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sábado, 2 de outubro de 2010

A Literatura Cearense: Dos Oiteiros ao Grupo Clã (Sânzio de Azevedo)


(O Grupo Clã)

 

Em torno do governador Manoel Inácio de Sampaio, por volta de 1813 a 1817, reuniam-se poetas que formavam os Oiteiros. A estética desse tempo era o Neoclassicismo, ou Arcadismo, e entre esses versejadores estavam Pacheco Espinosa, Costa Barros, Castro e Silva, e outros. Pelo fato de se terem guardado apenas textos de louvor ao governante (afinal, eram manuscritos que estavam no Palácio), Silvio Júlio, em Terra e povo do Ceará (1936), disse horrores desses poetas. Mas Dolor Barreira, principalmente em sua História da literatura cearense (1948), compreendeu que, bem ou mal, os versos dos Oiteiros representavam o alvorecer das letras em nossa Província.

Depois de um período um tanto incaracterístico, no que toca a estilos literários, veio Juvenal Galeno, em 1856, com os Préludios poéticos, ainda fracos, mas já românticos e com motivos do povo, o que viria com mais força em seu livro principal, Lendas e canções populares (1865), aparecido no mesmo ano em que, no Rio de Janeiro, José de Alencar publicava Iracema.

O Ultra-Romantismo (ou Bayronismo) teve, na década de 1870, suas vozes maiores com Joaquim de Sousa, que espalhava seus versos no Jornal da Mocidade (1876), e Barbosa de Freitas, cujos poemas musicados e cantados em serenatas, sendo populares por muitos anos.

Em 1873, surgiu um grêmio que era mais filosófico do que literário, batizado por um de seus membros, por gracejo, Academia Francesa. Erguia a bandeira do Positivismo, e contava com nomes de peso, como Rocha Lima, Tomás Pompeu, Capistrano de Abreu, João Lopes e outros. Combatiam o Romantismo, apesar de um deles, Araripe Junior (que haveria de ser um dos grandes críticos realistas), escrever romances na escola de Alencar como, entre outros, O Ninho do beija-flor (1874). Como não tinham órgão na imprensam alguns de seus componentes escreviam no jornal maçom Fraternidade.

Nesse meio tempo, desponta o Cordeirismo nos versos inflamados dos chamados poetas da Abolição: Antônio Bezerra, Antônio Martins e Justiniano de Serpa, autores do livro Três Liras (1883).

O citado João Lopes funda o Clube Literário (1886), que congrega românticos, como esses poetas dos quais falamos, e mais Juvenal Galeno, Virgílio Brígido, Francisca Clotilde, Martinho Rodrigues, José Carlos Júnior e outros. Mas o Realismo começa a surgir a revista de grêmio, A Quinzena (1887 – 1888), nos contos de Oliveira Paiva, nas narrativas cientifica de Rodolfo Teófilo e nas pregações críticas de Abel Garcia. Há páginas do historiador Paulino Nogueira e do filósofo Farias Brito.

Por sinal, depois do romance realista A Afilhada, de Oliveira Paiva, em folhetins do jornal Libertador, em 1889, o primeiro romance editado em volume dentro da estética naturalista é A Fome (1890), de Rodolfo Teófilo, que lançará outras obras dentro da mesma corrente, como Os Brilhantes (1895), etc.

Antônio Sales, que vinha do Clube Literário, publica, em 1890, seu primeiro livro de poesia, Versos diversos, misturando sentimento romântico, construção algo neoclássica e leves prenúncios parnasianos. Frequenta o Café Java, na Praça do Ferreira e juntamente com a meia dúzia de amigos, idealiza a mais original de todas as agremiações culturais do Ceará.

É a Padaria Espiritual, fundada em 1892 e que existirá até 1898. Sales redige seu Programa de Instalação, cheio de humor e novidade, que explode como uma bomba e repercute até no Rio de Janeiro. Segundo esse programa, os sócios do grêmio eram “padeiros”; o presidente “Primeiro-forneiro”; as sessões “fornadas”, realizadas, naturalmente, no “Forno”. Por sua vez periódico do grupo só poderia ser O Pão.

Todos usam um pseudônimo, ou melhor, um “nome de guerra”. Diferente de tudo mais, não era uma associação somente literária, mas “de rapazes de Letras e Artes”: além de poetas como Antônio Sales (Moacir Jurema) e Sabino Batista (Sátiro Alegrete), tinha ficcionistas como Adolfo Caminha (Félix Guanabarino) e, mais tarde, Artur Teófilo (Lopo de Mendoza); agregava músicos, como os irmãos Henrique Jorge (Sarasate Mirim) e Carlos Vítor (Alcino Bandolim), e um pintor, Luís Sá (Corrégio Del Sarto). Havia um sócio, que não sendo escritor, nem músico, nem pintor, era valente, servindo de guarda-costas para os companheiros: era Joaquim Vitoriano (Paulo Kandaslaskaia)...

Houve duas fases, sendo a segunda 1894 até à extinção do grêmio. Foram Padeiros-mores Antônio Sales (inteiramente, em 1892 e em 1894); Jovino Guedes (Venceslau Tupiniquim), na primeira fase; José Carlos Júnior (Bruno Jacy), de 1894 a 1896, e Rodolfo Teófilo (Marcos Serrano), de 1896 a 1898, portanto, na segunda fase. O Pão teve seis números em 1892, e vinte e quatro em 1895 e seis em 1896.

A primeira fase era cheia de espírito, timbrando pela pilhéria, época em que, da sacada de um prédio, um “padeiro” fazia discursos, com barbas postiças; nos piqueniques, carregava-se um pão de três metros, etc. Mas houve a publicação de um livro. Na segunda fase, as brincadeiras diminuíram, mas não desapareceram, como já se afirmou. E os outros dês livros dos “padeiros” são desse tempo. Quanto à estética da “Padaria”, misturando-se as duas fases, podemos dizer que havia românticos: Sabino Batista, Antônio de Castro (Aurélio Sanhaçu), Álvaro Martins (Policarpo Estouro), Temístocles Machado (Túlio Guanabara) e outros; realistas como os citados Adolfo Caminha (que publicaria no Rio de Janeiro A Normalista, em 1893), Rodolfo Teófilo e Artur Teófilo, além de X. de Castro (Bento Pesqueiro), este nos seus Cromos (1895). Um pouco fora de uma classificação rígida ficariam os ficcionistas José de Carvalho (Cariri Baraúna) e Eduardo Sabóia (Brás Tubiba). Alguns se encaminhavam para o parnasianismo como Antônio Sales.

Mas foi na Padaria Espiritual que surgiu o Simbolismo cearense, bebido em obras de Portugal, da qual são frutos os Phantos (1893) de Lopes de Filho e Dolentes (1897), de Lívio Barreto, este último livro póstumo. Nosso Simbolismo, com influência de Antônio Nobre, foi contemporâneo (e independente) da escola do Sul do País, como defendemos em nossa tese A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará (1983).

Em 1894, dois “padeiros”, Temístocles Machado e Álvaro Martins, romperam com o grêmio e ajudaram a criar o Centro Literário, que se extinguira em 1904. Esse grupo, que teve como órgão na imprensa a Iracema, não atingiu a originalidade do anterior, mas reuniu um número de sócios bem maior, seguindo também estilos diferentes. Para citar apenas alguns nomes, destacamos Pápi Júnior, Viana de Carvalho, Bonfim Sobrinho, Quintino Cunha, Frota Pessoa, o Barão de Studart, Rodrigues Carvalho, Soares Bulcão, F. Wayne, Martinho Rodrigues, Alba Valdez, Eurico Facó, Júlio Olímpio e José Albano, que versejava à maneira quinhentista em pleno século XX, o que não o impediu de ser admirado por Manuel Bandeira.

