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sábado, 20 de novembro de 2010

Conversa com Caio (Parte 2)


NM – Depois de longos anos de leituras e escrituras (fale de suas primeiras leituras e também de suas primeiras experiências como "criador"), você se sente mais próximo do sonho (ou não era sonho?) ou todo caminho é o mesmo?: poeira, arbustos aos lados, céu nublado aqui, sem nuvens adiante, solidão. O homem se contenta com a solidão? Ou o escritor menos que o homem que apenas passa?


Caio – Creio que o escritor é um grande solitário. Não a solidão que se anula em si mesma. A outra, indefinível e talvez meio cósmica, que leva o escritor a escrever e outros se voltam às demais Artes. Eu, de minha parte, comecei muito cedo. E – curioso – desde muito jovem eu desenhava razoavelmente. Deixava perplexos os professores do primário e do seriado, no Liceu do Ceará. Intuitivamente, eu tinha muita noção de perspectiva. Um dia, no primeiro ano do seriado (hoje ginásio), o professor de desenho mandou que desenhássemos uma garrafa. Fui o único que desenhou a sombra da garrafa. Ele me perguntou quem me ensinou aquilo. Eu lhe disse que ninguém. Mas desviei-me para a escrita porque eu lia muito. Comecei escrevendo crônicas e poesias. Empolguei-me tanto que escrevi um romance em cadernos. Ainda os possuo. Eu tinha os meus 13 ou 14 anos. Li muito os livros de Karl May sobre o Far-West. O meu herói dava de chinelo em Tarzan. Não parei mais, abandonando em definitivo o desenho. Escrever é o meu destino. É o destino de quem traz consigo os demônios interiores e luta com eles a vida inteira. Nem por isto deixei de viver a vida plenamente. Brinquei, dancei, namorei, tomei umas e outras etc... A literatura é a minha sombra, o meu contra-espelho, pulsação da minha alma... O homem não se contenta com a solidão referida. A solidão do escritor é aquela outra, ilocalizável e que nos acompanha como um anjo bom ou mau. O que lamento é ter abandonado o desenho. Talvez eu não chegasse a ser um Portinari, mas teria pintado alguns quadros. Visito e me deslumbro com tudo que para mim é belo ou esteticamente diferente. Extasio-me com a música popular ou erudita. Talvez eu tenha aquele mal de que falava o compositor Ataulfo Alves: buscar a Arte em tudo... Fazer o quê? Parar?... Aí, sim, cairia na solidão que se anula em si mesma e me tiraria o sentido da vida.

NM – Você disse que escrevia para você mesmo, desde o início, adolescente. E nunca jogou fora os primeiros escritos, que quase sempre são meros exercícios. O que você lia nesse tempo? Queria imitar algum desses escritores? E depois, quando se sentiu certo de que escrevia bem, continuou lendo? Quem ou o quê? Então lia para quê? Por curiosidade ainda? Por necessidade de aprender mais? Por hábito? E hoje, a maior da obra (a sua) realizada, ainda lê? Para quê? Por quê?

Caio – Eu lia tudo que caía às mãos. Dos gibis aos livros de aventuras. Mas nunca li as obras do Tarzan. E – curioso – nunca procurei imitar ninguém, sem buscar originalidade, porque ainda não tinha parâmetros críticos. Mas sempre busquei uma certa originalidade, dar uma marca pessoal ao que escrevia. Daí, talvez, as quantas tolices que escrevi. O primeiro trabalho que publiquei, aos meus 11 ou 12 anos, foi uma croniqueta – “Ave, Maria”, na revistinha dos padres sacramentinos da Igreja de São Benedito, de Fortaleza, onde eu estudava catecismo. O padre Teófilo publicou a baboseira. Tenho comigo guardada. Começa assim: “A Ave, Maria é uma bela oração, senão vejamos:” e transcrevi a oração em baixo e assinei o meu nome. O padre publicou com destaque e eu me julguei igual aos melhores escritores que eu conhecia. Daí porque os amigos, quando conto isto, dizem que eu sou plagiário desde que comecei... Desde muito jovem eu já lia os regionalistas de 30. Curiosamente, porém, maravilhei-me com as obras de Lúcio Cardoso e de Cornélio Penna, escritores voltados para os conflitos interiores e as solidões humanas. E eu era tão jovem. No Ceará empolguei-me com os livros do Fran Martins e acabei, muitos anos depois, escrevendo a apresentação para toda a obra dele, a pedido do Dr. Martins Filho, Reitor da Universidade Federal do Ceará e irmão dele.
Por que eu lia e leio? Creio que vou viver eternamente lendo. Talvez porque isto se tornou a minha própria sombra. José Mindlin, que possuía uma das maiores e raras bibliotecas particulares do Brasil, costumava me dizer que não viveria sem os livros. Volto a repetir: vivo a vida, mas me encanto sempre com o que se escreveu e se escreve do passado ao presente. Volto sempre aos escritores medievais. Talvez por isto bacharelei-me em História. Minha leitura é muito variada e diversificada. Leio muito poesia, comento livros de poesia, e poeta não sou... li escritores de toda a América Latina, os norte-americanos, portugueses, franceses, russos etc. Se eu tiver de destacar um nome apenas que me sirva de símbolo do que seja escrever, não deixarei de citar, como cito sempre, o Mestre Machado de Assis. Fico por aqui.

NM – E ler-se? Você se lê? Faz modificações nos seus livros publicados? Ou, quando os publica, os considera definitivos? Dizem que Murilo Rubião escreveu pouco (pode ter escrito muito e publicado pouco), apesar de ter vivido muito, e suas poucas obras (contos) são as mesmas, com títulos diferentes. Reescrevia tanto que conseguia transformar um conto em outro. Você é mais pródigo (esbanjador de imaginação) e menos exigente?

Caio – Leio-me muito pouco. Talvez por medo. Sempre que me releio encontro coisas a modificar. Então deixo como está. De todos os meus livros reeditados, modifiquei pouquíssimas frases. Sigo aquilo que sempre afirmo: O livro é daquele instante e daquele tempo. Daí porque, ainda hoje, insisto com o poeta Francisco Carvalho para publicar os dois primeiros livros dele, que ele os considera muito fracos e tirou-os da relação das suas obras publicadas. Acho que não é por aí... Agora: é uma opinião pessoal. Leio e releio muito o que escrevo, mas antes de publicá-los. Há outros que se comportam diferente: Não se conformam nunca com o que escreveu e ficam modificando e modificando. Para mim isto artificializa um pouco a criação. O grande novelista Aníbal Machado, em cada edição do único livro dele acrescentava mais uma novela e fazia uma limpeza nas anteriores. Eis por que há escritores que publicam pouco e sofrem muito no ato da criação. Também não sou relaxado. Quando não gosto de um conto que escrevi, guardo-o na gaveta e vou relê-lo bem depois. Às vezes surgem reformulações novas e reescrevo o conto. Outras vezes não: permanece na gaveta. Mas publiquei, acabou. Parto para outra. Agora mesmo estou reeditando a 4ª edição do meu romance O sal da terra. A editora me pediu que o lesse e fizesse as modificações que quisesse. Li-o todo e tirei quatro ou cinco palavras. Sabe por quê? Eu não quis modificar o tempo em que foi criado. Sou exigente comigo mesmo. Mas um livro é um tempo e um momento criador.

(continua)

Conversa com Caio Porfírio Carneiro (Parte 1)

Nilto Maciel
(Caio Porfírio Carneiro)


Entre os dias 18 e 28 de outubro de 2010, conversei com Caio Porfírio Carneiro. De longe: eu em Fortaleza, ele em São Paulo. Não por telefone, mas por e-mail. Um escritor não pode ser entrevistado por jornalista, que quer informações. Escritor não dá informações. E, se as der, não as dará como as querem os jornalistas. A não ser que sejam informações para biografia. No entanto, minha intenção não é escrever biografia. Nem de Caio nem de outro escritor. Minha intenção é cutucar o entrevistado. Desnudá-lo, expô-lo como ser humano, como inventor, criador. Dizem que ficcionista (escritor, cineasta, compositor, pintor, etc.) não copia a realidade, por mais realista que seja. Caio é um realista. Mas também naturalista, surrealista, fantástico.


Caio Porfírio (de Castro) Carneiro nasceu a 1º de julho de 1928, em Fortaleza, Ceará. Dedicou-se muito moço ao jornalismo, na terra natal. Bacharelou-se em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia de Fortaleza. Transferiu-se para São Paulo em 1955. Desde 1963 é secretário administrativo da União Brasileira de Escritores de São Paulo. Assinou a apresentação de dezenas de obras, dos mais diversos gêneros Alguns dos seus livros alcançaram várias edições. O romance O Sal da Terra foi traduzido para o italiano e árabe e adaptado em roteiro técnico para o cinema. Contos seus estão incluídos em duas dezenas de antologias do gênero e traduzidos para o espanhol, italiano, alemão e inglês. Caio foi agraciado, em 1968, com o Prêmio Afonso Arinos pela coleção Os Meninos e o Agreste. O livro de contos O Casarão recebeu, em 1975, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e segundo colocado no Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Menção Honrosa do Pen Clube de São Paulo.

Obras publicadas:
Trapiá (contos), Ed. Francisco Alves, Rio, 1961. Mais quatro edições posteriores: Coleção Saraiva, São Paulo; Editora Cátedra, Rio de Janeiro; Ribeirão Gráfica Editora, Franca, SP e Editora da Universidade do Ceará. O conto “O Padrinho” foi traduzido para o alemão e o “Come-gato” adaptado para a televisão.

Bala de Rifle (novela policial), em capítulos no jornal Última Hora, SP, 1963. Não levada ao livro.

O Sal da Terra (romance), Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1965. Mais duas edições pela Editora Ática, São Paulo e uma pela LetraSelvagem. Traduzido para o italiano e árabe. Adaptado em roteiro técnico para o cinema.

Os Meninos e o Agreste (contos), Ed. Quatro Artes, SP, 1969; 2ª edição pela mesma editora, em convênio com o Instituto Nacional do Livro. Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Menção Honrosa do Prêmio Governador do Estado de São Paulo.

Uma Luz no Sertão (romance-reportagem), Editora Clube do Livro, SP, 1973; 2ª edição, Editora Claridade, São Paulo, 2007.

O Casarão (contos), Ed. do Escritor, SP, 1975. Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, S. Paulo. Menção Honrosa do Pen Clube de São Paulo.

