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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ode à fermosa Mirna Rosa (Nilto Maciel)

(Venus, Vulcano e Marte, de Tintoretto)

Acordei doido para acordar, sair de um sonho noir. Andava por rua interminável. Quanto mais caminhava, mais à frente via o asfalto molhado e esburacado, casas fechadas dos dois lados, silêncio e solidão. Dos postes escorria luz amarelada e frouxa, que se espalhava pelo chão. Talvez se avizinhasse a madrugada. Ou aquilo fosse um mundo em ruínas, abandonado pela vida. Deslizavam ratos, em correria pelos cantos, à busca de esconderijos. Ao redor das lâmpadas, voejavam milhões de mosquitos. Eu queria fugir de lá, chegar a um refúgio, meu lar, quem sabe. Mas, cansado, não conseguia apressar o passo. E a avenida mais se estendia. Súbito, os buracos se multiplicaram e se expandiram. Pulava, saltitava, buscava o meio da via, voltava à calçada. Desiludia-me: nunca chegaria à claridade, ao fim da caminhada, ao sossego. Espreguicei-me, espichei-me todo, abri os olhos, sentei-me à beira da cama. Precisava logo de alegria. Lavei a cara, olhei-me com misericórdia e alcancei a copa. Abri a porta da geladeira, agarrei um copinho de iogurte e me pus a perambular pela casa. Fui abrindo portas e janelas, para ver o sol, o vento e a liberdade. Entanto, a tristeza noturna não me deixava. E assim vivi até a hora do almoço. Sentei-me na velha cadeira, prato à mão. Liguei a televisão para me aproximar da realidade do mundo e me afastar de mim: ateavam fogo a carros no Rio de Janeiro, fanáticos muçulmanos espedaçavam crianças com bombas, oradores fleumáticos incitavam os pobres a exterminar o Diabo. Tive nojo de tudo e vontade de reduzir a pó aquele aparelho daninho. Levei o prato à pia. Formigas passeavam famintas. Lembrei-me do quarto de hóspedes, onde há anos cochilam velhos poetas. Por acaso, dei de frente com secular grego: “As mulheres me dizem: – Anacreonte, / Toma um espelho e olha-te! / Velho! Nem tens cabelos nessa fronte!... / vês? O tempo desfolha-te”. Da Grécia rumei para Roma. Alcancei um Quinto Horácio Flaco a dormitar e me pus a soletrar: “Ibam forte via Sacra, sicut meus est mos, / Nescio quid meditans nugarum, totus in illis”. No meio da jornada, fui despertado por um chamamento metálico: acionaram a campainha do portão. Larguei a Selecta Latina e rumei na direção do átrio e, de lá, à entrada. Eis que toda a minha tristeza desmoronou. Diante de mim, a mais bela figura humana surgida aos meus olhos nos últimos sessentanos: Mirna Rosa. Nem me lembrava mais dela. Isto é, da visita que me solicitara dias atrás. Quem lhe falou de mim? Raymundo Netto. Que disse ele? Sua biblioteca é muito rica. E empresto livros a amigos? E dá. Isso não chega a ser verdade. Sabe o que quero? Não. As odes de Anacreonte. Para... Minha dissertação. Anacreonte? Como ponto de partida. E de chegada? Francisco Carvalho. Título. Talvez “De ode em ode: de Anacreonte a Carvalho”. Excelente. Posso ir visitá-lo? Sim, pode. Quando? Bem quiser.

Conduzi-a ao quarto dos hóspedes ilustres. Ela se estarreceu diante das estantes. Passeou os olhos pelas lombadas vetustas e foi de A a Z, num ziguezague estonteante. Senti tontura e me recostei em Machado de Assis, que recuou. Sinto a boca seca. Então beba água. Venha comigo. Fomos à fonte. Nunca decorei nada, a não ser um verso aqui, outro ali. Naquela tarde, porém, lembrei-me de uns versos do Camões: “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura; / Vai fermosa, e não segura!” São seus? Quem me dera ver-te fermosa, e descalça pelo mato. Regressamos à sala, eu a cambalear, atônito, febril e trêmulo. Ela, esvoaçante, cheia de sorrisos e curiosidades. Carvalho escreveu odes, mas também canções, cantatas, cânticos, elegias, epigramas, minuetos, noturnos, pavanas, provérbios, réquiens, salmos. Você conhece a “Ode Itabirana”? É longa e traz o refrão “Fica torto no teu canto, Carlos”. E “Ode circular”? Começa assim: “No maxilar do rei há restos de ouro / restos de prata, restos de marfim / e de palavras, pêssegos da ira”. A menina se extasiava e eu lia: “Deusa vegetal / de corpo límpido”. Estes versos são de “Ode à Árvore”. Linda é também a “Ode ao Sol”. Leio? Leia. Li: “Ó sol dos deuses olímpicos / me arrebata para os vales / do amor. Ali Eros passeia / em seus dourados cavalos”. Eu não cansava; Mirna descansava. Escute esta “Mínima Ode para um Grande Mamífero”: “O rumor de tua sombra / sacode os espíritos / da floresta”. Você não poderá esquecer a “Ode ao pastor das estações”. Longa, dividida em onze pequenos poemas e dedicada a Octavio Paz: “De verde desenhas o corpo / da mulher amada. O papiro do / ventre, os prados da lascívia”. Genial esse Carvalho. E a “Ode triunfal”? É poesia em alta rotatividade: de Homero, a Camões, a Pessoa. Veja o primeiro terceto: “Estavas, linda Inês, quase em sossego / à sombra dos arbustos da colina / cuidando dos rebanhos do argonauta”.

Invadia-me, pouco a pouco, a volúpia dos faunos. Busquei “Mosaicos eróticos”: “Tudo é breve e límpido no amor. / Tudo se ilumina quando / a ceia da carne celebra o instinto”. Mirna se derretia de paixão pelo verbo de Francisco Carvalho. Li, por fim, “Cântico da nudez”: “Toco tua nudez / de taça que ardesse / ao fogo do vinho”.

Convidei-a para conhecer meu quarto de dormir. Poeta dorme? Não sendo poeta, durmo até demais. E sonha? Com ruas desertas, casarões assombrosos, caminhos esburaquentos. Pelo menos isso serve para escrever. Ou me apavorar. E caí na cama feito um pacote bêbado, atrapalhando o sábado. Chico Buarque? Um pouco.

Fortaleza, 30 de novembro de 2010.
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Uma “redescoberta” da literatura africana no Brasil

Adelto Gonçalves (*)

I

A Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou no mercado uma nova coleção, Poetas de Moçambique, em que apresenta antologias dos maiores poetas modernos de língua portuguesa e origem moçambicana. Segundo a editora, os autores escolhidos estabeleceram freqüentemente diálogo com a literatura brasileira, especialmente com as obras de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cecília Meireles (1901-1964), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os primeiros volumes são dedicados a José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997).

Craveirinha, primeiro autor africano galardoado com o Prêmio Camões, em 1991, é um dos nomes fundamentais da literatura moçambicana. Filho de pai algarvio e mãe ronga, é dono de uma obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas coletâneas póstumas, além de dezenas de poemas espalhados em periódicos e antologias. Este livro reúne os principais poemas do autor com nota biobibliográfica de Emílio Maciel.

Já Rui Knopfli produziu uma encorpada e original obra literária durante o período colonial. Seus poemas selecionados estabelecem diálogo com as principais tradições clássicas e modernas da poesia. O livro traz posfácio com texto crítico e nota biobibliográfica de Roberto Said.

Ao mesmo tempo, a Ateliê Editorial, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), acaba de lançar Portanto... Pepetela, organizado por Rita Chaves e Tania Macêdo, professoras de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP). O angolano Pepetela, nascido Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, ganhador do Prêmio Camões de 1997, é talvez o mais importante romancista de seu país. Com apresentação do moçambicano Mia Couto, o livro reúne 38 artigos e ensaios de estudiosos da obra de Pepetela.

Nada mais alvissareiro do que essa “redescoberta” da literatura africana de expressão portuguesa. Mas desses três autores, apenas José Craveirinha é resultado da mistura do sangue português com africano. O que se espera é que esse interesse não se restrinja apenas a autores lusodescendentes, mas seja aberto a todos os africanos que fazem literatura em Língua Portuguesa.

II

Nada contra Pepetela, Agualusa, Mia Couto ou Luandino Vieira, nomes hoje incontestáveis no panorama da literatura africana de expressão portuguesa. O que se estranha é por que só descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas têm largo espaço nos veículos de comunicação de Portugal e nas universidades de Portugal e do Brasil.

Basta ver que o livro Portanto... Pepetela traz, ao final, uma lista de 56 teses de doutorado e dissertações de mestrado defendidas em universidades brasileiras sobre a obra de Pepetela. Um exagero, evidentemente, porque há muitos outros autores africanos de expressão portuguesa que poderiam ser estudados. E não o são. Não se quer acreditar que seja por racismo, pois o que se espera é que esse tipo de comportamento seja algo já superado, sem razão de existir neste começo de século XXI.

Talvez seja ainda a "saudade do império colonial perdido", como disse Patrick Chabal, professor de Estudos Africanos do King´s College, de Londres, para se citar aqui um nome isento destas questiúnculas lusófonas, que impeça os acadêmicos e editores portugueses de enxergar que a lusofonia é uma falácia – que não vai chegar a lugar nenhum – enquanto eles não aceitarem a verdadeira dimensão da língua portuguesa para além da Europa.

Em outras palavras: Pepetela, Agualusa, Mia Couto e Luandino Vieira fazem parte da última geração de lusodescendentes que, nascidos na África, praticam uma literatura com vivência africana. Dentro de 20 ou 30 anos, quando provavelmente já não estiverem mais neste mundo, quem irá representar a Literatura Africana de expressão portuguesa senão os autóctones ou um ou outro miscigenado?

Portanto, o futuro da Língua Portuguesa na África vai depender dos naturais desses países por onde os portugueses criaram raízes – e também daquelas regiões que, hoje, sofrem com a opressão de vizinhos que não falam português. É o caso da Casamansa, província do Sul do Senegal, que ainda aspira livrar-se da opressão de Dakar para se tornar um país independente e membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Será que em Casamansa não há um único poeta ou escritor que escreva em português? Ou somos nós que não queremos vê-los?