Mais de um autor, no passado ou no presente, já considerou o Centro Literário uma espécie de rival da Padaria Espiritual, e para isso certamente contribuiu o fato de Temístocles Machado e Álvaro Martins haverem sido excluídos do grêmio de Antônio Sales logo depois da fundação de novo grupo. Entretanto, basta percorrer os jornais da época ou as transições feitas por Dolor Barreira em sua História da literatura cearense para constatar que os sócios de uma associação iam às festas da outra. Mais do que isso: alguns “padeiros” fizeram parte do Centro Literário e nem por isso foram expulsos, como é o caso de Jovino Guedes, Ulisses Bezerra, que já pertencem á segunda fase da Padaria Espiritual.

Ainda no ano de 1894, funda-se a Academia Cearense de Letras, com 27 intelectuais: Barão de Studart, Justiniano de Serpa, Farias Brito, Drummond da Costa, José Fontenele, Álvaro de Alencar, Benedito Sidou, Franco Rabelo, Antônio Augusto de Vasconcelos, Pedro de Queirós, Virgílio de Morais, José Barcelos, Antônio Bezerra, Eduardo Studart, Adolfo Luna Freire, Eduardo Salgado, Alcântara Bilhar, Antônio Fontenele, Antônio Teodorico da Costa, Padre Valdevino Nogueira e Henrique Thébergue.

Somente a partir da reorganização de 1922, a entidade passa a se denominar Academia Cearense de Letras e a ter 40 Cadeiras, com seus respectivos Patronos. Houve outras reorganizações, em 1930 e em 1951, e a Academia continua ativa, publicando sua revista.

Seguindo o ritmo natural das escolas literárias, o Parnasianismo chegou ao Ceará nos primeiros anos do século XX, sendo, portanto, aqui (e somente aqui), posterior ao Simbolismo em relação ao restante do Brasil.

Ao longo dos tempos, versejaram nesse estilo Antônio Sales, que havia considerado parnasianismo nos tempos da Padaria Espiritual, mas que aprenderia a verdadeira dicção da corrente em contacto com os mestres da escola, no Rio de Janeiro; Alf. Castro, nascido em Pernambuco, mas, radicado aqui, foi um seguidor fiel da ortodoxia da corrente, a partir de suas tradições de Heredia; Cruz Filho, que estréia em livro aos quarenta anos de idade, com os Poemas dos belos dias (1924), ele que já publicava sonetos trabalhados por volta de 1906; Júlio Maciel, o mestre de Terra mártir (1918); Carlos Gondim, o dos Poemas do Cárcere (1923), mais Antônio Furtado, Irineu Filho e Mário Linhares, nomes aos quais podemos acrescentar os de Otacílio de Azevedo e Carlyle Martins.

Contemporâneo dos parnasianos, mas com a dicção ainda algo romântica é o Padre Antônio Tomás, cujos sonetos transpuseram fronteiras.

Pronunciando novos tempos, naquela fase que se convencionou chamar Pré-Modernismo (seria melhor chamá-la de Sincretismo, como sugeria Tasso da Silveira) destaca-se a polimetria e até os versos livres de Mário da Silveira, cujo livro, Coroa de rosas e espinhos, seria publicado postumamente, em 1922.

Em 1925, esteve em Fortaleza o poeta paulista Guilherme de Almeida, em pregação modernista, a convite de Gilberto Câmera.

Mas é de 1927, o livro inaugural do Modernismo cearense, O Canto novo da raça, de nada menos que quatro poetas: Jáder de Carvalho, Franklin Nascimento, Sidney Neto e Mozart Firmeza (Pereira Júnior).

Dedicado a Ronald de Carvalho (e não a Guilherme de Almeida), esse livro, mais horizontal que vertical, sem numeração nas suas quarenta páginas, inaugura efetivamente a nova escola entre nós, mas nem todos os poemas que ele enfeixa trazem o mesmo tom: Jader de Carvalho e Franklin de Nascimento são radicalmente novos, apesar de, no primeiro, haver ainda umas maiúsculas que lembram o Simbolismo. Sidney Neto não compromete a escola, mas seu estilo, em versos de forte conotação patriótica, é mais enfático do que seria de se esperar. Mozart Firmeza, à maneira do Ribeiro Couto dos primeiros tempos, está mais para penumbrista, com seus versus em surdina. Seja como for, O Canto novo da raça é o primeiro livro do nosso Modernismo o qual, surgindo em 1927, foi anterior ao de vários estados do Norte e do Nordeste.

Demócrito Rocha funda, O Povo, em 1928 e o Modernismo se expande com ele (Demócrito se assinava Antônio Garrido), Filgueiras Lima, Edgard de Alencar, Heitor Marçal, Rachel de Queiroz, Martins d’Alvarez, os quatro autores do livro inaugural e mais Silveira Filho e Suzana de Alencar Guimarães, notadamente no suplemento Maracujá, de 1929, do qual saíram dois números. Esses escritores na mesma época apareciam na Revista Antropofagia, de São Paulo.

O que nem todos sabem é que Rachel de Queiros escrevia mais poesia do que prosa, tendo sido anunciado um livro seu de poemas, Mandacaru, nunca publicado.

Em 1931, sai o único número de Cipó de fogo, folha independente na qual escreviam João Jacques (irmão de Sarasate), Beni Carvalho e os mesmos de Maracujá.

Dois livros do Modernismo cearense, o de maior repercussão foi sem dúvida O Quinze (1930), de Raquel de Queiroz.

Após um hiato em que uns continuavam com o ímpeto revolucionário, e outro pendiam ora para o Parnaso, ora para o Símbolo, surgiu, nos anos de 1940, o Grupo Clã. Apesar de se haverem iniciado em 1943 as Edições Clã, a nosso ver o Grupo vai adquirir maior coesão em 1946, com o número zero da revista Clã, e quatro importantes livros: Noite Feliz, de Franz Martins; Face iluminada, de Eduardo Campos; Roteiro de Eça de Queirós, de Stênio Lopes, e um livro de quatro poetas: Os Hóspedes, de Aluízio Medeiros, Antônio Girão Barroso, Otacílio Colares e Artur Eduardo Benevides.

Talvez com algum exagero, possamos dizer que esse grupo existia tão espontaneamente que nem seus componentes tomavam conhecimento disso. Pode se depreender isso com a literatura do livro Falam os intelectuais do Ceará (1946), de Abdias Lima. Nele, o autor entrevistou, de março de 1944 a fevereiro de 1945, vários escritores, entre os quais quatro de Clã, e onde não se encontra a menor referência ao grupo.

Acrescentam-se aos nomes citados os de Antônio Martins Filho, Braga Montenegro, João Clímaco Bezerra, Joaquim Alves, Lúcia Fernandes Martins, Milton Dias, Moreira Campos e Mozart Soriano Adrealdo. Bem posteriormente entrariam no grupo Cláudio Martins, Milton Dias, Durval Aires e Pedro Paulo Montenegro.

Além do número zero, foram publicados de 1948 a 1988, vinte e nove números da revista Clã.

Já tivemos oportunidade de afirmar, em Literatura Cearense (1976), que o Grupo Clã veio trazer, como contribuição mais importante às nossas letras, a definitiva implantação do Modernismo no Ceará, numa época em essa corrente já não precisava dos rasgos iconoclastas de outros tempos.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A mulher e o peregrino (Emanuel Medeiros Vieira)



Apenas peregrino/pulsante,
“é vermelha, cor do sangue” – ela diz,
jogando a calcinha no tapete,
contemplo o matagal
sal da vida
úmido
pêlos encrespados,
teus gemidos cortam a tarde, como um túnel,
meu dedo em romaria no teu útero
matriz de tudo
“mater” minha
cachorro late ao longe, ronco de um caminhão,
o tempo zomba de nós,
lambes – lúbrica – a língua,
viva!, a Portuguesa, e esta que me arrepia agora.
Bússola afetiva: decifro (?) o mapa do teu corpo
(vacina de infância),
minha sina, minha mina,
estupidamente comovido,
cumpro a jornada – esta vida.




quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Le horla (Guy de Maupassant)

(Nota do editor deste blog:
Publiquei ontem a versão portuguesa do famoso conto de Guy de Maupassant. No entanto, há quem prefira ler no original. Remeto, pois, os leitores ao seguinte endereço: Textos de Maupassant Seguem abaixo as primeiras páginas de "Le Horla", como amostra.

