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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ao poeta (Pedro Du Bois)

















Talvez ao poeta baste o ritmo das palavras

em desafios murmurantes e os gritos explosivos;

o desafio do andor carregado e a luz introduzida

sob o manto; ser o ocorrido e a versão descontrolada

do início: indícios não bastam ao poeta

que continua e termina e recomeça.


Talvez ao poeta baste a incompreensão

dos ares satisfeitos dos bonecos alçados

à condição de estetas; profetas

em voz alta ensaiam temas preferidos

aos tontos espíritos desnecessários.


Talvez baste ao poeta a sensação de antes

de a matéria ser solidificada e flutue em asas

descobertas aos ventos de solidário espaço.


Talvez ao poeta baste o atentar sereno

das noites antagônicas e os dizeres gravados

nos panfletos que são entregues anônimos.


Talvez baste ao poeta o fruir da fruta ao gosto

menos azedo das notícias participando mortes

antes do tempo (todo o tempo é antes) previsto

na antecipação frígida das esperas.


Talvez ao poeta baste levantar a mão e pedir

ao garçom a bebida de sempre, a comida

deixada sobre o prato, o distrato entre amigos

após a ceia: cada um em seus afazeres.


Talvez ao poeta baste saber-se nu diante da hora

acertada para a volta; ser da revolta o ânimo

e da crueldade explicitada em nomes o anônimo

revoar das aves; sobre as aves ao poeta cabe

recriminar a mão que oferece o pouco.


Talvez baste ao poeta ser poeta. Adivinhar no texto

a descoloração do átimo, o pátio de desertadas árvores

infrutíferas; o desfolhar do outono, o renascer

primaveril das flores em pétalas abertas.


Talvez ao poeta baste discorrer em mãos agitadas

ao vazio sobre a perdição, a contrição, a educação

adulterada em números e cientificamente expor

ao todo o menos; ao menos cabe o protesto.


Talvez ao poeta baste a consecução do plano

invertido em sonhos de descidas aos infernos

particularizados no extrato do infortúnio;

ser seu próprio oposto de reescritas notas

no esforço desconcentrado ao nada.


Talvez baste ao poeta o anúncio do amor distanciado

em dias, meses, anos e décadas: o reencontro

no aperto sentido – o grafite quebrando a ponta –

como lâmpada queimada: a tortura acompanhada

à porta pelo degredo do segredo sendo revelado.


Talvez ao poeta baste o reconhecimento da presença

e a indiferença rente ao caminho não percorrido;

o banco da praça ocupado pelo corpo despreparado

em ocorrências e a decorrente história mal contada.


Talvez ao poeta baste olhar o perto e retirar o longe

desconhecido em físicos acidentes: a geografia

estanque do planeta; o lento deslocar das placas.


Talvez baste ao poeta a necessidade da urgência

intercalada ao langor do isolamento. Saber ficar

estático e revolver as cinzas em busca do acidente.


Talvez ao poeta baste alisar o pelo do animal

sobre o colo deslocado, descobrir ensinamentos

simiescos ensimesmados aos ensinamentos.


Talvez ao poeta baste possuir a chave enferrujada

da porta secundária por onde entram minotauros

instalados nas peças lendárias dos amantes.


Talvez ao poeta baste realizar o sonho da criança

perdida em crescimento: recuar ao tempo anímico

das paredes sendo preenchidas em riscos

produzindo imagens do dia acondicionado.


Talvez baste ao poeta se desvencilhar da hora

categórica dos negócios, perder o prumo, o rumo,

desviar das pedras rolantes dos embustes; salvar

a pele do desconsolo e o tédio dos amantes.


Talvez ao poeta baste se dizer distante o tanto

permitido, perto o quanto possuir de forças

para se entranhar nas notícias repetidas.


Talvez ao poeta não baste o descobrimento

de novas terras, exija reconhecer a profundeza

espacial dos mares e o executar da sinfonia

dos cometas: em suas caudas, sabe o poeta,

trafegam poeiras estelares.


http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1254
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Pangaré dos tempos (Viegas Fernandes da Costa)



Não me perguntem por que fui cursar História. Não saberei responder. Bem como não saberei dizer por que, certo dia, pus na cabeça idéia fixa de escrever, publicar livro. Já lecionar, lembro-me, veio naquele sonho sonhado no sótão em que morava meu quarto, na casa dos meus avós, agora dilapidada pela cobiça familiar. Sonhei-me lecionando, coisa inconcebível na minha puberdade, aluno medíocre que era, e por isso não prestei muita atenção. Mas aconteceu sem programação: certo dia uma feira de profissões, a oferta do curso de magistério e um adolescente convencendo a família de que seria professor. Estamos aí. Quanto à História, não sei; literatura então, muito menos. Simplesmente aconteceu, como acontecem as coisas realmente importantes: uma lufada de vento, o pólen no infinito e a pedra no rio, petardo certeiro moldando um destino. Tchibum! E assim foi! Não cometerei o erro do dom.
O erro do dom... Sim, recordo-me de um artigo de Pierre Bourdieu onde este questionava o mito da predestinação. Aquela história de que “desde criança fulano já demonstrava suas inclinações para ser isto ou aquilo”. Nem isto, muito menos aquilo: em criança desejava apenas brincar e olhar o que se escondia sob as saias das vizinhas – tão bonitas! Nada mais. Mas conta a Dona Anneli - minha mãe - que eu era uma criança chorona e que, para aplacar lágrimas e berros, entregava-me exemplares da sua revista Pais & Filhos. Não os rasgava, como precipitadamente o amigo leitor, a amiga leitora, já deve estar supondo. Os dedinhos gordinhos da criança de então pegavam exemplar por exemplar e folheavam as páginas de trás para frente, com cuidado, os olhos se demorando nas ilustrações e nas fotos de outros bebês. Dona Anneli pendurando roupa no varal, olhar de soslaio, meu sorriso e meus olhos espantados, os dedinhos gordinhos tocando o papel. É certo, assim começou o desejo pelo impresso, este poder erótico que livros e revistas sempre exerceram sobre mim, tanto que os namoro na estante, nas pilhas sobre a mesa, nas vitrines das livrarias. Mas daí a dizer que estive destinado, desde zigoto, a plantar palavras, vai uma grande distância; que o digam meus professores de português, verdadeiros heróis.
Hoje, escrevo porque a vida dói, parafraseando o artista plástico Iberê Camargo, e é tudo! Quanto ao resto, construí-me leitor, palavra a palavra, livro a livro, como a máxima da galinha que enche seu papo comendo de grão a grão o milho. A vida dói, pois é! Talvez também isto tenha me empurrado à historiografia, da literatura a outra face da moeda, pois como escrevia, em crônica de 1877, Machado de Assis, “um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”, e explica: “o historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar”. Entender a cartografia da dor, talvez, e dialogar com o mundo, quem sabe? Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...
Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo - meu avô - semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!
Afinal, eis onde me encontro, sobre o pangaré dos tempos que trota além das suas patas, os cascos soltos e perdidos em alguma curva lá atrás. Lecionar, historiar ou escrevinhar, todas faces deste mesmo Quixote montado nas utopias brotadas das sementes que o vento nos trouxe.
Pangaré sem viseiras, sem cascos, por isso aprender a pisar diferente. Não me arrependo.
Blumenau, 25 de junho de 2005
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* Viegas Fernandes da Costa, autor de "Sob a luz do farol" (2005), "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008) e "Pequeno Álbum" (2009). Mantém o blog Saiba mais. >http://viegasdacosta.blogspot.com . Permitida a reprodução, desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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terça-feira, 23 de março de 2010

A velha guarda da literatura cearense (Nilto Maciel)


 
Herman Lima

Desde muito jovem, meti na cabeça duas ideias ousadas: escrever bem e publicar livros. Não consegui realizar a primeira, por mais que tenha tentado. Mas não me aventurei como outros: não li todo o essencial, não estudei gramática e línguas, fui preguiçoso e relapso nesses erros. A segunda ideia se concretizou aos poucos, embora tardiamente. O primeiro livrinho eu o editei aos 29 anos de idade. O segundo o Estado o publicou sete anos depois. Aos 37 anos tive o privilégio de assinar contrato com a editora sulista Mercado Aberto para a edição da novela A guerra da donzela, com distribuição nacional. Só então meu nome chegou a alguns jornais e ao conhecimento de críticos e escritores do Ceará (onde nasci), de Brasília (onde morava) e outros rincões.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Soneto (Ailton Maciel)




A Altamir Xavier



Palerma, sem escrúpulos, pedante,

trêfego, com trejeitos pueris;

metido a gente sábia e importante,

com acervo demais em seus quadris!



Doente de acoria, intolerante,

ao olhar-se no espelho tão feliz

parece até uma miss debutante

com traços de fútil meretriz.



Fala demais. Rebola sem cessar,

canta fino, e aos domingos vai orar

na capela. É doente de acrania



e de acédia. Há dez anos que estuda

mas da série primeira nunca muda.

É cheio de desgosto e hipocrisia!

