscuíssem nos negócios locais, ficando com boa parte dos lucros, o que, naturalmente, sempre gerava protestos e ódio dos naturais do lugar e daqueles que já estavam estabelecidos na terra.

Portanto, não vai aqui nenhuma manifestação de lusofobia nem apoio aos conceitos extravasados recentemente por um apresentador de programa na televisão brasileira que causaram tanta celeuma na Internet entre portugueses e brasileiros, a propósito da exibição de uma telenovela luso-brasileira. Até porque, depois da independência, muitos administradores provinciais não escaparam da suspeita de se aproveitarem da sombra generosa do Estado para construir fortunas. E, hoje, sobretudo, não são raros os homens públicos que entraram pobres na política e ostentam fortunas incompatíveis com os ganhos que obtiveram exercendo cargos.

Embora o livro de Laura de Mello e Souza não tenha esse objetivo, no ensaio “Os motivos escusos: Sebastião da Veiga Cabral”, lê-se que o governador Dom Brás Baltazar da Silveira, que governou a capitania de São Paulo e Minas do Ouro de 1713 a 1717, voltou para o Reino milionário, dono de uma fortuna superior a 200 mil cruzados. Segundo a autora, há evidências de que, durante o seu governo, foram descobertos os diamantes na capitania, sem contudo haver comunicação oficial à Coroa. “Era ainda considerável, naquele tempo, a complacência monárquica ante o envolvimento de administradores em negócios, lícitos ou ilícitos”, acrescenta a autora.

É claro que, longe dos olhos das autoridades metropolitanas, nas colônias quem podia roubava — e não apenas os governadores. Assim, enormes fortunas foram construídas com a sonegação de impostos ou a corrupção de funcionários destacados para zelar pela arrecadação da Fazenda Real. Às vezes, o fiscal da alfândega era exatamente um comerciante que tinha interesse em fazer passar suas mercadorias — o que incluía escravos — sem o pagamento dos direitos alfandegários.

Para resumir a história, basta lembrar que um alvará de 1785 determinava que todo governador que fizesse qualquer negócio por conta própria ou alheia, além do confisco dos bens, deveria ser expulso do governo e nunca mais governar qualquer capitania.

Esse alvará havia sido baixado por D.Maria I a propósito das “prevaricações cometidas pelos governadores e capitães-generais e pelos ouvidores” da capitania de Moçambique, Rios de Sena e Sofala. Só que esse alvará com força de lei nunca seria colocado em prática, tanto na África como no Estado do Brasil e demais possessões portuguesas, a ponto de, uma década mais tarde, a Gazeta de Lisboa, de 25/5/1795, reivindicar a sua efetiva aplicação, igualmente sem êxito.

Aliás, Fritz Hoppe em A África Oriental Portuguesa no tempo do marquês de Pombal (Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1970) cita à página 115 documento em que o governador Baltazar Pereira do Lago, que governou a capitania de Moçambique, Rios de Sena e Sofala de 1765 a 1779, refere-se a um secretário de governo que vivera ali mais de 13 anos e cujo espólio não tinha com que pagar dívidas de quatro mil cruzados, considerando aquilo “raridade de procedimento que aqui se admira, como cousa nunca vista”.

Para não ficarmos só com exemplos “africanos”, podemos lembrar de Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça, que governou a capitania de São Paulo de 1797 a 1802, sobrinho do todo-poderoso ministro Martinho de Melo e Castro (1716-1795), contra quem abundam nos arquivos documentos em que moradores, o bispo e de oficiais das câmaras da capitania o acusam de, em conluio com seu ajudante-de-ordens, participar de vários negócios de açúcar, sal, animais, algodão e mantimentos. Mendonça não permitia que os comerciantes fizessem comércio de açúcar diretamente com o Rio de Janeiro e a Corte, atravessando seus negócios, ao franquear o porto de Santos apenas aos navios que vinham por sua conta. Apesar disso, não se pode dizer que, em seu governo, a capitania de São Paulo não tenha progredido. Pelo contrário. Quer dizer: Mendonça seria um dos precursores de uma velha máxima da política brasileira: “rouba, mas faz”.