Chuva – Os dez cavaleiros (contos), Ed. Hucitec, SP, 1977. Adaptado em roteiro técnico para o cinema.

O Contra-Espelho (contos), Traço Editora, SP, 1981.

10 Contos Escolhidos, Coleção 10 Contos - Ed. Horizonte, Brasília, 1983, em convênio com o Instituto Nacional do Livro.

Viagem sem Volta (contos), Ed. Seiva, SP, 1985.

Quando o Sertão Virou Mar... (Lit. Juvenil), Cia. Ed. Nacional, SP, 1986.

A Oportunidade (novela), Ed. Mercado Aberto, P. Alegre, 1986.

Profissão: Esperança (Lit. Juvenil), Ed. do Brasil, SP, 1986.

Da terra para o mar, do mar para a terra (Lit. Juvenil), Ed. FTD, SP, 1987. Várias edições.

Três Caminhos (novela), Ed. FTD, SP, 1988. Várias edições.

Dias sem Sol (novela), Ed. Illa Palma - S. Paulo/Palermo, Itália, 1988.

Rastro Impreciso (poesias), Ed. Scortecci, SP, 1988.

Os Dedos e os Dados (contos), Ed. Pontes, Campinas, S. Paulo, 1989.

Primeira Peregrinação (reminiscências), Ed. Scortecci, SP, 1994.

A Partida e a Chegada (contos e narrativas), Ed. Toda Prosa, SP, 1995.

Cajueiro sem Sombra (Lit. juvenil), Ed. Saraiva, SP, 1997. Várias edições.

Mesa de Bar (quase diário), Ed. Toda Prosa, SP, 1997.

Contagem Progressiva (memórias), Universidade Federal do Ceará, 1998.

Perfis de Memoráveis (autores brasileiros que não alcançaram o terceiro milênio), RG Editores, SP, 2002.

Uma Nova Esperança (Lit. Juvenil), Editora Nativa, (em parceria com Maria José Viana e Paulo Veiga), SP, 2002.

Maiores e Menores (contos), Alpharrábio Edições, Santo André, SP, 2003.

A Vocação Nacional da UBE – 62 Anos (histórico da UBE desde a sua fundação), em parceria com J. B. Sayeg, RG Editores, SP, 2004.

Gramíneas (miscelânea literária), Ed. Scortecci, SP, 2006.

Respingos de uma viagem (opúsculo literário), SP, 2008.

O copo azul (contos), Ed. Scortecci, SP, 2009

***

Nilto Maciel – Por que você continua escrevendo, se as editoras brasileiras não investem em escritores brasileiros, se a grande maioria dos livros publicados no Brasil por brasileiros (em pequenas edições de 100, 200, 500 exemplares) é distribuída apenas a "amigos e parentes"? Como anda o seu desânimo resultante disso? Ou você não vê assim?

Caio – Escrevo por uma necessidade imperiosa que trago comigo desde que me conheço nas Letras, desde os primeiros rascunhos que escrevi, publicados ou não. Antes do meu primeiro livro – Trapiá (de contos) – eu já escrevia muito para mim mesmo e para o fundo das minhas gavetas. Com um detalhe: nunca rasguei nada que escrevi. Tenho comigo uma tonelada de tolices, com algumas coisas razoáveis no meio. Claro que a publicação é fundamental, mas não é tudo. Talvez venha das minhas raízes. O meu avô materno, muito culto, era primo do escritor Adolfo Caminha. O meu pai foi um intelectual frustrado porque nunca publicou nada, mas era amigo de escritores da época, inclusive do poeta Antônio Sales, que conheci pessoalmente. Ele já velho e eu menino. Creio que não conseguiria viver sem escrever. Creio que se dá o mesmo com quem pinta, compõe, esculpe... Fazer o quê? Com editora ou sem editora, com a velocidade dos vôos da internet, sem sabermos onde vamos parar, só existe um caminho: continuar fazendo o que se trouxe do berço: escrever e escrever.


NM – Se escrever é uma necessidade quase fisiológica, você não vê a arte ou a obra de arte como uma "coisa do espírito"? O fazer é o espírito? Ou a alma, como querem outros? É possível "fazer arte" sem realizar obra de arte? Numa sequência: "necessidade imperiosa" ou fisiológica, criação/realização da obra, a obra feita, a fruição da obra (leitura). É assim?

Caio – Como afirmei anteriormente, escrever é uma necessidade imperiosa aos que possuem sensibilidade e ímpeto de "criar", não importa se com bons resultados ou não. O homem da pré-história traduzia isto através das belezas rupestres. Há os que não escrevem nada, ou só escrevem o necessário, e vivem bem. Refiro-me aos que, por dom ou castigo, trazem isto do berço. O ótimo compositor popular Ataulfo Alves costumava dizer que a Arte, para ele, estava em tudo, até no ato de calçar os sapatos. Quem escreve, sentindo por este lado, é, como afirma o escritor Rodolfo Konder, "ele e seus demônios." Creio que para uma pergunta como esta não há, conforme disse, uma resposta plausível e completa. É o homem tentando somar alguma coisa ao imediato e palpável. Ou, como dizia o escritor Lúcio Cardoso, a eterna luta contra a morte. Perguntaram a Picasso, ele já no fim da vida, famosíssimo, o que era Arte, e ele respondeu: "Se eu soubesse o que é Arte eu não diria para ninguém." Creio que é a busca de alguma coisa que se some àquilo que se vê, sente-se etc. É uma espécie de libertação dos demônios referidos. É o instinto de perpetuar-se para além do sopro da vida passageira. Na verdade, não visualizamos bem o que isto seja. E, talvez por isso, tentamos... tentamos... tentamos...

(continua)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pintar também é escrever (Tânia Du Bois)


Os poetas produzem belos poemas, mostrando as ¨belas cores¨ que o mundo tem. Algumas palavras adquirem poder imaginário, como a arte de pintar, que também é escrever, que contamina o pensamento e traduz em imagens, cores, ideias e em ideais da sociedade. Posso imaginá-la na sua poética, pois, “um pintor de talento é sempre um escritor”, como disse P. M. Bardi e como demonstra Pedro Du Bois, em seu poema:

“colorir palavras telas foscas / espremer textos com bisnagas /

jorrar tinta jorrar letras // fazer estrofes murais cimentados /

rasgar papel em lápis espátulas / colocar em viés ideias literárias //

... // espatular versos ziguezaguear temas / fechar cadernos cobrir telas /

esperar o tempo certo / para que sequem”.

Os artistas plásticos possuem a forma velada de cores que se incorpora num jogo de formas oriundas da cor que cria ritmo. Como disse Paul Klee (1879/1940), “A cor me possui não preciso conquistá-la. Somos uma só”. Ele conciliava arte e música, pois no seu ateliê, no lugar das telas, partituras; transformava a palavra e o gesto. Segundo Klee, a função da imagem é exprimir um sentido, como vemos em Murilo Mendes,

“Qual a forma do poeta? / Qual o seu rito? / Qual sua arquitetura?”

Pintar é conhecimento e, quando revelado, o segredo das formas nos é imposto na condição de observador, para que o espírito e a inteligência se relacionem na sua leitura.

A arte tem servido para ilustrar essas ideias e entender mundos mais inatingíveis. Mas é a leitura cuidadosa e penetrante que vai tentar dizer algo da impressão que a mesma produz a partir do que "lemos" ao vê-la. Ela também nos enriquece culturalmente, revelando os sentimentos, os comportamentos e os valores: o que é visto, sentido e discutido.

Pintar também é escrever, por vezes gera inquietação, chega a uma realidade que faz do artista um criador com sensibilidade para exprimir em palavras, traduzir as cores e formas.

“Ela é uma flor. / Como pode? / Não tem a beleza, a suavidade,

nem / mesmo a cor. / Como pode? / Não se chama Rosa,

Margarida, ou Hortência. / Serão os espinhos? / A amargura,

o ressentimento, o desdém, o tempo fixou. / Se nem mesmo

a essência, / como pode? / Ela é uma flor. / A linguagem

a transformou”. (Benedito Cesar Silva)
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sobre reflexões (Belvedere Bruno)

http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/




Gosto de tomar decisões, mesmo que isso implique uma brusca mudança em minha vida. Sempre fui assim. Isso não significa que só tenha tomado decisões acertadas. Claro que errei, mas fiz questão absoluta de sempre decidir. E os erros me ensinaram, sem dúvida. Hoje, porém, mais do que nunca, estou bastante seletiva em relação a tudo. Não é qualquer coisa que prende minha atenção, não é qualquer assunto que me interessa, não é qualquer pessoa que me convence. E uma regra é básica: se não estou bem com alguém ou em algum lugar, retiro-me. O que posso esperar das pessoas é compreensão e respeito para com minhas atitudes.

Sempre dói saber que, por motivo fútil, se perdem amizades. Faço questão de conservar aquelas que realmente suportam mudanças: maremotos, vendavais, vulcões. A essas, dou-me por inteiro, pois provam que, acima de tudo, conhecem e respeitam o livre-arbítrio.

Atualmente, há em mim um forte desejo de alçar novos voos, percorrer outros caminhos, ousar. Jamais deixarei de ser assim. Sou estável nas amizades e gosto de saber quando há, de fato, reciprocidade, que independe de normas pré-estabelecidas, de opiniões sempre concordantes. Não! Existe a questão "individualidade". Por isso e por outras coisas sempre digo: sou única, como todo ser humano. Não existe uma pessoa idêntica a outra e esta é uma razão forte para que aceitemos as diferenças. Isso torna a vida mais rica.

Infelizmente, muitas pessoas não aceitam a verdade e lidam com a absurda meia-verdade. Não insisto em manter amizades (?) que o tempo provou não passarem de bolhinhas de sabão!

Acabei de tomar meu Amaretto on the rocks, que adoro. Estou lendo "O filho da mãe", de Bernardo Carvalho, pois é vital para mim estar com um livro, lendo um poema, ouvindo uma música, assistindo a um filme, ou escrevendo.

Fico por aqui. A caminho do curso de "Contadores de Histórias", convite maravilhoso que recebi de minha amiga Teresa Mello. Aliás, amiga há trinta anos. Isso prova que uma amizade verdadeira não morre. Ela ultrapassa vulcões em ebulição e ainda chega sorrindo. Brindemos!
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Imortal em todos os sentidos (Simone Pessoa)

(Rachel de Queiroz – 17/11/1910 a 4/11/2003 –, estátua na Praça General Tibúrcio, Fortaleza)

Memórias e experiências de vida se entrelaçam. Quando contamos sobre as nossas, estamos relatando momentos de outras pessoas que por vezes nem se dão conta dos efeitos e impressões que deixam em nós ou consideram tão banais que nem os registram em suas memórias.