Fortaleza, 9/2/65

(AILTON MACIEL deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: "Santa Caçada", "O Touro", "O Careca" e "O Presente da Professora", publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances).
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Revolto (Inocêncio de Melo Filho)


Os homens amam e comem o pão
Que Deus ou o Diabo amassou.
Os homens vivem e morrem
Em cima da terra
Debaixo do céu
Os homens contemplam o infinito
Erguem as mãos
O tempo ágil e impaciente curva-os
Fazendo-os dormir no ventre da terra
O céu límpido e passivo
Fica a olhar sombras e jazigos.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Boa sorte, Maciel (Daniel Lopes*)




Às vezes a gente se apega, mesmo sem querer, e acaba gostando de alguém. Que pelo menos seja de uma criança então. Eu estava de saco cheio daquela história de dar aulinhas. Fora de brincadeira, os alunos eram uns capetas e os pais eram piores ainda, ganhava-se mal e, além disso, naquele ano, eu tinha ido parar numa escola do outro lado da cidade, tive até de comprar uma lambreta pra chegar a tempo de uma escola à outra. Sem contar que a toda hora aparecia algum jornalistinha, médico, padre, pedreiro, doutor, encanador e o escambal dando pitacos e oferecendo soluções sensacionais para o problema da educação. Falar é fácil, sempre foi. E a gente é que tinha de trabalhar em três escolas, correr de uma pra outra, fazer dezesseis horas por dia pra pagar as contas, vai vendo. E tinha aqueles coitados que não aprendiam nem se a gente desse cambalhota, ou fizesse malabarismo no meio da sala de aula. E tinha aqueles coitados que chegavam fedendo, doidos pra comer a merenda e esperar o lanche. Como é que alguém pode se interessar por Emílias e Narizinhos quando se chegava com o estômago pregado às costas e as orelhas cheias de bolachas familiares advindas da pinga paterna da noite anterior? E pro meu lado ainda tinha aquela diretora que parecia uma coruja de tanta plástica e de tanta chatice. É preciso dar nome aos bois, digo, à vaca: chamava-se Sandra Siqueira Nunes, ainda deve estar por aí, fodendo a vida dos outros. Não era mesmo fácil, mas eu tinha uma família pra sustentar e não podia entregar a rapadura. “Você reclama de barriga cheia” me diziam. Falar é fácil. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Como diria o Machado, suporta-se com paciência a cólica alheia. Isto mesmo. Mas eu tinha de agüentar até o fim do ano. Isto mesmo, só até o fim do ano... e arrastava outra vez minha carcaça cansada pro outro lado da cidade, onde quarenta e cinco alunos de onze anos, mais ou menos, me esperavam em cada sala de aula.
Foi numa tarde em que o calor estava torrando nossos miolos que ele chegou até minha mesa. Todo malandro, negro, cheio de desenhos no corte de cabelo, franzino, com um par de tênis que devia caber uns dois pés dele dentro, querendo puxar assunto pra não fazer a lição, eu andava bem ligeiro com todas essas malandragens:
- O senhor tem uma moto, né professor?
- Uma lambreta.
- É meio feia a moto do senhor, mas dá pro gasto. Sou doido por moto. Meu tio tem uma Hornet, por que o senhor não compra uma Hornet?
- Não tenho dinheiro. O que é que seu tio faz.
- Meu tio é ladrão. Meus tio é tudo ladrão. Tem dois que tá preso e um que morreu. Os outros dois só rouba. Teve um tio meu que deu um tiro na boca de um cara e os dentes saíram pela nuca. Meus tio é tudo doido. O outro só rouba caminhão e faz seqüestro relâmpago. O senhor é casado?
- Sou, por quê?
- Se não fosse, eu ia dar o telefone da minha tia pro senhor. Ela é a maior gostosa, queria que o senhor visse. Mas ela namora com um velho que deve ter mais de cem anos. Ela tem uma filha de dois anos também. A menininha é o maior barato, sabia que a primeira coisa que ela falou foi o meu nome? Vive atrás de mim, ela é o maior barato, professor, é esperta demais. Agora ela já fala tudo. Já sabe até conta. Quer dizer, sabe mais ou menos. Ela conta assim: um, dois, três, cinco, oito, dez, dezoito. Minha tia é meio chata. Às vezes ela me bate, mas quando ela tá legal também ela compra um monte de filme de terror e a gente passa a noite toda assistindo. O Senhor já assistiu O exorcista?
- Já.
- É muito louco, né. Esse é o melhor professor. E diz que morreu todo mundo que fez o filme. Sinistro, né?
- Pois é. Mas e seu pai, Maciel? Sua mãe?
- Meu pai morreu no ano passado, professor. Ele trabalhava pra prefeitura. Cortando as árvore. Aí uns dois anos atrás uma árvore caiu em cima dele. Ele ficou ruim um bocado de tempo. Ai melhorou um pouco e aí no ano passado ele morreu. Minha vó recebe a pensão dele, mas não me dá nada. Quer dizer, ela me dá roupa e comida, né professor e cuida de mim.
- E sua mãe, Maciel?
- Minha mãe bebe. – Ele falou e pela primeira vez pareceu se entristecer. Minha mãe bebe. Não precisava me dizer mais nada, eu podia deduzir o resto. Bateu o sinal.
- E a lição, Maciel?
- Foi mal professor, não fiz não, mas é que essa lição é muito chata. - Eu sabia que a lição era chata mesmo. A escola era um pé no saco pra todo mundo.
***
Durante o intervalo, na sala dos professores, perguntei aos outros sobre o Maciel.
- É um vagabundo. – Disse um.
- Não faz nada. – Disse outra.
- Parece que a família é toda desestruturada. – Disse outra e continuou. – Deu um trabalho danado no ano passado, quando o pai morreu. Arrumava briga todo dia. Arranjava confusão até com os meninos da oitava série. E pior que muitas vezes ele, daquele tamanho, conseguia bater nos meninos grandes.
- Vem alguém na reunião de pais?
- Nunca veio ninguém. – Disse o professor que chamara o Maciel de vagabundo.
***
Quando voltei de novo na sala do Maciel, ele mal esperou que eu terminasse de fazer a chamada. Pegou suas coisas, sua cadeira e foi se sentar junto de mim, na minha mesa.
- Ei, professor, hoje eu vou fazer toda a lição. – Disse – Pode encher a lousa que eu vou fazer tudo.
Só que era aula de leitura. Estávamos lendo O pequeno príncipe, quero dizer, estávamos tentando ler O pequeno príncipe. A maioria só abria o livro e começava a conversar, obrigando-me a aumentar o tom de voz, que é um jeito de gritar elegantemente. Mas o Maciel quis ler neste dia e quis ler em voz alta. E leu... e bem. Daí em diante o moleque mudou na minha aula. Não que ficasse quieto, porque isso ele não conseguia mesmo. Mas fazia todas as atividades e terminava primeiro que todo mundo. Só depois é que começava a bagunçar.
- O Maciel só faz a lição do senhor, professor. – Diziam os outros alunos. E ele fazia mesmo. Rápido e bem feito... a letra não era das melhores, mas dava pra perceber que ele se esforçava. Às vezes eu ficava até envergonhado, não imaginava porque todo aquele apego a mim. Eu, que andava sempre tão estressado. Eu, que tinha tão pouco tempo e pouca paciência sempre. Mas a verdade é que eu também me apegava ao menino... e conversava com ele... e gostava de conversar... só precisava dar um freio quando ele começava a querer falar de sexo. Já sabia um bocado de coisas, o danado, e queria me mostrar que sabia, mas eu precisava cortar, afinal de contas aquilo era uma quinta série.
Dois meses antes de seu aniversário, ele já estava me perguntando, o que eu daria de presente a ele. Perguntei o que ele queria ganhar.
- Pode me dar uma moto professor. – Disse e sorriu. – brincadeira, professor, dá o que o senhor quiser. – Emendou e sorriu de novo.
- Beleza.
- Dá um dinheirinho mesmo, professor.
- Tá, quando chegar seu aniversário eu te dou um dinheirinho.
- Aê. – Ele disse e ficou em silêncio uns instantes, pensando, antes de perguntar: - Professor, como é que faz dinheiro?
- Como assim?
- É, como é que faz dinheiro?
- É na casa da moeda. Existem umas máquinas.
- Meus tio são meio burro né professor. Era só roubar uma máquina dessas e aí ficava fazendo dinheiro em casa, não precisava roubar mais nada.
- Maciel!
- Mas não é professor! Bastava uma máquina, de fazer logo nota de cinqüenta. Uma vez meu pai me deu uma nota de cinqüenta.
- Deixa de bobagem, Maciel.
Dei-lhe algum dinheiro, quando chegou seu aniversário. Adverti que não dissesse a ninguém, pois poderia me complicar.
- Tá achando que eu sou alcagüete, professor?
- Não, Maciel, não.
***
O tempo, sempre senhor de tudo, transcorreu. O fim do ano se aproximava e numa tarde de novembro o menino chegou com ar preocupado na minha mesa.
- Que foi, Maciel?
- Nada não, professor.
- Como nada, e por que é que você tá todo jururu?
Silêncio.
- Fala, Maciel.
- Sabe o que é, professor? O ano ta acabando , né? E o senhor mora longe, né? Queria saber se no ano que vem o senhor vai dar aula aqui?
Respirei fundo. Êta pergunta danada de difícil de responder. Ainda bem que não caiam perguntas desse tipo nos concursos. Tinha de dizer a verdade.
- Já pedi a remoção, Maciel, ano que vem vou trabalhar noutra escola mais perto da minha casa.
- Hã... tá bom. – Ele disse e eu pude ver o brilho das lágrimas umedecendo seus olhos, contudo não chorou. Estava calejado, o Maciel. Era só um menino, mas já tinha aprendido a agir como o mais duro dos homens. Eu, por meu lado, me sentia um traidor, um tremendo mau caráter. “É a vida”. Eu dizia de mim para comigo em cima da minha lambreta enquanto pilotava até a outra escola. Como se pudesse me enganar... Como se pudesse disfarçar aquela coisa ruim que me oprimia o peito.
***
- Depois de amanhã é o penúltimo dia de aula, professor. A gente vai fazer uma apresentação lá no CEU. Eu vou ser o Michel Jackson, professor. – Ele diz e aí começa a imitar os passos do artista recém-falecido, talvez até melhor que o próprio Michel. – O senhor vai lá ver, né, professor?
- Que hora vai ser a apresentação?
- Uma hora da tarde.
- Puxa vida, Maciel. Eu saio da outra escola, lá do outro lado da cidade, meio dia e meia.
- Tudo bem professor. – Ele diz baixando o olhar como se tivesse levado um tapa na cara.
- Vou ver se consigo sair mais cedo, Maciel, não prometo nada. Mas vou ver se dou um jeito de chegar a tempo.
- Faz um esforço, professor. Queria que o senhor me visse lá amanhã.
- Vou ver. – Eu digo e dentro de mim mesmo me prometo que vou fazer o que for preciso pra ver o menino dançar.
***
Não consegui chegar no início da apresentação, mas o Maciel percebeu quando cheguei e sorriu. Embora ele sorrisse o tempo inteiro, achei que sorrisse por causa da minha chegada.
Ao final, ele e as outras crianças agradeceram à platéia se curvando como se fossem artistas famosos. O público, formado principalmente por alunos da escola onde eu trabalhava e do CEU, estava delirando com a apresentação. Batiam palmas, assobiavam, gritavam.
Voltamos a pé pra escola. Era perto. No caminho o Maciel estava empolgado. Era o centro das atenções. Tinha arrebentado. As meninas do CEU ficaram babando. E quando ele tinha feito o Moon Walker, então? Moon o que, professor? Aquele passo que você desliza pra traz. Aquele passo é o maior boi professor, difícil foram os outros que eu mesmo fui inventando na hora. Deu tudo certo, né professor?
- É, Maciel, deu tudo certo.
No final da aula, era praticamente a última, ele me pediu que o levasse para casa de moto. Seria da hora. Disse que não podia. Não tinha um capacete pra ele e seria perigoso. Entristeceu de novo. Dei um abraço nele e uns tapas no ombro. Eu estava sem jeito.
- Então tchau, professor.
Abracei de novo. Os outros alunos tiraram sarro. Briguei com eles.
- Se cuida, carinha. Você é gente boa demais. É o moleque mais firmeza do Parque Bristol, Clímax, da zona Sul – Falei
- Beleza, professor. – Disse e foi deslizando pra trás, fazendo o Moon Walker do Michel Jackson.
Na hora de vir embora chovia. No caminho, acabei caindo da moto. Eu tinha escolhido ser professor, porque já tinha sido menino. Diabo, eu não era bom com o tal do Adeus. Era um péssimo professor. E eu sentia uma coisa ruim por dentro. E pensava nos meus filhos. E tinha vontade de chorar. E me preocupava com o que o futuro e o mundo guardavam pro Maciel. Mas tinha de terminar de fechar as médias da outra escola. Que merda de mundo burocrático.
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Não sei porque hoje eu estava triste. A velha depressão contra a qual eu tenho lutado desde menino. Coloquei umas músicas... e... me lembrei do Maciel. O que ele estaria fazendo neste feriado de carnaval? Seria que tinha caído já no crime? Pensei em orar pra Deus por ele. Brigo muito com Deus, sou meio mal humorado às vezes, mas, sempre que me vejo em enrascadas, apelo pra ele. Desisti de orar. Sempre quis ser artista, então, em vez de orar, escrevi esta história. A arte é a oração do artista. Boa sorte, Maciel.

