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terça-feira, 6 de julho de 2010

Onde (Pedro Du Bois)

Você

vinda

de longe: onde notícias mudam

o estar candente?

onde premissas alteram

o estar presente?

onde raízes encobrem

o estar absorto

ao tempo?


Vinda de longe você recupera

no trajeto a necessidade de ter

estado além do aceso fulgor

das descobertas: onde vidas

consomem o estar adiante?


http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1278
http://www.mhariolincoln.jor.br/convidados/pedro-du-bois-6.html
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

(Outros) versos marinhos (Silmar Bohrer)



Vou por linhas paralelas

versinhos versificando,

e as rimas, tantas delas,

entre açucenas rimando.


Ares que me fazem bem

os ventinhos cá da praia,

e ainda trato com desdém

essa tal de essência gaia.


Viver versejando versos

eis então o que se adora,

versos pobretes, dispersos,

todavia, ou embora.


Uma noitinha toutinegra

estamos vivendo na praia,

nesta noite não se arregla

nem mesmo a essência gaia.


Serão versos silmanares

estes versinhos meus,

sei que são bem exemplares

aos olhos do bom Zeus.


Daqueles dias enfadonhos

em que o sol está ausente,

ventos, ventinhos medonhos,

nuvens nublando a gente.


Velocidades constantes

ventarolando os ventinhos,

são os dóceis arezinhos

ventando esvoaçantes.


Sentar cá no escurinho

é uma delícia sem par,

me vou longe a divagar

buscando algum versinho.


Como vou eu então ficar

sem o menor pensamento,

é folha levada ao vento

que corro longe a buscar.
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domingo, 4 de julho de 2010

O senhor embaixador (Adelto Gonçalves*)

I

O embaixador Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010) esteve nove anos a braços com uma tarefa de proporções ciclópicas: traduzir para o português o romance em versos Eugênio Onegin, obra-prima do poeta russo Alexander Pushkin (1799-1837), precursor de Dostoievski (1821-1881) e Tolstoi (1828-1910). O livro acaba de ser publicado (Rio de Janeiro, Editora Record, 2010, 288 págs., R$ 47,90), mas o embaixador não poderá fazer o lançamento que imaginava organizar nos jardins da Embaixada do Brasil ou no Palácio Galveias em Lisboa. O embaixador faleceu dia 6 de junho em Fortaleza.

Ainda bem que a Academia de Literatura Russa agiu com rapidez e já lhe havia reconhecido o trabalho com uma condecoração. Também o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, com a parceria do Instituto Rio Branco, fez-lhe, em janeiro de 2009, uma homenagem na sede da Embaixada de Portugal em Brasília.

Natural de Fortaleza, o embaixador Dário cumpriu duas brilhantes trajetórias: na diplomacia e na literatura. Em 1984, publicou Era Lisboa e Chovia (Rio de Janeiro, Nórdica) sucedido por Era Tormes e Amanhecia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1992) e Era Porto e Entardecia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1995), trilogia que constitui um mergulho profundo no universo de Eça de Queiroz (1845-1900). É também autor de Dinah, Caríssima Dinah (São Paulo, Horizonte Editora, 1989), livro em que homenageou a esposa, Dinah da Silveira de Queiroz (1911-1982), romancista, cronista e contista que integrou a Academia Brasileira de Letras, com quem foi casado de 1962 a 1982. Seu último livro foi Luso-Brasilidades nos 500 Anos (Universidade Federal do Ceará, 1999), que reuniu artigos e palestras.

II

Filho de uma família de grandes comerciantes e industriais, ele preferiu seguir sua vocação e continuar os estudos no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Seguiu, então, para o Instituto Rio Branco, preparando-se para a carreira diplomática. Tornou-se poliglota. Aos 22 anos, após um estágio na Organização das Nações Unidas (ONU), foi nomeado terceiro-secretário. Em 1954, passou a cônsul de segunda classe, trabalhando em Buenos Aires até 1958. Em Nova York, foi segundo secretário da ONU, entre 1958 e 1960.

De 1962 a 1964 foi primeiro-secretário na Embaixada do Brasil em Moscou, onde teve despertada a sua paixão pela literatura russa, e de 1965 a 1967, cônsul em Roma e, em 1971, primeiro secretário. Após 27 anos de trabalho, chegou, em 1979, ao cargo de embaixador, representando o Brasil em Lisboa até 1983. Já havia sido chefe de gabinete do ministro das Relações Exteriores e secretário-geral e ministro-interino das Relações Exteriores. De 1983 a 1989, foi embaixador na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington. Foi ainda cônsul-geral do Brasil no Porto até 1990, quando se aposentou com categoria de embaixador.

Em vez de retornar ao Brasil, preferiu fixar residência em Lisboa, num apartamento no Campo Grande, a 100 metros da Biblioteca Nacional, até onde se deslocava quando necessitava apurar alguma informação. Por isso, sempre foi tratado por todos os diplomatas que o sucederam no cargo em Lisboa como uma espécie de embaixador-honorário do Brasil. Era freqüentemente convidado a dar palestras em instituições portuguesas, como a Academia das Ciências de Lisboa. Foi eleito membro da Academia Portuguesa da História. E era presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira.

III

Aos pesquisadores e estudantes brasileiros em Portugal sempre foi um porto seguro, ajudando-os com indicações e informações preciosas. Em 1998, o ex-embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira (1929-2007), por moto próprio, ofereceu-lhe o livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Universidade Santa Cecília, 1997), deste articulista. Como à época escrevia o prefácio para o livro Fernando Pessoa: o Antidemocrata Pagão, de Ruy Miguel (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), Dário citou Fernando Pessoa: a Voz de Deus para lembrar que o poeta não havia sido fascista, mas defensor de uma monarquia ideal baseada na opinião pública.

Foi o que bastou para interessar a editora portuguesa por algum trabalho deste articulista. Assim, em 1999, saía pela Nova Arrancada, de Lisboa, o romance Barcelona Brasileira, com prefácio de Dário Moreira de Castro Alves. Escrito em 1983, o livro, que trata da agitação anarquista no Porto de Santos entre 1917 e 1922, só sairia no Brasil em 2002 pela Publisher Brasil, de São Paulo, com a apresentação de Dário Moreira de Castro Alves e prefácio do professor Massaud Moisés, da Universidade de São Paulo.

Por indicação ainda do embaixador Dário Moreira de Castro Alves, este articulista escreveu prefácios para dois livros de contos de Machado de Assis organizados pelo professor Vadim Kopyl e publicados, em 2006 e 2007, pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia, em edição bilíngüe russo-portuguesa, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

IV

Embora extremamente afável, Dário Moreira de Castro, à primeira vista, parecia bastante formal – pedia a quem o visitasse em sua residência que assinasse o “livro de honra” e às mulheres sempre fazia um salamaleque em que apenas fingia que beijava a mão da dama –, mas, depois de alguns minutos de conversa, deixava de lado as exigências diplomáticas para uma conversa bastante descontraída em que gostava de lembrar seus primeiros tempos de Fortaleza. Mas o que o fazia falar por horas com mansuetude na voz era mesmo a Lisboa de Eça de Queiroz.

Andar ao seu lado num automóvel pelas ruas lisboetas era redescobrir a urbe queirosiana e resgatar os passos de suas personagens: “Ali naquele prédio da esquina da Rua Áurea com o Rossio ficava o consultório de Carlos Eduardo” (personagem de Os Maias), apontava. Ou: “Esta é a correnteza de casas velhas a que se refere Eça em O Primo Basílio”, dizia, mostrando o Largo de Santa Bárbara, nos Arroios.

Às vezes, dizia para seu motorista particular desviar o caminho só para passar por uma ladeira íngreme de um bairro bem degradado da velha Lisboa: “Aqui o Xavier foi viver com a espanhola Carmen, num casebre da Rua da Fé”, dizia, referindo-se a personagens de A Relíquia. Todos esses logradouros estão retratados em Era Lisboa e Chovia em fotos de seu amigo A.Campos Matos, arquiteto e notável queirosiano.

O que o fazia perder um pouco a fleuma britânico-cearense era a velha discussão sobre a morada de onde Eça de Queiroz tirara a inspiração para criar O Ramalhete, casa em que a família Maia (Afonso e o neto Carlos Eduardo) passou a habitar no outono de 1875. Para o embaixador, Eça teria se inspirado na casa do Conde de Sabugosa, um dos vencidos da vida, que fica em Santo Amaro, perto da Junqueira, na Rua Primeiro de Maio, 120-124, a meio caminho entre Alcântara e Belém, e não no bairro das Janelas Verdes, como muitos estudiosos diziam. Seguia o que afirma A.Campos Matos em Imagens do Portugal Queirosiano (Lisboa,1976).

Os passeios sempre terminavam com um almoço ou jantar num dos restaurantes preferidos de Eça de Queiroz, nas proximidades do Chiado. O cardápio tinha de acompanhar rigorosamente a gastronomia queirosiana regada sempre por bons vinhos e outras bebidas, seguindo o que escrevera em Era Porto e Entardecia, que traz uma lista de todas as bebidas mencionadas por Eça, do absinto à zurrapa, e em Era Tormes e Amanhecia, que constitui um completo dicionário gastronômico cultural, com o nascimento literário de Eça de Queiroz na região do rio Douro. Sem contar o privilégio de se apreciar a bebida ouvindo a história de sua origem, pois Dário Moreira de Castro Alves também é autor de O Vinho do Porto na Obra de Eça de Queiroz (Sintra, Colares Editora, 2001).

V

Em 2003, já vivendo o inverno da vida, viúvo pela segunda vez, depois da morte de Rina Bonadies de Castro Alves, o embaixador decidiu voltar para Fortaleza, para um apartamento na Praia do Meireles, defronte para as águas verdes do Atlântico. De lá, porém, continuou a sua missão de construir pontes de entendimento entre o Brasil e o mundo, especialmente com Portugal e a Rússia. Era presença constante como articulista nas seções culturais dos diários e dos jornais literários, sempre em defesa da lusofonia, o que o levou a se colocar em 1993 ao lado do embaixador José Aparecido de Oliveira na luta pela criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Brasil, Portugal e Rússia talvez não saibam, mas perderam um grande pontífice.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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sábado, 3 de julho de 2010

Seis livros brasileiros Ou Brasil versus Holanda (Nilto Maciel)



Neste momento, 9 horas e 20 minutos do dia 2 de julho de 2010, milhões de seres humanos se preparam para assistir a mais um espetáculo: um jogo de futebol. Outros menos afortunados leem Kafka. Alguns desses humanos esquisitos ouvem Aran Khachaturian. Dois ou três na Geórgia, porque santo de casa não faz milagre. Ou isso é coisa de brasileiro? Ninguém, no entanto, nenhum ser humano, neste momento, tem diante dos olhos os seis livros que recebi no mês findo. Que impressos serão estes? O Dom Casmurro? Não. A Divina Comédia? Não. Nenhuma peça da biblioteca essencial. São pequenas obras de seis brasileiros: Anderson Braga Horta, Belvedere Bruno, Enéas Athanázio, Lina Tâmega Peixoto, Ronaldo Monte e Whisner Fraga. Quem os conhece? E que importância há nisto, meu caro Nilto? Para a Rede Globo de Televisão nenhuma. Nem para as massas humanas, nem para os poucos leitores de Kafka e os raríssimos ouvintes de Khachaturian. Para mim, no entanto, eles são importantes. Porque leem Kafka, Machado e Dante, ouvem Sibelius, Mascagni e Fucik e me mandam suas publicações.

