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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Lêdo Ivo, poeta e ensaísta (Adelto Gonçalves*)

I

Grandes poetas, geralmente, resultam em grandes ensaístas. Talvez pela necessidade que têm de sistematizar em ideias aquilo que, muitas vezes, é atribuído apenas à inspiração, embora se saiba que os chamados poetastros só conseguem escrever versos de pés quebrados. Afinal, não dá para imaginar um poeta inspirado que não conheça a fundo o seu ofício, isto é, que não seja um grande teórico, o que significa horas de leitura e conhecimento.

Só de uma enfiada pode-se lembrar aqui de alguns poetas que cumpriram com rigor esse duplo papel: T.S.Eliot (1888-1965), Charles Baudelaire (1821-1867) e Octavio Paz (1914-1998), entre os de outras línguas; Fernando Pessoa (1888-1935) e José Régio (1901-1969), entre os portugueses; e Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Paulo Leminski (1944-1989), entre os brasileiros.

Entre os brasileiros vivos, há pelos menos três que são tributários dessa estirpe e cumprem esse papel anfíbio: Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira e Lêdo Ivo, todos membros da Academia Brasileira de Letras. Haveria outros, ainda que não acadêmicos que não fogem dessa linhagem, como Mário Chamie, Cláudio Willer, Moacir Amâncio e Álvaro Alves de Faria – só para ficar com paulistas –, mas é de Lêdo Ivo que se quer aqui falar a propósito de seu O Ajudante de Mentiroso, reunião de 24 textos ensaísticos curtos produzidos em épocas distintas e a respeito de temas diversos, incluindo participações em solenidades acadêmicas e fóruns universitários.

Em Lêvo Ivo, como em Junqueira, é nítida a influência do ensaísmo anglo-saxônico, especialmente de Eliot, para quem o ofício não exigia uma postura rígida nem solene, mas um estilo coloquial, exatamente aquilo que o ensaísta alagoano constata em José Lins do Rego (1901-1957) que, se não foi poeta, mas romancista, ao reunir impressões de um passeio a Europa na década de 1950, escrevia “à maneira de um Montaigne (1533-1592) ou um Stendhal (1783-1842) – como se a viagem fosse uma conversação”.

Como muito bem observou Eugénio Lisboa em recensão deste livro publicada no Jornal de Letras, de Lisboa, de 23/3/2010, a referência ao francês Montaigne não é fortuita nem invalida a observação inicial que consta do parágrafo acima. Pelo contrário. “Esta alusão ao mestre francês não deixa de ter significado incisivo, porquanto foi ele o pai do ensaio de Bacon (1561-1626) e de todo o grande ensaísmo anglo-saxônico, caracterizado por uma conversa altamente civilizada, mas informal”, diz Lisboa.

É o que, em outras palavras, afirma Lêdo Ivo ao observar, em relação a José Lins do Rego, que “a grande lição do ensaio ocidental é o da literatura em língua inglesa, com os seus ensaístas informais, que escrevem sobre ruas tortas, cemitérios, cidades, viagens, cenas cotidianas, sonhos. E esse tipo de ensaio praticado pelos ingleses, se por um lado se distancia inapelavelmente do eruditismo predatório que grassa entre nós, por outro se aproxima da nossa crônica de jornal”.

Para Lêdo Ivo, um bom ensaísta é um cronista culto, que sabe escrever. “E uma apostila não é um ensaio”, acrescenta, de modo peremptório. De fato, ao contrário do que imaginam certos ensaístas saídos de cursos de doutorado de nossas principais instituições, escrever bem não é escolher palavras desusadas nem construir parágrafos herméticos e quilométricos que levam o leitor a interromper a leitura para voltar ao princípio da frase que já esqueceu por tédio ou fastio e reencontrar o fio do pensamento.

II

Se a observação serve para definir o ensaísmo de José Lins do Rego, cai à medida também para explicar o que Lêdo Ivo entende por ensaio. Pois é com essa “prosa lépida e nervosa” que identifica no romancista paraibano que ele, no ensaio “Os modernismos do século XX”, investe contra certa postura de professores da Universidade de São Paulo (USP) de outros tempos que, por regionalismo ou sabe-se lá por que, transformaram a Semana de Arte Moderna de 1922 no acontecimento mais importante da vida cultural brasileira no século passado. E que professores mais moços, talvez por desídia ou excessiva reverência a nomes consagrados, preferem não revisar.

Segundo Lêdo Ivo, há mais de meio século, a USP, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, e outros órgãos pedagógicos, culturais, editoriais e jornalísticos procedem a uma verdadeira lavagem cultural em dezenas ou centenas de milhares de jovens estudantes. “Professores e pesquisadores, guiados e monitorados por mestres influentes erigidos à cômoda condição de monstros sagrados (ou monstros leigos, inaposentáveis), recebem e propalam sempre a mesma lição: a da dimensão providencial da Semana de Arte Moderna de 1922 e do papel seminal que teria exercido o Modernismo paulista na elaboração da vida cultural do Brasil no século XX”, diz, ressaltando que “inumeráveis teses de mestrado – e que são, na realidade, dóceis ou bisonhos atestados de amestramento – repetem exaustivamente o tema, já convertido numa cláusula pétrea da literatura nacional”.

III

É com razão que Lêdo Ivo se levanta contra essa “verdade” consagrada em compêndios universitários idealizada por quem imagina que os acontecimentos seguem uma seqüência natural, pois, de fato, nada há que sustente que o romance do Nordeste da década de 1930 tem de estar obrigatoriamente atrelado ao Modernismo paulista ou que Geração de 45 seja tributária do movimento de 1922.

Essa é apenas uma de tantas outras “idéias” que se converteram em “cláusulas pétreas” na História brasileira das quais poucos se dispõem a discordar. Outra é que a conjuração mineira de 1789 constituiu uma etapa de um processo independentista que culminaria com a Independência de 1822.

Mais uma é chamar de Revolução de 30 (assim mesmo com maiúscula) um golpe militar dos mais salafrários como todo golpe, que não passou de uma rearrumação de elites carcomidas no poder. Até porque não há nada que garanta que o Brasil seria melhor ou pior se a República Velha (1889-1930) tivesse sobrevivido mais quinze anos. Pelo menos aquelas elites tinham certo verniz cultural que haviam trazido de Paris. E o País? Ora, o País, certamente, seria tão atrasado quanto o é hoje, com suas legiões de miseráveis e seus alarmantes níveis de violência social.

Aliás, se aqueles que tomaram o poder em 1930 tivessem alguma preocupação cultural teriam aproveitado a década para criar em algum lugar de suas regiões uma universidade do nível da USP e, se não o fizeram, é porque o que queriam mesmo era igualmente usufruir o direito de sugar as tetas do erário da Nação, a exemplo do que fizeram até então os cafeicultores paulistas e seus associados durante a República Velha, como observou Lima Barreto (1881-1922) em vários textos reunidos em Toda Crônica, volumes I e II (Rio de Janeiro: Editora Agir, 2004). E, no entanto, foram os representantes das elites derrotadas em 1930 e 1932 e o interventor federal da ditadura em São Paulo que criaram a USP em 1934.

Se tivesse surgido uma universidade do porte da USP no Nordeste àquela época, com certeza, o romance nordestino da década de 1930 é que teria sido ungido a acontecimento mais importante da literatura brasileira no século XX. Até porque o reconhecimento cultural sempre andou atrelado à importância econômica da região daqueles que produzem os fatos. Ou será que, se James Joyce (1882-1941) fosse brasileiro e escrevesse em português, o romance Ulisses (1922) seria reconhecido como um divisor de águas na literatura mundial?

IV

Para Lêdo Ivo, o Modernismo de 1922 não passou, “em muitos de seus aspectos, de uma rumorosa e festiva repetição, um gracioso plágio, uma astuta clonagem do primeiro e seminal Modernismo deflagrado em 1836, como comprovam os manifestos assemelhados, a postura selvático/internacionalizada de alguns de seus corifeus, e o empenho de abrasileiramento e coloquialização da nossa língua”. E quem há de dizer o contrário? Até a idéia da antropofagia foi clonada dos Essais de Montaigne, lembra.

Nem por isso se pode negar os méritos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia (1892-1988), Ribeiro Couto (1898-1963), Raul Bopp (1898-1984) e outros, embora o maior de todos os modernistas -- até porque precursor do movimento -- tenha sido o pernambucano acariocado Manuel Bandeira (1886-1968), cuja poesia não envelheceu tanto quanto a dos demais.

V

Mas não se imagine que Lêdo Ivo alimenta qualquer parti pris contra São Paulo. Na verdade, o ensaísta é reconhecidamente generoso com aqueles que lhe proporcionaram algum deleite ou emoção a partir da leitura de seus textos, independente de onde nasceram. E isso inclui não só os grandes mestres universais como brasileiros de todas as latitudes.

É assim que, em “A propósito de Orígenes Lessa”, reconhece o talento de um escritor que, embora dono de vasta obra, que inclui romances, novelas, contos, reportagens e livros de viagem, não teve o lugar que merecia na história da Literatura Brasileira. Orígenes Lessa (1903-1986), observa Lêdo Ivo, foi um raro escritor que sempre soube usar o diálogo em seus romances e contos, a ponto de fazer com que “a ação das histórias e a psicologia dos personagens se revelem através da dialogação”.

Por isso, foi um dos poucos, como Alcântara Machado (1875-1941), que fez desfilar em sua obra uma variada população da cidade de São Paulo: os carcamanos, os paus-de-arara (dos quais saiu até um presidente da República), os japoneses, os provincianos da grande metrópole, os caipiras, os chineses, as prostitutas, os trocadores de ônibus. “É realmente notável a capacidade que ele tem de mobilizar pequenas vidas e pequenos destinos”, diz o ensaísta.

Por aqui se vê quanto vai perder quem deixar de ler estes pequenos textos ensaísticos de Lêdo Ivo que, reunidos, dão uma visão pouco usual da Literatura Brasileira, a ponto de resgatar até um esquecido modernista, Geraldo Ferraz (1905-1979), e seu romance Doramundo, publicado em 1956 por um suposto Centro de Estudos Fernando Pessoa, de Santos, mas escrito em boa parte na cidade de São Paulo em 1952 e concluído em outubro de 1955 em dias de descanso em Praia Grande.

Quantas cidades não dariam a vida – se é que cidades podem ter vida – para ostentar esse privilégio? Pois é, ao que se sabe, a Prefeitura de Praia Grande ainda mantém o nome do ditador Garrastazu Médici (1905-1985) dado em tempos nebulosos para sua biblioteca pública, que, por estes dias, passa por reformas. Santa ignorância.

