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domingo, 9 de janeiro de 2011

Na boa tradição dos poetas ensaístas (Adelto Gonçalves*)



I

Para quem quiser se iniciar na arte da crítica, um bom caminho é ler Memórias de um leitor de poesia & outros ensaios, antologia do poeta Antonio Carlos Secchin que reúne textos de variada origem, inclusive entrevistas, um depoimento, o seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras em 2004, uma aula inaugural do ano letivo de 2004 na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e uma comunicação no Congresso de Literatura Brasileira na Universidade do Porto em 2005, entre outros.

Na boa tradição de poetas ensaístas, que vem de Baudelaire (1821-1867), que exigia que o crítico fosse também poeta, T. S. Eliot (1888-1965), Jorge Luís Borges (1899-1986) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que se tornou bastante conhecido como poeta e cronista, mas pouco referido como ensaísta ou contista, entre outros, Secchin sabe dosar a erudição livresca com senso analítico para tratar os mais variados temas da Literatura Brasileira, desde o Pré-Romantismo ao Modernismo, passando ainda pelas tendências contemporâneas.

Como exemplo, basta lembrar a observação que faz no ensaio que dá título ao livro, a propósito da impossibilidade de se apostar na “objetividade” da análise, já que a interpretação de uma obra varia de acordo com a época e as circunstâncias em que é objeto de estudo. Secchin observa, com percuciência, que, durante seis décadas, Capitu, personagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis (1839-1908), pôde trair Bentinho em paz, pois a suspeita – não de adultério, mas de inocência – só foi explicitamente formulada, em 1960, pela professora e ensaísta norte-americana Helen Caldwell, precursora do movimento feminista nos Estados Unidos. “Impossível, portanto, atribuir um sentido sem levar em conta as condições históricas que viabilizam a sua formulação”, diz Secchin.

De fato, em Brazilian Othelo of Machado de Assis (1960), Helen Caldwell, à época em que se consolidavam nos Estados Unidos os primeiros escritos de linhagem feminista, inverteu os papéis, colocando Bentinho no banco dos réus. Para ela, Bentinho poderia ser observado também como um neurótico que via em detalhes mínimos “provas irrefutáveis” da suposta traição de Capitu. Como àquela época nem se sonhava com a possibilidade de exame de DNA, esse é um enigma sem solução, pois assim também foi imaginado por seu criador, Machado de Assis, o que, aliás, constitui a grandeza da obra.

Mas, até 1960, nenhum crítico brasileiro ou estrangeiro havia colocado em xeque o que Bentinho alegava em sua defesa nem o tinha por um desajustado que via além do que a realidade mostrava. Se para Bentinho o seu filho Ezequiel tinha feições e trejeitos que lembravam o seu melhor e finado amigo Escobar, nada justificaria que Capitu não o tivesse traído. Assim também pensava a sociedade patriarcal em que o Brasil vivia mergulhado até então. Tanto que foi necessário uma feminista norte-americana lançar o seu olhar de fora para ver além do que estava escrito. Que o romance de Machado de Assis tenha permitido essa viragem de interpretação é só mais um exemplo da transcendência inata que toda obra de arte guarda intrinsecamente.

II

A propósito da observação de Secchin, é de lembrar que, nos dias de hoje, discute-se se Monteiro Lobato (1882-1948) pode continuar a ter um de seus livros indicado pelo Ministério da Educação para professores e alunos do ensino fundamental. Ora, os tempos são outros e não há dúvida que o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, tem observações de teor racista, que devem ser lidas no contexto em que foram escritas. Mas nem por isso justificadas.

Ao contrário de Machado de Assis, Monteiro Lobato não sobreviveu ao embate com o tempo. É um escritor que tem a sua importância histórica e merece continuar a ser estudado por um ou outro especialista ou historiador, mas já não é um autor que deve ser lido obrigatoriamente por crianças e adolescentes. Boa parte de sua mensagem não condiz com o país miscigenado em que vivemos, ainda que sua obra venha a ser distribuída às escolas públicas com uma nota explicativa.