Anderson é mineiro e mora em Brasília; Belvedere proveio de Niterói e nela reside; Enéas, nascido em Campos Novos, Santa Catarina, vive em Balneário Camboriú; Lina nasceu em Cataguases e habita Brasília; o alagoano Ronaldo está em João Pessoa; o mineiro Whisner se radicou em Ribeirão Preto. Conheço-os há algum tempo. A mais antiga amizade talvez seja a de Enéas, desde os tempos da revista O Saco. A mais recente deve ser a de Belvedere. Ou será a de Ronaldo?

O jogo está para começar. São 10 horas e 40 minutos. Estouram nos ares os fogos de artifício. Tenho fome. Preciso almoçar. Folheio a coleção de Anderson: Signo – antologia metapoética (Brasília: Thesaurus, 2010). São 253 páginas de poesia. Em “Palavras prévias” ele informa: “Divido esta antologia metapoética em quatro partes. Na primeira apresento, em ordem cronológica, os poemas (muitos inéditos) voltados para a linguagem, a palavra, a criação, o canto, a poesia, o poeta (mesmo quando não sejam o núcleo temático).”

Vinho branco (São Paulo: LivroPronto, 2010) marca a estreia de Belvedere. Na apresentação do volume, Ricardo dos Anjos opina: “podemos chamar de prosa poética seus contos e crônicas reunidos neste livro”. E prossegue: “E é justamente em momentos de silêncio que Belvedere parece tecer, entretecer e entristecer seus contos e crônicas que trescalam melancolia difícil de disfarçar, apesar de alguns surtos de alegria.”

A nova obra de Enéas intitula-se Ensaios escoteiros (Balneário Camboriú: Editora Minarete, 2010). Os breves estudos estão agrupados sob os títulos “Estrangeiros”, “Variados”, “Literatura amazônica”, “Nordestinos”, “Mineiros”, “Calmon, o homem e a cidade”, “Crispim Mira”, “Guido Wilmar Sassi”, “Catarinenses” e “Romancistas”.

Prefácio de vida (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2010) é o título da publicação de Lina. E é dela o pequeno ensaio “Cecília Meireles – estrela e abismo” que antecede os poemas e “deve ser lido como prefácio”. Em nota, a poetisa explica: “Não se pretende trazer à superfície o que está imerso nos poemas, mas abrir a claridade para o entendimento de como as referências a pensamentos, conceituações, ideias, impressões, estados do sentir e viver configuraram, na convivência com Cecília Meireles, as necessárias tensões do ato criador para formar minha linguagem poética”.

O romance de Ronaldo é Memória do fogo (Rio de Janeiro: Objetiva, 2006). Os créditos aparecem na última página, para “ludibriar” o leitor. Os textos das abas e da quarta capa estão na vertical. Rosa Amanda Strausz anuncia: “A prosa de Ronaldo Monte mistura a psicanálise e o catimbó, a filosofia e a tradição oral, o erudito e o popular, numa surpreendente teia de relações. Na Memória do Fogo, tudo arde – a começar pelo olhar do autor, que constrói amorosamente suas personagens, como se todas fizessem parte de uma mesma irmandade.”

Os poemas de Whisner estão reunidos em O livro da carne (Rio de Janeiro: 7Letras, 2010). O poeta, numa apresentação ou confissão, pondera: “Escrevo sobre as incontáveis infâncias que vivi na distante e (agora) irreconhecível Minas Gerais. (...) E creio ter dialogado com tempos imemoriais também, remotos a ponto de não alcançá-los, estejam antes ou depois do eu narrativo e muitas vezes poético.”

Devo deixar dormidos por uns minutos as seis peças. Preciso também ser como os que veem televisão, gritam gol, morrem de emoção. Nem só de literatura vivem os seres esquisitos como eu.

Fortaleza, 2 de julho de 2010.
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Porta (aberta para a poesia) (Tânia Du Bois)

Ao convidar para olhar pela porta, onde a luz escapa, procuro levar o leitor a invadir, encenar, sentir e saborear palavras que representam um palco de detalhes com criatividade, realçando o lirismo e a força da poesia. Abro a porta para espiarmos;

Pedro Du Bois: “Entre portas a entrada é suave /
se o destino sabe do encontro...”;

Lêdo Ivo: “Paredes têm olhos / Portas têm ouvidos.”
“E a vida vai se abrindo / em portas e janelas /
como se fora flor...”
“Onde está a outra porta? // A porta que busquei /
... é esta: aberta para a vida...”

Orides Fontela: “A porta está aberta. // ... Para além do que é humano
o ser se integra / e a porta fica aberta. Inutilmente”.

Mário Chamie: “... nem se espanta / quando abro essa janela ...
e nos renova / se uma porta atrás da outra
se desdobra...”

Nei Duclós: “Eu só preciso de uma coisa: / contar toda a verdade /
e esperar pela resposta // repetir o verso em cada porta”.

Observo que os poemas latejam metáforas da palavra inspiração e que, ao abrir a porta, podemos ver o nascer e a vida obstinada com os poetas.

A porta compõe a nossa vida, resguardando o direito de ir e vir, e deve estar harmonizada, porque nela reside a analogia com a linguagem e com a arte. Escritores, poetas, são responsáveis por essa sinfonia, eles têm ritmo próprio, personalidade exclusiva, como o design de cada porta. Por exemplo, a porta da frente traz a vibração e a alegria do poema, a porta do coração representa uma abertura para os sentimentos e a porta dos fundos reflete o espírito irreverente da criação.

A porta dá passagem para quebrar as regras, reinventar o vocabulário e permitir que autores diversos a apontem como se fosse uma grande estrela. A sensação está em abrir a porta e se deparar com a poesia.

Como Du Bois escreveu, “o poeta pensa que os deuses / não o abandonarão na hora / em que as palavras faltarem...”. E digo, viva a poesia! Sem ela não teríamos a liberdade para atravessar a porta e ouvir Paulinho da Viola, “... Eu até achava inspiração / Quantas vezes eu cantava / Quando não podia nem falar / É que meu violão me ajudava / A trazer esperança / Dentro de um poema”.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os rios e as montanhas (Nilto Maciel)

(Quadro de Chico Lopes)


O mundo todo está na África do Sul. Ninguém quer saber de Mandela ou dos pobres de lá. Iguais aos pobres da Namíbia, do Brasil e do resto da Terra. Todos só querem saber de futebol. A Copa do Mundo de Futebol. Um mundo de muito dinheiro. Uns poucos humanos pensam também em literatura. Cito quatro deles: Ronaldo Monte, Enéas Athanázio, Nelson de Oliveira e Audifax Rios. Pois estes quatro cavaleiros, em plena euforia futebolística, não me mandaram bolas, figurinhas, álbuns, notícias relacionados ao esporte. Mandaram jornais e revistas literários. Ronaldo mora em João Pessoa, Paraíba, e me deu de presente exemplar do número 4 da revista Ponto,; Enéas vive em Balneário Camboriú, Santa Catarina, e foi mais generoso: enviou o Jornal do Enéas, número 27, e O Nheçuano; Nelson de Oliveira transita por São Paulo, a megalópole brasileira, e me remeteu o número zero de Lettera Libris: Literatura & Afins; Audifax, meu concidadão (escondo-me no Parque Araxá da Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção), mandou-me o número 55 da revista Canto da Iracema.

Rosa dos Ventos (Fernanda Lym)

(Quadro de Chico Lopes)

impressionou-lhe a desnovidade que era a vida. até os dezoito anos pensava que cada ano e cada fase deveria ser marcada por músicas de bandas do momento, algumas modas ficariam, outras não, sonhava com o beijo de língua na boca de um namorado que pudesse chamar de seu, enquanto no céu brilhariam fogos de artifício durante a passagem de um velho ano novo. se dela dependesse, seus pais teriam o dom da eternidade, seu mundo de mentira continuaria a ser verdade, e não haveria perigo de andar livremente sem rumo, muito menos de pensar e agir diferente do que lhe impunham sem pudor. e ao mesmo tempo não sabia se a cíclica rosa dos ventos que era a vida lhe daria chances de criar outra oportunidade. sentiu como é fácil fazer das paredes de sua prisão doméstica braços que lhe acolhem num afago, quando tudo o que você mais deseja é se esconder de um medo cultuado feito fé cega. talvez porque todos agiam sincronicamente, previsivelmente camuflados em suas desesperanças, viu-se frágil taça de cristal, que emite belos sons se nela tocam, mas sangra fácil a mão de quem a estilhaça. e o ar-matéria que tudo ocupa sufocou-a como se em profundo mar ela se afogasse, sugada pelo ventre que a quis de volta sem pedir permissão.

http://trans-fusoes.blogspot.com/
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A permanência de um nome (Ronaldo Monte)

“O escritor José Saramago morreu”. Foi esta a mensagem que minha nora mandou para o celular de uma das minhas filhas. Era preciso deixar bem claro qual Saramago estava morto. Para isto serviam as palavras “escritor” e “José” na mensagem. Para que não se pensasse que um outro Saramago tinha morrido. No caso, o meu cachorro, que procura honrar o nome que lhe dei, ganhando o mundo ao menor descuido com o portão.

Conto isto para mostrar o quanto o nome Saramago é íntimo da minha casa. Muitas vezes por dia é repetido, tantas vezes quantas o incorrigível vira-latas transgrida as regras da boa convivência entre as espécies.

Foi esta intimidade com o nome, reflexo da minha intimidade com os livros de Saramago, que levou algumas pessoas a ligar para mim, me consolando pela morte do escritor. Vã tentativa, pois ninguém se consola de tamanha perda.

Não temos mais o narrador insólito que nos mostrava as feridas eternas da desumanidade como se as víssemos pela primeira vez. Não temos mais quem amplifique no seu texto a voz tímida dos oprimidos de todos os tempos e lugares. Nem mais o olhar ao mesmo tempo irônico e benevolente sobre as nossas fraquezas e presunções.

Desamarra-se de vez a jangada de pedra. A rocha de consciência e compaixão deriva agora pelas águas do sem tempo. Ser pedra e flutuar. Duro e leve de uma só vez. Talvez seja esta a lição que ele quis nos transmitir. Era isto, talvez, que nos dizia o seu olhar mesclado de ironia e esperança.