                                                              

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Horla (Guy de Maupassant)


8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ivone C. Benedetti entrevista Chico Lopes

Ivone C. Benedetti é tradutora e escritora. Formada em Letras pela USP, doutorou-se em Literatura Francesa, defendendo tese sobre Charles d’Orléans e a tradução de sua poética. Como tradutora, atua há mais de vinte anos, tendo trabalhado para várias editoras. Entre outros autores, traduziu Barthes, Montaigne, Voltaire, Ricoeur, Merleau-Ponty, Althusser, Balzac, Simenon. Organizou e coordenou o Dicionário de Italiano Martins Fontes (WMF Martins Fontes). É autora de A Arte da conjugação dos verbos em português (WMF Martins Fontes) e co-autora de Conversas com tradutores (Parábola). Recentemente, publicou seu primeiro romance, Immaculada, pela WMF Martins Fontes.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Poemas de Carmen Silvia Presotto

(Quadro de Chico Lopes)


De mim


algo não pode falar




uma cegueira


um coágulo




cavalos entre retinas


retalham os sonhos




de mim,


hoje não posso escrever


tropeço em pesadelos




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Velha de mim


cansada de atos


cansada de fatos


de fato cansada




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saio à rua


troco paisagens


rebusco abraços


sem mim


lotada de outros


escrevo
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domingo, 26 de setembro de 2010

Por que filosofar? (Relendo os estóicos)

(Sêneca desenhado por Peter Paul Rubens)

Emanuel Medeiros Vieira

Por que filosofar? Porque a filosofia – além do conhecimento – pode nos ajudar a viver. Vejam os filósofos estóicos. Eles nos ensinam a lidar com as perdas e as vicissitudes da vida. E a passagem do tempo. Insisto: filosofar é fundamental. Na reforma de ensino, retiraram a filosofia da grade curricular; Tiraram uma oportunidade rara para o brasileiro pensar. Quem tem menos de 60 anos, em nosso país, nunca estudou a matéria. Não estou pedindo para que viremos especialistas, mas que aproveitemos melhor nossa passagem na terra. Nos últimos 200 anos, a despeito de todo o sofrimento, o mundo ocidental viveu sob o domínio de uma crença no progresso, baseada em realizações científicas e empresariais extraordinárias. Tivemos guerras sem fim, o holocausto, sofrimentos, golpes de Estado, exploração e desrespeito constante ao homem cometido pelo próprio homem. No Ocidente, as lições sobre o pessimismo derivam basicamente de duas fontes: os filósofos estóicos romanos e o cristianismo. “Talvez seja a hora de revisitar esses ensinamentos para aliviar nossos pesares”, ensina Alain de Botton. Hoje, vamos meditar sobre a obra de um pensador estóico. Sêneca (I a.C. – 65 d.C) seria um filósofo perfeito para o nosso momento histórico. Vivendo numa época de tremenda inquietação política (Nero ocupava o trono imperial), Sêneca interpretava a filosofia como uma disciplina que servia para nos manter calmos diante de um panorama de constante perigo. Sêneca lembrava no 62 que desastres naturais ou de causa humana serão sempre parte de nossas vidas, por mais sofisticados e seguros que acreditemos nos termos tornado. O filósofo escreve que “não existe nada que a fortuna não ouse”, mas lembra que devemos ter em mente o tempo todo a possibilidade dos mais devastadores eventos. Recordemos só alguns episódios: tivemos duas guerras mundiais. Basta lembrar o sofrimento que elas causaram. Sêneca diz mais: “Nada nos devia ser inesperado. O que é o homem? Um vaso que ao menor impacto, pode quebrar.”

sábado, 25 de setembro de 2010

Três minicontos de Leonardo Brasiliense

Em nome do show


Na parede da cela treze, a grande fotografia da famosa atriz da pornochanchada surpreende as novas detentas. As outras vão logo explicando que ali ninguém é fã, ela está é presa. Isto mesmo, fotografia presa, por assassinato. Esqueceu de se limpar e foi denunciada pelo sangue da vítima. Teve direito a se defender, julgamento justo, mas consentiu com o silêncio à reconstituição sugerida pelo promotor: o retrato, na sua áurea juventude, não suportou a flácida atualização da atriz que insistia em acompanhar o tempo, saiu da parede e deu um tiro na cabeça da velha. “Pecou por ignorância”, concluiu o promotor, “é compreensível o seu medo, porém, todos sabemos, fotografia não envelhece... no máximo pega mofo”.

A mãe do Silvinho

Ela disse que o meu amiguinho não estava em casa mas me mandou entrar. Disse que gostava de mim porque eu era comportadinho e que ela queria conversar comigo um pouquinho. Me levou para o quarto e disse vem, senta aqui no meu colinho...
Me deu um tapão na cabeça porque a chamei de tia.

Gente complicada devia ficar em casa

Dá um troco, tia. Você pensa que eu não sei que é pra tua mãe comprar cachaça? Não é pra ela não, é pra mim mesmo. Você não tem vergonha, pedir um troco pro leite e depois comprar cachaça? Mas eu não falei em leite, eu só disse dá um troco, tia. É pra você mesmo? É. E pra que é? Pra comprar leite. Toma.

(Outros minicontos de Leonardo Brasiliense em www.leonardobrasiliense.com.br)
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Três poemas de Pedro Du Bois

(Quadro de Chico Lopes)

ADEUSES


De todos os adeuses somos testemunhas
peregrinos de escuras vistas dos desencontros
entre as dunas e nas fechadas florestas petrificadas
dos sinais compreensíveis de abrir e fechar


vamos embora em cada tempo: têmpora cinzenta
o corpo dói a despedida na dor da ausência


nos reencontros na frustração avistamos
e reconhecemos não nos interessa o passo


o atraso bem vinda forma de desencantos
na urdidura de novas despedidas: somos
agora os que foram embora e ainda não é noite


nos adeuses voltamos sobre nossos passados
encobertas memórias: estreitas ruas
sem passagens e olhos postos sobre os idos
tempos. Acenamos sem voltar o rosto.




MEDOS

Trago o medo irrecorrível da infância
e o efêmero como no começo
dos escuros e dos barulhos não identificados
aos silêncios e claridades dos tempos tardios

trouxe na lembrança o início e a multiplicação
no crescimento das imagens irrefletidas
sobre realidade gongóricas da sobrevivência

retiro do medo sua essência: eu mesmo,
e o deixo derramado - esparramado -
nas instâncias cedidas uma a uma
como tormentos e sofrimentos cultivados

realizo medos atávicos adquiridos
e os escuros nichos demonstram o sacrifício
de conviver o claro o silêncio e a brandura
imaculada dos esquecimentos diários.

ÉPOCAS


Desdobrada vida: introduzida
época de conquista: medos
e persas em desabalada fuga
– o egípcio olha
com desdém e desgosto –
dos hinos e cânticos
escondidos em escuras roupas
e promessas não alcançadas:
ao credo fé e enlace
entre a história e os vencedores
das batalhas em corpos mutilados
e destroços céticos: em nada
acreditaram os deuses desde o exílio
houvesse a volta e o planeta
– mágica e mistério – tomasse
outro rumo alterasse o prumo e o eixo
endireitasse: o fogo e as trevas
em desdobramentos
de inépcias conhecidas.

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pontos na paisagem (Caio Porfírio Carneiro)


Respirando o ar quente, suado, extenuado, sacola pendurada nos dedos, com a outra mão procurava livrar-se da poeira que lhe entrava na roupa, nos olhos, nos poros. E o estirão se alongando. Viu o casebre com pequeno alpendre, arriado, cochilante. Aproximou-se, bateu na porta e arriou-se no banco tosco, no alpendre. Sacola ao lado, abanou-se, desabotoou-se, estirou as pernas, quase cochila. Ali ficou, entregue.