Meu tio Zé Pessoa contou, por exemplo, sua primeira e definitiva viagem de Sobral para o Rio de Janeiro nos idos de 1940 quando foi cursar medicina. A rigor, mais que uma viagem, foi uma odisseia. Durou 18 dias e envolveu ônibus, trem a vapor, barco gaiola e caminhão.

O comboio ainda se encontrava em Petrolina quando o dinheiro do então jovem estudante estava chegando ao fim. Como estava faminto, precisou gastar alguns tostões para enganar a fome. Se dirigiu a uma pensão e pediu um café com pão sem manteiga, pois era o que ele podia pagar. A garçonete pareceu irritada com o minguado pedido e atendeu ao jovem com rudeza. Trouxe uma caneca de café com um pedaço de pão quase seco. Faminto, meu tio pôs-se a devorar o pão que ele molhava no café para amolecê-lo.

Na mesa do lado, uma senhora elegante, na casa dos trinta e cinco anos, fazia uma lauta refeição e observava a cena do pobre estudante. Percebendo a fome mal suprida do jovem, fez sinal e o chamou para sua mesa. Ele, muito tímido, fingiu que não havia entendido. Ela, então, levantou-se, foi até meu tio e o convidou para a mesa dela alegando desejar companhia em sua refeição. Ele tentou recusar, mas ela estava determinada a resgatá-lo.

Resultado, meu tio se transferiu para a mesa da senhora, comeu pão fresco, queijo, ovos, tomou leite, suco, enfim, se fartou e armazenou energia para economizar na viagem. Durante a refeição, ele se restringiu a responder as perguntas dela e a ouvi-la. Uma mulher simples e espirituosa, porém elegante, de olhar atento. Por fim, ela o convidou para visitá-la em sua casa na ilha do Governador no Rio de Janeiro, onde oferecia um almoço aos sábados para amigos nordestinos. Admirado com a generosidade da distinta mulher, meu tio se despediu profundamente agradecido.

Na saída da pensão, encontrou um conterrâneo amigo da família, a quem contou o ocorrido apontando para a nobre senhora que continuava na mesa, agora, a fazer anotações. Quando o conterrâneo olhou e viu a dita mulher, arregalou os olhos e exclamou: Rapaz, tu não reconheceste? Aquela é a ilustre escritora Raquel de Queiroz!
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Construir (Pedro Du Bois)




O telhado impede

a natureza


o piso

concede aos pés

a maciez


as portas, bifurcações

do acaso: entrar

sair

ficar na soleira

voltado ao tempo

original da hora


janelas permitem observar

a rua pelo lado de fora.


http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/pedrodubois.html#bloco
http://vidraguas.com.br/wordpress/
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/
http://luis-eg.blogspot.com/
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terça-feira, 16 de novembro de 2010

(Alguns) versos marinhos (Silmar Boher)



Céu azul do pensamento,

ventinhos fazendo farra,

águas calmas, verso-intento

cá no cantinho da Barra.


Num eterno filosofando

vou então a excogitar,

a vida é o eterno avatar

que vamos emoldurando.


Os ventinhos, doces ares

da estação primaveril

trazem alaridos mil

na volúpia dos cantares.


Tarde nublada no mar,

ventinhos em romaria,

somos três a excogitar,

eu, os versos e a Poesia.


Vivo na vida impregnado

do rumor eterno dos mares,

dir-se-ia, rum(or)(ar)ejado

de bulícios e avatares.


Para a glória da Poesia

nos quatro pontos cardeais,

seguimos, eterna romaria,

eu e os versinhos banais.


Mares verde-azulados

na manhã segunda-feira,

queres queira, quer não queira,

vagam versos alumbrados.


Ventinhos andam rondando

a agitar os meus papéis,

são ventares ventanejando

os versinhos-ouropéis.


Vagam versos-maresia

cá na beirinha da praia,

até mesmo a essência gaia

anda ao léu em romaria.


Eivada de inspiração

a natureza aqui na Barra,

os ventos fazendo farra,

as águas uma doce canção.


Andam ventos-maresia

ali na beirinha da praia

insuflando essência gaia

com murmúrios de Poesia.


De vez em quando acordo

com um verso me chamando,

em súplicas, suplicando

para tê-lo em meu bombordo.

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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Antes de Brant, Tieck e Fitzgerald (Nilto Maciel)

Não sou mais de comprar muitos livros. A casa está cheia deles. Além disso, li o essencial (o que será o essencial?). Talvez esteja dizendo bobagem. Pois Machado estudava grego, pouco antes de morrer. Ora, não sou gênio.

Mesmo não tendo mais o hábito de adquirir obras literárias, no final de outubro deste 2010, gastei dinheiro numa livraria e trouxe para casa A nau dos insensatos, de Sebastian Brant; 3 contos fantásticos, de Ludwig Tieck; e 24 contos de F. Scott Fitzgerald. Seriam minhas primeiras leituras de novembro. Qual o que! Pois mal abri o pacote, o carteiro gritou meu nome. (Sujeito polido. Pois outros costumam lançar por cima do muro os fardos artísticos que meus amigos me mandam. Por sorte – minha e dos livros –, há boa grama do lado de dentro do muro.) Corri na direção do portão e recebi três pequenos embrulhos: Viagem ao infinito, de Jorge Freire; Aconselho-te crueldade, de Fernando Fiorese; e Emoção atlântica, de Márcio Catunda. No outro dia, foi a vez de dois volumes de Tanussi Cardoso: Exercício do olhar e 50 poemas escolhidos pelo autor. Na mesma semana, chegaram Menino do bandolim, de Tobias Pinheiro; e 50 poemas escolhidos pelo autor, de Diego Mendes Sousa. Na manhã do dia 11, na Universidade Federal do Ceará, encontrei Rodrigo Marques e dele ganhei exemplar de Fazendinha. Antes de todos estes, recebi, de Eduardo Luz, Manual de bruxaria: introdução à obra crítica de Machado de Assis e Como fumaça erguidos, que comentei no dia 4 deste. Logo a seguir, Claudio Parreira me presenteou com Portal 2001, vários autores, que pretendo examinar.

Como veem, tenho leitura assegurada para o resto do ano. Obviamente, ficarão para outra data Sebastian Brant, Ludwig Tieck e Scott Fitzgerald. Prefiro dar satisfação a meus amigos (que estão aqui e são brasileiros, como eu), a me ufanar de ser leitor de estrangeiros, que não conheci nem conhecerei. Além do mais, não estou mais naquela fase de sair de casa com um Kafka, um Borges ou um Pessoa debaixo do braço, só para me mostrar aos amigos. Levo comigo escritores quase anônimos, leio-os onde é possível ler e não me importo com o que podem dizer.

Não farei resenha destas obras, porque demoro muito a escrever. Falarei, agora, de cada um deles, um pouquinho só, embora não os tenha lido na íntegra.

Para dar uma ordem a este breve comentário, separei os livros em dois grupos: um de poemas, outro de prosa. No primeiro estão Jorge Freire, Márcio Catunda, Tanussi Cardoso e Diego Mendes Sousa.

Não conheço Jorge, embora a publicação dele – Viagem ao infinito – seja de 1978. Mora em Petrópolis, RJ. Não sei se publicou outras obras. No prefácio, Maurício Cardoso de Mello Silva anotou: “Jorge Freire é jovem. (...) Começa com um livro de versos e de prosa poética de conteúdo lírico como deve ser na sua idade.” É verdade: há versos medidos e rimas ao lado de versos sem métrica e prosa poética. Num dos poemas, “Travessia noturna” se lê: “é hora de adormecer o homem/ é hora de acordar o poeta...”.

Márcio Catunda é meu amigo e conterrâneo. Vive sempre a andar pelo mundo. É diplomata de carreira. Se não me engano, está na Bolívia. Emoção atlântica (o título é uma síntese de sua vida de “andarilho” do mundo) é, no entanto, um conjunto de poemas “inspirados” no Rio de Janeiro. Como se vê em “Névoa no Pão de Açúcar”: “Flutua o Cristo sobre o convés do oceano, / guardião dos pântanos da Terra. / Cavalga filigranas nas águas movediças. / Voa sobre prédios e montanhas impalpáveis. / A cidade mergulha na textura da distância. / Quebrantos ecoam em mim. / Perplexo ante os abismos do mar, / ponho alma na intimidade dos enigmas. / Derramo soluços nos pórticos invisíveis”. André Seffrin, nas abas, observa: “ele percorre a cidade com orientação quase mística. Diria mesmo: com o coração na boca.” E mais adiante: “Mas é Vinicius de Morais quem mais aparece nominalmente reverenciado nestes poemas”.

As Edições Galo Branco, do Rio de Janeiro, têm uma coleção: “50 poemas escolhidos pelo autor”. O livro de Diego Mendes Sousa é o volume 53. O poeta é jovem (1989), nasceu em Parnaíba, PI, e tem duas obras publicadas: Divagações (2006) e Metafísica do encanto (2008). Ana Miranda confessa: “Gostei verdadeiramente de sua expressão, e de sua erudição, numa pessoa tão jovem...” De fato, poema também se faz com erudição. Castro Alves é um exemplo disso. Imaginemos se tivesse vivido muito mais.

Tanussi Cardoso é meu amigo. Conheço-o desde os tempos da revista O Saco. Dele são 50 poemas escolhidos pelo autor (volume 35) e Exercício do olhar (2006). Na apresentação deste, Luiz Horácio Rodrigues é categórico: “Tanussi trabalha o contraste estilístico tão caro e tão escasso, sem perder a coerência, a originalidade da temática e o requinte artesanal dos versos, quando a norma, idealizada pelos poetastros ordinários, exige e propaga versos belos e sem sentido.” Um grande poeta. Leiam “as sombras são” (vejam o jogo dos signos): “as sombras se esquecem / de si mesmas / e saem a espantar / as coisas, /à noite // andam trilhos imaginários / perseguem sonhos / dos homens, / as sombras // reais / riem dos objetos clareados / por postes estranhos, / as sombras” (...) É poesia rara, belíssima, de uma riqueza tão grande que só uma leitura demorada nos fará perceber onde moram os rubis do verbo.

O segundo grupo de livros recebidos é de prosa: Fernando Fiorese, Tobias Pinheiro, Rodrigo Marques, Eduardo Luz, Claudio Parreira e outros 16 contistas.