“O escritor José Saramago morreu”, dizia a mensagem no celular da minha filha. Mas em minha casa, seu nome ainda será por muito tempo repetido. Toda vez que esse outro Saramago, honrando o nome que lhe dei, desafiar com ousadia as ordens e os limites que tentamos impor à sua liberdade de cão.

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sábado, 26 de junho de 2010

Fugit (Aníbal Beça)


Mas então era isso?
Melhor que não fosse.

Mas como fugir dele
que voa sem asas, mas voa,
enquanto fico fincado
sem ao menos saber
se parto ou se fico
sem o arbítrio da deliberação?

Ah, mel do engano!
Por que me adoçaste
com a prepotência
veloz dos resignados?

Por que não me soltaste
junto à turba perdulária
dos que souberam
queimar etapas
na fogueira da intensidade
caldeirão
de tempero imediato?

Uma andorinha solitária
passa veloz no seu compasso de asas.

Será a mesma do último solstício?

Não importa.
senão o que ela empresta
do impulso viageiro tardio
levando não os meus pés
mas meus olhos
que se alçam sedentos
céleres
para conspurcar
lugares longínquos

O que não ousei com os pés
– caminhos que não pisei –
meus olhos alcançam por mim
deixando pegadas aladas
impressas no lençol do dia
no onírico leito do ócio indormido.

Ele
que descubro
Senhor das coisas
do nada e de tudo
do silêncio e do vazio
me diz sem muita cerimônia:
Passou.

E nada mais disse.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Minhas leituras de Saramago (Viegas Fernandes da Costa)

Recém havia saído da adolescência e, por uma razão ou outra, li Ensaio sobre a cegueira. Não que isso importe algo, essa experiência que tenho da leitura dos textos de Saramago, mas diante da intransigência da morte e do sentimento de impotência que esta nos imputa, não vejo por onde me rastejar senão pela memória das impressões que o universo saramaguiano me concedeu. Então, como dizia, li o Ensaio sobre a cegueira e pude compreender a potência de uma literatura visceral e honesta. Não se é possível ler tal texto, parábola de nossa condição humana, sem a sensação de se ter vivido uma experiência que lacera o espírito e nos envergonha de nosso individualismo e imobilidade, que mascaramos com gestos vãos e palavras estéreis. Ensaio sobre a cegueira me desloca, sempre, ao genocídio tutsi em Ruanda, ao genocídio palestino perpetrado sob nossos olhos ocidentais e hipocritamente cegos, ao silêncio a respeito do povo de Timor Leste e às vítimas dos desgovernos e terremotos no Haiti, cuja capacidade de comoção duram o tempo de uma passarela, porque enfastiados de vermos as mesmas ruínas, buscamos saciar nossa eroticidade mórbida em outros charcos de sangue, em outras postas de carne humana desmembradas de seus corpos. Assim, sempre houve esta sensação de vergonha e culpa, sim, vergonha e culpa, que este primeiro contato com um texto de Saramago me provocou.

Movido pela inquietude provocada por esta primeira leitura, busquei mais. Foi quando me tocou o corpo o Memorial do convento. Marcou-me a poesia de um certo padre Bartolomeu, inventor de herética geringonça alada movida pelas vontades humanas que seu ajudante, Baltasar Mateus, colhia em um frasco em meio à multidão. Claro está, não há melhor combustível que faça voar um sonho senão a vontade humana. Entretanto, esta escapa-nos do corpo tangido pela necessidade de sobreviver. Memorial do convento ensinou-me que não há humanidade onde as vontades dão lugar à necessidade, onde se confunde sonho com devaneio. Sei que não cabe à literatura dar lições. Não, claro que não. Entretanto, o diálogo que estabeleço, enquanto leitor, com as provocações de um texto, apesar de socialmente construído está profundamente marcado pela subjetividade. Por isso posso reconhecer que sempre serei grato a Saramago por tudo que aprendi com Blimunda, Baltasar e Bartolomeu, personagens centrais desse seu Memorial. Grato por compreender aquilo que afinal nos constitui tão únicos, mas que nos foge quando tangidos qual gado a mover a roda do engenho.

Feitiço lançado, segui estupefato o fio de Ariadne, acompanhando os passos do Senhor José – o personagem – pelo labirinto de prateleiras vergadas e empoeiradas da velha Conservatória, guardiã do esquecimento. Falava Saramago – o autor – nas páginas que me remeteram a um Kafka revivido para concluir sua obra, tão tensa e intensa a trama e a fábula de Todos os nomes. Como possível uma história tamanho extraordinária? – a questão que me incomodava a cada linha sem pontuação que se desdobrava ante meus olhos de criança deslumbrada! Criança deslumbrada, com o perdão do pleonasmo, porque não há infância sem deslumbramento. Pensei ter lido o cume; engano! Indisciplinado, encontrei-me com um Cristo humano e carnado que, reconheço, quase me convenceu. Ironia do insólito! Como um ateu declarado podia reescrever uma história dois mil anos recontada e ainda assim torná-la inédita? E mais, como podia este mesmo ateu, ourives da palavra, construir uma das mais poéticas e profundas passagens da literatura universal, conquista sublime do espírito humano, quando nos transporta para o interior de uma barca atracada no centro de um mar tomado por intransponível nevoeiro? Saramago enfrentou Deus! Desfiou-nos um rosário de martírios e barbáries inconcebíveis e inexplicáveis capazes de dobrar as ambições do Diabo que, como Pastor que é, intervém junto a esse Deus sanguissedento em nome do perdão. A resposta? "Para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal"  – ei-la! Espernearam os guardiões do cristianismo. Saramago não fora o primeiro, é certo. Kazantzakis fizera-o antes, tal qual tantos outros. Entretanto, a lucidez e os argumentos do velho comunista moveram o catolicismo português a tentar intervir no reconhecimento literário daquele que viria a ser o primeiro autor da língua portuguesa laureado com o Nobel de Literatura. Mágoa e exílio na insular Lanzarote, onde o mestre da palavra conheceu a diferença entre estar e não já não mais estar.

Depois do Evangelho não houve texto de Saramago que não me interessasse ler. É bem verdade, reconheço, que nem tudo foi deslumbramento. No Ensaio sobre a lucidez, por exemplo, a impressão de um resvalo planfetário; e em Caim, o gosto de uma sopa requentada. Neste meu rastejar pela memória das impressões que o universo saramaguiano me concedeu não há espaço para o desonesto, por isso o registro. Mas não há nada como o bom estro de um artista que se reinventa, e houve a história do Elefante Solimão e seu cornaca Subhro, escrita após grave enfermidade nos estertores de 2007. Ocorreu-me, à época dessa leitura, o pensamento de que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Isto porque em A viagem do elefante encontrei um Saramago mais leve, consciente da importância da sua literatura, porém ciente, também, de que talvez já tivesse dito o que havia para se dizer, e que àquela altura da sua vida e carreira importava mesmo o prazer de escrever uma boa história. E que boa história, tão repleta de sutilezas e ironias!

Enfim, soube que já não está mais. Morreu o corpo de José na manhã de uma sexta-feira, ao lado da mulher que amava. A mim ocorreu-me, então, reler o discurso que proferiu quando da cerimônia de entrega do prêmio Nobel, em 1998, e onde inicia dizendo que o homem mais sábio que conheceu em toda a sua vida não sabia ler nem escrever. Conta ali a história dos seus avós maternos que, nos dias de muito frio, levavam os porcos mais frágeis da pequena criação para dormirem consigo, sob o calor das mantas grosseiras. Alertou-nos Saramago, ao narrar a tradição ágrafa da família que o apresentou ao mundo, que o verbo não se determina nos gens. Que o gênio se constrói na experiência e na coerência. E assim o fez! Neste mesmo discurso, reconheceu que sua voz ecoa nas vozes das suas personagens. E se dizia que a morte era a diferença entre estar e já não mais estar, o Saramago que se consagrou à palavra, que se multiplicou nas Blimundas e nos Raimundos, nos homens e mulheres do Alentejo e nos tantos homens e mulheres que encontraram a eternidade no terreno universal da sua Literatura, se já não está mais nesta matéria perecível que nos compõe a todos, continua estando nas criaturas pelas quais falou e se fez ouvir. Por isso não choro a perda do mestre, pois lágrimas estéreis. Simplesmente lanço meus olhos para a estante e escolho o livro que fará Saramago estar novamente comigo.

Blumenau, 20 de junho de 2010.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor dos livros Sob a luz do farol (2005), De espantalhos e pedras também se faz um poema (2008) e Pequeno álbum (2009). Permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e mantida a íntegra. Blog: http://viegasdacosta.blogspot.com
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domingo, 20 de junho de 2010

Versos Juninos (Silmar Bohrer)

Buenas:
Tem tido estado ausente o escriba das arábias, longe das borrascas de junho em Caçador. Saudoso das areias e dos verdes mares, esteve em Itapoá, na Barra do "meu" Saí, o paraíso encantado incrustado no litoral do extremo norte catarina. Céus azuis de brigadeiro. Tardes nebulosas. Ventinhos soprando do mar. Outros ares. A vida palpitando em câmara lenta. A pressa? Ausente das pessoas...
Mas esperem... não fui lá só para matar saudades. É que encontrei nas areias algumas dezenas de versos marinhos, que trouxe na algibeira e na planilha e agora estou a repassar (alguns) aos distintos amigos. São versos pobres, rimas tortas, inspiração marejada, mas têm a marca do poeta escriba-pensador.

VERSOS JUNINOS

A sinfonia dos mares
barulhentos cá da Barra
segue fazendo a farra
em constantes avatares.

Tardes longas hibernais
nas vacarias do mar,
ventos gemem nos beirais
e os mares seguem a marejar.

Na minha estada na praia
sempre busco companhia,
tenho ao lado uma vigia,
minha santa essência gaia.

Cá nesta paz do meu éden
tantas coisas acontecem,
muitas ondas se sucedem,
versinhos doces florescem.

Para manter a boa média
vamos então versejando,
de verso em verso cantando,
que esta vida é uma comédia.

Delícia, ou excelência
os arezinhos da praia,
com eles respiro a gaia
na sua mais pura essência.

Junho outra vez chegando
idade nova vem então,
e os versos permeando
o adorável sessentão.

O sonido cá dos mares
tem efeitos medicinais,
quand'ouço as ondas tais
renovo velhos pensares.

Ventinho. Céus. Avatares.
Águas. Areias. Praia.
Essência. Pureza. Gaia.
Naus. Ondas. Meus mares.

Estrelas andam ausentes
nesta noite toutinegra,
só um ventinho se arregla,
sorrateiro, entrementes.

Oh águas, oh céus, oh mares
deste mundão de meu Zeus,
abrigai os bons pensares
de tantos pensamentos meus.

Nas longas noites marinhas
fico escutando lamúrias,
as ondas batendo, penúrias
parecendo penas minhas.

Nos devaneios na praia
nem tenho buscado versos,
eles aparecem dispersos
disfarçados de essência gaia.