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O AJUDANTE DE MENTIROSO: ENSAIOS, de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Editora Universitária Candido Mendes (Educam), 349 págs., 2009. E-mail: cmendes@candidomendes.edu.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Terroir (Ronaldo Monte)

(Quadro de Chico Lopes)

Para Fátima e Waldir

Conversar fiado é uma arte. Sexta-feira de noite, então, é a mais necessária e imprescindível. Principalmente se você estiver na cozinha da casa dos amigos comendo pão com café, ambos feitos na hora. E se depois houver a possibilidade de rolar um vinho italiano, aí a conversa fiada se torna uma questão de sobrevivência.
Uma boa conversa fiada é aquela que se confunde com uma sessão coletiva de livre associação. Deixa-se a prosa à deriva, seguindo para onde bem quiser, ao sabor das mínimas circunstâncias e ressonâncias.
Sexta-feira passada, por exemplo, estávamos na tal cozinha, já no momento de passar do pão com café para o vinho italiano. Numa das prateleiras do armário havia um rótulo de manteiga, resto de uma viagem à França, anunciando que o produto era de Terroir. Não importa muito quem primeiro tocou no assunto, mas a minha posição era a de que a classificação de Terroir só era aplicável aos vinhos. O dono da casa, especialista em me contrariar nas minhas afirmações categóricas, falou qualquer coisa sobre a complexidade do termo, que ia muito além da simples demarcação geográfica de uma região agrícola. A dona da casa, por sua vez, que adora me ver derrotado em minhas opiniões, foi lá dentro e voltou com uma página impressa do Wikipedia que me dava um pouco de razão, mas puxava a brasa para a sardinha do marido. Minha mulher não disse nada, mas eu adivinhava o quanto estava saboreando a derrota iminente da minha posição.
Não me lembro bem do final da discussão. Aliás, a boa conversa fiada é aquela que não leva a conclusão nenhuma. É uma estratégia para se voltar ao assunto numa próxima reunião. O importante é que o tema seja instigante o suficiente para se passar do café ao vinho e deste ao licor ou coisa mais perigosa que nos entregue ao abandono do convívio despretensioso.
Independente de qualquer definição, havia uma compreensão comum sobre o significado da palavra terroir. O território, o rincão que nos tornava iguais em nossas diferenças era o lugar mesmo em que discutíamos. Aquela cozinha era o nosso terroir, assim como são todos os lugares em que os amigos se encontrem para jogar conversa fora e se querer bem.

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os trilhos cruzados de Silvério da Costa (Nilto Maciel)

(De boné, Silvério da Costa)


Conheço (nunca o vi) Silvério da Costa há muitos anos. Talvez desde 1989, ano de publicação de seu primeiro livro, Retalhos da existência. Escreve e publica sem parar. Mas sem pressa. Escreve poemas e artigos, resenhas, notas de leituras. Que publica em jornais. Envio-lhe meus livros; ele os lê e comenta. Com muita atenção e sabedoria.

domingo, 1 de agosto de 2010

Tempo (Emanuel Medeiros Vieira)




Em memória de Evandro Magalhães e de Stuart Angel
Para Maura Soares


Dizei-me em tempo o que é o tempo?
Senhor, antes de cruzar a ponte, Ensinai-me:
linha reta de eterna agonia?
bússola na encruzilhada?
Sim, o choro de uma menina nascida na luz de agosto,
de um menino junto à flor de maio.

É o vento?
O espaço?
O mar?

Meus mortos não me respondem, Senhor.
Tempo: não o retenho -
areia da praia que escapa da mãos.

Lapso no cosmos,
cometa errante,
eu sei, Senhor: assim sou:
pretérito menino contemplando a gaivota,
sentado no trapiche da Praia de Fora.

(Salvador, julho de 2010)
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Poemas de Inocêncio de Melo Filho

(Mosteiro dos Jesuítas, Baturité, Ceará)

Vitória

Os sinos dobraram
Não os escutei
O sono venceu o cansaço
E a minha ida ao templo.
(09/05/10)


Ao que ficou

Para Danyhele

Nossas faces frente a frente
Bocas na mira
O beijo não veio
Nem foi
Ficou o desejo desenhado
Nos meus lábios.
(04/05/10)

Lição do tempo

Eu sou poeta
Funcionário público e pai de família.
Já fui o herói dos meus pimpolhos
mas o enredo se transfigurou.
A nova trama me assusta
Perdi o domínio do texto
e minha voz se perdeu no barulho.
O tempo me diz que é assim mesmo.
Subsistir é o princípio
para que se alcance o final da história.
(12/06/10)

http://www.transitoriodiamante.blogspot.com/
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terça-feira, 27 de julho de 2010

Borges (Emanuel Medeiros Vieira)

É vasta a nossa população de mortos.

O mundo, Borges,

infinita biblioteca, além – é claro – de tigres,

espelhos, labirintos, punhais, livros, proféticos

sonhos, Homero, Camões, outros cegos – você,

a sombra enaltecida não é sombra,

claridade de alguns labirintos,

portas, enigmas decifrados,

alta capacidade mnemônica.


Somos poucos, somos tão poucos,

e parecemos muitos.

“Alguém constrói Deus na penumbra”, escreves sobre Spinoza.

Amor?

É o Espírito Santo que nos escreve?

A literatura como sedução/invenção: a vida só não basta.


Irmão: fazedor de enigmas,

decifrador de espelhos,

contemplador de tigres,

este punhal que manejo agora: a construção do poema.

Nada podemos contra a solidão?

Shakespeare, Cervantes, Stevenson, “As Mil e Uma

Noites”, a Bíblia, e toda as obras desta estirpe de

mortos, mas que não inventam o silêncio: estão aqui nos livros lemos.


Somos poucos, mestre, somos tão poucos, mas não sozinhos,

parecemos muitos.

Estás junto aqui, agora, comigo,

neste maio,

luminosa manhã planaltina

(poderia ser uma rua perdida de Buenos Aires, ou da

Bahia, onde começamos).


Sim, é vasta a nossa população de mortos,

Só queria pressentir tua alma,

descobrir meus inquietos córregos, pântanos.


Iluminas o breu, mágico cego,

singrando por outros mares,

sem portulanos, astrolábios,

também breve a vida,

vejo intrusos, lugares remotos, mapas de

fronteira, duelos, a morte na poeira,

ruínas e renascimento, sombras dentro de sombras: este sol interior.


O mais pródigo amor te foi outorgado

(como te referiste a Baruch Spinoza):

o amor que não espera ser amado.



Este poema obteve o 1° Lugar no Concurso Literário “Prosa & Verso”, certame de âmbito Nacional promovido pela Universidade e pela Prefeitura de Caxias do Sul, RS. O mesmo texto – concorrendo com 751 trabalhos – foi classificado entre os 10 primeiros no Festival de Poesia promovido pela Funarte, Brasília.
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terça-feira, 20 de julho de 2010

Flores & frutos (Pedro Du Bois)



Compre na passagem

um ramalhete simples

e enfeite

a sala de visitas



tenha a visão

do jardim de ontem



aspire o perfume

como sonho encontrado

de situações futuras



refaça as flores no vaso

retire as hastes

diminua o tamanho

equilibre a disposição

entenda a beleza

decorrente da combinação



a sala resplandece nas cores

silvestres das flores

e o jardim se faz breve

na efemeridade

da vida e morte.

(Pedro Du Bois, em FLORES & FRUTOS)
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domingo, 18 de julho de 2010

Versos frios (Silmar Bohrer)


Andei buscando no frio

algum versinho faceiro,

mas o pensar é vazio

neste inverno caborteiro.



Típica tarde hibernal,

os ares, a névoa, chuvinha,

meus versos, a ladainha

do meu mundo magistral.



Ventos ora vêm, ora vão

nestas borrascas julinas,

e parecem assombração

em cantorias cantorinas.



Daquelas tardes sombrias

sem nenhum encantamento,

eu e os versos num só lamento

metidos em borrascas frias.



Hora de juntar os pelegos,

tempo de sombra nos caminhos,

cobertor de orelha, arreglos,

os meus versos e meus vinhos.



Pássaros cantam chorosos

nos ramos, na galharia,

reclamam em cantoria

destes dias hibernosos.



Santos ventinhos julinos

já totalmente hibernais,

ventos lúgubres, teatinos,

clamais, chorais, penetrais.



Nesta borrascas de julho

o tempo é mesmo inclemente,

fazendo de cada um impotente,

reduzindo eu e você num bagulho.



Os ventinhos hibernais

que chegam das cordilheiras

são mensagens ligeiras

que passam e não voltam mais.



Borrascas, borrascas, borrascas,

sombrias, sombrias, sombrias,

nevascas, nevascas, nevascas,

invernias, invernias, invernias.



Daquelas manhãs hibernais

tipicamente geladas,

a aura, as brisas molhadas

têm os modos infernais.



Andam ventinhos hibernais

neste julho, nas borrascas,

respiram viventes às vascas

com os friozinhos que tais.

15/07/10

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Arthur Azevedo resgatado – Adelto Gonçalves (*)

I

Se não têm a transcendência inata da obra-prima que carregam os textos de Machado de Assis (1839-1908), aos contos de Arthur Azevedo (1855-1908) ao menos não se pode acusá-los de terem envelhecido. É o que pode muito bem constatar quem se dispuser a ler Contos de Arthur Azevedo: os “efêmeros” e inéditos (Rio de Janeiro, Editora PUC-Rio/Edições Loyola, 2009), com organização, introdução e notas do pesquisador e professor Mauro Rosso.

Graças ao trabalho de garimpagem de Rosso, o leitor terá logo a surpresa de encontrar um texto inédito, o conto “A viúva”, que Arthur Azevedo enviou ao Correio da Manhã, onde escrevia aos domingos, para concorrer à vaga aberta por si mesmo, devido à decisão da direção do jornal de substituí-lo por outro colaborador. Assinado por pseudônimo, o conto foi publicado. Então, Arthur Azevedo revelou o estratagema à direção, deixando claro que interesses subalternos ou julgamentos equivocados estavam por trás da decisão de defenestrá-lo da redação. Diante disso, Arthur Azevedo pediu demissão, pois agora quem não queria mais escrever no periódico era ele.

Embora injustamente esquecido nos dias de hoje, Arthur Azevedo é um dos melhores e mais profícuos contistas da literatura brasileira de todos os tempos, como observa Mauro Rosso, lembrando que “nenhum outro o sobrepujou na arte de fixar o aspecto ridículo da vida íntima da sociedade de então, principalmente a de certos círculos da classe média do Rio de Janeiro”.

Ao seu tempo, o panorama literário era dominado por nomes como Machado de Assis, Coelho Neto (1864-1934), Raul Pompéia (1863-1895) e seu irmão Aluísio Azevedo (1857-1913), mas quem gozava mesmo de popularidade era Arthur Azevedo. É provável que seus contos tenham sido até mais lidos que os de Machado de Assis.

II

Embora tenha sido considerado depois de sua morte um autor menor, superficial, fútil e vulgar, esse é julgamento que não se justifica e que pode estar ligado à antipatia que colhera entre seus contemporâneos, talvez por ter sido um florianista intransigente, que via no marechal Floriano Peixoto (1839-1895), apesar de seu autoritarismo e despotismo, a preservação do ideário republicano que havia nascido das casernas. Um deles teria sido Ubaldino do Amaral (1842-1920), advogado, jurista, senador e literato de certo renome ao seu tempo. Cronista, teatrólogo e poeta, Arthur Azevedo sempre foi homem de opinião formada e, por isso, teve alguns problemas com a censura policial da época, que lhe vetou algumas peças.

Antiescravagista de primeira hora, publicou muitos artigos e crônicas defendendo o fim do iníquo regime que envergonhava o Brasil diante do mundo civilizado. E uma de suas peças “A família Salazar”, escrita seis anos antes da abolição de escravatura, foi vetada pela censura imperial.