Conheço Fiorese há alguns anos: eu em Brasília, ele em Juiz de Fora. Desde a época da revista d’lira, de que era um dos editores, e de seu primeiro livro, Leia, não é cartomante (1982). Este Aconselho-te crueldade é de prosa de ficção. Sua estréia no gênero conto. E o faz com o pé direito. (Continua o preconceito com os canhotos. E sou canhoto.) No dizer de Valentim Facioli, nas abas, “Fernando Fiorese é um sujeito muito lido, culto, informado e criativo. Os quatorze textos enfeixados nesse livro são quatorze formas diferentes e originais de escrever contos”. E manda um recado: “O que conta é que a pletora de contos escritos e publicados no Brasil no último meio século por autores bons, excelentes, mais ou menos, medíocres e ruins parece carecer, nestes tempos novos e atuais, de cristalizações e sínteses que ajudem os estudiosos, os apreciadores do gênero e os leitores em geral a abrir cortinas e chegar a terreno mais ou menos seguro”.

A publicação de Tobias Pinheiro, Menino do bandolim, tem prefácio de Antônio Justa, que, desde as primeiras linhas, trata de definir o gênero da peça: “É como dizem alguns, um livro de crônicas, mas posso acrescentar que se trata de obra muito mais abrangente, porque o distinto polígrafo de Marcas de Luz quando labora o livro nunca se conforma com os limites de um só gênero literário”. Mais adiante: “Nestas páginas, quase memórias, não perdura vestígio do ardil que muitos escritores costumam empregar para fugir à veracidade da vida vivida”.

Fazendinha, de Rodrigo Marques, jovem conterrâneo meu, traz orelhas assinadas por meu amigo, poeta e professor de Literatura Roberto Pontes: (...) “não sabemos onde principia ou finda a poesia, pois em suas linhas não há limites no plano do gênero. Mas nem vem ao caso cogitar sobre gênero, porque o estar à vontade com a Língua Portuguesa e a invenção plena é a marca de Rodrigo Marques nesta cativante fabulação.” E mais: “Fazendinha conseguirá, com justiça, tornar-se par de Ou isto ou Aquilo, de Cecília Meireles, A arca de Noé, de Vinicius de Moraes, ou Os Saltimbancos, de Chico Buarque de Holanda”.

Cansei as juntas e os olhos e é chegada a hora de a onça (o tigre) beber água. Ficarão para outro dia o Manual de bruxaria, de Eduardo Luz, e o Portal 2001, presente pré-natalino do novo amigo Claudio Parreira. Para dezembro ou 2011, nossos antepassados Sebastian Brant, Ludwig Tieck e F. Scott Fitzgerald.

Fortaleza, 15 de novembro de 2010.
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Ao que nos uniu (Inocêncio de Melo Filho)


Um livro nos uniu

Que não nos separe as páginas amareladas

Um livro nos uniu

Que não nos separe os espirros alérgicos

Um livro nos uniu

Que não nos separe as brochuras

Que se avolumam pela casa

Um livro nos uniu

Que não nos separe os antagonistas

Dessa trama

Um livro nos uniu

Que não separe a solidão

Das personagens dessas histórias

Um livro nos uniu

Que nada nos separe

Amém...
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domingo, 14 de novembro de 2010

Considerações sobre miniconto

(De uma carta de Wilson Gorj a Nilto Maciel)



Alcançar um bom nível literário é sempre difícil. No miniconto, principalmente. [...] A meu ver, os microcontos devem ter personagens sem nomes próprios (a menos que o nome contribua de alguma forma para o significado do texto). Um nome próprio tem um peso que o miniconto não suporta, pois traz consigo identidade e personalidade. Aos personagens dos minicontos, quase sempre, isso é dispensável, haja vista o seu parentesco com as fábulas e, destacadamente, as parábolas. Como nestas, os personagens ficam melhor quando genéricos (o soldado, a viúva, o corno, o filho pródigo) ou, ainda, quando são indefinidos. Ex.: “Achou uma caneta na rua”. Perceba que assim o leitor é absorvido imediatamente pela frase. Dá-lhe a impressão de que é ele quem achou a caneta; de certo modo é como se o leitor se sentisse o personagem da história. A identificação é imediata, instantânea. Diferentemente de quando o personagem é apresentado com um nome próprio. Cria-se certo distanciamento – distância que um romance ou mesmo um conto tratam de eliminar no desenrolar da história. O miniconto não dispõe do mesmo tempo. Por ser muito curto, nele o envolvimento precisa ser imediato, a entrega, instantânea. Tanto defendo este ponto de vista, que meus minicontos raramente possuem personagens com nomes próprios. É por isso que me considero um escritor de situações, não de personagens. Um minicontista está mais para Esopo e Gibran do que para Flaubert e Dostoievski. Se comparássemos os artistas da palavra com os da imagem, o romancista estaria para o cineasta; o contista, para o produtor de curtas, e o minicontista, para o fotógrafo. Nesta linha de raciocínio, os minicontos seriam flashes do cotidiano, enquadramentos ou registros de certas situações.

Outra ideia que me ocorre a respeito do miniconto é que talvez este seja dos gêneros o mais literário. Nisto se parece muito com a poesia. Por quê? Um bom miniconto só se realiza por meio de uma acertada disposição de palavras muito bem escolhidas. Não conseguimos contá-lo de outra forma, sob o risco de perder a sua essência (é aí que se difere da piada); portanto, não há como migrá-lo para outra linguagem, como a do cinema, por exemplo, que é bem viável aos romances. Os minicontos (nem todos, claro) nos encantam não só pelo que contam (ou menos por isso, até) mas muito mais pela forma como contam seus enredos e situações.
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Considerações sobre “Olhos azuis – Ao sul do efêmero”, de Emanuel Medeiros Vieira (Maura Soares*)


Como em tantos outros dias que amanhecem, acordei de madrugada, precisamente às 3.45h do dia 7 de março de 2010 e retomei a leitura de “Olhos Azuis – Ao sul do efêmero”, de Emanuel Medeiros Vieira, leitura interrompida às 23 horas do dia 6 para dar lugar ao sono que se avizinhava e que foi direto, sem escalas.

Acabou. “O último ato coroa a peça”, já disse alguém, recordo-me somente da frase agora.

sábado, 13 de novembro de 2010

Eleição (Jéssica O. Dias*)


Confusão. O suor escorria pelas têmporas, ele apertava os olhos, erguia as sobrancelhas, esticava o indicador; um calafrio perpassava o corpo, a mente quase explodindo, milhões de números na corrida do futuro. O peso de fazer a escolha errada dominava. E, agora, o que fazer?

– Vota! – gritou o mesário.

– Você demora demais, a fila é muito grande! – gritou a outra.

A pressão aumentava, a mental e a corpórea; são tantos cargos políticos em quem votar pra cada um?

– Apresse, moço!

– O Brasil não tem futuro, não! Vota em qualquer um!

Diante disso, Alberto quase entra em estado de choque. Como pode o cidadão tratar dessa maneira o futuro da nação? O voto é tão banal assim? Alberto iniciou essa discussão com o mesário.

– Essa não é a hora de refletir qual o melhor candidato, senhor. A campanha serve para isso.

Errou Alberto, errou o mesário.

– A pressa é inimiga da perfeição.

– A demora é inimiga do tempo e da população.

Alberto digitou os números que venceram a corrida em sua mente. A tecla verde o encarava como num pesadelo que duraria quatro anos. A culpa por não dar atenção às campanhas eleitorais dos candidatos o possuía e, antes que mais alguém gritasse, Alberto apertou a tecla verde. O som da urna encheu a sala e todos os mesários, antes em pé, se sentaram aliviados.

Foi a confirmação de que ninguém dá valor à eleição. Nem mesmo o mesário, que tem o dever de mostrar a importância desse fato histórico. Alberto confirmou que todo cidadão, não importa a eleição, não reflete durante as campanhas sobre qual o melhor candidato, e, no melhor estilo brasileiro, deixa pra fazer tudo em cima da hora.

– Cinco horas, acabou o tempo, fim da sessão!


*Jéssica O. Dias tem 14 anos de idade e cursa o 9° ano, em Fortaleza.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Odalisca perdida no meu sonho mouro (Nilto Maciel)


(Para Carmen Sílvia Presotto)

Causa e efeito, causalidade, destino, deus, deuses. Ontem à noite pensei nisso. E consegui dormir cedo, antes das duas horas. Pois ontem acordei bem cedinho. Antes das sete. Acordei com um só pensamento: reler As relações perigosas. A ideia erótica me veio ao acaso (ou por acaso): não tive sonhos amatórios (a não ser com uma cabra que se aproximava do alpendre onde eu dormitava e me lambia os pés); não assisti a filme de devassidão na noite anterior; ninguém me falou de sexo; não imaginei nenhuma mulher. Pois, à tarde, recebi mais uma visita de Jéssica Morais, a menina que conhece literatura russa e quer ser poeta. E sabem o que ela trazia à mão? Não, não eram As relações perigosas. Trazia Les liaisons dangereuses, de Choderlos de Laclos. Para não deixá-la impressionada, não lhe falei de minha manhã de fauno senil nem de minhas dúvidas metafísicas. Sem saber que dizer ou fazer, mostrei-lhe, na mesa, dois livrinhos brasileiros, nada obscenos: Dobras do tempo e Encaixes, de Carmen Sílvia Presotto. Quem é ela? Uma amiga. De onde? Porto Alegre.

Para não me deixar conduzir pelo interrogatório, pus-me a falar da poetisa gaúcha: Professora graduada em Língua Portuguesa e Literatura Clássica, além de formação psicoanalítica. Jéssica fazia uma caretinha (olhei de relance para ela, por acaso). Talvez o senhor precise mesmo dela. Fiz-me de desentendido. Aceita um suco de graviola? Quem fez?

Saciadas nossas sedes, voltei aos livros: Carmen participou de diversas oficinas de literatura. O que são oficinas de literatura? Disse duas ou três frases longas e embaraçosas (como costumam fazer os palestrantes que não sabem explicar o explicável) e sapequei mais informações sobre a escritora sulista: Edita o blogue vidraguas.com.br (Projeto Vidráguas, cujo objetivo geral é “Possibilitar o estudo e a organização de Poemas, Contos, Novelas – escritos – para que saiam das gavetas e ganhem corpo escritural para serem publicados”).

