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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sobre danças e morte (Belvedere Bruno)


Hoje, veio-me à mente a imagem de Candinha. Todas essas comemorações em torno do Dia das Mães trouxeram à tona a simplicidade e sabedoria com que ela vivenciou seus dias. Aliás, dias esses em torno dos oitenta anos, quando a conheci no frescor de minha juventude. Gostava de falar a respeito de tudo, inclusive morte, para ela assunto sem mistérios. Causava-me admiração sempre que dizia: "Quando eu morrer, não me visitem no cemitério, pois lá jamais estarei. Sempre que quiserem estar comigo, coloquem um jarro com flores sobre a mesa e dancem, cantem, assim como faço para meu filho há dezoito anos!". Era pura magia vê-la dançar, tamanha sua entrega e emoção. Na ingenuidade de nossa a adolescência, não entendíamos que naquele momento ocorria uma catarse. A dor da perda, a saudade eram daquela forma exteriorizadas.

Decidi, então, homenageá-la. Pensaram, um tanto preocupados, que eu pudesse estar com algum problema emocional. Talvez ande um tanto nostálgica, confesso, mas coloquei um ramo de flores do campo num jarro, bem no centro da mesa da sala e fiz mais ou menos como ela fazia: cantei, mesmo sabendo-me uma desafinada por natureza. Misturei canções de Chico, Gonzaguinha, Jobim... Por aqui, nenhuma lembrança acerca dessa pessoa, cuja personalidade era admirável por ser tão fora dos padrões estabelecidos naquela época. Após muito refletir, sinto que as lembranças nunca chegam por acaso. Através delas, me descubro, de certa forma, parecida com Candinha. Portanto, quando daqui me for, não me busquem em cemitério...

Por instantes, transporto-me a um passado longínquo, mas consigo sentir, ainda, o aroma das flores ao mesmo tempo em que ouço Candinha: "Que meu exemplo seja de alguma forma perpetuado. Se apenas um de vocês fizer o que venho mostrando há tempos, meus ensinamentos não terão sido em vão. Tenham certeza de que não vale viver trancafiado em dores, pois lá fora a vida sempre vibra. Incessantemente. Um dia vocês entenderão tudo isso."

E pareceu-me ver o seu sorriso envolvendo toda aquela minha confusa, mas bem intencionada celebração.

http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/

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sábado, 29 de maio de 2010

É preciso ser contido, às vezes (Nilto Maciel)


(O cronista e a falta de tempo para ler tudo)

Mesmo depois da extinção da revista Literatura, os escritores não deixaram de me mandar livros. Não os leio todos, por falta de tempo. Que me desculpem os amigos e os colegas.

Os mais recentes vieram de São Paulo (Daniel Lopes), Itapema, SC (Pedro Du Bois), Crato, CE (Emerson Monteiro), Brasília (Alaor Barbosa e Lustosa da Costa), Goiânia (Valdivino Braz), Mangaratiba, RJ (Emil de Castro), e Madri, Espanha (Manuel Garcia Centeno).

Conheço Alaor, Valdivino, Lustosa e Emil, de longas datas. Convivi com o primeiro por muitos anos, em Brasília. O segundo é de frequentar minha casa e de me receber na sua. O terceiro é meu conterrâneo e habita também a capital federal, sem deixar de visitar a cearense de vez em quando. O quarto nunca vi, mas com ele me correspondo há cerca de 30 anos.

Comecemos, pelo final da relação. Ou pelo mais longe de mim. Manuel Garcia “vive entre Madrid e Zalamea”. Nesta nasceu, em 1947. O livro que me mandou se intitula ¡Chachó! Contos curtos ou relatos (como está abaixo do título). Apenas 60 páginas. Impresso na Itália: Capri Leone, Messina, 2010. O primeiro parágrafo do primeiro relato é este: “Observé unos ojos ansiosos y sorprendidos que me miraban con fijeza tras la puerta entreabierta”. Infelizmente, não terei tempo de ler mais. Outros livros me esperam. Meus olhos estão ansiosos.

Daniel Lopes achou meus blogs e me mandou uns contos. Gostei do seu modo despojado de narrar, o desapego à norma culta. Agora me mandou exemplar de seu É preciso ter um caos dentro de si para criar estrela que dança. Reunião de contos. Edição do autor, 2008. Ou do site WWW.osviralata.com.br Assim o povo brasileiro fala: não usa o substantivo no plural. Daniel também emprega palavrões, gosta de narrar (contar) e de dar voz aos personagens (não deixa para trás os travessões). Escreve como se fala.

Também o gaúcho Pedro Du Bois me achou na Internet. E passou a me mandar poemas todo dia. Como é bom poeta, não deixo de publicar os poemas dele nos meus blogs. Agradecido, presenteou-me dois volumes de versos: Desnecessidades reentrâncias & alguns reingressos e Concretude da casa, ambos de 2009. Não transcreverei aqui versos dos livros. O leitor os encontrará em pedrodubois.blogspot.com

O outro que não conheço é Emerson Monteiro, cearense de Lavras da Mangabeira, terra dos poetas Filgueiras Lima, Linhares Filho, Batista de Lima e Dimas Macedo. O livro recebido por mim intitula-se É domingo (João Pessoa: Edições Fabulação, 2006). Nada de versos; são crônicas e contos ou “narrativas de proveito”, como está sob o título.

Agora chego aos livros dos amigos. O de Lustosa da Costa é Sobral que não esqueço (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010). Dito de memórias. Como quase todas as obras do jornalista. Lustosa é incansável escritor. Sempre apegado ao Ceará. Vive em Brasília desde 1974, mas não esquece Sobral nunca: “Este é mais um livro tendo Sobral, capital da civilização do couro no Ceará, que elegi como minha e como principal tema de meus escritos”. Falta algum vocábulo na frase, mas o leitor entenderá. O título da introdução do livro é “Não sou universal, sou apenas municipal”.

A obra recebida de Alaor Barbosa é o romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia (Goiânia: AB Editora, 1999). Epígrafes de Camões e Shakespeare. Cerca de 300 páginas. Tem início assim: “Este texto das memórias do singularmente aventuroso e desventurado goiano de Imbaúbas Bertolino d’Abadia, anotadas pelo ilustre advogado Rafael Santoro Noronha, está guardado comigo faz muitos anos.” Lembra Cervantes? Nas abas se lê o anúncio: “Poderosa criação literária, a um tempo rica em imaginação e em verdade documental, densa narrativa,escrita em linguagem apurada, base firmíssima da sua previsível perenidade. Há muito tempo não se vê aparecer,no Brasil, um livro tão bem escrito.” É ler para conferir.

Do também goiano Valdivino Braz é outro romance: O gado de Deus – Livro do Ressentimento (Goiânia: UCG/Kelps, 2009). Há semelhanças entre um e outro. Num “esclarecimento e advertência” o escritor adverte: “Fruto azedo do advento 64, este romance, sazonado entre os anos 80 e 90, inicialmente intitulado como As dores da terra antiga – agora O Gado de Deus, com outras dimensões, mantido o fulcro original –, seria o primeiro livro de uma espessa obra, desenvolvida há décadas, a espaços esporádicos, anunciada e sempre protelada, ainda por terminar, estacionada em estado caótico. Ambicioso, pretensioso, megalômano projeto”. Valdivino apareceu há alguns anos como contista (dois volumes) e poeta (dez). Como Alaor, meu amigo Braz sabe escrever.

Estou perdendo o fôlego. Mas ainda posso falar do livro de Emil de Castro: Vozes do mar (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2009). São poemas. Poucos e curtos. A primeira parte tem o mesmo título do volume. Poemas sem título. A segunda é “Exercício de marujo demente”, com 17 poemas titulados. Emil tem diversos livros: poesia, ensaio, história, infantil. O primeiro, em 1969: O relógio e o sono, de versos. Se se entusiasma com o mar (a vida), consegue se conter no dizê-lo: “Vão lentos / soprados / pura paina / espuma sobre o mar. / Se perdem no longe”.

Também consigo me conter ao escrever.

Fortaleza, 28 de maio de 2010.
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terça-feira, 25 de maio de 2010

Os abismos são para os profundos (Daniel Lopes*)





May you always do for others

And let others do for you…

...May you stay forever young

Bob Dylan


Eu era o cara velho em roupas novas que observava tudo no canto da sala. O quadro, O escolar de Van Gogh, emitia sua energia louca, parecia haver um campo magnético ou qualquer coisa assim em volta dele. Havia Modiglianis muito bons, havia Gauguin e havia Delacroix, mas Van Gogh é outro papo. Todo o museu, melhor, todo o mundo, parecia girar em torno daquele quadro. Seria o Aleph? O princípio e o fim? E a tristeza nos olhos e no olhar vazio do menino? Eu podia ver a dor do artista desesperado naqueles traços. Eu podia ver o seu amor e seu carinho pela humanidade. Eu podia ver a ternura e a tormenta em cada canto vermelho ou alaranjado. Eu tinha impressão de que, se tocasse aquele quadro, abriria uma porta pra outro mundo, pra outra dimensão, onde eu poderia abraçar Vincent e conversar sobre as coisas da vida. Eu também tinha sofrido demais. Eu também tinha perdido tudo e fracassado. Muitos amigos meus haviam desaparecido. Muitas mulheres tinham encontrado homens mais interessantes e meus filhos agora estavam longe. Há muito tempo, eu chegara a acreditar que poderia realizar algo de bonito e grandioso, agora eu era só o cara velho em roupas novas e a menina que observava o quadro era tão jovem e tão bonita. O museu estava praticamente vazio neste dia por causa da chuva. Havia cinco dias que não parava de chover na cidade e o feriado prolongado tinha feito muita gente fugir pro interior ou pro litoral. Eu gostava de dias assim. Eu gostava de passear pela cidade vazia olhando as coisas. Quando estava vazia, a cidade era meu espelho. Quando havia pessoas nela, a cidade me lembrava cocaína e eu tinha vontade de fugir e de morrer. A simples idéia do suicídio havia me ajudado a passar muitas noites difíceis, pois eu sabia que um dia me mataria mesmo e então não haveria mais nada, além da brancura de uma folha vazia.

A menina se distanciou um pouco mais do quadro, como para senti-lo de outra forma. Ainda não havia me notado no canto da sala. Na verdade, ela se parecia um pouco com a minha segunda esposa, aquela que... melhor nem falar dela. Na arte de odiar as mulheres são inigualáveis, além disso, eu... então o elevador parou e dele desceu um rapaz magro, despenteado e barbudo. Parecia muito doido. Atravessou as outras salas da exposição quase que correndo e se ajoelhou ao lado da moça, olhando pro quadro. Ela riu um pouco e então olhou pra trás e me viu no canto da sala. Acho que o rapaz também havia se dado conta da magia e da força. Não acredito em santos e nem em messias, mas acredito em Van Gogh. Acho que o garoto pensava como eu. Ele ficou lá ajoelhado por uns cinco minutos, enquanto a moça me olhava e fazia gestos indicando que o rapaz devia estar maluco.

