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sexta-feira, 7 de maio de 2010

A galinha e o trigo (João Soares Neto)



Reconto, com adaptação minha, estória atribuída a George Orwell que corre há décadas. Ela mostra a diferença entre os que não plantam e os que cuidam de plantar. Consta que existia uma galinha vermelha. Ela achou alguns grãos de trigo e perguntou a seus colegas de fazenda: vocês me ajudam a plantar? A vaca disse: não. O pato: nem eu. Eu também não, falou o porco. Eu, muito menos, completou o ganso. Então, eu mesma planto, falou. E o trigo foi plantado, cresceu e amadureceu em grãos dourados. Da mesma forma, na colheita, perguntou: quem me ajuda a colher o trigo? O pato disse um não, seco. Não faz parte das minhas funções, disse o porco. Não, estou só contando o tempo de serviço para me aposentar, disse a vaca. Vou nada, posso perder o seguro-desemprego, respondeu o ganso. Então eu mesma vou colher o trigo, disse a galinha. Um dia, ela convocou a todos, mais uma vez, para ajudar a preparar e assar o pão. As respostas continuaram a ser negativas: um queria hora extra; outro gozava, agora, do seguro-doença; uma disse que não sabia fazer. Enfim, nada. Ela assou, sozinha, cinco pães. Cheiravam, estavam bonitos, e todos se achegaram seguindo o aroma de pão novo e querendo comê-los. A galinha falou que não, pois estava cansada de trabalhar só e faminta. Foi aí que houve uma reunião dos quatro. A vaca falou em egoísmo e sovinice. O pato chamou-a de capitalista safada. O ganso exigia os seus direitos e o porco só grunhiu. Resolveram ir até o governo da fazenda, mas antes pintaram faixas com palavras de ordem, tipo justiça social e pão para todos. O funcionário do governo, um jaboti, os recebeu, ouviu cada relato, mandou que preenchessem formulários em cinco vias, pediu que reconhecessem as firmas, cobrou uma taxa e os despachou para o chefe. Este, do alto de sua crista, pois era um galo, disse: que se faça justiça, todos têm direito aos pães. E mandou uma intimação à galinha, dizendo que ela deveria, sob pena de prisão, repartir os pães e que aquilo era apenas redistribuição de renda, meta da fazenda. Ela aceitou calada e nunca mais fez nada. Consta ter ela entrado em um movimento social e recebe uma bolsa qualquer.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Podesres (Pedro Du Bois)

Subverto o poder, condicionado ao mito,
retiro da força o apego ao gênio
literário; esmoreço o começo e me arrojo
ao mundo abaixo das vistas, entrevejo
a glória incensada das orquídeas, símbolos
e dogmas repisados ao orgulho determinado
do poder – agora subvertido – ocultado.

Reafirmo a crença no vazio
da pedra concreta da inação
do tempo: a temporalidade
do minério escavado ao corpo

despreparado, escuto gritos reais
de descobertas: o encoberto jogo
do poder sacralizado ao todo.


http://pedrodubois.blogspot.com/
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terça-feira, 4 de maio de 2010

Eça de Queiroz em aquarelas (Adelto Gonçalves*)



I

Filho de A. Campos Matos (1928), notável queiroziano, o arquiteto Rui Campos Matos (1956) herdou do pai a paixão pelos livros, pela poesia, pela literatura de um modo geral e pela obra de Eça de Queiroz (1845-1900) em particular. É o que mostra em Os Maias – Uma Antologia Ilustrada (Lisboa, Parceria A.M.Pereira, 2009) em que, acompanhando trechos do clássico romance de Eça de Queiroz, enfileira a cada página aquarelas em que procura retratar e reconstituir lugares e personagens da obra.

Quem leu Clepsidra e outros poemas, de Camilo Pessanha (1867-1926), em edição preparada por Daniel Pires (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), e deslumbrou-se com as ilustrações que o acompanham já sabe a qualidade que vai encontrar nestas aquarelas. A única diferença é que, desta vez, não são coloridas como naquela edição de Clepsidra. Todo queiroziano, por certo, também há de recordar os pastéis que Rui Campos Matos produziu para O Mandarim, que seu pai publicou em Fotobiografia de Eça de Queiroz, Vida e Obra (Lisboa, Editorial Caminho, 2007).

Como observa Pedro Larsen no prefácio, em precisas imagens, Campos Matos, “num traço dúctil, espontâneo, seguríssimo, detecta o essencial dos ridículos das personagens queirozianas, fazendo-nos reviver episódios e situações que havíamos esquecido e nos despertam depois, além do contentamento e da surpresa do reencontro, a hilaridade do discurso desenhado”.

Entre essas personagens, Larsen destaca a baronesa de Craben, seguida de seu rubicundo marido, o pai Monforte e Maria, sua capitosa filha, o Alencar, sempre emburrado, “a braços com o realismo que tanto lhe atormentou a existência”, o melancólico Cruges, “de batuta entalada no colete”, o melífluo Dâmaso, o truculento João da Ega, e Maria Eduarda, com seus cabelos de ouro, figura enigmática e atraente que levaria Carlos da Maia a dar um passo tão trágico como é o do incesto, entre outras personagens menores – mas nem por isso menos importantes na galeria eciana – da Lisboa da época da Regeneração que, olhada através de um olhar de mais de um século, não regenerou em nada os costumes.

Além do prefácio descontraído de Larsen, o leitor, antes de penetrar diretamente nesta galeria eciana, encontra ainda um guia escrito pelo próprio autor que lhe permite recordar a trama que permeia Os Maias, romance publicado em 1888.

II

Para quem não recorda, é bom lembrar que a narrativa de Eça tem início com Pedro da Maia, filho de Afonso da Maia, personagem educado de acordo com padrões românticos, que se casa com Maria Monforte, filha de um traficante de escravos e, por isso, também conhecida como “a negreira”. Dessa união, nascem dois filhos: Maria Eduarda e Carlos. O casal se separa logo depois. A menina fica com a mãe e o menino com o pai, que se suicida, depois que a mulher foge com um napolitano.

Descendente de uma família nobre da Beira, educado pelo avô, segundo padrões britânicos, Carlos da Maia forma-se em Medicina, mas nunca exerce a profissão a sério. É um doidivanas, um desocupado que está sempre acompanhado de João da Ega, ex-estudante de Direito em Coimbra, um tipo espirituoso e adepto do Naturalismo em Literatura. Após alguns encontros amorosos com a condessa Gouvarinho, Carlos conhece, por intermédio de Dâmaso Salcede, um tipo medíocre e balofo, a mulher de Castro Gomes, um brasileiro rico, e apaixona-se por ela. A amada rompe com Castro Gomes, com quem não era casada legalmente, e vai viver com Carlos da Maia, acompanhada de uma filha, criança ainda.

É quando Joaquim Guimarães, um velho jornalista, entrega a João da Ega uma caixa de documentos a ele confiada por Maria Monforte em Paris, para que ele a encaminhasse a Carlos. Este julgava que a irmã, como a mãe, estivesse morta há muito tempo. Ega lê os documentos e, aterrorizado, vai mostrá-los a Carlos: ele e sua amada, Maria Eduarda, a antiga madame Castro Gomes, eram irmãos.

Desnorteado, Carlos volta a encontrar-se com a irmã, numa atitude de incesto consciente, de que, mais tarde, arrepende-se. Surpreendido com o reaparecimento da neta, que surgia como amante do irmão, o austero Afonso da Maia falece. A situação entre os irmãos só é solucionada após o funeral: Maria Eduarda, com a identidade esclarecida e seus direitos reconhecidos, volta para Paris, refaz sua vida e lá se casa. Já Carlos viaja para a América e o Japão, em companhia de Ega. Só dez anos mais tarde retorna a Lisboa, fixando depois residência também em Paris, onde alia a falta do que fazer ao diletantismo.

III

O que nesta obra Eça de Queiroz faz com mestria é a reconstituição da alta burguesia portuguesa e sua incapacidade de fazer a nação sair da mesmice e do atraso econômico e cultural, em que, aliás, pouco difere de sua congênere brasileira que, mais de 120 anos depois, o que conseguiu foi construir um país injusto, desigual, atrasado e imerso em violência social. Com aquele objetivo, o romancista cria muitas personagens claramente inspiradas nas figuras insossas de seu tempo e suas mesquinharias. Como observa Rui Campos Matos, a definição final desse painel da alta burguesia de sua época o escritor a dá pela boca de João da Ega, alter ego do autor, que reflete um pouco a filosofia dos “vencidos da vida”, grupo de intelectuais de que Eça também fez parte: tinham fracassado porque eram românticos, ou seja, “indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão”.

O que Rui Campos Matos procura fazer com o lápis é o que Eça de Queiroz fez com a pena: imaginar como teriam sido fisicamente essas figuras, quase todas ridículas e balofas, além de retratar alguns edifícios marcantes na obra, como o “Ramalhete”, mansão em que residiam os Maias, ou o Largo do Pelourinho, hoje Largo do Município, local em que Ega toma conhecimento do drama que irá marcar a vida de seu amigo. E o faz com tamanha espontaneidade e virtuosismo que podemos até mesmo imaginar aquelas personagens como se estivéssemos assistindo a um filme. Ou mesmo convivendo com elas no átrio do Hotel Central.

IV

Como Eça de Queiroz, Rui Campos Matos nasceu em Póvoa de Varzim. Frequentou o curso de Artes Plásticas da Escola Superior de Belas Artes e licenciou-se em arquitetura pela FAL/UTL, de Lisboa, em 1984, atividade que exerce desde essa época em ateliê próprio situado no Funchal. Mas, ao mesmo tempo, desenvolve a arte da ilustração e do desenho.