Escutando... escutando
o marulhar destas ondas,
me ponho sempre a indagar,
oh mar, por que tanto rondas ?

Esses ares cá da Barra
bem parecem salutares,
e de tanto os respirares
tu rirás, fazendo farra.

Chuva miúda, miudeza,
nesta noite mais fria,
vasculho com sutileza
algum versinho agonia.

Oh tormentosos mares
agitando noite e dia,
oh ondinhas singulares
espargindo maresia.

Macambúzia, taciturna
esta tarde à beira-mar,
e nem o céu há de mudar
na paisagem liburna.

Tenho tido a pescar rimas
nestas costeiras de mares,
só tenho ouvido sonares
com suas vozes bem finas.

Andam sonando tranquilas
as águas ali na praia,
até mesmo a essência gaia
fica silente a ouvi-las.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010

O miúdo que não gostava de ler (Pedro Silva)

Havia, há muito tempo atrás (sabe-se lá quanto…), um pequenito chamado Rodolfo que, por incrível que pareça, não gostava muito de ler. Parece um pouco difícil de acreditar, mas tantas letras faziam-lhe alguma confusão.

Por outro lado, na escola, não era nada mau a fazer contas!

O seu irmão, que tinha um feitio completamente diferente, gostava bastante de ler e, certo dia, decidiu fazer alguma coisa para mudar essa forma de ser de Rodolfo. Assim, escreveu-lhe um livro com pequenas histórias que ele pudesse ler, sempre que quisesse, e que fossem fáceis de compreender.

Assim foi.

Em frente da folha de papel, as palavras foram surgindo, algumas mais complicadas que outras, algumas com bastante dificuldade, mas o certo é que o irmão de Rodolfo gostava imenso daquilo que fazia, pois, acima de tudo, esperava que todo o seu esforço fosse devidamente recompensado, isto é, que as histórias fossem lidas e apreciadas com alegria pelo seu irmão.

Mas, no dia em que o livro foi entregue a Rodolfo, este ficou muito contente, riu, saltou, abraçou o irmão, mas… não leu quase nada. O irmão, de tão triste que estava, fechou-se no quarto e chorou.

Afinal de contas, tinha sido tão difícil escrever aquelas histórias e, agora que estava terminado, o seu irmão nem sequer tinha grande interesse em ler.

Rodolfo, arrependido, agarrou no livro e atirou-o para um canto, sentindo-se culpado pela tristeza do irmão. Estava enervado, não com o autor das histórias, mas consigo próprio, porque era tão fácil ler, mas tão difícil escrever e, como tal, custava-lhe que o esforço do seu irmão tivesse sido para nada.

No dia seguinte, na escola, a professora, como sabia que o pequeno Rodolfo não gostava de ler, mandou-o fazer uma conta, enquanto que a todos os outros deu livros para passarem uma hora bem entretidos.

Rodolfo, lembrando-se do que acontecera no dia anterior, não queria fazer contas, mas, isso sim, ler um livro que tinha trazido de casa. Na altura, e como era normal, a sua mala carregava sempre os livros escolares e um outro de banda desenhada, pois tinha mais desenhos que letras.

Convencido que era esse o livro que ali se encontrava, começou a remexer a mala e… eis que encontra as histórias escritas pelo irmão. Escondendo-se de todos os outros, começou a ler o livro.

No fundo, ele tinha alguma vergonha de mostrar a todos as histórias que o seu irmão tinha escrito, temendo que os colegas gozassem com a situação.

Porém, bem enrolado na sua mesa, Rodolfo ia lendo as histórias, uma a uma, acabando por ler tudo o que o irmão tinha escrito. Quando terminou, nem tinha dado pelo tempo passar. Tinha sido tão agradável!

Enquanto que os outros estavam já no recreio a brincar, o André manteve-se firme no seu lugar a olhar para o livro escrito pelo irmão. A professora, espantada por vê-lo ainda na sala de aula, foi falar-lhe, desconfiando que algo não estava bem.

Ela perguntou se Rodolfo estava doente e ele respondeu: “Não, estou a ler este livro”.

- Que bonito! – exclamou a professora. – Mas não o conheço… Onde o compraste?

- Foi o meu irmão que o escreveu para mim. – afirmou Rodolfo, orgulhoso.

A professora, curiosa, pegou no livro e deu uma vista de olhos. Ao ler algumas passagens do texto achou muito engraçado e riu-se com gosto. Virando-se para o pequeno aluno, disse:

- Olha, se deixares, este passa a ser o nosso livro de leituras e para fazer ditados. O que achas?

Rodolfo, alegre com tamanha honra, sentiu-se muito mais orgulhoso no seu irmão e naquilo que ele tinha feito. De pronto, disse que ficaria muito feliz que assim fosse e, logo nessa tarde, o ditado foi feito a partir de uma das histórias daquele livro tão especial.

Quando foi para casa, encontrou o irmão muito triste e, envergonhado do que tinha feito no dia anterior, não conseguiu contar o que sucedera. Mas o primo de ambos, que acompanhava sempre Rodolfo da escola até casa, não conseguiu conter-se e acabou por ser ele a dar a notícia.

Nesse momento, ambos os irmãos correram um para o outro, com a lágrima ao canto do olho.

Num grito de paz e harmonia, só possível entre dois irmãos, Rodolfo disse, sendo prontamente apoiado pelo irmão mais velho:

- Vamos jogar à bola!

E assim foi.
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Da injustiça (Pedro Du Bois)

Amaldiçoado em lágrimas
rasgo olhos ao horizonte


poente

inutilizo a noite

na chegada

em refúgio


(os cães ladram)


rememoro a hora

da notícia transmitida

palavra por palavra


revejo minha imagem

cristalizada

no congelamento

da lágrima depositada


(os cães farejam)


as dores se afastam
no distanciamento

necessário ao medo


o corpo estremece

ao se pertencer em dores


no horizonte hostil

da janela aberta

o futuro se depara

com a impertinência

do presente


(os cães comem)


afasto suas mãos das minhas:

o contato é lucidez

inoportuna na desesperança


a oração despercebida

rompe o silêncio

e se perpetua


afago o deslizar da hora

em horas subsequentes


(os cães se defendem)


murmuro o nada acontecido

e desacordo em sonhos


o retorno convive

com o fato

desproporcionado


revivo o outono em folhas

pelo chão


recupero a sanidade

e me faço cristal

de rocha esfacelado


(os cães se diferenciam)


sofro o instante

e gesto

o silêncio


o emudecer transmite

a incerteza da pergunta


na vastidão ampliada

da insensibilidade


(os cães desfazem)


posso perguntar

o que bem entendo:

mas não entendo


posso exprimir

a minha raiva:

mas não pretendo


posso aproximar

os olhos à fotografia:

mas não enxergo


(os cães confundem)


calendários dizem que os anos passam


o exercício diuturno de recuperar

o inconsciente e o aguardar

refulgente: recomposto


o exército lancinante dos ataques

distribuí ossos que estalam


(os cães apavoram)


um dia destaco na pedra

o sinal: acordo


um dia acordo e na pedra

destaco o sinal


um sinal na pedra

é destaque quando acordo


(os cães se acovardam)


olho e enxergo

ouço e escuto

pego e sinto

levo à boca

e o sal amarga

o recesso de onde retirado


avaros dias de permanências

permanentes signos

aparentes esboços


o processo desarruma o fato

em procedimentos


(os cães arfam)


ouvidas as testemunhas

os peritos dizem

das especialidades


nada

nada


a improvável condenação

confundida em versos

na reversão da realidade


(os cães obedecem)


choro atravessar o espaço

desconsolado em fatuidades


remoço a fotografia

e me instalo diante

da orfandade


perder significa atos

ao despropósito

de continuar vivo


(os cães silenciam).


http://pedrodubois.blogspot.com/

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A literatura sob o olhar feminino (Adelto Gonçalves*)

Adelto Gonçalves (*)

I

O mundo quando observado pelas mulheres é visto por outra janela. Acostumado a ler livros de Ficção e História escritos predominantemente por homens, o leitor (de ambos os sexos) nem sempre percebe essa alteridade e suas diferenças. Por isso, pensar criticamente em termos de gênero os textos de ficção brasileira publicados nas últimas décadas tem sido o trabalho a que se propõe o Centro de Estudos em Literatura Brasileira da Universidade de Brasília (UnB), coordenado pela professora Regina Dalcastagnè. O resultado das pesquisas e reflexões que o Centro tem proporcionado acaba de sair no livro Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2010), organizado pela professora Regina Dalcastagnè, em colaboração com a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal, reunindo textos de pesquisadoras de diferentes universidades brasileiras.

Como lembra a professora Regina Dalcastagnè, quando se fala em mulher, é preciso, antes de tudo, lembrar que a condição feminina é sempre plural. Há, por exemplo, uma distância ciclópica quando se lê textos sobre o feminismo marcadamente branco, europeu e de classe média, influenciado pela filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), e as narrativas de Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista negra de Moçambique. Até porque, se é correto entender que as mulheres formam um grupo social específico, as experiências e trajetórias sociais de cada uma constituem universos distintos.

Por razões que são explicadas pelas contingências sociais de cada nação, as brasileiras nunca se fizeram representar tanto quanto deveriam na Literatura do século XX, embora o Brasil tenha tido a sua primeira romancista negra ainda no século XIX com a maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), uma honrosa exceção num mundo predominantemente machista e preconceituoso, ainda que as elites brasileiras nunca tenham sido tão brancas quanto faziam (e fazem) questão de aparentar. E tenha hoje outra notável romancista afro-descendente, Conceição Evaristo, autora de Ponciá Vicêncio. De qualquer modo, a maioria das mulheres que se destacaram na área sempre foi constituída por brancas e de classe média.

II

Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Literatura Brasileira da UnB, que leva o título de “Mapeamento de personagens do romance brasileiro: anos 1970, anos 1990”, executada entre 2004 e 2006, procurou fazer um “recenseamento” de autores(as) e personagens com o objetivo de mostrar como a mulher tem sido representada na literatura brasileira contemporânea. Os números constam do ensaio “Representações restritas: a mulher no romance brasileiro contemporâneo”, de Regina Dalcastagnè, abarcando 389 romances produzidos ao longo de dois períodos de 15 anos cada. E mostram que as mulheres, se conseguiram um espaço próprio na literatura brasileira, esse espaço ainda é flagrantemente minoritário.

A partir do acervo das principais editoras de cada época – Civilização Brasileira e José Olympio para o período de 1965-1979 e Companhia das Letras, Record e Rocco para 1990-2004 –, o levantamento constatou que o romance brasileiro é escrito majoritariamente por homens (72,7% dos autores) e sobre homens (62,1% das personagens são do sexo masculino, proporção que sobe para 71,1% quando são isolados os protagonistas). Como observa Regina Dascaltagnè, além de serem minoritárias nos romances, as mulheres têm menos acesso à “voz” – isto é, à posição de narradoras – e ocupam menos as posições de maior importância.