Em O Sol e a Sombra, Laura de Mello e Souza traça também um belo perfil de D. Pedro de Almeida, o conde Assumar, que governou a capitania de Minas de 1717 a 1721, contra quem não se levantaram acusações graves de corrupção. O que pesou contra Assumar foi o episódio de 1720 em que mandou executar o tropeiro Filipe dos Santos sem julgamento. Filipe dos Santos era um reinol, nascido em Cascais, homem branco e livre que, portanto, só poderia ter sido condenado à morte depois de passado por julgamento formal pela Junta de Justiça.

O brilhante ensaio de Laura de Mello e Sousa mostra como a construção do “mito” de Filipe dos Santos como herói nacional foi correlata à construção da memória do conde de Assumir como tirano cruel e boçal, colocando as coisas em seus devidos lugares. Na verdade, Assumar era um homem extremamente culto e bem preparado, como, aliás, a maioria dos nobres nomeados para ocupar o cargo de governador e capitão-geral nas conquistas.

As razões que o levaram a tomar tão drástica atitude, que o marcaria para sempre mesmo no Reino, são buscadas pela professora Laura de Mello e Souza nesse que é, sem dúvida, o melhor ensaio do livro, embora os demais sejam todos igualmente de relevante importância para o conhecimento da história da América portuguesa, o que só vem enriquecer uma obra que já inclui livros fundamentais como Desclassificados do ouro, Inferno atlântico e O diabo e a Terra de Santa Cruz, além de Cotidiano e vida privada na América portuguesa (org).

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O SOL E A SOMBRA: POLÍTICA E ADMINISTRAÇÃO NA AMÉRICA PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII, de Laura de Mello e Souza. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2006, 505 págs. E-mail: editora@companhiadasletras.com.br

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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Femínea fronteira (Calista Serpe)



ÊXTASE ÁUREO


Espero-te: que a minha fonte aguarda. O meu segredo

oculto numa concha. Há nela o mar:

mais áureo mar. Em mim todo o oceano

contido. Pode ali caber inteiro?

Guardado. Numa concha úmida e rósea

que em si fabula o ouro. E freme. E pura

emerge: áurea torrente. E o corpo treme:

eis meu dourado avesso a saciar

a sede que se abriga no teu peito.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ledapoesia (Clauder Arcanjo)

Para Leda Maciel (in memoriam)




Ao nascer, um choro em decassílabo. “Bela como um cisne!” — pensou a mãe; sempre afeita às coisas da arte. Dito isto, de forma natural, brotou o nome sobre os lençóis do parto: Leda.

Com o tempo, o engatinhar e a melopéia infante. “— Lê, Lê, Lê...”. Nas primeiras letras, a descoberta: Lê, do verbo ler. Por entre as páginas dos livros, o chamego dos poemas clássicos, a paixão pela poesia. E, um certo dia, o amor de Lê se fez carne, recitando uma saudação em rimas toantes. O céu banhou-se de mais azul, e uma revoada de pássaros saudou a primavera nos lábios da pequena. Veio a juventude e, com ela, o primeiro soneto. A gaiola dos quatorze versos não era prisão para tanto canto. Seguiram-se os haicais, as quadras, os tercetos, os cordéis, além de um cordão gracioso de versos livres.

A cidade se acostumou com o ritmo, o engenho e o gracejo rimático de Leda.

“— O melhor remédio para a alma”; professoravam todos.

Mas, um dia, Leda viu-se enferma, a doença a minar-lhe as forças, a calar-lhe a voz. A medicina nada poderia fazer, os homens de branco deixaram bem claro. A ciência fazia-se letra morta. No entanto, os poetas da província resolveram prescrever uma injeção de poesia diariamente, direto na veia dos ouvidos de Leda. Desde então, passaram a varar dias e noites junto ao seu leito. E Leda resistia, até que... dormiram, exaustos. Ao acordarem só deram tempo de ver Leda subindo aos céus, a recitar um lindo poema para Cristo.

— Entra, poetisa, a casa é tua. — saudou o Senhor.