Já expôs na Biblioteca Nacional de Lisboa (2006), na Galeria da Mouraria no Funchal (2006) e na Casa de Santa Maria de Cascais (2007). Além da edição de Clepsidra e outros poemas, de Camilo Pessanha, publicou diversas ilustrações inspiradas na obra queiroziana: Fotobiografia de Eça de Queiroz, Vida e Obra (Editorial Caminho, 2007) e nas revistas Mealibra, Islenha, Boletim Cultural da Póvoa de Varzim e Jornal de Letras.
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OS MAIAS – UMA ANTOLOGIA ILUSTRADA, de Rui Campos Matos, com prefácio de Pedro Larsen. Lisboa: Parceria A.M. Pereira,157 págs., 2009. Site: http://parceria.a.m.pereira@com E-mail: parceriaeditores@net.novis.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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domingo, 2 de maio de 2010

Noções de sujeito (Nilto Maciel)

(Obra de Chico Lopes)


Quando o sujeito nasceu, um anjo lhe disse: Vai, sujeitinho, ser simples na vida. E ele conheceu outros sujeitos: mãe, pai, irmãos. Sentia-se muito simples mesmo. Porque tudo ao seu redor aparentava modéstia: o berço, o quarto, as paredes, o teto. Acostumou-se com isso e nem imaginava o que não fosse natural e comedido. Entretanto, logo passou a ouvir reclamações: Você é simples demais. Trate de ser mais elegante, mais afetado. Tenha orgulho de ser você mesmo. Havia quem dissesse: Seja mais composto, mais cuidadoso consigo. Um dândi? E pensava: Como poderia ser sujeito composto, se era um? Queriam-no dois, dez, mil, plural? Não, nunca seria mais de um. Gostava de ser singular. Exigiam-lhe atitudes, modos, sem mencionar quais: Tome uma atitude, homem. Que atitude? De atividade ou de passividade? Se agia, chamavam-no de agente. Se permanecia apático, diziam-no paciente. Ou o pretendiam neutro? Nem agente nem paciente?

sábado, 1 de maio de 2010

O poema da lua (Ronaldo Monte)


Existem muitos poemas dedicados à lua. Não há poeta, creio, que já não tenha cometido ao menos um verso comovente para a lua. Desconfio que até os uivos dos lobos e cachorros sejam poemas dedicados à lua cheia.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Jovens Escritores Portugueses

Pedro Silva (Portugal)


Ao longo da minha vida aprendi a apreciar a literatura. Sem sucesso procurei, nos últimos anos, concretizar um projecto de revista literária e cultural, em formato impresso. Deste modo, resta-me a interessante alternativa da crónica literária. Assim nasce, portanto, a presente iniciativa que pretende manter a relevância e qualidade pretendida, no que diz respeito à divulgação da literatura de Portugal.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Saberes (Nilto Maciel)

(Obra de Chico Lopes)



Sim, sou assim, como vocês não queriam:

Mais oblíquo do que torto.

Plantei-me em pântanos

E não cantei os pássaros.

O vento me quebranta

E à noite me espanto.

Nada me é familiar,

Nem mesmo tudo o que me cerca.

Minha sombra se perde no ar,

Sem se evolar, sem ser.

Somos o mesmo, embora

Eu saiba disso e ela não.

18/8/2009
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Licânia (Clauder Arcanjo)



De cabelos mais ralos, de olhos mais quedos, e de corpo mais lasso. Assim Antonio foi se achegando dos umbrais da pequena província. Trazia, debaixo do braço, um pequeno volume; sempre a paixão pelos livros, desde o tempo de infância. “Espantou uma mosca do nariz, como se buscando banir o caudal do rio das lembranças”.

No ar, o inconfundível bafo da terra natal: a brisa quente das ribanceiras do velho Acaraú. Estava chegando de terras potiguares. De lá, sempre observara as lembranças da sua Licânia. Catara-as, limpara-as, pondo um pitaco de ficção... e, finalmente, criara estórias. Causos e contos que lhe enchiam o buraco fundo da solidão das noites. Tipos e personagens a ressurgir, cada vez mais vivos, do baú de guardados que trazia bem enterrado, lá no fundo do peito.
Fora fácil apresentar tudo aquilo para gente estranha. A casa, A rua, Boné azul, Identidade... “Quando o sol colocava seu amarelo nos panos...”. Mas, agora, um medo lancinante lhe tomava as carnes, quando do retorno para o seu lugar. Aqui era o palco dos originais, daí o medo de ter feito uma cópia chula, imitação barata da vila. “Um vento teimoso varre as folhas soltas, que sibilam no chão duro e seco...”. Caminhou um pouco, viu-se de frente ao grande campanário da Matriz. A saga do retorno. Na mente, as palavras do Licânia. Sobre Licânia. Cemitério, Despedida, Menina de rua. Até o mar, nunca existente, mas sonhado, era tributo à província, nascendo como O cavaleiro do mar. “Era uma tarde de ventos enferrujados, de maré de vazante, praia com ondas em soluço...”.
As algarobas, ainda inquietas com o trinar dos pássaros, palco da revoada matinal. Antonio apertou o pequeno tomo, o suor umedecia-lhe as mãos. O pó de chinelo. “É bem melhor o atrito das pedras, ao roçar da covardia e ao molhado da indecisão”. Tudo era mais forte do que qualquer palavra, cenário indescritível. Quis rememorar passagens... O sineiro (“O planger dos sinos, metálico e dorido, aquietou o vento, apertou o peito dos moradores e cobriu a cidade com a lassidão do sentimento da perda.”), A mala (“Paixão assim não se agüenta de boca fechada.”). Era melhor voltar, pensou, calçar As sandálias da humildade (“Beijinhos, afagos e tapinhas nas costas era tudo que se via por entre as mesas...”), e deixar a sua obra longe do julgamento de Licânia. Porém um naco de teimosia grunhiu no seu peito. A epígrafe, versos de Sânzio de Azevedo: “Da tua terra, fértil mas pequena,/tirou-te um dia a sede das andanças!/Partiste, então; mas nessa idade amena/tangias um rebanho de esperanças!”. Canto da longa ausência.
Sacudiu o temor da roupa domingueira, e rumou para o Mercado. Moeda ao chão, O curral das éguas (“Os moradores viviam ruminando seus silêncios, presos à seqüência dos dias”), O grito (“... um homem não muda, muda o mundo”). Voltou-se rápido, no entanto não deu por nada, todos os espectros já estavam dentro dele. Não havia mais do que, nem de quem, fugir.
O calor tomava-lhe a garganta seca, o nó do reencontro. Carniça. “Olhos secos, cacimba vazia de lágrimas”. Logo em frente, deu com O riso do cão. “Uma espécie de riso a se desenhar por entre os seus dentes”. As inquietações de Samira. “Um medo apertando as carnes da barriga, dando um friozinho danado, um gelo... Puxo pelo rabo do tempo, e o que me resta é somente isso”. Zeca e os pombos. “Pessoas de risos parcos, de amores murchos, de mau jeito nos olhos”. Dona Tarcisa... “O soletrar das primeiras letras, as mangações...”. Respirou fundo, já claudicante. Na esquina seguinte, a teimosia de Perneta, “sol beirando o queixume dos coqueiros”, e o Sonho de Almirante.
Antonio enxugou a testa porejada pelo suor de Licânia, afrouxou a gravata, tirou os óculos de grife, e viu claramente Jesuíno. Ao lhe abraçar, festivo, percebeu que os homens e mulheres lhe olhavam risonhos, achando, por certo, que Antonio era mais um mascate a tentar fazer, com aquele pequeno livro, Negócios de feira.
A revoada das andorinhas cobriu o céu da tarde.
Licânia viera para ficar.

clauder@pedagogiadagestao.com.br

Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 18/03/2007.
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

A roupa e o monge (João Soares Neto)



Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros vêem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como seqüela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo - na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cinco balas contra a América (Luiz Carlos Monteiro*)


(Luiz Carlos Monteiro)


Com o aparecimento de Cinco balas contra a América, do jornalista e escritor cabo-verdiano Jorge Araújo (Editora 34, São Paulo, 2009), a literatura infanto-juvenil recebe uma forte e diferenciada contribuição no sentido próprio do seu fazer. Produz-se um sério abalo nas suas estruturas convencionais, no modo arraigado e repetitivo da concepção, ultrapassando as fronteiras e as missões previsíveis e às vezes simplórias de apenas entreter ou edificar. Ao invés da orientação autoral explícita ou subliminar para temáticas que ativem vendagens contabilizadas em centenas de milhares de edições, promove-se aqui um espaço amplificado de reflexão, ação e animação para os jovens leitores, que subverte as ambiências e enredos comumente encontrados no gênero. A edição, didática e de venda proibida, faz parte de um programa do ministério da Educação, o que garante a sua distribuição na rede oficial de ensino. As ilustrações, de traços magros e avantajados, expressivos em sua economia ambígua, ficaram a cargo do angolano Pedro Sousa Pereira.

A motivação psicológica dos quatro personagens adolescentes aprofunda o senso da discussão em torno à sua origem e formação, os embates da sua prática de vida diária, onde afloram as qualidades e defeitos inerentes ao humano, inclusive a coragem e o medo, que serão testados na aventura que viverão. O Comandante Zero, personagem disfarçado e misterioso, é temperado na mistura de velho boêmio mulherengo e sátiro, emigrante e nativo que somente com o tempo revelará a que veio, na sua faceta verdadeira de militante revolucionário calejado. Viverá ainda o bastante para absorver a vitória merecida pela luta contra os colonialismos europeus, e neste caso, mais especificamente português.

É o Comandante quem deflagrará a trama e a ação inicial do livro: “Foi Zapata quem recebeu o revólver. Ficou deslumbrado, tão deslumbrado que os seus olhos de pólvora seca dispararam estrelas. Mas logo, logo, tratou de domesticar a euforia, inspirou sentido de autoridade, encheu o peito de um ar de falsa tranquilidade. Tinha de estar concentrado, a missão era de grande responsabilidade”. Com Zapata, cujo nome verdadeiro era Salazar, encontravam-se Aristóteles, seu escudeiro subserviente, e os amigos inseparáveis Bob e Frederico, que estavam na aventura mais à procura de diversão, embora não espantassem a percepção e a práxis dos ideais revolucionários em voga na cidade cabo-verdiana do Mindelo e nas circunvizinhanças guineenses.