- Eu preciso me salvar! – ele disse ao se levantar, abraçando a moça. Tem cada malandro nesse mundo.

- Não existe salvação. – Eu falei.

- Velho, você não entende, você já fez o que tinha de fazer e eu não, eu preciso conseguir.

- Essas coisas só pioram com o tempo. Porque você sente que a morte está chegando e nada muda. Então você renova as esperanças e tenta outra vez e nada muda novamente. Quando você se dá conta, as rugas já tomaram conta do seu rosto e você continua agindo feito um menino. É ridículo. Uma piada das mais sem graça.

Então a menina abriu a boca:

- É tudo tão triste. – Disse.

Droga, eu também era um menino, mas o meu corpo era velho. Isto é mesmo ridículo. Em algum lugar dentro de mim morava um homem que queria amar, mas o corpo, o corpo estava fechado para o amor. Os lábios dela eram bailarinas e o meu espírito tinha de agir como velho porque meu corpo era velho e a gente só pode ser por meio do corpo. Além do corpo ninguém sabe o que será.

- Não, não tem nada de triste. Nós ainda podemos conseguir. – Disse o menino e abraçou a moça ainda mais forte.

Ela olhou pra mim outra vez meio encabulada e eu me lembrei que também já tinha sentido as coisas daquele jeito e me lembrei dos meus amigos artistas que agora estavam mortos e eu me lembrei das minhas mulheres artistas que agora estavam mortas. Todas as pessoas pra quem eu esculpi, todas as pessoas pra quem eu pintei, estavam mortas agora. O monstro cria gerações e mais gerações pra se alimentar delas. Moloch! E toda geração acha que vai ser diferente, mas no fim fica tudo igual. Somos todos crianças sempre. Alguém aí se lembra de Judy Garland? Alguém aí se lembra de Etta James? Eu chorei ouvindo Etta James. Mantenha suas mãos ocupadas, velho! Mantenha ágeis os seus pés!

- Eu preciso beber alguma coisa. Não quero ficar com essa coisa ruim por dentro. Não para de chover e essa dor está me matando. A moça falou ajeitando os cabelos atrás da orelha.

- Eu bem que gostaria de te pagar alguma coisa, mas não tenho dinheiro. Nunca tenho dinheiro. – Disse o moleque.

- E o senhor? – Ela perguntou olhando na minha direção.

- Vamos.

Atravessamos outra vez à sala. Eu disse adeus ao Escolar e a moça apertou o botão pra chamar o elevador. Tinha um arco-íris pintado em cada unha.

***
Entramos no primeiro bar aberto. A menina pediu um copo cheio de vodka. Tinha uma sede daquelas. O rapaz pediu uma cerveja e três copos. Eu emborquei meu copo e pedi um refrigerante. Não bebia mais, havia sofrido por mais de trinta anos nas garras do mais cruel dos alcoolismos. Eles começaram a conversar. Jovens e velhos desesperançados na mesma mesa imunda. Eu fiquei quieto ouvindo. A sobriedade, como tudo o mais, tem suas vantagens e suas desvantagens. Era mesmo linda a menina. E parecia tão triste quando sorria! A tristeza deixa as pessoas magnéticas. Mesmo o humor, o melhor dos humores, esconde uma grande dose de dor e de insatisfação.

Eles beberam mais. Continuei firme no meu refrigerante. Lá fora o céu desabava. Imensas gotas azul-claras escorriam pelos vidros e pela lataria dos automóveis.

- Um dia ainda escrevo um grande livro! Posso senti-lo germinando na minha cabeça. Quando ele sair vai ser como o Werther. - Disse o menino.

- Torço por você, garoto.

- Não aguento mais beber... não tenho mais casa... não quero ir pra casa! – Disse a menina.

- Também não posso te levar pra minha casa. Moro de favor na república de uns amigos. - Emendou o rapaz enquanto pegava um dos meus cigarros sobre a mesa.

Então a menina fez uma coisa. Levantou-se. Cambaleou até mim e escorregou a ponta dos dedos pelo meu rosto.

- Você é um velho tão feio. Tem rugas tão profundas. - Disse e aí me beijou na testa, como se fosse ela a minha mãe e passou os dedos entre meus cabelos ralos.

- Se quiserem podemos ir pra minha casa. Falei.

- Eu adoraria.

Chamamos um táxi e nos escondemos ali dentro prontos pra atravessar a cidade. Não demoramos a chegar. Era mesmo bom ter vazia a cidade. Paguei a corrida e subi na frente pra cobrir os meus trabalhos. Eu não precisava mais que os outros os elogiassem. Eu era um velho. Voltei ao portão e os coloquei pra dentro. Eles beberam algumas cervejas que havíamos trazido e eu bolei um bom baseado como nos velhos tempos. E foi bem nessa hora que ficamos felizes e somamos nossas idades e dividimos por três para sermos iguais, mas, porra, eles eram mais jovens que meu filho mais novo. Sei que cai no chuveiro pra um bom banho e, quando voltei, eles estavam dormindo abraçados no meio da minha sala. Descolei uma coberta e joguei por cima. E aí peguei um lápis, uma folha de papel e os desenhei. Eram lindos. Quando terminei o desenho, peguei a câmera que eu levava sempre à mão e tirei uma fotografia. A menina abriu lentamente os olhos e, no meio de um bocejo, disse:

- Deita aqui com a gente.

Dizer a verdade é preciso, fiquei indeciso por alguns segundos, mas, ao final, também entrei embaixo das cobertas. Ela me abraçou e beijou meu rosto. Na televisão passava um velho vídeo dos Stones que minha quarta mulher havia deixado quando partiu. Um novo tipo de afeto crescia dentro de mim. Uma coisa misturada, não definida, uma coisa que eu sabia que ninguém mais havia sentido no mundo, algo feito o surgimento do amor romântico nos tempos mais cruéis do cristianismo, quando as chamas eram bem mais que uma metáfora. O que era aquilo eu não sabia, mas como todas as outras coisas intensas da vida, também me levaria para o abismo. Pouco me importava, pouco me importa. Os abismos são para os profundos. Lá fora continuava a chover.
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* Daniel de Souza Lopes é professor da rede pública estadual e municipal de São Paulo. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Germina e Amálgama. Edita o blog: www.pianistaboxeador21.blogspot.com . Lançou em 2008 o livro É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança.
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sábado, 22 de maio de 2010

Conto de Nonato Costa

VELHO COSTUME – (Parte II)


Desde que chegara, sentara-se no banco próximo à porta e observava. Havia pessoas ali. No recanto à direita, sentada, uma senhora nos seus quarenta anos. Nas mãos, a xícara do café tilintava no contato com o pires trincado. Ao seu lado, os dois netos não se aquietavam. No outro, dois senhores com os seus chapéus na cabeça. Usavam bigode. Um deles tinha costeletas longas. Mantinham-se cabisbaixos e silenciosos. Esperavam a hora de sair. Em avançado estado de gravidez, uma mulher também esperava e espiava. Eram notórios o seu cansaço e o cochilo que tirava, recostando a cabeça na parede.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Em comum

Inocêncio de Melo Filho






Nós, homens de letras e palavras
Fomos feridos pelas mãos carrascas do tempo
Caminhamos entre os nossos contemporâneos
Como se as nossas chagas intraduzíveis
Estivessem ocultas.


Querem que falemos de nós.
Querem que sejamos específicos, objetivos.
Querem que mudemos a expressão dos olhos e da face.
Nos negamos às falácias e às vontades alheias.
Os nossos enigmas são nossos.
Tornaram-se bens, propriedades privadas de nossa essência
Não podemos partilhá-los com ninguém
É o que nos restou dos árduos combates...




Veja mais no blog transitoriodiamante.blogspot.com
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domingo, 16 de maio de 2010

Pequeníssima história infantil... (Pedro Silva)




Era uma vez um ursinho muito feio. Era tão feio que assustava-se com a sua própria imagem reflectida no espelho. Mas Deus, na sua sabedoria, dera a essa urso um bom coração, tornando-o bonito por dentro. Porém, a vida desse urso era tudo menos simples. Sentia-se triste e sozinho, qual sem-abrigo abandonado à sorte. E sofria! Muito, mesmo. Os seus dias eram monótonos e vazios, visto que o seu interior, ainda que bonito, ansiava por algo mais. Como todos os ursos da sua idade ele queria encontrar alguém a quem oferecer o seu interior, alguém com quem partilhar os seus sentimentos. Mas os seus horizontes eram muito amplos e, quiçá por isso mesmo, ou por ser feio por fora, a dificuldade em encontrar a ursinha especial fez-se sentir de tal forma que, cansado de esperar, decidiu desistir. E como desistiu!

A pouco e pouco o seu interior deixou de ser tão especial e o sofrimento foi-se apoderando da sua alma. Todos aqueles que lidavam com ele notaram a diferença mas deixaram o urso entregue a si próprio. E porquê? Porque todos se consideravam tristonhos e infelizes, pelo que aquele urso não deveria receber nenhum tratamento especial. Mas estavam todos enganados – aquele urso era especial pelo que, obrigatoriamente, deveria merecer um tratamento diferente. Quanto mais não fosse porque quando eles precisavam aquele urso estava sempre pronto a ajudar. Só que a ingratidão do mundo, aliada à indiferença natural que reinava entre os ursos, fazia com que fosse mil vezes mais fácil ignorar. E, enquanto isso acontecia, o urso feio por fora ia-se tornando menos bonito por dentro. E esse ursito, ainda que infeliz, arranjava sempre um bocadinho de ânimo ou de boa vontade para ajudar um seu próximo que sofresse. Era sempre o primeiro a acorrer a um urso em apuros, sempre o primeiro a dirigir uma palavra de reconforto a um urso sofredor, enfim, o seu interior continuava a demonstrar preocupação, carinho, amor...

Entretanto, ao seu redor, o mundo dos ursos não parava – implacável e imparável. Tal como todos os outros ursos, aquele urso especial tinha de cumprir a sua obrigação – arranjar comida para sobreviver. Foi num certo dia, ao desempenhar a sua função, que encontra uma ursa muito bonita, que irradiava uma luz muito especial, mas ao mesmo tempo com o semblante mais triste que jamais vira. O urso feio sentiu algo de tão forte que na altura não conseguiu explicar. Mas Deus, do alto do seu trono, sabia bem o que era e a definição correcta não era amor! Era algo de mais forte, muito mais forte!