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* Daniel de Souza Lopes é professor da rede pública estadual e municipal de São Paulo. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Germina e Amálgama. Edita o blog: www.pianistaboxeador21.blogspot.com . Lançou em 2008 o livro É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Soares Feitosa: Oraculum, oraculi (Nilto Maciel)



(Da esquerda para a direita, sentados: Nilto, Jorge Tufic e Soares Feitosa, nos jardins da reitoria da Universidade Federal do Ceará)



Recebi (em 96 ou 97) um embrulho volumoso e pesado, de remetente desconhecido. Seria mais um escritor novato em busca de leitor e crítico? Naquela noite, eu pretendia dar mais uns retoques num conto iniciado havia mais de uma semana. Jantaria, conversaria com a família, comentaria os fatos do dia. No entanto, o pacote sobre a escrivaninha me chamava a rasgar seu invólucro. Jantei, pouco conversei e nem prestei atenção às notícias da televisão. Quem seria aquele Soares Feitosa? Violei o papel, sem fúria. E aos meus olhos se mostrou um objeto colorido, de capa dura e muitas páginas, chamado Réquiem em Sol da Tarde. Todo feito em computador, em casa, artesanalmente. Pus-me a ler e me fui fascinando. Sentei-me, para não desmaiar. Permaneci lúcido, acordado, por muitas horas. O resto da noite passei a ler aquela poesia, ao mesmo tempo, seca e úmida, mineral e vegetal, leve e pesada. E fui me entorpecendo, até pegar no sono sobre o dorso do livrão. Pela madrugada, minha companheira me acudiu. Eu adormecera, entorpecido de prazer, como se tivesse me enchido de ópio. Dias depois, mandei carta ao poeta. Ora, eu não sabia de sua existência. Eu e quase ninguém. Porque inédito, escondido, a poetar sem alardes, recluso em casa.

Conheci Soares Feitosa em Brasília, alguns anos depois daquela noite de papoulas imaginárias. Conversa rápida, porque anda sempre com pressa, em razão das lides forenses, viaja para cá e para lá e não dispõe de tempo para parlendas inúteis em bares e outros lugares onde poetas barrigudos ou esguios, e sem tino, costumam destilar (ou dedilhar) suas folhas (ou falhas) literárias. Deu-se numa tarde melancólica, num sábado qualquer. Fui ao encontro dele, endereço anunciado por telefone. Apresentamo-nos, sem necessidade, porque já nos conhecíamos literariamente. E isto basta. Falou e falou, durante quase todo o tempo da reunião. Não falou de si ou de sua poesia. Falou tão-somente do Jornal de Poesia, com um entusiasmo de adolescente. Editor de revistas havia mais de vinte anos, fiz-lhe perguntas de entrevistador: Como você seleciona os poemas e contos? E ele, como se se irritasse (parece estar sempre irritado, de mau-humor), não titubeou: Não faço seleção nenhuma; que o façam os leitores e os críticos. Insisti: Certamente nem tudo é publicado. De certa forma, há uma seleção. Ele se irritou mais, depois sorriu. Ou gargalhou: Sim, há os cupinchas. Se for meu cupincha...

De volta a Fortaleza, em 2002, procurei-o. Eu tencionava, havia muito, criar um jornal do conto na Internet. Marcamos dia, hora e local do encontro. Convidei dois ou três amigos para a visita. Abraçou-nos, ofereceu água e café. Vínhamos esbaforidos, suados, cansados. Não, café não combinava com o nosso sarau. Pelo telefone interno, chamou uma serviçal: Traga rapadura. Um minuto depois, uma cesta com pedaços de rapadura nos foi apresentada. Comam. Essa é a comida do sertanejo. Vocês precisam mesmo é de rapadura da serra. Enquanto comíamos, ele voltou a falar de literatura. E do Jornal de Poesia.

Soares Feitosa não tem papas na língua. Fala tudo, sem rodeios (ou arrodeios), sem vergonha, feito criança. Embora meninão, não faz perguntas, mas afirmações. Mesmo as que mais chocam ou melindram o interlocutor? Você nunca leu a Bíblia; não sabe onde fica o sertão; está perdendo tempo com esse tipo de literatura. Além disso, conhece todo mundo: dos poetas gregos aos cantadores de feira, dos romancistas russos ao mais esquecido escritor dos cafundós. Fala, com desenvoltura, de uns e outros. O cego fulano, o louco sicrano, a mocinha de Cabedelo, o mocinho de Maria Farinha. Nunca os viu e não tem interesse de vê-los. Tem memória como poucos: O poeta beltrano, autor de A mocinha de Cabedelo... Parece ter lido há poucos minutos a obra completa do interlocutor: Nilto, quando o cabra que virou bode saltou, nu, a janela da casa do “coroné”, já sabia que um bode expiatório se preparava, no meio do mato, para salvá-lo da morte.