Aos quatro “miúdos” será confiada a missão de ficar de guarda, numa praia da ilha de São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, prevendo a eventual aparição e invasão de tropas norte-americanas, tendo como armamento apenas um revólver com cinco balas. Cada capítulo, acompanhando o rumo dos acontecimentos, será intitulado Bala 1, 2, 3, 4 e 5, Bala Perdida e Bala Final. Questões históricas e ideológicas desfilarão com verdade e leveza, mas sem denuncismo, planfetarismo ou propaganda dirigida. Em breves referências, não serão escondidos os papéis dos principais líderes das guerras pela Independência e das revoluções comunistas ocidentais e orientais.

Talvez fosse muito cedo para assumir missão de adulto, mas a fronteira entre duas idades mostrava-se tênue e ansiosamente aguardada sua quebra. Enquanto isso, Bob dedilhava seu violão, Zapata exercia sua inclinação de chefe desastrado, Frederico bebia da mesma aguardente e partilhava histórias de mulheres com Bob, e Aristóteles se guiava pelo mesmo passo inseguro e vacilante de Zapata. O sentimento de grupo mantinha-se mesmo assim, entre a tensão e o companheirismo, na discórdia e na desavença, na alegria de zombar do outro, tendo como cerne motivador a conquista de ser visto e distinguido pelo Partido. A necessidade da guerra justificava parcialmente o alinhamento da juventude guineense e cabo-verdiana aos eventos da libertação do jugo colonial. Os garotos, no entanto, não poderiam ser reprimidos ou se afastar demasiadamente de suas vivências pessoais na ilha, onde sempre haveria lugares como o cinema Éden-Park para os encontros jovens, despojados e aventureiros.

A fragilidade e o egoísmo de cada um vai se manifestar durante a noite que passarão, forçosamente, em vigília. Além disso, as ambições políticas serão desnudadas pela falta de preparo e maturidade. Porque sucumbem ao menor sinal de presença humana ou evento marinho. Tudo é motivo para a proximidade e viscosidade do medo: “Os quatro não mais saíram da tenda durante o resto da noite. Ficaram encostados uns aos outros, abraçando-se uns aos outros, assim sempre tinham a sensação de estar mais seguros. Mais protegidos. A escuridão continua a fazer das suas, a pregar-lhes partidas. Foi uma noite em branco, uma noite sem sono. Nunca no Mindelo os espíritos andaram tão à solta como naquela noite. Deveria estar a preparar-se uma revolução no céu”.

Quando a manhã chega sobre a praia, a euforia desfaz ressentimentos, provoca abraços e reconciliações num momento único na vida dos quatro militantes inseguros e sem experiência ou batismo de luta, sob a guarda da família, voltados, sem que por vezes o soubessem, para o que caracterizava as coisas de sua própria fase. As cinco balas, fornecidas pelo velho Comandante, serão disparadas por Zapata para comemorar a vitória da ultrapassagem da noite. Transformadas, surpreendentemente, como numa roleta russa não programada, em seis, por um artifício de Zero, um dos bravos “pioneiros” militantes, por pouco, não é atingido fatidicamente: “Desde que a sexta bala tinha sido disparada, desde que a bala adormecida na câmara ressuscitara, desde que Frederico escapara como que por milagre à execução sumária, que estavam em estado de choque. De todos, Zapata era sem dúvida o que estava em pior estado, recuperara o espírito, é verdade, mas não o juízo. Não dizia coisa com coisa, tinha esquecido todo o palavreado revolucionário”. Nenhum inimigo colonialista ou imperialista tinha surgido nas horas da vigília, mas Bob foi o único que testemunhou, após o sexto tiro, em meio à aflição dos outros e à sua própria, um elemento estranho na praia de São Pedro: “O porta-aviões navegou calmamente em direção aos mares do Sul, foi engolido pela contraluz. Bob fez de tudo para chamar a atenção dos restantes colegas de vigilância. Correu, gritou, esperneou, gesticulou. Desesperou. Tudo em vão. Ficou guardião de um segredo que era muito maior do que ele. De um segredo que nunca poderia contar, partilhar, porque nunca ninguém iria acreditar”.

As fórmulas infanto-juvenis batidas e estanques, engessadas e utilizadas à exaustão por editores ávidos e escrevinhadores midiáticos, declinando quase sempre da qualidade estética, foram rejeitadas pela mão de Jorge Araújo, cujo texto assume parâmetros de boa literatura. Auxiliando a reflexão e o questionamento de quem mais precisa disso, daqueles que estão de passagem para a vida adulta, a singularidade desse livro é fruto da sua inteireza em não esconder nem escamotear o cerne polêmico que o engendra e configura. Falar de pessoas entre 14 e 16 anos de idade, envolvidas nos meandros políticos de independência e colonialismo, dominação e liberdade, não é tarefa fácil, exigindo tato e bom-humor, responsabilidade ideológica e traquejo vivencial para que sejam evitados os tons do panfletário e do propagandístico.

(Artigo extraído de http://omundocircundante.blogspot.com)


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*Poeta, crítico literário e ensaísta. Formado em Pedagogia e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Publicou os livros de poesia Na solidão do neon (Pirata, 1983), Vigílias (Fundarpe, 1990), Poemas (Ed. Universitária da UFPE, 1999), O impossível dizer e outros poemas (Bagaço, 2005) e de ensaios Para ler Maximiano Campos (Bagaço, 2008) e Musa fragmentada - a poética de Carlos Pena Filho (Ed. Universitária da UFPE, 2009). Organizou, em colaboração com Antônio Campos, o livro de contos do Prêmio Maximiano Campos nas versões 2, 3 e 4 (IMC/Bagaço, 2008). Tem poemas publicados em antologias diversas, além de artigos e resenhas espalhados em sites, jornais e revistas de Pernambuco e de outros estados.
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Memória (Inocêncio de Melo Filho)
















Quando a indesejável das gentes
Vier me buscar
Que meu retrato fique pendurado
Na parede
É o tudo ou o pouco do resíduo
Que sempre fica
Para que a memória persista
Nas ações (cruéis) do tempo.
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segunda-feira, 12 de abril de 2010

O mundo sob o olhar feminino (Adelto Gonçalves*)



Neste começo de século XXI, a literatura produzida por homens encontra-se num beco sem saída. É difícil encontrar um não só entre brasileiros como entre estrangeiros que não faça imagens já conhecidas, o que não significa dizer que não existam grandes escritores. Não é isso. É que, como sabe quem já leu Virginia Woolf (1882-1941), Clarice Lispector (1920-1977), Nélida Piñon (1937), Marina Colasanti (1938), Agustina Bessa-Luís (1922) e outras tantas, as mulheres escrevem de uma maneira distinta. Costumam recorrer a imagens próprias, muitas vezes completamente novas, porque têm, naturalmente, outra maneira de olhar para o mundo, outra sensibilidade. É caso de Leila Guenther (1976), nascida em Blumenau, Santa Catarina, que acaba de estrear na literatura com o livro O voo noturno das galinhas, em que reúne 33 contos. Na maioria, são contos curtos — um, inclusive, dedicado à memória da poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983), quase um poema, que, de tão curto, pode ser reproduzido aqui:
"Eu também me mato todos os dias, às três horas da tarde. Depois volto às mesmas coisas de sempre até pensar de novo na minha próxima morte".
São contos escritos num estilo seco, de frases enxutas, diretas, que equivalem a retratos do cotidiano. Mas não são flagrantes fixados com essas modernas máquinas digitais em que toda a realidade é captada nos mínimos detalhes. É que, como diria Jaime Rest (1927-1979) em El laberinto del universo (Buenos Aires, Ediciones Librerías Fausto, 1976), a propósito dos contos de Jorge Luís Borges (1899-1986), vivemos em dois universos, que são análogos e co-extensivos, mas que ao mesmo tempo se opõem como a imagem refletida num espelho. Um é este mundo em que vivemos; o outro é o sistema de símbolos que utilizamos para interpretar o anterior. Um é real, o outro é fictício. Na definição de Rest, o fictício é a imagem registrada no espelho de nossa reflexão sistematizadora. O real, na medida em que o enunciamos e sistematizamos com palavras, converte-se imediatamente em ficção. Homens e mulheres, porém, o fazem de maneira diversa, como prova a literatura feminina, essencialmente introspectiva, deste último século em que as escritoras se assumiram e conquistaram seu lugar num mundo dominado amplamente por escritores, como se pode comprovar com o simples correr dos olhos por qualquer biblioteca acadêmica. Se homens e mulheres são diferentes no agir e no pensar, fatalmente, teriam de ser diversos nas estratégias retóricas a que recorrem para colocar no papel o que lhes corre no íntimo.
Quem duvidar que leia estes contos de Leila Guenther, que nada têm de uma autora estreante. Seus contos são produto de uma sensibilidade extremamente feminina, delicada, introspectiva, que recorre ao tom confessional para oferecer não uma história completa, mas apenas um momento dessa história, como se ao leitor fosse dada a oportunidade de completá-la com a experiência que os anos já lhe deram. Não é só. O estilo da autora, de repente, oferece preciosidades como esta frase que abre o conto “Passagem”: “Ajuntou suas coisas como se recolhesse as folhas caídas de uma árvore no outono”. Ou como a abertura do conto que dá título à coletânea em que o leitor surpreende a solidão de uma mulher enquanto seu homem não chega: “Passo bastante tempo examinando meus seios e como eles inflam quando inspiro. Desenvolveram-se quando eu já não crescia mais. Não há semente alguma no meu ventre para eles terem tomado essa forma quando já é tarde. É tarde e é bom que seja, penso.Assim, no tempo de minha cabeça, dividido entre peitos e pequenas coisas do cotidiano, apresso a volta de Lúcio (...)”.
Não se pense, porém, que este livro fica circunscrito ao universo feminino. Em “A fera”, um dos raros contos mais longos que ocupa quatro páginas, a contista entra no âmago de um homem solitário, austero, pouco sociável, “talvez até louco”, que convive com um ser estranho em sua própria casa, que lhe dá o mesmo trabalho que um animalzinho de estimação daria. Quem seria? Talvez um dos fantasmas que obcecam os ficcionistas e que, enquanto não passam da mente para o papel, não lhes dão paz. Em “Morfina”, outro raro conto mais longo, é de novo um personagem masculino que encontramos, um tipo fora do normal, louco manso, que lembra alguns personagens de Murilo Rubião (1916-1991). Em “Vinte anos depois”, uma mulher dentro de um ônibus remete para o conto “Amor”, de Clarice Lispector, em que uma dona-de-casa tem a sua rotina interrompida, ao ter de dentro de um bonde a visão de um cego mascando chicletes. A proposta, porém, é diferente: a personagem surpreende-se, ao ver a si mesma pela janela de vidro duas décadas mais tarde, “com o rosto mais murcho, os sulcos ao redor da boca mais vincados”.
Por falar em influências, a própria autora, no “Epílogo”, deixa suas pistas, ao compor um texto com frases extraídas de obras de Machado de Assis (1839-1908), Graciliano Ramos (1892-1953), Jorge Luis Borges, Albert Camus (1913-1960), Hermann Hesse (1887-1962), Salman Rushdie (1947), Clarice Lispector, Dante Alighieri (1265-1321), Raduan Nassar (1935) e Samuel Beckett (1906-1989). Uma lista para ninguém pôr defeito. Influências que só poderiam resultar numa contista já madura, consciente de sua arte, que estréia como se já fosse uma veterana no ofício.
Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, Leila Guenther trabalha como revisora de textos na cidade de Campinas, interior de São Paulo, onde reside. Antes deste seu livro de estréia, só havia publicado contos em revistas, jornais de literatura e sites. Atualmente, faz mestrado em teoria literária na Universidade de São Paulo, estudando a obra da escritora russa Nina Berbérova.

