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domingo, 5 de setembro de 2010

Poesia que brota de Bissau (Adelto Gonçalves)

“Chão de Papel” traz uma mensagem antilírica. O olhar feminino de Maria Estela Guedes capta na memória lugares e momentos que o olhar de um poeta homem nunca seria capaz

Este é um livro com cheiro de África. E é uma África vista com isenção por quem viveu na Guiné-Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. E ninguém esquece os anos de sua formação. Muito menos um poeta. Por isso, Maria Estela Guedes, nascida em Britiande/Lamego em 1947, reuniu os seus poemas evocativos de uma Guiné-Bissau que já não existe neste livro, “Chão de Papel”, que, como observa Nicolau Saião na apresentação, traz uma mensagem lucidamente antilírica — “se entendermos como lirismo essa escrita impressionista (um pouco defasada da realidade mas legítima e soberana — que por aí vai dando cobertura a um romantismo de pacotilha, ultra-sentimental e, por isso mesmo, refalso e, no fundo, claramente pedante”.

Essa evocação começa pela imagem que guarda dessa Guiné-Bissau, “um mapa de ilhas, um arquipélago de lembranças”, especialmente da Fonte Vaz Teixeira, àquela época “oculta na floresta, em ruínas”, que hoje, provavelmente, não mais existe, “como tantas outras coisas que os anos de independência fizeram desaparecer”, como diz Saião, que também lá andou por 27 meses ao todo, à época em que havia a “província ultramarina da Guiné” e os jovens portugueses de então eram obrigados a defender, às vezes à custa da própria vida ou de abalos ao próprio corpo, o sonho de grandeza salazarista que só existia na retórica dos discursos oficiais.

O olhar feminino de Maria Estela capta na memória lugares e momentos que o olhar de um poeta homem nunca seria capaz, como se constata neste poema intitulado “A Praça”:

Ias à Praça — relíquia verbal de antigo nome
Da Praça de S. José de Bissau —
Com as casas de sobrado e varanda
De madeira pintada de azul-mantenhas?
— Cuma di corpo: E bo papé? E bo mamé?
Tens um objetivo em mente, o Mercado Municipal,
E um local preciso aonde vais em sonhos.
Que queres tu comprar? Sabes que é coisa
De comer, mas o quê? A vagem branca
E azeda de tamarindo? Castanha de caju?
Volta e meia sonhas com isso
Mas ainda não descobriste o que vai tu
Comprar à Praça com as suas casas de sobrado
E varanda de madeira pintada de azul-mantenhas.
Por baixo as lojas de varejo
— Ali o estúdio fotográfico do pai do Erasmo,
Além a Casa Pintozinho —
A velha escola onde estudaste
Encostada a um majestoso mangueiro
E na esquina, instalada no chão com fogareiro
A gorda Nha Tilda torrava mancarra
Que comíamos ainda quente
A cheirar a vida airada e a gente de barriga cheia.

Como se vê, até reconstituição da fala crioula se tem neste poema que, de tão denso e concatenado, teve de ser reproduzido aqui de forma integral. Essa evocação sente-se também em “Cesarianas e casuarinas” em que Maria Estela diz:

Passeios nas tardes de domingo
Pelo Jardim de Teixeira Pinto
Empurrando o carrinho com o bebé de D. Otília
Nascido entre dores e cortes de cesariana...
A estátua do militar no alto do outeiro
A dominar toda a cidade de Bissau
Mira ao longe as evoluções
Dos milicianos e da Mocidade Portuguesa
Diante do palácio do governador e do obelisco
No centro da Praça do Império,
Coroada com a legenda “Ao esforço da Raça”.
Hoje é o mesmo obelisco mas diversa a legenda:
“Monumento aos Heróis da Independência” (...).

Ao contrário do que se pode imaginar, estes versos de Maria Estela não evocam o colonialismo com saudade nem procuram mostrar que os tempos da presença portuguesa na África teriam sido melhores do que os vividos hoje. Até porque tiranos são tiranos, tenham a pele clara ou escura, como bem sabem os guineenses. E mesmo aqueles portugas, os “tugas” que lá viviam, eram vítimas de um mundo mal construído e distribuído que não lhes deixava outra opção que não fosse emigrar — até porque para que meia-dúzia de famílias pudessem se refestelar no bem arrumado jardim à beira-mar plantado, a choldra tinha de ser praticamente expulsa para os quatro cantos do mundo, ainda que à custa de desertificação do país. Havia sido assim desde os tempos da monarquia.

A tragédia da Guiné-Bissau é que, depois que os tiranetes brancos foram embora, ficaram os tiranetes negros e a mesma opressão de uma classe sobre a outra. A sorte é que, como diz Maria Estela, “os tiranetes duram pouco/ e os grandes tiranos, por muitos quarenta anos/ que governem, também pouco duram”, ao evocar no poema “A Kabi Nafantchamna, no dia da sua morte”, a manhã de 2 de março de 2009 em que os noticiários informaram sobre o levante que resultou no assassinato do presidente Nino Vieira (1939-2009):

(...) Conheces o ditado “Quem com ferro mata...?”
Conheces, Nino? Ainda ninguém disse nada
Mas podes crer que
Mesmo sem despacho
Alguém te despachou para o tribunal do Irã.
Bárbaros, violentos, egotistas.
Iguais em tudo na guerra
E iguais em tudo na paz
Aos mais bárbaros, violentos e egotistas
Americanos, asiáticos e europeus.

Em “O cais do Pidjiguiti”, Maria Estela, à semelhança de Camilo Pessanha (1867-1926) em “À noite, no Pego-Dragão”, uma das suas traduções em forma livre das “Oito Elegias Chinesas”, diz num poema perpassado de efeitos sinestésicos: “Não quero partir sem voltar ao Ku Pelon / A ouvir as serenatas do meu amigo”. E recorda que no Pidjiguiti dezenas de trabalhadores foram abatidos, vítimas indefesas de um massacre, ao tempo do colonialismo, para observar, em seguida, como se fizesse um mea culpa em nome dos opressores de então, ainda que nada tivesse a ver com aquilo e fosse apenas uma adolescente de 12 anos de idade, talvez com a ingênua ideia de que, se os colonialistas tivessem oferecido letras, ou seja, educação, em vez de opressão, talvez o caminho tivesse sido outro, de entendimento, embora se saiba que o colonialismo, como o escorpião, jamais renunciaria a sua natureza:

(...) Assim depois o crime repetido insaciavelmente
Por negros e brancos
E mulatos igualmente
Até o dia de ontem
Em que também foi assassinado
Nino Vieira, o presidente.
Sem grandes diferenças, na morte
Todos iguais
Sem precisão de invocar raças
Nem a paleta das cores (...).

Na evocação, Maria Estela lembra que o tempo do cais do Pidjiguiti vai longe, 3 de agosto de 1959, dia em que começou a guerra.

(...) Nunca mais seríeis felizes como antes.
Não era nosso o Chão de Papel
Mas podia ter sido
Se em vez de chumbo, ódio, vinganças e cana
Tivéssemos semeado letras na terra.

Versos como esses refletem o caos emocional que sofre todo o desterrado. E nesse caso Maria Estela é também uma desterrada, pois, ao voltar a Portugal, nas noites de sua solidão, passou a perguntar pelos amigos e familiares que haviam ficado na terra africana que a vira crescer, pelos desaparecidos, sem conseguir banir da memória o drama vivido, o drama da ruptura com um mundo que desapareceu.
Para aqueles que desconhecem a Guiné-Bissau, é preciso que se diga que o título “Chão de Papel” aponta para a pátria-chica do grupo étnico desta região guineense: a tribo dos Papéis, cerca de 40 mil naquela altura, como explica o alentejano Saião, bom conhecedor da região. Trata-se de um trocadilho, um simbolismo feliz, acrescenta Saião.

Editora da publicação eletrônica Triplo V (www.triplov.com), Maria Estela Guedes tem uma vasta obra publicada de livros de e sobre poesia em que se destacam “Herberto Helder, Poeta Obscuro” (Lisboa, Moraes Editores, 1979), “SO2” (Lisboa, Guimarães Editores, 1980), “Eco, Pedras Rolantes” (Lisboa, Ler Editora, 1983), “Mário de Sá Carneiro” (Lisboa, Editorial Presença, 1985), “À Sombra do Orpheu” (Lisboa, Guimarães Editores, 1990), “A_Maar_Gato” (Lisboa, Editorial Minerva, 2005), “Lápis de Carvão” (Lisboa, Apenas Livros, 2005), “Ofício das Trevas” (teatro (Lisboa, Apenas Livros, 2006), “A Boba (monólogo em três insônias e um despertador)”, com prefácio de Eugénia Vasques (Lisboa, Apenas Livros, 2006), “À La Carbonara”, em coautoria com J.C.Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopes (Lisboa, Apenas Livros, 2007) e “Poesia na Óptica da Óptica” (Lisboa, Apenas Livros Lda., 2008).

ADELTO GONÇALVES é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.
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sábado, 4 de setembro de 2010

Modo de usar (Ronaldo Monte)


Quando criei a coluna “Modo de ser & modo de usar” para o jornal Contraponto, previa que o “modo de usar” causaria estranheza em algumas pessoas. Foi o que aconteceu. Aqui e ali, me perguntam se essa história de usar não seria melhor aplicada às coisas do que às pessoas. Mas quem acompanha a coluna percebe que a maioria dos entrevistados compreende o espírito da coisa e responde sobre a melhor maneira dos outros aproveitarem o que eles produzem.


Quase todo mundo já ouviu falar nos valores de uso e de troca que Marx atribuiu aos objetos feitos pelo homem. Quando uma coisa vira uma mercadoria levada ao mercado, ela tem um valor de troca. Mas antes disso, ela tem um valor de uso, à medida que se torna útil a alguém. Uma pedra, por exemplo, pode prender uma pilha de papéis, enfeitar uma mesa de centro, sacrificar um passarinho ou uma iraniana. Pode também, utilidade suprema, surgir de repente no meio do caminho do poeta.

Não sei por que uma pessoa não teria valor de uso. Podemos não ser mercadoria, mas somos sempre de alguma utilidade para alguém. Pode ter coisa melhor do que se deixar usar e abusar pela pessoa amada? E a mãe que entrega o peito ao uso do filho? Por que temos medo de ser coisas? Em que somos melhores do que um pão ou um martelo?

Um psicanalista, por exemplo, dá-se ao uso pela transferência. Um pintor, um jornalista, valem pela utilidade do seu trabalho. Passam também a ter valor de troca, quando estipulam seu preço no mercado.

O estatuto de coisa, aliás, seria até honorífico para muita gente sem qualquer utilidade que anda por aí. Políticos, bandidos, simples parasitas que nunca bateram um prego numa barra de sabão.

A rigor, nossa entrada no mundo se dá “no meio das coisas” (in media res). É preciso ralar muito para adquirirmos um mínimo de consciência histórica que nos leve a descobrir um modo próprio de ser. No fim de tudo, voltamos a ser coisa, matéria orgânica de muita utilidade. E alguns de nós continuarão a ser coisas úteis na memória das gerações.