Suspirou fundo, levantou-se, olhou demoradamente o estirão em todas as direções. Só vento, poeira e a árvore desgalhada ao lado do casebre. Bateu forte na porta e ela se abriu. O pote, não muito distante, caneca ao lado. Bebeu a água salobra até se fartar. Olhou em volta. Alguns tamboretes. Nenhum armário, louça ou mesa. Uma rede entrouxada, pendente do armador.

Balançou a cabeça:

– De quem será isto?

Olhou longamente, através da janela, o estirão e a poeira fina navegando no silvar do vento. Fugindo de tudo e com saudades dela armou a rede puída. Deitou-se, suspirou fundo:

– Depois da desgraça feita qualquer lugar serve.

Levantou-se e jogou sobre um dos tamboretes os sapatos de solas gastas, o resto de meias, e, quase despido, estirou-se melhor e coçou o corpo todo.

Adormeceu.

Acordou com os solavancos no punho da rede. Abriu os olhos, estremunhado e perplexo:

– Você veio?

Ela, ali em pé, rota, esquálida e muda.

– Como me encontrou?

– Segui seu rumo.

– Ah.

– De quem é esta casa?

– Não sei.

– Por que você fez aquilo?

– Precisava.

– Que horror.

Apenas fechou os olhos. Ela tossiu:

– Posso me deitar um pouco com você? Estou morta.

Ele lhe deu espaço na rede e ela, pequena trouxa no chão e o vestido uma nuvem de pó, acomodou-se ao seu lado.

Apertou a mão dela:

– Durma um pouco.

– Não vou conseguir.

Nada respondeu e ouviam apenas o silvar do vento lá fora. Silvava, silvava, silvava...

Acordaram com a claridade da manhã entrando pelas frinchas da porta e da janela. Ele esfregou os olhos:

– Não apareceu ninguém.

– Vai ficar aqui?

– Vou continuar.

– Não quer voltar?

– Nunca.

– Que horror.

– Esqueça.

– Estou com sede. Tenho pão.

– Ali há um pote e uma caneca.

Ela levantou-se. Voltou ajeitando o vestido. Deu-lhe um pedaço do pão:

– Não trouxe nada?

– Só umas coisas na sacola.

– E eu esta trouxa. E uns pedaços de pão.

Beberam quase todo o resto da água. Ajeitaram-se e saíram para o tempo. Envolveram-se no descampado. Ele sopesou a mochila, ela ajeitou a trouxa no braço.

– Por que você veio?

Ela voltou a ajeitar a trouxa:

– Não sei.

Olhou-a nos olhos:

– Vamos?

– Para onde?

– O fim do mundo não deve estar tão longe assim...

Saíram caminhando lentamente.

Dois pontos que se foram perdendo na paisagem, sibilante de vento e de poeira navegante.


São Paulo, 14/02/2010 – às 08:00 hs.
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Poema de Silmar Bohrer




São dourados os caminhos


que hei tido percorrido,


impregnados pela libido


dos meus sagrados versinhos.




(20/9/10)
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Beleza tirana (Manuel Soares Bulcão Neto)

(O fumante de cachimbo, de Paul Cézanne)

Uma das coisas de que mais me orgulho foi ter influenciado a decisão da minha filha de jamais pôr cigarro e gota de álcool na boca (até o antisséptico bucal que ela usa não contém etanol). Não, não sou abstêmio e antitabagista, muito pelo contrário. Sua escolha, ela a tomou em razão do meu pigarro atroz e do meu ronco domingueiro de capotado, cacofonias que atrapalhavam seu soninho de princesa. Ah! Outras atitudes minhas também foram determinantes em sua sábia resolução de se formar em Medicina… e se especializar em Psiquiatria. (Conforta-me moralmente saber que estou desempenhando bem minha função paterna: dar exemplos. Aqueles que não devem ser seguidos, eu aviso e, com a linguagem do meu corpo desmazelado, demonstro o porquê.)

Microficções

O Selo 3x4 microficções estreou em março deste ano com o livro Prometo ser breve, do escritor paulista Wilson Gorj. De lá para cá, já publicou mais três livros de micronarrativas: Estranhos muito íntimos, do mineiro Márcio Almeida, Nem mesmo os passarinhos tristes, Mayrant Gallo (Bahia) e, em agosto, o livro Bonsais Atômicos, de Denison Mendes (RS). A quinta publicação veio a público no último sábado, dia 18, com um autor também na Bahia. Trata-se do livro A segunda sombra (minicontos), do escritor Carlos Barbosa, que já publicou os romances A dama do Velho Chico e Beira de rio, Correnteza, ambos pela Bom Texto Editora.
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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre filhos e escolhas (Simone Pessoa)

A mulher chorava porque já havia tentado tudo e não conseguia avanço no direcionamento do filho. Ele não se dedicava aos estudos, nem arranjava trabalho. Embora um tanto boêmio, não fazia arruaças nem usava drogas. Era um garoto bom e gentil. Seu maior pecado: ser bon vivant e não ter convicções quanto ao futuro. Afora isso, era honesto, sociável, conquistava amizades e gostava de ajudar as pessoas.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Os hóspedes emaranhados de Chico Lopes

Nilto Maciel

Há quase um mês o carteiro me entregou um pacote vindo de Poços de Caldas, Minas Gerais. Só podia ser o novo livro de Chico Lopes, porque não conheço outra pessoa naquela cidade. Além disso, eu aguardava a chegada desses Hóspedes do vento, anunciada várias vezes por carta. Aberto o pacote, li a oferenda: “Nilto: Parte deste livro você conhece, mas creio que vale conhecer os contos inéditos. Abrações. Chico Lopes. Agosto 2010”.

domingo, 19 de setembro de 2010

Poema de Nuno Gonçalves e seu blog

Do poeta Nuno Gonçalves


poemas como este:




UMA ASPIRAÇÃO AO INFINITO




de um quadro De Chirico


escapa uma colagem Ernst


que num vôo insuspeito


atravessa a américa até o ponto exato


onde o vômito de Artaud


mareado pelo peyote


transcende o espírito sectário


revelado no último gesto da vanguarda


na música escandalosa da explosão das torres gêmeas


por detrás de um óculos de aros negros


saltam quarenta ladrões desesperados


e com todo erotismo possível a uma língua


acusam Breton, o Terrível


um ali babá entre tantos outros


um sai baba de muletas & parangolés


à direita de tudo


faísca um instantȃneo da intelligentzia


No salão nobre da casa branca


sorri um artista que não é árabe


assistindo ao vivo na televisa


a impiedosa execução de seu último poema concreto:
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Alaor Barbosa na Academia de Letras do Brasil

DISCURSO DE DANILO GOMES, RECEBENDO ALAOR BARBOSA NA ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL, EM BRASÍLIA, EM 9-9-2010.


Sr. Presidente da Academia de Letras do Brasil e da Associação Nacional de Escritores-ANE, Ministro Fontes de Alencar; escritor Eurico Barbosa, da Academia Goiana de Letras; poeta Anderson Braga Horta, representando a Academia Brasiliense de Letras.

Senhores acadêmicos, senhoras e senhores familiares, amigos e admiradores do escritor Alaor Barbosa, em especial sua esposa, filhos e irmãos.

sábado, 18 de setembro de 2010

Pele e osso: Carta ao Brasil (Tânia Du Bois)

“I

Te escrevo Brasil / com o osso / mais velho / que te sustentou.

II

Te escrevo / no olho da luz / antes da primeira / fome / com a fome / de tua boca...