Feita a apresentação, propus-me ler, pelo menos, um poema. E li “Expiação”: “Ah, seu fantasma! / Coloquemos tinta nas veias / Vistamos nossas carnes // Sem pantalhas, / baixemos a cortina / e zarpemos // Decantados / sem frestas nem gavetas / homens-palavras / sejamos!”

Jéssica bateu palmas. Fui além disso, bradei: Viva a Poesia! E tão retumbante se deu meu brado que o eco despertou um passarinho que bicava o chão de meu quintal (seria um pardal?) e seu bater de asas me fez vislumbrar uma noite de terror. Que pesadelos eu teria? Jéssica, não lerei mais Choderlos de Laclos. O senhor tem medo da luxúria? Não, tenho medo de enlouquecer. Ela abriu um dos livros e leu: “Nessas telas absurdas, / um encantamento / entre fantasmas prolifera. // Sujeito metido! / Canta como se tudo que importasse / fosse canção”. Fechou o livro, deu um beijo na capa (receba esse ósculo, Carmen) e decidiu: Depois de Laclos será a vez de Sade. E se despediu de mim, num riso de odalisca perdida no meu sonho mouro.

Fortaleza, 10 de novembro de 2010.
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Sertão de todos nós (Pedro Salgueiro*)

Jornal O POVO (10.11.2010)



Fui, sou e serei, para sempre, apenas um sertanejo exilado no litoral. Nada aqui me diz respeito, por aqui tudo é transitório, passageiro... Apenas espero a triste hora do alegre regresso. Aos trinta, por puro esnobismo, comprei gaiola na última linha do oceano. Cuidadosamente de costas pro mar, pra que toda manhã pudesse desdenhar meu asco de pequeno-burguês físico mas nunca mental. De lá pra cá andejo em linha reta rumo aos Inhamuns. Aos quarenta atravessei a fronteira imaginária da 13 de Maio, linha simbólica de todas as Fortalezas. Em sentido contrário aos tolos, tontos suburbanos mentais. Meu voo é de avoante ferida, com tiro de chumbo nas c’roas do rio Acaraú, nas quebradas do Riacho do Gado, por trás da Barra da Oiticica, de lado da Caconha de todos os loucos. Pois em cada quarto de qualquer família pulula um doidinho de testa quadrada, encarnado de sangue da abelha Capuchu... Enquanto o Diabo, rosianamente, redemoinha no terreiro. Gracianamente seco, corre meu sangue pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o direito, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha. Apenas quando se estende pelas estradas do Canindé, as palavras vão escasseando, até quase sumirem da voz. Água evaporando na língua morna de todos os nós. De marejado apenas os olhos, único órgão úmido do sertanejo que volta. Sou filho, pelos dois lados, da primeira geração que saiu do campo, que desbravou a cidadezinha no pé da Serra das Matas. Não sou filho de matuto urbano, mas de matuto dos matos, de pés rachados na urina do lajedo quente. Meu pássaro é o Camiranga de beira de caminho, comedor de Cassaco e Tejubina de grota. Meu ouvido é de rabeca triste cantada por cego em final de feira. Minha casinha é branca, de parede grossa, quase na sombra de uma Jurema imaginária. Mesmo longe de nosso chão, formamos confrarias de quase surdos-mudos. Apenas olhamos para o nascente a perscrutar chuva. E quando ela vier, é certo que vem, virá sempre, um dia. Já nos encontrará de mãos trêmulas e mala pronta.

* Pedro Salgueiro é cearense de Tamboril. Publicou O Peso do Morto (1995), O Espantalho (1996), Brincar com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), todos de contos; além de Fortaleza Voadora (2007), de crônicas.
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vazio (Ronaldo Monte)

Já disseram antes de mim, mas é como estivesse dizendo pela primeira vez: na medida em que envelhecemos, o mundo vai ficando cada vez mais vazio. Cada morte de um amigo nos deixa uma parte do mundo em escombros, como a explosão de um obus. Hoje, meu mundo ficou mais vazio. Mais um pedaço de sua construção ficou em ruínas. Morreu Luís Martinho Maia. Maia será lembrado por muitos pelo mestre que formou gerações de psicanalistas na Paraíba. Será lembrado por muitos dos que beberam de sua sabedoria nas salas de aula do Departamento de Psicologia da UFPB. Mas só os que provaram da sua amizade poderão avaliar o verdadeiro sentido da sua perda. Cada um, certamente, se lembrará com carinho de um ou muitos momentos de intimidade com o Maia. Eu tenho muitos momentos desses gravados na memória. Um deles, porém, me volta sempre à lembrança, como a maior oferta de cuidado que se possa receber de um amigo. Eu e Glória tínhamos perdido um filho com três anos e meio de idade. Foram muitos os amigos que cuidaram de nós nesse momento de franco desespero. Mas foi o Maia que fez por nós o que a dor nos impedia de fazer. Ele estava em nossa casa e acompanhou todo o nosso esforço em acalmar e botar para dormir o nosso filho mais novo. Então, ele tomou o menino nos braços, foi com ele para a calçada e lá ficou até que o nosso filho parou de chorar e dormiu. É esta lembrança que me enche os olhos de lágrimas agora, em que tento escrever esta homenagem ao amigo morto. É esta lembrança que torna o meu mundo menos vazio, mesmo com o desaparecimento do amigo. E será esta lembrança que me salvará todas as vezes em que eu me sentir vazio de amigos.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sou meu próprio algoz

Conversa de Nilto Maciel com Cláudio B. Carlos (CC)

(Cláudio B. Carlos)


Conheço (virtualmente) Cláudio B. Carlos (CC) há poucos dias. Ele vive no extremo sul do Brasil, Santa Cruz do Sul, centro do Rio Grande do Sul. Eu, em Fortaleza, nordeste brasileiro. Conhecemo-nos porque somos escritores e temos acesso à Internet. Há alguns anos, talvez não fosse possível esta entrevista. Em 17 de outubro deste ano ele me mandou um e-mail (o que deve ter feito a outras dezenas de pessoas), para se apresentar: Estou no blog “Jamé Vu” (site criado e editado por Homero Gomes) e gostaria de ser lido por você. E se desculpava por se mostrar, sem ser conhecido: “Nem é por mim que envio, mas pelo site (que é ótimo e vale a pena)”. Senti-me curioso do blog, pelo nome. Li o conto dele: “Um arado rasgando a carne”. Fiquei fascinado. A partir daí, não mais deixamos de conversar. E lhe propus uma entrevista à distância. Quis entrevistá-lo exatamente porque não o conhecia, nunca tinha ouvido falar o seu nome, e acredito ser ele um desconhecido da maioria dos leitores brasileiros de prosa de ficção e poesia. E porque quero ser diferente dos outros entrevistadores. Afinal, não sou jornalista, não trabalho como jornalista e tudo o que escrevi e escrevo é apenas para ser lido.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ateísmos (Manuel Soares Bulcão Neto)


Roma pagã. No Coliseu, milhares de cidadãos, com expressões malignas, amontoam-se em suas arquibancadas. Embaixo, na arena, homens, mulheres e crianças são destroçados por garras e mandíbulas felídeas. Enquanto dura o espetáculo de sangue e horror, a plateia, em êxtase, grita: "Morte aos ateus!".

Sim, como bem lembrou a teóloga Karen Armstrong (Uma história de Deus, Companhia das Letras, 1994, p. 107), os cristãos, na Roma antiga, eram considerados ateus – por desacreditarem na existência das divindades do Império, tidas como ídolos ou falsos deuses; por não reverenciarem o César como dominus ac deus; e também porque, para os romanos, um deus único "em estado gasoso" era-lhes contraintuitivo, destoante do bom senso da época.

De fato, a palavra "deus" é problemática do ponto de vista semântico, talvez polissêmica, uma vez que serve para designar entidades díspares: uma paleolítica minhoca-totem; o elefante cor-de-rosa (Ganecha) do hinduísmo; as quimeras egípcias; os césares (Tibério, Calígula, Nero entre outros tiranos sádicos); os parentes mortos dos árias; o ancião IHWH - que ceava na mesa de Abraão e se autoproclamava "o deus dos deuses" (Deuteronômio, 10; 17); o primeiro motor de Aristóteles; a natura naturans (geratriz da natureza) de Spinoza; a mão de Maradona…

Atualmente, mesmo em Estados laicos, não é incomum manifestações antiateístas raivosas, inclusive respaldadas por setores da mídia, como a que ocorreu em nosso País, há pouco tempo, sob a batuta de um apresentador de noticiário policial. Nesses pogroms, em discursos prenhes de ódio totalitário contra o Diferente, os ateus em geral são demonizados, apontados como criminosos reais ou potenciais, acusados de imorais em princípio e de niilistas incorrigíveis. Diga-se que, no Ocidente, e para esses religiosos supostamente "do Bem", os ateus vilipendiados não são os que descreem dos deuses pagãos (estes há muito foram renegados pelo monoteísmo abraâmico como ídolos inanimados ou demônios), mas do Único judaico-cristão: aquele cujo passado negro – incomensuravelmente mais preto que o da presidente Dilma – jaz registrado no Velho Testamento; e que, como dizem, escreve certo com linhas tortas e caligrafia tão ruim que não é possível decifrá-la (vendo templos desmoronando sobre fiéis, fica difícil distinguir o misterioso solilóquio de Iavé daquilo que Shakespeare, em Macbeth, chamou de "parolagem furiosa e sem sentido de um idiota").

A propósito, o ateísmo que surgiu na esteira do iluminismo (o de Marquês de Sade é exceção) não tinha por objeto a libertação das "amarras" morais e entrega ao "vale tudo" vaticinado por Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski. Ao contrário, foi o fato de a religião ter se revelado um instrumento de dominação e exploração pelo terror – suas divindades cruéis tornavam a existência mais medonha do que era na realidade – que muitos homens "justos e bons" converteram-se ao ateísmo.

Para os ateus modernos, a moral não carece de justificação sobrenatural. Creem eles – sim, tal ateísmo, embora racionalista, também é uma crença – que suas raízes estão fincadas no coração do homem; vale dizer: é da nossa pulsão gregária, empatia pelo semelhante, curiosidade pelo estranho (atração pelo estrangeiro, pelo outro) e desejo de autonomia que os grandes valores se alimentam. De resto, lembro que as qualidades mundanas acima citadas são comuns a teístas, ateus, agnósticos (entre os quais me incluo), petistas e tucanos. Que se sobreponha, então, esta unidade, e não a unicidade.
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domingo, 7 de novembro de 2010

Blogue de Tanussi Cardoso

Tanussi Cardoso é um dos grandes poetas brasileiros. Além disso, é um divulgador abnegado da literatura. Vale a pena visitar o blogue http://tanussicardosopoetaetc.blogspot.com/

Um de seus livros é 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2010. Seleta de seus melhores poemas.