Quando são isoladas as obras escritas por mulheres, mostra o estudo, 52% das personagens são do sexo feminino, bem como 64,1% dos protagonistas e 76,6% dos narradores. Para os autores homens, os números não passam de 32,1% de personagens femininas, com 13,8% dos protagonistas e 16,2% dos narradores. “Fica claro que a menor presença das mulheres entre os produtores se reflete na menor visibilidade do sexo feminino nas obras produzidas”, diz a autora. Além disso, a personagem do romance brasileiro contemporâneo também é branca (79,8%), heterossexual (81%) e rica ou de classe média (82,9%).

Para a autora, apesar de toda a evolução da condição feminina, a literatura – ou, ao menos, o romance – continua a ser uma atividade predominantemente masculina, embora não seja possível dizer se as mulheres escrevem menos ou têm menos acesso às editoras mais importantes (ou ambas as possibilidades). Ainda de acordo com o levantamento, os(as) escritores(as) brasileiros(as) são, principalmente, jornalistas, professores universitários, roteiristas e tradutores. Ou seja, há quase um monopólio de profissionais vinculados ao universo do controle do discurso. Por último, desses autores(as), mais da metade está concentrada no Rio de Janeiro e São Paulo. Na imensa maioria, são homens brancos de classe média.

Como observa Regina Dascastagnè, por mais solidário que seja às mulheres, um escritor homem não vai nunca vivenciar para transmitir o que significa o temor da agressão física tão presente nos lares brasileiros, da mesma maneira que um branco, por mais solidário que se mostre, nunca será capaz de avaliar o que sente um negro ao ser discriminado em seu ambiente de trabalho como também nunca vai entender a revolta de um deficiente físico que chega a um local de votação e tem de se sujeitar a ser carregado no colo escada acima até a urna para depositar seu voto.

III

Com base nesses resultados, é de suma importância o trabalho que vem sendo realizado por autoras ainda jovens e que começam a ganhar seu espaço nas livrarias brasileiras e, obviamente, na biblioteca e no imaginário do leitor brasileiro. É o que mostra a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal no ensaio “O gênero em construção nos romances de cinco escritoras brasileiras contemporâneas”, ao discutir o trabalho de autoras que já conquistaram seu espaço nas principais editoras do País: Stella Florence e Adriana Lisboa, na Rocco, Lívia Garcia-Roza e Cíntia Moscovich, na Record, e Elvira Vigna, na Companhia das Letras

Stella Florence pratica uma literatura de entretenimento, o que não significa que seja superficial. Seus livros de contos (Por que os homens não cortam as unhas dos pés?, Hoje acordei gorda e Ele me trocou por uma porca chauvinista) e romances (Ciúme, chulé e um apelido ridículo e O diabo que te carregue!) , cujos títulos carregam um apelo bem-humorado, são escritos na linguagem da autoajuda, sugerindo mais uma conversa com o(a) leitor(a), que lembra o estilo de revistas femininas, como salienta Virgínia Leal. Adriana Lisboa em seu romance Sinfonia em branco também traz para a literatura questões pouco exploradas como a história de duas irmãs marcadas pelo abuso sexual de uma delas na infância pelo pai.

Lívia Garcia-Roza mostra um modelo de sociedade opressivo, mas sem uma alternativa viável, em que os casais e a família vivem sob o mesmo teto, mas quase não se comunicam entre si. Seus livros tratam de temas pouco comuns em romances, como aborto e menstruação. Cíntia Moscovich, já publicada em Portugal, a exemplo de Moacyr Scliar, recupera histórias de seu grupo étnico, a comunidade judaica de Porto Alegre. Em seus romances Duas iguais e Por que sou gorda, mamãe?, há temas pouco explorados ainda na literatura brasileira, como relações lésbicas.

Já Elvira Vigna procura resgatar um gênero literário policial, o do romance negro, mas o faz em forma de paródia. Seus textos são sempre em primeira pessoa, mas suas protagonistas seriam as criminosas e não o detetive que desvenda os crimes. Por isso, são fontes poucos “confiáveis” porque o leitor nunca fica sabendo se diz a “verdade” ou dissimula os fatos narrados. Mas é exatamente aqui que reside a sua originalidade.

Como observa a pesquisadora, as cinco autoras, cada uma a sua maneira, dialogam em suas obras com questões relevantes da agenda feminista como o corpo e a sexualidade, a violência, os direitos sexuais e reprodutivos e outros. Ainda que recusem o rótulo de “feministas” e não avancem na maré pós-feminista – que, pelo menos no Brasil, um país ainda arcaico sob muitos aspectos, é uma realidade distante –, com suas obras contribuem de maneira significativa para a criação de uma “consciência feminista” entre o público-leitor, “a partir da uma identificação com suas protagonistas em confronto com o poder patriarcal”.

IV

Regina Dalcastgnè é professora titular de Literatura da UnB, editora da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de autora de A garganta das coisas: movimentos(s) de Avalovara de Osman Lins e Entre fronteiras e cercado de armadilhas: problemas de representação na narrativa brasileira contemporânea, entre outros livros. Para a Editora Horizonte, preparou o livro Ver e imaginar o outro: alteridade, desigualdade, violência na literatura brasileira contemporânea (2008).

Virgínia Maria Vasconcelos Leal também é doutora pela UnB e pesquisadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Participou dos livros Formas e dilemas na representação da mulher na literatura brasileira contemporânea, Alguma poesia: ensaios sobre literatura brasileira contemporânea e Imagens & diversidade sexual: estudos da homocultura.

Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea traz ainda textos das pesquisadoras Adelaide Calhman de Miranda, doutoranda na UnB, Bruna Paiva de Lucena, mestranda na UnB, Cíntia Schwantes, professora da UnB, Cláudia de Lima Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Edma Cristina de Góis, jornalista e doutoranda na UnB, Ermelinda Maria Araújo Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco, Norma Telles, professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo, Rita Terezinha Schmidt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sandra Regina Goulart Almeida, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Simone Pereira Schmidt, professora da UFSC, Susana Moreira de Lima Bigio, da UnB, e Tânia Regina Oliveira Ramos, da UFSC.
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DESLOCAMENTOS DE GÊNERO NA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÃNEA, de Regina Dalcastagnè e Virgínia Maria Vasconcelos Leal (org.). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 239 págs., 2010, R$ 36,00. E-mail: contato@editorahorizonte.com.br Site: www.editorahorizonte.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Astrolábio (Emanuel Medeiros Vieira)


Para Lucas, meu filho


A bússola e o astrolábio:

velas ao vento.

Existe outro Bojador nestes mapas interiores?

Os navegadores estão no exílio:

há faróis neste degredo?

Findou a aventura no mundo.



Singrando-me, cumpro-me.

Além de mim, além da vida:

do pó que serei.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sobre danças e morte (Belvedere Bruno)


Hoje, veio-me à mente a imagem de Candinha. Todas essas comemorações em torno do Dia das Mães trouxeram à tona a simplicidade e sabedoria com que ela vivenciou seus dias. Aliás, dias esses em torno dos oitenta anos, quando a conheci no frescor de minha juventude. Gostava de falar a respeito de tudo, inclusive morte, para ela assunto sem mistérios. Causava-me admiração sempre que dizia: "Quando eu morrer, não me visitem no cemitério, pois lá jamais estarei. Sempre que quiserem estar comigo, coloquem um jarro com flores sobre a mesa e dancem, cantem, assim como faço para meu filho há dezoito anos!". Era pura magia vê-la dançar, tamanha sua entrega e emoção. Na ingenuidade de nossa a adolescência, não entendíamos que naquele momento ocorria uma catarse. A dor da perda, a saudade eram daquela forma exteriorizadas.

Decidi, então, homenageá-la. Pensaram, um tanto preocupados, que eu pudesse estar com algum problema emocional. Talvez ande um tanto nostálgica, confesso, mas coloquei um ramo de flores do campo num jarro, bem no centro da mesa da sala e fiz mais ou menos como ela fazia: cantei, mesmo sabendo-me uma desafinada por natureza. Misturei canções de Chico, Gonzaguinha, Jobim... Por aqui, nenhuma lembrança acerca dessa pessoa, cuja personalidade era admirável por ser tão fora dos padrões estabelecidos naquela época. Após muito refletir, sinto que as lembranças nunca chegam por acaso. Através delas, me descubro, de certa forma, parecida com Candinha. Portanto, quando daqui me for, não me busquem em cemitério...

Por instantes, transporto-me a um passado longínquo, mas consigo sentir, ainda, o aroma das flores ao mesmo tempo em que ouço Candinha: "Que meu exemplo seja de alguma forma perpetuado. Se apenas um de vocês fizer o que venho mostrando há tempos, meus ensinamentos não terão sido em vão. Tenham certeza de que não vale viver trancafiado em dores, pois lá fora a vida sempre vibra. Incessantemente. Um dia vocês entenderão tudo isso."

E pareceu-me ver o seu sorriso envolvendo toda aquela minha confusa, mas bem intencionada celebração.

http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/

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sábado, 29 de maio de 2010

É preciso ser contido, às vezes (Nilto Maciel)


(O cronista e a falta de tempo para ler tudo)

Mesmo depois da extinção da revista Literatura, os escritores não deixaram de me mandar livros. Não os leio todos, por falta de tempo. Que me desculpem os amigos e os colegas.

Os mais recentes vieram de São Paulo (Daniel Lopes), Itapema, SC (Pedro Du Bois), Crato, CE (Emerson Monteiro), Brasília (Alaor Barbosa e Lustosa da Costa), Goiânia (Valdivino Braz), Mangaratiba, RJ (Emil de Castro), e Madri, Espanha (Manuel Garcia Centeno).

Conheço Alaor, Valdivino, Lustosa e Emil, de longas datas. Convivi com o primeiro por muitos anos, em Brasília. O segundo é de frequentar minha casa e de me receber na sua. O terceiro é meu conterrâneo e habita também a capital federal, sem deixar de visitar a cearense de vez em quando. O quarto nunca vi, mas com ele me correspondo há cerca de 30 anos.

Comecemos, pelo final da relação. Ou pelo mais longe de mim. Manuel Garcia “vive entre Madrid e Zalamea”. Nesta nasceu, em 1947. O livro que me mandou se intitula ¡Chachó! Contos curtos ou relatos (como está abaixo do título). Apenas 60 páginas. Impresso na Itália: Capri Leone, Messina, 2010. O primeiro parágrafo do primeiro relato é este: “Observé unos ojos ansiosos y sorprendidos que me miraban con fijeza tras la puerta entreabierta”. Infelizmente, não terei tempo de ler mais. Outros livros me esperam. Meus olhos estão ansiosos.