Como diz o escritor moçambicano João Craveirinha, por mais que se assumam "lusófonos", os escritores de tez escura serão sempre os "outros", os outsiders, os ex-colonizados. Entre esses, além de João Craveirinha, pode-se citar de uma enfiada Paulina Chiziane, Ungulani ba Ka Kossa, Nelson Saúte, Noémia de Sousa, Kalungano, Luís Bernardo Honwana e Suleimane Cassamo, de Moçambique; Adriano Mixinge, João Melo, Ondjaki, Victor Kajibanga, Uanhenga Xitu, Ana Paula Tavares, Luís Kandjimbo, de Angola; José Luís Hopffer Almada e Germano Almeida, de Cabo Verde; Abdulai Sila, Hélder Proença (?-2009) e Odete Semedo, da Guiné-Bissau; Alda do Espírito Santo e Tomás Medeiros, de São Tomé Príncipe. E muitos outros.

O que é preciso dizer – e quase ninguém o faz – é que persistir nessa visão preconceituosa é um erro, que equivale a dar um tiro no próprio pé, pois recusar-se a reconhecer que o futuro da Língua Portuguesa na África depende dos naturais daqueles países é condená-la ao desaparecimento. E olhem que quem escreve isto é um brasileiro de primeira geração, de pai português de Paços de Ferreira, Norte de Portugal, e de avós maternos açorianos.

III

Embora o desconhecimento no Brasil acerca dos assuntos africanos seja abissal, não se pode deixar de reconhecer que foi graças aos literatos brasileiros que a Língua Portuguesa continuou viva nas décadas de 1950, 60 e 70 na África de expressão portuguesa, especialmente entre aquela camada mais culta, que gostava de ler Jorge Amado (1912-2001), Érico Veríssimo (1905-1975), Guimarães Rosa (1908-1967) e outros tantos.

Rui Knopfli mesmo é um poeta fortemente influenciado pela literatura brasileira, além de suas grandes ligações com a poesia portuguesa moderna. De africano, só carrega o fato de ter nascido em Inhambane. Trata-se de um fino poeta, cuja poesia está entre o que de melhor se escreveu em Língua Portuguesa no século XX, mas que, ao contrário de Pepetela que permaneceu em Angola e lutou contra o colonialismo, deixou Moçambique tão logo o país se separou de Portugal. Jamais se assumiu "moçambicano" no anterior e muito menos no atual contexto africano e sociopolítico do pós-independência. Assumiu-se, sim, como um português de Moçambique agastado com os "pretos" da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) que queriam ser iguais aos "brancos".

A visão que Knopfli tinha da África era eurocêntrica, de um colono que pertencia a uma elite colonial intelectual que, provavelmente, sonhava com um Moçambique semelhante à Rodésia ou à África do Sul sem apartheid, mas com os chamados “brancos” a mandar nos "pretos", ou seja, “cada macaco no seu galho", para se repetir aqui uma expressão politicamente nada correta que se ouve ainda neste Brasil de racismo disfarçado. A lusitanidade européia de Knopfli sempre falou mais alto.

Quem conhece a vida moçambicana pré-independência sabe muito bem que Knopfli atacara a arte banta do escultor Alberto Chissano e do pintor Malangatana em termos depreciativos, como a dizer que eles nunca poderiam ascender a artistas plenos em razão de sua origem "primitiva", tal como os "bons selvagens" de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que seriam congenitamente limitados. Isto está na Revista Tempo, de Lourenço Marques (hoje Maputo), dos anos 1970-1971. Quem duvidar que consulte na Biblioteca Nacional de Lisboa a coleção da revista. Mas é claro que isto ninguém gosta de lembrar.

Como se sabe, na África os conceitos não são os mesmos vigentes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa em relação ao ser e estar africano. Até porque na África os "nativos" não foram exterminados como os ameríndios nas Américas. E, como continuam a sê-lo no Brasil em pleno século XXI. Para se ter um exemplo desse holocausto, basta ver que os traços indígenas hoje são pouco perceptíveis no brasileiro médio, exceto talvez no homem do Centro-Oeste e do Amazonas, ao contrário do que se pode constatar no Chile, no Paraguai, na Bolívia, no Equador e até na antigamente tão conservadora Argentina. Basta ver o que fazem, nos dias de hoje, certos fazendeiros e seus capangas com os caiowás, em Mato Grosso do Sul, sem que as autoridades tomem qualquer providência mais efetiva.

Na África, os autóctones continuam a ser maioria esmagadora e isso tem um peso enorme na consciência dos africanos, mesmo em meio a crises econômicas. Até mesmo porque eles estavam num estágio de desenvolvimento superior ao dos indígenas americanos, o que obrigou a chamada colonização portuguesa a restringir-se a vilas e destacamentos litorâneos. Até mesmo para “atravessar” o comércio da escravatura, os portugueses dependiam de nações africanas que traziam subjugados seus inimigos para comercializá-los nas praias. Com isso, a ocupação européia, de um modo geral, nunca conseguiu apagar no homem africano o grande sentimento de pertença ao legado banto.

Como tudo isso são águas e ressentimentos passados, o que importa hoje é preservar a Língua de Camões também na África. E essa preservação passa por um apoio mais decisivo em favor da divulgação e estudo da literatura de expressão portuguesa que é hoje praticada por africanos de todos os matizes de pele, indistintamente.

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PORTANTO... PEPETELA, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). São Paulo: Ateliê Editorial/Fapesp, 2009, 389 págs., R$ 47,00.

ANTOLOGIA POÉTICA, de José Craveirinha. Organizadora: Ana Mafalda Leite. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 198 págs., R$ 38,00.

ANTOLOGIA POÉTICA, de Rui Knopfli. Organizador: Eugénio Lisboa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 206 págs., R$ 38,00.

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Planeta África (Manuel Soares Bulcão Neto)


Na festa de aniversário do escritor Pedro Salgueiro, estávamos eu e outros convidados a especular sobre a violência urbana e a pandemia do vício em crack, evidentes sintomas de anomia social, quando, de repente, surge-me uma ideia – um daqueles insights que tenho com frequência: aparentemente originais e ululantemente errados. “A principal causa do mal é a superpopulação das metrópoles, sendo as favelas os pontos de maior concentração”, sentenciei; e para fundamentar minha tese (na verdade, de Rousseau), falei de uma experiência científica com camundongos. A seguinte:

Psicólogos behavioristas abarrotaram um viveiro com ratinhos de ambos os sexos e idades diversas. Mesmo não havendo escassez de víveres, constataram rupturas drásticas nos padrões comportamentais das cobaias: aumento significativo de relações sexuais sem fim reprodutivo (homossexualismo e necrofilia); formação de “bandos” entre os machos; agressividade mortal contra os fracos e isolados; canibalização pelas mães das suas crias recém-nascidas; secreção extra de endorfinas – estupefacientes endógenos – pela hipófise…

Os comentários à minha sacação, todos discordantes, foram imediatos: nossos índios caçam e coletam em amplos espaços, porém, na maior parte do tempo, vivem apinhados em ocas; as casas grandes patriarcais, habitavam-nas várias gerações da família e seu séquito. Mesmo assim havia paz e obediência às regras e valores.

Admiti meu equívoco. “Raios!” – Praguejei em pensamento. – “Por que sempre digo bobagem com ar professoral?”. Concordamos, então, que a alta densidade populacional só se torna problemática quando quebra a estrutura social, o que nem sempre ocorre. Os comportamentos alterados dos ratos foram reações instintivas voltadas para um desses objetivos: a) Eliminar o excesso e recuperar a estrutura; b) Criar nova estrutura; c) Adaptar-se à situação de caos.

Voltando para casa, pensava no assunto e no que mais poderia ser socialmente desestruturalizador. Logo me veio à mente o método de conquista da África pelos colonizadores europeus, resumido na carta de um traficante de escravos aos fazendeiros da Virgínia, em 1712: colocar o negro velho contra o jovem negro, o negro de pele clara contra o de pele escura, o homem contra a mulher e vice-versa, até que todos só tenham a “nós” (i.e., os brancos) em quem confiar. Foi assim, dividindo (desestruturando) por meio da discórdia, que um bando restrito de assassinos, liderado pelo Rei Leopoldo II da Bélgica, pôs o Congo de joelhos e, durante trinta e um anos (1877–1908), explorou sua borracha e marfim. — A Enciclopédia Britânica estima que, neste período, a população congolesa declinou de vinte ou trinta milhões para apenas oito milhões.

Se a África, principalmente a subsaariana, mesmo depois da descolonização permanece violenta e paupérrima, não se deve essa tragédia apenas a causas internas (a opinião racista do biólogo James Watson não vale um comentário), mas, precipuamente, a este fato: os colonizadores, na pilhagem daquele continente, destruíram suas fundações sociais arcaicas e nada colocaram no lugar, a não ser instituições de fachada (frágeis gambiarras), desconfiança generalizada e ódio intertribal exacerbado.

Ah, e o que dizer da nossa anomia social e suas terríveis consequências? Ainda no caminho para casa, deparei-me com a epifania de uma possível resposta (espero que não seja outro daqueles “insights”): ao estacionar o carro numa loja de conveniência, observei, ao lado, num outdoor, a imagem de uma belíssima e jovem mulher apenas de lingerie e um colar de pérolas. Próximo ao painel luminoso, escorado em seu carro de mão, um catador de lixo, feio e de meia-idade, mirava aquele luxo — com olhar encantado, desejoso, catatônico…
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Emanuel Medeiros Vieira agradece

Caro Nilto


Os comentários dos talentosos colegas de ofício me obrigam a relembrar as palavras de Holderlin: "O que permanece, os poetas o fazem."

Ou: "se não for pela poesia como crer na eternidade?", de outro talentoso poeta.

Teu blog cumpre esse belo papel civilizatório e tão humano, permitindo que um diálogo tão rico e fecundo seja efetivado.

Continuemos!

Abração do Emanuel
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Nós & nó(s) (Tânia Du Bois)



“... o tempo não pode viver sem nós, para não parar.” (Mário Quintana)

Lendo alguns poemas, percebi que certos poetas gostam de desamarrar a linguagem. Desbravar caminhos sem medo de assumir a poesia.

“desfaz os nós/ desamarra/ solta/ na liberdade do corpo/ dança/ anda/ corre/
no livre pensar/ esconde as razões // refaz os nós/ amarra/ prende/
o corpo ao começo. “(Pedro Du Bois)

Na essência para transformar os nós, em nós, Helena Kolody no poema os “Nós”, revela que “Fomos duas árvores castas./ Não misturamos as raízes./ Apenas enlaçamos / os ramos/ e sonhamos juntos”.

O que leva o leitor a acreditar que mudanças são necessárias, desde o trabalho de criação até os principais feitos da vida: a esperança num universo de valores únicos, como se o tempo fosse transformado para nós e tudo que está em volta “De Nós”.

“pelo poço sem fundo / chegamos ao nada/ porque somos ecos/
(não imagem) / e o mergulho fatal / nos retorna à origem” (Pedro Bertolino)

Nesses poemas que são, sobretudo, um ressoar, os poetas colocam em xeque as indiferenças que registram no cotidiano.