Os organizadores do evento "EU, LEITOR", que teve efeito no Centro Cultural Justiça Federal do Rio de Janeiro, de 26 a 30 de outubro de 2010, incluiram este livro, entre os 25 títulos obrigatórios como sugestão de leitura de poesia. Entre os livros selecionados de autores vivos, além dos "50 Poemas Escolhidos pelo Autor", de Tanussi Cardoso, foram citados os livros de Carlito Azevedo, Leonardo Fróes, Ferreira Gullar e Afonso Romano de Sant'Anna. Como honrosa companhia, livros de nomes exponenciais, como Drummond, Bandeira, Baudelaire, Blake, Ana Crisina César, Leminski, Maiakovski, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Mário Quintana, Rimbaud, Rumi, Waly Salomão, Gaspara Stampa/ Louise Labe e Elizabeth Browning, Bruno Tolentino e Whitman.
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Dois poemas de Carmen Silvia Presotto



De mim

algo não pode falar


uma cegueira

um coágulo


cavalos entre retinas

retalham os sonhos


de mim,

hoje não posso escrever


tropeço em pesadelos

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Velha de mim


cansada de atos

cansada de fatos


de fato cansada


saio à rua


troco paisagens

rebusco abraços


sem mim


lotada de outros

escrevo
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sábado, 6 de novembro de 2010

Dois livros de Cláudio B. Carlos (Nilto Maciel)



Até o mês passado, eu não sabia de Cláudio B. Carlos, como não sei de dezenas, centenas ou mesmo milhares de escritores brasileiros que publicam livros por pequenas editoras ou se contentam (talvez este não seja o verbo apropriado) com mostrar suas obras em blogues (revistas eletrônicas). Muitos nadam há anos nas águas turvas da mediocridade. E se sentem semideuses. Outros conseguem alcançar lagos de águas límpidas. E se sabem capazes de nados olímpicos. Cláudio B. Carlos é um destes. No entanto, aqui não falarei dele. Quero apenas me referir a dois de seus livrinhos (cerca de cinquenta páginas cada; e seria muito menor o número, se a parte impressa da página fosse maior): Um arado rasgando a carne (2005) e O uniforme (2007), ambos pela Editora Maneco, de Caxias do Sul.

Canudos numa visão moderna (Enéas Athanázio)


NOBEL DE LITERATURA

Outubro trouxe a agradável notícia de que a Academia Sueca concedeu ao escritor peruano Mario Vargas Llosa o Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Nascido em Arequipa, em 1936, e autor de uma obra consagrada em todo o mundo, Llosa segue os passos de outros latinoamericanos que também mereceram o mesmo prêmio, entre eles Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Gabriel García Márquez. Julgando-se “esquecido pela Academia”, o escritor considerou a premiação “algo fantástico” e se revelou feliz com o galardão máximo da literatura mundial. Vivendo entre a Europa e o país natal, ele tem fortes ligações com o Brasil, onde esteve por várias vezes, inclusive percorrendo o sertão da Bahia e de Sergipe para escrever o notável romance “A guerra do fim do mundo”, uma de suas maiores obras. Em recente entrevista, disse ele: “Em 1979, estive nos vinte e cinco povoados do interior da Bahia e do Sergipe por onde Antônio Conselheiro teria passado, ouvindo os filhos e os netos daqueles que o haviam escutado. Talvez uma das maiores emoções que tive na vida foi estar no lugar onde ficava Canudos. Sem dúvida foi marcante conhecer os lugares onde se passa “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, para depois escrever “A guerra do fim do mundo”, sobre a Guerra de Canudos.”

Em homenagem ao novo Nobel, reproduzo aqui meu ensaio sobre esse romance monumental e que mereceu aplausos do Prof. Fábio Lucas, um dos maiores críticos nacionais.


CANUDOS E CONTESTADO

É uma observação antiga que “Os Sertões” têm inibido o aparecimento de outras obras sobre os episódios de Canudos, reveladoras talvez de fatos novos e com visões diferentes daquelas que foram sufragadas por Euclides da Cunha. Realmente, seria uma tarefa das mais árduas aventurar-se no terreno já palmilhado naquela obra monumental. Tenho lembrado tais observações quando ouço queixas de que a nossa Guerra do Contestado ainda não encontrou o seu Euclides. Se não temos uma obra daquela envergadura – o que é um prejuízo – também não há receios na abordagem do tema, que continua em aberto, permitindo o aparecimento de vários livros, como vem acontecendo – o que é benéfico. Até que um dia, da síntese desses trabalhos todos, acabe surgindo a grande obra definitiva, quando terá o Contestado descoberto o seu Euclides.


A ÓTICA DE UM ESTRANGEIRO

Sobre Canudos, no entanto, foi preciso que um estrangeiro se aventurasse a enfrentar o assunto e produzisse outra obra monumental, embora de concepção diferente, como aconteceu com Mario Vargas Llosa e seu livro “A guerra do fim do mundo” (Francisco Alves – Rio – 1981), traduzido por Remy Gorga, filho. Escritor de reconhecidos méritos literários, Vargas Llosa criou um romance empolgante em que a imaginação do ficcionista encontrou campo fértil para plantar mil figuras e desenvolver seus feitos, sem abandonar, porém, as linhas mestras dos acontecimentos históricos comprovados. Para isso foi necessária intensa pesquisa, permitindo ao autor colocar seus personagens e sua vivência dentro daquele contexto exato em que se desenvolveram os fenômenos que culminaram com a destruição de Belo Monte. Esse é um aspecto admirável do romance, mantendo o relato vivo e atraente, ainda que o epílogo fosse de antemão conhecido. A circunstância de que o leitor saiba o desenlace, por se tratar de uma ocorrência histórica inalterável, é o grande desafio desse gênero e que tem inviabilizado tantas tentativas entre nós. O escritor peruano, neste romance, venceu tal desafio.


MÚLTIPLOS PERSONAGENS

As incontáveis personagens que se cruzam e entrecruzam, verdadeiras ou fictícias, são tratadas com minúcia, como que biografadas naquilo que se sabe de suas vidas, esboçando-se seus perfis morais e psicológicos em consonância com seu passado. Assim acontece com Maria Quadrado, com o Beatinho, com o Leão de Natuba, o Anão e com tantos outros. E nesse trabalho a criatividade do ficcionista foi submetida a todas as provas. Apenas a figura de Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel) me parece um tanto distante, meio difusa, como se o escritor não contasse com muitos dados e temesse dar largas à imaginação e com isso pôr a perder a verossimilhança. O coronel Moreira César, por exemplo, aparece muito mais nítido e claro nas suas reações, mais real e humano.


A ALMA DO POVO

Outro aspecto interessante é observar como o autor, mesmo sendo estrangeiro, conseguiu penetrar tão bem a alma daquela gente sertaneja. Seus personagens agem e reagem como brasileiros, coisa que não acontece nos romances estrangeiros, onde o leitor do Brasil percebe atitudes que nem sempre coincidem com as nossas. Creio que isso vem mostrar que nós, latinoamericanos, não somos assim tão diferentes como nós próprios às vezes nos imaginamos. Também a paisagem física é descrita com perfeição e qualquer leitor, mesmo que não a conheça, não terá dificuldade em visualizar as regiões desoladas em que os fatos aconteceram.

A obra de Vargas Llosa mostra que seu autor nutre, se não simpatia, pelo menos compreensão e tolerância para com os seguidores do Conselheiro. É evidente o prazer com que cria as figuras mais bizarras – aleijados, enjeitados, doentes, cangaceiros e criminosos convertidos – e os vai reunindo, um a um, em torno do Conselheiro, em Canudos. E todos eles, sem exceção, por mais brutal que fosse seu passado, assumem a postura humilde e submissa de verdadeiros crentes. Mesmo quando apelam às armas e se entregam à guerra sem quartel, agem sem ódio às pessoas que combatem, lutando com fatalismo na defesa de sua fé e de seu Chefe. Exemplo bem claro, e a que o autor deu ênfase, é o de Pajeú, quando a decisão superior lhe tirou a mulher por quem se tinha apaixonado. É claro que, em outras circunstâncias, o ex-cangaceiro se rebelaria e tomaria a mulher desejada pela força. A cara de Pajeú se contrai, “a cicatriz parece inchar-se, rachar-se, e a boca se abre para perguntar ou, talvez, protestar.” Mas ele reflete, faz a si mesmo algumas perguntas, e fica “outra vez inexpressivo, verde-escuro, sereno, quieto, respeitoso, o chapéu de couro na mão, olhando o catre.” É esse um dos grandes momentos do livro.


O CONSELHEIRO E SEU SÉQUITO

Narrando com fluência e sem omitir detalhes, o romancista vai mostrando as andanças do homem moreno, que cobre sua magreza com um hábito de azulão, pelos carreadores calcinados dos sertões. Restaurando capelas deterioradas pelo tempo, cercando cemitérios relegados ao abandono, aconselhando em voz suave os doentes e os infelizes, ele parece um beato como tantos outros e passa meio despercebido, ainda que a cada novo aparecimento seja maior e mais estranho o séqüito de seus seguidores. Nas paradas e nos pernoites em vilas perdidas há sempre alguém do lugar, homem ou mulher, que anoitece e não amanhece, desaparecendo com o monge andarilho. E a si próprios eles se chamam “jagunços”, o que quer dizer revoltados. Essa revolta, aos poucos, se dirige contra a República recém-proclamada, seus editais, sua moeda, seus impostos, o casamento civil, os fazendeiros que a apóiam. A República é o próprio Anticristo e urge combatê-la. Começam os atos de violência, de início isolados, dispersos, depois planejados, centrados. E o bando cresce, aumenta, incha: são centenas de pessoas, maltrapilhas, sujas, analfabetas quase todas, mas convencidas de que só o Conselheiro lhes poderá dar a felicidade, a justiça e a paz. O bando imenso não poderia continuar nas andanças, era chegado o momento de encontrar o refúgio onde não entrariam os impuros e lançar as raízes com a construção do Templo. Avistaram ao longe a mansão avariada da Casa-Grande e os ranchos da peonada do que foi a fazenda de Canudos, à margem do Vaza-Barris, e o Conselheiro então declarou: “Ficaremos lá!”