Soares não faz elogios à-toa, assim como não perde tempo em espicaçar poetas, contistas e romancistas. Se gosta da obra, faz hermenêutica. Destrinça tudo, escarafuncha as vísceras do pergaminho. Não diz trivialidades ou frases pomposas, dessas que se ouvem e leem nas academias, nos jornais, nas esquinas, nos bares (fulano é gênio; a poesia de beltrano é digna de Camões). Talvez nem as ouça: entram por um ouvido e saem pelo outro. Parece ter lido tudo. Ou o essencial de tudo: gregos e troianos, poetas e cronistas bíblicos, latinos e trovadores medievais, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Fernando Pessoas (assim mesmo, no plural), cordelistas, cegos aderaldos. Além disso, aprendeu, como poucos, gramática e etimologia. Seria um sábio, um mestre. Ri disso. Tem imaginação de profeta. Sorri. Ora, se não tem vocação para sábio, mestre e profeta, só pode ser poeta. Entretanto, diz ter escrito o primeiro poema após completar 50 anos de idade. É possível.

Os mais moços (eu e ele somos sexagenários) chamam-no rabugento, porque o procuram para ouvir elogios e ver seus versos no Jornal de Poesia. Ele, porém, fala de poemas centenários. E eles não o ouvem. Certa noite, ao redor de uma mesa, num bar do centro cultural Dragão do Mar, ele falava do Gênesis. E contava a história do amor de Jacó por Raquel, e citava versículos da Vulgata: “Habebat vero filias duas: nomen maioris Lia, minor appellabatur Rahel; sed Lia lippis erat oculis, Rahel decora facie et venusto aspectu. Quam diligens Iacob ait: Serviam tibi pro Rachel filia tua minore septem annis”. (Na tradução de João Ferreira de Almeida: “Ora, Labão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça. Lia tinha os olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de semblante. Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel”). Um engraçadinho, metido a sabichão, pôs-se a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia / Labão, pai de Raquel, serrana bela” (...). Irritado, por ser interrompido, Feitosa se calou e fez menção de se retirar. Pedi-lhe calma, permanecesse, continuasse a história. Entretanto, à sua frente, um poeta e uma poetisa se lambiam. Talvez impulsionados pelo conto genesíaco. Feitosa se irritou mais ainda, não sei se por não o ouvirem, não sei se por quererem representar em público. E sapecou: Isso é uma esculhambação.

Estou devendo mais uma visita a Feitosa. A degustação da rapadura da serra. A disposição para ouvir sua fala de homem com raiva do analfabetismo, da ignorância, da cegueira, da surdez de muitos catedráticos, eruditos, mestres. Estou lhe devendo uma visita para compreender um pouco mais de mim mesmo. Porque Soares Feitosa é também leitor de mentes. Ou de entrelinhas. De entrementes? Melhor dizê-lo oráculo.

Fortaleza, fevereiro de 2010.
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segunda-feira, 1 de março de 2010

Livro italiano sobre Fernando Pessoa tem ensaio de Adelto Gonçalves


(Adelto Gonçalves)

O ensaio "Ambiguità e ossimoro: simboli dell'universo e del mistero in Fernando Pessoa" (Ambiguidade e oxímoro: símbolo do universo e do mistério em Fernando Pessoa), do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, professor do curso de Direito da Universidade Paulista (Unip) e de Jornalismo Impresso da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos, faz parte do livro Studi su Fernando Pessoa, a ser lançado dia 9 de março por Edizioni dell'Urogallo, de Perúgia, sob a direção do professor Brunello De Cusatis, responsável pelas Cátedras de Literaturas Portuguesa e Brasileira e de Línguas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perúgia. Segundo De Cusatis, a obra reúne onze estudos de alguns dos maiores especialistas hoje na obra de Fernando Pessoa em todo o mundo.

Na apresentação do livro, De Cusatis explica que a obra estava prevista para sair à luz em 2008, à época do 120º aniversário de Fernando Pessoa (Lisboa, 13/6/1888), mas "razões profissionais e familiares" acabaram por retardar o seu lançamento. O livro é dedicado à memória do crítico cubano René Pedro Garay, diretor do Departamento de Literaturas Hispano-americana e Luso-brasileira da The City University New York (Cuny), falecido em 30/4/2006 e co-autor com Raúl Romero do ensaio "Epifanía y poema en prosa: El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares", que também será publicado com o título Il Livro do Desassossego di Fernando Pessoa/Bernardo Soares: epifania e poema in prosa em Studi su Fernando Pessoa. Nesse ensaio, os autores apontam o livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus, de Adelto Gonçalves (Santos: Universidade Santa Cecília, 1997), como texto pioneiro em referência ao poema em prosa na obra de Fernando Pessoa.

Além dos ensaios de Adelto Gonçalves e de Raúl Romero-René Pedro Garay, a obra traz estudos: do próprio Brunello De Cusatis; de Alfredo Margarido, poeta, artista plástico e professor da Universidade Lusófona, de Lisboa; de José Blanco, bibliógrafo pessoano e ex-administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa; de Manuel G. Simões, ex-responsável pela cátedra de Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira das Universidades de Bari e Veneza; de Ivo Castro, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; de Jerónimo Pizarro Jaramillo, colombiano com doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa e em Literatura Romana pela Universidade de Harvard; de Fernando J. B. Martinho, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; de Vera Lúcia de Oliveira, professora brasileira da Faculdade de Letras da Universidade de Perúgia; e de Andrea Marcigliano, jornalista e professor de Filosofia e História.

O ensaio "Ambiguidade e oxímoro: símbolos do universo e do mistério em Fernando Pessoa", agora traduzido para o italiano por Brunello De Cusatis, foi publicado originalmente na revista Forma Breve, nº 4, 2006, pp.303-313, da Universidade de Aveiro, Portugal. Já o ensaio "Epifanía y poema en prosa (El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)" foi publicado originalmente em castelhano na revista Forma Breve, nº 2, 2004, pp. 71-79, e na Revista do Centro de Estudos Portugueses (Cesp) da Universidade Federal de Minas Gerais, de Belo Horizonte, v. 25, nº 34, jan-dez, 2005, pp.13-22.

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP). Fez trabalho de pós-doutorado com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) na Universidade de Lisboa em 1999-2000.

Jornalista desde 1972, trabalhou em O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Editora Abril e A Tribuna, de Santos. Foi correspondente em Lisboa da revista Época em 1999-2000. É colaborador do quinzenário As Artes entre as Letras, do Porto, e dos jornais Diário dos Açores, A Tribuna, de Santos, Jornal Opção, de Goiânia, A Tarde, de Salvador, e revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa, Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, e Forma Breve, da Universidade de Aveiro, entre outras. É sócio-correspondente da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil), do Rio de Janeiro.

Estreou na literatura em 1977 com o livro de contos Mariela Morta. Em 1980, ganhou menção honrosa do Prêmio Nacional José Lins do Rego da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, com o livro Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981). Em 1986, obteve o Prêmio Fernando Pessoa da Fundação Cultural Brasil-Portugal, participando do livro Ensaios sobre Fernando Pessoa.

Conquistou os prêmios Assis Chateaubriand de 1987 e Aníbal Freire de 1994, ambos da Academia Brasileira de Letras. Em 2000, com Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), seu trabalho de doutorado, ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras.

Em 1999, publicou o seu primeiro livro em Portugal: o romance Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), que saiu no Brasil em 2002 pela Publisher Brasil, de São Paulo. Em 2003, publicou pela Editorial Caminho, de Lisboa, Bocage: o perfil perdido, seu primeiro trabalho de pós-doutorado. Escreveu prefácios para dois livros de contos de Machado de Assis publicados em 2006 e 2007 pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia, em edição bilíngüe russo-portuguesa, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Atualmente, com bolsa da Unip, desenvolve pesquisas no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a atuação de ouvidores, juízes de fora e juízes ordinários na capitania de São Paulo (1709-1822). Tem prevista a publicação pela Ateliê Editorial, de Cotia-SP, do livro Aventureiros paulistas: a formação da capitania de São Paulo no século XVIII.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Balada para Fortaleza (Henrique Marques-Samyn)

(Impressões de viagem - julho de 2007)



Depois de conhecer-te, o olhar mais nada


encontra como outrora: a claridade


que emanas cada coisa renovada


já torna – soberana és, em verdade,


cidade-luz, serena e ensolarada.


Teu céu esplende em límpida beleza:


louvando-te ofereço esta balada –


cidade iluminada: Fortaleza!






Do Pajeú nasceste, assinalada


em teu seio a luzente majestade;


mesmo se és porventura maltratada


por maus senhores, vibra esta vontade


mais forte em ti, brava mulher dourada.


Teu mar esplende em límpida beleza,


à luz da lua, na alta madrugada –


cidade iluminada: Fortaleza!






Por que deuses assim foste forjada


com tal cuidado, formosa cidade


do Mucuripe, da Caranquejada,


de que te orgulhas, rútila em vaidade?