“No meio da palavra/ o nó// o meio da palavra/ no pó// No coração o nó//
Na garganta/ o nó// Entre meu olhar / e teu olhar/ o nó/ na-valha... “(Lindolf Bell)

Pergunto se “Neste Embrulho de Nós” (livro de Marco Aqueiva), no ressoar os sonhos, os nossos filhos e netos ressoarão por nós. E Lindolf Bell responde que, “Existe em nós não o novo / mas o renascido. / Pesamos por isto as verdades / sobre a balança sem pêndulo”

Os poetas com seus talentos abrem caminhos para todos. Mário Benedetti, em “Quem de Nós”, revela uma história de amor, entre três amigos.

O amor, sempre o amor, desembrulha os nós, porque a relação amorosa leva à imperfeição e, por isso, respeitamos as diferentes maneiras de pensar. E como precisamos uns dos outros, compartilhar com os escritores no tempo em que cada um de nós instiga quem os lê, no descobrir as diversas facetas das atitudes de nós e dos nós, como passaporte para existências sem percalços.

Quem de nós, ama a verdade? Vive o amor eterno? Sonha com as palavras? Acredita em si? Os Nós estão feitos!

Alphonsus de Guimaraens Filho publicou seleção de poemas, reunindo três livros inéditos, que intitulou e, neles, encontramos. “Por que fizeste de mim um nó? / Por que ao só / adivinhá-lo, sem desfazê-lo, / todo estremeço? //... Dize se estou! / Dize se tudo / não é só / este crespo, irritante nó...”

Costumo dizer que o tempo é pouco, porque quando estou lendo poemas não tenho hora para acabar; viajo entre os autores e durante a leitura vejo flashes de nós e do(s) nó(s) pelas passarelas.
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domingo, 5 de dezembro de 2010

Plenitude – Não perfeição (Emanuel Medeiros Vieira)

Para Cida, irmã, amiga, comadre, infinitamente amiga

“Um dos motivos mais poderosos que conduzem o homem em direção à arte e à ciência é o de escapar do cotidiano” (Albert Einstein)




A quarta-feira,

o lado-sombra,

dentro de cada um,

pão, café,

o paraíso pode ser o outro,

não só o inferno?,

o mito é o nada que é tudo,

escreve Pessoa,

um arquétipo universalmente conhecido,

eu sei, é Jung, não Freud,

inconsciente coletivo,

mas de onde vem essa apreensão?,

esse temor metafísico contemplando o mar,

ah, brisa marinha

sempre aspirei a plenitude,

não a perfeição,

sou mortal,

agonia sem nome,

na manhã bela e repetida

a apreensão continua

vontade de chorar ouvindo Cartola e a voz de Elis,

pensando na coleção de amigos mortos,

Ela te contempla,

a Cachorra, a que te colocará de pés juntos,

novamente citações:

“Deve haver no mais pequeno poema de

Um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero”

(Pessoa – novamente).


Voltarei sempre com as mãos vazias?

Mas estou pleno dessa finitude,

Já sem medo, reconciliado,

olhando as vidas tão “pequenas” e anônimas,

ônibus, salário pequeno, hospital cheio,

a luta de cada dia.


Resta-me a esperança de que um só leitor, um só

– se houver leitores –

daqui a mil anos, entenda o meu esforço

(acolher a linguagem no mundo quebrado).


(Salvador, novembro de 2010)
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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Conversa com Wilson Gorj

Nilto Maciel


(Wilson Gorj)

Conheço Wilson Gorj há pouco tempo. Encontrei-o em omuroeoutraspgs.blgospot.com (mantido por ele). Sua dedicação ao microconto me chamou a atenção. Passamos a trocar ideias e livros. E o convidei a me conceder uma entrevista. Em sete dias deste novembro de 2010 enviei-lhe perguntas e recebi respostas, por correio eletrônico. E aqui está a teor da conversa.

Wilson Gorj (1977 - Aparecida, SP) é autor dos livros Sem contos longos (2007) e Prometo ser breve (2010), ambos constituídos de micronarrativas. Tem participação em várias antologias, revistas e sites. Obteve alguns prêmios, como o de finalista do Mapa Cultural Paulista 2010 (categoria: crônica). Por seis vezes esteve entre os premiados do Concurso de Contos “Aconteceu em Aparecida”, classificando-se, por três anos consecutivos, em primeiro lugar. É membro-fundador do Grupo Valefoco, formado por poetas e escritores que buscam fomentar a literatura no Vale do Paraíba. Escreve para os jornais O Lince e Comunicação Regional. É editor do selo 3x4 microficções, da editora Multifoco/RJ.

Entrevista

NM – Quando/como começou em você a "vontade" de escrever contos curtos, curtinhos, os chamados minicontos, microcontos, nanocontos? Quem/o que detonou o estopim em você?

WG – Alguns fatores contribuíram para que eu me concentrasse nos minicontos. A prática deles começou meio sem querer. Sempre me ocorreram ideias literárias, as quais eu transformava em sinopses e, mais frequentemente, em episódios e fragmentos, aproveitáveis talvez em algum conto futuro ou quem sabe (imaginava eu) num possível, para não dizer improvável, romance. Creio que assim, involuntariamente, ensaiava meus primeiros passos na direção dos minicontos. Depois, com a prática e a confiança em minha escrita, apliquei-me na confecção de contos mais elaborados. Ganhei alguns concursos, mas me sentia muito insatisfeito com a qualidade dos meus textos. Tal insatisfação levou-me a procurar auxílio nos conselhos de escritores renomados: tornei-me um leitor compulsivo de entrevistas literárias; fuçava a internet à cata de possíveis técnicas e recursos que pudessem melhorar o estilo e aprimorar a escrita; adquiri livros sobre a arte de escrever. Dos conselhos dados pelos autores percebi que o mais recorrente era a busca pela clareza e concisão. “É preciso saber cortar”, “corte sempre”, “não tenha dó de extirpar do texto aquilo que não lhe faz falta” – eram as dicas com a quais eu mais me deparava. Resolvi seguir o conselho. Amolei meu senso crítico e me pus a cortar as excrescências de alguns contos alongados. Um deles, então, após uma boa podada, chegou a faturar o primeiro lugar num concurso municipal. Com o prêmio, recebi o convite para escrever em um encarte cultural, que depois se transformou no Jornal O Lince, para o qual até hoje escrevo (quase sempre, minificção). Do dono do jornal, o prof. Alexandre Barbosa, também veio o incentivo para publicar meu livro, o Sem contos longos, todo feito de micronarrativas – boa parte delas publicadas anteriormente nas páginas d’O Lince. E foi assim que os textos minimalistas tomaram conta da minha produção literária.

NM – A prática do miniconto pode levar o escritor a se repetir ou a se tornar chato? Muitos "minicontistas" (este vocábulo já foi cunhado?) se tornam meros piadistas. Você não teme se tornar um escritor de piadas?

WG – Tornar-se chato e repetitivo é um risco ao qual estão sujeitos escritores de todos os gêneros. Chatice e repetição não decorrem necessariamente de formatos e tamanhos, mas principalmente da falta de motivação e criatividade. Muitos autores se forçam a escrever sobre qualquer coisa que lhes ocorra durante a escrita; não partem de uma idéia para escrever seus textos; em vez disso, vão encadeando palavras e palavras na expectativa de que a ideia surja em meio ao emaranhado de frases gratuitas; certamente reside aí o perigo da repetição, da chatice. De uns tempos para cá, tenho recorrido à escrita apenas quando me ocorre uma ideia que valha a pena, ou melhor, a tinta, pois meus textos são paridos à caneta (o computador é onde se desenvolvem). Às vezes passo dias sem escrever uma única linha; a mente seca, estéril. E mesmo quando ela entra no cio, depois de fertilizada por algum pensamento, evito precipitar no caderno a ideia concebida. Deixo-a em processo de gestação. Se for fraca, o aborto será espontâneo; se não, a caneta fará sua parte. A maioria das minhas ideias nascem travessas, brincalhonas. De onde concluo que o humor seja meu gene predominante. Daí muitos dos meus minicontos soarem como piada. Alguns, suponho eu, conseguem transcender este caráter meramente anedótico. Nestes casos, o humor é apenas um meio, não o fim. A piada, então, torna-se uma máscara a encobrir algo mais profundo.

NM – A criação do blogue “O Muro & outras páginas” é consequência de sua dedicação ao miniconto. Imaginemos os muros das cidades, as pichações. Os muros são o papel onde se escrevem frases de amor, de protesto ou de mera revolta dos desajustados socialmente, dos renegados, dos que não têm voz. É isto ou não? O miniconto é um gênero literário ou um subgênero?

WG – O nome do blog é uma referência a um dos minicontos do meu primeiro livro, o Sem contos longos. Conta a história de um escritor que não consegue encontrar publicação para suas obras. Isso o leva a recorrer às pichações. Termina assim: “Até ser apanhado em flagrante, fez dos muros da cidade as suas melhores páginas”. Obviamente que o escritor deste miniconto pertence a uma época anterior à internet. Afinal, nos dias de hoje, há meios mais eficazes de os escritores exporem seus textos. Os blogues se prestam melhor à literatura do que os muros.

Em resposta à outra pergunta, lamento, mas não tenho muito a acrescentar. Saber se o miniconto é um gênero ou subgênero, é uma questão à qual sou indiferente. A mim, interessa escrever minhas histórias da melhor forma que posso, sempre me norteando pelo critério da concisão. Busco ser conciso sem, no entanto, me prender a convenções de tamanho como, por exemplo, o número de caracteres que distingue um microconto de um miniconto, ou este de um conto. São regras que não me interessam.

NM – Quem você destaca na prática do miniconto? Dalton Trevisan está entre os seus mestres? Fora do Brasil onde mais se pratica este gênero?

WG – Sem dúvida, há em nossa literatura autores que se destacam como minicontistas. Alguns deles, inclusive, foram publicados pelo selo 3x4 microficções, da editora Multifoco, RJ. A quem quiser conhecê-los recomendo o blog do selo: . Além desta, outra referência on-line é a Revista Veredas, editada pelos escritores Marcelo Spalding e Ana Mello, também expoentes da micronarrativa brasileira. A bem da verdade, não nos faltam autores cujos minicontos merecem destaque: Marina Colasanti, José Eduardo Degrazia, Eno Teodoro Wanke, Elias José, Leonardo Brasiliense, para citar apenas os nomes que agora me ocorrem. Dalton Trevisan também é outra referência. No entanto, prefiro identificar meus mestres para além dos minicontistas. Machado de Assis, Graham Greene, Galeano, Borges, Nabokov, Quintana, Pessoa... Enfim, busco tirar proveito de tudo que leio. Desta leitura variada se nutre a minha escrita e, consequentemente, meus minicontos.