Não se está aqui a defender nenhuma forma de censura, mas hoje não já não se aceita pacificamente algumas expressões de racismo explícito que permeiam obras de Monteiro Lobato que seriam destinadas ao público infanto-juvenil. E que são reflexos da sociedade preconceituosa que era o Brasil na primeira metade do século XX. Não se pode deixar de lembrar que a afirmação do afro-descendente no Brasil deu-se, simbolicamente, a partir de 1958, quando a participação de jogadores negros e miscigenados na seleção brasileira de futebol foi decisiva para a conquista da Copa do Mundo na Suécia.

Até então, no Brasil, vivia-se um apartheid disfarçado, não-oficial – e aqueles que ascendiam socialmente e traziam sinais de sua ascendência africana ou indígena tratavam de disfarçá-las. Quem fez a cobertura política no Congresso, em Brasília, nos anos 70 e 80, lembra muito bem o pânico em que entravam certos deputados ou senadores quando algum repórter, às vezes inadvertidamente até, se lhes referia a alguma herança genética africana que exibiam. Não lhes parecia de bom tom lembrar aquilo, pois se assumiam inteiramente como homens brancos. E não faz tanto tempo assim.

Não se esqueçam que Campos Sales (1841-1913) e Nilo Peçanha (1867-1924) foram presidentes da República cujas raízes africanas acabaram totalmente borradas pelos historiadores. E, hoje, só sabemos desse fato porque um ou outro cronista ou desafeto político escreveu sobre isso em jornais da época.

Até bem pouco tempo atrás, os brasileiros fazíamos enorme esforço para nos mostrar brancos e europeus, sempre procurando negar a África que carregávamos irremediavelmente em nós. Mas, hoje, com a conscientização cada vez mais forte de que somos uma sociedade miscigenada, não há sentido distribuir aquele tipo de livro às escolas públicas, pois só estaríamos ajudando a insuflar o preconceito racial e social. Isso não significa que Monteiro Lobato não possa ter seus livros reeditados sempre que um editor o queira. Mas daí o Ministério da Educação distribuir alguns de seus livros que tenham expressões de teor racista a crianças e adolescentes vai uma grande distância.

Afinal, ninguém pode ser impedido de ler O manifesto comunista, de Friedrich Engels (1820-1895), O capital, de Karl Marx (1818-1883), Mein Kampf, de Adolf Hitler (1889-1945), ou Os protocolos dos sábios de Sião, propaganda anti-semita apócrifa na tradução de Gustavo Barroso (1888-1959), mas não se pode admitir que um governo democrático possa distribuí-los impunemente aos estudantes de escolas públicas. São referências históricas.

III

Portanto, a leitura de Secchin nos ajuda a entender até um caso recente como esse que se refere a Monteiro Lobato. Como diz o editor José Mario Pereira na apresentação que fez para Memórias de um leitor de poesia..., Secchin é “um intérprete do fenômeno literário que não se deixa enlear pela camisa-de-força de escolas e métodos de interpretação, capaz de temperar com argúcia e sensibilidade raras o que mais lhe convém no campo da teoria”. E mais: “pertence à estirpe de críticos que se empenham em remover a pátina do tempo e, sobretudo, a baba dos áulicos e o veneno dos desafetos de ocasião para restaurar o que de bom e de útil leitores, críticos e autores atuais podem encontrar direto nas obras”, como observa José Nêumanne Pinto, em resenha que fez deste livro.

É exatamente o que Secchin faz no ensaio “Vinícius: os caminhos de uma estréia” em que analisa a fase inicial da carreira do poeta que, ao enveredar na sua fase madura pela música popular brasileira, passou a ser visto com certas reservas pela crítica literária. E conclui que as escolhas do jovem Vinícius de Moraes (1913-1980), “superada a voz dogmática de seus poemas do livro de estréia, o (e)levariam à condição de maior poeta lírico da poesia brasileira do século XX”.

Só que, como reconhece Secchin, essa história ainda está por ser contada e comprovada no cotejo com aqueles poetas que lhe foram contemporâneos. A princípio, porém, não há como negar que foram raros os poetas líricos do século XX que chegaram ao nível de Vinícius de Moraes, hoje mais lembrado pelos versos que escreveu para músicas criadas por compositores do show business.