VI

Te escrevo / com o berro / de qualquer coisa / com o coice / que devastou no ar /

perseguição da palavra / para tamanha / falta de vida

VIII

Te escrevo / com o couro / aninhado / na balas / com a bala / fugida / da ignorância /

com o estouro / dos miolos

IX

Te escrevo / com o sol / esvaziado sobre os ossos / com a corda / do soluço

XIV

Te escrevo / porque somos / tua própria / geografia

XV

Te escrevo / porque ardemos / nas veias / de tua / indecisão

XVI

Te escrevo / porque / já não és / um gemido / de mundo / mas o próprio / mundo /

a apalpar-se / em nós."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Estado Novo no Brasil e em Portugal (Adelto Gonçalves*)

I

Tanto no Brasil como em Portugal a República reinstalou a instabilidade política, depois de uma fase sem golpes, quarteladas e outras formas de manifestação política fora dos meios institucionais. Nos dois lados do Atlântico, caminhou-se em direção a sistemas ditatoriais, ambos denominados da mesma forma: Estado Novo. As semelhanças, porém, param por aí, como mostra o professor Leonardo Prota, doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF), do Rio de Janeiro, e diretor-executivo do Instituto de Humanidades, de Londrina-PR, em seu ensaio “Estado Novo no Brasil e em Portugal – características distintivas no processo de constituição”, apresentado durante o VIII Colóquio Antero de Quental, cujas atas foram reunidas na revista Estudos Filosóficos, do Departamento das Filosofias e Métodos da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ)-MG, nº 3, julho/dezembro 2009.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sim, é o céu, Joyce (Nilto Maciel)

(The Garden of Eden (1828), de Thomas Cole)



Achava-me a ler uma crônica de Francisco Miguel de Moura, para minha pupila Violeta Feitosa, que me visita uma vez por semana, pelo menos, quando me chamaram ao portão de casa. Ninguém grita meu nome no meio da rua, a não ser o carteiro Evaristo. Pedi licença à estudante e corri, aos tropeços – que ando a cambalear, sobretudo quando imerso na beleza –, para atender o chamado do condutor de malas postais.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Manhã de domingo (Silmar Bohrer)




Anda um pica-pau tinhoso


picando ali na madeira,


e o meu "bosco", receoso,


"vais derrubar a perobeira !"
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

A respeito de "Jogo de palavras de Joaquim Branco"

Emanuel Medeiros Vieira

Muito tocante a tua crônica, Nilto. Extremamente lírica. Mais velhos, parecemos, como dizer?, mais enternecidos, mais compreensivos com o mistério da vida e do mundo. Não? Antônio Cândido falava da simpatia humana do homem desencantado. A situação que transfiguras (um momento da vida) -, pegar um envelope, a moça linda, aquela velha e boa lubricidade contida, que não pode nos largar, a homenagem ao Joaquim, Branco. Falo isso desde os 20 anos: mas ainda me dói o esquecimento pela maioria de tanta gente boa, tanta gente esquecida. Mas toquemos. Parece que estás mais solto, mais lúdico, mais terno. Eu também não sou mais o "fundamentalista ideológico", irado, como um pároco... Na outra encarnação, devo ter sido pregador... Agora, "toco" a vida. No fundo, penso muito no tempo, e sou um velho existencialista... Perdoa o psicologismo deste pobre homem do Desterro... Parabéns! Abração do Emanuel (Medeiros Vieira)
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Hóspedes do vento, de Chico Lopes

(Publicado originalmente em “Monte de leituras”, blog MONTE DE LEITURAS do Alfredo Monte, )

Jorge Luis Borges afirmava que Henry James era um “habitante resignado do Inferno”. Ao longo das coletâneas Nó de Sombras (2000) e Dobras da Noite (2004), Chico Lopes—não por acaso tradutor e admirador do autor de A Volta do Parafuso—delineou muito claramente o “Inferno” específico por onde se movem seus personagens. Em termos espaciais, ele poderia ser circunscrito pela seguinte passagem, que consta do seu terceiro livro, Hóspedes do Vento, lançado este ano (pela Nankin):

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Linguajar (Pedro Du Bois)

Construo a linguagem apropriada:

ao verbo movimento peças impensadas


comunico ao próximo a desestruturação

da diversidade: respeito as diferenças


avento ao tempo o substantivo

necessário à nominação

do espaço: reajo ao silêncio.

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domingo, 12 de setembro de 2010

Jogo de palavras de Joaquim Branco (Nilto Maciel)


Os jornais falavam das Torres Gêmeas, atentados terroristas, muçulmanos, vinganças cristãs. Joguei-os todos ao lixo, para me maravilhar com o maravilhoso da vida. Conversávamos em minha casa, ao som de Sibelius, bem baixinho, eu e a belíssima Violeta Feitosa, estudante de Letras, quando o carteiro me chamou da calçada. Todo dia ele grita meu nome, para espanto das vizinhas que olham a rua como espiãs, por trás das cortinas, das venezianas, das brechas das portas. Querem saber por que um velho escritor está sempre a receber visitas de mulheres vindas de muito longe, talvez das estrelas.

Amor filial (Mariel Reis)

era meu irmão. eu não queria matá-lo. não foi minha culpa. minha mãe é doente como o doutor pode ver, não bate bem. o juízo fraco. engravidou de nós dois, meu irmão deve ter tido menos sorte. herdou o miolo mole da velha. a minha vida era cuidar dos dois. tropecei algumas vezes, ninguém é de ferro. com a vida dura dei para puxar fumo, na esquina, com a rapaziada e descuidei. os canas me deixaram na geladeira como viciado um bocado de tempo. minha mãe sem notícias. meu irmão correndo nu pela rua. cagado e mijado. sem ninguém para cuidar. isso dói, não é mesmo, doutor? saí da cana dura, prometi me emendar. arrumei emprego em um boteco que servia pratos feitos, perto de casa. o dono era conhecido da minha mãe, foi fácil, me conhecia desde criancinha. os policiais não me perturbavam. tudo estava correndo calmamente, sem alteração. quando tudo está assim muito parado, é aí que se agita o inferno, rezava a minha coroa, com o juízo desanuviado. meu irmão, somos gêmeos, univitelinos, cara de um focinho de outro, também numa ótima. um dia ele me perguntou: comeram teu rabo lá na cadeia? como é que é? perguntei se comeram teu rabo? que porra de pergunta é essa? pode me dizer a verdade, não conto a ninguém. doutor, juro, eu estudei um pouco, terminei o científico, mas a vontade de dar uma porrada no meu irmão foi grande. pensei o filho da puta tem problema. aí o negócio piorou, meteu na cabeça de me sacanear. como a gente é xerox, foi no boteco dar pinta de veado. no ponto onde eu fumava a minha perna de grilo com a rapazeada, passou a mão em um e outro. tomou porrada. mas, como me disse depois – era você apanhando. tomou gosto pela coisa. vestia as roupas da minha mãe. todo pintado. parado na esquina, cacarejava, chamando homem. pior que piranha de zona. a rapaziada não confiava que era o meu irmão maluquete. o clima foi ficando insuportável. o dono do bar em que eu trabalhava me chamou pra uma conversa. pra eu maneirar. se dava o lombo problema era meu, mas que a freguesia tinha nojo de veado. pior veado maconheiro. um cara pediu para não ser servido por mim. foi o fim da picada. toquei para casa e peguei um pedaço de caibro para meter na cabeça do filho da puta. ele é doente. gritavam os vizinhos. doente. não bate nele, senão chamo a polícia. eu tinha ficha, melhor ficar na minha, sem confusão. conversei com ele e ele repetia como é um cara te comer o rabo? nos filmes é sempre o negão o primeiro a meter a peia? você gostou? agora o filho da puta não parava de me azucrinar. falei que ele estava me queimando com a estória de que tinha virado veado. os policiais não me respeitavam. virou noiva é? perguntavam a ele como se referissem a mim, alargou o anel no xilindró, foi? meu irmão mandava beijos pros filhos da puta. me viam, da viatura, aceleravam e passavam a mão na minha bunda. eu xingava, impotente. muitos trocavam idéia comigo, a gente sabe que é teu irmão. e riam. mulher na cadeia é artigo raro. traçam o primeiro rabo desprevenido. doutor, logo meu irmão, doutor. sempre cuidei dele, da minha mãe maluquete. minha onda era puxar um fumo. agora nessa roubada. cheguei em casa tarde. meu irmão não estava. minha mãe preocupada. teu irmão saiu e não voltou ainda. pra que lado ele foi? perguntei aos moleques da rua. apontaram um capinzal de um terreno baldio no fim da minha rua. desembestei para lá. no muro, um buraco. já tinha fumado uns baseados entocados ali. escutei uns ruídos abafados. vai logo, vai logo. porra é a minha vez. deixe eu terminar de meter. me chama de vera, meu irmão pedia. bate na minha cara. vou comer você como comi teu irmão na cadeia, outro dizia. tinha uns três caras. enrabavam ele. eu voltei nos mesmos passos para casa. minha mãe preocupada. cadê teu irmão? cadê ele? peguei meu berro, ajeitei a camisa por cima. trago ele já pra senhora. vou comer o rabo dele mais um pouquinho. vamo parar com a putaria. vamo, porra. a bala já na cabeça de um. o outro correu, pulou o muro sem calças. e aquele que estava metido no meu irmão, não esboçou reação. chegou pra dividir o homem comigo, é? me disse meu irmão. filho de uma puta. bate, na mulher de cadeia, bate. não me mata, não me mata, pelo amor de deus. dei um tiro na piroca do desgraçado que estava metido nele. caiu gemendo. dá cabo de mim, amor, dá. sou tua messalina. mete também um pouco. justo a coisa não podia piorar, minha mãe pinta na jogada. meu filho. você matou, meu filho. meu irmão gritava. deixa mãe, ele quer comer um pouco do meu rabo. tinha entocado a máquina para não dar zebra, já passaria a mão no veado enrustido para sair fora dali, senti a mão da minha velha me tocar a cintura, pesar bem pesado o ferro e gritar para o meu irmão caído, vestido com as roupas dela, o cu à mostra, não criei filho para veado e disparar na cabeça dele. vamos embora. os canas me prenderam, eu tava em casa. minha mãe tinha preparado uma janta. meu prato predileto. o sargento perguntou quem tinha matado, eu estendi os braços. fui eu, sua autoridade. minha mãe enrolou o restante da janta e me acompanhou até o xadrez.
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sábado, 11 de setembro de 2010