De fato, o Brasil não é o único lugar onde o miniconto tem encontrado praticantes. Argentina, Colômbia, México, Venezuela, Espanha e Portugal são países em que a microficção vem se projetando significativamente e, pelo que apurei, alguns deles levam vantagem em relação à projeção em nosso país.


(Wilson Gorj)

NM – No início desta conversa, você falou em romance. Há mesmo o projeto de escrever um romance? Na fala acima, você diz que prefere identificar como mestres Machado, Pessoa e outros poetas, romancistas e contistas que não são (ou foram) praticantes do miniconto ou minipoema (exceção, talvez, do Quintana). Há, em você, o entendimento de que romance, conto longo e poema mais encorpado são obras mais elaboradas do que minicontos e minipoemas?

WG – Por enquanto não tenho nenhum projeto de romance. Tenho, sim, algumas ideias, um monte de esboços e rascunhos. Pode ser que um dia eu empreenda a produção de um enredo com mais fôlego e elaboração. Pode ser, mas não me frustrarei se isso não ocorrer. No meu entender, não é a extensão ou a categoria de uma obra que a torna superior à outra. Se há uma escada de evolução literária, os degraus certamente não são formados por gêneros ou tamanhos. Evoluir como escritor é aprimorar-se, elevar o nível da escrita, buscar um texto cada vez envolvente e eloquente, não importa se curto ou longo. A mim é preferível ver uma idéia estourar em uma única frase a vê-la diluída em muitas. Prefiro a certeza de que escrevi alguns minicontos bons a suspeita de ter publicado contos ou romances ruins.

NM – Há minicontos famosos, repetidos, imitados, como aquele do dinossauro (Monterosso), um de Hemingway, além daqueles mais espichados, com cerca dez linhas, como alguns de Kafka. Apesar disso, o miniconto parece não ter alcançado o prestígio do haicai. Como você isso?

WG – O miniconto (ou micronarrativa, como se convencionou chamá-lo) ainda terá o merecido reconhecimento. Em outros países isso não está longe de acontecer. Na Colômbia, por exemplo, há seis anos realizam um Congresso Internacional de Minificção. Pelo visto, ao menos por lá, os minicontos alcançam prestígio. Por aqui, é só uma questão de tempo. Até porque o haicai, a que você se refere, não se firmou da noite para o dia. De Bashô a Leminski permeiam quase dois séculos e meio de literatura. Cito, ainda, outro grande poeta nosso, igualmente associado ao haicai: Guilherme de Almeida. O que poucos sabem é que este deixou um pequeno livro cujos textos podem perfeitamente passar por minicontos (Histórias, talvez – Edições Melhoramentos). Aliás, não só o “Príncipe dos Poetas”, mas até Drummond publicou uma obra semelhante: Contos plausíveis, Editora Record. À época dessas publicações, esses textos curtos não eram apresentados (como atestam os referidos títulos) como minicontos. Tivessem sido lançados agora, aposto que não escapariam a essa associação.

NM – Em entrevista publicada recentemente, Vítor Nascimento Sá, do site Verbo 21 fez a seguinte pergunta a Astrid Cabral: “Nesse tempo de muita informação em pouco tempo, proliferam-se as modalidades de literatura curta (o miniconto, o microconto, os haicais) e o uso de diversos suportes como alternativas ao livro (os sites, blogs, microblogs). Qual o destino da literatura? Isso é algo que lhe preocupa?” E a poetisa respondeu assim: “O futuro da literatura não me preocupa. Acho que o ser humano, em que pesem as mudanças contínuas, preserva uma identidade de eterna insatisfação. Assim sendo, a arte e a religião são sempre absolutamente indispensáveis para suprir a sede da alma. A remotíssima história sempre nos apresenta formas do uso superior e não utilitário da palavra, hinos religiosos, oráculos, cânticos de trabalho, de guerra, de embalar crianças. Digamos que as formas e os suportes mudam ao correr dos tempos. Passamos dos tijolos cuneiformes da Babilônia aos e-books cibernéticos, mas o ímpeto criador e o pensamento feito palavra sempre sobreviverão”. Como se participássemos de um debate, como você responderia a pergunta?

WG – Não creio no fim da Literatura, mas prevejo-lhe, talvez, um destino parecido ao da Música Clássica, hoje delegada a um público ainda mais restrito do que em outras épocas. É notório que a Literatura vem perdendo terreno para outras formas de entretenimento e expressão como a televisão e a internet (embora esta última também lhe conceda novos espaços). Mas isso não chega a me preocupar, pois sei que a Literatura é insubstituível, insuperável. É mais do que divertimento e fonte de informação. É, sobretudo, libertadora. O convívio com os grandes livros nos liberta da estupidez: dos limites que esta nos impõe. Reafirmo o que disse em outra entrevista: no meu conceito a Literatura está acima da religião; se esta pretende nos salvar, tornando-nos melhores, aquela realiza esse propósito com mais competência e profundidade. A Literatura nos melhora porque potencializa nossas faculdades (expande nosso conhecimento, aguça nossa sensibilidade, dilata-nos a capacidade de compreensão e discernimento) e descortina novos horizontes, outras perspectivas.

NM – É possível alguém escrever mil minicontos bons? Ou, de um total de mil, poderão se salvar apenas dez, vinte ou mesmo cem? Parece-me que minicontos são meros exercícios de escrita. Entretanto, toda obra literária (artística, lato sensu) tem muito valor para seu autor. É o possível para ele. Os Lusíadas, para Camões; Dom Casmurro, para Machado; Ulisses, para Joyce. Pois o poeta português “só” escreveu “um” grande poema, embora sejam grandes todos os seus sonetos e poemas menores (em número de versos). Machado “só” escreveu quatro ou cinco romances excelentes. Joyce compôs “apenas” dois ou três romances fundamentais. São obras canônicas. Por outro lado, milhares de romances dos fulanos, milhões de contos dos beltranos, bilhões de poemas dos sicranos, que não são reconhecidos pelo cânone literário, são publicados infinitamente em livros, jornais, revistas e agora em blogues. A grande maioria dos minicontos não é apenas isto: o lixão da literatura?

WG – De certa forma, todo texto é um exercício de escrita, principalmente para quem está começando. Os minicontos, porém, são mais do que isso; pelo menos, para mim. Muitos dos meus textos demoram meses para ficar prontos. Dedico a eles o mesmo tempo e empenho que dedicaria a um conto ou romance. Às vezes acerto com eles, outras não. A probabilidade de escrever mil minicontos bons não é menor do que a de escrever mil poemas bons. Contudo, acho natural que se aproveite pouco do muito do que se escreve. Também é natural que dos textos aproveitados para publicação nem todos encontrem reconhecimento ou, quiçá, alguma permanência. A mim, no entanto, não me preocupa “permanecer” como escritor. Afinal de contas, se a posteridade não se lembrar de mim como tal, não estarei aqui para me frustrar. Mais do que o futuro, interessa-me o presente. Interessa-me escrever – e fazê-lo da melhor maneira que posso, eis tudo. Se escrevo minicontos é porque me dão prazer, me instigam, me provocam e, sobretudo, me estimulam a investir na literatura. Agora, se o que escrevo merece apreço ou desprezo, se deve ser mantido ou descartado, caberá o leitor decidir. Aliás, se encontrássemos este tal “lixão da literatura” seria difícil retirar de lá os minicontos imprestáveis, pois esses se perderiam na esmagadora profusão de outros textos ruins – romances, contos, poemas, crônicas – que nele já foram depositados.

Fortaleza/Aparecida, novembro de 2010.
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Transformar (Pedro Du Bois)



Sobre o despovoado: tapera


(rancho espalhado

ao mar, barco

encalhado em areias

límpidas, peixe

saciado em vontades)


sobre a beleza

paira: Itapema


(rancho desconsiderado

em altos prédios, carro

congestionando ruas,

peixe desesperado

em águas impuras).


http://pedrodubois.blogspot.com/

http://www.projetopassofundo.com.br/

http://sequoyahmagazine.blogspot.com/
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Canto de Temporal (Raymundo Netto)


(Night and Sleep (1898), Evelyn de Morgan)


Em estado de algofilia...

Só tem explicações para tudo

Aquele que não vive nada!

Emoção confusa,

Mente obtusa

Em campos de concentração.

A imagem candente serpeia imprudente

No seu instante ocular.

Combalida, sofrida, esquecida

E inconstante em seu arfar,

A visão impudente

De sua vida celulada

Compõe a terra azul,

Fogosa em seu abrigo,

Ao cigarro amigo,

Ao vinho de caju.

Desaparece a sua fragrância no espaço...

Seus ensaios, em circunlóquio,

Reportam-se em beijos no mar.

Mundo desnaturado, morto de vidas, desencantado.

Caíra no chão pela última vez a voz

O coração sangrando sucumbe a só

A ilusão do pulsar que irradia.

Caíra no chão e pela ultimenésima vez a voz vocifera

Calara a quimera, mal que impera na dor que ardia.
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terça-feira, 30 de novembro de 2010

A espera da vez e a vez (Cunha de Leiradella)

(Do livro Fractal em duas línguas)
Ontem, como sempre, fui ao Derby. Não gosto do Derby, mas vou lá todas as noites. As pessoas que conheço estão sempre viajando ou, se estão em casa, estão dormindo ou têm visitas. Por isso, vou ao Derby. No Derby ninguém viaja, ninguém dorme, e nunca apareceu uma visita.

Ninguém entra no Derby. Além dos garçons sonolentos, encostados nas paredes ou nas mesas, só nós ficamos lá. De vez em quando, alguém pede um conhaque ou um café, ou então, de repente, se escuta um pigarro ou um suspiro. Mas é só. Quando o relógio bate as horas, só os garçons sabem que horas são. Para nós, as horas não são horas. São apenas ruídos de relógio.

Vou ao Derby há anos, todas as noites. Mas não conheço ninguém, nem ninguém me conhece. Às vezes, quando entro, parece que alguém me acena com a mão. Mas não acena. O aceno foi para chamar o garçom. Nunca ninguém me vê entrar. Nem os garçons. Não os conheço e tenho certeza que, se tentasse falar com algum, ele me perguntaria se não tenho casa ou mulher, ou outro lugar para onde ir. Por isso, não os conheço.

Sou sempre o último a chegar. Quando entro, todos os outros já estão lá. Nunca consegui entrar no Derby antes dos outros. Não falo com ninguém, mas eles me olham e eu sei que todos gostariam de chegar depois de mim. Como eu chego depois deles.