III

De um lado, este livro reproduz integralmente a edição original da obra Arthur Azevedo: contos efêmeros (Rio de Janeiro, Typographia C.R.C., 1897), de outro traz contos publicados originalmente em periódicos, recolhidos e reproduzidos por Mauro Rosso a partir de suas fontes primárias indicadas em cada um dos textos.

Além de uma breve cronologia da vida e obra do autor, a obra traz notas que muito ajudam o leitor a contextualizar fatos e localizar logradouros que hoje não mais existem ou que tenham tido seus nomes trocados. Se há algum reparo a fazer nesta edição primorosa é um cochilo que se constata na primeira nota para o conto “A dívida” e que se refere à rua de São José, que é tomada pela famosa via carioca na Esplanada do Castelo, quando pelo texto se vê que o autor se refere à rua de São José em São Paulo, onde viviam num quarto alugado Montenegro e Veloso, os personagens principais, ao tempo em que cursavam a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Nos contos de Arthur Azevedo, como bem observa Mauro Rosso, a mulher, protagonista marcante, é desenhada ora com traços carinhosos e afáveis, ora desprovida de escrúpulos, capaz de qualquer coisa para satisfazer seus desejos fúteis, como aquela personagem de “O Tinoco” que, embora casada, apaixona-se por um toureiro e vive a imaginá-lo em seus braços a ponto de confundi-lo com um ocasional passageiro de bonde, descobrindo o logro só depois de ir com ele a um hotel suspeito.

É verdade que não se pode acusar Arthur Azevedo de machista ou outro adjetivo que acabaria por nos levar ao anacronismo, ao julgar-se com os olhos de hoje uma sociedade que já não existe, até porque o autor trata da infidelidade e o adultério de maneira igualitária entre homens e mulheres. Em todos os casos, o que se sobressai é o ridículo da situação.

Se até hoje Arthur Azevedo não tem recebido o justo reconhecimento que sua ficção mereceria, é de imaginar que a partir deste trabalho de arqueologia literária de Mauro Rosso sua importância seja finalmente resgatada. E que os autores de antologias dos melhores contos brasileiros de todos os tempos não se limitem a reproduzir conceitos que foram elaborados há muito e que acabam consagrados porque quase ninguém vai conferir nas fontes primárias o real valor de certos escritores. Foi o que fez Mauro Rosso que, dessa maneira, ajuda a Literatura Brasileira a redescobrir um de seus grandes autores que estava submerso, vítima da incompreensão de alguns críticos.

IV

Pesquisador, ensaísta e escritor, Mauro Rosso é autor de Uma proposta para a prática pedagógica (2002); São Paulo, a cidade literária (2004), Cinco minutos e A Viuvinha, de José de Alencar: edição comentada (2005). Colaborou em Machado de Assis e a economia (organização de Gustavo Franco, 2007) e preparou a antologia Machado de Assis e a política: crônicas (Senado Federal).

Pelas editoras PUC-Rio/Edições Loyola, publicou em 2008 Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés e prepara para publicação os seguintes textos: Escritos poéticos de Euclides da Cunha; Os contos argelinos e outros textos recuperados de Lima Barreto; Queda que as mulheres têm para os tolos: Machado de Assis, o subterfúgio, o feminino, a transcendência literária; e Gazeta de Holanda: os versiprosa de Machado de Assis.

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CONTOS DE ARTHUR AZEVEDO: OS “EFÊMEROS” E INÉDITOS, de Mauro Rosso (organização, introdução e notas). Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio/Edições Loyola, 275 págs., 2009. E-mail: edpucrio@puc-rio.br editorial@loyola.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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quinta-feira, 15 de julho de 2010

No outro dia (Ronaldo Monte)

(Arte de Chico Lopes)

Acordar de manhã e sentir a casa vazia. Como um viúvo. Um deixado pela mulher. Ainda ontem a sala estava cheia. Um ar denso de esperança dificultava a respiração. Como das outras vezes, a cerveja estava gelada, os petiscos davam água na boca, a cachacinha botava ordem nos nervos. Obedecendo ordens da minha mulher, já havia pedido desculpas antecipadas aos convidados menos íntimos pelos palavrões que viriam a ser emitidos nas próximas duas horas por mim e meu irmão.

As previsões de todos os entendidos garantiam uma vitória certa. Não havia com o que se preocupar. Os primeiros 45 minutos deram a certeza de que a sala explodiria de alegria dali a pouco. Bebemos e comemos, todos, com um vasto sorriso nos lábios.

Aí, veio o segundo tempo. Aí o tempo fechou. A impressão que me deu é que um bando de zumbis tomou o corpo dos nossos jogadores. Claro que não eram eles que estavam em campo. Pelo menos não eram os mesmos do primeiro tempo.

A sala já não era a mesma do primeiro tempo. Olhares aflitos, expressões de desespero, impotentes impropérios lançados sem alvo definido. Depois, o gosto amargo do almoço engolido por obrigação, grossos goles de cerveja empurrando o feijão goela abaixo. Quase intocada a enorme travessa de macarronada feita para os vencedores famintos.

Acordar de manhã e dar de cara com cenário da derrota. A sala vazia, a solidão da bandeira sobre a pequena mesa colocada em lugar estratégico de frente para a televisão de LCD comprada a prestação só para ver a copa.

Acordar de manhã e ter certeza de que uma copa não é tão importante assim. O Brasil está aí, às vésperas das eleições. O mundo está aí, às vésperas de uma nova convulsão. Todos nós estamos aí, como bons brasileiros, prontos para exercer a nossa eterna profissão: a esperança.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sinfonia da vida (e das cores) (Tânia Du Bois)




“Sem aviso / o vento vira / uma página da vida.”


Apreciar o Sol e o mar, acompanhada de Helena Kolody, em poemas, é uma verdadeira sinfonia da vida. O Sol trilha o caminho da luz em busca de clareza, da verdade. O mar nos dá a sensação da ampliação da consciência, abrindo-se para o belo e o novo. A poesia vai além da hora certa, é ponto essencial para a sinfonia da vida e para a cultura. Assim, posso apreciar e valorizar a vida.

Sinfonia da Vida, de Helena Kolody, é uma obra que vai além da rima, da métrica e do ritmo. “É harmonia: uma música brotando da poesia para cantar a vida”.
Seus poemas contam sua história familiar e amorosa, e suas lembranças. “Vim da Ucrânia valorosa / que fui Russa e foi Rutêria / povo indomável, não cala / A sua voz sem algemas. / Vim do meu berço selvagem / lar singelo à beira d’água / no sertão paranaense... / Por fim ancorei para sempre / em teu coração planaltino / Curitiba, meu amor”.
É um livro de versos pequenos, que descrevem a grandeza do infinito. Sua poesia tem força descontraída, os poemas são espontâneos e seguem o compasso e a harmonia melodiosa das frases em movimento.

“Quem vai cantando / Não vai sozinho. / Dançam em seu caminho /
O sonho e a canção”.

Após aprender a ler, decorava e cantava os livros que lia; adorava as histórias infantis. O magistério e a poesia foram as duas asas de seu ideal.

“Sempre cheguei tarde / ou cedo demais. / Não vi a felicidade acontecer. /
Nunca floresceram / em minha primavera / as rosas que sonhei colher. /
Mas sempre os passarinhos / cantaram / e fizeram ninhos / pelos beirais /
do meu viver”.

Em 1951, escreveu A Sombra no Rio, depois, passou treze anos sem produzir, o que veio dividir a sua obra em duas fases: a primeira, mais lírica e, a segunda, mais filosófica.
“Pairo, de súbito / noutra dimensão. / Alucina-me a poesia / loucura lúcida”.

Foi uma poetisa que captou os sentimentos e a vida pelo mundo. “Palavras são pássaros, / voaram! / Não nos pertencem mais”.

Helena Kolody deixou a mensagem, “Aprendi a conhecer o poder extraordinário que a palavra tem e adquire consciência da responsabilidade que a palavra gera. Ela tem valor presente e um alcance futuro incalculável. O que dizemos deixa marcas indeléveis na inteligência e na sensibilidade dos outros”.

Seguindo a mesma linha de pensamento que Helena Kolody nos mostrou na poesia, situo a sinfonia de cores do artista plástico Sérgio Fingermann. Sinfonia de cores são elementos que dialogam com lembranças e memórias da infância, com rigor próprio e questionamentos.

Na poética dessa produção, Fingermann incorpora letras e palavras, pinta as nove sinfonias de Beethoven, promovendo a interação entre a música e as artes visuais. Os trabalhos deram origem a um conjunto de obras na qual o artista explora o silêncio como qualidade própria da pintura.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Notícia (Inocêncio de Melo Filho)



Saramago morreu

Disse-me um amigo no e-mail

Não acreditei

Fui ao jornal

A notícia estava lá

A saudade lusitana se avoluma

E a minha fica difícil

De carregar...

(19/06/10)
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domingo, 11 de julho de 2010

Orós (Mario Sawatani)



(Alexandre, filho de Mario, a navegar no Açude Orós)

A pequena cidade de Orós é famosa por ter um dos maiores açudes do Brasil e por ser o berço do cantor e compositor Raimundo Fagner. Decidi visitá-la.

Logo que cheguei, desci do carro, e fui assediado por um dos barqueiros que me oferecia passeio pelo açude.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A cidade fria e o romance dos pés (Djalma Filho)


Em uma cidade, onde as mulheres usavam meias com um rigor quase militar, numa parada de ônibus, vi, impávida, uma mulher de sandálias – sem nada nos pés, apenas sandálias. E que pés devassos!... A única mulher sem meias da cidade? Olhei-a tornozelo abaixo. Mal percebi se casada ou solteira, se bela ou feia, se gorda ou magra... Apenas, sem meias. Talvez, a única mulher sem meias da cidade.

Solteiros, meus pés excitaram-se. Claustrofóbicos desde quando se viam em meias, a sonhar por liberdade aos chulés, pelos teus pés sem meias, eles se apaixonaram. Do ônibus, subiram um, dois, três degraus... Não mais os queriam perder de calcanhar. Sentaram em um banco, lado a lado aos teus, antes que, num cispar digno apenas de pés, teus pés saltassem em uma parada qualquer. Descobriram-se feitos uns para os outros, e que não nasceram para usar meias, e que nem a cidade dos Pés Juntos os separariam.

Assim, deram a dormir juntos - aquecendo-se.

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.
http://www.blogger.com/home
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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Esse mato baixo (Nilto Maciel)




Recebo visitas de jovens escritores com muita frequência. Às vezes vem somente um, que chega manso, quase medroso, como se eu fosse um monstro. As jovens, mesmo as mais audazes, não ousam aparecer sós; chegam acompanhadas do pai ou de amigo. Na maioria das vezes chegam aos grupos, liderados pelo gorducho Pedro Salgueiro. Em algumas noites, minha ampla sala se mostrou pequena para tanta gente: Raymundo Netto, Poeta de Meia-Tigela, Manuel Soares Bulcão, Carlos Nóbrega, Carlos Vazconcelos, Mário Sawatani, Frederico Régis, Silas Falcão, Tércia Montenegro, Urik Paiva, Carmélia Aragão, Felipe Barroso, Mardônio França e outros.