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O VOO NOTURNO DAS GALINHAS, de Leila Guenther. São Paulo: Ateliê Editorial, 103 págs., 2006. E-mail: atelieeditorial@terra.com.br

* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Meus amigos desses brasis (Nilto Maciel)

(Mimeógrafo)


Após a publicação de Itinerário (1974), criei o jornal Intercâmbio. Há algum tempo, eu mantinha contatos com diversos “nanicos” (pequenos jornais, mimeografados) de todo o Brasil. Comunicavam-se uns com outros, formando uma cadeia. Cada um divulgava os demais. E, assim, todos os “editores” (jovens escritores) se conheciam: de Norte a Sul, de Leste a Oeste. E com eles me correspondia. Não lembro qual deles conheci primeiro. Havia também pequenos jornais impressos em tipografia, conhecidos como “independentes” ou “marginais”. Aqueles publicavam apenas poemas e contos curtos, estes também tomavam posições políticas ou adotavam determinadas diretrizes ideológicas, de oposição à ditadura militar, eram legalizados e vendidos em bancas: Pasquim, Movimento (nele saiu um conto meu, em 19/4/76), Opinião, Abertura Cultural, etc.

O Jornal de Letras, dos irmãos Elysio, João e José Condé, criado em 1949, no Rio de Janeiro, é um caso à parte. Nele sonhava me ver publicado. No entanto, não conhecia os editores e colaboradores, nomes muito importantes para mim. Para me aproximar, passei a mandar notícias do Ceará literário. A primeira delas saiu em maio de 75 e se intitulava “Semana de estudos”. Como não se tratava de matéria assinada, ousei falar também de mim. E eis como se manifestou a cabotinagem mais deslavada: “o contista Fernando Maciel, que estreou com Itinerário, de forma auspiciosa, mandou originais de dois livros, também de contos, para editoras do Rio: A vida íntima de Mozart e O último dia de Pompéia.” Quanta tolice! No aposto bajulador (no caso, autobajulador) “de forma auspiciosa” e na própria informação (como se fosse notícia ou tivesse importância mandar originais para editoras). Na edição de julho daquele ano, os editores do JL me concederam mais espaço e publicaram as notícias por mim enviadas no mesmo bloco em que aparece Pedro Lyra, com citação de nossos nomes como correspondentes, embora com erro no meu. De qualquer forma, eu me tornara correspondente do mais importante órgão literário do Brasil. Na edição de setembro, o espaço reservado ao Ceará é assinado por Nilto Fernando Maciel e na de dezembro retirei o primeiro nome (não me decidira, ainda, por um nome literário).

Reconhecido como jornalista, em 76 publiquei notícias, artigos e até editoriais no Unitário, de Fortaleza. Pelo menos, dois pequenos artigos assinados: “A literatura cearense hoje” e “Os novos tempos da literatura”. E duas reportagens, também assinadas: “Medo do Quinze: a simplicidade em Raquel de Queiroz” (4/7/76) e “Di Cavalcanti: o pintor das mulatas”. Divulguei também crônicas, algumas sem assinatura (“Praça do Ferreira”), outras assinadas (“O rádio e os outros”, “Comerciária: realidade e sonho” e “O marceneiro”). A seguir, colaborei em periódicos de outras cidades, como O Popular e Folha de Goiaz, de Goiânia; Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro; Correio Braziliense, de Brasília; e Diário do Comércio, do Recife.

É desse período minha amizade com diversos escritores novos de todo o Brasil. A maioria deles nunca sequer vi, excetuados os brasilienses (não de nascimento, pois todos vinham de outros Estados). São daquele período Glauco Mattoso, Enéas Athanázio, Francisco Miguel de Moura e poucos outros. Com o carioca tornado paulistano Glauco mantive intensa correspondência durante alguns anos, ele com suas folhas mimeografadas, como Dobrabil, repletas de poemas e contos satíricos. Admiro nele o seu panbrasileirismo. Pois se tornou íntimo do velho Gregório de Matos, sem esquecer Cego Aderaldo e os violeiros nordestinos. O catarinense Enéas é anterior ao Saco e posterior ao apocalipse. Imaginava-o um tipo corpulento, de estatura gigantesca. Mas isso não me preocupava. Sobretudo porque jamais o veria. Não precisaria quebrar o pescoço para olhar em seus olhos. E se o visse? Pois ele costuma andar pelas bandas do Norte e do Nordeste do Brasil. É um desses seres que pensam o Brasil como um conjunto harmônico de povos desarmonizados pelas elites políticas e financeiras. E eu o vi em Balneário Camboriú, num dia de chuva. Quando o vi, não acreditei estar diante dele, aquele homenzinho quase miúdo. Pois o piauiense Chico Miguel (não gosta de ser chamado de escritor piauiense, mas brasileiro) é também miudinho. De olhos azuis, branco como uma vela. E alegre como o goiano Salomão Sousa. Conhecemo-nos desde os tempos das revistas Ciranda e Cirandinha, Intercâmbio e O Saco. Entretanto, quiseram os deuses que só nos víssemos em Havana, já em 2000. Bebemos muito, contamos muitas piadas, passeamos de triciclo e carro modelo 1950, sem jamais falarmos na Revolução Cubana.

Com os brasilienses mantive boa amizade nos anos em que vivi na capital federal, como Salomão Sousa, Guido Heleno, Emanuel Medeiros Vieira, Adrino Aragão e outros. O primeiro vivia na minha casa, e eu na dele. Jornalista por profissão, devotava-se a ler o melhor da literatura e a escrever poemas. Além disso, se dedicava a rir. Ria quando nos víamos, de alegria. Ria quando conversávamos, mesmo que o assunto fossem as guerras, as misérias humanas, os males do mundo. Rir para ele era (e deve ainda ser) uma forma de dizer: apesar de tudo, estamos vivos. Indicou-me e apresentou-me escritores de quem eu nunca me aproximara, como Robert Musil, eu que só conhecia Hoffmann, os irmãos Grimm, Thomas Mann, Goethe, Hesse e outros poucos alemães. Comprava tudo de bom e emprestava, sem receios. Falava de Goiás sem parar, numa saudade sem fim de sua terra. Íamos com muita frequência a Goiânia, para encontros com escritores locais, como Valdivino Braz, Miguel Jorge, Aidenor Aires, Brasigóis Felício, Alaor Barbosa, Yêda Schmaltz, Antônio José de Moura e Dionísio Pereira Machado, quase todos vindos dos tempos dos jornais nanicos.

O mineiro Guido Heleno é outro amigo daquele tempo. Participava de tudo: discussões, encontros, seminários. Sempre a contar piadas. Outro amigo do riso. O catarinense Emanuel Medeiros eu também conhecia (seus livros) desde Fortaleza. Grandalhão e de voz potente, assustava os mais raquíticos e tímidos. Entretanto, sua exaltação não o tornava áspero. Só o vi perder o controle emocional uma vez, quando um amigo nosso o ofendeu com palavras, num bar. Adrino Aragão, amazonense, também se iniciava no palco das publicações, com a mesma euforia dos outros. Depois foi perdendo o ânimo, como acontece com todos.

Fortaleza, março de 2010.
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terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma Viagem na época dos Descobrimentos (Pedro Silva*)



Um sonho de criança

- Bartolomeu! Bartolomeu! – grita uma donzela formosa, com pouco mais de trinta anos.

Por todo o lado procurava, mas o seu filho não aparecia em sítio algum.

De repente, um franzino jovem surge. Tinha um olhar simpático. O cabelo despenteado. Mas a sua maneira de ser era delicada:

- Desculpe, mãe. Estava a brincar no riacho.

- Outra vez, Bartolomeu? Mas tu só te sentes bem junto à água?

O jovem, envergonhado, encolhe os ombros e responde:

- Por acaso… sim! – e corre a abraçar a sua mãe.

Estávamos em 1465 e Bartolomeu Dias, nascido em Mirandela, uma belíssima localidade transmontana, dava os primeiros passos na sua futura vida de navegador. Apesar de ter apenas quinze anos, já o seu pai o incentivava a seguir as pisadas de Dinis Dias, seu parente e também famoso navegador.