E uma legião de anjos e arcanjos anunciou, em versos, a chegada de um novo querubim: a divina Ledapoesia.


clauder@pedagogiadagestao.com.br
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os sinos da depressão (Ronaldo Monte)



Todo ano é a mesma coisa. Começa dezembro, os sinos bimbalham e eu me deprimo. É automático, inevitável. Vocês sabem muito bem de que sinos estou falando. Não é o sino da torre da velha igreja que todos trazemos da infância. Nem os carrilhões das grandes catedrais que conhecemos de passagem ou pelos filmes. Os sinos que me deprimem bimbalham nas musiquinhas cabulosas que tocam nas lojas, nos carros de propaganda e nos anúncios de televisão. Eles querem reproduzir em nossa memória uma lembrança que não temos. Querem nos lembrar os guizos de um trenó que desliza sobre a neve puxado por renas carregando um bom velhinho com um saco enorme cheio de presentes. E talvez seja isto o que me deprime.

Vejam que não estou falando de nostalgia, pois esta sempre nos lembra alguma coisa que perdemos e não podemos mais recuperar. Os sinos que bimbalham em dezembro não me lembram nada que alguma vez tenha perdido. Eu nunca vi um trenó, não conheço uma rena e não me lembro de nenhum velhinho gordo e simpático que me tenha dado um presente.

O que perdi, e disto sinto falta, foram os dias de correria que antecediam a noite de festa, no natal e no ano novo. O que perdi foi as mãos fortes do meu pai abrindo a massa do pastel com uma garrafa cheia d’água. Perdi também o cheiro dos pastéis assando no forno e depois se derretendo na boca, misturando o doce do açúcar com o gosto salgado da azeitona. Perdi também o presente achado debaixo da cama na manhã seguinte. Perdi o pai, a mãe as tias e uma parte dos irmãos que construíam comigo essas festas. Isto me faz nostálgico. Mas não me deprime.

É por isso que faço tudo para me recolher em casa assim que começa dezembro. Não quero ouvir o bimbalhar dos sinos. Não quero fazer parte da correria insana que leva as pessoas de um canto para outro em busca de uma coisa que não vão encontrar. Nem dentro delas mesmas. Pois esta coisa chata que as simones e os robertos cantam, que até o pobre do John Lennon é obrigado a cantar, não existe em canto nenhum de nossa memória. Elas existem fora de nós, fabricadas por uma indústria de ilusões e bugigangas. Não me perguntem, pois, por quem os sinos bimbalham. Uma coisa eu garanto: não é por mim.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

As galhofas de José Alcides Pinto (Nilto Maciel)



 
(José Alcides e eu)

Estive poucas vezes com Alcides Pinto. Antes de 1977, quando morava em Fortaleza, só o conhecia dos livros. E de ouvir falar. Não me aproximava dele, por retraimento. Talvez nem me ouvisse. Talvez nem me cumprimentasse. Ora, eu o sabia poeta muito conhecido, desde Concreto: estrutura visual-gráfica (1965) e Cantos de Lúcifer (1966), sem contar as antologias de que participara no início dos anos 1950. Além de poeta de renome, romancista, contista e autor da peça Equinócio (1973). E eu? Apenas um estudante, apenas um sonhador, apenas um quase-escritor. Mas um estudante, um leitor não podia se aproximar de um escritor, pelo menos para lhe pedir autógrafo? Podia e pode. Mas cadê coragem para tanto? Como eu me enganava! Alcides sempre se mostrou muito acessível. Nunca pareceu arrogante. Dava-se bem com jovens e velhos. Com “marginais” e “acadêmicos”.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Machado de Assis, segundo Jean-Michel Massa (Adelto Gonçalves*)


A dois anos do centenário de sua morte, nunca Machado de Assis (1839-1908) teve a sua obra tão estudada como agora. Uma das melhores coletâneas de estudos sobre a obra machadiana acaba de sair em volume duplo de 511 páginas referente aos nºs. 6-7 da Teresa — Revista de Literatura Brasileira, publicada pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em co-edição com a Editora 34 e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Coordenado pelo professor Hélio Seixas de Guimarães, autor de Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19 (São Paulo, Nankin/Edusp, 2004), este número especial de Teresa traz não só ensaios de estudiosos da própria USP como de universidades de fora, como Abel Barros Baptista, professor de Literatura Brasileira da Universidade Nova de Lisboa e autor de dois livros dedicados à obra machadiana, Paulo Dixon, da Pardue University, nos Estados Unidos, e Pablo Rocca, da Universidad de la República, no Uruguai, entre outros.