O urso feio sentiu necessidade de acorrer em auxílio da pobre ursa bonita mas infeliz, só que embateu num muro de frieza. Não havia dúvida nenhuma que aquela ursa havia sofrido muito na sua escassa vida – e o urso feio era, devido ao seu interior especial, o único urso no mundo capaz de compreender, aceitar e tentar modificar o rumo dos acontecimentos, ou seja, o mesmo é dizer, fazer aquela ursa feliz. Porque o urso feio sentia que era capaz e porque estava dentro de si a noção de que todos os ursos tinham direito a ser felizes. Acima de tudo, acreditava que Deus o iria ajudar a concretizar os seus intentos.

Tentou uma aproximação suave – a ursa recuou, como num instinto de sobrevivência que, notava-se, havia sido alcançado à custa de muito sofrimento. E nesse primeiro encontro nada de muito especial surgiu, a não ser a tomada de conhecimento da existência, para ambos, do outro no mundo. O urso feio, porém, sentiu algo no seu interior que o deixava algo apreensivo – parecia que o seu corpo estava inteiramente descontrolado e que deixara de ser propriamente seu. Quem passara a ser o dono é que não sabia. Mas no dia seguinte, o certo é que voltou àquele lugar e, ainda que pelo caminho fosse bastante incrédulo em relação ao facto de voltar a encontrar aquela ursa bonita, o certo é que sentia que tinha de ir.

O urso feio desconhecia por completo que fora Deus que o colocara no caminho daquela ursa e que aquela força que o impelia a dirigir-se de novo àquele local era-lhe superior. Foi só quando, ao chegar ao lugar exacto, viu a ursa de novo ali sentada, que o urso feio sentiu que algo de muito especial estava a passar-se. E mais intrigado ficou quando, numa tentativa de aproximação mais forte, a ursa decidiu começar a falar. Trocaram nomes próprios e pouco mais, mas a ursa bonita já não parecia a mesma – ainda que se fosse notando cada vez mais o sofrimento que possuía, o certo é que o à vontade, que aumentava a cada instante, fazia acreditar que aquilo a que o urso feio se propusera podia realmente acontecer – assim Deus o ajudasse.

Nos dias seguintes, e como a ursa bonita sempre ali se encontrava, cada vez mais deliberadamente à espera do urso feio, as conversas foram-se tornando cada vez mais profundas – a ursa sofrera de terríveis acometimentos que a fizeram sentir-se a ursa mais infeliz de toda a comunidade. Incapaz de sentir-se inteiramente livre, mercê de um asfixiamento inconsciente por parte dos seus progenitores, tentara a fuga para a frente, ou seja, decidira abandonar aquela comunidade para viver noutra. Porém, desde cedo entendeu que embora todos lhe achassem muita graça, à medida que foi crescendo entendeu que o Mundo era todo igual e não havia, em lado algum, alguém interessado em ouvi-la. E o seu desencanto era de tal forma que a sua aprendizagem de vida, ainda que bastante intensa, foi de tal forma angustiante de chegara à triste conclusão que a liberdade em sofrimento era pior que a prisão com algum descanso.

A sua vida tornou-se mais pacata durante algum tempo, mas havia dentro de si algo que a atrofiava – o seu interior pedia sempre mais, mas do quê nem ela própria sabia. A vida em comunidade era muito pouco para ela e de novo sentiu-se demasiado apertada para o seu gosto. Sentindo, tal como todas as outras ursas da sua idade, o apelo do contrário, deixou-se enlear por uma necessidade e conheceu um urso garboso que lhe parecia de todo inofensivo em termos pessoais, mas que a levaria a concretizar todos os seus desejos e ambições – uma vida louca pelas florestas, livre das amarras super-protectoras dos pais ursos. E o certo é que a relação com esse urso garboso a fazia sentir-se, pelo menos, solta.

Só que a visão provocada pela ansiedade de liberdade cedo esfumou-se. Sem saber como, o certo é que a sensação positiva se deteriorou – eram ursos de feitios diferentes e, ainda que tivessem alguns gostos semelhantes, o certo é que a relação assemelhava-se a uma laranja seca: por mais que espremesse não saia uma única gota de sumo. A pouco e pouco a ursa foi-se desvanecendo da vida o urso garboso mas, no entanto, e apesar de sentir vontade de ser feliz, afirmava que era uma vergonha, perante a comunidade dos ursos, o expor de uma situação dessas. Afinal de contas, nunca nada semelhante tinha acontecido.

O urso feio tudo ouvia e registava. Tentou, do fundo do coração, ajudar aqueles dois ursos a fim de que não sofressem do mesmo mal que ele – de solidão. Tentou ajudar a ursa a levar as más palavras ao bom sentido, aproveitando tudo aquilo que de bom o urso garboso tinha. Mas a ursa bonita era demasiado livre para ser aprisionada, demasiado ela própria para ser o que os outros ursos queriam que ela fosse. E sentiu-se tentada a avançar em frente. Mas o urso feio, desconhecedor da situação, continuou na mesma toada de reconciliação, insistindo no continuar da relação entre os ursos.

Mas, com o passar dos dias, começaram a tornar-se visíveis os sinais de ruptura total – a ursa afirmava que não gostava de passear com o urso garboso na floresta e o urso feio sentiu-se tentado a desistir. Mas Deus, sentindo que só ele poderia ajudar aquela ursa, impeliu-o a continuar com o seu acto de caridade. Foi então que, com o passar dos dias, ambos se detinham mais em falar de si próprios do que de outros ursos. Existia algo entre eles – a sua relação fora feita no Céu e pelo próprio Deus. Só podia ser assim mesmo, dada a alegria que ambos agora irradiavam, isto apenas e só quando estavam juntos, porque quando afastados a tristeza voltava e dava lugar à depressão.

Parecia um lindo conto de fadas e passavam os dias a contar os minutos que os separavam do encontro – só viviam para isso. Ao fim de algum tempo começaram a sentir que alguma coisa de realmente especial estava a passar-se – afinal de contas quanto mais a ursa bonita comparava o urso feio ao garboso mais infeliz se sentia no espaço de tempo em que não estava com o seu novo confidente. Mas o urso feio não era diferente e ainda que sentisse um certo remorso ao notar que a ursa bonita aproveitava aquela oportunidade para criticar o urso garboso, o certo é que achava que aquele tempo passado com a ursa era como um pedaço de Paraíso na Terra.

Os dias foram passando e ambos os ursos sentiam já que aquilo que realmente desejavam era que aqueles momentos pudessem ser prolongados por todo o dia. Mas isso era impossível enquanto a ursa bonita não dissesse ao urso garboso o que não sentia por ele. E, o urso feio, cego de amor, pediu a Deus que a ursa o conseguisse fazer feliz. Mas Deus ficou triste com aquele pedido – o que ele lhe estava a pedir era o sofrimento de outro urso. Nem parecia próprio daquele urso que sempre tanta preocupação revelara com o se próximo. Mas, atendendo ao sofrimento que ele passara e à felicidade actual da ursa na sua companhia, decidiu atender ao pedido e, em pouco tempo, o urso garboso soube que a ursa já não tinha gosto em passear com ele pela floresta. Deus ajudou-o e ele tornou-se rapidamente feliz com outra ursa, mais simplória, mas que o fez sentir amor verdadeiro.

Tal facto abriu portas ao relacionamento entre o urso feio e a ursa bonita. Foi nessa mesma noite que o urso feio recebeu a visita de Deus na sua caverna, tendo-lhe pedido que tratasse a ursa bonita da melhor forma que o seu coração permitisse, de modo a que ela fosse feliz para todo o sempre. Porém, caso o urso feio falhasse no seu compromisso, seria castigado de uma forma que não possibilitaria recuo – a ursa deixaria instantaneamente de gostar dele e, em consequência, iria abandoná-lo de forma definitiva. O certo é que, até hoje vivem os dois, felizes, na floresta.

(A história continua... E que assim seja por muitos e bons anos!)
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Pedro Silva é português.
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domingo, 9 de maio de 2010

Pedro Salgueiro e o culto do livro (Nilto Maciel)


(Pedro, Nilto e Raymundo Netto, na casa do segundo)

Meu conhecimento de Pedro Salgueiro vem de 1995, quando participou do primeiro concurso de contos promovido pela revista Literatura, por mim dirigida. Enviou a peça “Dos valores do inimigo”, que obteve o terceiro lugar e foi publicada na edição nº 8, referente a junho daquele ano. Pouco depois (não poderia ser antes, tendo em vista que o certame se reservava a obras inéditas), ele me enviou exemplar da primeira edição de O peso do morto, no qual a pequena narrativa está incluída. Na dedicatória, chamou-me de “amigo e companheiro de ofício”. Na mesma época, Dimas Macedo, correspondente não oficial da revista no Ceará, me falou dele com muito entusiasmo. No ano seguinte, recebi O espantalho. Até então eu não o tinha visto, com ele não havia conversado. O que se daria em janeiro de 97, quando estive de férias em Fortaleza. Organizava ele, ao lado de Tércia Montenegro, o Almanaque de contos cearenses. Em golpe de mestre, planejou uma reunião de escritores no bosque da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará, que receberia o nome de Moreira Campos. Para dar mais importância ao encontro, convidou a viúva do homenageado, Dona Zezé Moreira; a filha (escritora) do casal, Natércia Campos; o pesquisador, professor e poeta Sânzio de Azevedo; e os escritores “de fora” Nilto Maciel e Caio Porfírio Carneiro. Algumas fotografias obtidas naquela tarde estão reproduzidas naquela publicação.

No final das férias, regressei a Brasília, voltei à minha lida de burocrata do judiciário e aos meus velhos passatempos: ler livros de escritores novos, escrever cartas, editar revista. Nem me lembrava mais do projeto do almanaque, que projetos de editar jornais, revistas, almanaques de literatura, no Ceará, só se realizam de 30 em 30 anos, com muito esforço de um ou dois escritores (a maioria não sai da platéia, embora queira subir ao palco, e no papel de protagonista). Pedro me enviou alguns exemplares da coleção. E não deixou de mandar seus livros: a 2ª edição de O peso do morto, em outubro de 97, e Brincar com armas, em 2000. Em retribuição, eu lhe remetia a revista. Não éramos amigos, embora já fôssemos companheiros de ofício. Para que a primeira oração fosse rezada, precisávamos nos aproximar. Não para isto, decidi vir morar em Fortaleza, em setembro de 2002. Precisava fugir da secura de Brasília, da solidão das superquadras, do burocratismo arraigado na pele das pessoas, do clima de academia de letras que ronda os escritores de lá. Fugir dos espantalhos, dos mortos que andam, respiram e escrevem versinhos, dos inimigos escondidos atrás das pilastras dos prédios, que matam com armas de brinquedo.