Mas o nosso Bartolomeu iria ser ainda mais famoso. Porém, nesta altura, ainda o não sabia.

Ao jantar, o seu pai, conhecedor por ser de poucos sorrisos e de poucas falas, dirigiu-se ao filho:

- Bartolomeu, tua mãe contou-me que passaste o dia junto ao riacho. É verdade?

- Sim, pai, é verdade. Perdoe-me. – e o jovem baixou a cabeça, em tom triste.

- Sabes que a vida não é só brincadeira, não sabes?

- Eu sei, meu pai, mas…

- E olha que a nossa vida tem sido de trabalho. Os sonhos são apenas para quando dormimos. A realidade é bem diferente quando estamos acordados. – afirmou o pai de Bartolomeu Dias.

- Desculpe, pai. Mas isto não é um sonho, eu serei mesmo navegador!

O pai não deixou de esboçar um pequeno sorriso. O empenho do seu filho era de louvar. Dentro do seu coração, o pai de Bartolomeu desejava que este conseguisse ser o mais famoso dos navegadores portugueses. Mas também sabia as dificuldades que o filho teria de enfrentar. “Porém, sonhar não custa”, pensava de si para si.



Vivendo um sonho

Pouco anos depois, Bartolomeu Dias despediu-se dos pais e rumou a Sul. O destino era a capital de Portugal, Lisboa. Era lá que todos os sonhos seriam possíveis de conquistar. Até então, passara os seus dias numa pequena povoação do interior do país. Nunca vira o mar, mas sonhara com ele todos os dias de sua vida.

Deslocou-se para Lisboa. Ali estudaria matemática e astronomia na Universidade de Lisboa. Mas, ainda antes de começar a estudar, a primeira atitude que teve ao chegar à capital foi deslocar-se à zona de Belém. A razão? Queria ver o local de onde as caravelas partiam rumo ao desconhecido.

“Que local magnífico!”, pensava Bartolomeu, olhando para tanta agitação. Eram marinheiros que se despediam das suas famílias. Eram vendedores que apregoavam os seus produtos. E, por fim, eram crianças que choravam de saudades ao ver a chegada dos seus pais ou que brincavam indiferentes a tudo o mais.

Com tudo isto sonhara o jovem Bartolomeu Dias quando, pouco tempo antes, partira de Mirandela rumo a Lisboa. Na viagem não parara de fazer perguntas a Dinis Dias, o seu parente que ganhara alguma fama ao comando de caravelas. Queria saber tudo: como se preparava uma expedição; quantos marinheiros levava a embarcação; e, mais importante, quando ele poderia participar. A tudo respondia Dinis com a sua calma de sempre. À última pergunta, respondeu-lhe: “na altura certa, chegará o teu momento de embarcar”.

Os estudos passaram a correr. Tudo aprendia a um ritmo louco tal a ânsia de largar terra firme e aventurar-se no alto mar.

Quanto os estudos terminaram, e auxiliado pelo seu familiar Dinis Dias, entrou na corte portuguesa. À sua frente estava D. João II. Assim que o viu, Bartolomeu ajoelhou-se. Era o seu rei que ali se encontrava. Portanto, mandava a educação que lhe fizesse uma vénia.

- Levantai-te. – afirmou o soberano.

- Obrigado, senhor. É uma honra poder estar aqui na tua presença. – disse Bartolomeu.

- O que quereis de mim? – perguntou D. João II, o Príncipe Perfeito.

- Senhor, eu gostaria… - a voz parecia não sair, dada a sua timidez. – Eu gostaria de poder participar na próxima viagem a África.

O rei pensou um pouco e respondeu:

- Pois bem, embarcarás daqui a dois dias, rumo a São Jorge da Mina, a nossa mais importante feitoria.

E assim foi.

Cruzando mares pela primeira vez chegou em 1484 ao local estipulado pelo rei. Ali esteve algum tempo, aperfeiçoando os seus conhecimentos marítimos e aprendendo os costumes locais.


A viagem de uma vida

Tão rapidamente ganhou experiência que, dois anos depois, o rei João II confiou-lhe uma importante missão: descobrir o Preste João das Índias. Desde há alguns anos que em Portugal se contava a história da existência de um rei muito rico que vivia na Etiópia. Esse rei, ao contrário dos reis que o rodeavam, era cristão. Portanto, poderia ajudar D. João II na conquista de novos territórios na África e na Ásia.

No entanto, este era o plano secreto.

Oficialmente, Bartolomeu Dias tinha como missão investigar as costas do continente africano. Isto para se tentar perceber se seria possível chegar à Índia por mar.

Nessa altura, em 1486, ninguém acreditava que fosse possível ultrapassar a zona conhecida por Cabo das Tormentas. Este nome havia sido ganho pelo facto de o mar ser muito perigoso e de muitos barcos ali terem desaparecido.

Mas Bartolomeu Dias não tinha medo de nada. Se o rei lhe havia solicitado essa missão, assim seria cumprida.

Na verdade, o navegador, que comandava duas caravelas, não chegou a encontrar qualquer notícia do mítico rei das Índias, o famoso Preste João. Porém, trazia relatos muito entusiasmantes para D. João II.

Chegado à corte, Bartolomeu correu para junto do seu rei e declarou:

- Senhor, é possível dobrar o Cabo das Tormentas. Eu sei!

- Mas como tal será possível, Bartolomeu? – perguntou o monarca.

- Acreditai em mim.

Perante tamanha demonstração de optimismo, o rei decidiu, uma vez mais, confiar no seu navegador. Apesar de todos os projectos concretizados pelos portugueses, a cada momento sentia-se a necessidade de ir um pouco mais além. E, neste momento, dobrar o Cabo das Tormentas era o maior desafio da nação. O rei sabia-o, tal como Bartolomeu Dias.

O dia da partida foi igual a tantos outros naquela zona de Belém do século XV. Muita tristeza misturada com enorme dose de esperança.

Se, por um lado, já se chorava de saudades do que estava para vir, por outro, havia sorrisos de expectativa em regressarem como heróis. Apenas Bartolomeu Dias se mantinha sereno. As histórias do passado não o atemorizavam. Os muitos barcos e vidas perdidos algures no Cabo das Tormentas, onde um gigante Adamastor afundaria as naus, não intimidavam o nosso Bartolomeu Dias. Ele tinha, do seu lado, a força da experiência e o poder fornecido pela crença nas suas capacidades. Estudara a geografia marítima do local durante alguns anos. Preparara-se enquanto comandante e enquanto marinheiro. Faltava, apenas, concretizar o seu sonho: tornar-se famoso honrando a bandeira de Portugal.

O mês de Agosto de 1487 marcou a partida de Lisboa. O dia estava solarengo. As almas dos marinheiros estavam iluminadas, quiçá do sol ou da esperança de um fruto radioso. Em Dezembro, alguns meses após a partida, chegavam à Namíbia. Era o ponto mais a sul que havia sido registado pelos portugueses. A partir daí, apenas o desconhecido imperava.

É então que o tempo deixa de ajudar. Uma violenta tempestade abate-se sobre a expedição marítima. Bartolomeu Dias manteve-se calmo, apesar do temor da sua tripulação. Voltava a pairar o medo de um acidente fatal. Durante treze dias andaram à deriva, procurando a costa, mas não a encontrando. Na verdade, ainda que não o soubessem, andavam bem perto. Passado algum tempo, aproveitando o vento favorável, navegou para nordeste. Sem saber, tinha concretizado um feito histórico, dobrar o Cabo das Tormentas. Porém, apenas viria a aperceber-se do que fizera na viagem de regresso. Ao regresso fora obrigado pela tripulação que, supersticiosa, temia pelo súbito aparecimento do mítico Adamastor. Mas nada disso aconteceu e quando perceberam que haviam cruzado o ponto mais complicado de África, todos se sentiram muito felizes. Lançaram os braços ao Céu, em jeito de agradecimento e alívio da tensão acumulada.

Ao regressarem a Lisboa foram acolhidos como heróis. O rei veio recebê-los pessoalmente e dar-lhes outra boa novidade: a partir daí, em homenagem aos bravos marinheiros, o Cabo chamar-se-ia da Boa Esperança, pois permitiria chegar à Índia por mar.

- Obrigado Bartolomeu. – disse o rei, olhando para o navegador entretanto regressado do alto mar.

- Senhor, apenas cumpri o meu dever.

Tanta humildade encerrava no seu coração.

E tanta vontade de servir o seu país. Assim como de estar junto à água, tal como quando era criança.

Pouco depois, partiu na expedição de Vasco da Gama, que viria a tornar real o Caminho Marítimo para a Índia.

E, em 1500, fez igualmente parte da missão de descoberta do Brasil, liderada por Pedro Álvares Cabral.

Tudo o que se seguiu ao feito principal, ou seja, o agora chamado Cabo da Boa Esperança, foi, para Bartolomeu Dias, apenas um justo acréscimo ao seu currículo de navegador.

Bartolomeu Dias foi a Boa Esperança que necessitávamos para tornar Portugal um importante país de comércio e de navegação marítima. Sem ele, provavelmente, não haveria, hoje em dia, tanto interesse na História dos Descobrimentos Portugueses…

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* Com mais de quarenta livros publicados, em países tão díspares quanto Portugal, Brasil, Espanha ou Chile, o autor português Pedro Silva (1977) tem, igualmente, produzido títulos em diversas áreas temáticas, tais como o ensaio histórico, a ficção, o roteiro turístico ou mesmo os contos. Para além disso, o escrito, tem-se dedicado igualmente a colaborar com diversos jornais portugueses, assim como revistas de História em Portugal e Brasil, tais como “História Viva”, “Desvendando a História” ou “Aventuras na História”.

Contacto: ps77@aeiou.pt
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ao poeta (Pedro Du Bois)

















Talvez ao poeta baste o ritmo das palavras

em desafios murmurantes e os gritos explosivos;

o desafio do andor carregado e a luz introduzida

sob o manto; ser o ocorrido e a versão descontrolada

do início: indícios não bastam ao poeta

que continua e termina e recomeça.