Visite meus blogs:

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

P.O.E.M.A. (Raymundo Netto)

(Quadro de Chico Lopes)


Eu quero a poesia concretamente não concreta!?

Um poema não poético não hermético não soneto nem só Netto

Um poema-cuspo na hipocrisia de quem se diz poesia

Sem acordo sem sintaxe nem metro ou morfologia

O meu poema tem de ser vazio da cabeça aos pés

Sem Nossa Senhora sem cachoeiras sem badalos de sinos sem amores fieis

Eu quero um poema que não seja truque nem mágico nem mágica

Que não seja verso nem falso nem farsa

Que chegue a Lém da poeticidade convencional conveniente convexa e com cavas

Que vá como se vás o poeta às favas

Que se escreva com avaro o amor amaro ocre e acre

Com porrada o susto o massacre

Quero a poesia sem sobras sem prantos sem lábios tremulantes

Sem lágrimas lenços brancos sem berço sem fim nem meio

Sem bundas sem coxas olhos ou seios

Um poema que não seja desta terra nem do céu menos da lua

Que não escorregue lânguido entre os poros da pele nua

A poesia sem rima sem ramos sem remos... cem rumos

Eu quero o poema que não seja emo nem poemo

Eu quero paixão que não seja calor

Nem ouro nem prata o meu poema tem de ser de lata

O poema é e tem de ser sempre o perdedor

Decepcionado, decepado e vergastado pela dor

Eu quero quentura que não seja fritura — não quero tristeza eu quero é tristura

Constringe-me a mente a sinérese da minhagonia

De não a querer mais e mais podê-la poema que poesia.

Eu quero a poesia com Creta à mente?!
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Entrevista: Chico Lopes (Por Silvana Guimarães)



Chico Lopes acaba de lançar o livro Hóspedes da Noite. "São histórias do interno e do externo de personagens amarradas a um mundo cuja compreensão necessita do olhar e da consciência, instâncias que, entretanto, parecem desalojar-se mutuamente. O desencontro entre o fora e o dentro é revelado por uma construção textual refinada e sutil, que suprime os limites e transita em matérias de difícil definição". A afirmativa é de Valentim Facioli, que assina a orelha do livro e o considera "uma espécie de vertigem com abismo provável sempre à vista". Com certeza, em razão da fragilidade dos seus personagens — tão humanos, tão reconhecíveis — que o autor esmiúça e desnuda, de modo a causar espanto. O Chico é de engrandecer miudezas. Bom de ler, bom de papo. Como se comprova nesta entrevista. [Silvana Guimarães]






Silvana Guimarães - Chico, você acaba de lançar seu terceiro livro de contos, Hóspedes do Vento (São Paulo, Nankin Editorial), que junto aos dois anteriores — Nó de sombras (2000) e Dobras da noite (2004) — formam uma bela trilogia. O que este livro representa para você em relação aos outros?

Chico Lopes - Sinto que este terceiro livro reflete bem a passagem dos anos e um possível amadurecimento. São dez anos desde que Nó de sombras, que é de 2000, foi publicado, e foi meu livro de estreia, quando eu tinha 48 anos. Agora, estou com 58. A trilogia parece simbolizar toda uma década, já que Dobras da noite saiu no meio, em 2004, e agora sai Hóspedes do vento, fechando-a. Creio que é um livro mais heterogêneo que os outros dois na forma, pois, diferentemente de ambos, tem mais contos curtos do que longos, mas é o meu mundo temático, sempre se desdobrando: a solidão, as fantasias sexuais e afetivas confrontadas com uma realidade particularmente difícil, os párias, os loucos, os sonhadores delirantes. Dessa vez, uma preocupação maior com a velhice e a morte também, refletindo, naturalmente, o que eu disse logo no início.

SG - Todos os contos deste livro têm dedicatórias. Por quê? O que alguém precisa fazer/ser para merecer um conto seu?

CL - Dediquei meu primeiro livro todo à minha mulher, Maria Vitória, pelas razões óbvias. Depois, no Dobras..., percebi que travava mentalmente, ao escrever, diálogos com certas pessoas que acolheriam bem aqueles temas. Uma amiga, Rosângela Vieira Rocha, a quem expus um conto que já estava em andamento, o "Belmiro agoniza", me deu uma sugestão que mudou o rumo da coisa. Acho que os diálogos com amigos, outros escritores, é sempre fecundo por causa disso. O mesmo aconteceu com "A many splendored thing", desse livro, que dediquei ao escritor Lima Trindade. Dediquei meu conto favorito, "Cavalo e sombra", a um amigo como eu nascido em Novo Horizonte, Claudemir Bellintane, que conhecia tanto quanto eu o personagem real que inspirou o vaqueiro Tião Celestino. Mas em geral meu processo é mais solitário, e dedico o produto já acabado a algumas pessoas mais íntimas, nem sempre escritores. É particularmente chato quando a gente sente que o escolhido não gosta muito daquele conto, que talvez preferisse outro.

Acho que o ato de escrever, por mais solitário que seja, é tremendamente social. Acredito, inclusive, que o que a gente procura é uma espécie de despersonalização, que tem mais a ver com um fundo coletivo fervilhante que há em nós. Às vezes, sinto que sou instrumento de alguma coisa muito maior do que eu. E acho isso ótimo, porque uma das melhores coisas da Literatura é isso de nos dar o poder (talvez ilusório) de ter muitas almas. Na verdade, nossa preciosa identidade social, civil, cotidiana, cai demais na aridez. A fantasia nos salva.

Para merecer um conto meu, o que é preciso? Nada além de amizade. Ainda acho a amizade o grande sal da vida.

SG - Como, em geral, você se relaciona com o ato de criar? Vamos falar sobre o primeiro conto do livro — "O Assobio" — que eu gostei muito de ler. Na prática: pode explicar-me a gênese da sua narrativa?

CL - Sabe como é, Silvana? Às vezes, a gente é perseguido a vida toda por uma ideia ou um fiapo de ideia que está ali, nos primeiros contos que tenta escrever, e, quando você julga que aquilo não deu certo e é melhor esquecer, com as voltas do tempo e das circunstâncias da história pessoal, acaba retomando tudo um dia sem querer. Eu tinha na cabeça, há muitos anos, a imagem de um sujeito que assoviava pelas ruas (era um trechinho de uma música de Mozart). Era um sujeito feliz, simplesmente, que de madrugada ia assoviando de mãos nos bolsos, contente com seu corpo, sua vida, parando pra dar sua mijada numa árvore, numa rua de cidade pequena. Daí, veio a ideia de que, por tão feliz, tão espontâneo, ele acabava criando inimizades que nem imaginava em pessoas que dormiam muito mal e ouviam aquele assovio satisfeito. Mulheres reprimidas passavam a desejá-lo, e precisavam acabar com sua espontaneidade, matando nelas o desejo que o assovio despertava. Porque às vezes tenho a impressão de que a felicidade simples, de graça como é, arbitrária e insondável como é, pode ser a coisa mais ofensiva do mundo para quem não é feliz. No caso do assobiador, sua felicidade não ficaria impune. A ideia ficou oscilando entre o trivial e o sombrio. E acabou dando nesse primeiro conto do Hóspedes do vento. Que, antes disso, foi publicado como "O cerco" no Suplemento Literário do Minas Gerais.

SG - Um passarinho me contou que você começou na escrita pela poesia e nunca publicou um poema. Conte-me: por que isso aconteceu? Como foi seduzido pela prosa?

CL – Deve ter sido um passarinho mesmo, porque eu os adoro e vivo botando em meus contos. Na verdade, comecei pela poesia. E também fazendo letras de músicas para amigos. Da poesia, saltei foi para a prosa, mas uma prosa poética, que também se mesclava à crônica, ao ensaio. Mas eu sempre achei que meu destino era a prosa de ficção, e me frustrava muito não poder escrever como os escritores que eu admirava. Eu vivia (isso eram os anos 70) querendo escrever como Dalton Trevisan (meu primeiro conto realizado era uma imitação descarada dos dele), como Clarice, Machado, Edgar Allan Poe, um monte de gente. Nos anos 80, eu saltei de vez para a prosa. Demorei muito a ficar contente com um conto meu. Escrevia e rasgava, escrevia e rasgava, montanhas de papel, de horas que eu considerava perdidas. Também queria escrever novelas (romances me pareciam exigir fôlego demais), que também rasgava. Só vim a publicar um livro de contos em 2000, aos 48 anos, como disse. Eu queria estrear só quando estivesse inteiramente certo de estar escrevendo alguma coisa decente. Minha autocrítica era pra lá de implacável. Não me importei nunca de passar anos, décadas, me purgando.

De certo modo, a poesia me parecia insatisfatória porque, aos poucos, me parecia falar com menos e menos leitores. Eu queria algo mais vasto, mais comunicativo, sem abrir mão daquelas ideias. Até hoje acredito que a minha prosa tem heranças desse poeta obscurecido.

SG - Fale, por favor, de seus modelos ou referências literárias, nacionais ou estrangeiros, do passado ou do presente.

CL – Minhas primeiras paixões foram livros de Francisco Marins, Monteiro Lobato, Julio Verne, eu adorava gibis de Tarzan, Zorro, lia fotonovelas e tudo que me caísse nas mãos, incluindo livros policiais, de terror, de mistério, em edições de bolso que um parente meu tinha (em casa não havia uma biblioteca). Depois, um dia alguém me emprestou um livro que me virou a cabeça — eu tinha 14 anos e era o Capitães da areia, do Jorge Amado. Quis, então, ler coisas mais ousadas, questionando violentamente o meio que me cercava, a Igreja, as convenções, tudo... Fui parar em Dostoiévski. Um amigo tinha uma coleção inteira. Foi a maior comoção literária daquela minha fase da juventude, não esquecerei nunca. Creio que foi ali, no meio de Ivan, Raskolnikov, Aliosha, Marmeladov, vagando febril por tanta humanidade, que nasceu meu desejo mais pronunciado de ser prosador. Depois, vieram muitos outros autores e, decididamente, passei as décadas de 70 e 80 inteira lendo principalmente Proust. Dos brasileiros, lia muito Clarice, Graciliano, Machado, Rosa. De Graciliano Ramos, tenho certeza que ficou muito em mim. Eu ficava perturbado com aqueles personagens — Luis da Silva, Paulo Honório, o realismo aguçado, a prosa muito precisa e muito dura. (Graciliano até hoje me parece necessário reler por um dever de purificação). Mas queria também o mistério, a poesia, o inesperado de Clarice. Outros nomes: Campos de Carvalho, Lúcio Cardoso, Rachel Jardim, Loyola Brandão, Lígia Fagundes Telles... Com Loyola e Rachel Jardim, acabei me correspondendo pessoalmente, mais tarde.

Acho que o Brasil literário é um espanto em termos qualitativos: ter gente como Rosa, como Clarice, como Machado! Mas, se você me perguntasse qual o livro que mais me marcou, eu responderia meio automaticamente: Em busca do tempo perdido. Proust, para mim, é o maior de todos os escritores.