Lembro muito de todas essas noites. Sobretudo de uma em que me achava muito deprimido. Para me transformar, comprei dúzias de vinho, uísque e cerveja, além de haxixe e outras plantas medicinais. Iniciada a degustação, pedi licença para ler umas frases. E assim aquela noite de esperadas delícias se foi tornando o nosso inferno. Pus-me a falar, pausadamente: “Qual de vocês cruzou os mares em busca da ilha perdida? Do tesouro, do paraíso, do novo, das Índias? Quem encontrou os seres fabulosos de que falavam os viajantes? Quem viu sereias? Você já foi ao Monte Everest? Conseguiu voltar ou ficou por lá? Sentiu-se muito só, a um passo da eternidade? Já foi ao espaço sideral? Sabe o nome da nave? E de quem o acompanhava? Chegou a passear, preso a um fio, pela parte externa da espaçonave? Pensou em se desprender dela e se perder na noite infinita? Não teve coragem de deixar a cápsula, ficou encolhidinho dentro dela, a olhar para as estrelas pelas janelas?”

Um dos convivas engoliu meio copo de bebida e quis saber de que eu falava. Aspirei, com sofreguidão, meu cachimbo: “Estou falando de viagens singulares. De viajantes como Ulisses e Robinson Crusoe. De aventureiros e astronautas. De viajantes aos abismos do ser humano, como Kafka. E também daqueles que jamais ousariam escalar montanhas ou montes como o Everest. Para eles, a Serra de Maranguape ou o Morro do Urubu são o píncaro do mundo. E ainda se perdem cedo em suas pequenas matas. Preferem se aventurar pelas ruelas de Fortaleza ou do Rio de Janeiro. Outros vão mais além, até viajaram pelo espaço. Mas se desprenderam da nave e se perderam no espaço celeste. Ou na cachoeira das eras”.

Alguém se moveu na cadeira e, irritado, se pôs a gritar: “Não, não cruzei os mares, mas conheço, como poucos, a gramática. Com facilidade, encontro erros e mais erros em sua prosa de escritor preguiçoso. Sei usar o verbo aqui, o substantivo ali, a vírgula acolá. Sou escritor correto, culto. Mais do que muitos supostos gênios”. Ri-me do ingênuo. Por acaso há ou houve algum gramático que escreveu poemas como Os Lusíadas, contos como “A cartomante” ou romances como Angústia?

Outro nervoso poeta pulou ao centro da sala: “Pois saiba, senhor Nilto, que conheço todas as rimas, todas as métricas, todas as manhas da boa poesia. Sou um poeta federal. Ou universal”. Sorvi mais um gole de veneno: “E você acha que Fernando Pessoa é grande poeta porque conhecia rimas, métricas e manhas?”

Um prosador acanhado pediu licença para se pronunciar: “Minha imaginação é tão prodigiosa que consigo escrever, mentalmente, um romance a cada noite. Entretanto, não tenho capacidade de copiar, de transpor para o papel nem a milésima parte do que imagino. Se eu fosse uma máquina sobre-humana, um computador de alta tecnologia, certamente estaria muito à frente de Cervantes, Balzac e Joyce”. Bateram palmas. O jovem enrubesceu, como as donzelas dos romances de Alencar. Folheei seu livro. O título me chamou a atenção: Prodígios de um bebedor de vinho numa noite fria ao pé do Monte Sião. Quase mil páginas. Técnicas de narração variadas: frases longas e curtas, quase cem narradores, diálogos interiores em cinco ou seis dialetos, episódios entrelaçados. Causaria inveja aos mais ousados narradores. Um leitor, porém, viu no livro apenas um amontoado de frases: romance feito em liquidificador.

O quinto a se manifestar riu de mim e fez perguntas indelicadas: “Você já leu William Butler Yeats? Pois eu li toda a melhor literatura irlandesa, assim como a inglesa, a francesa, a russa, a antiga e a moderna, a conhecida e a desconhecida, quase tudo no original, pois estudei as principais línguas ocidentais”. Pedi desculpas de minha ignorância. Ora, da Irlanda, por exemplo, mal conheço Joyce, Swift e Wilde. Tudo traduzido.

Um sujeito com cara de sábio deu um pulo da cadeira: “Sem muita inteligência não é possível escrever boa literatura”. Perguntaram-lhe o que é inteligência. Ele buscou quadro e giz. Encontrou papel e lápis. Fez uns rabiscos, desenhou a fórmula da vida e a flâmula da morte.

Como se explica isso? Por que uns poucos vão além da soleira da porta e se perdem nos infernos e paraísos, enquanto a maioria nasce, vive e morre no canto da sala, a ler sofregamente, a escrever em desvario, a inventar receitas, a rasgar papiros? Certamente o que diferencia uns de outros não são as leituras, não são as viagens, não é a imaginação, não é a ousadia, não é a dedicação à literatura, não é o corpo, não é a alma, não é a origem de cada um, não é a educação, não foi o leite materno, não foi o berro do boi. A explicação deve estar lá no fundo do cérebro.

Amadeu Amaral, em “Elogio da mediocridade”, escreveu algumas frases que podem nos ajudar a aceitar os abismos e os céus: “Toda literatura pressupõe uma multidão de medíocres, e não só de medíocres, senão também de inferiores, de rudimentares, de falhados e de decadentes. Tanto mais pujante e luminosa ela é, tanto mais grossa a multidão rasteira. Esse mato baixo sustenta a indispensável camada de humus, resguarda e entretém a vida incipiente das árvores destinadas à máxima expansão. Foi esse mato que permitiu, na Inglaterra, o crescimento fabuloso de Shakespeare, a cuja volta trabalhava e produzia uma plêiade de dramaturgos fortes e uma turba-multa obscura de escribas irrequietos”.

Fortaleza, junho de 2010.
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terça-feira, 6 de julho de 2010

Onde (Pedro Du Bois)

Você

vinda

de longe: onde notícias mudam

o estar candente?

onde premissas alteram

o estar presente?

onde raízes encobrem

o estar absorto

ao tempo?


Vinda de longe você recupera

no trajeto a necessidade de ter

estado além do aceso fulgor

das descobertas: onde vidas

consomem o estar adiante?


http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1278
http://www.mhariolincoln.jor.br/convidados/pedro-du-bois-6.html
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

(Outros) versos marinhos (Silmar Bohrer)



Vou por linhas paralelas

versinhos versificando,

e as rimas, tantas delas,

entre açucenas rimando.


Ares que me fazem bem

os ventinhos cá da praia,

e ainda trato com desdém

essa tal de essência gaia.


Viver versejando versos

eis então o que se adora,

versos pobretes, dispersos,

todavia, ou embora.


Uma noitinha toutinegra

estamos vivendo na praia,

nesta noite não se arregla

nem mesmo a essência gaia.


Serão versos silmanares

estes versinhos meus,

sei que são bem exemplares

aos olhos do bom Zeus.


Daqueles dias enfadonhos

em que o sol está ausente,

ventos, ventinhos medonhos,

nuvens nublando a gente.


Velocidades constantes

ventarolando os ventinhos,

são os dóceis arezinhos

ventando esvoaçantes.


Sentar cá no escurinho

é uma delícia sem par,

me vou longe a divagar

buscando algum versinho.


Como vou eu então ficar

sem o menor pensamento,

é folha levada ao vento

que corro longe a buscar.
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domingo, 4 de julho de 2010

O senhor embaixador (Adelto Gonçalves*)

I

O embaixador Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010) esteve nove anos a braços com uma tarefa de proporções ciclópicas: traduzir para o português o romance em versos Eugênio Onegin, obra-prima do poeta russo Alexander Pushkin (1799-1837), precursor de Dostoievski (1821-1881) e Tolstoi (1828-1910). O livro acaba de ser publicado (Rio de Janeiro, Editora Record, 2010, 288 págs., R$ 47,90), mas o embaixador não poderá fazer o lançamento que imaginava organizar nos jardins da Embaixada do Brasil ou no Palácio Galveias em Lisboa. O embaixador faleceu dia 6 de junho em Fortaleza.

Ainda bem que a Academia de Literatura Russa agiu com rapidez e já lhe havia reconhecido o trabalho com uma condecoração. Também o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, com a parceria do Instituto Rio Branco, fez-lhe, em janeiro de 2009, uma homenagem na sede da Embaixada de Portugal em Brasília.

Natural de Fortaleza, o embaixador Dário cumpriu duas brilhantes trajetórias: na diplomacia e na literatura. Em 1984, publicou Era Lisboa e Chovia (Rio de Janeiro, Nórdica) sucedido por Era Tormes e Amanhecia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1992) e Era Porto e Entardecia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1995), trilogia que constitui um mergulho profundo no universo de Eça de Queiroz (1845-1900). É também autor de Dinah, Caríssima Dinah (São Paulo, Horizonte Editora, 1989), livro em que homenageou a esposa, Dinah da Silveira de Queiroz (1911-1982), romancista, cronista e contista que integrou a Academia Brasileira de Letras, com quem foi casado de 1962 a 1982. Seu último livro foi Luso-Brasilidades nos 500 Anos (Universidade Federal do Ceará, 1999), que reuniu artigos e palestras.

II

Filho de uma família de grandes comerciantes e industriais, ele preferiu seguir sua vocação e continuar os estudos no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Seguiu, então, para o Instituto Rio Branco, preparando-se para a carreira diplomática. Tornou-se poliglota. Aos 22 anos, após um estágio na Organização das Nações Unidas (ONU), foi nomeado terceiro-secretário. Em 1954, passou a cônsul de segunda classe, trabalhando em Buenos Aires até 1958. Em Nova York, foi segundo secretário da ONU, entre 1958 e 1960.

De 1962 a 1964 foi primeiro-secretário na Embaixada do Brasil em Moscou, onde teve despertada a sua paixão pela literatura russa, e de 1965 a 1967, cônsul em Roma e, em 1971, primeiro secretário. Após 27 anos de trabalho, chegou, em 1979, ao cargo de embaixador, representando o Brasil em Lisboa até 1983. Já havia sido chefe de gabinete do ministro das Relações Exteriores e secretário-geral e ministro-interino das Relações Exteriores. De 1983 a 1989, foi embaixador na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington. Foi ainda cônsul-geral do Brasil no Porto até 1990, quando se aposentou com categoria de embaixador.

Em vez de retornar ao Brasil, preferiu fixar residência em Lisboa, num apartamento no Campo Grande, a 100 metros da Biblioteca Nacional, até onde se deslocava quando necessitava apurar alguma informação. Por isso, sempre foi tratado por todos os diplomatas que o sucederam no cargo em Lisboa como uma espécie de embaixador-honorário do Brasil. Era freqüentemente convidado a dar palestras em instituições portuguesas, como a Academia das Ciências de Lisboa. Foi eleito membro da Academia Portuguesa da História. E era presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira.

III

Aos pesquisadores e estudantes brasileiros em Portugal sempre foi um porto seguro, ajudando-os com indicações e informações preciosas. Em 1998, o ex-embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira (1929-2007), por moto próprio, ofereceu-lhe o livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Universidade Santa Cecília, 1997), deste articulista. Como à época escrevia o prefácio para o livro Fernando Pessoa: o Antidemocrata Pagão, de Ruy Miguel (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), Dário citou Fernando Pessoa: a Voz de Deus para lembrar que o poeta não havia sido fascista, mas defensor de uma monarquia ideal baseada na opinião pública.