Por séculos serás ainda louvada:


teu sol esplende em límpida beleza,


o sol que nos teus braços fez morada –


cidade iluminada: Fortaleza!
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

“Lama e folhas”, de Moreira Campos: Obra-prima (Nilto Maciel)



Iniciou-se Moreira Campos (1914-1994) no mundo literário com o volume Vidas marginais (Fortaleza: Edições Clã, 1949), composto de doze peças ficcionais: “Lama e folhas”, “Náufragos”, “Vigília”, “Suor e lágrimas”, “Esmagados”, “Varela”, “Soldado da borracha”, “Coração alado”, “Dona Adalgisa”, “Dúvida”, “Sugestão do silêncio” e “Vidas marginais”. Entretanto, em 1947, um deles, “Coração alado”, foi incluído por Graciliano Ramos em Contos e novelas (Norte e Nordeste). É possível que os outros onze também estivessem prontos. Ou bem antes daquele ano.

Carnaval ou futebol? (Francisco Miguel de Moura*)




Meu ópio é a literatura. Mas, falemos agora de outros. No sábado passado não saiu meu artigo, neste jornal**. Atribuo a que a pauta estivesse cheia de comentários sobre o Carnaval e a minha crônica referia outro assunto. Não importa que este meu escrito venha a ser publicado depois da festa mais popular do Brasil – quando se estabelece um novo Reinado, o do Rei Momo. E todo mundo cai na folia. Afinal de contas, ninguém é de ferro para trabalhar o ano inteiro e não ter nem isto: 3 dias de Carnaval.

Sou mais cronista que articulista, e não apenas para elogiar ou criticar. Tenho vários tipos de leitores. Observando bem, digo que o ano do Brasil só começa depois da Semana Santa. Por quê? Ora... Janeiro é o rescaldo do Natal, e ainda estamos na Festa da Confraternização Universal (Festa de Ano Novo). Depois vêm as Festas de Reis com suas lapinhas e reisados onde ainda existem e noutros lugares com o bumba-meu-boi, tudo confirmando a religiosidade do povo brasileiro. Fevereiro já é o mês do Carnaval. E ai de quem dele não gostar! Vai mofar sentado num sofá, vendo-o pela televisão (pois não há outros programas) ou sai para ver os blocos que passam na rua, os carros de som que estouram nossos ouvidos e outras coisas do tipo. Sem tevê, temos o rádio, quase igual à tevê. Há lugares, hoje, onde o Carnaval continua quase o ano inteiro com nomes derivados do estado ou da cidade. E a música popular faz sua festa, claro. Pois Carnaval sem música não existe. Março! Bem, aí chega a Semana Santa, lá vem o sentimento religioso tomar conta de todas as ações do povo e do não-povo.

Depois disto, tome futebol o ano inteiro. Tem gente que torce por uma porrada de times: um em São Paulo, outro no Rio, mais outro do seu estado, e até do seu município onde nasceu ou mora. Já existem animados campeonatos municipais. Mas, como a maioria dos intelectuais, eu não gosto de futebol, e não vou dizer que gosto somente para agradar essa maioria que não lê, não escreve, não sabe o que é arte, nem mesmo no futebol. Quando o futebol é arte todo artista ou amante da boa arte gosta. Aos jogos decisivos de grandes campeonatos, muitos assistem: Copa do Mundo e Campeonato Brasileiro, etc. Mas assistir a toda partidazinha de pé-de-poeira de todo interiorzinho já chega a ser tolice.

E a gente tem que gostar de Carnaval ou de Futebol?

Não sei, acho que não. Que me lembre, quando era jovem, na cidade de Picos, brinquei, no Clube, uns três carnavais: No primeiro, peguei um fora de uma mocinha, irmã de minha colega. Esta colega bem que queria namorar comigo, mas eu teimava. Só queria a irmã mais nova. No segundo, tinha namorada. No último, já era casado recente. Se brinquei outros Carnavais “seriamente” não me lembro. Sei que naqueles tempos a gente ainda usava o tal “lança-perfume”, droga ainda não proibida. Assim, não posso dizer que gosto de Carnaval. Mas, num passado já bem distante, me perguntaram:

– De que você mais gosta, de Futebol ou Carnaval?

E eu, pensando acertadamente, respondi:

– Muito fácil! Carnaval só são três dias e Futebol é o ano inteiro.

Claro que ainda optaria pelo Carnaval. Mas, já começo a viver noutro mundo. Já existem carnavais quase o ano inteiro, no Brasil! Arre! Assim já não é divertimento, é trabalho.

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*Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras (APL) e da Associação Internacional de Escritores (IWA-sigla em inglês), Toledo, OH, Estados Unidos.
** Refere-se o cronista ao jornal em que costuma publicar crônicas.

E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

WEB: http://cirandinhapiaui.blogspot.com

http://abodegadocamelo.blogspot.com

http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Paixão (Poema de Pedro Du Bois)



Apaixonei-me pela luz e a persegui

em beira mares, tive com a areia

atritos indesejáveis: a luz

e os pés molhados; perdi

a batalha, meu refúgio é o escuro

vão da escada, onde guardo

tralhas desconsideradas: rabisco

a poeira com palavras versejadas:

poderia anotar os dias.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Carlos Vazconcelos: Próximo dos modelos (Nilto Maciel)



O début de Carlos Roberto Vazconcelos no universo dos livros se deu com Mundo dos vivos (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008), reunião de 32 peças curtas de ficção. O título é vulgar, o que não quer dizer quase nada, pois muitos títulos pomposos, esdrúxulos e mesmo poéticos escondem apenas lixo, rebotalho. Vulgar porque está até nos ditados: “o mundo é dos vivos”. Entretanto, como explica o autor em nota, “o mundo dos vivos é um assombro”. Seja como for, seria preferível o título de uma das narrativas, como “A inescrutável face da morte” e “Sem vento, à deriva”. Mas gosto não se discute, como diz outro ditado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A nova literatura angolana (Adelto Gonçalves*)



I
Il giorno in cui Paperino si è fatto per la prima volta Paperina e altri racconti: 12 storie quasi post-moderne (O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida e outros contos: 12 histórias quase pós-modernas), do angolano João Melo (1955), é o quarto volume da coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana que a Morlacchi Editore, de Perugia, Itália, vem publicando sob a direção do professor Brunelo Natale De Cusatis, responsável pela Cátedra de Literatura Portuguesa e Brasileira e Língua Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perúgia, com o apoio do Instituto Camões e da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, de Portugal, em edição bilíngüe italiano-português.
O objetivo da coleção, segundo De Cusatis, é dar a conhecer ao público italiano a obra poética e narrativa lusófona, com atenção particular à última geração que é pouco ou nada conhecida na Itália. Até agora já foram publicados os livros Frontiere perdute, racconti per viaggiare, do angolano José Eduardo Agualusa, Il caso del martello, do brasileiro José Clemente Pozenato, e Buona notte, signor Soares, do português Mário Cláudio. Com publicação prevista para este ano está Racconti, de Sérgio Faraco. Entre os brasileiros, estão dois gaúchos (Pozenato e Faraco), em razão do interesse que pode despertar naquele país a literatura produzida numa região marcada pela forte presença de imigrantes italianos, especialmente do Vêneto.
Com apresentação, edição e tradução de Marco Bucaioni, os contos de João Melo, publicados pela primeira vez pela Editorial Caminho, de Lisboa, em 2006, fazem parte da nova literatura angolana, até aqui mais conhecida pelas obras de José Eduardo Agualusa (1960), Pepetela (1941), ganhador do Prêmio Camões de 1997, e Luandino Vieira (1935), que obteve o Prêmio Camões de 2006, recusado por razões pessoais. Sua temática principal é a descrição da nova sociedade angolana nascida da luta pela independência (1975) e da guerra fratricida que se seguiu entre as facções do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), apoiada pelo regime soviético com a participação direta do governo cubano, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pelos Estados Unidos com a intermediação da África do Sul, dentro do contexto da Guerra Fria.

II
Mesmo com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a derrocada do regime soviético, a guerra angolana só teve fim em 2002, depois de ter causado imensos danos ao país, inclusive com uma diáspora de muitos cidadãos que não tiveram outra saída a não ser tentar reconstruir a vida em Portugal, Brasil, Estados Unidos, Canadá, França, Inglaterra e outros países europeus. Mas a Angola pacificada do século XXI já quase nada tem da colônia portuguesa de meio século atrás, isolada do mundo.
Aberta a investimentos estrangeiros, é um país que apresenta grande crescimento econômico, especialmente nas áreas de diamantes, petróleo e recursos minerais. A grande dificuldade, porém, está na repartição dessa riqueza à qual não têm acesso grandes parcelas da população, que vivem em condições subumanas.
Com esse período de conturbação já superado, a literatura angolana vive hoje outra fase, depois de ter explorado à exaustão as vicissitudes de uma sociedade pós-colonial sob o véu marxista-leninista. Agora, numa etapa em que já não podem atribuir todos os males ao colonialismo, os angolanos precisam buscar entre os seus pares os responsáveis pelo atraso econômico e pela manutenção de tantas diferenças sociais.
Mas, encerrado há tão pouco tempo aquele período, é claro que os dissabores da guerra ainda estão presentes nestes contos de João Melo. É o que se pode contatar em "A morte é sempre pontual" em que o desfecho trágico, embora anunciado, acaba por surpreender o leitor.
Ou em "O Canivete agora é branco" em que conta o reencontro que não se deu, 30 anos depois, de um ajudante de caminhão com seu antigo colega de profissão que, mais esperto, soube como cavar a vida, filiando-se ao MPLA, o movimento vitorioso, freqüentando a Universidade Patrick Lumumba, em Moscou, até virar quadro do partido e do governo para tornar-se administrador de uma empresa de diamantes e governador provincial. Metido até o pescoço em negócios escusos, o antigo Canivete transforma-se em empresário, virando até mesmo "branco", sempre acompanhado de seguranças. Quem sabe uma paródia do "homem invisível" do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).