O ARRAIAL DA ESPERANÇA

Felizes e esperançosos ali se instalam, num sistema igualitário tosco, em que tudo era comum, e se organizam com base na experiência prática para uma vida de sonho que não vai durar muito – apenas alguns meses. Iniciam em pedras as obras do Templo, as lavouras, as casas, o armazém, a assistência, a defesa. Todas as tardes ouvem a palavra do Conselheiro, serena mas firme. Novos crentes, de todos os recantos, doentes, infelizes, foragidos, perseguidos, desesperados, chegam a toda hora.

Mas a República não pode tolerar aquilo, pois é a rebeldia contra suas normas, é um reduto monarquista, é o Estado dentro do Estado. Começam os ataques, frustrados pela defesa dos jagunços, que vão se repetindo cada vez com maior ênfase, com mais soldados e armas destruidoras, numa guerra do fim que mundo, que convulsionou os sertões e balançou os alicerces da jovem República. Gastaram-se fortunas, morreram centenas (inclusive Moreira César e o Conselheiro), até que Canudos foi esmagada, sem que ficasse pedra sobre pedra. Cenas terríveis, bárbaras, primárias, se repetem de lado a lado até o desmoronamento completo do arraial da esperança. Salvam-se uns poucos com a ordem de continuar a missão de resgatar os fatos para a História.


CAUSAS E EXPLICAÇÕES

Vargas Llosa descreve tudo mas não pretende explicar, mesmo porque Canudos não tem uma só explicação – mas são múltiplas e complexas. Aponta causas antigas e profundas que se conjugaram no momento histórico – sociais, econômicas, políticas, religiosas. Mostra o misticismo arraigado do sertanejo, com tendência ao fanatismo, decorrente dos meios usados pelo colonizador português para introduzir o catolicismo na região. O resultado é este romance magistral que deixa no leitor, ao lado da sensação de ler uma autêntica obra de arte, a melancolia provocada por tanta violência, a rigor desnecessária, pois, como já se disse, o caso seria mais de educação e diplomacia que de armas e de guerra.

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Este ensaio foi publicado originalmente no livro O PERTO E O LONGE, Blumenau, Edição da Fundação “Casa Dr. Blumenau”, Vol. I, págs. 5 a 10.

Após o anúncio da premiação, novas edições brasileiras das obras de Vargas Llosa estão sendo lançadas, inclusive do livro aqui comentado.
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hércules e Penélope (Simone Pessoa)



A paz de Hércules foi rompida no dia em que Penélope adentrou as dependências da casa. Serelepe, Penélope corria, pulava, puxava o tapete, estancava de rompante e ensaiava os seus primeiros latidos. O rabinho, então, não parava de abanar.

Embora sendo o pai da pequena, Hércules não gostou nada daquele serzinho inquieto, irritante. Ela, ao contrário, sentiu o maior interesse pelo pai: procurava-o sempre, tentava farejá-lo, seguia seus passos, pois seu destino era brincar com a criatura com que mais se identificava. O impasse estava criado: ele não queria acordo, mas ela não lhe dava trégua.

O distanciamento entre as idades de Hércules e Penélope era o grande complicador da aproximação. Um cãozinho de quase nove anos, que corresponde a cerca de 63 anos se humano fosse, quer sossego, contemplação, rotina e já não tem tanto apetite para brincadeiras e estripulias. Ela, por sua vez, um filhote apenas, é toda curiosidade. Quer mais é fazer danações e descobrir as coisas interessantes com que se depara a todo instante. Assim, um sapato, um cadarço, uma meia, um fiapo de pano, um pedaço de papel, uma ponta de colcha de cama, um saco plástico, uma alça qualquer, uma chinela, uma barra de calça, um dedo, um tornozelo, nada passa incólume e tudo converge para seus dentinhos ávidos de experimentação.

Por sua desenvoltura pueril, Penélope desperta enternecimento e graça. Sorrimos de suas irreverências e transgressões. Sua espontaneidade desconcertante conquista espaços que não imaginávamos admitir. Por isso, a casa se transformou com a chegada de Penélope, inevitavelmente, no centro das atenções.

O ‘sexagenário’ Hércules sofre, pois tem que dividir suas conquistas com a espaçosa Penélope. Como ele é lento e não está disposto a brigar por uma migalha de afeto, tento compensá-lo com momentos só dele. Continuo fiel a cumplicidades nossas a que Penélope nunca terá acesso, pelo menos enquanto Hércules viver. A caminhada da manhã, por exemplo, é única e só dele. Nossas conversas também são ímpares e ininteligíveis para ela. Penélope terá que comer muita ração até alcançar a grandeza de Hércules. Porém, que ele não saiba, longe de seu olhar, me deixo levar pelos encantos da maluquinha.

Assim, porta adentro – e afora também – o velho e o novo, o manso e o intrépido, o sutil e o exuberante, o maduro e o precoce, acabam por compartilhar os fluxos de amor pelas mesmas veredas e calhas incertas.

simoneps@fortalnet.com.br
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Profundamente (Inocêncio de Melo Filho)

Coma-me morena

Não tenha pena

Submeta-me a qualquer posição

Há de aguentar o coração

Se ele enfartar

Não tenha remorsos

Pois morrerei feliz de tanto amar

E se verá a alegria até nos meus ossos.
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Como fumaça erguidos: Ensaios de Eduardo Luz (Nilto Maciel)




O título Como fumaça erguidos (Fortaleza: Premius, 2010) saiu de Empédocles: (...) “e breve parte de vida em suas vidas tendo visto, / logo mortos, como fumaça erguidos, se dissipam” (...). Eduardo Luz é o autor. A obra é apresentada por Leite Jr – que leu os originais –, em “Um incenso para os deuses”. Lembra a trajetória de vida e na Academia do professor Luz: a infância no Rio de Janeiro, a paixão pelo futebol, a mudança para Fortaleza, a formação em Engenharia e Administração, a participação no GAPA, Grupo Arte por Arte, “no qual exercitou seu dom poético em versos que são cromos daquele Brasil”, a publicação dos romances Sangues e Quer vele, quer sonhe (1982), Lembrar, lembrava (1984) e Depois-depois das guerras (1985) e, agora, os ensaios, enquanto se doutora no Rio de Janeiro, em Literatura Comparada.

Inverdades (Tânia Du Bois)


“... eu me alumbro com a mentira, ela se deslumbra com a verdade” (Carpinejar)

É o processo de socialização que define o que é aceitável ou não. Omissões voluntárias, inverdades e mentiras fazem parte da vida social.

Toda verdade é relativa e devemos considerar “as mentiras” associadas ao desempenho de alguns papéis profissionais. Neles, podemos incluir os poetas que usam a “flexibilidade moral” para revelar os mistérios da literatura; dar vida a expressões mortas, criar palavras com sentimentos. Como afirmou Mário Quintana, “A poesia é talvez a invenção da verdade”; e na tradução de Antônio Olinto: “... a poesia acaba sendo a invenção da verdade ou a invenção de pequenas grandes verdades que, por momentos, elevem o homem acima da sua contingência.”

Maria de Lourdes Mallmann ao poetizar “Inverdades”, apresenta:

“Na vida somos atores / representando papéis / que nos impedem de Ser.

Vivemos uma inverdade / na prática de ações / que não queremos fazer.//
...
Os sonhos são ilusões / enganando a todo instante / fraudando as esperanças.

O artista mente, inventa / cria o que não existe / sobrevive da lembrança.”

e comenta: “as mentiras do homem podem ser as verdades do poeta. Ou será que a poesia é uma mentira que o homem quer revelar como verdade? Na poesia é necessário perceber a grandiosidade do que expressam e refletir nos mistérios da vida e da existência.”

Umberto Eco, juntamente com Marisa Bonazzi, em “Mentiras que Parecem Verdades”, analisa a pluralidade dos significados num mesmo significante, sempre voltado ao pensamento filosófico, não perdendo o equilíbrio do discurso, e mostrando-nos a consciência crítica dos perigos do ilusionismo.

Os poetas não podem ter o senso do certo ou errado; inverdades, porque toda a verdade é relativa: o que pode tornar a mentira uma questão moral é a intenção do mentiroso e a flexibilidade moral pode ser a chave para o sucesso profissional.

Temos Pedro Du Bois que retrata o que os poetas dizem porque não temem o que sentem:

“Mentiu o compromisso / de trazer a luz da manhã

presente no movimento / e no descompromisso

com que a natureza / produz seus fatos
...
Não mentiu o sonho / de transfiguração do corpo

e nele a luz / permanece inconstante.”
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Comentário de Emanuel Medeiros Vieira

Caro Nilto


Muito bom o teu texto sobre o Trevisan.

Homens que apanham da vida....

Na captação das vidas pequenas, anônimas, cinzentas, tão "desimportantes" (que, para mim, valem mais que as chamadas existências napoleônicas e soberbas), é feita uma profunda radiografia da condição humana.

Abração do Emanuel Medeiros Vieira
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Haveres (Pedro Du Bois)


Na terra que não é sua: o proprietário

na vontade que lhe escapa: o pânico

na descoberta da hora: o tempo

na desconfiança do ato: o fato

na memória encoberta: há quem conte

sobre o outro lado

memorizado em estrofes

intercaladas: há

o ranger de dentes

e a dor de cabeça

pelo não acontecido


na forma pública: o todo recolhido

ao sacrifício.


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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Inventário (Emanuel Medeiros Vieira)

(Em memória do professor Lauro Junkes, caro amigo e incansável estudioso da literatura catarinense)


Aquela manhã posterior:

qual?

Não a verei – canto da cigarra matutina

morango na relva

grama orvalhada


O espelho me leva a outros espelhos,

a Morte à espreita, sorri na esquina

e diz que sabe esperar: “Tenho mais tempo.”

Olho-a e retruco: “Passou a hora de ter medo.”

Mas sentirei saudades de um certo mar,

de um arco-íris que um menino contemplou

numa ilha ao sul do efêmero.


Cumpri os rituais: afiei o lápis, contemplei a folha

branca

(ah, pureza inatingível/impureza inaceitável).


Palavra arrancada da pedra: esta a memória que ficará.


No meio do café, Ela me olha de novo – fixamente.

Despisto, finjo que não a vejo, e sigo – é preciso

seguir.


Não, não verei meus olhos no momento derradeiro,

nem o novo dia sendo fundado.


As guerras que vivi?

Já não importam.