Ao aqui chegar, procurei uns e outros escritores. Levaram-me a clubes à beira-mar, a jantares à luz de velas, a academias de musculação linguodental. Mas não me levaram aos botecos, aos bares, ao bate-papo, às sirigaitas da Beira-mar. Telefonei a Pedro: queria conhecer o Dragão, tomar uns chopes, ver a noite, ouvir as estrelas e andar de carro pela cidade que abandonara havia 30 anos. Eu conduzia o veículo e ele me guiava: entra à direita, vira à esquerda, segue em frente. Na primeira noite ocorreu um sinistro: sorvi doze chopes e falei de literaturas. Ele tomou dois e não conseguiu dizer nada. Ao se erguer da cadeira, tombou. Deitou-se no banco do carro, vomitou e dormiu. Para as seguintes noites, convidou Astolfo, Pieiro, Napoleão e outros candidatos a contistas. Ao fim da pândega, eu conduzia o embriagado narrador ao seu lar e rumava para o calçadão da Beira-mar, onde me aguardavam as raparigas em flor.

Ao cabo de alguns meses junto àquelas mesas do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o contista Pedro Salgueiro se disse viciado em álcool. Sua mulher (de então) pediu a separação. E me acusou de desviar a conduta social (e sexual) do seu até então casto e abstêmio marido.

Passavam-se os anos, surgiam outros projetos literários, os novos escritores nos mostravam seus rabiscos, eu me mudei para o Benfica, fez o mesmo Pedro, descobrimos o bar do Assis e mais nos tornávamos amantes do álcool. Vez por outra, aparecia Carlos Emílio, a resmungar, a se dizer perseguido, copiado e plagiado. Astolfo se irritava com as observações de Pedro pela ausência de vírgulas em suas composições. Carmélia Aragão destilava francês ao redor das mesas e prometia peças como há muito não se escrevem. Raymundo Netto lia crônicas de uma imaginária Fortaleza antiga. Adolescentes ávidos de fama cercavam o pobre Salgueiro: leia esta obra literária, publique minha história. Ele fazia promessas de mundos e fundos, piscava um olho para mim, emborcava o copo e se punha a contar piadas, velhas anedotas, sempre repetidas. “A mesma história tantas vezes lida”, como escreveu Florbela Espanca.

Passaram-se os tempos. Agora os encontros se dão em minha mansão na Parquelândia. Mais atento ao hoje do que ao ontem, Pedro tenta, então, imitar Fagner, cantarola o hino do Fortaleza Esporte Clube e me pede para ligar a televisão. Quer ver o jogo do Barcelona. Faço de conta que estou surdo. Ele olha para mim com rancor leonino e deita um litro de álcool goela abaixo. Cansado disso e daquilo, conta a piada de anteontem. Todos riem. Ele bebe mais. Quando se sente menos lúcido, põe-se a analisar as próprias narrativas: Conto sempre as mesmas histórias: homem que foge da cidade, homem que regressa ao lugarejo natal; no desfecho, mato uns e outros. Por isso me chamam de Pedro Sangreiro. Na noite seguinte, conta as piadas de ontem, imita Roberto Carlos e Fagner, e fala de suas (dele) obras.

O melhor de tudo se dá quando me visita: traz com ele dez ou mais amigos. Vai logo às prateleiras, à cata de “novidades”. Vai prestar culto aos meus livros, que são dos outros. Surrupia um Cervantes aqui; alisa um Quevedo ali; pede, por empréstimo, um Dante envelhecido. Ajoelha-se diante deles, faz prece, venera os velhos tomos. Os outros visitantes não se sentem logo à vontade, descrentes. Primeiro bebem muito e falam demais. Alguns se dizem poetas de meia-tigela; outros, prosadores de meia-pataca. Um deles até quer assim ser chamado, teima nisso. Mas é poeta de muito valor: O Poeta de Meia-Tigela. Uns quebram copos e garrafas, outros sujam o tapete de lama. (Quem se lembra da canção “Edredom vermelho”, de Glória Martins e Herivelto Martins?). Esses estróinas (no sentido de singulares) das letras, muito jubilosos quando se sentem entorpecidos, logo se põem a cantar como Nelson Gonçalves. Conhecem toda a música popular brasileira. E a erudita. Netto faz da caneta, às vezes, varinha de maestro, e arremeda Zubin Mehta. São todos muito corteses: lêem meus poemas em voz alta, prometem musicar minhas composições, tencionam me filmar e me dizem eterno enquanto durar. Pedro, o padrinho desses mancebos, se mostra encabulado diante de tantas estroinices e pede licença para ir ao banheiro. Não vai, me engana. Vai ao cômodo (altar) onde repousam os mestres: Anacreonte, Baudelaire, Camões... Todo o alfabeto literário. Nosso livro sagrado.

Fortaleza, abril de 2010.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010

A galinha e o trigo (João Soares Neto)



Reconto, com adaptação minha, estória atribuída a George Orwell que corre há décadas. Ela mostra a diferença entre os que não plantam e os que cuidam de plantar. Consta que existia uma galinha vermelha. Ela achou alguns grãos de trigo e perguntou a seus colegas de fazenda: vocês me ajudam a plantar? A vaca disse: não. O pato: nem eu. Eu também não, falou o porco. Eu, muito menos, completou o ganso. Então, eu mesma planto, falou. E o trigo foi plantado, cresceu e amadureceu em grãos dourados. Da mesma forma, na colheita, perguntou: quem me ajuda a colher o trigo? O pato disse um não, seco. Não faz parte das minhas funções, disse o porco. Não, estou só contando o tempo de serviço para me aposentar, disse a vaca. Vou nada, posso perder o seguro-desemprego, respondeu o ganso. Então eu mesma vou colher o trigo, disse a galinha. Um dia, ela convocou a todos, mais uma vez, para ajudar a preparar e assar o pão. As respostas continuaram a ser negativas: um queria hora extra; outro gozava, agora, do seguro-doença; uma disse que não sabia fazer. Enfim, nada. Ela assou, sozinha, cinco pães. Cheiravam, estavam bonitos, e todos se achegaram seguindo o aroma de pão novo e querendo comê-los. A galinha falou que não, pois estava cansada de trabalhar só e faminta. Foi aí que houve uma reunião dos quatro. A vaca falou em egoísmo e sovinice. O pato chamou-a de capitalista safada. O ganso exigia os seus direitos e o porco só grunhiu. Resolveram ir até o governo da fazenda, mas antes pintaram faixas com palavras de ordem, tipo justiça social e pão para todos. O funcionário do governo, um jaboti, os recebeu, ouviu cada relato, mandou que preenchessem formulários em cinco vias, pediu que reconhecessem as firmas, cobrou uma taxa e os despachou para o chefe. Este, do alto de sua crista, pois era um galo, disse: que se faça justiça, todos têm direito aos pães. E mandou uma intimação à galinha, dizendo que ela deveria, sob pena de prisão, repartir os pães e que aquilo era apenas redistribuição de renda, meta da fazenda. Ela aceitou calada e nunca mais fez nada. Consta ter ela entrado em um movimento social e recebe uma bolsa qualquer.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Podesres (Pedro Du Bois)

Subverto o poder, condicionado ao mito,
retiro da força o apego ao gênio
literário; esmoreço o começo e me arrojo
ao mundo abaixo das vistas, entrevejo
a glória incensada das orquídeas, símbolos
e dogmas repisados ao orgulho determinado
do poder – agora subvertido – ocultado.

Reafirmo a crença no vazio
da pedra concreta da inação
do tempo: a temporalidade
do minério escavado ao corpo

despreparado, escuto gritos reais
de descobertas: o encoberto jogo
do poder sacralizado ao todo.


http://pedrodubois.blogspot.com/
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terça-feira, 4 de maio de 2010

Eça de Queiroz em aquarelas (Adelto Gonçalves*)



I

Filho de A. Campos Matos (1928), notável queiroziano, o arquiteto Rui Campos Matos (1956) herdou do pai a paixão pelos livros, pela poesia, pela literatura de um modo geral e pela obra de Eça de Queiroz (1845-1900) em particular. É o que mostra em Os Maias – Uma Antologia Ilustrada (Lisboa, Parceria A.M.Pereira, 2009) em que, acompanhando trechos do clássico romance de Eça de Queiroz, enfileira a cada página aquarelas em que procura retratar e reconstituir lugares e personagens da obra.

Quem leu Clepsidra e outros poemas, de Camilo Pessanha (1867-1926), em edição preparada por Daniel Pires (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), e deslumbrou-se com as ilustrações que o acompanham já sabe a qualidade que vai encontrar nestas aquarelas. A única diferença é que, desta vez, não são coloridas como naquela edição de Clepsidra. Todo queiroziano, por certo, também há de recordar os pastéis que Rui Campos Matos produziu para O Mandarim, que seu pai publicou em Fotobiografia de Eça de Queiroz, Vida e Obra (Lisboa, Editorial Caminho, 2007).

Como observa Pedro Larsen no prefácio, em precisas imagens, Campos Matos, “num traço dúctil, espontâneo, seguríssimo, detecta o essencial dos ridículos das personagens queirozianas, fazendo-nos reviver episódios e situações que havíamos esquecido e nos despertam depois, além do contentamento e da surpresa do reencontro, a hilaridade do discurso desenhado”.

Entre essas personagens, Larsen destaca a baronesa de Craben, seguida de seu rubicundo marido, o pai Monforte e Maria, sua capitosa filha, o Alencar, sempre emburrado, “a braços com o realismo que tanto lhe atormentou a existência”, o melancólico Cruges, “de batuta entalada no colete”, o melífluo Dâmaso, o truculento João da Ega, e Maria Eduarda, com seus cabelos de ouro, figura enigmática e atraente que levaria Carlos da Maia a dar um passo tão trágico como é o do incesto, entre outras personagens menores – mas nem por isso menos importantes na galeria eciana – da Lisboa da época da Regeneração que, olhada através de um olhar de mais de um século, não regenerou em nada os costumes.

Além do prefácio descontraído de Larsen, o leitor, antes de penetrar diretamente nesta galeria eciana, encontra ainda um guia escrito pelo próprio autor que lhe permite recordar a trama que permeia Os Maias, romance publicado em 1888.

II

Para quem não recorda, é bom lembrar que a narrativa de Eça tem início com Pedro da Maia, filho de Afonso da Maia, personagem educado de acordo com padrões românticos, que se casa com Maria Monforte, filha de um traficante de escravos e, por isso, também conhecida como “a negreira”. Dessa união, nascem dois filhos: Maria Eduarda e Carlos. O casal se separa logo depois. A menina fica com a mãe e o menino com o pai, que se suicida, depois que a mulher foge com um napolitano.

Descendente de uma família nobre da Beira, educado pelo avô, segundo padrões britânicos, Carlos da Maia forma-se em Medicina, mas nunca exerce a profissão a sério. É um doidivanas, um desocupado que está sempre acompanhado de João da Ega, ex-estudante de Direito em Coimbra, um tipo espirituoso e adepto do Naturalismo em Literatura. Após alguns encontros amorosos com a condessa Gouvarinho, Carlos conhece, por intermédio de Dâmaso Salcede, um tipo medíocre e balofo, a mulher de Castro Gomes, um brasileiro rico, e apaixona-se por ela. A amada rompe com Castro Gomes, com quem não era casada legalmente, e vai viver com Carlos da Maia, acompanhada de uma filha, criança ainda.