Na primeira parte, 13 ensaios discutem os contos de Machado de Assis, desde os mais conhecidos, como “O caso da vara” (1899) e “Missa do Galo” (1889) aos menos citados. Um dos melhores ensaios, sem dúvida, é de autoria do próprio coordenador, “Pobres-diabos num beco”, que trata da representação do artista e dos seus conflitos, concentrando-se na análise de “O machete” (1878), “Cantiga de esponsais” (1883) e “Habilidoso” (1885).

A partir desses contos e, especialmente, de “Habilidoso”, Seixas de Guimarães observa que muitas das questões introduzidas no romance machadiano a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) já faziam parte do universo daquelas histórias. “São questões relativas à dificuldade de relação com o público não apenas por causa do gosto anacrônico deste, mas também pela sua exigüidade e pelas condições precárias da comunicação do escritor com esse público”, observa o ensaísta.

Como diz o ensaísta em Os leitores de Machado de Assis, o romancista, na segunda metade do século XIX, sabia muito bem que escrevia para bem pouca gente, se levarmos em conta que, ao redor de 1900, os alfabetizados correspondiam a apenas 18% da população brasileira, dos quais apenas 2% eram capazes de comprar e ler livros. Como artista, vivia, portanto, num beco sem saída, talvez às voltas com a inutilidade de seu ofício, pois não existe nada pior para um escritor do que não ser lido. Tal qual o personagem principal de “Habilidoso”.

Outro grande ensaio deste livro é “Que reino é esse?”, de Eugênio Vinci de Moraes, doutorando em Literatura Brasileira na USP, que aponta para os ainda escassos trabalhos sobre as fontes italianas na obra de Machado de Assis. O autor procura reparar um pouco essa escassez com uma análise do conto “As academias de Sião”, cuja fonte é O príncipe, de Maquiavel, embora não referido explicitamente pelo contista. Para Moraes, a história, a exemplo de outros contos machadianos como “A igreja do Diabo”, de Histórias sem Data (1884) e “Um apólogo”, também conhecido como “A agulha e a linha”, de Várias Histórias (1896), pode ser lida como uma fábula, neste caso a respeito da natureza do poder e da luta para alcançá-lo.

Sem menosprezar, porém, os ensaios e resenhas que traz a revista — todos de qualidade superior —, o melhor mesmo da edição é a entrevista que o professor francês Jean-Michel Massa concedeu a Maria Claudete de Souza Oliveira no dia 13 de janeiro de 2006, em Paris, a partir de perguntas formuladas pelo professor Gilberto Pinheiro Passos. Massa, professor da Faculdade de Letras de Rennes, na França, é um dos principais pesquisadores da vida e da obra do escritor brasileiro e autor de Dispersos de Machado de Assis e de A juventude de Machado de Assis 1839-1870: ensaio de biografia intelectual.

Este ensaio, que constitui a tese de doutoramento de Massa defendida em 1968 na França, foi publicado em 1971 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, mas nunca mais ganhou nova edição. É uma raridade só encontrada em grandes bibliotecas e constitui leitura obrigatória para a compreensão dos anos de formação de Machado de Assis. Tal é a procura por este livro em cursos de Letras das faculdades brasileiras que não há explicação para o fato de que nenhuma editora tenha tido, até agora, a perspicácia de reeditá-lo.

Na entrevista, o professor lamenta que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, não tenha uma edição de sua obra completa até hoje. A melhor edição é a da editora Jackson dos anos 30, mas não reúne tudo do autor. A de Afrânio Coutinho, publicada pela editora Aguilar, diz Massa, tem centenas de erros e limita-se a três volumes, quando a edição completa deveria reunir de sete a oito.

Depois de provar que Machado de Assis não pertencia a um meio tão humilde como sempre pretendeu a crítica brasileira nem tampouco era gago ou epilético quando jovem, Massa descobriu, em Portugal, que sua mulher Carolina pertencia a uma família burguesa do Porto e foi namorada e cortejada por três poetas portuenses — Augusto Morais, Nogueira Lima e J. Cândido Furtado, que lhe dedicaram versos —, antes de mudar-se para o Rio de Janeiro. Era irmã de Faustino Xavier de Novais, igualmente poeta, muito amigo de Machado de Assis, por intermédio de quem o escritor a conheceu.