Talvez ao poeta baste a incompreensão

dos ares satisfeitos dos bonecos alçados

à condição de estetas; profetas

em voz alta ensaiam temas preferidos

aos tontos espíritos desnecessários.


Talvez baste ao poeta a sensação de antes

de a matéria ser solidificada e flutue em asas

descobertas aos ventos de solidário espaço.


Talvez ao poeta baste o atentar sereno

das noites antagônicas e os dizeres gravados

nos panfletos que são entregues anônimos.


Talvez baste ao poeta o fruir da fruta ao gosto

menos azedo das notícias participando mortes

antes do tempo (todo o tempo é antes) previsto

na antecipação frígida das esperas.


Talvez ao poeta baste levantar a mão e pedir

ao garçom a bebida de sempre, a comida

deixada sobre o prato, o distrato entre amigos

após a ceia: cada um em seus afazeres.


Talvez ao poeta baste saber-se nu diante da hora

acertada para a volta; ser da revolta o ânimo

e da crueldade explicitada em nomes o anônimo

revoar das aves; sobre as aves ao poeta cabe

recriminar a mão que oferece o pouco.


Talvez baste ao poeta ser poeta. Adivinhar no texto

a descoloração do átimo, o pátio de desertadas árvores

infrutíferas; o desfolhar do outono, o renascer

primaveril das flores em pétalas abertas.


Talvez ao poeta baste discorrer em mãos agitadas

ao vazio sobre a perdição, a contrição, a educação

adulterada em números e cientificamente expor

ao todo o menos; ao menos cabe o protesto.


Talvez ao poeta baste a consecução do plano

invertido em sonhos de descidas aos infernos

particularizados no extrato do infortúnio;

ser seu próprio oposto de reescritas notas

no esforço desconcentrado ao nada.


Talvez baste ao poeta o anúncio do amor distanciado

em dias, meses, anos e décadas: o reencontro

no aperto sentido – o grafite quebrando a ponta –

como lâmpada queimada: a tortura acompanhada

à porta pelo degredo do segredo sendo revelado.


Talvez ao poeta baste o reconhecimento da presença

e a indiferença rente ao caminho não percorrido;

o banco da praça ocupado pelo corpo despreparado

em ocorrências e a decorrente história mal contada.


Talvez ao poeta baste olhar o perto e retirar o longe

desconhecido em físicos acidentes: a geografia

estanque do planeta; o lento deslocar das placas.


Talvez baste ao poeta a necessidade da urgência

intercalada ao langor do isolamento. Saber ficar

estático e revolver as cinzas em busca do acidente.


Talvez ao poeta baste alisar o pelo do animal

sobre o colo deslocado, descobrir ensinamentos

simiescos ensimesmados aos ensinamentos.


Talvez ao poeta baste possuir a chave enferrujada

da porta secundária por onde entram minotauros

instalados nas peças lendárias dos amantes.


Talvez ao poeta baste realizar o sonho da criança

perdida em crescimento: recuar ao tempo anímico

das paredes sendo preenchidas em riscos

produzindo imagens do dia acondicionado.


Talvez baste ao poeta se desvencilhar da hora

categórica dos negócios, perder o prumo, o rumo,

desviar das pedras rolantes dos embustes; salvar

a pele do desconsolo e o tédio dos amantes.


Talvez ao poeta baste se dizer distante o tanto

permitido, perto o quanto possuir de forças

para se entranhar nas notícias repetidas.


Talvez ao poeta não baste o descobrimento

de novas terras, exija reconhecer a profundeza

espacial dos mares e o executar da sinfonia

dos cometas: em suas caudas, sabe o poeta,

trafegam poeiras estelares.


http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1254
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Pangaré dos tempos (Viegas Fernandes da Costa)



Não me perguntem por que fui cursar História. Não saberei responder. Bem como não saberei dizer por que, certo dia, pus na cabeça idéia fixa de escrever, publicar livro. Já lecionar, lembro-me, veio naquele sonho sonhado no sótão em que morava meu quarto, na casa dos meus avós, agora dilapidada pela cobiça familiar. Sonhei-me lecionando, coisa inconcebível na minha puberdade, aluno medíocre que era, e por isso não prestei muita atenção. Mas aconteceu sem programação: certo dia uma feira de profissões, a oferta do curso de magistério e um adolescente convencendo a família de que seria professor. Estamos aí. Quanto à História, não sei; literatura então, muito menos. Simplesmente aconteceu, como acontecem as coisas realmente importantes: uma lufada de vento, o pólen no infinito e a pedra no rio, petardo certeiro moldando um destino. Tchibum! E assim foi! Não cometerei o erro do dom.
O erro do dom... Sim, recordo-me de um artigo de Pierre Bourdieu onde este questionava o mito da predestinação. Aquela história de que “desde criança fulano já demonstrava suas inclinações para ser isto ou aquilo”. Nem isto, muito menos aquilo: em criança desejava apenas brincar e olhar o que se escondia sob as saias das vizinhas – tão bonitas! Nada mais. Mas conta a Dona Anneli - minha mãe - que eu era uma criança chorona e que, para aplacar lágrimas e berros, entregava-me exemplares da sua revista Pais & Filhos. Não os rasgava, como precipitadamente o amigo leitor, a amiga leitora, já deve estar supondo. Os dedinhos gordinhos da criança de então pegavam exemplar por exemplar e folheavam as páginas de trás para frente, com cuidado, os olhos se demorando nas ilustrações e nas fotos de outros bebês. Dona Anneli pendurando roupa no varal, olhar de soslaio, meu sorriso e meus olhos espantados, os dedinhos gordinhos tocando o papel. É certo, assim começou o desejo pelo impresso, este poder erótico que livros e revistas sempre exerceram sobre mim, tanto que os namoro na estante, nas pilhas sobre a mesa, nas vitrines das livrarias. Mas daí a dizer que estive destinado, desde zigoto, a plantar palavras, vai uma grande distância; que o digam meus professores de português, verdadeiros heróis.
Hoje, escrevo porque a vida dói, parafraseando o artista plástico Iberê Camargo, e é tudo! Quanto ao resto, construí-me leitor, palavra a palavra, livro a livro, como a máxima da galinha que enche seu papo comendo de grão a grão o milho. A vida dói, pois é! Talvez também isto tenha me empurrado à historiografia, da literatura a outra face da moeda, pois como escrevia, em crônica de 1877, Machado de Assis, “um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”, e explica: “o historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar”. Entender a cartografia da dor, talvez, e dialogar com o mundo, quem sabe? Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...
Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo - meu avô - semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!
Afinal, eis onde me encontro, sobre o pangaré dos tempos que trota além das suas patas, os cascos soltos e perdidos em alguma curva lá atrás. Lecionar, historiar ou escrevinhar, todas faces deste mesmo Quixote montado nas utopias brotadas das sementes que o vento nos trouxe.
Pangaré sem viseiras, sem cascos, por isso aprender a pisar diferente. Não me arrependo.
Blumenau, 25 de junho de 2005
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* Viegas Fernandes da Costa, autor de "Sob a luz do farol" (2005), "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008) e "Pequeno Álbum" (2009). Mantém o blog Saiba mais. >http://viegasdacosta.blogspot.com . Permitida a reprodução, desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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terça-feira, 23 de março de 2010

A velha guarda da literatura cearense (Nilto Maciel)


 
Herman Lima

Desde muito jovem, meti na cabeça duas ideias ousadas: escrever bem e publicar livros. Não consegui realizar a primeira, por mais que tenha tentado. Mas não me aventurei como outros: não li todo o essencial, não estudei gramática e línguas, fui preguiçoso e relapso nesses erros. A segunda ideia se concretizou aos poucos, embora tardiamente. O primeiro livrinho eu o editei aos 29 anos de idade. O segundo o Estado o publicou sete anos depois. Aos 37 anos tive o privilégio de assinar contrato com a editora sulista Mercado Aberto para a edição da novela A guerra da donzela, com distribuição nacional. Só então meu nome chegou a alguns jornais e ao conhecimento de críticos e escritores do Ceará (onde nasci), de Brasília (onde morava) e outros rincões.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Soneto (Ailton Maciel)




A Altamir Xavier



Palerma, sem escrúpulos, pedante,

trêfego, com trejeitos pueris;

metido a gente sábia e importante,

com acervo demais em seus quadris!



Doente de acoria, intolerante,

ao olhar-se no espelho tão feliz

parece até uma miss debutante

com traços de fútil meretriz.



Fala demais. Rebola sem cessar,

canta fino, e aos domingos vai orar

na capela. É doente de acrania



e de acédia. Há dez anos que estuda

mas da série primeira nunca muda.

É cheio de desgosto e hipocrisia!