É quando Joaquim Guimarães, um velho jornalista, entrega a João da Ega uma caixa de documentos a ele confiada por Maria Monforte em Paris, para que ele a encaminhasse a Carlos. Este julgava que a irmã, como a mãe, estivesse morta há muito tempo. Ega lê os documentos e, aterrorizado, vai mostrá-los a Carlos: ele e sua amada, Maria Eduarda, a antiga madame Castro Gomes, eram irmãos.

Desnorteado, Carlos volta a encontrar-se com a irmã, numa atitude de incesto consciente, de que, mais tarde, arrepende-se. Surpreendido com o reaparecimento da neta, que surgia como amante do irmão, o austero Afonso da Maia falece. A situação entre os irmãos só é solucionada após o funeral: Maria Eduarda, com a identidade esclarecida e seus direitos reconhecidos, volta para Paris, refaz sua vida e lá se casa. Já Carlos viaja para a América e o Japão, em companhia de Ega. Só dez anos mais tarde retorna a Lisboa, fixando depois residência também em Paris, onde alia a falta do que fazer ao diletantismo.

III

O que nesta obra Eça de Queiroz faz com mestria é a reconstituição da alta burguesia portuguesa e sua incapacidade de fazer a nação sair da mesmice e do atraso econômico e cultural, em que, aliás, pouco difere de sua congênere brasileira que, mais de 120 anos depois, o que conseguiu foi construir um país injusto, desigual, atrasado e imerso em violência social. Com aquele objetivo, o romancista cria muitas personagens claramente inspiradas nas figuras insossas de seu tempo e suas mesquinharias. Como observa Rui Campos Matos, a definição final desse painel da alta burguesia de sua época o escritor a dá pela boca de João da Ega, alter ego do autor, que reflete um pouco a filosofia dos “vencidos da vida”, grupo de intelectuais de que Eça também fez parte: tinham fracassado porque eram românticos, ou seja, “indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão”.

O que Rui Campos Matos procura fazer com o lápis é o que Eça de Queiroz fez com a pena: imaginar como teriam sido fisicamente essas figuras, quase todas ridículas e balofas, além de retratar alguns edifícios marcantes na obra, como o “Ramalhete”, mansão em que residiam os Maias, ou o Largo do Pelourinho, hoje Largo do Município, local em que Ega toma conhecimento do drama que irá marcar a vida de seu amigo. E o faz com tamanha espontaneidade e virtuosismo que podemos até mesmo imaginar aquelas personagens como se estivéssemos assistindo a um filme. Ou mesmo convivendo com elas no átrio do Hotel Central.

IV

Como Eça de Queiroz, Rui Campos Matos nasceu em Póvoa de Varzim. Frequentou o curso de Artes Plásticas da Escola Superior de Belas Artes e licenciou-se em arquitetura pela FAL/UTL, de Lisboa, em 1984, atividade que exerce desde essa época em ateliê próprio situado no Funchal. Mas, ao mesmo tempo, desenvolve a arte da ilustração e do desenho.

Já expôs na Biblioteca Nacional de Lisboa (2006), na Galeria da Mouraria no Funchal (2006) e na Casa de Santa Maria de Cascais (2007). Além da edição de Clepsidra e outros poemas, de Camilo Pessanha, publicou diversas ilustrações inspiradas na obra queiroziana: Fotobiografia de Eça de Queiroz, Vida e Obra (Editorial Caminho, 2007) e nas revistas Mealibra, Islenha, Boletim Cultural da Póvoa de Varzim e Jornal de Letras.
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OS MAIAS – UMA ANTOLOGIA ILUSTRADA, de Rui Campos Matos, com prefácio de Pedro Larsen. Lisboa: Parceria A.M. Pereira,157 págs., 2009. Site: http://parceria.a.m.pereira@com E-mail: parceriaeditores@net.novis.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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domingo, 2 de maio de 2010

Noções de sujeito (Nilto Maciel)

(Obra de Chico Lopes)


Quando o sujeito nasceu, um anjo lhe disse: Vai, sujeitinho, ser simples na vida. E ele conheceu outros sujeitos: mãe, pai, irmãos. Sentia-se muito simples mesmo. Porque tudo ao seu redor aparentava modéstia: o berço, o quarto, as paredes, o teto. Acostumou-se com isso e nem imaginava o que não fosse natural e comedido. Entretanto, logo passou a ouvir reclamações: Você é simples demais. Trate de ser mais elegante, mais afetado. Tenha orgulho de ser você mesmo. Havia quem dissesse: Seja mais composto, mais cuidadoso consigo. Um dândi? E pensava: Como poderia ser sujeito composto, se era um? Queriam-no dois, dez, mil, plural? Não, nunca seria mais de um. Gostava de ser singular. Exigiam-lhe atitudes, modos, sem mencionar quais: Tome uma atitude, homem. Que atitude? De atividade ou de passividade? Se agia, chamavam-no de agente. Se permanecia apático, diziam-no paciente. Ou o pretendiam neutro? Nem agente nem paciente?

sábado, 1 de maio de 2010

O poema da lua (Ronaldo Monte)


Existem muitos poemas dedicados à lua. Não há poeta, creio, que já não tenha cometido ao menos um verso comovente para a lua. Desconfio que até os uivos dos lobos e cachorros sejam poemas dedicados à lua cheia.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Jovens Escritores Portugueses

Pedro Silva (Portugal)


Ao longo da minha vida aprendi a apreciar a literatura. Sem sucesso procurei, nos últimos anos, concretizar um projecto de revista literária e cultural, em formato impresso. Deste modo, resta-me a interessante alternativa da crónica literária. Assim nasce, portanto, a presente iniciativa que pretende manter a relevância e qualidade pretendida, no que diz respeito à divulgação da literatura de Portugal.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Saberes (Nilto Maciel)

(Obra de Chico Lopes)



Sim, sou assim, como vocês não queriam:

Mais oblíquo do que torto.

Plantei-me em pântanos

E não cantei os pássaros.

O vento me quebranta

E à noite me espanto.

Nada me é familiar,

Nem mesmo tudo o que me cerca.

Minha sombra se perde no ar,

Sem se evolar, sem ser.

Somos o mesmo, embora

Eu saiba disso e ela não.

18/8/2009
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Licânia (Clauder Arcanjo)



De cabelos mais ralos, de olhos mais quedos, e de corpo mais lasso. Assim Antonio foi se achegando dos umbrais da pequena província. Trazia, debaixo do braço, um pequeno volume; sempre a paixão pelos livros, desde o tempo de infância. “Espantou uma mosca do nariz, como se buscando banir o caudal do rio das lembranças”.

No ar, o inconfundível bafo da terra natal: a brisa quente das ribanceiras do velho Acaraú. Estava chegando de terras potiguares. De lá, sempre observara as lembranças da sua Licânia. Catara-as, limpara-as, pondo um pitaco de ficção... e, finalmente, criara estórias. Causos e contos que lhe enchiam o buraco fundo da solidão das noites. Tipos e personagens a ressurgir, cada vez mais vivos, do baú de guardados que trazia bem enterrado, lá no fundo do peito.
Fora fácil apresentar tudo aquilo para gente estranha. A casa, A rua, Boné azul, Identidade... “Quando o sol colocava seu amarelo nos panos...”. Mas, agora, um medo lancinante lhe tomava as carnes, quando do retorno para o seu lugar. Aqui era o palco dos originais, daí o medo de ter feito uma cópia chula, imitação barata da vila. “Um vento teimoso varre as folhas soltas, que sibilam no chão duro e seco...”. Caminhou um pouco, viu-se de frente ao grande campanário da Matriz. A saga do retorno. Na mente, as palavras do Licânia. Sobre Licânia. Cemitério, Despedida, Menina de rua. Até o mar, nunca existente, mas sonhado, era tributo à província, nascendo como O cavaleiro do mar. “Era uma tarde de ventos enferrujados, de maré de vazante, praia com ondas em soluço...”.
As algarobas, ainda inquietas com o trinar dos pássaros, palco da revoada matinal. Antonio apertou o pequeno tomo, o suor umedecia-lhe as mãos. O pó de chinelo. “É bem melhor o atrito das pedras, ao roçar da covardia e ao molhado da indecisão”. Tudo era mais forte do que qualquer palavra, cenário indescritível. Quis rememorar passagens... O sineiro (“O planger dos sinos, metálico e dorido, aquietou o vento, apertou o peito dos moradores e cobriu a cidade com a lassidão do sentimento da perda.”), A mala (“Paixão assim não se agüenta de boca fechada.”). Era melhor voltar, pensou, calçar As sandálias da humildade (“Beijinhos, afagos e tapinhas nas costas era tudo que se via por entre as mesas...”), e deixar a sua obra longe do julgamento de Licânia. Porém um naco de teimosia grunhiu no seu peito. A epígrafe, versos de Sânzio de Azevedo: “Da tua terra, fértil mas pequena,/tirou-te um dia a sede das andanças!/Partiste, então; mas nessa idade amena/tangias um rebanho de esperanças!”. Canto da longa ausência.
Sacudiu o temor da roupa domingueira, e rumou para o Mercado. Moeda ao chão, O curral das éguas (“Os moradores viviam ruminando seus silêncios, presos à seqüência dos dias”), O grito (“... um homem não muda, muda o mundo”). Voltou-se rápido, no entanto não deu por nada, todos os espectros já estavam dentro dele. Não havia mais do que, nem de quem, fugir.
O calor tomava-lhe a garganta seca, o nó do reencontro. Carniça. “Olhos secos, cacimba vazia de lágrimas”. Logo em frente, deu com O riso do cão. “Uma espécie de riso a se desenhar por entre os seus dentes”. As inquietações de Samira. “Um medo apertando as carnes da barriga, dando um friozinho danado, um gelo... Puxo pelo rabo do tempo, e o que me resta é somente isso”. Zeca e os pombos. “Pessoas de risos parcos, de amores murchos, de mau jeito nos olhos”. Dona Tarcisa... “O soletrar das primeiras letras, as mangações...”. Respirou fundo, já claudicante. Na esquina seguinte, a teimosia de Perneta, “sol beirando o queixume dos coqueiros”, e o Sonho de Almirante.
Antonio enxugou a testa porejada pelo suor de Licânia, afrouxou a gravata, tirou os óculos de grife, e viu claramente Jesuíno. Ao lhe abraçar, festivo, percebeu que os homens e mulheres lhe olhavam risonhos, achando, por certo, que Antonio era mais um mascate a tentar fazer, com aquele pequeno livro, Negócios de feira.
A revoada das andorinhas cobriu o céu da tarde.
Licânia viera para ficar.

clauder@pedagogiadagestao.com.br

Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 18/03/2007.
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

A roupa e o monge (João Soares Neto)



Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros vêem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como seqüela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo - na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cinco balas contra a América (Luiz Carlos Monteiro*)


(Luiz Carlos Monteiro)


Com o aparecimento de Cinco balas contra a América, do jornalista e escritor cabo-verdiano Jorge Araújo (Editora 34, São Paulo, 2009), a literatura infanto-juvenil recebe uma forte e diferenciada contribuição no sentido próprio do seu fazer. Produz-se um sério abalo nas suas estruturas convencionais, no modo arraigado e repetitivo da concepção, ultrapassando as fronteiras e as missões previsíveis e às vezes simplórias de apenas entreter ou edificar. Ao invés da orientação autoral explícita ou subliminar para temáticas que ativem vendagens contabilizadas em centenas de milhares de edições, promove-se aqui um espaço amplificado de reflexão, ação e animação para os jovens leitores, que subverte as ambiências e enredos comumente encontrados no gênero. A edição, didática e de venda proibida, faz parte de um programa do ministério da Educação, o que garante a sua distribuição na rede oficial de ensino. As ilustrações, de traços magros e avantajados, expressivos em sua economia ambígua, ficaram a cargo do angolano Pedro Sousa Pereira.