III
Em "O escritor", João Melo, abusando, no bom sentido, da ironia, traça o perfil de um homem de letras que vivia angustiado à espera do sucesso que nunca chegava, embora já tivesse escrito quilômetros de poemas, estórias, teses, ensaios e recensões literárias, além de construir uma carreira politicamente correta, pelo menos aos olhos dos vencedores, pois, durante o colonialismo, tivera de prestar muitas declarações à Pide (a polícia política salazarista) e, na fase pós-independência, participara da campanha nacional de alfabetização e das brigadas que foram colher café, sem contar que, durante a guerra anticolonialista, nunca fugira do país. Mesmo assim, nunca recebera um prêmio literário. Talvez porque não fosse nem mestiço nem branco.
Já no conto que dá título ao livro, João Melo reconstitui a relação de dois adolescentes que teriam nascido e crescido a mesma época, entre famílias comuns, aos quais todos davam como certo um relacionamento seguro e um casamento duradouro: "Crescemos juntos. Brincámos de médico, professor, engenheiro. Brincámos de casamento. Brincámos de papá e mamã. Nesse dia, lhe mostrei a minha pila. Ela disse: - Ih, tão pequenina! - Depois levantou as saias: as suas cuecas floridas deixaram-me paralisado de admiração. Quando quis lhe dar um beijo, como aqueles que meu pai dava na empregada, quando a minha mãe não estava em casa, ela fugiu. Durante uma semana, não apareceu na minha casa". (p.96).
Por aqui se vê o estilo ágil e moderno de João Melo. E, se o final não se adianta aqui, é porque ao resenhador não é lícito antecipar os epílogos dos contos e romances que resenha. Ao final deste livro, há ainda um glossário indispensável não só ao leitor italiano como ao lusófono pouco acostumado à história e à geografia de Angola. Muitas expressões do coloquialismo do português escrito em Angola ficaram de fora deste glossário, mas o seu significado o leitor pode intuir a partir do contexto de cada conto.
Como se sabe, o português na África é uma língua restrita a escritores, jornalistas, pessoal do governo, professores e alunos, ou seja, àqueles que a escrevem. Até porque a imensa população é lusógrafa (para citar aqui uma expressão criada pelo mestre francês Jean-Michel Massa), não luso-falante. Cada grupo étnico fala a sua própria língua entre si e sempre que um estranho ao ninho deixa o recinto. Era isso o que este resenhador percebia quando, na casa de amigos angolanos, em Oeiras, ausentava-se para ir à casa de banho.


IV
Jornalista, publicitário e professor, João Melo estudou Direito na Universidade de Coimbra e em Luanda. Graduou-se em Comunicação Social e fez mestrado em Comunicação e Cultura no Rio de Janeiro. Membro-fundador da União dos Escritores Angolanos, ocupou vários cargos nessa entidade. Atualmente, é diretor de uma agência de comunicação, além de ensinar numa universidade privada. É deputado no Assembleia Legislativa angolana.
Representante da "geração das incertezas", expressão alcunhada pelo grande crítico angolano Luis Kandjimbo, também poeta, João Melo começou sua trajetória literária na poesia, nos anos 1980, tendo lançado oito livros: Definição (1985), Fabulema (1986), Poemas Angolanos (1989), Tanto Amor (1989), Canção do Nosso Tempo (1991), O Caçador de Nuvens (1993), Limites e Redundâncias (1997) e Auto-Retrato (2007). Como contista, lançou mais três livros: Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir (1998), The Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não (2000) e Filhos da Pátria (2001). Na área de ensaios, publicou Jornalismo e política (1991).

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IL GIORNO IN CUI PAPERINO SI È FATTO PER LA PRIMA VOLTA PAPERINA E ALTRI RACCONTI (O DIA EM QUE O PATO DONALD COMEU PELA PRIMEIRA VEZ A MARGARIDA), de João Melo. Tradução de Marco Bucaioni. Perugia: Morlacchi Editore, 205 págs., 2009. E-mail: editore@morlacchilibri.com

Site: http://www.morlacchilibri.com/
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage, o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Romanceiro de Bárbara: Cantares de rebeldia (O Poeta de Meia-Tigela)

(Casa onde morou Bárbara de Alencar, na Praça da Sé, Município do Crato, Ceará).


Em homenagem aos duzentos e cinquenta anos de Bárbara de Alencar, nascida a 11 de fevereiro de 1860; e aos trinta anos do Romanceiro de Bárbara, de Caetano Ximenes Aragão (1927-1995).


Há trinta anos Caetano Ximenes Aragão publicava o seu Romanceiro de Bárbara, livro cujo título nos remete imediata e não casualmente ao Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. O autor parece querer estabelecer desde o princípio um paralelo entre os episódios da Conjuração Mineira tão magistralmente recriada em versos pela poetisa carioca, e a Confederação do Equador que, no concernente à participação do Ceará, teve na família Alencar alguns dos significativos protagonistas.
Movidos pelo descontentamento frente às medidas do então recente governo imperial de Dom Pedro I, camadas representativas de Pernambuco, da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará unem-se em oposição ao poder monárquico centralizador. Em nosso estado, depois de aguerridos combates, Tristão Araripe chega a empossar-se como Presidente da Província em 1824, no entanto pouco demorando como tal. A pronta e violenta reação das tropas legalistas leva-o à morte em combate, bem como instaura furiosa perseguição aos revoltosos, culminando com o fuzilamento, em 1825, dos mártires Azevedo Bolão, Ibiapina, Carapinima, Padre Mororó e Pessoa Anta — no antigo Campo da Pólvora, atual Passeio Público.
Se Bárbara de Alencar não esteve envolvida diretamente na intentona de 1824, foi figura emblemática em 1817. Não apenas “acobertara” as conspirações de seus filhos Tristão e José Martiniano (este, pai do autor de Iracema), mas alimentara o ideal revolucionário com sua força de — mais do que matrona — matriarca esclarecida do Crato. É o que atesta a carta-testamento do padre, médico e naturalista Manuel de Arruda Câmara: “A D. Bárbara de Crato, devem olhá-la como heroína”. Heroica seria realmente sua postura quando do fracasso, em apenas uma semana, dessa primeira experiência republicana cearense: assim como seus filhos, é presa e conduzida ao antigo Quartel de 1ª. Linha da capital, e encarcerada sem direito a regalia de qualquer espécie. Pelo contrário, viveria dias de extrema penúria até sua transferência por mar para a Fortaleza das Cinco Pontas em Recife e, dali para Salvador, onde finalmente fora libertada, após uma devassa que com seus respectivos sofrimentos e represálias, durara cerca de três anos. O retorno para casa não resultou, porém, exatamente numa alegria: com os bens tomados pelo Império, e o nome enxovalhado (os adversários políticos naturalmente aproveitando-se da ocasião para a disseminação de toda sorte de maledicência), tornaram-se uma espécie de “exílio domiciliar” seus últimos anos. Não se tem notícias do pertencimento de Bárbara de Alencar às insubordinações que se seguiram à sua soltura. Morre em 1832, a vinte e oito de agosto, aos setenta e dois anos.
Eis os fatos que servem de motivo à lírica de Caetano Ximenes Aragão e ao Romanceiro: escrito num período marcado pela agonia do regime militar e início da Abertura, o livro faz do canto a Bárbara um canto à liberdade. O que é simbolizado exemplarmente pela contínua aparição no poema da Ave da Madrugada que “canta de noite e de dia/ é sua maldição cantar/ cantares de rebeldia/ e aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia/ será sempre um encantado/ da ave da madrugada”. E que é revelado ainda pelo poeta no Posfácio à obra: “Este poema é uma metáfora sobre a liberdade. Nasceu em tempos de incertezas. Havia medo, exílio, prisões, torturas, homens e mulheres banidos. Bárbara Pereira de Alencar, primeira presa política do Brasil, na ordem do tempo, sofreu prisão, violência, maus tratos, exílio e teve seus bens confiscados. Mas resistiu e por isso e outras razões, é uma heroína marginalizada na História de nosso País”.
“Uma heroína marginalizada na História de nosso País”, diz-nos o poeta. Não deixa de ser verdade, se pensamos no espaço concedido a diversos vultos tornados referências nacionais. Não deixa de ser verdade, se pensamos no espaço concedido a outros vultos tornados referências em nosso próprio estado. Não deixa de ser verdade se confrontamos o que representam as imagens de Bárbara de Alencar e seu filho Tristão Araripe, quando comparadas à imagem que atualmente exportamos como sendo a tradutora de nossa cearensidade: a de um Ceará não só Moleque, mas cuja molecagem vem identificando-se, gradualmente, com o baixo humorismo. Enaltecemos com orgulho a figura de um povo irreverente a ponto de vaiar o próprio sol. Mas diminuímos o valor dessa mesma irreverência quando a igualamos ao riso fácil resultante da piada mal-contada, reprodutora de preconceitos e estereótipos, incapazes de sugerir quaisquer maiores enfrentamentos do status quo. Forjamos cada vez mais a face de um povo que sabe rir (de si); porém, não será esse contentamento algo um tanto forçado, esgar ao invés de sorriso? Quando Caetano Ximenes elege Bárbara de Alencar motivo de sua poética, contribui para o resgate de outra fundamental expressão de nossa formação como povo: a expressão da luta, do confronto, do heroico e do trágico, igualmente cearenses.
Tomemos como simbólico o não nos ter chegado um registro, desenho, nenhum esboço sequer, dos rostos de Bárbara ou Tristão: e empreendamos o avivamento de suas feições, o avivamento de nossas feições, estimulando a presença de seu exemplo entre nós. Se Zenon Barreto soube representar a ausência de tal registro na estátua erigida em homenagem à “Guerreira do Brasil” (para lembrar a obra de Roberto Gaspar), soube também postá-la retilínea e altiva, conforme a vemos na Praça Bárbara de Alencar, na Avenida Heráclito Graça. Felizmente há sempre quem insista na representação de um Siriará combativo, e que sabe fazer da festividade, inclusive, um momento de exaltação dessa “outra face” de que falamos: é o caso de inúmeros anônimos. É o caso também de Maria do Amparo, que mantém um pequeno museu na Casa do Sítio Caiçara em que Bárbara de Alencar nasceu, no município de Exu, sem apoio governamental ou particular algum. É o caso de Oswald Barroso à frente do anual Cortejo dos Confederados; e agora do Maracatu Nação Fortaleza e seu tema “Bárbara Luz da Liberdade”.
Vejam que não é absolutamente necessário que tomemos a vida negativamente, por a assumirmos heroica e tragicamente: é condição maior do trágico, não a dor, mas a insubmissão ante um destino demarcado. Sorriamos, pois: não com escárnio, mas com a felicidade dos que se sabem encantados pela “ave da madrugada/ que canta de noite e de dia/ (...) cantares de rebeldia”.