Daniel Lopes achou meus blogs e me mandou uns contos. Gostei do seu modo despojado de narrar, o desapego à norma culta. Agora me mandou exemplar de seu É preciso ter um caos dentro de si para criar estrela que dança. Reunião de contos. Edição do autor, 2008. Ou do site WWW.osviralata.com.br Assim o povo brasileiro fala: não usa o substantivo no plural. Daniel também emprega palavrões, gosta de narrar (contar) e de dar voz aos personagens (não deixa para trás os travessões). Escreve como se fala.

Também o gaúcho Pedro Du Bois me achou na Internet. E passou a me mandar poemas todo dia. Como é bom poeta, não deixo de publicar os poemas dele nos meus blogs. Agradecido, presenteou-me dois volumes de versos: Desnecessidades reentrâncias & alguns reingressos e Concretude da casa, ambos de 2009. Não transcreverei aqui versos dos livros. O leitor os encontrará em pedrodubois.blogspot.com

O outro que não conheço é Emerson Monteiro, cearense de Lavras da Mangabeira, terra dos poetas Filgueiras Lima, Linhares Filho, Batista de Lima e Dimas Macedo. O livro recebido por mim intitula-se É domingo (João Pessoa: Edições Fabulação, 2006). Nada de versos; são crônicas e contos ou “narrativas de proveito”, como está sob o título.

Agora chego aos livros dos amigos. O de Lustosa da Costa é Sobral que não esqueço (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010). Dito de memórias. Como quase todas as obras do jornalista. Lustosa é incansável escritor. Sempre apegado ao Ceará. Vive em Brasília desde 1974, mas não esquece Sobral nunca: “Este é mais um livro tendo Sobral, capital da civilização do couro no Ceará, que elegi como minha e como principal tema de meus escritos”. Falta algum vocábulo na frase, mas o leitor entenderá. O título da introdução do livro é “Não sou universal, sou apenas municipal”.

A obra recebida de Alaor Barbosa é o romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia (Goiânia: AB Editora, 1999). Epígrafes de Camões e Shakespeare. Cerca de 300 páginas. Tem início assim: “Este texto das memórias do singularmente aventuroso e desventurado goiano de Imbaúbas Bertolino d’Abadia, anotadas pelo ilustre advogado Rafael Santoro Noronha, está guardado comigo faz muitos anos.” Lembra Cervantes? Nas abas se lê o anúncio: “Poderosa criação literária, a um tempo rica em imaginação e em verdade documental, densa narrativa,escrita em linguagem apurada, base firmíssima da sua previsível perenidade. Há muito tempo não se vê aparecer,no Brasil, um livro tão bem escrito.” É ler para conferir.

Do também goiano Valdivino Braz é outro romance: O gado de Deus – Livro do Ressentimento (Goiânia: UCG/Kelps, 2009). Há semelhanças entre um e outro. Num “esclarecimento e advertência” o escritor adverte: “Fruto azedo do advento 64, este romance, sazonado entre os anos 80 e 90, inicialmente intitulado como As dores da terra antiga – agora O Gado de Deus, com outras dimensões, mantido o fulcro original –, seria o primeiro livro de uma espessa obra, desenvolvida há décadas, a espaços esporádicos, anunciada e sempre protelada, ainda por terminar, estacionada em estado caótico. Ambicioso, pretensioso, megalômano projeto”. Valdivino apareceu há alguns anos como contista (dois volumes) e poeta (dez). Como Alaor, meu amigo Braz sabe escrever.

Estou perdendo o fôlego. Mas ainda posso falar do livro de Emil de Castro: Vozes do mar (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2009). São poemas. Poucos e curtos. A primeira parte tem o mesmo título do volume. Poemas sem título. A segunda é “Exercício de marujo demente”, com 17 poemas titulados. Emil tem diversos livros: poesia, ensaio, história, infantil. O primeiro, em 1969: O relógio e o sono, de versos. Se se entusiasma com o mar (a vida), consegue se conter no dizê-lo: “Vão lentos / soprados / pura paina / espuma sobre o mar. / Se perdem no longe”.

Também consigo me conter ao escrever.

Fortaleza, 28 de maio de 2010.
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terça-feira, 25 de maio de 2010

Os abismos são para os profundos (Daniel Lopes*)





May you always do for others

And let others do for you…

...May you stay forever young

Bob Dylan


Eu era o cara velho em roupas novas que observava tudo no canto da sala. O quadro, O escolar de Van Gogh, emitia sua energia louca, parecia haver um campo magnético ou qualquer coisa assim em volta dele. Havia Modiglianis muito bons, havia Gauguin e havia Delacroix, mas Van Gogh é outro papo. Todo o museu, melhor, todo o mundo, parecia girar em torno daquele quadro. Seria o Aleph? O princípio e o fim? E a tristeza nos olhos e no olhar vazio do menino? Eu podia ver a dor do artista desesperado naqueles traços. Eu podia ver o seu amor e seu carinho pela humanidade. Eu podia ver a ternura e a tormenta em cada canto vermelho ou alaranjado. Eu tinha impressão de que, se tocasse aquele quadro, abriria uma porta pra outro mundo, pra outra dimensão, onde eu poderia abraçar Vincent e conversar sobre as coisas da vida. Eu também tinha sofrido demais. Eu também tinha perdido tudo e fracassado. Muitos amigos meus haviam desaparecido. Muitas mulheres tinham encontrado homens mais interessantes e meus filhos agora estavam longe. Há muito tempo, eu chegara a acreditar que poderia realizar algo de bonito e grandioso, agora eu era só o cara velho em roupas novas e a menina que observava o quadro era tão jovem e tão bonita. O museu estava praticamente vazio neste dia por causa da chuva. Havia cinco dias que não parava de chover na cidade e o feriado prolongado tinha feito muita gente fugir pro interior ou pro litoral. Eu gostava de dias assim. Eu gostava de passear pela cidade vazia olhando as coisas. Quando estava vazia, a cidade era meu espelho. Quando havia pessoas nela, a cidade me lembrava cocaína e eu tinha vontade de fugir e de morrer. A simples idéia do suicídio havia me ajudado a passar muitas noites difíceis, pois eu sabia que um dia me mataria mesmo e então não haveria mais nada, além da brancura de uma folha vazia.

A menina se distanciou um pouco mais do quadro, como para senti-lo de outra forma. Ainda não havia me notado no canto da sala. Na verdade, ela se parecia um pouco com a minha segunda esposa, aquela que... melhor nem falar dela. Na arte de odiar as mulheres são inigualáveis, além disso, eu... então o elevador parou e dele desceu um rapaz magro, despenteado e barbudo. Parecia muito doido. Atravessou as outras salas da exposição quase que correndo e se ajoelhou ao lado da moça, olhando pro quadro. Ela riu um pouco e então olhou pra trás e me viu no canto da sala. Acho que o rapaz também havia se dado conta da magia e da força. Não acredito em santos e nem em messias, mas acredito em Van Gogh. Acho que o garoto pensava como eu. Ele ficou lá ajoelhado por uns cinco minutos, enquanto a moça me olhava e fazia gestos indicando que o rapaz devia estar maluco.

- Eu preciso me salvar! – ele disse ao se levantar, abraçando a moça. Tem cada malandro nesse mundo.

- Não existe salvação. – Eu falei.

- Velho, você não entende, você já fez o que tinha de fazer e eu não, eu preciso conseguir.

- Essas coisas só pioram com o tempo. Porque você sente que a morte está chegando e nada muda. Então você renova as esperanças e tenta outra vez e nada muda novamente. Quando você se dá conta, as rugas já tomaram conta do seu rosto e você continua agindo feito um menino. É ridículo. Uma piada das mais sem graça.

Então a menina abriu a boca:

- É tudo tão triste. – Disse.

Droga, eu também era um menino, mas o meu corpo era velho. Isto é mesmo ridículo. Em algum lugar dentro de mim morava um homem que queria amar, mas o corpo, o corpo estava fechado para o amor. Os lábios dela eram bailarinas e o meu espírito tinha de agir como velho porque meu corpo era velho e a gente só pode ser por meio do corpo. Além do corpo ninguém sabe o que será.

- Não, não tem nada de triste. Nós ainda podemos conseguir. – Disse o menino e abraçou a moça ainda mais forte.

Ela olhou pra mim outra vez meio encabulada e eu me lembrei que também já tinha sentido as coisas daquele jeito e me lembrei dos meus amigos artistas que agora estavam mortos e eu me lembrei das minhas mulheres artistas que agora estavam mortas. Todas as pessoas pra quem eu esculpi, todas as pessoas pra quem eu pintei, estavam mortas agora. O monstro cria gerações e mais gerações pra se alimentar delas. Moloch! E toda geração acha que vai ser diferente, mas no fim fica tudo igual. Somos todos crianças sempre. Alguém aí se lembra de Judy Garland? Alguém aí se lembra de Etta James? Eu chorei ouvindo Etta James. Mantenha suas mãos ocupadas, velho! Mantenha ágeis os seus pés!

- Eu preciso beber alguma coisa. Não quero ficar com essa coisa ruim por dentro. Não para de chover e essa dor está me matando. A moça falou ajeitando os cabelos atrás da orelha.

- Eu bem que gostaria de te pagar alguma coisa, mas não tenho dinheiro. Nunca tenho dinheiro. – Disse o moleque.

- E o senhor? – Ela perguntou olhando na minha direção.

- Vamos.

Atravessamos outra vez à sala. Eu disse adeus ao Escolar e a moça apertou o botão pra chamar o elevador. Tinha um arco-íris pintado em cada unha.

***
Entramos no primeiro bar aberto. A menina pediu um copo cheio de vodka. Tinha uma sede daquelas. O rapaz pediu uma cerveja e três copos. Eu emborquei meu copo e pedi um refrigerante. Não bebia mais, havia sofrido por mais de trinta anos nas garras do mais cruel dos alcoolismos. Eles começaram a conversar. Jovens e velhos desesperançados na mesma mesa imunda. Eu fiquei quieto ouvindo. A sobriedade, como tudo o mais, tem suas vantagens e suas desvantagens. Era mesmo linda a menina. E parecia tão triste quando sorria! A tristeza deixa as pessoas magnéticas. Mesmo o humor, o melhor dos humores, esconde uma grande dose de dor e de insatisfação.

Eles beberam mais. Continuei firme no meu refrigerante. Lá fora o céu desabava. Imensas gotas azul-claras escorriam pelos vidros e pela lataria dos automóveis.

- Um dia ainda escrevo um grande livro! Posso senti-lo germinando na minha cabeça. Quando ele sair vai ser como o Werther. - Disse o menino.

- Torço por você, garoto.

- Não aguento mais beber... não tenho mais casa... não quero ir pra casa! – Disse a menina.

- Também não posso te levar pra minha casa. Moro de favor na república de uns amigos. - Emendou o rapaz enquanto pegava um dos meus cigarros sobre a mesa.

Então a menina fez uma coisa. Levantou-se. Cambaleou até mim e escorregou a ponta dos dedos pelo meu rosto.

- Você é um velho tão feio. Tem rugas tão profundas. - Disse e aí me beijou na testa, como se fosse ela a minha mãe e passou os dedos entre meus cabelos ralos.