A motivação psicológica dos quatro personagens adolescentes aprofunda o senso da discussão em torno à sua origem e formação, os embates da sua prática de vida diária, onde afloram as qualidades e defeitos inerentes ao humano, inclusive a coragem e o medo, que serão testados na aventura que viverão. O Comandante Zero, personagem disfarçado e misterioso, é temperado na mistura de velho boêmio mulherengo e sátiro, emigrante e nativo que somente com o tempo revelará a que veio, na sua faceta verdadeira de militante revolucionário calejado. Viverá ainda o bastante para absorver a vitória merecida pela luta contra os colonialismos europeus, e neste caso, mais especificamente português.

É o Comandante quem deflagrará a trama e a ação inicial do livro: “Foi Zapata quem recebeu o revólver. Ficou deslumbrado, tão deslumbrado que os seus olhos de pólvora seca dispararam estrelas. Mas logo, logo, tratou de domesticar a euforia, inspirou sentido de autoridade, encheu o peito de um ar de falsa tranquilidade. Tinha de estar concentrado, a missão era de grande responsabilidade”. Com Zapata, cujo nome verdadeiro era Salazar, encontravam-se Aristóteles, seu escudeiro subserviente, e os amigos inseparáveis Bob e Frederico, que estavam na aventura mais à procura de diversão, embora não espantassem a percepção e a práxis dos ideais revolucionários em voga na cidade cabo-verdiana do Mindelo e nas circunvizinhanças guineenses.

Aos quatro “miúdos” será confiada a missão de ficar de guarda, numa praia da ilha de São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, prevendo a eventual aparição e invasão de tropas norte-americanas, tendo como armamento apenas um revólver com cinco balas. Cada capítulo, acompanhando o rumo dos acontecimentos, será intitulado Bala 1, 2, 3, 4 e 5, Bala Perdida e Bala Final. Questões históricas e ideológicas desfilarão com verdade e leveza, mas sem denuncismo, planfetarismo ou propaganda dirigida. Em breves referências, não serão escondidos os papéis dos principais líderes das guerras pela Independência e das revoluções comunistas ocidentais e orientais.

Talvez fosse muito cedo para assumir missão de adulto, mas a fronteira entre duas idades mostrava-se tênue e ansiosamente aguardada sua quebra. Enquanto isso, Bob dedilhava seu violão, Zapata exercia sua inclinação de chefe desastrado, Frederico bebia da mesma aguardente e partilhava histórias de mulheres com Bob, e Aristóteles se guiava pelo mesmo passo inseguro e vacilante de Zapata. O sentimento de grupo mantinha-se mesmo assim, entre a tensão e o companheirismo, na discórdia e na desavença, na alegria de zombar do outro, tendo como cerne motivador a conquista de ser visto e distinguido pelo Partido. A necessidade da guerra justificava parcialmente o alinhamento da juventude guineense e cabo-verdiana aos eventos da libertação do jugo colonial. Os garotos, no entanto, não poderiam ser reprimidos ou se afastar demasiadamente de suas vivências pessoais na ilha, onde sempre haveria lugares como o cinema Éden-Park para os encontros jovens, despojados e aventureiros.

A fragilidade e o egoísmo de cada um vai se manifestar durante a noite que passarão, forçosamente, em vigília. Além disso, as ambições políticas serão desnudadas pela falta de preparo e maturidade. Porque sucumbem ao menor sinal de presença humana ou evento marinho. Tudo é motivo para a proximidade e viscosidade do medo: “Os quatro não mais saíram da tenda durante o resto da noite. Ficaram encostados uns aos outros, abraçando-se uns aos outros, assim sempre tinham a sensação de estar mais seguros. Mais protegidos. A escuridão continua a fazer das suas, a pregar-lhes partidas. Foi uma noite em branco, uma noite sem sono. Nunca no Mindelo os espíritos andaram tão à solta como naquela noite. Deveria estar a preparar-se uma revolução no céu”.

Quando a manhã chega sobre a praia, a euforia desfaz ressentimentos, provoca abraços e reconciliações num momento único na vida dos quatro militantes inseguros e sem experiência ou batismo de luta, sob a guarda da família, voltados, sem que por vezes o soubessem, para o que caracterizava as coisas de sua própria fase. As cinco balas, fornecidas pelo velho Comandante, serão disparadas por Zapata para comemorar a vitória da ultrapassagem da noite. Transformadas, surpreendentemente, como numa roleta russa não programada, em seis, por um artifício de Zero, um dos bravos “pioneiros” militantes, por pouco, não é atingido fatidicamente: “Desde que a sexta bala tinha sido disparada, desde que a bala adormecida na câmara ressuscitara, desde que Frederico escapara como que por milagre à execução sumária, que estavam em estado de choque. De todos, Zapata era sem dúvida o que estava em pior estado, recuperara o espírito, é verdade, mas não o juízo. Não dizia coisa com coisa, tinha esquecido todo o palavreado revolucionário”. Nenhum inimigo colonialista ou imperialista tinha surgido nas horas da vigília, mas Bob foi o único que testemunhou, após o sexto tiro, em meio à aflição dos outros e à sua própria, um elemento estranho na praia de São Pedro: “O porta-aviões navegou calmamente em direção aos mares do Sul, foi engolido pela contraluz. Bob fez de tudo para chamar a atenção dos restantes colegas de vigilância. Correu, gritou, esperneou, gesticulou. Desesperou. Tudo em vão. Ficou guardião de um segredo que era muito maior do que ele. De um segredo que nunca poderia contar, partilhar, porque nunca ninguém iria acreditar”.

As fórmulas infanto-juvenis batidas e estanques, engessadas e utilizadas à exaustão por editores ávidos e escrevinhadores midiáticos, declinando quase sempre da qualidade estética, foram rejeitadas pela mão de Jorge Araújo, cujo texto assume parâmetros de boa literatura. Auxiliando a reflexão e o questionamento de quem mais precisa disso, daqueles que estão de passagem para a vida adulta, a singularidade desse livro é fruto da sua inteireza em não esconder nem escamotear o cerne polêmico que o engendra e configura. Falar de pessoas entre 14 e 16 anos de idade, envolvidas nos meandros políticos de independência e colonialismo, dominação e liberdade, não é tarefa fácil, exigindo tato e bom-humor, responsabilidade ideológica e traquejo vivencial para que sejam evitados os tons do panfletário e do propagandístico.

(Artigo extraído de http://omundocircundante.blogspot.com)


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*Poeta, crítico literário e ensaísta. Formado em Pedagogia e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Publicou os livros de poesia Na solidão do neon (Pirata, 1983), Vigílias (Fundarpe, 1990), Poemas (Ed. Universitária da UFPE, 1999), O impossível dizer e outros poemas (Bagaço, 2005) e de ensaios Para ler Maximiano Campos (Bagaço, 2008) e Musa fragmentada - a poética de Carlos Pena Filho (Ed. Universitária da UFPE, 2009). Organizou, em colaboração com Antônio Campos, o livro de contos do Prêmio Maximiano Campos nas versões 2, 3 e 4 (IMC/Bagaço, 2008). Tem poemas publicados em antologias diversas, além de artigos e resenhas espalhados em sites, jornais e revistas de Pernambuco e de outros estados.
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Memória (Inocêncio de Melo Filho)
















Quando a indesejável das gentes
Vier me buscar
Que meu retrato fique pendurado
Na parede
É o tudo ou o pouco do resíduo
Que sempre fica
Para que a memória persista
Nas ações (cruéis) do tempo.
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segunda-feira, 12 de abril de 2010

O mundo sob o olhar feminino (Adelto Gonçalves*)