Revista O Voo da Gralha Azul

Quinto número, com 126 páginas:

– A Poetisa Imortal da Academia de Letras do Brasil/PR e ativista cultural Dinair Leite é nomeada Presidente Nacional da União Hispanoamericana de Escritores – UHE;

– Análise do livro Frankestein, de Mary Shelley;

– Entrevista com o trovador, haicaista e poeta maringaense A. A. de Assis;

– Folclore Indígena com Lendas dos Toltecas e Indios Sioux;

– Ainda, dentro do folclore, o Folclore Paranaense com suas lendas separadas por cidades;

– Haicais de Sylvio von Söhsten Gama;

– Conto de Átila José Borges O Pinheiro, O Casebre. O Quadro (dedicado ao meu cãozinho recém falecido);

– Contos de Artur da Tavola, do indiano Rabindranath Tagore, Olga Agulhon, da portuguesa Risoleta Pinto Pedro e da nossa sempre colaboradora Vicência Jaguaribe;

– Poesias de Silviah Carvalho, convidada em agosto a se tornar Imortal na Academia de Letras do Brasil, pelo Estado do Paraná;

– O Teatro com A Dama das Camélias; Pequenos Burgueses; e Pluft, o Fantasminha;

– Trovas de Apollo Taborda França com O Nosso Alfabeto em Trovas;

– Os 42 anos dos I Jogos Florais de Corumbá e uma reportagem especial de Luiz Otávio comentando este evento;

– O menestrel do Rio Grande do Sul, Ialmar Pio Schneider;

– Artigos de como cultivar o hábito da leitura; dicas para trabalhos escolares (dissertações, monografias, etc.), O Romance Moderno, Expressões e suas origens por Deonísio da Silva; A Literatura Nativa Norte Americana;

– Formação da Diretoria da União Brasileira dos Trovadores/UBT Estadual do Paraná 2009-2010;

e muito mais.

Boa Leitura!

José Feldman
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Meu Salieri (Simone Pessoa)


(A Inveja - Sebastián de Covarrubias - Gravura do Séc. XVI)


Costumo levar em consideração as críticas construtivas. Todavia, tenho um leitor que não se cansa de me criticar deliberadamente. No seu último comentário, acerca da crônica Recortes, o distinto leitor reivindica a publicação de suas críticas a meu respeito. “Leio com frequência sua coluna e, vez por outra, faço comentários neste espaço. Ocorre que meus comentários quase sempre são críticas à colunista. Por que não publica críticas também?”

Não pretendia fazê-lo, mas para atender ao leitor inquiridor, eis aqui alguns recortes de suas mensagens críticas: “Você apenas escreve bem (conhece as regras), falta-lhe o tempero, leia-se talento”; “sou leitor assíduo de suas crônicas, sempre espero por alguma coisa surpreendente, mas sempre me deparo com o comum”; “você pode produzir, entanto lhe falta encontrar o ponto”; “medíocre”; “não complica, Simone, deixa a vida nos levar, bate um papo no bar do Bode”; “suas crônicas são tão insossas”; “DESISTO DE VOCÊ”.

Mas o fato é que ele nunca desiste de mim. Observo suas entrelinhas e contexto. Quanto mais criativa a crônica ou mais apreciada pelos meus outros leitores, mais incomodado ele se apresenta. Não sei exatamente quais as reais motivações desse leitor ressentido, mas desconfio que ele seja do ramo da escrita e por razões obscuras tenha interesse em desqualificar esta cronista.

De uma coisa estou certa, trata-se de um leitor constante e pontual. Tão logo a crônica é publicada, lá está ele a apreciar meu texto e, ato contínuo, depreciá-lo por meio de comentários sarcásticos no site do jornal. O fato de ele se dar ao trabalho de acompanhar de perto minha produção o credencia como um de meus mais dedicados leitores. Contudo, sem poder, ou melhor, sem querer revelar agrado, que por certo iria contra sua agenda secreta, ele tenta desdenhar.

Lembrei-me de Salieri, um compositor que nutria profunda inveja de Amadeus Mozart. Ao ler as partituras de Mozart, Salieri chorava de desgosto diante da magnitude da obra. E, ao invés de se aproximar e aprender com o ídolo, optou por urdir sua desgraça. Se Mozart soubesse da admiração doentia de Salieri, talvez sentisse um misto de misericórdia e vaidade.

Longe de qualquer comparação com a grandeza de Mozart, percebo que esse leitor aflito é meu Salieri. Sinceramente, lamento assistir ao seu sofrimento, mas não posso negar que também, de certa forma, me sinto envaidecida.

simoneps@fortalnet.com.br

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Pena Própria (Fernanda Lym)

(Quadro de Chico Lopes)


O pai preparou armadilhas para capturar pássaros. Dos que já havia prendido, nunca cuidara de nenhum. Nada de pote com alpiste, banheirinha pro novo hóspede, tampouco gaiolas grandes. Gaiola era gaiola e não importava o tamanho: ali era a última parada. Se havia algum cuidado com os prisioneiros era porque a empregada da casa ainda cumpria sua função.

Ideia estúpida essa a de preparar armadilhas pra pássaros, contestou alto a caçula já não mais tão caçula assim. Quando ele entrar na gaiola cuidarei dele, disse o pai entonando ironia. A caçula prometeu que se o pássaro fosse capturado o soltaria. Antes tivesse percebido que a armadilha fizera efeito: um novo prisioneiro ali dentro se debatia. As asas brilhantes aos poucos empapavam-se de sangue. Antes morrer lutando do que desaprender a voar.

Pretensão essa a de crer que cuidará melhor dos pássaros do que eles de si! E daí que existem moleques com estilingue, gatos à espreita, aves maiores? Antes deixassem livres os pássaros como nasceram pra ser e como devem viver! Mas o capturado, agora fraco, esperaria na gaiola à sua prisão se conformar.

Após a conquista comemorada, o pai foi à cozinha e, levando num pote um pouco de comida, voltou pro seu quarto onde passou o resto das horas, dias e anos, rememorando o passado em frente à TV. Até o odor dos seus gazes lhe era mais familiar do que o ar-fresco longe da zona de conforto.