SG - Quem são os seus autores contemporâneos preferidos e qual é a sua relação com eles?

CL – Não sou um leitor que se prenda a escolas, a estéticas rígidas. Leio de tudo, de policiais a livros de mistério, de fantasia, levado por intuições de momento. Sou fascinado por policiais, terror, suspense, aventura, porque eram mania na minha infância, e se misturavam com minha admiração bem precoce pelo cinema de Hitchcock, pelos filmes de ficção-científica e mistério. Mas preciso respirar ares filosóficos e literários mais vastos, é sempre assim, vou alternando mundos muito diferentes, sem preconceito, do entretenimento simples a coisas mais sérias e ambiciosas. E, na verdade, não me prendo à contemporaneidade, não me importo muito com modas. Leio de tudo. Os brasileiros em que me detive nos últimos anos foram Ronaldo Correia de Brito, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Rodrigo Lacerda, João Gilberto Noll, Maria Valéria Rezende, Ricardo Lísias (ele tem um livro com novelas formidáveis, como "O capuz") e outros, mais ou menos conhecidos. Quanto aos estrangeiros, ignoro o que está em voga, pego em Paul Bowles, Truman Capote, Carson McCullers, Iris Murdoch, Dennis Lehane, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Ruth Rendell, Doris Lessing, um monte de autores. Mas, na verdade, se me sinto frívolo e dispersivo, volto correndo para os clássicos. Como não reler Machado, por exemplo? É uma delícia eterna. E é o sabor sempre novo do que parece conhecido, mas nunca se exaure.

SG - Você é crítico literário, papel que exerce em várias publicações na internet. Como explica a quase ausência da crítica literária nos jornais, substituída pelas resenhas? Aliás, qual é a sua opinião sobre a crítica literária praticada nos dias de hoje? Como ela afeta a literatura?

CL – Eu não me sinto propriamente crítico literário, escrevo só sobre livros que me parecem dizer alguma coisa, pessoalmente. Não é uma postura profissional. Minhas idiossincrasias me impedem de ter pretensões a uma rigorosa objetividade (o que me parece um mito, aliás). Escrevo com paixão e não me importaria nem um pouco de ser tachado como "impressionista" (não tenho formação acadêmica). É comum eu escrever sobre livros que estão totalmente esquecidos, que às vezes compro nos sebos. Mas escrevo livremente e, graças à internet, sem me sentir tolhido com a política dos "tijolinhos" das resenhas de revistas e jornais maiores. Não sou guiado por patotas e agendas ideológicas tampouco, graças aos deuses. Quero acima de tudo a liberdade, o prazer, o tesão da leitura. Odeio gente pedante, que parece já ter nascido com bom gosto, sem jamais ter se alimentado de lixo estético, quer dizer: gente basicamente irreal. Odeio pavões sentenciosos. Odeio a arrogância, os grupinhos fechados, os fundamentalismos rancorosos. Quero ficar muito longe dessas coisas. E, claro, nem sempre é possível. Elas não deixam.

As resenhas, de fato, andam com cara de mero marketing ou de editora ou de autor, de um modo muito bisonho. Na internet se lê coisas muito melhores que nos jornais. Acho a crítica importante, mas só até certo ponto. Pode dar alguma colaboração, mas não afeta as decisões profundas e solitárias que o talento pode tomar. O fundamental é que um escritor siga suas emoções, se depure, leia, leia, leia muito, ouvindo mais sua voz interior que cartilhas estéticas de igrejinhas. Ler muito, amar a humanidade com uma crença frustrante, desesperada, apaixonada, também é fundamental. Sem amor, sem piedade, também sem uma boa dose de crueldade lúcida, não há escritor. Mas, ler, acima de tudo. Ler o tempo todo. E escrever e reescrever quantas vezes for preciso, e nunca se dar por muito satisfeito com nada. Escritor satisfeito é quase sempre escritor medíocre.

SG - O que pensa das resenhas que se lê hoje em dia, em sua maioria, elogiosas, cheias de louvor aos autores?

CL – Há desespero em se divulgar gente que não recebe o bafejo do marketing, o que é compreensível. Faz-se a famosa "ação entre amigos" porque, por baixo disso, há a triste verdade de um país onde se lê muito pouco e onde publicar um livro, seja ele qual for, já parece uma proeza. Mas nem tudo que permanece obscuro ou anônimo é bom, naturalmente. Há anonimatos plenamente merecidos, do mesmo modo como há famas forçadas.

Há uma despreocupação com ler de fato um livro todo, conhecer de fato um autor, e é isso que mais me incomoda. Há pouca cultura literária, e ela parece diminuir dia após dia (o que há é o desejo apressado de tornar o escritor alguém digno de ser notado pela mídia, e, para isso, vai-se falando qualquer coisa, dando um vernizinho intelectual aqui e ali a gente que não tem valor algum). Elogio automático é uma desgraça. Há muita preguiça, muita vaidade, muita pressa.

Eu não me comprometo por aí, simplesmente leio o que consigo ler dentro do meu tempo e meus afazeres e, se me parecer bom, se for possível, comento. Detesto brigas estéreis por egos melindrados, e acredito em "crítica construtiva" sim, acredito em escrúpulos, em fidelidade ao que sinto. E acho que evitar desafetos compulsivamente é covardia. Ninguém escapa a ser detestado, às vezes pelo simples fato de existir e pensar algo diferente do que se espera. É preciso que se diga o que se pensa. O que não significa sair dando tiros a torto e direito. Quem faz isso não poderá depois escapar dos tiros alheios nem queixar-se deles. É preciso haver elegância, moderação, humanidade. A pretensão a "dono da verdade" é um verdadeiro horror. Nesse sentido, vão se criando alguns verdadeiros monstros, que parecem acima de tudo escritores "manqué" decididos a infernizar os escritores verdadeiros, cujos erros e acertos precisariam ser vistos com mais cuidado.

SG - O que acha dos concursos literários? Já se aventurou em algum? Acredita que são isentos?

CL – Já me aventurei sim. Acho que os concursos são necessários. Quanto a serem isentos, é inevitável que nem todos sejam. Mas me parecem necessários nem tanto pelos prêmios ou pelo reconhecimento ou o que seja, mas simplesmente porque estimulam a criação. Escritores às vezes fenecem por falta de motivação, de esperança, e a perspectiva de ganhar algum dinheiro ou ser publicado é um ótimo alento.
Recebi prêmio de honra ao mérito por três dos contos longos do Hóspedes do vento no concurso Josué Guimarães, de Passo Fundo, em 2007. Foi o único prêmio que obtive até aqui. O resultado, ainda que modesto, me agradou.

SG - O poeta Tchello d'Barros escreveu este "slogamínimo" para os estudantes: "vá ler mais / pra / valer mais". Qual a importância da literatura no dia-a-dia das pessoas? Por que ler? A leitura dignifica o homem?

CL – Sem ler, impossível ser feliz, livre, criativo, em resumo: humano. Eu teria enlouquecido, vivendo como sempre vivi num mundo acanhado, num meio hostil, se não fosse esta bênção: os livros. Todo poder à Literatura e à Imaginação! Tudo que eu disser a favor será pouco.

SG - Você também é tradutor. Tradução é um ato de criação?

CL – Acho que é sim. Na verdade, a primeira vez que travei contato com a ideia de tradução como ato criativo, foi em Haroldo de Campos, no livro A arte no horizonte do provável, que me marcou muito numa certa época. Nunca pensei que faria traduções profissionalmente, mas, como gostava muito de traduzir letras de música (dos Beatles e outros, nos anos 60 e 70) e traduzia para mim mesmo trechos de prosa em Inglês, acabei chegando a isso, mas foi um processo demorado. Gosto de traduzir — o ato sempre me parece desafiador, gosto da sensação de que aquele dado autor será lido em Português graças a mim. Poesia, particularmente, é um grande desafio, e a ela se aplicam melhor as teses do Haroldo naquele livro. Mas tenho traduzido prosa, apenas.

SG - Seus contos costumam evocar letras de músicas e cenas de filmes. Qual a sua relação com o cinema e com a música? Quais são as suas preferências musicais e cinematográficas?

CL – Cinema é paixão desde menino. O meu lugar favorito na minha cidade natal era o cinema, que infelizmente, como em quase todas as outras cidades pequenas, não existe mais. Ali a aprendi a amar Hitchcock, Polanski, Coppola, Kubrick e muitos outros. Até os anos 80 aquele cinema existiu — deu tempo ainda de pegar sessões sucessivas de Blade runner, um dos meus filmes mais queridos.

Sou programador e apresentador de filmes no Instituto Moreira Salles – Casa da Cultura de Poços de Caldas, há 16 anos. Vivo em meio a revistas, livros de cinema, DVDs. Vejo de tudo, e por isso o ar de sacralidade que a arte tinha para mim, quando menino, foi se perdendo um tanto, com o conhecimento, a experiência. Mas basta que eu descubra, no meio da enxurrada comercial, um filme digno e vibrante, e a minha paixão cinéfila volta com tudo. Meus diretores favoritos são Hitchcock, claro, David Lynch, Herzog, Almodóvar, Welles, Babenco, Tim Burton (não sempre), Huston, Wilder... na verdade, é mais justo dizer que a gente ama mais é certos filmes e às vezes conclui que os diretores, no conjunto, não mantêm sempre a coerência artística ideal (devido ao aspecto industrial e contingente do Cinema). É comum que a atmosfera dos filmes penetre nos meus contos. Creio que aprendi, vendo filmes, certas regras de ritmo, concisão, desfecho, certas elaborações sugestivas, certas elipses. E era inevitável, devido a essa paixão sistemática.

Quanto às músicas, desde sempre amo música popular e clássica, toda espécie de música. E tenho uma memória muito grande para letras — portanto, trechos de canções que combinam com o estado de espírito do conto ou do personagem sempre são inevitáveis, em meus contos. Bem, dizer de preferências? Digamos que ouço de Carlos Gardel a Gustav Mahler, passando por Peter Gabriel e Chico Buarque. Ouço de tudo, e especialmente música instrumental. Mas adoro música popular brasileira, especialmente a do passado.

SG - Segundo Walter Benjamin, o cinema é a maior das artes. Ele considerava o cinema (a fotografia também) a forma de arte mais significativa para a reflexão estética dos problemas da modernidade, a que rompe definitivamente com a tradição. Você concorda com isso?