Neste começo de século XXI, a literatura produzida por homens encontra-se num beco sem saída. É difícil encontrar um não só entre brasileiros como entre estrangeiros que não faça imagens já conhecidas, o que não significa dizer que não existam grandes escritores. Não é isso. É que, como sabe quem já leu Virginia Woolf (1882-1941), Clarice Lispector (1920-1977), Nélida Piñon (1937), Marina Colasanti (1938), Agustina Bessa-Luís (1922) e outras tantas, as mulheres escrevem de uma maneira distinta. Costumam recorrer a imagens próprias, muitas vezes completamente novas, porque têm, naturalmente, outra maneira de olhar para o mundo, outra sensibilidade. É caso de Leila Guenther (1976), nascida em Blumenau, Santa Catarina, que acaba de estrear na literatura com o livro O voo noturno das galinhas, em que reúne 33 contos. Na maioria, são contos curtos — um, inclusive, dedicado à memória da poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983), quase um poema, que, de tão curto, pode ser reproduzido aqui:
"Eu também me mato todos os dias, às três horas da tarde. Depois volto às mesmas coisas de sempre até pensar de novo na minha próxima morte".
São contos escritos num estilo seco, de frases enxutas, diretas, que equivalem a retratos do cotidiano. Mas não são flagrantes fixados com essas modernas máquinas digitais em que toda a realidade é captada nos mínimos detalhes. É que, como diria Jaime Rest (1927-1979) em El laberinto del universo (Buenos Aires, Ediciones Librerías Fausto, 1976), a propósito dos contos de Jorge Luís Borges (1899-1986), vivemos em dois universos, que são análogos e co-extensivos, mas que ao mesmo tempo se opõem como a imagem refletida num espelho. Um é este mundo em que vivemos; o outro é o sistema de símbolos que utilizamos para interpretar o anterior. Um é real, o outro é fictício. Na definição de Rest, o fictício é a imagem registrada no espelho de nossa reflexão sistematizadora. O real, na medida em que o enunciamos e sistematizamos com palavras, converte-se imediatamente em ficção. Homens e mulheres, porém, o fazem de maneira diversa, como prova a literatura feminina, essencialmente introspectiva, deste último século em que as escritoras se assumiram e conquistaram seu lugar num mundo dominado amplamente por escritores, como se pode comprovar com o simples correr dos olhos por qualquer biblioteca acadêmica. Se homens e mulheres são diferentes no agir e no pensar, fatalmente, teriam de ser diversos nas estratégias retóricas a que recorrem para colocar no papel o que lhes corre no íntimo.
Quem duvidar que leia estes contos de Leila Guenther, que nada têm de uma autora estreante. Seus contos são produto de uma sensibilidade extremamente feminina, delicada, introspectiva, que recorre ao tom confessional para oferecer não uma história completa, mas apenas um momento dessa história, como se ao leitor fosse dada a oportunidade de completá-la com a experiência que os anos já lhe deram. Não é só. O estilo da autora, de repente, oferece preciosidades como esta frase que abre o conto “Passagem”: “Ajuntou suas coisas como se recolhesse as folhas caídas de uma árvore no outono”. Ou como a abertura do conto que dá título à coletânea em que o leitor surpreende a solidão de uma mulher enquanto seu homem não chega: “Passo bastante tempo examinando meus seios e como eles inflam quando inspiro. Desenvolveram-se quando eu já não crescia mais. Não há semente alguma no meu ventre para eles terem tomado essa forma quando já é tarde. É tarde e é bom que seja, penso.Assim, no tempo de minha cabeça, dividido entre peitos e pequenas coisas do cotidiano, apresso a volta de Lúcio (...)”.
Não se pense, porém, que este livro fica circunscrito ao universo feminino. Em “A fera”, um dos raros contos mais longos que ocupa quatro páginas, a contista entra no âmago de um homem solitário, austero, pouco sociável, “talvez até louco”, que convive com um ser estranho em sua própria casa, que lhe dá o mesmo trabalho que um animalzinho de estimação daria. Quem seria? Talvez um dos fantasmas que obcecam os ficcionistas e que, enquanto não passam da mente para o papel, não lhes dão paz. Em “Morfina”, outro raro conto mais longo, é de novo um personagem masculino que encontramos, um tipo fora do normal, louco manso, que lembra alguns personagens de Murilo Rubião (1916-1991). Em “Vinte anos depois”, uma mulher dentro de um ônibus remete para o conto “Amor”, de Clarice Lispector, em que uma dona-de-casa tem a sua rotina interrompida, ao ter de dentro de um bonde a visão de um cego mascando chicletes. A proposta, porém, é diferente: a personagem surpreende-se, ao ver a si mesma pela janela de vidro duas décadas mais tarde, “com o rosto mais murcho, os sulcos ao redor da boca mais vincados”.
Por falar em influências, a própria autora, no “Epílogo”, deixa suas pistas, ao compor um texto com frases extraídas de obras de Machado de Assis (1839-1908), Graciliano Ramos (1892-1953), Jorge Luis Borges, Albert Camus (1913-1960), Hermann Hesse (1887-1962), Salman Rushdie (1947), Clarice Lispector, Dante Alighieri (1265-1321), Raduan Nassar (1935) e Samuel Beckett (1906-1989). Uma lista para ninguém pôr defeito. Influências que só poderiam resultar numa contista já madura, consciente de sua arte, que estréia como se já fosse uma veterana no ofício.
Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, Leila Guenther trabalha como revisora de textos na cidade de Campinas, interior de São Paulo, onde reside. Antes deste seu livro de estréia, só havia publicado contos em revistas, jornais de literatura e sites. Atualmente, faz mestrado em teoria literária na Universidade de São Paulo, estudando a obra da escritora russa Nina Berbérova.

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O VOO NOTURNO DAS GALINHAS, de Leila Guenther. São Paulo: Ateliê Editorial, 103 págs., 2006. E-mail: atelieeditorial@terra.com.br

* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Meus amigos desses brasis (Nilto Maciel)

(Mimeógrafo)


Após a publicação de Itinerário (1974), criei o jornal Intercâmbio. Há algum tempo, eu mantinha contatos com diversos “nanicos” (pequenos jornais, mimeografados) de todo o Brasil. Comunicavam-se uns com outros, formando uma cadeia. Cada um divulgava os demais. E, assim, todos os “editores” (jovens escritores) se conheciam: de Norte a Sul, de Leste a Oeste. E com eles me correspondia. Não lembro qual deles conheci primeiro. Havia também pequenos jornais impressos em tipografia, conhecidos como “independentes” ou “marginais”. Aqueles publicavam apenas poemas e contos curtos, estes também tomavam posições políticas ou adotavam determinadas diretrizes ideológicas, de oposição à ditadura militar, eram legalizados e vendidos em bancas: Pasquim, Movimento (nele saiu um conto meu, em 19/4/76), Opinião, Abertura Cultural, etc.

O Jornal de Letras, dos irmãos Elysio, João e José Condé, criado em 1949, no Rio de Janeiro, é um caso à parte. Nele sonhava me ver publicado. No entanto, não conhecia os editores e colaboradores, nomes muito importantes para mim. Para me aproximar, passei a mandar notícias do Ceará literário. A primeira delas saiu em maio de 75 e se intitulava “Semana de estudos”. Como não se tratava de matéria assinada, ousei falar também de mim. E eis como se manifestou a cabotinagem mais deslavada: “o contista Fernando Maciel, que estreou com Itinerário, de forma auspiciosa, mandou originais de dois livros, também de contos, para editoras do Rio: A vida íntima de Mozart e O último dia de Pompéia.” Quanta tolice! No aposto bajulador (no caso, autobajulador) “de forma auspiciosa” e na própria informação (como se fosse notícia ou tivesse importância mandar originais para editoras). Na edição de julho daquele ano, os editores do JL me concederam mais espaço e publicaram as notícias por mim enviadas no mesmo bloco em que aparece Pedro Lyra, com citação de nossos nomes como correspondentes, embora com erro no meu. De qualquer forma, eu me tornara correspondente do mais importante órgão literário do Brasil. Na edição de setembro, o espaço reservado ao Ceará é assinado por Nilto Fernando Maciel e na de dezembro retirei o primeiro nome (não me decidira, ainda, por um nome literário).

Reconhecido como jornalista, em 76 publiquei notícias, artigos e até editoriais no Unitário, de Fortaleza. Pelo menos, dois pequenos artigos assinados: “A literatura cearense hoje” e “Os novos tempos da literatura”. E duas reportagens, também assinadas: “Medo do Quinze: a simplicidade em Raquel de Queiroz” (4/7/76) e “Di Cavalcanti: o pintor das mulatas”. Divulguei também crônicas, algumas sem assinatura (“Praça do Ferreira”), outras assinadas (“O rádio e os outros”, “Comerciária: realidade e sonho” e “O marceneiro”). A seguir, colaborei em periódicos de outras cidades, como O Popular e Folha de Goiaz, de Goiânia; Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro; Correio Braziliense, de Brasília; e Diário do Comércio, do Recife.

É desse período minha amizade com diversos escritores novos de todo o Brasil. A maioria deles nunca sequer vi, excetuados os brasilienses (não de nascimento, pois todos vinham de outros Estados). São daquele período Glauco Mattoso, Enéas Athanázio, Francisco Miguel de Moura e poucos outros. Com o carioca tornado paulistano Glauco mantive intensa correspondência durante alguns anos, ele com suas folhas mimeografadas, como Dobrabil, repletas de poemas e contos satíricos. Admiro nele o seu panbrasileirismo. Pois se tornou íntimo do velho Gregório de Matos, sem esquecer Cego Aderaldo e os violeiros nordestinos. O catarinense Enéas é anterior ao Saco e posterior ao apocalipse. Imaginava-o um tipo corpulento, de estatura gigantesca. Mas isso não me preocupava. Sobretudo porque jamais o veria. Não precisaria quebrar o pescoço para olhar em seus olhos. E se o visse? Pois ele costuma andar pelas bandas do Norte e do Nordeste do Brasil. É um desses seres que pensam o Brasil como um conjunto harmônico de povos desarmonizados pelas elites políticas e financeiras. E eu o vi em Balneário Camboriú, num dia de chuva. Quando o vi, não acreditei estar diante dele, aquele homenzinho quase miúdo. Pois o piauiense Chico Miguel (não gosta de ser chamado de escritor piauiense, mas brasileiro) é também miudinho. De olhos azuis, branco como uma vela. E alegre como o goiano Salomão Sousa. Conhecemo-nos desde os tempos das revistas Ciranda e Cirandinha, Intercâmbio e O Saco. Entretanto, quiseram os deuses que só nos víssemos em Havana, já em 2000. Bebemos muito, contamos muitas piadas, passeamos de triciclo e carro modelo 1950, sem jamais falarmos na Revolução Cubana.

Com os brasilienses mantive boa amizade nos anos em que vivi na capital federal, como Salomão Sousa, Guido Heleno, Emanuel Medeiros Vieira, Adrino Aragão e outros. O primeiro vivia na minha casa, e eu na dele. Jornalista por profissão, devotava-se a ler o melhor da literatura e a escrever poemas. Além disso, se dedicava a rir. Ria quando nos víamos, de alegria. Ria quando conversávamos, mesmo que o assunto fossem as guerras, as misérias humanas, os males do mundo. Rir para ele era (e deve ainda ser) uma forma de dizer: apesar de tudo, estamos vivos. Indicou-me e apresentou-me escritores de quem eu nunca me aproximara, como Robert Musil, eu que só conhecia Hoffmann, os irmãos Grimm, Thomas Mann, Goethe, Hesse e outros poucos alemães. Comprava tudo de bom e emprestava, sem receios. Falava de Goiás sem parar, numa saudade sem fim de sua terra. Íamos com muita frequência a Goiânia, para encontros com escritores locais, como Valdivino Braz, Miguel Jorge, Aidenor Aires, Brasigóis Felício, Alaor Barbosa, Yêda Schmaltz, Antônio José de Moura e Dionísio Pereira Machado, quase todos vindos dos tempos dos jornais nanicos.

O mineiro Guido Heleno é outro amigo daquele tempo. Participava de tudo: discussões, encontros, seminários. Sempre a contar piadas. Outro amigo do riso. O catarinense Emanuel Medeiros eu também conhecia (seus livros) desde Fortaleza. Grandalhão e de voz potente, assustava os mais raquíticos e tímidos. Entretanto, sua exaltação não o tornava áspero. Só o vi perder o controle emocional uma vez, quando um amigo nosso o ofendeu com palavras, num bar. Adrino Aragão, amazonense, também se iniciava no palco das publicações, com a mesma euforia dos outros. Depois foi perdendo o ânimo, como acontece com todos.