Foi o que bastou para interessar a editora portuguesa por algum trabalho deste articulista. Assim, em 1999, saía pela Nova Arrancada, de Lisboa, o romance Barcelona Brasileira, com prefácio de Dário Moreira de Castro Alves. Escrito em 1983, o livro, que trata da agitação anarquista no Porto de Santos entre 1917 e 1922, só sairia no Brasil em 2002 pela Publisher Brasil, de São Paulo, com a apresentação de Dário Moreira de Castro Alves e prefácio do professor Massaud Moisés, da Universidade de São Paulo.

Por indicação ainda do embaixador Dário Moreira de Castro Alves, este articulista escreveu prefácios para dois livros de contos de Machado de Assis organizados pelo professor Vadim Kopyl e publicados, em 2006 e 2007, pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia, em edição bilíngüe russo-portuguesa, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

IV

Embora extremamente afável, Dário Moreira de Castro, à primeira vista, parecia bastante formal – pedia a quem o visitasse em sua residência que assinasse o “livro de honra” e às mulheres sempre fazia um salamaleque em que apenas fingia que beijava a mão da dama –, mas, depois de alguns minutos de conversa, deixava de lado as exigências diplomáticas para uma conversa bastante descontraída em que gostava de lembrar seus primeiros tempos de Fortaleza. Mas o que o fazia falar por horas com mansuetude na voz era mesmo a Lisboa de Eça de Queiroz.

Andar ao seu lado num automóvel pelas ruas lisboetas era redescobrir a urbe queirosiana e resgatar os passos de suas personagens: “Ali naquele prédio da esquina da Rua Áurea com o Rossio ficava o consultório de Carlos Eduardo” (personagem de Os Maias), apontava. Ou: “Esta é a correnteza de casas velhas a que se refere Eça em O Primo Basílio”, dizia, mostrando o Largo de Santa Bárbara, nos Arroios.

Às vezes, dizia para seu motorista particular desviar o caminho só para passar por uma ladeira íngreme de um bairro bem degradado da velha Lisboa: “Aqui o Xavier foi viver com a espanhola Carmen, num casebre da Rua da Fé”, dizia, referindo-se a personagens de A Relíquia. Todos esses logradouros estão retratados em Era Lisboa e Chovia em fotos de seu amigo A.Campos Matos, arquiteto e notável queirosiano.

O que o fazia perder um pouco a fleuma britânico-cearense era a velha discussão sobre a morada de onde Eça de Queiroz tirara a inspiração para criar O Ramalhete, casa em que a família Maia (Afonso e o neto Carlos Eduardo) passou a habitar no outono de 1875. Para o embaixador, Eça teria se inspirado na casa do Conde de Sabugosa, um dos vencidos da vida, que fica em Santo Amaro, perto da Junqueira, na Rua Primeiro de Maio, 120-124, a meio caminho entre Alcântara e Belém, e não no bairro das Janelas Verdes, como muitos estudiosos diziam. Seguia o que afirma A.Campos Matos em Imagens do Portugal Queirosiano (Lisboa,1976).

Os passeios sempre terminavam com um almoço ou jantar num dos restaurantes preferidos de Eça de Queiroz, nas proximidades do Chiado. O cardápio tinha de acompanhar rigorosamente a gastronomia queirosiana regada sempre por bons vinhos e outras bebidas, seguindo o que escrevera em Era Porto e Entardecia, que traz uma lista de todas as bebidas mencionadas por Eça, do absinto à zurrapa, e em Era Tormes e Amanhecia, que constitui um completo dicionário gastronômico cultural, com o nascimento literário de Eça de Queiroz na região do rio Douro. Sem contar o privilégio de se apreciar a bebida ouvindo a história de sua origem, pois Dário Moreira de Castro Alves também é autor de O Vinho do Porto na Obra de Eça de Queiroz (Sintra, Colares Editora, 2001).

V

Em 2003, já vivendo o inverno da vida, viúvo pela segunda vez, depois da morte de Rina Bonadies de Castro Alves, o embaixador decidiu voltar para Fortaleza, para um apartamento na Praia do Meireles, defronte para as águas verdes do Atlântico. De lá, porém, continuou a sua missão de construir pontes de entendimento entre o Brasil e o mundo, especialmente com Portugal e a Rússia. Era presença constante como articulista nas seções culturais dos diários e dos jornais literários, sempre em defesa da lusofonia, o que o levou a se colocar em 1993 ao lado do embaixador José Aparecido de Oliveira na luta pela criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Brasil, Portugal e Rússia talvez não saibam, mas perderam um grande pontífice.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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sábado, 3 de julho de 2010

Seis livros brasileiros Ou Brasil versus Holanda (Nilto Maciel)



Neste momento, 9 horas e 20 minutos do dia 2 de julho de 2010, milhões de seres humanos se preparam para assistir a mais um espetáculo: um jogo de futebol. Outros menos afortunados leem Kafka. Alguns desses humanos esquisitos ouvem Aran Khachaturian. Dois ou três na Geórgia, porque santo de casa não faz milagre. Ou isso é coisa de brasileiro? Ninguém, no entanto, nenhum ser humano, neste momento, tem diante dos olhos os seis livros que recebi no mês findo. Que impressos serão estes? O Dom Casmurro? Não. A Divina Comédia? Não. Nenhuma peça da biblioteca essencial. São pequenas obras de seis brasileiros: Anderson Braga Horta, Belvedere Bruno, Enéas Athanázio, Lina Tâmega Peixoto, Ronaldo Monte e Whisner Fraga. Quem os conhece? E que importância há nisto, meu caro Nilto? Para a Rede Globo de Televisão nenhuma. Nem para as massas humanas, nem para os poucos leitores de Kafka e os raríssimos ouvintes de Khachaturian. Para mim, no entanto, eles são importantes. Porque leem Kafka, Machado e Dante, ouvem Sibelius, Mascagni e Fucik e me mandam suas publicações.

Anderson é mineiro e mora em Brasília; Belvedere proveio de Niterói e nela reside; Enéas, nascido em Campos Novos, Santa Catarina, vive em Balneário Camboriú; Lina nasceu em Cataguases e habita Brasília; o alagoano Ronaldo está em João Pessoa; o mineiro Whisner se radicou em Ribeirão Preto. Conheço-os há algum tempo. A mais antiga amizade talvez seja a de Enéas, desde os tempos da revista O Saco. A mais recente deve ser a de Belvedere. Ou será a de Ronaldo?

O jogo está para começar. São 10 horas e 40 minutos. Estouram nos ares os fogos de artifício. Tenho fome. Preciso almoçar. Folheio a coleção de Anderson: Signo – antologia metapoética (Brasília: Thesaurus, 2010). São 253 páginas de poesia. Em “Palavras prévias” ele informa: “Divido esta antologia metapoética em quatro partes. Na primeira apresento, em ordem cronológica, os poemas (muitos inéditos) voltados para a linguagem, a palavra, a criação, o canto, a poesia, o poeta (mesmo quando não sejam o núcleo temático).”

Vinho branco (São Paulo: LivroPronto, 2010) marca a estreia de Belvedere. Na apresentação do volume, Ricardo dos Anjos opina: “podemos chamar de prosa poética seus contos e crônicas reunidos neste livro”. E prossegue: “E é justamente em momentos de silêncio que Belvedere parece tecer, entretecer e entristecer seus contos e crônicas que trescalam melancolia difícil de disfarçar, apesar de alguns surtos de alegria.”

A nova obra de Enéas intitula-se Ensaios escoteiros (Balneário Camboriú: Editora Minarete, 2010). Os breves estudos estão agrupados sob os títulos “Estrangeiros”, “Variados”, “Literatura amazônica”, “Nordestinos”, “Mineiros”, “Calmon, o homem e a cidade”, “Crispim Mira”, “Guido Wilmar Sassi”, “Catarinenses” e “Romancistas”.

Prefácio de vida (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2010) é o título da publicação de Lina. E é dela o pequeno ensaio “Cecília Meireles – estrela e abismo” que antecede os poemas e “deve ser lido como prefácio”. Em nota, a poetisa explica: “Não se pretende trazer à superfície o que está imerso nos poemas, mas abrir a claridade para o entendimento de como as referências a pensamentos, conceituações, ideias, impressões, estados do sentir e viver configuraram, na convivência com Cecília Meireles, as necessárias tensões do ato criador para formar minha linguagem poética”.

O romance de Ronaldo é Memória do fogo (Rio de Janeiro: Objetiva, 2006). Os créditos aparecem na última página, para “ludibriar” o leitor. Os textos das abas e da quarta capa estão na vertical. Rosa Amanda Strausz anuncia: “A prosa de Ronaldo Monte mistura a psicanálise e o catimbó, a filosofia e a tradição oral, o erudito e o popular, numa surpreendente teia de relações. Na Memória do Fogo, tudo arde – a começar pelo olhar do autor, que constrói amorosamente suas personagens, como se todas fizessem parte de uma mesma irmandade.”

Os poemas de Whisner estão reunidos em O livro da carne (Rio de Janeiro: 7Letras, 2010). O poeta, numa apresentação ou confissão, pondera: “Escrevo sobre as incontáveis infâncias que vivi na distante e (agora) irreconhecível Minas Gerais. (...) E creio ter dialogado com tempos imemoriais também, remotos a ponto de não alcançá-los, estejam antes ou depois do eu narrativo e muitas vezes poético.”

Devo deixar dormidos por uns minutos as seis peças. Preciso também ser como os que veem televisão, gritam gol, morrem de emoção. Nem só de literatura vivem os seres esquisitos como eu.

Fortaleza, 2 de julho de 2010.
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Porta (aberta para a poesia) (Tânia Du Bois)

Ao convidar para olhar pela porta, onde a luz escapa, procuro levar o leitor a invadir, encenar, sentir e saborear palavras que representam um palco de detalhes com criatividade, realçando o lirismo e a força da poesia. Abro a porta para espiarmos;

Pedro Du Bois: “Entre portas a entrada é suave /
se o destino sabe do encontro...”;

Lêdo Ivo: “Paredes têm olhos / Portas têm ouvidos.”
“E a vida vai se abrindo / em portas e janelas /
como se fora flor...”
“Onde está a outra porta? // A porta que busquei /
... é esta: aberta para a vida...”

Orides Fontela: “A porta está aberta. // ... Para além do que é humano
o ser se integra / e a porta fica aberta. Inutilmente”.

Mário Chamie: “... nem se espanta / quando abro essa janela ...
e nos renova / se uma porta atrás da outra
se desdobra...”

Nei Duclós: “Eu só preciso de uma coisa: / contar toda a verdade /
e esperar pela resposta // repetir o verso em cada porta”.

Observo que os poemas latejam metáforas da palavra inspiração e que, ao abrir a porta, podemos ver o nascer e a vida obstinada com os poetas.