CL – Sou cinéfilo tarado, mas não consigo concordar com isso de haver uma arte maior do que todas as outras. O Cinema, falando agora com um esforço danado para me livrar da paixão que me faz ver todo tipo de filme, tem demais de indústria para ser uma arte assim tão superior. Pode ser grandioso aqui e ali, mas o que há de ruindades, por Deus! Por outro lado, sempre acho que a Literatura, mais livre, atinge zonas da inteligência, da sensibilidade, da Beleza, que o Cinema, por ser tão atrelado à massa e ao mercado, jamais poderá atingir. Hitchcock foi grande, claro, mas nunca grande da maneira que Proust o foi. E nunca pensei em ser cineasta pelo simples fato de que me parece assustador ficar pensando em contratar a estrela X ou Y, ficar submetido aos caprichos de um produtor cheio de dinheiro, a um espírito de equipe castrador ou a um orçamento apertado, etc. Por outro lado, os roteiros parecem andar muito pobres, pela necessidade de adular a burrice que engrossa bilheterias. Avatar, por exemplo, é uma miséria em termos de roteiro. O Cinema não tem de modo algum a liberdade que uma página em branco pode oferecer a um escritor. Quando é grande, quando se arrisca, em geral, é mal compreendido pelo público. E ele depende demais do público para voar alto de fato.

SG - E por falar em tradição, você tem alguma preocupação em trabalhar a linguagem dos seus escritos?

CL – Naturalmente que tenho, e acho que quem não tem está se condenando à irrisão ou é estupidamente vaidoso para reconhecer a importância dela e está perdendo um tesouro. A tradição é fundamental. Mas renová-la também é. De algum modo, assimilando-a com a humildade e o senso crítico, é sempre possível continuá-la e movê-la pra frente, no que tem de melhor. Quanto ao meu trabalho, lamento muito meus erros, me purgo, me xingo, esperneio e vivo reescrevendo tudo que posso reescrever. O consolo é que sempre poderá haver segundas edições.

SG - Sei também que você é desenhista e pintor. Chico, no bom sentido, você pinta e borda e faz o que mais?

CL – Na verdade, comecei desenhando e pintando e a literatura veio depois. Eu tenho uma relação muito visceral com imagens, por isso o amor ao Cinema, e por isso escrever, para mim, é um flertar com várias outras artes. Na verdade, não pinto e desenho tudo o que gostaria, porque me falta tempo. Faço minhas telas quando me sobra um tempinho, e continuo apaixonado por certa fusão de expressionismo e surrealismo, com imagens próprias, que aprendi a fazer, com os anos. Mas não tenho maiores pretensões quanto a isso. Exponho quando me dá na telha, e, quanto a desenhos, às vezes faço capas de livros para amigos, ilustrações aqui e ali. Fiz ilustrações com mais regularidade nos anos em que trabalhei em jornais. Sou um pouco faz-tudo sim. Mas claro que não me saio bem em tudo, apenas me expresso nessa arte também. É uma necessidade meio... vital, eu diria, porque a Pintura, diferente da Literatura, é um prazer de ordem mais... física.

SG - Você tem algum ressentimento de viver numa cidade do interior de Minas ou acha que é precisamente por viver aí que sua literatura é mais rica, mais personalizada? Pergunto isso, porque acabo de reler seu artigo "O Inferno Jeca Enfrentado com Literatura", publicado na Germina [clique aqui e leia].

CL – Ah, esse artigo provocou algumas polêmicas entre os que o leram... Houve quem até me agradecesse por descrever com precisão o problema de um escritor em cidades do interior, houve quem achasse que fui exagerado. Creio que ele tem ares de bronca, e eu poderia ter dito mais coisas no terreno da amenidade, claro, com mais moderação e verdade, igualmente. O que me chateia é que se idealiza demais a vida no interior como tranquila, benéfica, etc. — uma visão que implica numa certa hipocrisia de quem pertence a uma classe que pode ficar curtindo paisagens, viagens e passeios e de algum metropolitano que não mora nelas; quem simplesmente vive nos lugares e tem que conviver com as dificuldades naturais da vida, não vê as coisas com essa complacência duvidosa. Fica-se falando em Paraíso, quando se esquece que, onde há o homem, lá estarão conflitos, lutas, tormentos — afinal, não faz muito tempo que fomos expulsos dele?

Não gosto do ufanismo, de bairrismo ingênuo. E certa literatura brasileira sempre fez de cidades do interior uma coisa hipocritamente idílica, encobrindo o que elas têm de desesperador e sufocante ou de simplesmente humano (e onde há seres humanos, dificilmente haverá consensos felizes). Mas isso já mudou, claro. Nos últimos anos, a literatura brasileira é acima de tudo urbana, como apontou o Luiz Ruffato, e pode-se, sem dar nomes, falar de cidades pequenas ou médias como se fossem subúrbios das metrópoles, porque tudo se parece, se achata, se uniformiza, em termos do novo crescimento urbano violento do país. De modo que aquela visão semi-rural, semi-bucólica, cheia de "prazeres simples e puros", já foi para o brejo. Eu adoro Minas e acho que morar em Poços foi muito benéfico para a minha literatura, de certo modo. Poços tem uns ares misteriosamente fecundos. Vim do interior de São Paulo, de uma cidade (Novo Horizonte) que, comparada a Poços, perde terrivelmente. Do pouco que andei por Minas (minha mulher é mineira), fiquei apaixonado pelas belezas todas. Mas minha ligação com o interior é primeiramente realista, experiente demais para ser mistificada. Amar alguma coisa não significa deixar de ver tudo que ela tem de imperfeito também.

SG - O que a internet trouxe de bom e de ruim para a literatura? Aliás, para todas as artes?

CL – A internet é um instrumento, moralmente neutro, podendo ser usado para isso e aquilo, indiferentemente. De modo que nela, por sua natureza democrática, entra de tudo. É principalmente essa a sua virtude. Para mim, tem sido ótimo trocar, com a rapidez sabida, e-mails com amigos escritores ou simples amigos, fazer contatos profissionais, etc. Tudo se simplificou, com um computador à frente de nós, e quem não reconhece esse fato e prefere ficar longe é como alguém que ignora os benefícios da luz elétrica, achando mais romântico viver à luz de velas. O que as pessoas que criticam a rede temem é sua amplitude, seu desconhecido, suas possibilidades sem fim. Mas temer essas coisas é reacionário, é uma estupidez. Melhor mesmo é fazer um bom uso delas.

No caso específico da literatura, não é ótimo poder participar de sites como o Germina, onde em geral se tem uma liberdade de espaço e expressão de ideias com fôlego, que na imprensa de papel já não há mais? A literatura (infelizmente, com característica de aluvião, trazendo do bom e do ruim, é claro) tem se salvado é por aí. Fora o manancial de informações artísticas de todo tipo e qualidade. Quanto às chatices e mediocridades e abusos da rede, o que se pode é repetir alguns mineiros do interior que dizem sabiamente que "não há bondade sem senão".

SG - Já planejou o seu próximo passo na escrita? Podemos esperar um romance de sua autoria?

CL – Bem que gostaria de escrever um grande romance de minha geração, dizer como aqueles ideais dos anos 60, do "desbunde", da Contracultura, da luta pela transparência no comportamento, por uma ética libertária, foram sendo substituídos por conformismo, cinismo e desilusões sem fim. Teria muito que dizer sobre amigos que morreram, outros que infelizmente piraram e tudo mais. Mas, não seria uma coisa tão direta assim, a ficção ditaria os caminhos (não sou partidário do realismo estrito de modo algum). E, na verdade, devo confessar que os romances, pela extensão e o fôlego, são coisas nas quais mal penso.

Mas já escrevi duas novelas, de tamanho razoável (cerca de 90 páginas cada) e gostei do resultado — eram histórias que, por seu ritmo, sua ambição, não poderiam ser mantidas como contos. E tenho projeto de escrever outras. Se eu chegar ao romance, será muito naturalmente, com minha habitual lentidão e purgação.

junho, 2010

Chico Lopes (Novo Horizonte/SP, 1952). Escritor, tradutor, crítico de cinema, jornalista, autor de Nó de sombras (São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2000), Dobras da noite (São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2004) e Hóspedes do vento (São Paulo: Nankin Editorial, 2010). Seus contos e resenhas foram publicados em revistas como Cult, Pesquisa e Entre Clássicos e jornais como Correio Braziliense, Minas Gerais, Rascunho, dentre outros. Pulica regularmente crítica de cinema e literatura em sites da internet como Verdes Trigos, Verbo 21, Conexão Maringá, Cronópios e Germina. Realizou doze traduções de lieteratura clássica e contemporânea para a Landmark, Ediouro e Rocco. Vive em Poços de Cladas (MG), onde é crítico e programador de filmes do Instituto Moreira Sales — Casa de Cultura, desde 1994.

Mais Chico Lopes em Germina
– Episódio de Caça (Conto)
– Na Berlinda (Conto: O Nome no Ar)
– Letra & Imagem

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Foi pianista, socióloga, especialista em transporte público. Agora escreve. Pura vingança. Coeditora da Germina — Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Tem contos e poemas publicados em revistas nacionais e estrangeiras. É uma das 8 Femmes, poesia (São Paulo: Papel de Rascunho, 2007). Participou da antologia Pitanga, de microcontos (Lisboa: Pitanga, 2008). Organizou, com Florbela de Itamambuca, Dedo de Moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota, 2009).

Mais Silvana Guimarães em Germina
– Entrevista
– Faro (conto)
– A Eleita (Genética da Coisa)
– Sabiás & Exílios (org.)
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

João Soares Neto me livrou da morte súbita (Nilto Maciel)



(João Soares Neto)


Andava pelos corredores (?) do Shopping Benfica, após o almoço, em busca do subsolo, onde se guardam os carros. Mais uma tarde de leituras pela frente. Assim tem sido minha rotina. E imaginava se me veria de novo com o velho Machado – não consigo viver sem ele – ou se recorreria a um de meus contemporâneos, daqui do Ceará, de outros brasis ou de bem longe. Pensei em Airton Monte e seu Bailarinos, cujo lançamento se dará no começo de setembro. Ora, como poderia ler um livro que ainda não existe para mim? Poderia ler Luiz Ruffato, que nasceu em Minas, mora em São Paulo e publicou há pouco Estive em Lisboa e lembrei de você. Mas a obra me foi surrupiada por um amigo: “Lerei hoje; amanhã mesmo devolverei.” Faz dois meses que ouvi a frase. Poderia ser, então, a francesa Catherine Millet, de A Vida Sexual de Catherine M. Não, não poderia ser, porque aquele amigo (dos livros alheios) também me levou Catherine, naquele mesmo dia.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Adeus, Grécia (Emanuel Medeiros Vieira)

(Delacroix, Barque of Dante)

Não bastaram fibra e amor,

cai, Grécia,

universo solar

adequação entre ser e destino,

envelhecemos

– morte na soleira da porta,

fragmentos de sonhos

– só fragmentos –

não a totalidade,

adeus, Grécia,

adeus,

despedidas

– só despedidas.


Ulisses: somos apenas seres virtuais,

Homero envolto em brumas,

homens sem fibra carregando engenhocas eletrônicas,

caindo como folhas ao vento

(prenhes de cobiça – soberbos –, e miseravelmente rotos),

Não, não eram eternos,

onipotência só de papel,

deuses de barro,

TV.


O Espírito sopra onde quer?

Adeus, Grécia,

adeus, pátria dos homens,

adeus, pássaro da juventude,

inunda-nos o lamento de homens afundados –

uma doída lembrança.