Se tivesse outro lugar para onde ir, jamais iria ao Derby. Mas todas as pessoas que conheço ou estão viajando ou estão dormindo, ou, então, têm visitas, e eu não tenho outro lugar para onde ir. Tenho a minha casa. Mas a minha casa é só a minha casa.

Se ninguém me olhasse, talvez o Derby fosse até um bom lugar. Mas todos me olham e eu não gosto que me olhem. Sempre que alguém me olha espera que eu faça alguma coisa. E eu não posso fazer nada. Se pudesse, não estaria no Derby. Mas eles não sabem e não param de me olhar. Por isso, sei que estão esperando. Talvez não saibam nem o que esperam, mas eu sei que eles esperam. Se não esperassem, também não iriam ao Derby todas as noites, nem olhariam para mim. Por isso, não gosto do Derby. Eu não posso fazer nada.

Eles não sabem, eu sei que eles não sabem, mas eu sou igual a eles. Também espero. Por isso, vou ao Derby todas as noites. Como eles.

Nenhum deles fala comigo. Mas eu sei que pensam que sou diferente, apesar de sentar como eles, de beber como eles e de esperar como eles. Mas eu não sou diferente. Sei que não sou. A única diferença, se é que se pode chamar diferença, é que eu sempre chego depois deles. E, talvez por isso, eles me achem diferente e me olhem, e esperem que eu faça alguma coisa.

O quê, eu não sei. Mas sei que eles esperam. Às vezes, de tanto pensar, chego até a pensar que eles esperam que eu faça um milagre. Ou, então, que não volte mais ao Derby, se não puder fazer outra coisa.

Ontem, como sempre, nenhum deles falou nada. Mas os olhares diziam tudo. Há anos que eles me olham e eu conheço o olhar deles. Mas não podia fazer nada. Mesmo que me levantasse e fosse embora, nada iria acontecer. Eles continuariam esperando e o meu lugar, mesmo vazio, continuaria sendo o meu lugar. Por isso, desviei os olhos e olhei a parede à minha frente. Pelo menos, a parede nada me pediria. E não pediu.

Mas eles também deixaram de pedir. De repente, deixaram de me olhar e até os garçons se desencostaram das paredes e das mesas. Assustado, olhei-os um por um e vi que, realmente, ninguém mais olhava para mim. Mas, mesmo assustado, pela primeira vez sorri no Derby. Alguma coisa, finalmente, estava acontecendo.

Talvez por causa do meu sorriso eles pensassem que fui eu. Mas não fui. Tenho certeza que não fui. Eu só escutei, como todos eles escutaram.

Tudo tem seu tempo determinado,

e há tempo para todo o propósito

debaixo do céu. Há tempo de nas-

cer e tempo de morrer...

A voz calou-se e um deles levantou-se e começou a bater palmas, e todos eles se levantaram e começaram a bater palmas. E, quando as palmas acabaram, todos se voltaram para mim e sorriram, agradecendo. Quis dizer-lhes que não tinha sido eu. Mas eles não queriam escutar-me. Durante anos acreditaram que eu podia fazer alguma coisa e, agora, que alguma coisa, realmente, aconteceu, não precisavam de mais nada. O milagre já tinha acontecido.

Levantei-me e saí, e um deles sentou no meu lugar. Agora, não posso mais voltar ao Derby. No Derby já ninguém espera nada.

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O autor
Cunha de Leiradella
Casa das Leiras
São Paio de Brunhais
4830-046 - Póvoa de Lanhoso
Portugal
Telefone Fixo: 253.943.773
Telefone Celular: 963.304.501
E-mail: leiradella@sapo.pt
Com o Longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987), deu início à saga de Eduardo (espécie de seu alter-ego), personagem que atravessa todos os seus livros subseqüentes, entre os quais Guerrilha urbana (1989), Cinco dias de sagração (1993) e A solidão da verdade (1996), que sem nenhum favor podemos destacar entre o que se produziu de melhor no romance brasileiro das últimas décadas. (André Seffrin, Revista EntreLivros, São Paulo, fevereiro de 2006)
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

José Alcides Pinto (Re)descoberto (Inocêncio de Melo Filho)

(José Alcides Pinto)

José Alcides Pinto é uma das vozes mais intensas da poesia cearense. Se fosse o caso de determinarmos uma tríade literária, ele não seria excluído. É neste contexto de significação e representação da arte alcidiana que as edições G.R.D, fizeram chegar às livrarias Poemas Escolhidos II (2006), possibilitando, assim, um segundo encontro dos leitores com o autor e sua obra. Quem ainda não o leu poderá ter o prazer de descobri-lo e fazer deste vate um dos seus diletos.

É vasta a poética de José Alcides Pinto. Estas duas antologias volumosas comprovam isto. Poética vasta e forte, consegue representar o homem e suas circunstâncias, fazendo-se discurso universal, consciente do humanismo e da fúria que lhe é peculiar.

Uma poesia desta natureza poderia ser vertida com sucesso para o inglês, francês, espanhol... Seria lida e apreciada, faria parte dos destinos de outros mortais, guiaria os seus sentimentos. Falta-lhe editores e tradutores que façam a poesia de José Alcides Pinto alcançar todas as esferas do planeta. Mesmo assim, sua poesia concretiza o cosmopolitismo a partir da linguagem.

A poesia alcidiana caminha com os próprios pés, ou seja, contém linguagem própria. É livre como as águas e o vento, não tem amarras. Libertou o poeta e liberta quem dela se aproxima e se deixa possuir. Estamos diante de uma poesia surpreendente e insubmissa.

O efêmero e o transitório indicando passagem do tempo pela existência transubstanciando os seres e as coisas na natureza é uma constante na poesia de José Alcides Pinto, para nos conscientizar de que fomos feitos para a morte e viver significa um aprendizado necessário que nos servirá até para acolhermos com tolerância “a indesejável das gentes”.

Esta edição, que traz o titulo de Poemas Escolhidos II, traduz a vitória e a resistência da poesia que sobrevive em reduzidos espaços. Ela nem sempre se destaca na livrarias e nas vidas dos leitores. O que pode transfigurar esta realidade? Os avanços educacionais e sociais que permitirão aos homens reais vivências poéticas.

Segundo Nelly Novaes Coelho “a obra alcidiana é um universo – em – processo, visceralmente arraigado na poesia (mesmo quando se manifesta em prosa)”. A avaliação da escritora é acertada, pois o conto, o romance, o teatro e a crítica literária são extensões da sua poética que exigiu outros gêneros literários para reiterar sua existência.

A morte, o erotismo, o misticismo e as marcas surrealistas caracterizam a poesia de José Alcides Pinto. Estas características não se isentam do corpo da sua poética e a morte por ser uma das mais intensas se desvela num plano sagrado quando diz ser o outro rumo da vida e profana por admitir ser a “serva de Satã”.

Além do lirismo amoroso se expressa fortemente o lirismo social na poesia de José Alcides Pinto, nos convencendo de que o poeta é sempre um crítico da sociedade, mesmo que sua escritura não ponha os homens frente a frente, fazendo-os refletir para que novos atos e sentimentos sejam edificados. A arte alcidiana “denuncia a exploração do homem pelo homem, a injustiça social...” É desta forma que a literatura anuncia sua utilidade, despertando os indivíduos, representando seus desejos, semeando nos seus corações a semente da indignação.

Ainda neste contexto de consciência social, não podemos omitir o poema “A pequena varredora”, no qual o eu lírico se faz vocativo e chama a “menina dos pés graciosos” que tudo varre. Sua vassoura é um instrumento de mudanças, o eu lírico sabe disso, por isso a chama insistentemente para que suas ações se repitam.

José Alcides Pinto seria um poeta panfletário? Que mal há nisso? Sua poesia não se prende a rótulos. Fazer poesia, apossar-se das palavras e subordiná-las às suas vontades é o que realmente lhe interessa.

Nos ensina Cândida Vilares Gancho que “uma das grandes preocupações dos poetas em todos os tempos tem sido a de tentar definir a poesia”. Esta preocupação se intensificou bem mais no modernismo, trazendo consigo a nominação de metalinguagem, propondo explicar a arte e o fazer poético a partir da própria arte. É o que faz José Alcides Pinto em vários dos seus poemas. Para exemplificar o que estamos afirmando, citaremos o poema que se intitula por “Poesia” do livro Águas Premonitórias (1986):

Fazer poesia não é arrumar uma seqüência

de palavras

como quem levanta uma casa – tijolos sobre tijolos.

Uma escada de degraus sucessivos com corrimão.

Não! – não é isso nem aquilo.

É muito mais que construir uma casa com tijolos.

Muito mais que construir uma escada com

degraus e corrimão.

Neste segundo volume de Poemas Escolhidos conclui-se o que se pode considerar o melhor da poética alcidiana. Além da poesia, é por demais significativa a fortuna crítica que se acumula nestes dois livros, especificando o valor e a grandeza da literatura de José Alcides Pinto, que não cessa de ser reiterada pelos leitores e críticos.
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domingo, 28 de novembro de 2010

O Manual de Bruxaria de Eduardo Luz (Nilto Maciel)



Sob o título Manual de Bruxaria: Introdução à obra crítica de Machado de Assis (Fortaleza: Imprece, 2008), Eduardo Luz publicou sua dissertação de Mestrado em Letras, defendida em 1993, na Universidade Federal do Ceará. Algumas alterações em relação à monografia apresentada à banca examinadora e que se intitulava Manual de Bruxaria: atualidade da crítica em Machado de Assis. O livro tem apresentação do professor, ensaísta e poeta Linhares Filho, orientador na referida banca: “Um estudo atual da crítica machadiana”. Seguem-se a “Introdução”, os capítulos “Contre (o biografismo de) Sainte-Beuve”, “Machado: Aristotélico?”, “Crítica e civilização: Câmbio de luzes”, “O ‘sentimento íntimo’” e “O interescritor (na criação e na crítica)”, e a “Conclusão”.

Eduardo Luz chama Machado de Assis de “racionalista infatigável”. No capítulo I, – colhido de Contre Sainte-Beuve, de Marcel Proust – refere-se ao conhecimento da obra do crítico francês pelo brasileiro. É de 1879 o ensaio machadiano “A nova geração”, no qual faz referências ao autor de Volupté. Eduardo observa: “Quanto a Machado, ele jamais confundiu o “eu social” e o “eu criador”; sabia que o essencial de uma obra não coincidia com o temperamento de seu autor, tal como ele se manifesta na vida social. Distinguia autor (função social e extralinguística) e narrador (função puramente linguística)”.