A porta compõe a nossa vida, resguardando o direito de ir e vir, e deve estar harmonizada, porque nela reside a analogia com a linguagem e com a arte. Escritores, poetas, são responsáveis por essa sinfonia, eles têm ritmo próprio, personalidade exclusiva, como o design de cada porta. Por exemplo, a porta da frente traz a vibração e a alegria do poema, a porta do coração representa uma abertura para os sentimentos e a porta dos fundos reflete o espírito irreverente da criação.

A porta dá passagem para quebrar as regras, reinventar o vocabulário e permitir que autores diversos a apontem como se fosse uma grande estrela. A sensação está em abrir a porta e se deparar com a poesia.

Como Du Bois escreveu, “o poeta pensa que os deuses / não o abandonarão na hora / em que as palavras faltarem...”. E digo, viva a poesia! Sem ela não teríamos a liberdade para atravessar a porta e ouvir Paulinho da Viola, “... Eu até achava inspiração / Quantas vezes eu cantava / Quando não podia nem falar / É que meu violão me ajudava / A trazer esperança / Dentro de um poema”.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os rios e as montanhas (Nilto Maciel)

(Quadro de Chico Lopes)


O mundo todo está na África do Sul. Ninguém quer saber de Mandela ou dos pobres de lá. Iguais aos pobres da Namíbia, do Brasil e do resto da Terra. Todos só querem saber de futebol. A Copa do Mundo de Futebol. Um mundo de muito dinheiro. Uns poucos humanos pensam também em literatura. Cito quatro deles: Ronaldo Monte, Enéas Athanázio, Nelson de Oliveira e Audifax Rios. Pois estes quatro cavaleiros, em plena euforia futebolística, não me mandaram bolas, figurinhas, álbuns, notícias relacionados ao esporte. Mandaram jornais e revistas literários. Ronaldo mora em João Pessoa, Paraíba, e me deu de presente exemplar do número 4 da revista Ponto,; Enéas vive em Balneário Camboriú, Santa Catarina, e foi mais generoso: enviou o Jornal do Enéas, número 27, e O Nheçuano; Nelson de Oliveira transita por São Paulo, a megalópole brasileira, e me remeteu o número zero de Lettera Libris: Literatura & Afins; Audifax, meu concidadão (escondo-me no Parque Araxá da Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção), mandou-me o número 55 da revista Canto da Iracema.

Rosa dos Ventos (Fernanda Lym)

(Quadro de Chico Lopes)

impressionou-lhe a desnovidade que era a vida. até os dezoito anos pensava que cada ano e cada fase deveria ser marcada por músicas de bandas do momento, algumas modas ficariam, outras não, sonhava com o beijo de língua na boca de um namorado que pudesse chamar de seu, enquanto no céu brilhariam fogos de artifício durante a passagem de um velho ano novo. se dela dependesse, seus pais teriam o dom da eternidade, seu mundo de mentira continuaria a ser verdade, e não haveria perigo de andar livremente sem rumo, muito menos de pensar e agir diferente do que lhe impunham sem pudor. e ao mesmo tempo não sabia se a cíclica rosa dos ventos que era a vida lhe daria chances de criar outra oportunidade. sentiu como é fácil fazer das paredes de sua prisão doméstica braços que lhe acolhem num afago, quando tudo o que você mais deseja é se esconder de um medo cultuado feito fé cega. talvez porque todos agiam sincronicamente, previsivelmente camuflados em suas desesperanças, viu-se frágil taça de cristal, que emite belos sons se nela tocam, mas sangra fácil a mão de quem a estilhaça. e o ar-matéria que tudo ocupa sufocou-a como se em profundo mar ela se afogasse, sugada pelo ventre que a quis de volta sem pedir permissão.

http://trans-fusoes.blogspot.com/
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A permanência de um nome (Ronaldo Monte)

“O escritor José Saramago morreu”. Foi esta a mensagem que minha nora mandou para o celular de uma das minhas filhas. Era preciso deixar bem claro qual Saramago estava morto. Para isto serviam as palavras “escritor” e “José” na mensagem. Para que não se pensasse que um outro Saramago tinha morrido. No caso, o meu cachorro, que procura honrar o nome que lhe dei, ganhando o mundo ao menor descuido com o portão.

Conto isto para mostrar o quanto o nome Saramago é íntimo da minha casa. Muitas vezes por dia é repetido, tantas vezes quantas o incorrigível vira-latas transgrida as regras da boa convivência entre as espécies.

Foi esta intimidade com o nome, reflexo da minha intimidade com os livros de Saramago, que levou algumas pessoas a ligar para mim, me consolando pela morte do escritor. Vã tentativa, pois ninguém se consola de tamanha perda.

Não temos mais o narrador insólito que nos mostrava as feridas eternas da desumanidade como se as víssemos pela primeira vez. Não temos mais quem amplifique no seu texto a voz tímida dos oprimidos de todos os tempos e lugares. Nem mais o olhar ao mesmo tempo irônico e benevolente sobre as nossas fraquezas e presunções.

Desamarra-se de vez a jangada de pedra. A rocha de consciência e compaixão deriva agora pelas águas do sem tempo. Ser pedra e flutuar. Duro e leve de uma só vez. Talvez seja esta a lição que ele quis nos transmitir. Era isto, talvez, que nos dizia o seu olhar mesclado de ironia e esperança.

“O escritor José Saramago morreu”, dizia a mensagem no celular da minha filha. Mas em minha casa, seu nome ainda será por muito tempo repetido. Toda vez que esse outro Saramago, honrando o nome que lhe dei, desafiar com ousadia as ordens e os limites que tentamos impor à sua liberdade de cão.

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sábado, 26 de junho de 2010

Fugit (Aníbal Beça)


Mas então era isso?
Melhor que não fosse.

Mas como fugir dele
que voa sem asas, mas voa,
enquanto fico fincado
sem ao menos saber
se parto ou se fico
sem o arbítrio da deliberação?

Ah, mel do engano!
Por que me adoçaste
com a prepotência
veloz dos resignados?

Por que não me soltaste
junto à turba perdulária
dos que souberam
queimar etapas
na fogueira da intensidade
caldeirão
de tempero imediato?

Uma andorinha solitária
passa veloz no seu compasso de asas.

Será a mesma do último solstício?

Não importa.
senão o que ela empresta
do impulso viageiro tardio
levando não os meus pés
mas meus olhos
que se alçam sedentos
céleres
para conspurcar
lugares longínquos

O que não ousei com os pés
– caminhos que não pisei –
meus olhos alcançam por mim
deixando pegadas aladas
impressas no lençol do dia
no onírico leito do ócio indormido.

Ele
que descubro
Senhor das coisas
do nada e de tudo
do silêncio e do vazio
me diz sem muita cerimônia:
Passou.

E nada mais disse.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Minhas leituras de Saramago (Viegas Fernandes da Costa)

Recém havia saído da adolescência e, por uma razão ou outra, li Ensaio sobre a cegueira. Não que isso importe algo, essa experiência que tenho da leitura dos textos de Saramago, mas diante da intransigência da morte e do sentimento de impotência que esta nos imputa, não vejo por onde me rastejar senão pela memória das impressões que o universo saramaguiano me concedeu. Então, como dizia, li o Ensaio sobre a cegueira e pude compreender a potência de uma literatura visceral e honesta. Não se é possível ler tal texto, parábola de nossa condição humana, sem a sensação de se ter vivido uma experiência que lacera o espírito e nos envergonha de nosso individualismo e imobilidade, que mascaramos com gestos vãos e palavras estéreis. Ensaio sobre a cegueira me desloca, sempre, ao genocídio tutsi em Ruanda, ao genocídio palestino perpetrado sob nossos olhos ocidentais e hipocritamente cegos, ao silêncio a respeito do povo de Timor Leste e às vítimas dos desgovernos e terremotos no Haiti, cuja capacidade de comoção duram o tempo de uma passarela, porque enfastiados de vermos as mesmas ruínas, buscamos saciar nossa eroticidade mórbida em outros charcos de sangue, em outras postas de carne humana desmembradas de seus corpos. Assim, sempre houve esta sensação de vergonha e culpa, sim, vergonha e culpa, que este primeiro contato com um texto de Saramago me provocou.

Movido pela inquietude provocada por esta primeira leitura, busquei mais. Foi quando me tocou o corpo o Memorial do convento. Marcou-me a poesia de um certo padre Bartolomeu, inventor de herética geringonça alada movida pelas vontades humanas que seu ajudante, Baltasar Mateus, colhia em um frasco em meio à multidão. Claro está, não há melhor combustível que faça voar um sonho senão a vontade humana. Entretanto, esta escapa-nos do corpo tangido pela necessidade de sobreviver. Memorial do convento ensinou-me que não há humanidade onde as vontades dão lugar à necessidade, onde se confunde sonho com devaneio. Sei que não cabe à literatura dar lições. Não, claro que não. Entretanto, o diálogo que estabeleço, enquanto leitor, com as provocações de um texto, apesar de socialmente construído está profundamente marcado pela subjetividade. Por isso posso reconhecer que sempre serei grato a Saramago por tudo que aprendi com Blimunda, Baltasar e Bartolomeu, personagens centrais desse seu Memorial. Grato por compreender aquilo que afinal nos constitui tão únicos, mas que nos foge quando tangidos qual gado a mover a roda do engenho.

Feitiço lançado, segui estupefato o fio de Ariadne, acompanhando os passos do Senhor José – o personagem – pelo labirinto de prateleiras vergadas e empoeiradas da velha Conservatória, guardiã do esquecimento. Falava Saramago – o autor – nas páginas que me remeteram a um Kafka revivido para concluir sua obra, tão tensa e intensa a trama e a fábula de Todos os nomes. Como possível uma história tamanho extraordinária? – a questão que me incomodava a cada linha sem pontuação que se desdobrava ante meus olhos de criança deslumbrada! Criança deslumbrada, com o perdão do pleonasmo, porque não há infância sem deslumbramento. Pensei ter lido o cume; engano! Indisciplinado, encontrei-me com um Cristo humano e carnado que, reconheço, quase me convenceu. Ironia do insólito! Como um ateu declarado podia reescrever uma história dois mil anos recontada e ainda assim torná-la inédita? E mais, como podia este mesmo ateu, ourives da palavra, construir uma das mais poéticas e profundas passagens da literatura universal, conquista sublime do espírito humano, quando nos transporta para o interior de uma barca atracada no centro de um mar tomado por intransponível nevoeiro? Saramago enfrentou Deus! Desfiou-nos um rosário de martírios e barbáries inconcebíveis e inexplicáveis capazes de dobrar as ambições do Diabo que, como Pastor que é, intervém junto a esse Deus sanguissedento em nome do perdão. A resposta? "Para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal"  – ei-la! Espernearam os guardiões do cristianismo. Saramago não fora o primeiro, é certo. Kazantzakis fizera-o antes, tal qual tantos outros. Entretanto, a lucidez e os argumentos do velho comunista moveram o catolicismo português a tentar intervir no reconhecimento literário daquele que viria a ser o primeiro autor da língua portuguesa laureado com o Nobel de Literatura. Mágoa e exílio na insular Lanzarote, onde o mestre da palavra conheceu a diferença entre estar e não já não mais estar.