De que barro somos feitos?

Não, não só de vileza,

também busca,

mesmo acampados em sucursais do inferno,

caminhando em sombras:

sonho da eternidade pela arte.


Para todos – fúteis, deslumbrados, sábios –

haverá sim – como haverá!,

o momento da Revelação –

e será tarde,

muito tarde.


Adeus, Grécia,

adeus,

desfeitos, como pó, varridas cinzas,

irrelevantes ou – para alguns –

nobres nessa finitude.


Sonâmbulos, clones dos nossos sonhos,

escritores de narrativas epigonais.


Não naveguei nos melhores mares:

preciso navegar – sempre –

infinitamente humano.
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sábado, 28 de agosto de 2010

Astrid Cabral e os livros

Depois de ler minha crônica "Alma perdida na biblioteca", a escritora Astrid Cabral me mandou o seguinte comentário, que é uma delícia:

Querido Nilto,
gostei muitíssimo de sua crônica. A verdade é que nós escritores somos viciados em letras: Ou elas saem de nós, ou entram em nós. Tal o ar que respiramos. O circuito é contínuo e intenso. Um fanatismo, como define meu filho Alfredo. Mas acontece que o dia tem só 24 horas, as editoras não param e nosso ritmo não acompanha essa fecundidade. Como já dizia o Drummond, à noite os papéis copulam. E não há olhos nem boca humanos para digerir toda essa fartura, essa avalanche de folhas.

Universo Moreira Campos

Cole isto – universomoreiracampos.blogspot.com – em “pesquisar” (Google ou outro) e relembre (ou conheça) Moreira Campos.


Vamos lembrar sempre Moreira Campos. Não apenas a figura humana, o rosto, o homem, mas o escritor, o contista, um dos melhores do Brasil.


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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Carcomido (William Lial)

Tudo o que vejo agora

são paisagens negras,

árvores mortas e flores secas,

nuvens cinza que usurpam meus olhos,

corpos estranhos que se movem inexplicavelmente.


Tudo o que vejo agora

é a terra morta que paira nos meus olhos,

é o sentimento amargo que corrói

vários peitos ignominiosos,

é o beijo falso que beija bocas

como se beijasse vermes.


Tudo o que vejo agora

é tudo o que não quero ver,

são esses olhos negros

e esses braços içados, marciais,

são esses peitos que arfam

prazenteiros a morte que os almeja,

são essas bocas pornográficas

a vomitarem palavras podres,

são amores falsos,

verdades tortas,

retas circulares,

luzes apagadas,

são meios-homens

que amam meias-mulheres,

paixões violentas

que destroem mundos,

demência coletiva

que cultiva a tortura,

sorrisos cínicos

que seduzem os miseráveis.


Tudo o que vejo agora

é a mentira da paz utópica e bélica,

é a falácia ruminada de ancestrais

que se fizeram deuses

para que a história os fizesse imortais.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Alma perdida da biblioteca (Nilto Maciel)

Nilto Maciel


Recebi exemplar autografado do novo livro de Everardo Norões: “Para o escritor e amigo Nilton Maciel, este Poeiras na réstia, pó que somos, às vezes réstia... com a admiração e o abraço de (assinatura). 02.VIII.10”. Nem prestou atenção à grafia de meu nome. Não faz mal: talvez não haja outro Nilto Maciel.

Há alguns anos recebo livros. Quase todos de escritores, que querem uma resenha, um comentário, um elogio. Algumas editoras também mandavam, desde os tempos da revista O Saco. Para divulgação. À frente da revista Literatura, que durou dezessete anos, essa avalanche de publicações quase me sufocou. Cheguei a alugar um apartamento, em Brasília, só para abrigar meus hóspedes de papel. Uma loucura, como dizia minha mulher. E dava ultimatos, diariamente: Ou eles, ou eu. Terminei sem ambos. Ela não aceitava dividir o restrito espaço do mundo com aqueles seres inanimados, empoeirados, sem atrativos: Como você pode ser tão idiota, leitorzinho. Ela talvez quisesse me chamar de leitãozinho. E me ver assado, para me comer melhor.

Também meus amigos, que são todos escritores (nunca tive amigos que não fossem escritores), me chamavam (e chamam) de idiota: Como você pode perder tempo lendo tanta porcaria e, ainda por cima, dando divulgação a ela em revistas e na Internet? E levavam (e levam), por empréstimo, o que julgam não ser porcaria. Dia desses fiz um balanço: dos vinte mil livros que ocupam (ou ocupavam) as estantes de minha mansão, menos de um por cento vale a pena ler de novo. Já me levaram Cervantes, Camões, os sermões de Vieira, os amantes de Lady Chatterley, os amores de David Herbert Lawrence.

Certamente não terei tempo de ler toda a minha biblioteca. Levaria uns duzentos anos. Mas tenho sido educado: leio as abas, o prefácio, alguns poemas, contos, páginas, e escrevo ao doador do livro umas palavras de agradecimento. Não prometo resenha, artigo, estudo. Não sou jornalista profissional, não me pagam para escrever. Não disponho de muito tempo para leituras desse tipo. Em compensação, desde 1974, data de minha estreia como escritor, envio, pelo correio, exemplares de meus livros (acho que são vinte) aos amigos escritores. Trinta e seis anos remetendo livros. Uns poucos me dirigem agradecimentos. Se todos eles leram meus livros, não sei. Alguns leram. Poucos escreveram artigos e ensaios. São escritores maravilhosos, críticos excelentes, leitores apaixonados: Adelto Gonçalves, Adriano Spínola, Aíla Sampaio, Angelo Manitta (italiano), Artur Eduardo Benevides, Astrid Cabral, Batista de Lima, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Augusto Silva, Carlos Augusto Viana, Carmélia Aragão, Celestino Sachet, Chico Lopes, Dias da Silva, Di Carrara, Dimas Macedo, Donaldo Schüller, Eduardo Luz, Enéas Athanázio, Erorci Santana, Fernando Py, Foed Castro Chamma, Francisco Carvalho, Francisco Miguel de Moura, F. S. Nascimento, Henrique Marques Samyn, Inocêncio de Melo Filho, Jaime Collier Coeli, João Carlos Taveira, Jorge Pieiro, José Alcides Pinto, José Lemos Monteiro, José Luiz Dutra de Toledo, Laene Teixeira Mucci, Liana Aragão, Moreira Campos, Nara Antunes, Nelly Novaes Coelho, Nicodemos Sena, Paulo Krauss, Paulo Nunes Batista, Ronaldo Cagiano, Salomão Sousa, Sânzio de Azevedo, Sérgio Campos, Tanussi Cardoso e Valdivino Braz. Alguns nem conheço ou conheci (a morte os levou cedo). A todos sou muito grato.

Everardo, desculpe a demora no relacionar nomes. É que minha memória nunca foi boa e precisei buscá-los num arquivo. Desculpe também estar falando de mim, em vez de falar de sua obra. O posfácio de Manoel Ricardo de Lima é uma aula. Como ele sabe literatura! “Um poema sempre aparece como se fosse uma indefinição de si mesmo, de seu contorno, de seu absurdo; um erro.” Li alguns poemas. Você é bom poeta e está ao lado (ou na mesma estante) de Nabokov e sua Lolita, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, José Santiago Naud e outros da letra “N” (primeira do sobrenome). Quero ler mais, porém Ana Clara me chama do quarto onde se hospedam alguns poetas esquecidos. Quer que eu leia Florbela Espanca. Gosto dela como de poesia. Gosto dela porque venera meus livros. Mas nem sempre consigo atender a seus quereres. Já vasculhei todas as estantes. Nada de encontrar a frágil Florbela. Mudou-se de lugar, decerto, e se escondeu atrás de algum poeta mais encorpado: Dante, Homero, Virgilio, sei lá. Ou a levaram meus visitantes. Chamei Clarinha: Venha ouvir um poeta novo, vindo do Crato. E me pus a ler em voz alta: “a cafeteira / me dá bom-dia /com seu gesto de prata. / digo a mim mesmo: / acorda! / levanta-te e anda! / sofre/ a alegria vã / das árvores tardias, / dos morcegos que lançam / os frutos maduros das imbaúbas / sobre os telhados. / olha em torno: / o verde indiferente, / a música fechada no piano, / a pequena formiga / e suas passadas, / a suportar / o grão de açúcar / do Universo!”

Isto, intitulado “De manhã”, é que é poesia. O resto é poeira que se vai. Ou réstia que fica por instantes. Olho para Ana Clara e sinto o que é poesia. Florbela reaparece: “Minha’alma, de sonhar-te, anda perdida”. Arrojo-me a seus pés.

Fortaleza, manhã/noite de 25 de agosto de 2010.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Alguns versos (Silmar Bohrer)



Ando buscando a substância

que caiba nalgum versinho,

algo que traga a constância

perene de um cadinho.


Vagam em vagas vagantes

os canarinhos cantores,

são pequeninos cultores

de melodias vibrantes.


Caem folhas bem ao léu

no final da invernia,

vou buscando a alquimia

que há debaixo do céu.


Versejando versejando

sempre ao sabor dos ventos,

eu espanto desalentos

e vou na vida vibrando.


Tudo tem o seu preço

na romaria da existência,

por isso busco a essência

com carinho e com apreço.


Ando à procura dos rebentos

da viúva-alegre querida,

eles é que dão a boa vida

nestes agostos mormacentos.


O "bosco" anda encantado

no final da invernia,

a cantiga da galharia

me deixando alumbrado.


Faça o pouco que puder

fazendo sempre bem feito,

pois este é o melhor jeito

de ter o que de melhor houver.


Voltar aos queridos versos

é coisinha saborosa,

pensares em rebordosa

até os confins dos universos.


São ventares bem quentinhos

anunciando nova era,

e vem surgindo os brotinhos

anunciando a primavera.


A corruíra maviosa

voltou então a cantar,

cantando sem rebordosa

faz meu ser então vibrar.


Ventinhos imensuráveis

nas canhadas do infinito,

companhias agradáveis

pralgum versinho bonito.


Tico-ticos e canarinhos

são companhias caseiras,

criaturinhas faceiras

merecendo meus versinhos.


Mas como vou tratar mal

as minhas poucas idéias,

verdades ou panacéias,

elas são o meu fanal.


Ventos ventinhos ventares

também são venturas minhas,

são eternos silabares

quais vinhos das melhores vinhas.


Fim de tarde. Calmaria.

Sol no ocaso. É o poente.

Eu nos versos. Confraria.

Sossego. O "bosco" silente.


Andam ventos altaneiros

anunciando nova era,

ventos quentes, mensageiros

da doçura primavera.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eu, fumante (Manuel Soares Bulcão Neto)

Mephistopheles (Delacroix)

O romancista João Ubaldo Ribeiro, sempre bem humorado, disse certa vez que seu epitáfio deveria ser o seguinte: "Ex-escritor. Aos cinquenta anos de idade deixou de escrever para se dedicar, em tempo integral e pelo resto da vida, a parar de fumar."