“Bárbara era feita
de pedaços de brisa
certezas
e terra ensanguentada”

(Caetano Ximenes Aragão)
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Labirinto de tramas em Inventário das sombras (Nilto Maciel)




Depois de estrear com o volume de contos Dulcinéia em Hollywood (2006), sob o nome Cherlanyo Barros, mostra-nos Renato Barros de Castro o romance Inventário das sombras (Fortaleza: Governo do Estado, Secretaria de Cultura, Expressão Gráfica Editora, 2009). A obra tem duas apresentações de peso: de Tércia Montenegro e Ana Miranda. Para a primeira, as personagens de Renato “transitam por uma Polônia antiga, com paisagens misteriosas e solenes”. Segundo a jovem e talentosa contista, o forte no romance de Renato é a fabulação. Ou as intrigas e aventuras. A maravilhosa Ana Miranda, que inventou Gregório de Matos, refere-se à urdidura do romance, aos momentos de intensidade dramática, às tramas que se entrelaçam, com suas semelhanças com o conto gótico. E Renato se espreme entre essas duas maravilhas do mundo literário, sem desaparecer.

Inventário das sombras se passa numa Polônia imaginária, com referência a algumas cidades, como Cracóvia, e localidades no campo. Três notas explicativas do autor ajudam o leitor a situar a história. Na primeira parte, os personagens Michal Nowak e Irena Kaminska se acham em Cracóvia. Ao tentar pagar o trabalho de pintora dela, que lhe havia feito um retrato, ela o deixa surpreso: “Em lugar dessas moedas, me mostre a cidade. Afinal, nada conheço aqui”. Não há muitas descrições de ambiente (“a velha igreja, cuja assimétrica e intrigante fachada”; “as arcadas de um velho prédio da Praça do Mercado, depois ao lado do soberbo Castelo de Wawel e até mesmo nos arredores, nas galerias esculpidas em sal de Wieliczka”). Há descrições, sim, do aspecto das pessoas fictícias. Pode-se ver até certa glamurização da figura feminina em Irena: “Sua boca era rosada, e seu olhar mais lembrava o das virgens e ninfas dos antigos quadros da pinacoteca da cidade”. E este parece ser o ponto de vista de Michal, enamorado.

Não há nenhuma alusão a fatos históricos ao longo da narrativa. Nenhuma data, nenhuma menção a acontecimentos políticos ou sociais. Assim, o leitor não sabe se a história se passa na Polônia de hoje, na Polônia socialista ou numa Polônia mais antiga. Talvez o romancista tenha querido se esquivar de tratar assunto tão polêmico como o das transformações sociais e políticas ocorridas naquele país e naquela parte do mundo após a aniquilação do regime dito comunista no leste europeu, tendo à frente a Igreja católica (cardeal Karol Wojtyla, depois papa, e o sindicalista Lech Walesa, depois presidente da república) na luta contra o comunismo. Personagens andam de trem, mas também de carruagens. Nenhuma referência a automóveis. Entretanto, em todo o romance o que mais sobressai é o empenho das pessoas por aquisição ou conservação de propriedades imóveis, causa dos principais conflitos da narrativa.

A princípio, o leitor se depara com apenas dois personagens (Michal e Irena) e tem a impressão de que a história se desenrolará em torno deles. Entretanto, já na página 17 ocorre uma brusca mudança de foco, com o surgimento de diversos personagens alheios a um e outro (para o leitor). Os primeiros são Elzbieta, Bozena e Stanislaw Fiodorini, pai de Elzbieta. A moça, a caminho de um casamento, “com o filho do mais rico proprietário de toda a cidade de Torun”. Bozena, enteada daquela, está interessada em salvar a propriedade onde moram. O narrador se refere a um jantar das duas na casa do tal homem rico, Jan Poznanscy, pai de Polak e Antoni. Este se interessa pela visitante jovem. Surge o primeiro conflito: e Alicja? Como se vê, em poucas páginas, uma chusma de personagens invade a história e toma o lugar dos supostos protagonistas. E se inicia uma intercalação de pequenos dramas: Michal volta à cena, numa gare, em busca de Irena, enquanto Bozena e Elzbieta (que não o conhecem) também viajam no mesmo trem. Dá-se, então, a aproximação deles, e os jovens dialogam.

Michal aparece como protagonista desde o início e pode-se até fazer uma conjectura: a de que ele fosse o narrador. O romancista teria mudado o foco narrativo, entregando a um narrador onisciente a missão de contar a história. Pois Michal volta ao papel principal logo no capítulo (ou parte) dois. A participação de Michal no entrecho, no entanto, vai, aos poucos, se desvanecendo. Até se tornar um personagem secundário, quase uma testemunha, ou um repórter.

Note-se a presença de servas na taverna de Piotr, onde Michal se hospedaria, na cidade de Zamosc. O que nos remeteria a uma sociedade pré-capitalista. Inicia-se mais um conflito. O dono da pousada se irrita com o viajante, ao perceber neste interesse em conhecer o “casarão da montanha de Zamosc”. E o expulsa. “Uma noite fria e tempestuosa o aguarda lá fora”. Sem saída, o hóspede pede desculpas e promete não mais tocar no assunto casarão. Entretanto, mais adiante, toca noutro assunto que irrita profundamente Piotr, ao perguntar por Irena. Mais uma vez consegue se livrar da frialdade da rua e termina acolhido. É quando surge outra personagem capital para o drama: a criada Jalanta. “Na primeira noite de chá, Jalanta chegou ao quarto trajando um longo vestido que lhe caía, vistoso, sobre as pernas roliças”. E o leitor se vê diante de ingredientes de um romance de aventura. Jalanta termina também narradora de alguns episódios, revelações e mistérios. Conta histórias ao visitante, como a da origem da família de Irena e a casa dos Sete Erros: “Há muito tempo, quando menos ainda construções e gente existiam em Zamosc, chegara aqui um forasteiro acompanhado de uma mulher, vindos de uma terra a qual todos desconheciam” (p. 43). Surge a figura de Cyprian Kaminski. O narrador faz um longo flashback. E o personagem Michal mais uma vez se mostra como estranho ao ambiente, um estrangeiro numa Polônia sombria, como se fosse mero espectador, testemunha de oitiva de histórias misteriosas, quase que alheias ao seu entendimento. A impressão que fica é de se trata apenas de testemunha ou de repórter perdido. Se narrador fosse (e poderia sê-lo), não passaria de narrador-testemunha.