Depois do Evangelho não houve texto de Saramago que não me interessasse ler. É bem verdade, reconheço, que nem tudo foi deslumbramento. No Ensaio sobre a lucidez, por exemplo, a impressão de um resvalo planfetário; e em Caim, o gosto de uma sopa requentada. Neste meu rastejar pela memória das impressões que o universo saramaguiano me concedeu não há espaço para o desonesto, por isso o registro. Mas não há nada como o bom estro de um artista que se reinventa, e houve a história do Elefante Solimão e seu cornaca Subhro, escrita após grave enfermidade nos estertores de 2007. Ocorreu-me, à época dessa leitura, o pensamento de que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Isto porque em A viagem do elefante encontrei um Saramago mais leve, consciente da importância da sua literatura, porém ciente, também, de que talvez já tivesse dito o que havia para se dizer, e que àquela altura da sua vida e carreira importava mesmo o prazer de escrever uma boa história. E que boa história, tão repleta de sutilezas e ironias!

Enfim, soube que já não está mais. Morreu o corpo de José na manhã de uma sexta-feira, ao lado da mulher que amava. A mim ocorreu-me, então, reler o discurso que proferiu quando da cerimônia de entrega do prêmio Nobel, em 1998, e onde inicia dizendo que o homem mais sábio que conheceu em toda a sua vida não sabia ler nem escrever. Conta ali a história dos seus avós maternos que, nos dias de muito frio, levavam os porcos mais frágeis da pequena criação para dormirem consigo, sob o calor das mantas grosseiras. Alertou-nos Saramago, ao narrar a tradição ágrafa da família que o apresentou ao mundo, que o verbo não se determina nos gens. Que o gênio se constrói na experiência e na coerência. E assim o fez! Neste mesmo discurso, reconheceu que sua voz ecoa nas vozes das suas personagens. E se dizia que a morte era a diferença entre estar e já não mais estar, o Saramago que se consagrou à palavra, que se multiplicou nas Blimundas e nos Raimundos, nos homens e mulheres do Alentejo e nos tantos homens e mulheres que encontraram a eternidade no terreno universal da sua Literatura, se já não está mais nesta matéria perecível que nos compõe a todos, continua estando nas criaturas pelas quais falou e se fez ouvir. Por isso não choro a perda do mestre, pois lágrimas estéreis. Simplesmente lanço meus olhos para a estante e escolho o livro que fará Saramago estar novamente comigo.

Blumenau, 20 de junho de 2010.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor dos livros Sob a luz do farol (2005), De espantalhos e pedras também se faz um poema (2008) e Pequeno álbum (2009). Permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e mantida a íntegra. Blog: http://viegasdacosta.blogspot.com
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domingo, 20 de junho de 2010

Versos Juninos (Silmar Bohrer)

Buenas:
Tem tido estado ausente o escriba das arábias, longe das borrascas de junho em Caçador. Saudoso das areias e dos verdes mares, esteve em Itapoá, na Barra do "meu" Saí, o paraíso encantado incrustado no litoral do extremo norte catarina. Céus azuis de brigadeiro. Tardes nebulosas. Ventinhos soprando do mar. Outros ares. A vida palpitando em câmara lenta. A pressa? Ausente das pessoas...
Mas esperem... não fui lá só para matar saudades. É que encontrei nas areias algumas dezenas de versos marinhos, que trouxe na algibeira e na planilha e agora estou a repassar (alguns) aos distintos amigos. São versos pobres, rimas tortas, inspiração marejada, mas têm a marca do poeta escriba-pensador.

VERSOS JUNINOS

A sinfonia dos mares
barulhentos cá da Barra
segue fazendo a farra
em constantes avatares.

Tardes longas hibernais
nas vacarias do mar,
ventos gemem nos beirais
e os mares seguem a marejar.

Na minha estada na praia
sempre busco companhia,
tenho ao lado uma vigia,
minha santa essência gaia.

Cá nesta paz do meu éden
tantas coisas acontecem,
muitas ondas se sucedem,
versinhos doces florescem.

Para manter a boa média
vamos então versejando,
de verso em verso cantando,
que esta vida é uma comédia.

Delícia, ou excelência
os arezinhos da praia,
com eles respiro a gaia
na sua mais pura essência.

Junho outra vez chegando
idade nova vem então,
e os versos permeando
o adorável sessentão.

O sonido cá dos mares
tem efeitos medicinais,
quand'ouço as ondas tais
renovo velhos pensares.

Ventinho. Céus. Avatares.
Águas. Areias. Praia.
Essência. Pureza. Gaia.
Naus. Ondas. Meus mares.

Estrelas andam ausentes
nesta noite toutinegra,
só um ventinho se arregla,
sorrateiro, entrementes.

Oh águas, oh céus, oh mares
deste mundão de meu Zeus,
abrigai os bons pensares
de tantos pensamentos meus.

Nas longas noites marinhas
fico escutando lamúrias,
as ondas batendo, penúrias
parecendo penas minhas.

Nos devaneios na praia
nem tenho buscado versos,
eles aparecem dispersos
disfarçados de essência gaia.

Escutando... escutando
o marulhar destas ondas,
me ponho sempre a indagar,
oh mar, por que tanto rondas ?

Esses ares cá da Barra
bem parecem salutares,
e de tanto os respirares
tu rirás, fazendo farra.

Chuva miúda, miudeza,
nesta noite mais fria,
vasculho com sutileza
algum versinho agonia.

Oh tormentosos mares
agitando noite e dia,
oh ondinhas singulares
espargindo maresia.

Macambúzia, taciturna
esta tarde à beira-mar,
e nem o céu há de mudar
na paisagem liburna.

Tenho tido a pescar rimas
nestas costeiras de mares,
só tenho ouvido sonares
com suas vozes bem finas.

Andam sonando tranquilas
as águas ali na praia,
até mesmo a essência gaia
fica silente a ouvi-las.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010

O miúdo que não gostava de ler (Pedro Silva)

Havia, há muito tempo atrás (sabe-se lá quanto…), um pequenito chamado Rodolfo que, por incrível que pareça, não gostava muito de ler. Parece um pouco difícil de acreditar, mas tantas letras faziam-lhe alguma confusão.

Por outro lado, na escola, não era nada mau a fazer contas!

O seu irmão, que tinha um feitio completamente diferente, gostava bastante de ler e, certo dia, decidiu fazer alguma coisa para mudar essa forma de ser de Rodolfo. Assim, escreveu-lhe um livro com pequenas histórias que ele pudesse ler, sempre que quisesse, e que fossem fáceis de compreender.

Assim foi.

Em frente da folha de papel, as palavras foram surgindo, algumas mais complicadas que outras, algumas com bastante dificuldade, mas o certo é que o irmão de Rodolfo gostava imenso daquilo que fazia, pois, acima de tudo, esperava que todo o seu esforço fosse devidamente recompensado, isto é, que as histórias fossem lidas e apreciadas com alegria pelo seu irmão.

Mas, no dia em que o livro foi entregue a Rodolfo, este ficou muito contente, riu, saltou, abraçou o irmão, mas… não leu quase nada. O irmão, de tão triste que estava, fechou-se no quarto e chorou.

Afinal de contas, tinha sido tão difícil escrever aquelas histórias e, agora que estava terminado, o seu irmão nem sequer tinha grande interesse em ler.

Rodolfo, arrependido, agarrou no livro e atirou-o para um canto, sentindo-se culpado pela tristeza do irmão. Estava enervado, não com o autor das histórias, mas consigo próprio, porque era tão fácil ler, mas tão difícil escrever e, como tal, custava-lhe que o esforço do seu irmão tivesse sido para nada.

No dia seguinte, na escola, a professora, como sabia que o pequeno Rodolfo não gostava de ler, mandou-o fazer uma conta, enquanto que a todos os outros deu livros para passarem uma hora bem entretidos.

Rodolfo, lembrando-se do que acontecera no dia anterior, não queria fazer contas, mas, isso sim, ler um livro que tinha trazido de casa. Na altura, e como era normal, a sua mala carregava sempre os livros escolares e um outro de banda desenhada, pois tinha mais desenhos que letras.

Convencido que era esse o livro que ali se encontrava, começou a remexer a mala e… eis que encontra as histórias escritas pelo irmão. Escondendo-se de todos os outros, começou a ler o livro.

No fundo, ele tinha alguma vergonha de mostrar a todos as histórias que o seu irmão tinha escrito, temendo que os colegas gozassem com a situação.

Porém, bem enrolado na sua mesa, Rodolfo ia lendo as histórias, uma a uma, acabando por ler tudo o que o irmão tinha escrito. Quando terminou, nem tinha dado pelo tempo passar. Tinha sido tão agradável!

Enquanto que os outros estavam já no recreio a brincar, o André manteve-se firme no seu lugar a olhar para o livro escrito pelo irmão. A professora, espantada por vê-lo ainda na sala de aula, foi falar-lhe, desconfiando que algo não estava bem.

Ela perguntou se Rodolfo estava doente e ele respondeu: “Não, estou a ler este livro”.

- Que bonito! – exclamou a professora. – Mas não o conheço… Onde o compraste?

- Foi o meu irmão que o escreveu para mim. – afirmou Rodolfo, orgulhoso.

A professora, curiosa, pegou no livro e deu uma vista de olhos. Ao ler algumas passagens do texto achou muito engraçado e riu-se com gosto. Virando-se para o pequeno aluno, disse:

- Olha, se deixares, este passa a ser o nosso livro de leituras e para fazer ditados. O que achas?

Rodolfo, alegre com tamanha honra, sentiu-se muito mais orgulhoso no seu irmão e naquilo que ele tinha feito. De pronto, disse que ficaria muito feliz que assim fosse e, logo nessa tarde, o ditado foi feito a partir de uma das histórias daquele livro tão especial.

Quando foi para casa, encontrou o irmão muito triste e, envergonhado do que tinha feito no dia anterior, não conseguiu contar o que sucedera. Mas o primo de ambos, que acompanhava sempre Rodolfo da escola até casa, não conseguiu conter-se e acabou por ser ele a dar a notícia.

Nesse momento, ambos os irmãos correram um para o outro, com a lágrima ao canto do olho.

Num grito de paz e harmonia, só possível entre dois irmãos, Rodolfo disse, sendo prontamente apoiado pelo irmão mais velho:

- Vamos jogar à bola!