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Filho (Pedro Du Bois)

(Arte de Chico Lopes)

Eu, filho imprevisto

do outono faço desabar

mistérios e dos céus

em acometimento

rasgo espaços e me faço

alegre ao desgaste: estar

preciso na estação derradeira


eu, filho inaudito

acometido em vida

desvisto os olhos

e nego enxergar

ao longe o horizonte.

http://pedrodubois.blogspot.com/
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sábado, 21 de agosto de 2010

Recortes (Simone Pessoa)

(Quadro de Chico Lopes)

simoneps@fortalnet.com.br

Revivi minha infância em companhia de minha avó, no centro de cidade. Lembrei-me da forma como passeávamos de manhã cedo à beira da praia. Nostalgia? Talvez. O certo é que todos nós temos uma necessidade interior de fortalecermos os nossos elos com o passado. Esse encantamento dos tempos de criança levarei para o além.

Mas a passagem do tempo é assim mesmo, nos transforma! Vivemos por viver a vida de algo ou alguém. Um abismo que toca o meu abismo. E no final continuamos os mesmos quadrados de uma só cor, ofuscados pelo brilho diferente e mais jovial de cores vibrantes.

Que oportunidades te estimulam e ambiciosamente te lançam para conquistar? Perguntas que vão construindo um ideal. O que importa é o enigma, é a pergunta, a curiosidade. Os reinos subjetivos mais presentes e fortes do que a “realidade”.

A escrita nos revela. Escrever é para mim um sonho acalentado há muitos anos. Quisera eu ter o domínio da palavra e a capacidade de transpor para o papel as inquietações do meu espírito. É adicionando poesia em nossas vidas que temos um sabor bem diferente...

O texto merecia uma música de fundo e coloquei More Than Words. Profundo, firme e verdadeiro. Um toque todo especial de poesia.

Às vezes acho que é injusta a roda da vida, tanta luta, tanto amor e um dia tudo acaba... Porém, a felicidade não custa muito. O apreciar dos pequenos gestos, das coisas simples da vida, é o que nos faz verdadeiramente felizes. O importante é sentirmo-nos descarregados, despoluídos, limpos, enxaguados e leves. Assim, segues te autocriando...

Tratar o problema do outro é também parte do nosso problema. A humanidade só caminhará para o bem quando todos tiverem consciência disso. Um convite a sairmos de nós mesmos e irmos à luta em busca de ajuda ao próximo. Isso demonstra com nitidez o grande sentimento de humanidade.

Quanta sensibilidade! Quanta sabedoria! Mas o curioso é que, ao contrário do que se poderia supor, todos os pensamentos acima foram formulados exclusivamente por leitores desta coluna e não pela cronista que ora escreve.

Nessa página, resolvi homenagear meus leitores. E a maneira mais autêntica que encontrei foi reproduzir trechos de mensagens e manifestos enviados por eles. Assim, leitor, você poderá se enxergar nesses recortes e reivindicar a coautoria.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Saramago: Todos os Nomes (Tânia Du Bois)


José Saramago faz parte das nossas vidas. E relembrá-lo através de Todos os nomes é fazer referência ao setor cultural e desfrutar de sua companhia em todos os momentos.

Todos os nomes foi a obra que escolhi para comentar, por ser marcante pela sua criatividade, transmitindo uma literatura de qualidade, sem contar as mudanças positivas no seu modo de escrever: grandes parágrafos e grandes ideias.

Todos os nomes trata da história de um escriturário do Registro Civil, José, que fazia coleção de nomes e de recortes de jornais. Certo dia agradou-se do nome de uma mulher e seu desejo de conhecê-la o levou a ignorar as regras do bom funcionamento dos serviços públicos; aproveita-se da vantagem de ser escriturário, para procurar em todos os arquivos dados que o levassem até a mesma. Também, não se detém ao ultrapassar a marca do permitido, para descobrir algo sobre a mulher com aquele nome.

“Pessoas assim como este Sr. José, em toda a parte as encontramos, ocupam o seu tempo ou o tempo que creem sobejar-lhes da vida a juntar selos, latas vazias, pedras... vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouco de tempo ainda conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua coleção...”.

Com coragem, o personagem passa pela porta do proibido e avança nos arquivos, copiando os dados, o que o deixa feliz e satisfeito ao ter conhecimento do todo.

Ao viver de mentiras, que dão significado a sua vida, passa momentos de suplício ao se deparar com a data da morte constante nas anotações da desconhecida mulher.

O livro está recheado de conteúdo em sua beleza e profundidade com que aborda o silêncio e a solidão do personagem, dando qualidade intrínseca à importância e à significância do nome. O autor nos dá o valor absoluto do nome, como vida; o valor humano, profundo, que repousa na raiz da cultura, enquanto espírito.

“Conhecer o nome que te deram, não conheces o nome que tens”.

“Além do seu nome próprio de José, o Sr. José também tem apelidos, dos mais correntes, sem extravagâncias onomásticas...”.

Todos os nomes, em cada parágrafo, nos faz sentir vivos, retratando o valor do nome no sentido da expressão humana. É sensível a ponto de envolver o leitor em toda a arte encontrada, para refletir que o nome é a nossa natureza, nossa alma, nossos sonhos, nosso inconsciente e, principalmente, a nossa história.

Todos os nomes é Saramago, escritor consagrado e inesquecível, que agora ganhamos (ou perdemos) para a eternidade.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O perdão (conto de Nilto Maciel, imagem e som)

Ventania (Ronaldo Monte)


Estamos em pleno agosto, mês das ventanias. Agosto sempre me serve como uma metáfora de passagem. Estamos saindo da estação das chuvas e prevendo o sol que virá com setembro. Mas até lá, teremos que nos haver com os ventos de agosto, que tanto nos chateiam com seus alvoroços, quanto nos alegram com a dança das saias.

Os ventos de agosto levam para longe os miasmas e o mofo criados nos aguaceiros. Seus redemoinhos denunciam o sujo das ruas, carrosséis de papel e folhas secas. Suas noites friorentas propiciam a reconciliação dos casais e atiçam os solteiros em busca de uma costela onde se esquentar.

Agosto irrita, às vezes. O cinzento do céu do inverno ainda teima em nos tapar o sol. As rajadas mais fortes do vento castigam com areia as pernas dos que já se aventuram à beira-mar. Foi o mês em que morreu Getúlio, em que cai o dia das sogras, em que dizem que a bruxa anda solta. Por falar nisso, neste agosto de 2010 vamos ter uma sexta-feira 13.

Mas se não ligarmos para esta fama de mês aziago, podemos viver em paz o que nos resta deste agosto. Enfrentemos com alegria a sua ventania. Vamos pedir para que ela leve, junto com os miasmas e o mofo, as nossas tristezas pelas notícias ruins acumuladas neste ano. Que o vento forte sopre para longe a maldade encruada no coração dos homens.

Pode parecer um desejo infantil, ilógico, esse meu. Mas é o que me ocorre pedir a agosto, este mês de passagem do peso das águas para o céu limpo sobre os campos e as praias. Que o seu mar revolto nos entregue às ondas calmas. Que sua ventania nos leve à brisa leve do verão. E quando estivermos torrando sob o calor da última quadra, lembremos com carinho dos momentos de terna intimidade que agosto nos deu.

Visite meus blogs:
blog-do-rona.blogspot.com.br
memoriadofogo.blogspot.com.br
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Blogues de literatura

– No http://novapoesiabrasileira.blogspot.com, a consagrada Poesia de Emanuel Medeiros Vieira e o jorro de juventude que sopra dos versos de João Carreño.
No http://blogdobenilson.blogspot.com, algumas frases do eterno José Saramago.
E novas imagens para os poemas de http://poesiacoxipo.blogspot.com .

– Entre linhas e imagens, novos sentidos estão presentes na Diversos Afins. As mais recentes expressões conduzem a:
- uma entrevista com o poeta Ildásio Tavares
- confissões íntimas expostas nos contos de Cláudia Magalhães,Milena Martins e Isaias de Faria
- os homens e seus lugares na exposição fotográfica de Ricardo Sena
- o lirismo poético presente em Elaine Pauvolid, Nestor Lampros, Luis Benítez, Elane Tomich, Ricardo Mainieri, Sylvia Araújo, Cyro de Mattos e Hilton Valeriano
Outros signos mais em:
http://diversos-afins.blogspot.com/

– Atualizei meu blogue com dois sonetos de José Pedro Soares Bulcão, meu tio-avô? (pai da atriz).
Confiram o talento do cabra:
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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Diálogos na Internet (Nilto Maciel)


Diálogo no Youtube, a respeito da canção “Teresinha”, de Chico Buarque:

Gabbriie : não é querendo desmerecer mais essa música é tão "vazia" deprimente, broxante, em fim vai ver e pq eu nao gosto do genero.

Antennahat : Não é que você não gosta do gênero. É porque você é idiota mesmo.

Outro diálogo:

Nilto: Olá, Pedro. Que crônica mais marota! Dá nisso andar lendo piadinhas na Internet. Desculpe a crueza.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Memória e Linguagem (Emanuel Medeiros Vieira*)

Quero falar da memória não como algo mecânico, mas como base de toda a identidade. Memória como instrumento de justiça e de misericórdia. Não por acaso, na mitologia grega, Mnemosina, a memória, é a mãe das Musas, ou seja, de todas as artes, do que dá forma e sentido à vida. Sim, ela protege a vida do nada e do esquecimento. A literatura não deixa de ser (também) um instrumento de transfiguração de um momento (eternizar a memória). Uma busca de perenizar o instante para convertê-lo em sempre. O ato da lembrança é ao mesmo tempo caridade e justiça para as vítimas do mal e do esquecimento. Muitas vezes, indivíduos e povos desapareceram no silêncio e na escuridão. Muitos devem se lembrar das ditaduras que, apagando as fotografias dos banidos querem, em verdade, apagar a sua memória. A memória é resistência a um tipo de violência: àquela infligida às vítimas do esquecimento. A memória é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva. Guardiã e testemunha, a memória é também garantia da liberdade. A linguagem é edificada para a construção dos textos que querem eternizar nossa brevidade, a nossa finitude. Como observa a filósofa e historiadora, Regina Schöpke, “quanto mais inconsciente ou subliminar é a linguagem, mais fortemente ela age sobre nós, mais ela nos domina e nos dirige.” Os filósofos e filólogos sabem disso. Estes últimos, veem nela não apenas uma ferramenta da razão para dar conta do mundo, mas, sobretudo, uma segunda natureza. “Algo que, de certa forma, produz o mundo, e não apenas o representa”, como observa a autora citada. Os gregos já enfrentavam a questão. Nietzsche – que além de filósofo era também filólogo – chamava esse universo da linguagem de “duplo afastamento do real”, de “segunda metáfora”. Porque aí os homens lidavam com conceitos e não apenas com o mundo em si. A linguagem pode ser instrumento de dominação, estimulando um preconceito racial, como fizeram os nazistas, alimentando o fanatismo e o preconceito, gerando um horror como raramente (ou nunca) se viu na História. Todo sistema com ambições totalitárias, como detectou a pensadora, tem necessidade de produzir um discurso, uma mitologia e palavras de ordem. O que é a publicidade que só pensa em vender, sem nenhum compromisso ético? É um exercício mental doloroso, mas assim a gente pode entender como uma cultura que produziu tanta beleza com Goethe, Beethoven, Nietzsche, Hegel, Wagner e outros, tenha mergulhado, com o nazismo, na mais profunda irracionalidade, onde o Mal apareceu com toda a sua força, ou melhor, em toda a sua plenitude. Tento meditar sobre esses assuntos, entre outras razões, porque a falta do estudo da filosofia para quem tem menos de 60 anos, criou um tremendo vácuo cultural. Fundou-se o universo utilitário, da posse imediata. Só vale o que tem valor contábil. Faço minha a proclamação de Michel Foucault: “Não se apaixone pelo poder.”