Fortaleza, março de 2010.
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terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma Viagem na época dos Descobrimentos (Pedro Silva*)



Um sonho de criança

- Bartolomeu! Bartolomeu! – grita uma donzela formosa, com pouco mais de trinta anos.

Por todo o lado procurava, mas o seu filho não aparecia em sítio algum.

De repente, um franzino jovem surge. Tinha um olhar simpático. O cabelo despenteado. Mas a sua maneira de ser era delicada:

- Desculpe, mãe. Estava a brincar no riacho.

- Outra vez, Bartolomeu? Mas tu só te sentes bem junto à água?

O jovem, envergonhado, encolhe os ombros e responde:

- Por acaso… sim! – e corre a abraçar a sua mãe.

Estávamos em 1465 e Bartolomeu Dias, nascido em Mirandela, uma belíssima localidade transmontana, dava os primeiros passos na sua futura vida de navegador. Apesar de ter apenas quinze anos, já o seu pai o incentivava a seguir as pisadas de Dinis Dias, seu parente e também famoso navegador.

Mas o nosso Bartolomeu iria ser ainda mais famoso. Porém, nesta altura, ainda o não sabia.

Ao jantar, o seu pai, conhecedor por ser de poucos sorrisos e de poucas falas, dirigiu-se ao filho:

- Bartolomeu, tua mãe contou-me que passaste o dia junto ao riacho. É verdade?

- Sim, pai, é verdade. Perdoe-me. – e o jovem baixou a cabeça, em tom triste.

- Sabes que a vida não é só brincadeira, não sabes?

- Eu sei, meu pai, mas…

- E olha que a nossa vida tem sido de trabalho. Os sonhos são apenas para quando dormimos. A realidade é bem diferente quando estamos acordados. – afirmou o pai de Bartolomeu Dias.

- Desculpe, pai. Mas isto não é um sonho, eu serei mesmo navegador!

O pai não deixou de esboçar um pequeno sorriso. O empenho do seu filho era de louvar. Dentro do seu coração, o pai de Bartolomeu desejava que este conseguisse ser o mais famoso dos navegadores portugueses. Mas também sabia as dificuldades que o filho teria de enfrentar. “Porém, sonhar não custa”, pensava de si para si.



Vivendo um sonho

Pouco anos depois, Bartolomeu Dias despediu-se dos pais e rumou a Sul. O destino era a capital de Portugal, Lisboa. Era lá que todos os sonhos seriam possíveis de conquistar. Até então, passara os seus dias numa pequena povoação do interior do país. Nunca vira o mar, mas sonhara com ele todos os dias de sua vida.

Deslocou-se para Lisboa. Ali estudaria matemática e astronomia na Universidade de Lisboa. Mas, ainda antes de começar a estudar, a primeira atitude que teve ao chegar à capital foi deslocar-se à zona de Belém. A razão? Queria ver o local de onde as caravelas partiam rumo ao desconhecido.

“Que local magnífico!”, pensava Bartolomeu, olhando para tanta agitação. Eram marinheiros que se despediam das suas famílias. Eram vendedores que apregoavam os seus produtos. E, por fim, eram crianças que choravam de saudades ao ver a chegada dos seus pais ou que brincavam indiferentes a tudo o mais.

Com tudo isto sonhara o jovem Bartolomeu Dias quando, pouco tempo antes, partira de Mirandela rumo a Lisboa. Na viagem não parara de fazer perguntas a Dinis Dias, o seu parente que ganhara alguma fama ao comando de caravelas. Queria saber tudo: como se preparava uma expedição; quantos marinheiros levava a embarcação; e, mais importante, quando ele poderia participar. A tudo respondia Dinis com a sua calma de sempre. À última pergunta, respondeu-lhe: “na altura certa, chegará o teu momento de embarcar”.

Os estudos passaram a correr. Tudo aprendia a um ritmo louco tal a ânsia de largar terra firme e aventurar-se no alto mar.

Quanto os estudos terminaram, e auxiliado pelo seu familiar Dinis Dias, entrou na corte portuguesa. À sua frente estava D. João II. Assim que o viu, Bartolomeu ajoelhou-se. Era o seu rei que ali se encontrava. Portanto, mandava a educação que lhe fizesse uma vénia.

- Levantai-te. – afirmou o soberano.

- Obrigado, senhor. É uma honra poder estar aqui na tua presença. – disse Bartolomeu.

- O que quereis de mim? – perguntou D. João II, o Príncipe Perfeito.

- Senhor, eu gostaria… - a voz parecia não sair, dada a sua timidez. – Eu gostaria de poder participar na próxima viagem a África.

O rei pensou um pouco e respondeu:

- Pois bem, embarcarás daqui a dois dias, rumo a São Jorge da Mina, a nossa mais importante feitoria.

E assim foi.

Cruzando mares pela primeira vez chegou em 1484 ao local estipulado pelo rei. Ali esteve algum tempo, aperfeiçoando os seus conhecimentos marítimos e aprendendo os costumes locais.


A viagem de uma vida

Tão rapidamente ganhou experiência que, dois anos depois, o rei João II confiou-lhe uma importante missão: descobrir o Preste João das Índias. Desde há alguns anos que em Portugal se contava a história da existência de um rei muito rico que vivia na Etiópia. Esse rei, ao contrário dos reis que o rodeavam, era cristão. Portanto, poderia ajudar D. João II na conquista de novos territórios na África e na Ásia.

No entanto, este era o plano secreto.

Oficialmente, Bartolomeu Dias tinha como missão investigar as costas do continente africano. Isto para se tentar perceber se seria possível chegar à Índia por mar.

Nessa altura, em 1486, ninguém acreditava que fosse possível ultrapassar a zona conhecida por Cabo das Tormentas. Este nome havia sido ganho pelo facto de o mar ser muito perigoso e de muitos barcos ali terem desaparecido.

Mas Bartolomeu Dias não tinha medo de nada. Se o rei lhe havia solicitado essa missão, assim seria cumprida.

Na verdade, o navegador, que comandava duas caravelas, não chegou a encontrar qualquer notícia do mítico rei das Índias, o famoso Preste João. Porém, trazia relatos muito entusiasmantes para D. João II.

Chegado à corte, Bartolomeu correu para junto do seu rei e declarou:

- Senhor, é possível dobrar o Cabo das Tormentas. Eu sei!

- Mas como tal será possível, Bartolomeu? – perguntou o monarca.

- Acreditai em mim.

Perante tamanha demonstração de optimismo, o rei decidiu, uma vez mais, confiar no seu navegador. Apesar de todos os projectos concretizados pelos portugueses, a cada momento sentia-se a necessidade de ir um pouco mais além. E, neste momento, dobrar o Cabo das Tormentas era o maior desafio da nação. O rei sabia-o, tal como Bartolomeu Dias.

O dia da partida foi igual a tantos outros naquela zona de Belém do século XV. Muita tristeza misturada com enorme dose de esperança.

Se, por um lado, já se chorava de saudades do que estava para vir, por outro, havia sorrisos de expectativa em regressarem como heróis. Apenas Bartolomeu Dias se mantinha sereno. As histórias do passado não o atemorizavam. Os muitos barcos e vidas perdidos algures no Cabo das Tormentas, onde um gigante Adamastor afundaria as naus, não intimidavam o nosso Bartolomeu Dias. Ele tinha, do seu lado, a força da experiência e o poder fornecido pela crença nas suas capacidades. Estudara a geografia marítima do local durante alguns anos. Preparara-se enquanto comandante e enquanto marinheiro. Faltava, apenas, concretizar o seu sonho: tornar-se famoso honrando a bandeira de Portugal.

O mês de Agosto de 1487 marcou a partida de Lisboa. O dia estava solarengo. As almas dos marinheiros estavam iluminadas, quiçá do sol ou da esperança de um fruto radioso. Em Dezembro, alguns meses após a partida, chegavam à Namíbia. Era o ponto mais a sul que havia sido registado pelos portugueses. A partir daí, apenas o desconhecido imperava.

É então que o tempo deixa de ajudar. Uma violenta tempestade abate-se sobre a expedição marítima. Bartolomeu Dias manteve-se calmo, apesar do temor da sua tripulação. Voltava a pairar o medo de um acidente fatal. Durante treze dias andaram à deriva, procurando a costa, mas não a encontrando. Na verdade, ainda que não o soubessem, andavam bem perto. Passado algum tempo, aproveitando o vento favorável, navegou para nordeste. Sem saber, tinha concretizado um feito histórico, dobrar o Cabo das Tormentas. Porém, apenas viria a aperceber-se do que fizera na viagem de regresso. Ao regresso fora obrigado pela tripulação que, supersticiosa, temia pelo súbito aparecimento do mítico Adamastor. Mas nada disso aconteceu e quando perceberam que haviam cruzado o ponto mais complicado de África, todos se sentiram muito felizes. Lançaram os braços ao Céu, em jeito de agradecimento e alívio da tensão acumulada.

Ao regressarem a Lisboa foram acolhidos como heróis. O rei veio recebê-los pessoalmente e dar-lhes outra boa novidade: a partir daí, em homenagem aos bravos marinheiros, o Cabo chamar-se-ia da Boa Esperança, pois permitiria chegar à Índia por mar.

- Obrigado Bartolomeu. – disse o rei, olhando para o navegador entretanto regressado do alto mar.

- Senhor, apenas cumpri o meu dever.

Tanta humildade encerrava no seu coração.

E tanta vontade de servir o seu país. Assim como de estar junto à água, tal como quando era criança.

Pouco depois, partiu na expedição de Vasco da Gama, que viria a tornar real o Caminho Marítimo para a Índia.

E, em 1500, fez igualmente parte da missão de descoberta do Brasil, liderada por Pedro Álvares Cabral.

Tudo o que se seguiu ao feito principal, ou seja, o agora chamado Cabo da Boa Esperança, foi, para Bartolomeu Dias, apenas um justo acréscimo ao seu currículo de navegador.

Bartolomeu Dias foi a Boa Esperança que necessitávamos para tornar Portugal um importante país de comércio e de navegação marítima. Sem ele, provavelmente, não haveria, hoje em dia, tanto interesse na História dos Descobrimentos Portugueses…

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* Com mais de quarenta livros publicados, em países tão díspares quanto Portugal, Brasil, Espanha ou Chile, o autor português Pedro Silva (1977) tem, igualmente, produzido títulos em diversas áreas temáticas, tais como o ensaio histórico, a ficção, o roteiro turístico ou mesmo os contos. Para além disso, o escrito, tem-se dedicado igualmente a colaborar com diversos jornais portugueses, assim como revistas de História em Portugal e Brasil, tais como “História Viva”, “Desvendando a História” ou “Aventuras na História”.

Contacto: ps77@aeiou.pt
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