Uma das peças críticas mais conhecidas do criador de Capitu talvez seja a análise de O primo Basílio, de Eça de Queiroz. E é a partir dela que Eduardo Luz constrói o capítulo II: “O que importava saber ao crítico Machado de Assis era a ‘qualidade irredutível’ da obra. Jamais recusou contribuições esclarecedoras; interessavam-lhe os laços que uniam o autor a seu tempo, as ligações da obra com a vida política, social, as influências remotas ou próximas...” (...) “Criticar, tendo por meta a perfeição, implicava, porém, olhar essencialmente as obras literárias em função de sua beleza, de sua inteligência”. O professor se refere também ao ensaio do Mestre “O ideal do crítico” e transcreve isto: “Não compreendo o crítico sem consciência. A ciência e a consciência, eis as duas condições principais para exercer a crítica”. E o defende assim: “Machado jamais atacou os autores”.

Eduardo Luz examina cuidadosamente uma a uma as obras críticas do velho romancista. No capítulo III da dissertação se debruça sobre algumas delas e tira conclusões lapidares: “Reprovador de extremismos, Machado de Assis também prevenia os novos poetas de outro grave risco: ‘o de cair na poesia científica’”. Ou esta: “Tendo recusado o biografismo à maneira de Sainte-Beuve, negado com vigor o determinismo crítico de Taine, rejeitado o impressionismo (tal como o concebia Lemaitre), Machado de Assis deve ser visto como um precursor da crítica que pensa a obra como criação de linguagem”.

O capítulo IV faz uma conexão de Machado com o pensamento literário brasileiro do século XX de Afrânio Coutinho, Antonio Candido e Wilson Martins e outros. E mostra como o Bruxo andava muito à frente da maioria: “Em 1858, aos 19 anos, Machado já distinguia perfeitamente autonomia política de autonomia literária”. Em “Instinto de nacionalidade”, de 1873, apontava: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”.

Na última parte do volume, Eduardo Luz baralha o criador de romances e contos singulares ao crítico literário plural. E se mostra orgulhoso, como brasileiro, de termos um “escritor de uma literatura supostamente periférica” que se apropriava “de modelos tomados à cultura dominante, transgredindo-os”. E acrescenta ao seu pensamento: “Para o crítico Machado de Assis, o conceito de originalidade era relativizado na medida em que via a literatura como uma atividade tradutora permanente, como operação intertextual generalizada”. Remete-nos a Borges, ao seu genial “Pierre Menard, autor del Quijote”, para mostrar a sapiência do Bruxo: “Estamos, portanto, diante de uma concepção que prega a co-existência de obras, não a sucessão”. E no axioma: “a arte não progride; ela muda, transforma-se”. (Ambas as frases são de Eduardo, que assim encerra o capítulo da interescritura: “Hoje, escrever é cada vez mais reescrever, remastigar. Valéry já pregava que le lion est fait de mouton assimilé. Antes dele, todavia, o nosso antropofágico Machado já decretava em Esaú e Jacó: O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida”).

Manual de bruxaria: Introdução à obra crítica de Machado de Assis, do carioca-cearense Eduardo Luz, é fundamental para quem lê Machado, para quem lê e estuda literatura ou para o leitor que gosta de bons estudos e linguagem simples (não acadêmica).

Fortaleza, 26 de novembro de 2010.
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sábado, 27 de novembro de 2010

Mário da Silveira em edição fac-similar


Edição fac-similar de Coroa de Rosas e de Espinhos, de Mário da Silveira, poeta precursor do Modernismo no Ceará. Livro póstumo, composto também da homenagem de amigos como Mário Linhares, Sales Campos, Gastão Justa e Sidney Netto. Compõem o volume No Silêncio da Noite (fragmentos), publicado em 1916, e "A Eterna Emotividade Helênica", conferência proferida por ele na Casa de Juvenal Galeno, em 1919. Nesta 2ª edição, de 126 páginas, patrocinada pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), coordenação editorial a cargo de Raymundo Netto, há um “Estudo Introdutório”, de Tito Barros Leal; o “Prefácio à primeira edição”, de Antônio Sales; e um “Apêndice”, ensaio de Edigar de Alencar.


Mário da Silveira nasceu em Fortaleza, Ceará, em 17 de setembro de 1899. Filho de Raimundo da Silveira Gomes e Teodolinda Matos da Silveira, estudou nos colégios Nossa Senhora do Carmo e no Instituto de Humanidades. Grande leitor de clássicos, erudito e precoce, publicou, em 1916, No Silêncio da Noite: fragmentos (de um de seus poemas) pela Tipografia de Irmãos Jatahy. Em 1919 realizou a conferência "A Eterna Emotividade Helênica", na programação da Casa de Juvenal Galeno. Em breve passagem pelo Rio de Janeiro, trabalhou como secretário de João do Rio, em A Pátria, cultivando amizade com Raul de Leoni e Ronald de Carvalho. Em 1920/21, bem antes da Semana de Arte Moderna em São Paulo e da chegada, às livrarias, de Luz Mediterrânea, de Raul de Leoni, escreveu o inquietante poema “Laus Purissimae”, composto não somente de versos polimétricos, mas de versos livres, o que o credencia como legítimo precursor da corrente modernista no Ceará. Em 1921 retornou a Fortaleza e, neste ano, na noite de 22 de julho, com pouco mais de 21 anos, foi alvejado por cinco tiros, na Praça do Ferreira, o “coração da cidade”. Coroa de Rosas e de Espinhos foi publicado (1ª edição) por amigos e admiradores, após a sua morte, numa tiragem de apenas 500 exemplares.
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A cidade das casas abertas (Ádlei Carvalho)

http://adleicarvalho.blogspot.com/




Era uma rua torta

Que eu varava ligeiro

Atrás das andorinhas

E toda a gente assistia

Das poltronas e varandas

Porque naquela cidade

As portas e as janelas

Passavam os dias abertas

E só se fechavam à noite

Por causa dos pernilongos.



Nada naquele lugar

Oferecia perigo

A não ser o de criar

No espírito aprendiz

A ingênua fantasia

De um mundo sem paredes

E corações sem tramelas

Repletos de ruas tortas

E bandos de passarinhos.


(À cidade de Ferros - MG)
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A última revolta de Jesus Cristo (Rogers Silva)

(baseado numa história que tudo indica ser real)



Para Sinvaldo Jr,
que sempre achou que Jesus deveria ter morrido por algo melhor.

Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para estancar o sangue, que escorria. A impotência doía. Doía e não enxergavam, não viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era. As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A ausência machucava, doía. A ferida aberta, e os vermes vindouros. As mãos doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía, muito. A flechada, os cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. Os sarcasmos feriam, e doía. Os risos. Os socos tão-somente nesse instante sentia, e doíam, como socos dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A vontade de urinar doía. Os rins doíam, sobretudo. O suor que sujo escorria. O sal. O fel. O mau hálito.

Tristeza de escritor (Francisco Miguel de Moura*)

(Poema colhido em Revista Cirandinha: ver link ao lado)

(O poeta e a solidão)


quis recolher as emoções mais raras

de ternura, de amor, nos livros meus.

escrevi-as nos dias - noites claras -

nas caladas da vida, o' santo deus!


chorei dores daquelas sem aparas,

como sofrem, sem culpa, tantos réus

vivi vidas sem nome, de tão caras

como suster a fé entre os incréus.


tanto trabalho e tanta luta em vão!

frutos virgens apanho em meu declive

e ofereço aos que passam. nem se dão...


por tudo, uma palavra nunca tive,

nem de consolo nem de compaixão.

tristezas de escritor só ele vive.

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Portal 2001: Ficção, sim (Nilto Maciel)


Portal 2001 é um livro de contos. Pode ser lido como uma antologia de narrativas curtas. Na capa, apenas o nome (título). A segunda folha traz uma apresentação (prefácio) por Nelson de Oliveira, que anuncia: “Este é o quinto de seis portais: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit”. Logo, não se trata de livro. Em um texto de divulgação do empreendimento vem a explicação: “Projeto Portal é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit”. Por isso, não há ficha catalográfica, indicação de editora, etc. Apenas os créditos: data (inverno 2010) e nomes dos responsáveis pela publicação, como o de Nelson: Coordenação editorial. Em outra comunicação há esta descrição sucinta: “São 31 narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, utopias e distopias, de 16 autores contemporâneos”. Ou seja, composições de ficção científica.

Mas o que é ficção científica? Para Wilson Martins, “A chamada ficção científica, que não é ficção nem científica, tampouco alcança os planos da literatura porque nela a função catalítica do estilo é, por definição, posta à margem como desprezível”. Pois Tibor Moricz (que não tem o prestígio do intelectual considerado por muitos como o último crítico brasileiro por excelência), em “Gênero X Mainstream” (http://esooutroblogue.wordpress.com), faz a seguinte observação: “A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Filadélfia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone”.

Essa mudança de status se dá ao longo do tempo. Assim como A invenção de Morel (Bioy Casares) “desceu um degrau”, Poe subiu. Edifício literário como o de Uilcon Pereira, por exemplo, alcançará algum dia o Cânone? Ou ficará no limbo: nem popular, nem canônico?

Os males ou os defeitos da ficção científica, o que a afasta do Cânone assim como do mainstream, sua pobreza (como um todo, ressalvadas as peças mais louvadas pela crítica), assim como (em menor grau) da literatura fantástica, sua penúria talvez esteja no distanciamento que o narrador guarda (nelas) de seus semelhantes, dando mais ênfase a objetos (máquinas, naves, etc.), ao espaço sideral e viagens pelo Cosmos, em detrimento dos problemas pessoais (humanos) dos personagens. O leitor se vê diante de seres sem estofo, ocos, quase máquinas, “sem alma”, sem sentimentos, inumanos. Em consequência, a trama foge dos seres e suas ações e sentimentos para se voltar para o espaço, as coisas (espaçonaves), medidas, velocidade, etc. A ação é desvinculada do humano, dos dramas psicológicos. Só mesmo escritores mais criativos conseguem fazer com que a “coisa” sobrenatural e o espaço de atuação do alienígena ou do ser irreal não substituam a pessoa, como na literatura fantástica (o Horla, de Maupassant) ou em José J. Veiga (a estranha máquina extraviada).

Porém, à medida que os cultores desse gênero se aproximam dos modelos da literatura canônica (Casares, Poe) – pela técnica e pelo tratamento literário dos temas, das tramas, etc.), sua “ficção científica” se revela como ficção, como literatura e perde o rótulo renegado pelos acadêmicos e críticos.

Braulio Tavares, no conciso “A república do recurso infinito”, lembra Kafka ou o mundo ficcional de 1984 (Orwell) e alguns clássicos da ficção científica. Em “Universos tangenciais (improviso)”, lê-se um sonho dentro de outro, e este de outro. “Aquele de nós (improviso)” é uma maravilha. Veja-se o epílogo a um tempo metaficcional e filosófico: “Ele sabe que todos os seus semelhantes são ficções, e que ele próprio não passa de um Terminal através do qual se manifesta a Nossa existência.”