* Emanuel Medeiros Vieira é escritor catarinense. Viveu em Brasília durante 31 (trinta e um) anos. Hoje mora em Salvador ou, como diz, “faz a ponte afetiva entre a primeira e a última capital do Brasil”. Tem 20 livros publicados, é e detentor de diversos prêmios literários. Possui mais três obras ainda inéditas. Participou de mais de 50 antologias de contos e de poemas, no Brasil e no exterior. Foi jornalista, professor, crítico de cinema, editor, vendedor de livros e redator de discursos parlamentares. Fundou cines-clube e grêmios literários, e militou ativamente na política estudantil no secundário e na universidade.
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domingo, 15 de agosto de 2010

Gonzaga, um poeta no desterro (*)

Adelto Gonçalves (**)

I

O poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, nasceu em Miragaia, no Porto, mas viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio de Janeiro, antes de voltar a Portugal para estudar em Coimbra. Bacharel em Direito, montou banca em Lisboa e ainda candidatou-se, sem êxito, à cadeira de Direito Pátrio em Coimbra, antes de ingressar na magistratura em 1778. Foi juiz de fora em Beja, até que em fevereiro de 1782 saiu sua nomeação para ouvidor-geral de Vila Rica, em Minas Gerais.

Como ouvidor, não se pode dizer que Gonzaga tenha sido um magistrado reto, que não se tenha deixado levar pelas paixões e a cobiça de um tempo em que a atividade mineradora fizera a América portuguesa passar por muitas transformações. Se não existem provas cabais de que o ouvidor tenha favorecido a família de sua noiva, evidências não faltam.

Em 1788, por exemplo, o ouvidor se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltasar João Mairinque, pai de sua noiva, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora o militar tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu por crime de tolerância ao contrabando.

Afastado Mairinque por imposição da Junta Diamantina, o governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, aquele que passaria para a História como o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, aproveitou para favorecer apaniguados: promoveu o tenente José de Sousa Lobo e Melo a capitão e sargento-mor “em breves meses” e o tenente Tomás Joaquim de Almeida Trant a capitão, entregando-lhe o comando da repartição de Paracatu.

Quem ardeu de raiva foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, com a vaga aberta, pretendia ascender a tenente. Era julho de 1788. A ira do ouvidor talvez nascesse da constatação de que, afastado Mairinque, seu substituto, sob o manto protetor do governador, agia de modo ainda pior, sem que nada lhe pudesse ocorrer. O ouvidor deu o troco como pôde, ao absolver, mais tarde, o cadete Joaquim José Vieira Couto, irmão do doutor José Vieira Couto, conhecido maçom. Joaquim José fora acusado de injuriar o comandante do Tijuco, José de Vasconcelos Parada e Sousa, homem do esquema do governador.

Talvez por isso o irmão de Parada, o tenente Fernando, tenha resolvido desrespeitar o ouvidor. Gonzaga, então, recorreu ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento de cavalaria regular, que advertiu o subordinado. Todas essas questiúnculas o ouvidor contou disfarçadamente nas Cartas Chilenas, mas podem ser também comprovadas na documentação do Arquivo Público Mineiro e em vários depoimentos que constam dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira.

Depois que Cunha Meneses deixou Vila Rica em julho de 1788, Gonzaga teve menos de dois meses para trabalhar com o novo governador, o visconde de Barbacena. No dia 7 de setembro, passou o cargo para o novo ouvidor, Pedro José de Araújo Saldanha, que subira do Rio de Janeiro com o alferes Tiradentes à frente do comboio. A posse foi tumultuada porque, no dia anterior, 31 presos haviam fugido da cadeia pública.

II

Fora das funções, Gonzaga permaneceu em Vila Rica à espera de autorização real para o seu casamento com Maria Dorotéia. Por esse tempo intensificou suas relações com os poderosos do lugar: no começo de outubro, esteve por vários dias como hóspede do fazendeiro Alvarenga Peixoto em São João del-Rei. E batizou um filho do amigo. Um outro filho de Alvarenga recebeu batismo no mesmo dia, mas o padrinho foi o arrematante de contratos de entradas João Rodrigues de Macedo, dono do prédio em Vila Rica que, mais tarde confiscado pela Coroa, passaria a ser conhecido como Casa dos Contos.

A festa serviu para muitas manifestações de repúdio ao domínio português. O que preocupava o coração daqueles homens era a decisão da Corte, trazida pelo novo governador, de impor a derrama para se completar o pagamento das cem arrobas de ouro exigidas por lei.

Por aquela época, o jovem José Álvares Maciel, filho do capitão-mor das ordenanças, que estudara em Birmingham, estava de volta e fora nomeado assessor do governador. Maciel já havia conquistado para o levante a adesão de seu cunhado, o tenente-coronel Freire de Andrada, a maior autoridade militar da região depois do governador.

Freire de Andrada estava tão empenhado na conjura que cedeu sua residência na Rua Direita de Ouro Preto, em Vila Rica, para uma série de reuniões. A principal ocorreu a 26 de dezembro com a participação do ex-ouvidor Gonzaga.

A hesitação do visconde de Barbacena em decretar a derrama, porém, aparentemente, atrapalhou os planos e dispersou alguns conspiradores. A outra possibilidade é que tenha havido uma ruptura entre os revolucionários quanto ao sistema político que a nova república adotaria.

Em meados de janeiro, talvez por ter desistido da idéia da sublevação, Freire de Andrada decidiu pedir licença do comando por dois meses. Alvarenga resolveu deixar a casa de Gonzaga e voltar para a sua fazenda em Paraopeba. Quando o coronel dos auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, ex-arrematante dos contratos de entradas e grosso devedor do Erário Régio, decidiu delatar seus companheiros de conjura, os planos de sublevação já haviam sido praticamente deixados de lado.

As autoridades, porém, nunca se deixaram enganar por Silvério e sempre o tiveram como o “motor” da sublevação, aquele que tivera a idéia inicial do levante. O outro seria Macedo, igualmente ex-arrematante e grosso devedor. Ambos haviam construído fortunas com os recursos que haviam arrecadado em nome da Coroa. E queriam se ver livres das dívidas.

Mesmo com a delação de Silvério, os inconfidentes só não derrubaram o visconde de Barbacena por causa da hesitação de Freire de Andrada, que se recusou a colocar a tropa na rua. Um gesto do militar e o poder régio teria ruído na capitania: Barbacena estava acuado no Palácio de Cachoeira do Campo, valendo-se apenas do “fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens”, sem um barril de pólvora.

Denunciada a conjuração, Gonzaga tratou de tomar algumas providências que o colocassem acima de qualquer suspeita. No dia 20 de abril, procurou o governador a pretexto de obter uma autorização para casar a 30 de maio, um sábado. Alegou que precisava viajar para assumir o lugar para o qual estava nomeado na Relação da Bahia.

Detido, foi encaminhado ao Rio de Janeiro e recolhido à fortaleza da ilha das Cobras no dia 6 de junho. Escreveu liras, rompeu o noivado com Maria Dorotéia e compareceu a vários interrogatórios, sempre mantendo-se “numa tenaz negativa”. Da prisão, pediu a um amigo que levasse para Lisboa os originais de Marília de Dirceu, que sairia à luz pela Tipografia Nunesiana, quando ele já estava em seu exílio na ilha de Moçambique havia três meses.

III

Pouco tempo depois de desembarcar da nau Nossa Senhora da Conceição e Princesa de Portugal, a 31 de julho de 1792, para cumprir pena de degredo por dez anos na ilha, Gonzaga foi nomeado promotor de defuntos e ausentes pelo ouvidor Francisco Antônio Tavares de Siqueira.

Ao contrário do que afirmou o professor M. Rodrigues Lapa, em seu prefácio para Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942), o poeta não casou com “a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócio de escravatura” nem consagrou “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”. Muito menos ajudou o sogro a aumentar sua fortuna. Até porque nem teve tempo para isso. O escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, morreu aos 42 anos, em 1793, no mesmo ano de seu casamento com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos

Mascarenhas nunca se envolveu no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.

O casamento representou um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado. Ana Maria, a sogra, com a morte do marido, transferiu para o casal a morada da Rua do Largo da Saúde e passou a morar sozinha na machamba, nas Terras Firmes. Com a concordância de sua mãe, Juliana França de Sousa, doou ao casal um palmar com suas casas contíguo a sua propriedade.

A vida nunca esteve mal para Gonzaga. Tanto que, com menos de 25 dias de chegado à terra, pôde comprar um escravo ladino por 20 mil-réis. Uma das raras pessoas cultas naquele fim de mundo, o ex-ouvidor não encontraria dificuldades.

No AHU, há um atestado que Gonzaga escreveu para João da Silva Guedes, a tempo ainda de o ouvidor que estava de saída assiná-lo e levá-lo para o Reino na mesma nau que deixara os inconfidentes. Guedes nunca mais esqueceria o favor e seria fiel a Gonzaga até o fim. Em troca, o ex-ouvidor faria outros favores a Guedes e fecharia os olhos para muitos negócios escusos do amigo.

Gonzaga nunca deixou de ser maçom, como mostra o seu bom relacionamento com Guedes, pai de Vicente Guedes da Silva e Sousa, que, de retorno do Reino onde fora estudar, seria preso no Rio de Janeiro em julho em 1799, acusado de ter embarcado ilegalmente livros “ímpios e blafesmos” e catecismos maçônicos.

Como advogado, Gonzaga trabalhou para outros traficantes negreiros e, mais tarde, ao final da vida, como juiz interino da alfândega, seria acusado pelo governo do príncipe regente D. João de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha, em detrimento da Coroa.

IV

Na África, comporia alguns versos e pelo menos “A Conceição”, poema épico inspirado no naufrágio da nau Marialva, em 1802, às costas de Moçambique, que hoje (incompleto) faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como advogado, escreveu cartas e petições às autoridades no Reino.