Machado de Assis era filho de uma açoriana, que morreu quando ele tinha dez anos de idade, e de um pintor de paredes, que sabia ler e assinava o Almanaque Laemmert, mas vivia na casa de uma família rica, de fazendeiros cujas terras iam do Morro do Livramento até bem depois da atual Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. Teve a proteção da proprietária, sua “madrinha”, que, provavelmente, financiou seus estudos, pois, com menos de 20 anos, escreveu um poema em francês, republicado por Massa em Dispersos de Machado de Assis (Rio de Janeiro, Ministério da Educação/Instituto Nacional do Livro, 1965).

Recentemente, saíram pela Editora Crisálida, de Belo Horizonte, dois livros de Massa. O primeiro, Três traduções por Machado de Assis, reúne textos inéditos de três peças francesas do teatro realista que nunca foram apresentadas no Brasil. O segundo, Machado de Assis tradutor, é um ensaio em que o professor retoma estudos nunca traduzidos no Brasil e produzidos há mais de dez anos. Segundo ele, Machado de Assis fez cerca de 50 traduções, das quais 15 estavam perdidas.

Massa contesta também um crítico brasileiro, Eugênio Gomes, segundo o qual Machado de Assis conhecia o idioma inglês ainda muito jovem. Para ele, essa afirmação precisa ser examinada. Machado de Assis conhecia bem o francês, como seria natural num intelectual do século XIX. Segundo Massa, o crítico, para afirmar isso, baseou-se numa tradução que o romancista fez de Oliver Twist, de Dickens, em 1870. Mas o professor francês provou que o tradutor utilizou totalmente uma das quatro traduções em francês de Oliver Twist que àquela altura estavam disponíveis no mercado. Como se vê, a entrevista de Jean-Michel Massa é imperdível para quem admira a obra de Machado de Assis.

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TERESA, REVISTA DE LITERATURA BRASILEIRA. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo/Editora 34/Imprensa Oficial do Estado de S.Paulo, nºs. 6-7, 2006, 511 págs. E-mail: teresalb@usp.br

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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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sábado, 21 de novembro de 2009

Carlos Emílio e as órbitas celestes (Nilto Maciel)

(Nilto, Carlos e Edson Cruz, num restaurante em Fortaleza)

Havia mais de dez anos eu tentava escrever contos. Não sabia a quem mostrá-los. Meus irmãos Ailton e Edinardo – bons leitores – não faziam restrições a meus escritos. Coisa de irmãos. Eu fazia. Ensaiava outras peças. Parecia-me muito difícil aquela tarefa. Depois de centenas de tentativas, selecionei os melhores. Apenas quatorze. O restante virou lixo. Pronto o livro, Itinerário, onde apresentá-lo ao público? Nas livrarias – aconselharam-me. Não, os livreiros não aceitariam expor um livrinho pobre, quarenta páginas, de autor desconhecido. Conversei com o dono de um bar, no térreo do edifício onde eu trabalhava, nas proximidades do riacho Pajeú. O que é lançamento? Não sei também, mas quero lançar meu livro no seu bar. Garanto boa despesa, cerveja e tira-gosto. E assim se deu, num sábado, meio-dia, de 1974.

No fim da festa, todos bêbados, diversos exemplares vendidos, apareceu-me uma figura estranha, cabeluda, roupas frouxas, livro debaixo do braço. Quem é? Uma escritora inglesa. Deixe-me ver: Mrs. Dalloway. Folhei o volume. Em inglês? Sim; você não lê inglês? Não respondi, encabulado. Nunca leu Virginia Woolf? Mudei de assunto. E assim conheci o jovem Carlos Emílio.

A partir daquele dia, iniciou-se nossa amizade. Ele me mostrava (ou lia) seus contos enormes, pedia opinião (não aceitava ser contrariado; só admitia elogios). Andava, para cima e para baixo, com seus manuscritos, seus contos mais novos, que lia com eloquência, onde quer que encontrasse um amigo ou um ouvinte: no saguão do cinema, no ponto de ônibus, num bar, numa esquina. Esses maus entendedores fugiam dele, mal o viam. Meia palavra do menino representava uma eternidade. Alguns desistiam do filme, outros pegavam ônibus errados, espavoridos. Diversos bares de Fortaleza se fecharam, aos poucos. Pois, se neles se sentava o futuro escritor, logo se esvaziavam. Eu não fugia dele, porque, embora obrigado a ouvir suas leituras demoradas, terminava ganhando um bom livro. Assim conheci Faulkner, Joyce, Proust e tantos outros.