(Aquele que foi feixe de ossos e de emoções,

segue – pacificado – o rio.)
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dalton Trevisan e a desgracida moral (Nilto Maciel)

(Vênus e Cupido, Lucas Cranach, o Velho)

Não lembro quando li ou ouvi pela primeira vez o nome de Dalton Trevisan. Deve ter sido em jornal. Ou ao passar diante de livraria, em Fortaleza. Imagino depois de 1959, ano da primeira edição de Novelas nada exemplares. Naquele ano, eu só conhecia um pouco (e olhe lá) de José de Alencar, Machado de Assis, Coelho Neto e outros sujeitos que tinham escrito muito antes de eu nascer. Nem falavam (professores e livros de português) em modernistas.

Passados dez anos, envolvido com a ideia de revolução socialista, eu lia Marx, Engels e Lenine, e conhecia um pouco mais daqueles sujeitos que tinham escrito muito antes de eu nascer. Não dispunha de dinheiro para comprar livro. Ouvia falar de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Moreira Campos, Dalton Trevisan e outros escritores surgidos depois da Semana de 22. Mas não os conhecia, não os lia, porque não sobrava dinheiro para comprar livro. Logo, porém, conheci um rapazinho que bebia cerveja, cantarolava Chico Buarque e andava sempre com um livro novo. Talvez fosse 1970. Ou pouco mais. “Que livro é esse, Victor?” (Falo de Victor Cintra, que, naquele tempo, escrevia poemas e contos e me emprestava livros e se tornou professor de linguística). “A guerra conjugal. Quer ler?” E assim fui conhecendo e lendo Dalton Trevisan e outros escritores do meu tempo.

Pois leio Trevisan desde aquele tempo difícil (para mim, que andava de ônibus e não tinha dinheiro para comprar livro, e para o povo brasileiro, que andava de ônibus ou a pé e não tinha dinheiro para comprar pão). Leio e releio Dalton Trevisan, como leio e releio Machado de Assis.

Agora, 2010, cinquenta anos depois de ouvir o nome de Dalton pela primeira vez, ganhei um presente dele. Um livro: Desgracida. Trouxe-o meu amigo (admirador do velho vampiro, como eu) Pedro Salgueiro. Está assim dedicado: “Ao Nilto Maciel, cordialmente, Dalton Trevisan. Outubro 2010”. Obrigado, mestre! (Só isto posso dizer, cordialmente, de coração.)

Não sou crítico literário (apenas rascunho umas opiniões de leitura, de vez em quando) e, por isso, não estou aqui para analisar a obra do contista nascido em Curitiba. Nem este novo livro dele. Só digo que o li de cabo a rabo. Noventa ministórias (breves contos, micronarrativas, brevíssimas histórias) e quatorze cartas, as “mal traçadas linhas”. Por que estão aí ao lado da ficção? Serão tudo – contos e cartas – retratos do mesmo álbum? No mesmo livro, Pedro Nava, Otto Lara Resende, Rubem Braga, certa “Cara Senhora”, um “Caro X”, um “Senhor Prefeito”. Farpas e elogios. Como este a Nava: “Você é todos eles e mais você mesmo”. Sabem quem são “eles”? Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e outros.

Trevisan é um libertino da literatura. Não escreve para agradar ao censor. Será ele livre para escrever? Se é livre, sê-lo-á porque escreve? A liberdade não é pessoal e subjetiva, mas universal e objetiva. A liberdade é incompatível com a moral (e a religião) e a lei (o estado). Só haveria liberdade se não existissem a moral e a lei.

A pornografia e o erotismo estão em mundos opostos ao da moral e da lei. Quaisquer que sejam elas. Em “Pobre mãezinha”, o filho explica à mãe: “Transar é um menino beijar na boca de outro menino! (...) Transar é o menino pôr o pipi na popoca da menina! (...) É isso o que o pai faz... na minha mãe! (...) É isso... Então é isso... Na minha pobre mãezinha!”

Trevisan não tem medo de ser chamado de pornográfico, obsceno, erótico. Outros o foram e sobreviveram, tal como a moral e a lei. Não tem medo de ser acusado de imoral e ilegal (fora-da-lei, bandido). De ser julgado por pastores, padres, profetas, santos, deuses. De ser condenado à prisão, ao banimento, ao apedrejamento, ao enforcamento. Pelos moralistas e pelos legalistas (juízes, senadores, jornalistas).

Falou-se tanto de muro (o da vergonha, sobretudo). Derrubado, não se fala mais nele. Mas Dalton Trevisan sabe onde ele fica: “Entre a mão e o seio há o muro”. Isto é um conto dele. Não está assim disposto, como uma simples frase, uma afirmação. Está quebrado, distribuído na folha, como poema. O muro é a censura, a moral, a lei. A impedir o ato sexual. A proibir o ato sexual. A obstruir a ação, o movimento, a vida. A liberdade.

Mas Trevisan não é só a moral dos fabricantes e vendedores de roupas para cobrir as vergonhas dos humanos: “ó bunda bundinha bundona”. Ou dos comerciantes de binóculos, esses objetos feitos para o pecado dos voyeuristas: “Beijos molhados na penugem do pescoço”. Nem dos que fabricam e vendem televisores para expor a nudez das beldades e o castigo dos expectadores: “cada uma canteiro florido / girassóis afrodisíacos / inebriando o tempo e a história”. Trevisan também expõe a miséria social, e disso sabemos seus leitores. Miséria social e individual: meninas que se prostituem, mulheres que apanham de homens, homens que apanham da vida.

Fortaleza, 27 de outubro de 2010.
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sábado, 30 de outubro de 2010

A importância de E. T. A. Hoffmann na cena romântica francesa

Maria Cristina Batalha
Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense e Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autora de diversos artigos publicados em revistas especializadas nacionais e internacionais

(Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, 1776-1822)
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RESUMO

Se o gênero fantástico surge na França com as obras Le diable amoureux, de Jacques Cazotte (1772), e Le manuscrit trouvé à Saragosse, de Jean Potocki (1805), estas permanecem estreitamente vinculadas aos modelos narrativos do século XVIII e não conseguem impor-se na cena literária dominada pelo princípio orientador da verossimilhança. Na Alemanha, a explosão de fantasia, presente no maravilhoso de Achim von Arnim, traz um fermento novo ao romantismo nesse país e possibilita a evolução do gênero até alcançar a riqueza de recursos ficcionais trabalhados por E. T. A. Hoffmann em seus contos fantásticos. É então a partir das traduções da obra do contista alemão, ou seja, a partir de 1829, que o caminho da literatura fantástica é restabelecido neste país, inspirando alguns autores românticos franceses. No breve intervalo entre os anos 1830 e 1840, a literatura fantástica se apresenta, mais uma vez, como uma resposta à crise política e ao marasmo no qual a ficção francesa estava mergulhada, ganhando projeção e foro de literatura hegemônica. Mas, como mais um mito romântico, ela perde seu fôlego e acaba como paródia de si mesma na própria obra ficcional de Gautier, contista fantástico de primeira ordem, e que, pelo viés da ironia, promove a crítica à literatura de seu tempo.

Palavras-chave: literatura fantástica, romantismo, quebra de cânone, crise da representação

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Rahakanariwa (Rodrigo Novaes de Almeida)

                             (L'enfer, Hortus Deliciarum, de Herrade de Landsberg: 1125-1195)


– espírito abutre, entidade canibal, devorador de pombas

virgens, luas cheias brancas e senhor dos corvos –

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Hemingway em notas (Enéas Athanázio)


BIÓGRAFOS - O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) tinha aversão à ideia de ser biografado em vida ou mesmo nos cem anos após sua morte. Não obstante, é um dos autores que tem encontrado inúmeros biógrafos em vários países, inclusive no Brasil. Muitas dessas biografias são integrais, reconstituindo sua movimentada existência do início ao fim; outras são parciais, atendo-se apenas a determinadas fases; algumas são conjuntas, biografando em paralelo outras personalidades. Creio, porém, que o ponto de partida, a inspiração para a maioria delas, foi “Ernest Hemingway, o romance de uma vida”, de Carlos Baker, publicada entre nós pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Álvaro Cabral (Rio de Janeiro – 1971 – 639 págs.).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Complexo e imperfeito (Manuel Soares Bulcão Neto)

(Michelangelo, A criação do mundo)


Dias atrás assisti ao filme “Reflexos da Inocência”, do diretor britânico Baillie Walsh. Surpreendeu-me o trecho em que uma menininha, sentindo-se injustiçada em casa, pergunta ao jovem Joe Scot (Daniel Craig): “Quantos dias Deus levou para fazer o Mundo?”. Joe respondeu conforme a letra do Livro: “Em seis dias. No sétimo descansou.” A criança, então, blasfemou: “Se Ele fosse menos apressado, teria errado menos. Eu mesma faria melhor!?”

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O alfabeto mesopotâmico de teus olhos (Nilto Maciel)



(Nicole Kidman)


(Oscar Wilde)

Ia-se a tarde trôpega pelas veredas de minhas retinas cansadas, quando me assustou o ronco metálico da campainha de minha casa. Esquecera-me do combinado no dia anterior: Ivan Monteiro queria me conhecer. E perguntara: Posso me acompanhar de uma amiga? Pode e deve. E me abraçaram a juventude dele e a beleza dela. Feitas as apresentações, pusemo-nos a falar desordenadamente. Ambos estudantes de Letras. Ouviram falar de mim num boteco do Benfica. Meu nome anda assim enxovalhado desde que me arrisquei a frequentar a noite de Fortaleza, ao lado de Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Felipe Barroso, Manuel Bulcão e outros habitantes das cavernas do etilismo (não confundam com elitismo) literário. (Ó, desculpem minha confusão mental: eu queria falar de sua adoração por Dioniso e por Bach e chamá-los de dionisíacos e bachianos).

Oferta (Inocêncio de Melo Filho)

                                      (Semnele, 2005, de Patricia Watwood)


Dou-lhe minha ereção

Dou-lhe minha nudez sem pudor

Dou-lhe meus movimentos mais precisos

Dou-lhe a maciez do meu corpo

Que será seu leito

Para que acordes com brilho nos olhos

Dou-lhe as fantasias que desejares

Dou-lhe a leveza do tempo

Não o perceberás passar

Dou-lhe o ar que dança entre nós

Dou-lhe entre os lábios os melhores versos

Da minha lavra

Dou-lhe em único cálice o vinho

Da melhor safra

Dou-lhe o que prometo

Para sejas cativa ao meu amor.
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