Brontops Baruq, com “Planetas invisíveis: Diana”, segue a mesma linha de Braulio. Algumas vírgulas de menos não o impedem de ser muito criativo, além de ferino crítico da sociedade moderna. “Rebobinados” é ótimo como FC: a humanidade é a mesma aqui e agora (presente), nos idos da Roma Antiga (passado) e nos tempos fora da Terra (futuro). Onde houver homem, haverá “humanidade”, isto é, ódios, amores, ciúmes, inveja, todos os chamados pecados. E assim Baruq se distancia do descritivismo científico.

De Claudio Parreira é o estranho “Além do espelho”. Trata da solidão, o que o humaniza e o torna próximo da grande literatura. O drama não se dá no interior de uma nave nem em outro planeta. Ocorre na Terra, na famosa Rua Augusta, São Paulo: “Estava na padaria havia pelo menos oito cervejas, ou quatro conhaques, vai saber”. (...) “A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão. A sua solidão. Tão sólida quanto o balcão repleto de garrafas”.

Na mesma pegada vem Daniel Fresnot. Em “Exit”, o clima é de tragédia no espaço, em competição pela chefia da nave. E ainda o problema da solidão: “Agora estamos os dois flutuando fora d nave e o problema é que não há mais ninguém lá dentro para nos abrir a porta!” (...) “portanto, vamos morrer de sede.” Em sentido amplo, “A vida sexual dos dinossauros” é uma aula. Já em “Convenção” talvez se possa vislumbrar o próprio fazer Ficção Científica. Ricardo Delfin, em “Destino”, começa assim: “Prefiro estar morto...”. Em “Futuro do pretérito”, chama logo a atenção do leitor: “Eu me lembro de tudo como se fosse amanhã”. Em “Gazeta marciana”, o mundo de Marte se assemelha ao da Terra. O planeta vermelho num futuro (mas o que é futuro, presente, passado, tempo no espaço?) será como na Terra hoje. Outro Delfin (sinto falta de sobrenome), com “Sentinela”, mostra excelente composição na 1ª pessoa feminina, o que é raro. Basta ver que dos 16 contistas da publicação só há uma mulher: Maria Helena Bandeira, que, em “Neve e sanduíches”, lida com o fundamental humano, como na fala de Ingborg: “De que adianta continuar a viver se não temos lembrança de quem fomos?”. Outra constatação muito lida em FC: “Humanidade que há muito desapareceu, tragada pelo frio”. Outra peça muito estranha é “A gruta de Vênus”. “Eblon” é o paraíso. Em “Mãos de borracha” e “Quem sabe?” há diálogos e uma sentença paradigmática: “no mundo virtual de agora, ninguém tem controle sobre o que é real ou imaginário”. Colóquios também são bem utilizados por Marco Antônio de Araújo Bueno. Como em “Sem nome”, dividido em duas partes distintas: a primeira de conversações, a segunda uma narração ou um relato em primeira pessoa. “Arquivo truncado” vem na 1ª pessoa. Em “Seguimento dezenove” também há diálogos. Outro que se vale bem deles é Rodrigo Novaes de Almeida. Em “Contato Alpha 9” lê-se um delírio em frases curtas e diálogo direto. “Zaratustra” é curto e estranho, diferente dos demais da coleção.

Um dos epistílios da FC é a “brincadeira” (FC é, sobretudo, entretenimento) com o tempo. De Mayrant Gallo é “A paz forçada”: o drama se dá num futuro próximo e tem assim o início: “A nave surgiu no céu de um azul intenso” (...). Sid Castro, em “Prometeu acorrentado reboot”, se refere à nave Prometheus Vinctus, em travessia pelo hiperespaço. Vinha de um planeta solitário. Alusões a mitos gregos: Prometeu e Érebo. Belíssima alegoria. Luiz Bras, em “Primeiro de abril: Corpus Christi”, oferece como cenário uma cidade chamada Primeiro de Abril. O narrador brinca com personagens da ficção cinematográfica, como Capitão América, Capitão Gancho, Homem de Lata. Roberto de Sousa Causo, com “Arribação rubra”, nos leva ao planeta Reiboro e nos põe em contato com o humano professor Neftaim Zibeon.

Há muito de alegoria, principalmente na crítica aos humanos, na Ficção Científica, o que às vezes a afasta do puro entretenimento. Marcelo L. Bighetti, em “Novo início”, faz aparecer em cena um Adolfo Hitler imaginário a quem é apresentado “um pequeno e mirrado ser humanóide”. A seguir, relata-se uma viagem ao passado (em FC viagem é, quase sempre, na direção do futuro) e a chegada de colonizadores ao Brasil de 1500. Essa viagem ao futuro se vê em Rogers Silva. Lê-se em “Amor-perfeito”: “Quando o Apocalipse sobreveio” (...). Uma novidade (para mim) é o tratamento dado ao tema do homossexualismo: “não porque sou ingênuo ou exagerado, mas apenas porque te amo”, diz um personagem a outro (anjo Gabriel e Lúci). Além disso, Rogers utiliza uma das técnicas da nova (?) narração: um narrador cede a voz a outro, mudando o ponto de vista.

Um dos momentos áureos da coletânea está em Mustafa Ali Kanso, principalmente com “Herdeiro dos ventos”. O protagonista, que nasceu prematuramente, “em um caderno amarrotado começou a ensaiar seus primeiros contos envolvendo fantásticas máquinas voadoras e extraordinárias viagens para a lua” e “tinha o pérfido costume de ler”. Mais adiante, “como todo bom escritor, a despeito das evidências, desafiou o que era correto e continuou voando.” Até que decidiram “acorrentá-lo a uma bola de ferro.” É composição fantástica belíssima. Em “Uma carta para Guinevere” há algo de romantismo nos tempos das viagens cósmicas.

Para finalizar: Portal 2001 é bom entretenimento, sobretudo para o leitor de Ficção Científica, exibe “textos” muito próximos da literatura canônica e, portanto, é ficção.

Fortaleza, 21 de novembro de 2010.
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Ronda (Silmar Bohrer)



Andei rondando a noite

assim ao léu, sem intentos,

só ouvi a voz dos ventos

ventanejando com açoite.


Barra do Saí
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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os olhos da minha mãe (José Carlos Mendes Brandão*)

(Extraído de http://novapoesiabrasileira.blogspot.com/)


Nasce uma flor nos chifres da vaca,

Uma fonte de leite puro muge no pasto.

O orvalho da aurora me purifica.

Brotam da memória um bezerro e um touro

Voando sobre as árvores da infância.

Onde o cavalo do meu pai?

Onde o grito retumbando como o trovão?

Os centauros celestes fazem chover

Pétalas do delírio e borboletas azuis.

Um peixe curioso espia das locas na água verde

Do ribeirão correndo no fundo do pomar.

O eterno dorme ao meu lado como um cão.

Minha mãe chega à porta com pássaros nos ombros

E me mostra a face de Deus nos olhos.

*José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947, e hoje vive em Bauru, SP. Publicou O Emparedado, Exílio, Presença da Morte, Memória da Terra, Poemas de Amor e O Silêncio de Deus. Ganhou os prêmios “Estadual de Literatura” (GB), “José Ermírio de Moraes”, do Pen Centre de São Paulo, para melhor livro de poesia do ano, V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, Brasília de Literatura, Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte” (2000, por um romance inédito, e 2002, por um livro de poesia também inédito). Tive a indizível alegria de ser seu aluno, no distante ano de 1984, no Escolástica Rosa, em Santos. Para conhecer mais da obra de Brandão, visite http://poesiacronica.blogspot.com/

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O grito de Pasolini (Manuel Soares Bulcão Neto)


Com o advento da pecuária, e no processo de triagem dos animais que hoje constituem os nossos gados (caprino, ovino, bovino…), os homens sacrificavam os ariscos e mantinham os mansos e gregários. Konrad Lorenz, fundador da etologia, ao estudar este procedimento, constatou que as reses desta forma selecionadas conservavam, na idade adulta, muitos caracteres infantis, tanto fisionômicos (olhos grandes, crânio bulboso, maxilar mais retraído…) como afetivos e comportamentais. Ora – pensou o cientista –, na natureza, os filhotes de mamíferos são, em geral, mais dóceis, sociais e obedientes a comandos externos que os espécimes maduros. Até as crias de animais de hábitos solitários, como o jaguar, são sociais, visto que dependem da genitora e dos seus irmãos de ninhada. Concluiu, então, que o infantilismo genético-constitucional – i.e., decorrente de mutações nos genes reguladores do desenvolvimento que começa na fecundação – foi o critério utilizado pelos pecuaristas neolíticos. Em miúdos: o processo de domesticação se deu por meio da infantilização. Este fenômeno biológico, Lorenz denominou "neotenia".

O etólogo, entretanto, foi mais longe: sustentou que a neotenia também se dá de modo espontâneo, por seleção natural, consistindo numa das vias filogenéticas de socialização dos vertebrados. A propósito, são espécies altamente infantilizadas e gregárias: o cão selvagem, o macaco de Gibraltar (em tudo parecido com um babuíno jovem) e o bonobo (chimpanzé-anão).

E quanto a nós, Homo sapiens, o mais social dos animais, bicho "domesticado" pela cultura? Decerto que nosso neocórtex é produto de um desenvolvimento acelerado, não de um retardo. Algumas de nossas características, todavia, são claramente neotênicas. Com efeito, um feto desenvolvido de chimpanzé - Pan troglodites - assemelha-se bastante a um homem adulto: corpo pouco peludo, o semblante reto e uma caixa craniana grande relativamente à face. Demais, retemos das crianças o gosto por jogos e brincadeiras, a curiosidade exacerbada (que tantas vezes nos põe em perigo ou em situação de angústia), a capacidade de aprender…

Outra estrutura fenotípica que se manteve subdesenvolvida em nossa espécie é o sistema límbico: sede neuronal das emoções. Sim, é provável que o principal traço infantil que herdamos de nossos ancestrais consista naquele afeto comum a todos os mamíferos jovens: a dependência psíquica na relação com seus genitores, principalmente com a mãe. De fato, somente entre nós e nos bonobos a relação genitora-progênie dura a vida toda. - Nos anais da primatologia, há registros de chimpanzés-anões "adultos" que, não suportando o falecimento da mãe, em pouco tempo adoecem e morrem. (Complexo de Édipo?)

Já os humanos, ao contrário dos bonobos e graças a nossa capacidade ímpar de abstração, podemos preencher o buraco deixado pela morte ou falhas dos pais – estes são tão infantis e desamparados quanto os filhos – por equivalentes simbólicos: Deus-Pai, Mãe de Deus, Pátria-Mãe, a Razão maiúscula, as leis do (mater) ialismo histórico… em suma, qualquer coisa grande que explique nossa origem, aponte nosso destino e nos ajude a discernir o certo do errado.