A caçula bem pensou em soltar o prisioneiro. E daí se o pássaro estivesse machucado? Pelo menos estaria livre. Mas pensou também que se libertasse o prisioneiro haveria falatórios, confusões e ofensas desnecessárias. Odeio quem prende pássaros: os que prendem pássaros são capazes de prender pessoas, e foi cultivando indignação que a caçula, não tão mais caçula assim, tornou a trancar-se no próprio quarto, donde lá só havia como fresta uma janela lacrada por uma grade, que deixava pouco à mostra a lembrança do que um dia ela conhecera ser o céu.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Irmandade da Boa Morte (Emanuel Medeiros Vieira)

(Histórias da Bahia e do Recôncavo)

(Em memória de meu pai Alfredo – um honrado devoto de São Francisco, e o mais caridoso ser humano que conheci na minha vida.)

Não se sabe a data do seu nascimento, mas acredita-se que a primeira irmandade da Boa Morte em solo brasileiro tenha nascido em 1707. Mas a Irmandade da Boa Morte - criada por mulheres negras -, ao contrário das outras, não contou com a legitimação pelo poder do Estado ou da Igreja Católica. Caracterizada pela devoção à Nossa Senhora da Boa Morte, da Assunção ou da Glória, a irmandade ritualiza a morte e a assunção de Maria que, segundo a doutrina católica, foi levada ao céus como seu filho Jesus. A subida ao espaço celeste é um dos dogmas instituídos pelo Papa Pio XII, em 1950. A origem do culto à Boa Morte data do século VII, em Roma, pelos jesuítas. Em Portugal, começou em Lisboa, em 1660. Em Cachoeira, teria tido origem em 1860, quando a tensão social era muito intensa, segundo os historiadores. Conheci a irmandade (durante os seus festejos anuais, em agosto de cada ano) numa recente viagem à Cachoeira, belíssima cidade história do Recôncavo Baiano, distante de Salvador a aproximadamente 110 quilômetros. (Lembro de duas outras bonitas cidades da região: Santo Amaro da Purificação e São Félix — separada de Cachoeira por uma ponte.) O propósito religioso era católico, mas identidade foi buscada no candomblé. É isso o que me fascina nessa irmandade: sua liturgia, que transita entre dois ritos, tão marcantes na identidade baiana, onde a influência negra é uma das mais fortes do mundo. É preciso lembrar que em Cachoeira travaram-se intensas lutas pela Independência da Bahia e do Brasil, como também foi muito forte a luta pela abolição da escravatura. Formada exclusivamente por mulheres, com idade de ingresso a partir dos 40 anos, todas as 23 integrantes são negras e descendentes de escravos. O empreendedorismo das mulheres negras que fundaram a Boa Morte está na origem de suas antepassadas. “Elas vieram da sociedade iorubá, que era urbana e organizada. Eram conhecidas como negras do partido alto, que dominavam o comércio dos gêneros de primeira necessidade e conseguiram equilíbrio financeiro”, explica o historiador Cacau Nascimento, estudioso da irmandade. O culto à Virgem Maria é oriundo de um sentimento de gratidão pela obtenção de uma promessa: o fim do regime de escravidão. As negras da Irmandade da Boa Morte usam o drama da morte e assunção de Maria como metáfora para o culto aos eguns. É como os sete dias de axexê (o ritual fúnebre do candomblé), com três dias públicos e quatro privados. Ser negra é necessário, mas não é o bastante para constar em “ata” – como se diz quando a candidata é aceita pelas integrantes da Irmandade da Boa Morte. Na rígida hierarquia do grupo, além da dedicação à Nossa Senhora, tem de ter idade avançada e passar por avaliação. Na fase de observação (que dura três anos), as mulheres são chamadas “irmãs de bolsa”. De tradição oral, os segredos só são repassados para as irmãs e cada uma alcança um grau de conhecimento de acordo com o tempo, dedicação e determinação das irmãs mais antigas. Segundo a jornalista Juci Machado, “são esses segredos que garantem a existência delas”. São cinco dias de festa, preparados com um ano de antecedência. A disposição de servir nunca falta: “Nossa Senhora da Boa Morte também nos dá vida e força para continuar”, diz Adeíldes Ferreira de Lemos, 64 anos, que faz parte da Irmandade. (Teria outros relatos, mas o texto ficaria muito longo.) Mas conhecer o Recôncavo* foi uma bela experiência. Internalizei novamente a ideia do Sagrado (em rituais tão belos), num mundo tão dessacralizado, profano e utilitarista - que constitui o nosso capitalismo tupiniquim. Não deixa de ser uma forma de resistência à globalização excludente. Milton Santos (1926-2001), o grande geógrafo baiano, respeitado mundialmente, dizia que era preciso “encontrar um caminho que nos libere da globalização perversa que estamos vivendo e nos aproxime da possibilidade de construir uma outra globalização, capaz de restaurar o homem na sua dignidade”.

*O termo recôncavo, originalmente usado para designar o conjunto de terras de qualquer baía, se associou, no Brasil, desde os primórdios da colonização à região que forma um arco em terno da Baía de Todos-os-Santos (onde se encontra Salvador).

Salvador, agosto de 2010
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Juvenal Galeno, poeta popular (Nilto Maciel)



O governo do Estado do Ceará vem patrocinando a reedição de obras raras da literatura cearense. À frente dessa iniciativa está o professor Francisco Auto Filho, como Secretário da Cultura. Nos três volumes da obra completa de Juvenal Galeno (1836 – 1931) vem seu texto “Retorno às origens”, no qual se ergue em defesa da “política literária nacional-popular” do poeta e da “necessidade da intervenção do poder público como suporte institucional dessa esfera de nossa cultura”.

Com a mão na massa está o escritor Raymundo Netto, como coordenador editorial da Secretaria da Cultura. Neste 2010 veio a lume a obra completa de Juvenal Galeno, em três volumes: Cenas Populares, Cantigas Populares e Medicina Caseira, organizados por Raymundo Netto, esse abnegado amante do Ceará e das artes. O primeiro, composto de contos, agora em 4ª edição, traz apresentação – “Os contos de Juvenal Galeno” – do sábio Sânzio de Azevedo. O segundo volume – em 2ª edição –, de poemas, reproduz a apresentação à 1ª edição, por José Aurélio S. Câmara, de maio de 1969. O terceiro, também de poemas, em 2ª edição, refaz a apresentação à 1ª edição, por Oswaldo Riedel.

Cenas Populares surgiu primeiramente em 1871. Para Sânzio de Azevedo, “essa obra deve ser considerada não como precursora, mas como iniciadora do conto em nossa Província”. E mais esclarece: “Compõe-se o livro de oito narrativas: “Os pescadores”, “Dia de Feira”, “Folhas Secas”, “Noite de Núpcias”, “O Senhor das Caças”, “Clara”, “Amor-do-Céu” e “O Serão”. Seus protagonistas são pessoas simples, das praias e do sertão. (...) vemos aqui um escritor romântico, no qual são fortes as notas de sentimentalismo, mas ao mesmo tempo um agudo observador da realidade do Ceará na sua época, a ponto de alguns contos poderem (como alguns textos do citado livro de poesia) servir de segura fonte para o estudo dos costumes de então.”

Cantigas Populares é composto de dezesseis poemas encontrados por Cândida Galeno, neta do poeta, “aos quais o próprio autor atribuiu o título comum de Cantigas Populares” – afirma Aurélio Câmara – e publicados pela primeira vez em 1969. Ainda segundo o prefaciador, “as estrofes aqui reunidas constituem, talvez, a últimas que compôs Juvenal Galeno. Devem ter sido compostas, em sua quase totalidade, pois mergulhou nas trevas da total cegueira aos setenta anos, em 1906, e as páginas agora publicadas ou são posteriores àquela data ou a antecederam de curto período, quando a visão do autor, de tão apoucada, não mais lhe permitia o manejo da pena.”