Ele não lia apenas os próprios escritos. Lia também seus autores favoritos. Abria um ensebado The Sound and the Fury e se punha a ler: “In the midst of the voices and the hands Ben sat, rapt in his sweet blue gaze. Dilsey sat bolt upright beside, crying rigidly and quietly in the annealment and the blood of the remembered Lamb”. E parecia saber de cor uns e outros. Pois muitas vezes baixava a mão com a papelada ou o livro e continuava a falar. Olhos nos olhos, os lábios quase a tocar a face do ouvinte, como se quisesse se unir ao outro, penetrá-lo, possuí-lo. E respingava de saliva o rosto à sua frente, com seu hálito bom de criança sadia.

Percebida, logo no primeiro dia, minha indigência intelectual, não passava dia sem me emprestar ou presentear livros. Conhecia todo mundo: escritores jovens e velhos, jornalistas, artistas plásticos, músicos, compositores, atores. Apresentou-me todos os grandes nomes da literatura brasileira e estrangeira. Andava sempre com uma novidade debaixo do braço: em inglês, francês, italiano, espanhol. Falava-me de escritores europeus, ibero-americanos e brasileiros que eu não conhecia nem pelo nome. Você precisa ler D. H. Laurence. Sim. Cortázar. Claro. Lucio Cardoso. Perfeitamente. E ele mos apresentava e eu os lia. E conversávamos. Precisamos sacudir a literatura do Ceará. Como? Uma revista literária.

Carlos Emílio é o verdadeiro criador de O Saco. Organizou as primeiras reuniões de escritores, em 1975, com o objetivo de se fazer algo novo no Ceará. Escreveu e publicou em jornal a “chamada geral”, convite público a todos os que se dedicavam às artes. Marcou encontros em sua casa (de seus pais). Deu as diretrizes da publicação, embora eu me opusesse a quase todas elas. Convenceu Raposo e Jackson a participarem do empreendimento. Viajou por todo o Brasil à cata de reportagens, entrevistas, colaborações.

É um romântico, embora saiba tudo o que acontece aqui, ali, nos confins do mundo de ontem, hoje e amanhã. Muita gente não o leva a sério, por não ser um cidadão comum, não ser casado com mulher, não ter filhos, não frequentar igrejas e estádios, não cortar cabelo em cabeleireiro, não andar bem vestido. Às vezes parece mendigo; outras vezes, louco. Não cumpre horários e compromissos. Pode almoçar à meia-noite, tomar café-da-manhã no meio da tarde. Comparece às reuniões após seu encerramento. Telefona a amigos, de madrugada, para ler contos quilométricos. E acha tudo normal. Tão romântico é que dois de seus sonhos mais parecem alucinações: a volta dos suplementos literários em todos os grandes jornais brasileiros e a contratação de escritores para cargos públicos. Os periódicos fariam a publicação semanal (ou diária) de contos, poemas, romances. Para ele, os donos dos jornais só têm a ganhar com isso. Digo-lhe que literatura não interessa a esses empresários, leitores de jornais não querem saber de literatura, etc. Ele olha para mim, perplexo, horrorizado, como se eu fosse um inimigo dele. No outro sonho, os governos deveriam dar aos escritores emprego público. Com bons salários, para que os escritores não precisassem mendigar empregos em empresas privadas. Nada de assinar ponto, nada de chefe. Só uma mesa, o tempo inteiro para ler e escrever. Digo-lhe que isto é imoral, ilegal e impossível. Ele fala dos mecenas. E me chama de realista. Em duplo sentido: amigo do rei e ...

Fortaleza, setembro de2009.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Poemas de Inocêncio de Melo Filho

(Inocêncio de Melo Filho)


Ofício


Perco-me entre palavras


E sílabas inquietas.


Quando volto a mim


Sinto-me abatido.


Tu me chamas, fecho o livro,


Nego-te os ouvidos...






Sólio


Este trono de merda é só meu


Trono fétido por natureza,


Se é que tem natureza o objeto de sua constituição...


É nele que faço minhas leituras


É nele que busco palavras


É nele que busco poemas


É nele que cago e mijo.


Este trono de merda é só meu


Não o divido com ninguém


Comprei-o com meu próprio dinheiro


Finquei-o à terra usando minhas forças


Trono plebeu!