Fortaleza, 9/2/65

(AILTON MACIEL deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: "Santa Caçada", "O Touro", "O Careca" e "O Presente da Professora", publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances).
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Revolto (Inocêncio de Melo Filho)


Os homens amam e comem o pão
Que Deus ou o Diabo amassou.
Os homens vivem e morrem
Em cima da terra
Debaixo do céu
Os homens contemplam o infinito
Erguem as mãos
O tempo ágil e impaciente curva-os
Fazendo-os dormir no ventre da terra
O céu límpido e passivo
Fica a olhar sombras e jazigos.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Boa sorte, Maciel (Daniel Lopes*)




Às vezes a gente se apega, mesmo sem querer, e acaba gostando de alguém. Que pelo menos seja de uma criança então. Eu estava de saco cheio daquela história de dar aulinhas. Fora de brincadeira, os alunos eram uns capetas e os pais eram piores ainda, ganhava-se mal e, além disso, naquele ano, eu tinha ido parar numa escola do outro lado da cidade, tive até de comprar uma lambreta pra chegar a tempo de uma escola à outra. Sem contar que a toda hora aparecia algum jornalistinha, médico, padre, pedreiro, doutor, encanador e o escambal dando pitacos e oferecendo soluções sensacionais para o problema da educação. Falar é fácil, sempre foi. E a gente é que tinha de trabalhar em três escolas, correr de uma pra outra, fazer dezesseis horas por dia pra pagar as contas, vai vendo. E tinha aqueles coitados que não aprendiam nem se a gente desse cambalhota, ou fizesse malabarismo no meio da sala de aula. E tinha aqueles coitados que chegavam fedendo, doidos pra comer a merenda e esperar o lanche. Como é que alguém pode se interessar por Emílias e Narizinhos quando se chegava com o estômago pregado às costas e as orelhas cheias de bolachas familiares advindas da pinga paterna da noite anterior? E pro meu lado ainda tinha aquela diretora que parecia uma coruja de tanta plástica e de tanta chatice. É preciso dar nome aos bois, digo, à vaca: chamava-se Sandra Siqueira Nunes, ainda deve estar por aí, fodendo a vida dos outros. Não era mesmo fácil, mas eu tinha uma família pra sustentar e não podia entregar a rapadura. “Você reclama de barriga cheia” me diziam. Falar é fácil. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Como diria o Machado, suporta-se com paciência a cólica alheia. Isto mesmo. Mas eu tinha de agüentar até o fim do ano. Isto mesmo, só até o fim do ano... e arrastava outra vez minha carcaça cansada pro outro lado da cidade, onde quarenta e cinco alunos de onze anos, mais ou menos, me esperavam em cada sala de aula.
Foi numa tarde em que o calor estava torrando nossos miolos que ele chegou até minha mesa. Todo malandro, negro, cheio de desenhos no corte de cabelo, franzino, com um par de tênis que devia caber uns dois pés dele dentro, querendo puxar assunto pra não fazer a lição, eu andava bem ligeiro com todas essas malandragens:
- O senhor tem uma moto, né professor?
- Uma lambreta.
- É meio feia a moto do senhor, mas dá pro gasto. Sou doido por moto. Meu tio tem uma Hornet, por que o senhor não compra uma Hornet?
- Não tenho dinheiro. O que é que seu tio faz.
- Meu tio é ladrão. Meus tio é tudo ladrão. Tem dois que tá preso e um que morreu. Os outros dois só rouba. Teve um tio meu que deu um tiro na boca de um cara e os dentes saíram pela nuca. Meus tio é tudo doido. O outro só rouba caminhão e faz seqüestro relâmpago. O senhor é casado?
- Sou, por quê?
- Se não fosse, eu ia dar o telefone da minha tia pro senhor. Ela é a maior gostosa, queria que o senhor visse. Mas ela namora com um velho que deve ter mais de cem anos. Ela tem uma filha de dois anos também. A menininha é o maior barato, sabia que a primeira coisa que ela falou foi o meu nome? Vive atrás de mim, ela é o maior barato, professor, é esperta demais. Agora ela já fala tudo. Já sabe até conta. Quer dizer, sabe mais ou menos. Ela conta assim: um, dois, três, cinco, oito, dez, dezoito. Minha tia é meio chata. Às vezes ela me bate, mas quando ela tá legal também ela compra um monte de filme de terror e a gente passa a noite toda assistindo. O Senhor já assistiu O exorcista?
- Já.
- É muito louco, né. Esse é o melhor professor. E diz que morreu todo mundo que fez o filme. Sinistro, né?
- Pois é. Mas e seu pai, Maciel? Sua mãe?
- Meu pai morreu no ano passado, professor. Ele trabalhava pra prefeitura. Cortando as árvore. Aí uns dois anos atrás uma árvore caiu em cima dele. Ele ficou ruim um bocado de tempo. Ai melhorou um pouco e aí no ano passado ele morreu. Minha vó recebe a pensão dele, mas não me dá nada. Quer dizer, ela me dá roupa e comida, né professor e cuida de mim.
- E sua mãe, Maciel?
- Minha mãe bebe. – Ele falou e pela primeira vez pareceu se entristecer. Minha mãe bebe. Não precisava me dizer mais nada, eu podia deduzir o resto. Bateu o sinal.
- E a lição, Maciel?
- Foi mal professor, não fiz não, mas é que essa lição é muito chata. - Eu sabia que a lição era chata mesmo. A escola era um pé no saco pra todo mundo.
***
Durante o intervalo, na sala dos professores, perguntei aos outros sobre o Maciel.
- É um vagabundo. – Disse um.
- Não faz nada. – Disse outra.
- Parece que a família é toda desestruturada. – Disse outra e continuou. – Deu um trabalho danado no ano passado, quando o pai morreu. Arrumava briga todo dia. Arranjava confusão até com os meninos da oitava série. E pior que muitas vezes ele, daquele tamanho, conseguia bater nos meninos grandes.
- Vem alguém na reunião de pais?
- Nunca veio ninguém. – Disse o professor que chamara o Maciel de vagabundo.
***
Quando voltei de novo na sala do Maciel, ele mal esperou que eu terminasse de fazer a chamada. Pegou suas coisas, sua cadeira e foi se sentar junto de mim, na minha mesa.
- Ei, professor, hoje eu vou fazer toda a lição. – Disse – Pode encher a lousa que eu vou fazer tudo.
Só que era aula de leitura. Estávamos lendo O pequeno príncipe, quero dizer, estávamos tentando ler O pequeno príncipe. A maioria só abria o livro e começava a conversar, obrigando-me a aumentar o tom de voz, que é um jeito de gritar elegantemente. Mas o Maciel quis ler neste dia e quis ler em voz alta. E leu... e bem. Daí em diante o moleque mudou na minha aula. Não que ficasse quieto, porque isso ele não conseguia mesmo. Mas fazia todas as atividades e terminava primeiro que todo mundo. Só depois é que começava a bagunçar.
- O Maciel só faz a lição do senhor, professor. – Diziam os outros alunos. E ele fazia mesmo. Rápido e bem feito... a letra não era das melhores, mas dava pra perceber que ele se esforçava. Às vezes eu ficava até envergonhado, não imaginava porque todo aquele apego a mim. Eu, que andava sempre tão estressado. Eu, que tinha tão pouco tempo e pouca paciência sempre. Mas a verdade é que eu também me apegava ao menino... e conversava com ele... e gostava de conversar... só precisava dar um freio quando ele começava a querer falar de sexo. Já sabia um bocado de coisas, o danado, e queria me mostrar que sabia, mas eu precisava cortar, afinal de contas aquilo era uma quinta série.
Dois meses antes de seu aniversário, ele já estava me perguntando, o que eu daria de presente a ele. Perguntei o que ele queria ganhar.
- Pode me dar uma moto professor. – Disse e sorriu. – brincadeira, professor, dá o que o senhor quiser. – Emendou e sorriu de novo.
- Beleza.
- Dá um dinheirinho mesmo, professor.
- Tá, quando chegar seu aniversário eu te dou um dinheirinho.
- Aê. – Ele disse e ficou em silêncio uns instantes, pensando, antes de perguntar: - Professor, como é que faz dinheiro?
- Como assim?
- É, como é que faz dinheiro?
- É na casa da moeda. Existem umas máquinas.
- Meus tio são meio burro né professor. Era só roubar uma máquina dessas e aí ficava fazendo dinheiro em casa, não precisava roubar mais nada.
- Maciel!
- Mas não é professor! Bastava uma máquina, de fazer logo nota de cinqüenta. Uma vez meu pai me deu uma nota de cinqüenta.
- Deixa de bobagem, Maciel.
Dei-lhe algum dinheiro, quando chegou seu aniversário. Adverti que não dissesse a ninguém, pois poderia me complicar.
- Tá achando que eu sou alcagüete, professor?
- Não, Maciel, não.
***
O tempo, sempre senhor de tudo, transcorreu. O fim do ano se aproximava e numa tarde de novembro o menino chegou com ar preocupado na minha mesa.
- Que foi, Maciel?
- Nada não, professor.
- Como nada, e por que é que você tá todo jururu?
Silêncio.
- Fala, Maciel.
- Sabe o que é, professor? O ano ta acabando , né? E o senhor mora longe, né? Queria saber se no ano que vem o senhor vai dar aula aqui?
Respirei fundo. Êta pergunta danada de difícil de responder. Ainda bem que não caiam perguntas desse tipo nos concursos. Tinha de dizer a verdade.
- Já pedi a remoção, Maciel, ano que vem vou trabalhar noutra escola mais perto da minha casa.
- Hã... tá bom. – Ele disse e eu pude ver o brilho das lágrimas umedecendo seus olhos, contudo não chorou. Estava calejado, o Maciel. Era só um menino, mas já tinha aprendido a agir como o mais duro dos homens. Eu, por meu lado, me sentia um traidor, um tremendo mau caráter. “É a vida”. Eu dizia de mim para comigo em cima da minha lambreta enquanto pilotava até a outra escola. Como se pudesse me enganar... Como se pudesse disfarçar aquela coisa ruim que me oprimia o peito.
***
- Depois de amanhã é o penúltimo dia de aula, professor. A gente vai fazer uma apresentação lá no CEU. Eu vou ser o Michel Jackson, professor. – Ele diz e aí começa a imitar os passos do artista recém-falecido, talvez até melhor que o próprio Michel. – O senhor vai lá ver, né, professor?
- Que hora vai ser a apresentação?
- Uma hora da tarde.
- Puxa vida, Maciel. Eu saio da outra escola, lá do outro lado da cidade, meio dia e meia.
- Tudo bem professor. – Ele diz baixando o olhar como se tivesse levado um tapa na cara.
- Vou ver se consigo sair mais cedo, Maciel, não prometo nada. Mas vou ver se dou um jeito de chegar a tempo.
- Faz um esforço, professor. Queria que o senhor me visse lá amanhã.
- Vou ver. – Eu digo e dentro de mim mesmo me prometo que vou fazer o que for preciso pra ver o menino dançar.
***
Não consegui chegar no início da apresentação, mas o Maciel percebeu quando cheguei e sorriu. Embora ele sorrisse o tempo inteiro, achei que sorrisse por causa da minha chegada.
Ao final, ele e as outras crianças agradeceram à platéia se curvando como se fossem artistas famosos. O público, formado principalmente por alunos da escola onde eu trabalhava e do CEU, estava delirando com a apresentação. Batiam palmas, assobiavam, gritavam.
Voltamos a pé pra escola. Era perto. No caminho o Maciel estava empolgado. Era o centro das atenções. Tinha arrebentado. As meninas do CEU ficaram babando. E quando ele tinha feito o Moon Walker, então? Moon o que, professor? Aquele passo que você desliza pra traz. Aquele passo é o maior boi professor, difícil foram os outros que eu mesmo fui inventando na hora. Deu tudo certo, né professor?
- É, Maciel, deu tudo certo.
No final da aula, era praticamente a última, ele me pediu que o levasse para casa de moto. Seria da hora. Disse que não podia. Não tinha um capacete pra ele e seria perigoso. Entristeceu de novo. Dei um abraço nele e uns tapas no ombro. Eu estava sem jeito.
- Então tchau, professor.
Abracei de novo. Os outros alunos tiraram sarro. Briguei com eles.
- Se cuida, carinha. Você é gente boa demais. É o moleque mais firmeza do Parque Bristol, Clímax, da zona Sul – Falei
- Beleza, professor. – Disse e foi deslizando pra trás, fazendo o Moon Walker do Michel Jackson.
Na hora de vir embora chovia. No caminho, acabei caindo da moto. Eu tinha escolhido ser professor, porque já tinha sido menino. Diabo, eu não era bom com o tal do Adeus. Era um péssimo professor. E eu sentia uma coisa ruim por dentro. E pensava nos meus filhos. E tinha vontade de chorar. E me preocupava com o que o futuro e o mundo guardavam pro Maciel. Mas tinha de terminar de fechar as médias da outra escola. Que merda de mundo burocrático.
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Não sei porque hoje eu estava triste. A velha depressão contra a qual eu tenho lutado desde menino. Coloquei umas músicas... e... me lembrei do Maciel. O que ele estaria fazendo neste feriado de carnaval? Seria que tinha caído já no crime? Pensei em orar pra Deus por ele. Brigo muito com Deus, sou meio mal humorado às vezes, mas, sempre que me vejo em enrascadas, apelo pra ele. Desisti de orar. Sempre quis ser artista, então, em vez de orar, escrevi esta história. A arte é a oração do artista. Boa sorte, Maciel.