Medicina Caseira, assim como Cantigas Populares, é obra póstuma, ambas publicadas pela primeira vez em 1969, por ocasião do 50º aniversário da Casa de Juvenal Galeno. Esclarece o prefaciador Oswaldo Riedel: “Ditou o bardo à esposa e à filha Henriqueta, sua secretária, os versos da Medicina Caseira. Neles, as datas sotopostas a muitas quadras, mas especialmente as referências à pandemia de gripe e ao kaiser Guilherme II, não deixam dúvida que os compôs quando a Primeira Grande Guerra estava vivendo seus últimos dias.”

Juvenal Galeno nasceu em Fortaleza, em 1836. Jovem, foi conhecer o Rio de Janeiro, depois de estudar (inclusive latim) em Pacatuba (cercanias da capital cearense) e no famoso Liceu do Ceará. Estreou aos vinte anos de idade, com Prelúdios Poéticos, “marco inaugural do romantismo cearense”. Seguiram-se diversos livros: teatro, poesia e prosa. Em 1895 ingressou na Padaria Espiritual, como padeiro-mor honorário. Participou do Clube Literário e ajudou a fundar o Instituto do Ceará. Poeta popular, escreveu pelos que não sabiam escrever. Segundo Sânzio de Azevedo, “o que Juvenal Galeno fez muitas vezes foi dizer com seu estilo, entre popular e erudito, o que o homem do povo não saberia dizer. Por isso, nem sempre podemos ver em seus versos o ‘eu romântico’, porque ele fala por outrem.”

Fortaleza, 7 de setembro de 2010.
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Inteligência rara (Manuel Soares Bulcão Neto*)

Em 1980 um grupo de cientistas fundou o Projeto SETI (Seath for extraterrestrial intelligente). Seu objetivo era, mediante radiotelescópios, detectar sinais eletromagnéticos emitidos por civilizações de outras regiões do Cosmo. Partia-se do princípio de que, onde houvesse vida, a alta inteligência necessariamente surgiria, visto que esta confere à espécie que a possui maior adaptabilidade ao meio – “Mais inteligente é melhor”, sentenciou Carl Sagan, líder deste Projeto.

O biólogo Ernst Mayr, valendo-se da própria história da vida na Terra, demonstrou, entretanto, que essa premissa setiana é falsa. Afirmou que, decerto, a seleção natural opera ao mesmo tempo em vários ramos taxonômicos – filos, classes, ordens… – favorecendo o surgimento e desenvolvimento de certos órgãos, como as estruturas fotorreceptoras (os olhos), “adquiridas de modo independente pelo menos 40 vezes no reino animal”. Não vislumbrava o Cientista, porém, nenhuma pressão seletiva conduzindo à alta inteligência, uma vez que, entre as milhões de linhagens existentes no Planeta, tal qualidade só surgiu em uma delas: a hominídea. Depois de apontar alguns acidentes sem os quais não teria vingado nossa estirpe, Mayr concluiu: “Como é extremamente improvável a aquisição da alta inteligência”, “como era infinitesimal a chance de isso ocorrer!”.

Agora, a pergunta: dado o seu suposto valor adaptativo, o que explica a raridade da alta inteligência? — Como uma das razões, alguns biólogos evolucionistas apontam o seu elevado custo em consumo energético (de fato, nosso cérebro demanda 20% de todas as calorias que o organismo consome). Aliás, em uma pesquisa realizada com moscas-das-frutas, Frederic Mery da Universidade de Friburgo descobriu que, em condições de grande escassez de víveres, as drosófilas com inteligência acima da média vão-se rareando até desaparecerem por completo. Infere-se desta experiência que, se os benefícios da inteligência a partir de certo nível não compensam o preço a ser pago, a seleção natural não irá favorecê-la, muito pelo contrário.

Outro custo da alta inteligência foi recentemente descoberto por James Sikela et al. da Universidade do Colorado. Segundo Sikela, a sequência de cópias do gene DUF1220 que determina o desenvolvimento do cérebro é a mesma que, com arranjo ligeiramente alterado, gera doenças mentais graves, como o autismo e a esquizofrenia. Significa dizer que os indivíduos portadores dessas moléstias são o preço que a espécie humana paga pelo mecanismo gênico que permite a geração da sua inteligência sem igual, capaz de produzir computadores, teorias cosmológicas e… antipsicóticos.

Inteligência é capacidade de processar informações e, de acordo com a teoria da complexidade, tal capacidade é máxima na fronteira entre a ordem e o caos. Isso explica a frágil condição do Gênio, ilustrada pelas loucuras terminais de Gödel e Nietzsche. A propósito, o autor de Zaratustra intuiu bem esse “equilíbrio distante” ao escrever que “é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina.”

De resto, embora muito valorizada, a inteligência é subutilizada pela maioria das pessoas, por medo do caos ou devido ao custo energético. Aliás, segundo o antropólogo Leslie Aiello, o homem, para pensar, retira energia dos intestinos, que são pequenos em comparação aos dos outros primatas. Por isso que muita gente, obedecendo ao princípio do menor esforço, em vez de realizar escolhas com o cérebro, prefere tomar decisões diretamente com as tripas. Outros, pelas mesmas razões, entregam seu destino ao acaso das cartas, búzios e do I Ching – ou então mantêm a mente operando no modo religioso, que é de baixa energia.

Como diz mesmo a canção? “Si quieres ser feliz como me dices / No analices / Ah, no analices.”


*Manuel Soares Bulcão Neto nasceu em 1963 na cidade de Fortaleza. Em 1988, bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Ensaísta e escritor, tem se dedicado a estudos críticos sobre questões filosóficas fundamentais do mundo contemporâneo, sobretudo no que tange às implicações sociopolíticas dos avanços atuais da ciência. É autor de As Esquisitices do Óbvio (2005), Sombras do Iluminismo (2006) e A Eloquência do Ódio (2009).
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O livro das metades do João (Tânia Du Bois)



O Livro das Metades do João é o livro infantil escrito por João dos Santos, quanto tinha entre 6 e 7 anos de idade. João Albuquerque dos Santos, nordestino de Fortaleza, nascido em 1993.

Segundo seu pai, Fabiano dos Santos, também escritor, “João gosta tanto de desenhar que, às vezes, penso que foi ele próprio que se desenhou quando ainda morava na barriga da sua mãe. Parece que nasceu com um lápis de cor na mão e com ele foi crescendo e desenhando o mundo”.

O livro nasceu quando João, ainda pequeno, mostrou ao seu pai os desenhos das metades, inspirados nas descontraídas tramas da vida, ”do mundo que mora dentro da sua cabeça e do mundo que mora fora do seu corpo”. Fruto da sua imaginação, criou com descontração, e de acordo com o espírito da idade, verdadeiros mimos da alma transformados em desenhos.

O livro é interessante e diferente. Os desenhos, trabalhados com traços precisos do seu mundo infantil, onde mostra as metades criança de João e as metades “fora do corpo”, que brinca com as metades do escritor.

O livro tem ritmo iluminado. O menos é mais, porque traz movimentos com palavras marcantes, como seu espírito. É surpreendentemente criativo e atrativo:

“Sou a metade feliz / sou a metade triste // Sou a metade nu /
sou a metade vestido // sou a metade sem olho / sou a metade com olho //
sou a metade acordado / sou a metade dormindo // sou a metade com osso /
sou a metade sem osso // Sou a metade dia / sou a metade noite //
sou a metade água / sou a metade fogo // Sou a metade viva /
sou a metade morta //Sou a metade pedra / sou a metade areia //
Sou a metade bicho / sou a metade homem // sou a metade flor /
sou a metade gente // sou a metade negro / sou a metade branco...”

E a educadora Luíza de Teodoro declarou: “o grande santo João, contou-nos o novo mundo e o novo homem. Ainda pequeno João nos mostra agora, o que a infância pode ver do que somos. Bendito sejas João dos Santos”.

Para comemorar a passagem do Dia Mundial do Livro Infantil, nada melhor do que apresentar João que, com um lápis de cor, foi desenhando o mundo, onde as leitoras Júlia e Luísa habitam: o mundo da imaginação pelas metades.

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