Trono fétido!


Trono verde indivisível...






Defesa


Eu sou inofensivo, senhores,


Trago enigmas fatigados nas mãos


E fartos cabelos brancos na cabeça.


Minhas pálpebras estão exaustas


E o meu olhar nega-se a contemplar


Esse mundo caduco.


Este céu que nos cobre causa-me tédio.


Mas ainda há palavras em minha boca, posso feri-los


Posso jogá-las no vácuo ou aprisioná-las


Entre as unhas.


Senhores, sou inofensivo,


Verbalizar sentimentos não significa


Um ataque,


Concretiza o medo que se faz defesa.






Insulto


Que fique na tua boca


O meu hálito fétido


Como resposta


Aos teus insultos...

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Os primeiros escritos de Nilto Maciel (Henrique Marques-Samyn)



A verve experimentalista de Nilto Maciel confirma-se através da leitura do primeiro volume de seus Contos reunidos (Bestiário, 2009), que reúne os textos publicados nos livros Itinerário (1974/1990), Tempos de mula preta (1981/2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). Autor prolífico e multifacetado, entre os méritos de Nilto está uma incansável disposição para repensar sua própria produção literária, algo que já pode ser percebido nesses primeiros textos – entre os quais merecem destaque o forte “Punhalzinho cravado de ódio”, o patético “Detalhes interessantes da vida de Umzim” e o bem urdido “Tadeu e a mariposa”.

Extraindo seus motivos de temas históricos, regionalistas ou fantásticos – não sendo incomum a mescla de elementos oriundos desses diversos campos –, Nilto Maciel é o tipo de escritor que resiste a rótulos e a categorizações. Transparece nesse pluralismo um pendor fundamentalmente comprometido com o próprio exercício da escrita: é esse um autor para quem a criação literária é uma forma de organizar e questionar o real – conquanto esse termo, no vocabulário do autor cearense, seja de difícil definição.

Reunindo os primórdios da obra de uma importante figura das letras brasileiras contemporâneas – sobretudo por sua atitude democrática, justamente destacada pela prefaciadora Liana Aragão, que por longos anos materializou-se na revista Literatura – , Contos reunidos de Nilto Maciel vem, em boa hora, ocupar um espaço de valor em nossas estantes: aquele lugar destinado às obras dos que, além de criadores, são também fomentadores da cultura brasileira.
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terça-feira, 10 de novembro de 2009

E o boi não lambe (Batista de Lima)



Gerôncio chegou vestido de treva ao armazém. No fundo do salão escuro o negro Sabiá jazia inerte e acorrentado ao pilão deitado. Verificou que o negro estava vivo mesmo depois de tanto apanhar para confessar o roubo.

Foram várias patacas desaparecidas do baú da casa grande no domingo de páscoa. Mas o negro carregador de água já confessara tudo. Só não soube dizer aonde guardara o tesouro.

No curral ao lado o touro “surubim” já escavava o chão com os chifres, após dia e meio sem comer e sem beber e passaria mais um naquele estorrico. Era preciso muita fome para enfrentar o negro. Era preciso exemplar o negro na frente dos outros.

Dia seguinte lá pelas onze o negro foi levado e amarrado nu ao mourão no centro do curral ensolarado. Seu corpo foi untado de manteiga da terra e o touro solto de suas amarras. Era um touro de mais de trezentos quilos esfomeado e sedento, sentindo o cheiro da manteiga que escorria com o suor do negro amarrado ao tronco.

O touro se aproximou, cheirou o corpo do negro, amanteigado, e deu a primeira lambida na barriga úmida. Foi o suficiente para que se ouvisse o grito do condenado e o filete de sangue escuro escorrer pelas pernas. Assim o touro quanto mais lambia a manteiga com o sangue mais parecia enfurecido com tanta fome e sede. Em pouco tempo estava o coitado em carne viva, tentando livrar-se daquela língua lâmina.

Aos poucos ia perdendo todo o sangue e a força do grito, e pendia entregue à dor, desfalecido e exangue. Os outros negros do outro lado da cerca se benziam de olhos marejados.

Na porteira do curral o patrão recebeu o delegado que chegava, avisando ter encontrado o tesouro nas mãos de um meirinho que já estava preso na cidade.
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