Com Juliana, teve dois filhos: Ana e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Alexandre, que nasceu em 1809, morreu solteiro e não deixou descendentes. Ana casou, em segundas núpcias, com Adolfo João Pinto de Magalhães, que viveu até 1860 e foi um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique. Gonzaga morreu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 1810 e foi sepultado na igreja do convento de São Domingos dedicada à Nossa Senhora do Rosário, na ilha de Moçambique. Em 1852, esse templo foi demolido por estarem suas paredes comprometidas e os ossos do poeta teriam se perdido. Não há indícios de que tenham sido trasladados para outra igreja.

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(*) Publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, abril-maio-junho 2010, nº 63, ano XVI, pp.175-180.

(**) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E- mail: marilizadelto@uol.com.br
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Reiteração (Inocêncio de Melo Filho)

(Para Roberto Piva)


A morte ceifa meus diletos

No final o que sobrará?

Uma parede repleta de retratos

Retratos repletos de memórias

E molduras exibindo lágrimas

Resistentes ao vento

E ao tempo.

(5/7/10)

Vejam meu blog: www.transitoriodiamante.blogspot.com

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Mundo Circundante

Caros amigos e amigas,



estou enviando textos no blog sobre Flash Mob na BienaL de SP, Carlos Pena Filho, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre.


Abraços e boa leitura,
Luiz Carlos Monteiro
Acesse e divulgue 
http://omundocircundante.blogspot.com
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Exílio (Pedro Du Bois)




No exílio de mim mesmo

passeio tranquilas saudades

em parques verdejantes. Viajo florestas

e mares. Estou na solidão da espera:

avisto navios ao longe.

Não tenho curiosidade em aportar

ao marujo e pedir noticias.

Não é minha hora de chegada.

Retorno na calmaria: ondas

maravilham a terra escorraçada,

meu corpo ilhado em pedras.


Chegar é mistério atravessado ao fio

do desencontro.


http://pedrodubois.blogspot.com/

http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1278

http://luis-eg.blogspot.com/2010/07/dilemas.html

http://vidraguas.com.br/wordpress/2010/07/27/marcas/
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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Passantes ou ficantes? (Simone Pessoa)

(Quadro de Chico Lopes)


simoneps@fortalnet.com.br

No momento em que escrevo esta crônica, sinto como se outras mãos me ajudassem na elaboração. E não seria diferente, já que, ao longo da vida, encontrei (ou esbarrei em) tanta gente que, inevitavelmente, me legou um pouco de si. Muitas me acompanharam no trajeto por longas distâncias e deixaram marcas indeléveis. Dessas, algumas, para minha alegria, ainda hoje são presentes. Outro tanto de gente acabou tomando outros rumos, atalhos talvez. Houve quem desse meia volta e retornasse não sei para aonde. Algumas, fui eu quem largou pelo caminho. Uma porção apenas atravessou minha estrada no traçar de suas próprias trajetórias. E nesse intercruzamento de percursos, resolvi me deter naquelas que assinalaram minha existência, por instantes que fossem, sem que eu tivesse mais notícias.

Onde andará a Deusimar, minha primeira babá? Dela guardo uma única foto em que, atenta, me segurava nos braços. Ainda estará nesta dimensão? Bill, um garoto do jardim da infância com quem gostava de brincar? Assim como a Sayonara e a Marta, minhas colegas de alfabetização no João XXIII. E o Antônio Neto, também colega daquele colégio, que me ofereceu emprego na fábrica de vassouras do pai?

O Maranguape, o picolezeiro que nos tentava diariamente com seus picolés de ameba deliciosos? Ainda empurrará sua carrocinha pelas ruas da cidade? Seu Jaques, dono da mercearia da esquina da Padre Valdevino com Nogueira Acioly, creio, já não está entre nós.

Onde andará minha colega France, do colégio Cearense? Tão espirituosa, a France! Mas não suportava o apelido que a turma lhe imputou e que não ouso revelar para poupá-la de possível dissabor, caso esta crônica chegue às suas mãos. E por falar no colégio marista, onde andará a Cassundé, austera professora de matemática? A Germana, funcionária sempre de prontidão na secretaria? Tenho curiosidade de saber se o Irapuã, um colega do primário e filho de um funcionário do colégio, se tornou médico, como anunciava naqueles tempos.

O Mauricex Cascavel, meu rival em disputas de ping-pong? A Maura e o Mauro, dois irmãos, cujos rostos não lembro, do tempo em que frequentei a então nativa praia das Flexeiras, onde andarão? O Domingos, o Homero, a Jofo, o Mozart, a Astrid, a Ieda, o Moisés, a Lia – já escrevi sobre ela -, a Virgínia, a Neyla, a Laydilane, a Julieta, o Morais, o Cláudio Henrique, a Tomires, a Nely, os irmãos Marcos e Ilana, a Jonilce... A lista é sem fim. Pessoas de quem ainda lembro os nomes e posso vislumbrar as expressões. Outras, sem rosto, mas que deixaram, pelo visto, algo que guardo em mim.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Palpites futebológicos (Manuel Soares Bulcão Neto)



Tenho um amigo cujo filho do meio é esquizofrênico. Sempre que lhe pergunto sobre a saúde do rapaz, ele, que é torcedor fanático do Ferroviário Atlético Clube, responde: "Continua como o Ferrim: quando a gente pensa que está melhorando, piora." Ocorre que não é apenas o Ferrim que se comporta desse jeito.

Na verdade, não é esse time outra coisa que a expressão caricata de todo o futebol da parte de cima do Nordeste (o potiguar, o cearense, o piauiense…), que está mais para o da Nicarágua e Ilhas Fiji do que para o do sul do País. Sim, até na pelada o Brasil é terra de contrastes - e mais uma vez fiquei no lado sofrível.

Por isso, sendo brasileiro "apesar" de cabeça chata, esforço-me para torcer apenas pela Seleção Canarinho. O problema é que não consigo. Por mais que tente, termino retornando aos estádios e ao Alvinegro, nem que seja para, amargurado, torcer contra. (O futebol tem mesmo um elã encantatório, um quê religioso.)

Na ocasião da presente Copa (2010), andei especulando sobre as razões da imensa popularidade do futebol ("soccer"), e tenho tido alguns "insights". No caso do Brasil, vislumbro como uma das razões a tradição da capoeira – uma luta com as pernas – que, aliada ao gosto infantil pelos dribles no pega-pega (fez que ia, não foi e acabou "fundo") e com a tendência à simpatia pelos mais fracos, ensejou as primeiras torcidas. De fato, devia ser hilariante ver negros longilíneos escapando das correntes e do pelourinho na base da esquiva desconcertante e da rasteira, deixando tontos os seus feitores ("diminutos portugueses com expressões assassinas", conforme definição de Darwin no "The Voyage of the Beagle").

Além da simplicidade das regras – exceto para a minha mãe, que até hoje não entende esse tal de impedimento – e do material necessário para a prática do esporte, outra razão global do sucesso do futebol está no fato de as partidas serem decididas, no mais das vezes, com escores mínimos, de modo que a alegria, em vez de se diluir em cinquenta cestas, como acontece no basquete, ela se concentra em um ou dois gols em média. É mais ou menos o que ocorre numa relação sexual entre apaixonados: muitas carícias preliminares e, de repente, o orgasmo - uma explosão de dopamina, o prazer em clímax. Daí a relação de paixão irracional entre as torcidas organizadas dos "fieis" e seus times.

Daí, também, que torcer pela seleção nacional é como fazer amor com a pátria em que nós, os torcedores, somos os passivos da relação e, portanto, sujeitos às ejaculações precoces do parceiro, às suas impotências circunstanciais, aos seus momentos de virilidade exuberante…

Demais, o fato de os placares encerrarem-se com poucos gols, isso aumenta significativamente o papel da sorte ou do azar – i.e., do acaso – no resultado final. Por isso que, principalmente para quem torce por clube ruim, isto é, pela zebra, futebol é jogo de azar. Ora, todo mundo sabe que jogo de azar vicia mais que o álcool e talvez tanto quanto a heroína. E, segundo Freud, em jogatina a maioria dos jogadores aposta não para ganhar, mas para perder: inconscientemente, o jogador (no caso, o torcedor) quer expiar um sentimento de culpa abscôndido. A propósito, tenho quase certeza de que aquele meu amigo doente pelo Ferroviário é um desse tipo: um adicto da "zebrinina", um futebólatra.
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sábado, 7 de agosto de 2010

Retratos a óleo: “Passar é ficar sempre" (Tânia Du Bois)


“Que o tempo passa, vendo “retratos” no lugar que está, sentindo a vida desconhecida nascer em mim, procurei encontrar o que o mesmo foi esquecido...” Lêdo Ivo

Sobre o livro “Imagens Negociadas”, de Sérgio Miceli, traço algumas pinceladas. O livro faz uma análise mais sociológica do que artística. A tese de Miceli é a de que o retrato brasileiro é uma espécie de coluna social feita a óleo; defende que o retrato é sempre uma “imagem negociada” e que funciona como arma de marketing pessoal.

Ao tirar essa máscara, pergunto, será que não encontramos arte verdadeira nesses retratos pintados? Por exemplo, o retrato da Mona Lisa é sinônimo de arte.

Antigamente os pintores tinham a pretensão de fazer arte quando produziam retratos, mas nem sempre o retrato foi feito de forma adulatória. Mário Quintana mostra: “Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: - a cor do tempo...”

Mário de Andrade, por exemplo, foi retratado por divas como Anita Mafaltti e Tarsila do Amaral e, no caso, em troca de notas jornalísticas avalizando os dotes artísticos das retratistas; mas cada pintora colocou na tela o Mário que desejou, sem perder sua criatividade, porque, mesmo assim, seus trabalhos são considerados como arte. Tanto a arte de pintar, quanto a arte de escrever de Mário de Andrade .

Até o grande Portinari pintou Getúlio Vargas, nos anos 30, e seu modelo foi uma fotografia, o que também pode ser chamado de arte. E qualquer traço vindo do mestre Portinari é e sempre será arte.

Também nos anos 30, Flávio de Carvalho fez bons retratos e conseguiu impor sua marca expressionista; reconhecida e valorizada até hoje. Sem contar que muito do que se produziu na pintura, até o final do século passado, foi composto por retratos.

Atualmente o retrato é desprezado e é tão caro que talvez não sejam feitos mais, porém, será sempre considerada obra de arte.

O retrato teve o seu papel no passado, de funcionar como coluna social, de ser feito apenas pela elite e de retratar, como vejo hoje, as pessoas com quem os pintores se relacionavam.

Enfim, mesmo o retrato sendo negociado, não perde o seu valor artístico. Expressar, pintar, pincelar, captar as linhas, demonstra criatividade: quem sabe olhar o real geometricamente retrata para sempre. Pedro Du Bois conduz em palavras poéticas:

“Imagens / figuras traduzidas / iconográficos / retratos inacabados /

ao abrirem as luzes // a modelo / nua / se adianta à roupa / não contida

na pintura // o retrato guarda / a instantânea forma / de se dizer eterno /

de se dizer duradouro / de se permitir esmaecer / na sobriedade da pose”.
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