Por fim, como me disse a psicanalista Maria Helena Cardoso, "a mãe é o maior órgão do corpo humano". Ora, quando a dor física é excruciante, o espírito se identifica cabalmente com a matéria: o corpo e, por conseguinte, com seu órgão mais importante. Foi o que ocorreu, presumo, com o escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini no momento do seu assassinato. De acordo com o depoimento de Valdetti, suposta testemunha, enquanto era brutalmente espancado – por um bando neofascista ou garotos de programa – Pasolini, como uma criança órfã ou perdida, apenas gritava: "Mamma! Mamma!…"
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Mais ficção científica com Portal 2001 (Taize Odelli*)

(Extraído de http://rizzenhas.com/)




Para celebrar a ficção científica e, ao mesmo tempo, divulgar novos escritores, foi criado o Projeto Portal. Trata-se de uma revista distribuída gratuitamente entre ávidos leitores amantes do gênero sci-fi dividida em seis volumes semestrais que homenageiam grandes escritores e obras. A última edição organizada por Nelson de Oliveira foi a Portal 2001, referindo-se, claro, a 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Entre passado e futuro, monstros e humanos, vemos diversas abordagens da ficção científica que juntas podem compor uma bela viagem pelo espaço.

Os contos que compõem essa edição do Projeto Portal são variados não apenas na abordagem, cenários e personagens, mas também na própria forma com que são escritos. Bom exemplo disso são os textos de Brontops Baruq, que diferem entre eles mesmos. Como uma das melhores partes da revista, Brontops monta dois contos inusitados e, justamente por isso, divertidos. Em Planetas Invisíveis: Diana, fala de um povo que se miniaturiza para resolver os problemas de falta de recursos do lugar onde vivem. Conforme novos conflitos surgem, eles diminuem ainda mais. O outro conto é Rebobinados, um divertido diário de um condenado escolhido para uma viagem intergaláctica, contando a aflição de estar ao lado de um criminoso sexual.

A diferença entre os textos está inclusive na forma com que são escritos. Em Planetas Invisíveis: Diana, Brontops divide pequenos capítulos dentro do conto baseado nas visitas que o personagem/narrador fez ao povo em miniatura. Já em Rebobinados, ele usa frases curtas e numeradas, repetindo-as de forma que montem o texto e nos passe a ironia do personagem preso em uma nave esperando virar a “namoradinha” de seu companheiro de viagem. Ambos os contos terminam com uma dose de sarcasmo que garante sucesso ao texto.

Outro destaque em Portal 2001 é o texto de Daniel Fresnet, Exit, onde explora o orgulho de suas personagens também em uma missão espacial, fechando o conto de forma trágica, porém cômica. Em contrapartida, Rodrigo Novaes de Almeida apresenta textos mais densos, sem parágrafos nem indicação de fala, trabalhando dentro desse espaço diversas personagens. Apesar de curtos, exigem muito do leitor, pois a compreensão do texto está totalmente ligada ao que ele deduziu durante a leitura.

Já Maria Helena Bandeira usa a fórmula curta e leve para falar de novos seres e planetas, com ou sem a participação de humanos. São textos leves e bem escritos, e por isso mesmo poderiam ser mais longos. Com certeza a autora teria ainda mais informações a incluir em suas criativas histórias.

Até aqui, todos os autores trataram do futuro, mas Marcelo L. Bighetti resolveu ambientar sua trama no passado. Voltando à Alemanha da Segunda Guerra Mundial, em Novo Início somos apresentados a Hitler lembrando de momentos de sua vida ligados a experimentos feitos por nazistas. Enquanto narra os flashbacks do líder, o conto nos mostra um grande grupo de casais sendo treinados para uma missão secreta que transporta todos ao passado. Esse é o conto mais estranho do livro, por não haver uma relação direta entre Hitler e a experiência dos nazistas, que levam os casais ao Brasil de 1500. Falta algum elemento para ligar um momento ao outro e dar sentido à história.

O humor pareceu dominar essa edição. Portal 2001 ainda conta com bons textos como Primeiro de Abril – Corpus Christe, de Luiz Brás, ambientado em uma cidade tomada pelas máquinas onde vemos super-herois revividos para combatê-las. Outro destaque é o texto de Fresnot, onde apresenta uma nova teoria que explica a extinção dos dinossauros, tomando como causa a falta de apetite sexual dos animais machos, contando tudo em forma de aula universitária. E também não posso deixar de falar dos textos de Ricardo Delfin, também curtos e que envolvem as mais diversas situações escritas de várias maneiras, como as manchetes de um jornal de Marte em Gazeta Marciana, que narram um dos conflitos do planeta.

Quem adora ficção científica deve conseguir pelo menos uma edição do Projeto Portal. É garantia de bons textos e de grande diversidade de histórias sci-fi. Em Portal 2001, os autores passam claramente a ideia de que a ficção científica pode ser trabalhada das mais diversas formas, e vemos que a maioria delas convencem como história.

• Pequena aprendiz de jornalista que se meteu a fazer resenhas porque estava com vontade de escrever alguma coisa. Além de ler, gosto muito de ficar procurando coisas interessantes na internet. Geralmente encontro no fórum Omega Geek e no Meia Palavra. Também faço resenhas para o Amálgama e o Blog do Meia Palavra, já colaborando com o site Artilharia Cultural e Ambrosia. Penso que, se tivesse talento, viraria cantora, já que amo música e não consigo ficar um dia sem ouvir pelo menos uma. Mas, no fim, literatura é o que mais me atrai.
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domingo, 21 de novembro de 2010

Prima Notturna (Valdemar Neto Terceiro)

http://infimoverde.blogspot.com/




(A morte de Sardanapalus, de Eugéne Delacroix)


Pois que o vinho seja amargo

E as ilusões, doces como o fel

Que me cai do teu vasto céu

Vindo de si o etéreo pecado;



Não mais! - deixa-me, fardo

Que me veio como doce mel

Do fundo e escuro olhar teu

Que tinha por mim, amado;



E guardo o sono derradeiro

Caído pelas vielas vis e nuas

Onde desgraço-me inteiro;



Pois que percam-me as ruas,

Lá, minh'alma clama ceifeiro

Por entre lembranças tuas.





Valdemar Neto Terceiro

Ipu, 15 de novembro de 2 mil e 10

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Um olhar (Ádlei Carvalho)

http://adleicarvalho.blogspot.com/


(Quadro de Chico Lopes)


Quero ainda algum tempo

Para cantar mais canções,

Contar mais estrelas,

Plantar mais flores

No coração,

Trilhar mais versos,

Romper barreiras,

Distribuir outros sorrisos,

Reler “O Pequeno Príncipe”,

Respirar mais verdes

E verdades,

Multiplicar afetos.



Tempo para aprender a olhar

Além dos outros olhos,

A estender incondicionalmente as mãos,

A ouvir mais que dizer,

A sofrer sem murmúrios

E seguir adiante.



Tempo para beijar a minha mãe,

Amar a minha mulher,

Abraçar meus irmãos,

Orar a Deus por meu pai.



Tempo para galgar degraus,

Subir em árvores

E montanhas,

Sentir a brisa,

Correr descalço,

Ouvir um samba

De Chico Buarque,

Aprender a dançar tango.



E quando eu me for

E o tempo já não fizer sentido,

Quero saber que tudo

O que vivi e desejei ter vivido

Não durou mais que o instante

De um olhar.
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sábado, 20 de novembro de 2010

Conversa com Caio (Parte 3)


NM – Como você recebeu a indicação de seu livro Trapiá para o vestibular da Universidade Federal do Ceará e como se sente com a 4ª edição de O sal da terra? Para nós, seus amigos, admiradores, leitores, sua obra merece muito mais que indicações para concursos e reedições. Você se sente pouco prestigiado? É assim mesmo? Um dia reconhecerão o seu imenso valor?


Caio – Não sei nem como de fato lhe responder. Há muitos prós e contras. Dou alguns rápidos exemplos. O romance O sal da terra está com duas adaptações para o cinema. Esteve a ponto de ser filmado. E não foi. Está com tradução pronta para o francês e ainda não publicado na França, embora já tenha saído na Itália e Líbano. O meu livro de contos O Casarão, que ganhou o Jabuti de 1975, da Câmara Brasileira do Livro, esteve a ponto de ganhar o prêmio Governador do Estado de São Paulo. Houve indecisão entre os jurados durante vários dias e perdi por um voto. Em compensação, o meu livro de contos Os meninos e o agreste, que ganhou o prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1971, ficou empatado com o livro da filha do Guimarães Rosa, Vilma Rosa, autora de Acontecências. Tristão de Ataíde, depois de dias, desempatou a meu favor. E assim muitos outros balanceios. Quando o Trapiá foi indicado para o Curso de Letras da Universidade do Ceará, claro que fiquei satisfeito. E fiquei mais ainda quando ele foi indicado no ano seguinte e alguns contos dele estão sendo filmados no Ceará. Então, meu amigo, quem se mete com letras passa por essas coisas. Vou lhe dizer uma, e não é modéstia: é meu feitio. Nunca me promovi nem lutei para conseguir alguma coisa nas Letras. O que veio recebi com agrado, mas sem exaltação, sem euforia, e não me pergunte por que... Nunca cogitei de entrar para uma Academia, embora pertença a uma Academia de Letras de Brasília, fundada por Almeida Fischer, ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ao Pen Club, a uma Academia em Buenos Aires (e nunca fui lá)... e sócio-correspondente da Academia Cearense de Letras. É uma questão de temperamento. Se me oferecerem, muito bem. Do contrário, não perderei o sono. O que vale é que tenho amigos valorosos no País inteiro que, por um motivo ou outro, gostam do que escrevo. O resto, meus livros dirão por si no futuro. Mais só uma coisinha: o meu conto "O pato do Lilico", do livro Trapiá, está em 14 antologias de contos e sempre me pedem para publicar em outras. Vou acrescentar uma coisa que me agrada: fiz a apresentação de aproximadamente uns 300 livros e não fiquei rico. Se eu tocasse rock a conversa seria diferente. Sou muito apegado às minhas raízes. Estou em São Paulo há pouco mais de 50 anos e já voltei ao Ceará umas 90 vezes. Em breve estarei retornando à terrinha.

NM – Creio que tocamos nos pontos essenciais. Podemos dar por encerrada a entrevista. Porém, deixo com você o ponto final. Tem algo a dizer mais? Fique à vontade.

Caio – Creio que falei até demais, eu que sou sucinto em tudo, a não ser em bate-papos.
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