E assim foi.
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Da injustiça (Pedro Du Bois)

Amaldiçoado em lágrimas
rasgo olhos ao horizonte


poente

inutilizo a noite

na chegada

em refúgio


(os cães ladram)


rememoro a hora

da notícia transmitida

palavra por palavra


revejo minha imagem

cristalizada

no congelamento

da lágrima depositada


(os cães farejam)


as dores se afastam
no distanciamento

necessário ao medo


o corpo estremece

ao se pertencer em dores


no horizonte hostil

da janela aberta

o futuro se depara

com a impertinência

do presente


(os cães comem)


afasto suas mãos das minhas:

o contato é lucidez

inoportuna na desesperança


a oração despercebida

rompe o silêncio

e se perpetua


afago o deslizar da hora

em horas subsequentes


(os cães se defendem)


murmuro o nada acontecido

e desacordo em sonhos


o retorno convive

com o fato

desproporcionado


revivo o outono em folhas

pelo chão


recupero a sanidade

e me faço cristal

de rocha esfacelado


(os cães se diferenciam)


sofro o instante

e gesto

o silêncio


o emudecer transmite

a incerteza da pergunta


na vastidão ampliada

da insensibilidade


(os cães desfazem)


posso perguntar

o que bem entendo:

mas não entendo


posso exprimir

a minha raiva:

mas não pretendo


posso aproximar

os olhos à fotografia:

mas não enxergo


(os cães confundem)


calendários dizem que os anos passam


o exercício diuturno de recuperar

o inconsciente e o aguardar

refulgente: recomposto


o exército lancinante dos ataques

distribuí ossos que estalam


(os cães apavoram)


um dia destaco na pedra

o sinal: acordo


um dia acordo e na pedra

destaco o sinal


um sinal na pedra

é destaque quando acordo


(os cães se acovardam)


olho e enxergo

ouço e escuto

pego e sinto

levo à boca

e o sal amarga

o recesso de onde retirado


avaros dias de permanências

permanentes signos

aparentes esboços


o processo desarruma o fato

em procedimentos


(os cães arfam)


ouvidas as testemunhas

os peritos dizem

das especialidades


nada

nada


a improvável condenação

confundida em versos

na reversão da realidade


(os cães obedecem)


choro atravessar o espaço

desconsolado em fatuidades


remoço a fotografia

e me instalo diante

da orfandade


perder significa atos

ao despropósito

de continuar vivo


(os cães silenciam).


http://pedrodubois.blogspot.com/

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A literatura sob o olhar feminino (Adelto Gonçalves*)

Adelto Gonçalves (*)

I

O mundo quando observado pelas mulheres é visto por outra janela. Acostumado a ler livros de Ficção e História escritos predominantemente por homens, o leitor (de ambos os sexos) nem sempre percebe essa alteridade e suas diferenças. Por isso, pensar criticamente em termos de gênero os textos de ficção brasileira publicados nas últimas décadas tem sido o trabalho a que se propõe o Centro de Estudos em Literatura Brasileira da Universidade de Brasília (UnB), coordenado pela professora Regina Dalcastagnè. O resultado das pesquisas e reflexões que o Centro tem proporcionado acaba de sair no livro Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2010), organizado pela professora Regina Dalcastagnè, em colaboração com a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal, reunindo textos de pesquisadoras de diferentes universidades brasileiras.

Como lembra a professora Regina Dalcastagnè, quando se fala em mulher, é preciso, antes de tudo, lembrar que a condição feminina é sempre plural. Há, por exemplo, uma distância ciclópica quando se lê textos sobre o feminismo marcadamente branco, europeu e de classe média, influenciado pela filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), e as narrativas de Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista negra de Moçambique. Até porque, se é correto entender que as mulheres formam um grupo social específico, as experiências e trajetórias sociais de cada uma constituem universos distintos.

Por razões que são explicadas pelas contingências sociais de cada nação, as brasileiras nunca se fizeram representar tanto quanto deveriam na Literatura do século XX, embora o Brasil tenha tido a sua primeira romancista negra ainda no século XIX com a maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), uma honrosa exceção num mundo predominantemente machista e preconceituoso, ainda que as elites brasileiras nunca tenham sido tão brancas quanto faziam (e fazem) questão de aparentar. E tenha hoje outra notável romancista afro-descendente, Conceição Evaristo, autora de Ponciá Vicêncio. De qualquer modo, a maioria das mulheres que se destacaram na área sempre foi constituída por brancas e de classe média.

II

Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Literatura Brasileira da UnB, que leva o título de “Mapeamento de personagens do romance brasileiro: anos 1970, anos 1990”, executada entre 2004 e 2006, procurou fazer um “recenseamento” de autores(as) e personagens com o objetivo de mostrar como a mulher tem sido representada na literatura brasileira contemporânea. Os números constam do ensaio “Representações restritas: a mulher no romance brasileiro contemporâneo”, de Regina Dalcastagnè, abarcando 389 romances produzidos ao longo de dois períodos de 15 anos cada. E mostram que as mulheres, se conseguiram um espaço próprio na literatura brasileira, esse espaço ainda é flagrantemente minoritário.

A partir do acervo das principais editoras de cada época – Civilização Brasileira e José Olympio para o período de 1965-1979 e Companhia das Letras, Record e Rocco para 1990-2004 –, o levantamento constatou que o romance brasileiro é escrito majoritariamente por homens (72,7% dos autores) e sobre homens (62,1% das personagens são do sexo masculino, proporção que sobe para 71,1% quando são isolados os protagonistas). Como observa Regina Dascaltagnè, além de serem minoritárias nos romances, as mulheres têm menos acesso à “voz” – isto é, à posição de narradoras – e ocupam menos as posições de maior importância.

Quando são isoladas as obras escritas por mulheres, mostra o estudo, 52% das personagens são do sexo feminino, bem como 64,1% dos protagonistas e 76,6% dos narradores. Para os autores homens, os números não passam de 32,1% de personagens femininas, com 13,8% dos protagonistas e 16,2% dos narradores. “Fica claro que a menor presença das mulheres entre os produtores se reflete na menor visibilidade do sexo feminino nas obras produzidas”, diz a autora. Além disso, a personagem do romance brasileiro contemporâneo também é branca (79,8%), heterossexual (81%) e rica ou de classe média (82,9%).

Para a autora, apesar de toda a evolução da condição feminina, a literatura – ou, ao menos, o romance – continua a ser uma atividade predominantemente masculina, embora não seja possível dizer se as mulheres escrevem menos ou têm menos acesso às editoras mais importantes (ou ambas as possibilidades). Ainda de acordo com o levantamento, os(as) escritores(as) brasileiros(as) são, principalmente, jornalistas, professores universitários, roteiristas e tradutores. Ou seja, há quase um monopólio de profissionais vinculados ao universo do controle do discurso. Por último, desses autores(as), mais da metade está concentrada no Rio de Janeiro e São Paulo. Na imensa maioria, são homens brancos de classe média.

Como observa Regina Dascastagnè, por mais solidário que seja às mulheres, um escritor homem não vai nunca vivenciar para transmitir o que significa o temor da agressão física tão presente nos lares brasileiros, da mesma maneira que um branco, por mais solidário que se mostre, nunca será capaz de avaliar o que sente um negro ao ser discriminado em seu ambiente de trabalho como também nunca vai entender a revolta de um deficiente físico que chega a um local de votação e tem de se sujeitar a ser carregado no colo escada acima até a urna para depositar seu voto.

III

Com base nesses resultados, é de suma importância o trabalho que vem sendo realizado por autoras ainda jovens e que começam a ganhar seu espaço nas livrarias brasileiras e, obviamente, na biblioteca e no imaginário do leitor brasileiro. É o que mostra a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal no ensaio “O gênero em construção nos romances de cinco escritoras brasileiras contemporâneas”, ao discutir o trabalho de autoras que já conquistaram seu espaço nas principais editoras do País: Stella Florence e Adriana Lisboa, na Rocco, Lívia Garcia-Roza e Cíntia Moscovich, na Record, e Elvira Vigna, na Companhia das Letras

Stella Florence pratica uma literatura de entretenimento, o que não significa que seja superficial. Seus livros de contos (Por que os homens não cortam as unhas dos pés?, Hoje acordei gorda e Ele me trocou por uma porca chauvinista) e romances (Ciúme, chulé e um apelido ridículo e O diabo que te carregue!) , cujos títulos carregam um apelo bem-humorado, são escritos na linguagem da autoajuda, sugerindo mais uma conversa com o(a) leitor(a), que lembra o estilo de revistas femininas, como salienta Virgínia Leal. Adriana Lisboa em seu romance Sinfonia em branco também traz para a literatura questões pouco exploradas como a história de duas irmãs marcadas pelo abuso sexual de uma delas na infância pelo pai.

Lívia Garcia-Roza mostra um modelo de sociedade opressivo, mas sem uma alternativa viável, em que os casais e a família vivem sob o mesmo teto, mas quase não se comunicam entre si. Seus livros tratam de temas pouco comuns em romances, como aborto e menstruação. Cíntia Moscovich, já publicada em Portugal, a exemplo de Moacyr Scliar, recupera histórias de seu grupo étnico, a comunidade judaica de Porto Alegre. Em seus romances Duas iguais e Por que sou gorda, mamãe?, há temas pouco explorados ainda na literatura brasileira, como relações lésbicas.

Já Elvira Vigna procura resgatar um gênero literário policial, o do romance negro, mas o faz em forma de paródia. Seus textos são sempre em primeira pessoa, mas suas protagonistas seriam as criminosas e não o detetive que desvenda os crimes. Por isso, são fontes poucos “confiáveis” porque o leitor nunca fica sabendo se diz a “verdade” ou dissimula os fatos narrados. Mas é exatamente aqui que reside a sua originalidade.

Como observa a pesquisadora, as cinco autoras, cada uma a sua maneira, dialogam em suas obras com questões relevantes da agenda feminista como o corpo e a sexualidade, a violência, os direitos sexuais e reprodutivos e outros. Ainda que recusem o rótulo de “feministas” e não avancem na maré pós-feminista – que, pelo menos no Brasil, um país ainda arcaico sob muitos aspectos, é uma realidade distante –, com suas obras contribuem de maneira significativa para a criação de uma “consciência feminista” entre o público-leitor, “a partir da uma identificação com suas protagonistas em confronto com o poder patriarcal”.

IV

Regina Dalcastgnè é professora titular de Literatura da UnB, editora da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de autora de A garganta das coisas: movimentos(s) de Avalovara de Osman Lins e Entre fronteiras e cercado de armadilhas: problemas de representação na narrativa brasileira contemporânea, entre outros livros. Para a Editora Horizonte, preparou o livro Ver e imaginar o outro: alteridade, desigualdade, violência na literatura brasileira contemporânea (2008).

Virgínia Maria Vasconcelos Leal também é doutora pela UnB e pesquisadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Participou dos livros Formas e dilemas na representação da mulher na literatura brasileira contemporânea, Alguma poesia: ensaios sobre literatura brasileira contemporânea e Imagens & diversidade sexual: estudos da homocultura.

Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea traz ainda textos das pesquisadoras Adelaide Calhman de Miranda, doutoranda na UnB, Bruna Paiva de Lucena, mestranda na UnB, Cíntia Schwantes, professora da UnB, Cláudia de Lima Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Edma Cristina de Góis, jornalista e doutoranda na UnB, Ermelinda Maria Araújo Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco, Norma Telles, professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo, Rita Terezinha Schmidt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sandra Regina Goulart Almeida, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Simone Pereira Schmidt, professora da UFSC, Susana Moreira de Lima Bigio, da UnB, e Tânia Regina Oliveira Ramos, da UFSC.
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DESLOCAMENTOS DE GÊNERO NA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÃNEA, de Regina Dalcastagnè e Virgínia Maria Vasconcelos Leal (org.). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 239 págs., 2010, R$ 36,00. E-mail: contato@editorahorizonte.com.br Site: www.editorahorizonte.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Astrolábio (Emanuel Medeiros Vieira)


Para Lucas, meu filho


A bússola e o astrolábio:

velas ao vento.

Existe outro Bojador nestes mapas interiores?

Os navegadores estão no exílio:

há faróis neste degredo?

Findou a aventura no mundo.



Singrando-me, cumpro-me.

Além de mim, além da vida:

do pó que serei.
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