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* Daniel de Souza Lopes é professor da rede pública estadual e municipal de São Paulo. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Germina e Amálgama. Edita o blog: www.pianistaboxeador21.blogspot.com . Lançou em 2008 o livro É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Soares Feitosa: Oraculum, oraculi (Nilto Maciel)



(Da esquerda para a direita, sentados: Nilto, Jorge Tufic e Soares Feitosa, nos jardins da reitoria da Universidade Federal do Ceará)



Recebi (em 96 ou 97) um embrulho volumoso e pesado, de remetente desconhecido. Seria mais um escritor novato em busca de leitor e crítico? Naquela noite, eu pretendia dar mais uns retoques num conto iniciado havia mais de uma semana. Jantaria, conversaria com a família, comentaria os fatos do dia. No entanto, o pacote sobre a escrivaninha me chamava a rasgar seu invólucro. Jantei, pouco conversei e nem prestei atenção às notícias da televisão. Quem seria aquele Soares Feitosa? Violei o papel, sem fúria. E aos meus olhos se mostrou um objeto colorido, de capa dura e muitas páginas, chamado Réquiem em Sol da Tarde. Todo feito em computador, em casa, artesanalmente. Pus-me a ler e me fui fascinando. Sentei-me, para não desmaiar. Permaneci lúcido, acordado, por muitas horas. O resto da noite passei a ler aquela poesia, ao mesmo tempo, seca e úmida, mineral e vegetal, leve e pesada. E fui me entorpecendo, até pegar no sono sobre o dorso do livrão. Pela madrugada, minha companheira me acudiu. Eu adormecera, entorpecido de prazer, como se tivesse me enchido de ópio. Dias depois, mandei carta ao poeta. Ora, eu não sabia de sua existência. Eu e quase ninguém. Porque inédito, escondido, a poetar sem alardes, recluso em casa.

Conheci Soares Feitosa em Brasília, alguns anos depois daquela noite de papoulas imaginárias. Conversa rápida, porque anda sempre com pressa, em razão das lides forenses, viaja para cá e para lá e não dispõe de tempo para parlendas inúteis em bares e outros lugares onde poetas barrigudos ou esguios, e sem tino, costumam destilar (ou dedilhar) suas folhas (ou falhas) literárias. Deu-se numa tarde melancólica, num sábado qualquer. Fui ao encontro dele, endereço anunciado por telefone. Apresentamo-nos, sem necessidade, porque já nos conhecíamos literariamente. E isto basta. Falou e falou, durante quase todo o tempo da reunião. Não falou de si ou de sua poesia. Falou tão-somente do Jornal de Poesia, com um entusiasmo de adolescente. Editor de revistas havia mais de vinte anos, fiz-lhe perguntas de entrevistador: Como você seleciona os poemas e contos? E ele, como se se irritasse (parece estar sempre irritado, de mau-humor), não titubeou: Não faço seleção nenhuma; que o façam os leitores e os críticos. Insisti: Certamente nem tudo é publicado. De certa forma, há uma seleção. Ele se irritou mais, depois sorriu. Ou gargalhou: Sim, há os cupinchas. Se for meu cupincha...

De volta a Fortaleza, em 2002, procurei-o. Eu tencionava, havia muito, criar um jornal do conto na Internet. Marcamos dia, hora e local do encontro. Convidei dois ou três amigos para a visita. Abraçou-nos, ofereceu água e café. Vínhamos esbaforidos, suados, cansados. Não, café não combinava com o nosso sarau. Pelo telefone interno, chamou uma serviçal: Traga rapadura. Um minuto depois, uma cesta com pedaços de rapadura nos foi apresentada. Comam. Essa é a comida do sertanejo. Vocês precisam mesmo é de rapadura da serra. Enquanto comíamos, ele voltou a falar de literatura. E do Jornal de Poesia.

Soares Feitosa não tem papas na língua. Fala tudo, sem rodeios (ou arrodeios), sem vergonha, feito criança. Embora meninão, não faz perguntas, mas afirmações. Mesmo as que mais chocam ou melindram o interlocutor? Você nunca leu a Bíblia; não sabe onde fica o sertão; está perdendo tempo com esse tipo de literatura. Além disso, conhece todo mundo: dos poetas gregos aos cantadores de feira, dos romancistas russos ao mais esquecido escritor dos cafundós. Fala, com desenvoltura, de uns e outros. O cego fulano, o louco sicrano, a mocinha de Cabedelo, o mocinho de Maria Farinha. Nunca os viu e não tem interesse de vê-los. Tem memória como poucos: O poeta beltrano, autor de A mocinha de Cabedelo... Parece ter lido há poucos minutos a obra completa do interlocutor: Nilto, quando o cabra que virou bode saltou, nu, a janela da casa do “coroné”, já sabia que um bode expiatório se preparava, no meio do mato, para salvá-lo da morte.

Soares não faz elogios à-toa, assim como não perde tempo em espicaçar poetas, contistas e romancistas. Se gosta da obra, faz hermenêutica. Destrinça tudo, escarafuncha as vísceras do pergaminho. Não diz trivialidades ou frases pomposas, dessas que se ouvem e leem nas academias, nos jornais, nas esquinas, nos bares (fulano é gênio; a poesia de beltrano é digna de Camões). Talvez nem as ouça: entram por um ouvido e saem pelo outro. Parece ter lido tudo. Ou o essencial de tudo: gregos e troianos, poetas e cronistas bíblicos, latinos e trovadores medievais, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Fernando Pessoas (assim mesmo, no plural), cordelistas, cegos aderaldos. Além disso, aprendeu, como poucos, gramática e etimologia. Seria um sábio, um mestre. Ri disso. Tem imaginação de profeta. Sorri. Ora, se não tem vocação para sábio, mestre e profeta, só pode ser poeta. Entretanto, diz ter escrito o primeiro poema após completar 50 anos de idade. É possível.

Os mais moços (eu e ele somos sexagenários) chamam-no rabugento, porque o procuram para ouvir elogios e ver seus versos no Jornal de Poesia. Ele, porém, fala de poemas centenários. E eles não o ouvem. Certa noite, ao redor de uma mesa, num bar do centro cultural Dragão do Mar, ele falava do Gênesis. E contava a história do amor de Jacó por Raquel, e citava versículos da Vulgata: “Habebat vero filias duas: nomen maioris Lia, minor appellabatur Rahel; sed Lia lippis erat oculis, Rahel decora facie et venusto aspectu. Quam diligens Iacob ait: Serviam tibi pro Rachel filia tua minore septem annis”. (Na tradução de João Ferreira de Almeida: “Ora, Labão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça. Lia tinha os olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de semblante. Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel”). Um engraçadinho, metido a sabichão, pôs-se a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia / Labão, pai de Raquel, serrana bela” (...). Irritado, por ser interrompido, Feitosa se calou e fez menção de se retirar. Pedi-lhe calma, permanecesse, continuasse a história. Entretanto, à sua frente, um poeta e uma poetisa se lambiam. Talvez impulsionados pelo conto genesíaco. Feitosa se irritou mais ainda, não sei se por não o ouvirem, não sei se por quererem representar em público. E sapecou: Isso é uma esculhambação.

Estou devendo mais uma visita a Feitosa. A degustação da rapadura da serra. A disposição para ouvir sua fala de homem com raiva do analfabetismo, da ignorância, da cegueira, da surdez de muitos catedráticos, eruditos, mestres. Estou lhe devendo uma visita para compreender um pouco mais de mim mesmo. Porque Soares Feitosa é também leitor de mentes. Ou de entrelinhas. De entrementes? Melhor dizê-lo oráculo.

Fortaleza, fevereiro de 2010.
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