- Se quiserem podemos ir pra minha casa. Falei.

- Eu adoraria.

Chamamos um táxi e nos escondemos ali dentro prontos pra atravessar a cidade. Não demoramos a chegar. Era mesmo bom ter vazia a cidade. Paguei a corrida e subi na frente pra cobrir os meus trabalhos. Eu não precisava mais que os outros os elogiassem. Eu era um velho. Voltei ao portão e os coloquei pra dentro. Eles beberam algumas cervejas que havíamos trazido e eu bolei um bom baseado como nos velhos tempos. E foi bem nessa hora que ficamos felizes e somamos nossas idades e dividimos por três para sermos iguais, mas, porra, eles eram mais jovens que meu filho mais novo. Sei que cai no chuveiro pra um bom banho e, quando voltei, eles estavam dormindo abraçados no meio da minha sala. Descolei uma coberta e joguei por cima. E aí peguei um lápis, uma folha de papel e os desenhei. Eram lindos. Quando terminei o desenho, peguei a câmera que eu levava sempre à mão e tirei uma fotografia. A menina abriu lentamente os olhos e, no meio de um bocejo, disse:

- Deita aqui com a gente.

Dizer a verdade é preciso, fiquei indeciso por alguns segundos, mas, ao final, também entrei embaixo das cobertas. Ela me abraçou e beijou meu rosto. Na televisão passava um velho vídeo dos Stones que minha quarta mulher havia deixado quando partiu. Um novo tipo de afeto crescia dentro de mim. Uma coisa misturada, não definida, uma coisa que eu sabia que ninguém mais havia sentido no mundo, algo feito o surgimento do amor romântico nos tempos mais cruéis do cristianismo, quando as chamas eram bem mais que uma metáfora. O que era aquilo eu não sabia, mas como todas as outras coisas intensas da vida, também me levaria para o abismo. Pouco me importava, pouco me importa. Os abismos são para os profundos. Lá fora continuava a chover.
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* Daniel de Souza Lopes é professor da rede pública estadual e municipal de São Paulo. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Germina e Amálgama. Edita o blog: www.pianistaboxeador21.blogspot.com . Lançou em 2008 o livro É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança.
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sábado, 22 de maio de 2010

Conto de Nonato Costa

VELHO COSTUME – (Parte II)


Desde que chegara, sentara-se no banco próximo à porta e observava. Havia pessoas ali. No recanto à direita, sentada, uma senhora nos seus quarenta anos. Nas mãos, a xícara do café tilintava no contato com o pires trincado. Ao seu lado, os dois netos não se aquietavam. No outro, dois senhores com os seus chapéus na cabeça. Usavam bigode. Um deles tinha costeletas longas. Mantinham-se cabisbaixos e silenciosos. Esperavam a hora de sair. Em avançado estado de gravidez, uma mulher também esperava e espiava. Eram notórios o seu cansaço e o cochilo que tirava, recostando a cabeça na parede.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Em comum

Inocêncio de Melo Filho






Nós, homens de letras e palavras
Fomos feridos pelas mãos carrascas do tempo
Caminhamos entre os nossos contemporâneos
Como se as nossas chagas intraduzíveis
Estivessem ocultas.


Querem que falemos de nós.
Querem que sejamos específicos, objetivos.
Querem que mudemos a expressão dos olhos e da face.
Nos negamos às falácias e às vontades alheias.
Os nossos enigmas são nossos.
Tornaram-se bens, propriedades privadas de nossa essência
Não podemos partilhá-los com ninguém
É o que nos restou dos árduos combates...




Veja mais no blog transitoriodiamante.blogspot.com
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domingo, 16 de maio de 2010

Pequeníssima história infantil... (Pedro Silva)




Era uma vez um ursinho muito feio. Era tão feio que assustava-se com a sua própria imagem reflectida no espelho. Mas Deus, na sua sabedoria, dera a essa urso um bom coração, tornando-o bonito por dentro. Porém, a vida desse urso era tudo menos simples. Sentia-se triste e sozinho, qual sem-abrigo abandonado à sorte. E sofria! Muito, mesmo. Os seus dias eram monótonos e vazios, visto que o seu interior, ainda que bonito, ansiava por algo mais. Como todos os ursos da sua idade ele queria encontrar alguém a quem oferecer o seu interior, alguém com quem partilhar os seus sentimentos. Mas os seus horizontes eram muito amplos e, quiçá por isso mesmo, ou por ser feio por fora, a dificuldade em encontrar a ursinha especial fez-se sentir de tal forma que, cansado de esperar, decidiu desistir. E como desistiu!

A pouco e pouco o seu interior deixou de ser tão especial e o sofrimento foi-se apoderando da sua alma. Todos aqueles que lidavam com ele notaram a diferença mas deixaram o urso entregue a si próprio. E porquê? Porque todos se consideravam tristonhos e infelizes, pelo que aquele urso não deveria receber nenhum tratamento especial. Mas estavam todos enganados – aquele urso era especial pelo que, obrigatoriamente, deveria merecer um tratamento diferente. Quanto mais não fosse porque quando eles precisavam aquele urso estava sempre pronto a ajudar. Só que a ingratidão do mundo, aliada à indiferença natural que reinava entre os ursos, fazia com que fosse mil vezes mais fácil ignorar. E, enquanto isso acontecia, o urso feio por fora ia-se tornando menos bonito por dentro. E esse ursito, ainda que infeliz, arranjava sempre um bocadinho de ânimo ou de boa vontade para ajudar um seu próximo que sofresse. Era sempre o primeiro a acorrer a um urso em apuros, sempre o primeiro a dirigir uma palavra de reconforto a um urso sofredor, enfim, o seu interior continuava a demonstrar preocupação, carinho, amor...

Entretanto, ao seu redor, o mundo dos ursos não parava – implacável e imparável. Tal como todos os outros ursos, aquele urso especial tinha de cumprir a sua obrigação – arranjar comida para sobreviver. Foi num certo dia, ao desempenhar a sua função, que encontra uma ursa muito bonita, que irradiava uma luz muito especial, mas ao mesmo tempo com o semblante mais triste que jamais vira. O urso feio sentiu algo de tão forte que na altura não conseguiu explicar. Mas Deus, do alto do seu trono, sabia bem o que era e a definição correcta não era amor! Era algo de mais forte, muito mais forte!

O urso feio sentiu necessidade de acorrer em auxílio da pobre ursa bonita mas infeliz, só que embateu num muro de frieza. Não havia dúvida nenhuma que aquela ursa havia sofrido muito na sua escassa vida – e o urso feio era, devido ao seu interior especial, o único urso no mundo capaz de compreender, aceitar e tentar modificar o rumo dos acontecimentos, ou seja, o mesmo é dizer, fazer aquela ursa feliz. Porque o urso feio sentia que era capaz e porque estava dentro de si a noção de que todos os ursos tinham direito a ser felizes. Acima de tudo, acreditava que Deus o iria ajudar a concretizar os seus intentos.

Tentou uma aproximação suave – a ursa recuou, como num instinto de sobrevivência que, notava-se, havia sido alcançado à custa de muito sofrimento. E nesse primeiro encontro nada de muito especial surgiu, a não ser a tomada de conhecimento da existência, para ambos, do outro no mundo. O urso feio, porém, sentiu algo no seu interior que o deixava algo apreensivo – parecia que o seu corpo estava inteiramente descontrolado e que deixara de ser propriamente seu. Quem passara a ser o dono é que não sabia. Mas no dia seguinte, o certo é que voltou àquele lugar e, ainda que pelo caminho fosse bastante incrédulo em relação ao facto de voltar a encontrar aquela ursa bonita, o certo é que sentia que tinha de ir.

O urso feio desconhecia por completo que fora Deus que o colocara no caminho daquela ursa e que aquela força que o impelia a dirigir-se de novo àquele local era-lhe superior. Foi só quando, ao chegar ao lugar exacto, viu a ursa de novo ali sentada, que o urso feio sentiu que algo de muito especial estava a passar-se. E mais intrigado ficou quando, numa tentativa de aproximação mais forte, a ursa decidiu começar a falar. Trocaram nomes próprios e pouco mais, mas a ursa bonita já não parecia a mesma – ainda que se fosse notando cada vez mais o sofrimento que possuía, o certo é que o à vontade, que aumentava a cada instante, fazia acreditar que aquilo a que o urso feio se propusera podia realmente acontecer – assim Deus o ajudasse.

Nos dias seguintes, e como a ursa bonita sempre ali se encontrava, cada vez mais deliberadamente à espera do urso feio, as conversas foram-se tornando cada vez mais profundas – a ursa sofrera de terríveis acometimentos que a fizeram sentir-se a ursa mais infeliz de toda a comunidade. Incapaz de sentir-se inteiramente livre, mercê de um asfixiamento inconsciente por parte dos seus progenitores, tentara a fuga para a frente, ou seja, decidira abandonar aquela comunidade para viver noutra. Porém, desde cedo entendeu que embora todos lhe achassem muita graça, à medida que foi crescendo entendeu que o Mundo era todo igual e não havia, em lado algum, alguém interessado em ouvi-la. E o seu desencanto era de tal forma que a sua aprendizagem de vida, ainda que bastante intensa, foi de tal forma angustiante de chegara à triste conclusão que a liberdade em sofrimento era pior que a prisão com algum descanso.

A sua vida tornou-se mais pacata durante algum tempo, mas havia dentro de si algo que a atrofiava – o seu interior pedia sempre mais, mas do quê nem ela própria sabia. A vida em comunidade era muito pouco para ela e de novo sentiu-se demasiado apertada para o seu gosto. Sentindo, tal como todas as outras ursas da sua idade, o apelo do contrário, deixou-se enlear por uma necessidade e conheceu um urso garboso que lhe parecia de todo inofensivo em termos pessoais, mas que a levaria a concretizar todos os seus desejos e ambições – uma vida louca pelas florestas, livre das amarras super-protectoras dos pais ursos. E o certo é que a relação com esse urso garboso a fazia sentir-se, pelo menos, solta.

Só que a visão provocada pela ansiedade de liberdade cedo esfumou-se. Sem saber como, o certo é que a sensação positiva se deteriorou – eram ursos de feitios diferentes e, ainda que tivessem alguns gostos semelhantes, o certo é que a relação assemelhava-se a uma laranja seca: por mais que espremesse não saia uma única gota de sumo. A pouco e pouco a ursa foi-se desvanecendo da vida o urso garboso mas, no entanto, e apesar de sentir vontade de ser feliz, afirmava que era uma vergonha, perante a comunidade dos ursos, o expor de uma situação dessas. Afinal de contas, nunca nada semelhante tinha acontecido.