Toda a narração é permeada de diálogos bem elaborados, com os tradicionais travessões e os verbos de elocução. Aqui e ali, uma descrição de ambiente ou de personagem, sempre necessários à composição do enredo. Renato aprendeu bem a lição dos mestres do romance, principalmente os europeus. Mas não se limitou a imitá-los. Um pouco de romantismo, um pouco de realismo, muito mistério, tramas bem urdidas, como num labirinto de ações, e temos um romance pleno de intrigas.

Fortaleza, janeiro de 2010.
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sábado, 16 de janeiro de 2010

As ousadias de Jorge Pieiro (Nilto Maciel)



(Jorge Pieiro)

Na avidez de converter em literatura quase tudo, projetei transformar em personagens alguns amigos escritores. Não porque eles sejam pitorescos ou modelares. Podem até ser. Eu, no entanto, não desenvolvi a capacidade de enxergar o fundo da alma deles. Ficaram apenas as aparências. Por outro lado, casmurro como sou, não me aproximei mais das pessoas. Permaneci ao largo, às vezes sem sequer as ouvir. Em razão disso, senti-me impelido a imaginá-las.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O nascer dos ares e dos pássaros (Pedro Du Bois)





Sua voz desperta o tempo de adormecidas horas


recomposto no cumprimento


com que o travo


da saudade aflora e fere e desacostuma


a vida silenciosa:


refestelados castelos de quase nada


prisões rarefeitas de prazeres


e esperas automatizadas no aguardo


do barulho com que o espantalho


espanta os pássaros sem mexer o corpo


e da reunião dos fatos ressurgem


as primeiras chuvas em úmidas gotas


de desespero


o tom e o som a entonação e o nome


ditos como se a surpresa superasse o sonho


e estivesse ao lado e à frente


os olhos abertos e sorridentes


e o nome repetido na confiança


da conquista.


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

No tempo dos capitães-generais (Adelto Gonçalves*)




Extraída de um sermão do padre Antonio Vieira (1608-1697), a metáfora do sol e da sombra dá titulo ao novo livro de Laura de Mello e Souza, professora de História da Universidade de São Paulo, O Sol e a Sombra: política e administração na América Portuguesa do século XVIII (São Paulo, Companhia das Letras, 2006), que reúne dez ensaios escritos ao longo dos últimos dez anos e que discutem problemas e trajetórias referentes ao império português, especificamente na região Centro-Sul da América portuguesa no século XVIII.

Embora a imagem possa servir para outras interpretações, a metáfora é utilizada por Laura de Mello e Souza para mostrar como funcionava a prática administrativa no império português à época, quando, com a Corte tão longe e separada por meses de viagem, muitos administradores régios tratavam de encontrar suas próprias soluções para os problemas que se avolumavam, além de aproveitar a distância para monopolizar os negócios dos colonos e garantir a recompensa material pelo sacrifício de viver tantos anos fora do Reino.

Isso não significa que todos governadores e capitães-generais, ouvidores e altos funcionários fossem rematados ladravazes, mas que havia implicitamente a idéia de aproveitar os anos no Ultramar para garantir um pé-de-meia e uma aposentadoria folgada no Reino, não há dúvida. Até porque os ordenados e emolumentos pífios pagos pela Coroa funcionavam como incentivo para que esses altos funcionários se imiscuíssem nos negócios locais, ficando com boa parte dos lucros, o que, naturalmente, sempre gerava protestos e ódio dos naturais do lugar e daqueles que já estavam estabelecidos na terra.

Portanto, não vai aqui nenhuma manifestação de lusofobia nem apoio aos conceitos extravasados recentemente por um apresentador de programa na televisão brasileira que causaram tanta celeuma na Internet entre portugueses e brasileiros, a propósito da exibição de uma telenovela luso-brasileira. Até porque, depois da independência, muitos administradores provinciais não escaparam da suspeita de se aproveitarem da sombra generosa do Estado para construir fortunas. E, hoje, sobretudo, não são raros os homens públicos que entraram pobres na política e ostentam fortunas incompatíveis com os ganhos que obtiveram exercendo cargos.

Embora o livro de Laura de Mello e Souza não tenha esse objetivo, no ensaio “Os motivos escusos: Sebastião da Veiga Cabral”, lê-se que o governador Dom Brás Baltazar da Silveira, que governou a capitania de São Paulo e Minas do Ouro de 1713 a 1717, voltou para o Reino milionário, dono de uma fortuna superior a 200 mil cruzados. Segundo a autora, há evidências de que, durante o seu governo, foram descobertos os diamantes na capitania, sem contudo haver comunicação oficial à Coroa. “Era ainda considerável, naquele tempo, a complacência monárquica ante o envolvimento de administradores em negócios, lícitos ou ilícitos”, acrescenta a autora.

É claro que, longe dos olhos das autoridades metropolitanas, nas colônias quem podia roubava — e não apenas os governadores. Assim, enormes fortunas foram construídas com a sonegação de impostos ou a corrupção de funcionários destacados para zelar pela arrecadação da Fazenda Real. Às vezes, o fiscal da alfândega era exatamente um comerciante que tinha interesse em fazer passar suas mercadorias — o que incluía escravos — sem o pagamento dos direitos alfandegários.

Para resumir a história, basta lembrar que um alvará de 1785 determinava que todo governador que fizesse qualquer negócio por conta própria ou alheia, além do confisco dos bens, deveria ser expulso do governo e nunca mais governar qualquer capitania.

Esse alvará havia sido baixado por D.Maria I a propósito das “prevaricações cometidas pelos governadores e capitães-generais e pelos ouvidores” da capitania de Moçambique, Rios de Sena e Sofala. Só que esse alvará com força de lei nunca seria colocado em prática, tanto na África como no Estado do Brasil e demais possessões portuguesas, a ponto de, uma década mais tarde, a Gazeta de Lisboa, de 25/5/1795, reivindicar a sua efetiva aplicação, igualmente sem êxito.

Aliás, Fritz Hoppe em A África Oriental Portuguesa no tempo do marquês de Pombal (Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1970) cita à página 115 documento em que o governador Baltazar Pereira do Lago, que governou a capitania de Moçambique, Rios de Sena e Sofala de 1765 a 1779, refere-se a um secretário de governo que vivera ali mais de 13 anos e cujo espólio não tinha com que pagar dívidas de quatro mil cruzados, considerando aquilo “raridade de procedimento que aqui se admira, como cousa nunca vista”.

Para não ficarmos só com exemplos “africanos”, podemos lembrar de Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça, que governou a capitania de São Paulo de 1797 a 1802, sobrinho do todo-poderoso ministro Martinho de Melo e Castro (1716-1795), contra quem abundam nos arquivos documentos em que moradores, o bispo e de oficiais das câmaras da capitania o acusam de, em conluio com seu ajudante-de-ordens, participar de vários negócios de açúcar, sal, animais, algodão e mantimentos. Mendonça não permitia que os comerciantes fizessem comércio de açúcar diretamente com o Rio de Janeiro e a Corte, atravessando seus negócios, ao franquear o porto de Santos apenas aos navios que vinham por sua conta. Apesar disso, não se pode dizer que, em seu governo, a capitania de São Paulo não tenha progredido. Pelo contrário. Quer dizer: Mendonça seria um dos precursores de uma velha máxima da política brasileira: “rouba, mas faz”.

Em O Sol e a Sombra, Laura de Mello e Souza traça também um belo perfil de D. Pedro de Almeida, o conde Assumar, que governou a capitania de Minas de 1717 a 1721, contra quem não se levantaram acusações graves de corrupção. O que pesou contra Assumar foi o episódio de 1720 em que mandou executar o tropeiro Filipe dos Santos sem julgamento. Filipe dos Santos era um reinol, nascido em Cascais, homem branco e livre que, portanto, só poderia ter sido condenado à morte depois de passado por julgamento formal pela Junta de Justiça.

O brilhante ensaio de Laura de Mello e Sousa mostra como a construção do “mito” de Filipe dos Santos como herói nacional foi correlata à construção da memória do conde de Assumir como tirano cruel e boçal, colocando as coisas em seus devidos lugares. Na verdade, Assumar era um homem extremamente culto e bem preparado, como, aliás, a maioria dos nobres nomeados para ocupar o cargo de governador e capitão-geral nas conquistas.

As razões que o levaram a tomar tão drástica atitude, que o marcaria para sempre mesmo no Reino, são buscadas pela professora Laura de Mello e Souza nesse que é, sem dúvida, o melhor ensaio do livro, embora os demais sejam todos igualmente de relevante importância para o conhecimento da história da América portuguesa, o que só vem enriquecer uma obra que já inclui livros fundamentais como Desclassificados do ouro, Inferno atlântico e O diabo e a Terra de Santa Cruz, além de Cotidiano e vida privada na América portuguesa (org).

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O SOL E A SOMBRA: POLÍTICA E ADMINISTRAÇÃO NA AMÉRICA PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII, de Laura de Mello e Souza. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2006, 505 págs. E-mail: editora@companhiadasletras.com.br

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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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