O urso feio tudo ouvia e registava. Tentou, do fundo do coração, ajudar aqueles dois ursos a fim de que não sofressem do mesmo mal que ele – de solidão. Tentou ajudar a ursa a levar as más palavras ao bom sentido, aproveitando tudo aquilo que de bom o urso garboso tinha. Mas a ursa bonita era demasiado livre para ser aprisionada, demasiado ela própria para ser o que os outros ursos queriam que ela fosse. E sentiu-se tentada a avançar em frente. Mas o urso feio, desconhecedor da situação, continuou na mesma toada de reconciliação, insistindo no continuar da relação entre os ursos.

Mas, com o passar dos dias, começaram a tornar-se visíveis os sinais de ruptura total – a ursa afirmava que não gostava de passear com o urso garboso na floresta e o urso feio sentiu-se tentado a desistir. Mas Deus, sentindo que só ele poderia ajudar aquela ursa, impeliu-o a continuar com o seu acto de caridade. Foi então que, com o passar dos dias, ambos se detinham mais em falar de si próprios do que de outros ursos. Existia algo entre eles – a sua relação fora feita no Céu e pelo próprio Deus. Só podia ser assim mesmo, dada a alegria que ambos agora irradiavam, isto apenas e só quando estavam juntos, porque quando afastados a tristeza voltava e dava lugar à depressão.

Parecia um lindo conto de fadas e passavam os dias a contar os minutos que os separavam do encontro – só viviam para isso. Ao fim de algum tempo começaram a sentir que alguma coisa de realmente especial estava a passar-se – afinal de contas quanto mais a ursa bonita comparava o urso feio ao garboso mais infeliz se sentia no espaço de tempo em que não estava com o seu novo confidente. Mas o urso feio não era diferente e ainda que sentisse um certo remorso ao notar que a ursa bonita aproveitava aquela oportunidade para criticar o urso garboso, o certo é que achava que aquele tempo passado com a ursa era como um pedaço de Paraíso na Terra.

Os dias foram passando e ambos os ursos sentiam já que aquilo que realmente desejavam era que aqueles momentos pudessem ser prolongados por todo o dia. Mas isso era impossível enquanto a ursa bonita não dissesse ao urso garboso o que não sentia por ele. E, o urso feio, cego de amor, pediu a Deus que a ursa o conseguisse fazer feliz. Mas Deus ficou triste com aquele pedido – o que ele lhe estava a pedir era o sofrimento de outro urso. Nem parecia próprio daquele urso que sempre tanta preocupação revelara com o se próximo. Mas, atendendo ao sofrimento que ele passara e à felicidade actual da ursa na sua companhia, decidiu atender ao pedido e, em pouco tempo, o urso garboso soube que a ursa já não tinha gosto em passear com ele pela floresta. Deus ajudou-o e ele tornou-se rapidamente feliz com outra ursa, mais simplória, mas que o fez sentir amor verdadeiro.

Tal facto abriu portas ao relacionamento entre o urso feio e a ursa bonita. Foi nessa mesma noite que o urso feio recebeu a visita de Deus na sua caverna, tendo-lhe pedido que tratasse a ursa bonita da melhor forma que o seu coração permitisse, de modo a que ela fosse feliz para todo o sempre. Porém, caso o urso feio falhasse no seu compromisso, seria castigado de uma forma que não possibilitaria recuo – a ursa deixaria instantaneamente de gostar dele e, em consequência, iria abandoná-lo de forma definitiva. O certo é que, até hoje vivem os dois, felizes, na floresta.

(A história continua... E que assim seja por muitos e bons anos!)
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Pedro Silva é português.
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domingo, 9 de maio de 2010

Pedro Salgueiro e o culto do livro (Nilto Maciel)


(Pedro, Nilto e Raymundo Netto, na casa do segundo)

Meu conhecimento de Pedro Salgueiro vem de 1995, quando participou do primeiro concurso de contos promovido pela revista Literatura, por mim dirigida. Enviou a peça “Dos valores do inimigo”, que obteve o terceiro lugar e foi publicada na edição nº 8, referente a junho daquele ano. Pouco depois (não poderia ser antes, tendo em vista que o certame se reservava a obras inéditas), ele me enviou exemplar da primeira edição de O peso do morto, no qual a pequena narrativa está incluída. Na dedicatória, chamou-me de “amigo e companheiro de ofício”. Na mesma época, Dimas Macedo, correspondente não oficial da revista no Ceará, me falou dele com muito entusiasmo. No ano seguinte, recebi O espantalho. Até então eu não o tinha visto, com ele não havia conversado. O que se daria em janeiro de 97, quando estive de férias em Fortaleza. Organizava ele, ao lado de Tércia Montenegro, o Almanaque de contos cearenses. Em golpe de mestre, planejou uma reunião de escritores no bosque da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará, que receberia o nome de Moreira Campos. Para dar mais importância ao encontro, convidou a viúva do homenageado, Dona Zezé Moreira; a filha (escritora) do casal, Natércia Campos; o pesquisador, professor e poeta Sânzio de Azevedo; e os escritores “de fora” Nilto Maciel e Caio Porfírio Carneiro. Algumas fotografias obtidas naquela tarde estão reproduzidas naquela publicação.

No final das férias, regressei a Brasília, voltei à minha lida de burocrata do judiciário e aos meus velhos passatempos: ler livros de escritores novos, escrever cartas, editar revista. Nem me lembrava mais do projeto do almanaque, que projetos de editar jornais, revistas, almanaques de literatura, no Ceará, só se realizam de 30 em 30 anos, com muito esforço de um ou dois escritores (a maioria não sai da platéia, embora queira subir ao palco, e no papel de protagonista). Pedro me enviou alguns exemplares da coleção. E não deixou de mandar seus livros: a 2ª edição de O peso do morto, em outubro de 97, e Brincar com armas, em 2000. Em retribuição, eu lhe remetia a revista. Não éramos amigos, embora já fôssemos companheiros de ofício. Para que a primeira oração fosse rezada, precisávamos nos aproximar. Não para isto, decidi vir morar em Fortaleza, em setembro de 2002. Precisava fugir da secura de Brasília, da solidão das superquadras, do burocratismo arraigado na pele das pessoas, do clima de academia de letras que ronda os escritores de lá. Fugir dos espantalhos, dos mortos que andam, respiram e escrevem versinhos, dos inimigos escondidos atrás das pilastras dos prédios, que matam com armas de brinquedo.

Ao aqui chegar, procurei uns e outros escritores. Levaram-me a clubes à beira-mar, a jantares à luz de velas, a academias de musculação linguodental. Mas não me levaram aos botecos, aos bares, ao bate-papo, às sirigaitas da Beira-mar. Telefonei a Pedro: queria conhecer o Dragão, tomar uns chopes, ver a noite, ouvir as estrelas e andar de carro pela cidade que abandonara havia 30 anos. Eu conduzia o veículo e ele me guiava: entra à direita, vira à esquerda, segue em frente. Na primeira noite ocorreu um sinistro: sorvi doze chopes e falei de literaturas. Ele tomou dois e não conseguiu dizer nada. Ao se erguer da cadeira, tombou. Deitou-se no banco do carro, vomitou e dormiu. Para as seguintes noites, convidou Astolfo, Pieiro, Napoleão e outros candidatos a contistas. Ao fim da pândega, eu conduzia o embriagado narrador ao seu lar e rumava para o calçadão da Beira-mar, onde me aguardavam as raparigas em flor.

Ao cabo de alguns meses junto àquelas mesas do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o contista Pedro Salgueiro se disse viciado em álcool. Sua mulher (de então) pediu a separação. E me acusou de desviar a conduta social (e sexual) do seu até então casto e abstêmio marido.

Passavam-se os anos, surgiam outros projetos literários, os novos escritores nos mostravam seus rabiscos, eu me mudei para o Benfica, fez o mesmo Pedro, descobrimos o bar do Assis e mais nos tornávamos amantes do álcool. Vez por outra, aparecia Carlos Emílio, a resmungar, a se dizer perseguido, copiado e plagiado. Astolfo se irritava com as observações de Pedro pela ausência de vírgulas em suas composições. Carmélia Aragão destilava francês ao redor das mesas e prometia peças como há muito não se escrevem. Raymundo Netto lia crônicas de uma imaginária Fortaleza antiga. Adolescentes ávidos de fama cercavam o pobre Salgueiro: leia esta obra literária, publique minha história. Ele fazia promessas de mundos e fundos, piscava um olho para mim, emborcava o copo e se punha a contar piadas, velhas anedotas, sempre repetidas. “A mesma história tantas vezes lida”, como escreveu Florbela Espanca.

Passaram-se os tempos. Agora os encontros se dão em minha mansão na Parquelândia. Mais atento ao hoje do que ao ontem, Pedro tenta, então, imitar Fagner, cantarola o hino do Fortaleza Esporte Clube e me pede para ligar a televisão. Quer ver o jogo do Barcelona. Faço de conta que estou surdo. Ele olha para mim com rancor leonino e deita um litro de álcool goela abaixo. Cansado disso e daquilo, conta a piada de anteontem. Todos riem. Ele bebe mais. Quando se sente menos lúcido, põe-se a analisar as próprias narrativas: Conto sempre as mesmas histórias: homem que foge da cidade, homem que regressa ao lugarejo natal; no desfecho, mato uns e outros. Por isso me chamam de Pedro Sangreiro. Na noite seguinte, conta as piadas de ontem, imita Roberto Carlos e Fagner, e fala de suas (dele) obras.

O melhor de tudo se dá quando me visita: traz com ele dez ou mais amigos. Vai logo às prateleiras, à cata de “novidades”. Vai prestar culto aos meus livros, que são dos outros. Surrupia um Cervantes aqui; alisa um Quevedo ali; pede, por empréstimo, um Dante envelhecido. Ajoelha-se diante deles, faz prece, venera os velhos tomos. Os outros visitantes não se sentem logo à vontade, descrentes. Primeiro bebem muito e falam demais. Alguns se dizem poetas de meia-tigela; outros, prosadores de meia-pataca. Um deles até quer assim ser chamado, teima nisso. Mas é poeta de muito valor: O Poeta de Meia-Tigela. Uns quebram copos e garrafas, outros sujam o tapete de lama. (Quem se lembra da canção “Edredom vermelho”, de Glória Martins e Herivelto Martins?). Esses estróinas (no sentido de singulares) das letras, muito jubilosos quando se sentem entorpecidos, logo se põem a cantar como Nelson Gonçalves. Conhecem toda a música popular brasileira. E a erudita. Netto faz da caneta, às vezes, varinha de maestro, e arremeda Zubin Mehta. São todos muito corteses: lêem meus poemas em voz alta, prometem musicar minhas composições, tencionam me filmar e me dizem eterno enquanto durar. Pedro, o padrinho desses mancebos, se mostra encabulado diante de tantas estroinices e pede licença para ir ao banheiro. Não vai, me engana. Vai ao cômodo (altar) onde repousam os mestres: Anacreonte, Baudelaire, Camões... Todo o alfabeto literário. Nosso livro sagrado.

Fortaleza, abril de 2010.
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