IV

Além de acadêmico, Secchin é professor titular da Faculdade de Letras da UFRJ, doutor em letras pela mesma instituição e bibliófilo de renome. Publicou, entre outros, João Cabral: a poesia do menos (São Paulo, Duas Cidades, 1985), Poesia e desordem (Rio de Janeiro, Topbooks, 1996), Todos os ventos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2010), Escritos sobre poesia & alguma ficção (Rio de Janeiro, Eduerj, 2003) e 50 poemas escolhidos pelo autor (Rio de Janeiro, Galo Branco, 2006). Foi o organizador de Poesia completa, de Cecília Meireles (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001), Poesia completa e prosa de João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2008) e de Poesia completa, teatro e prosa de Ferreira Gullar (Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2008).

Mas, como se disse ao início desta recensão, Secchin é, antes de tudo, um poeta que sabe definir como poucos o seu ofício, ou seja, um crítico e um ensaísta de mão cheia. “A poesia é o lugar do imponderável, onde, portanto, até o ponderável pode acontecer. Mas nada disso vale, se o delírio não se submeter ao imperativo da forma”, diz. Já o poeta, para ele, é “uma ilha cercada de poesia alheia por todos os lados: insulado em si, no seu comportamento radical de criar uma palavra tanto quanto possível própria, mas abastecida pelo manancial que flui dos mais diversos mares discursivos”. Só estas palavras já bastam para se recomendar a leitura destas Memórias de um leitor de poesia...

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MEMÓRIAS DE UM LEITOR DE POESIA & OUTROS ENSAIOS, de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 273 págs., R$ 39,00, 2010. E-mail: topbooks@topbooks.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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sábado, 8 de janeiro de 2011

Nilto Maciel, O Mago das Almas (José Feldman)



Esta semana recebi o livro Contos Reunidos, volume II, de Nilto Maciel, enviado pelo próprio autor, ano passado já me havia enviado o volume I. Aliás, estou profundamente agradecido ao escritor que tem me enviado periodicamente seus livros e jornais literários do Ceará.

O que podemos falar de Nilto? Antes uma breve apresentação do escritor, para passarmos aos comentários sobre seus textos. Uma biografia mais completa você poderá encontrar em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/04/nilto-maciel-1945.html.

Nilto nasceu em Baturité, cidade localizada ao norte do Ceará, cerca de 100 km, cuja população é de cerca de 30 mil habitantes. Foi o ano de 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco (http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/08/nilto-maciel-revista-o-saco-e-o-grupo.html). Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 regressou a Fortaleza onde reside atualmente. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Mais sobre o autor pode ser encontrado em seu site http://www.niltomaciel.net.br/ .

Contos Reunidos vol. I são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 e 1990), Tempos de Mula Preta (1981 e 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).

Deste modo, no total são 188 contos para que o leitor possa viajar em suas folhas, entre o trágico e a comédia, a paisagem nordestina e a cidade grande. Seus contos fazem aflorar as nossas emoções mais profundas, desde a revolta pela vida de pessoas (como a Última Guerra de Hiroito, http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/08/nilto-maciel-ltima-guerra-de-hirohito.html) e mesmo dos animais (Carlim, http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/08/nilto-maciel-carlim.htm). Como no caso de Carlim, a revolta pela injustiça da vida de uns, misturada à tristeza que nos domina pelo resultado final. Mas, Nilto não pára só em sentimentos de desconfortos, segue adiante percorrendo cada emoção, a dúvida, a curiosidade que o ser humano possui, como neste que classifico como “fantástico conto fantástico”, O Riso do Gato (http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/05/nilto-maciel-o-riso-do-gato.html), em que coloca em um caldeirão a dúvida, o suspense, a curiosidade, o fantástico e o humor.

Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.

Segundo João Carlos Taveira, no prefácio do livro de Nilto, Vasto Abismo: “Sua oficina romanesca comporta o absurdo, o fantástico, o linear, o surreal e, não raras vezes, o satírico, o burlesco, o humorístico. Seus temas, por diversos, exploram desde o corriqueiro e trivial triângulo amoroso, passando por perquirições do gênero policial, até o mais intrincado universo psicológico. Carpintaria digna dos melhores mestres da arte ficcional”.

Enfim, Nilto nos faz navegar num oceano de sentidos, com as velas da realidade içadas, mas fazendo-nos entregar-se às ondas da ilusão. Nos leva a enfrentar ventos contrários, hora fazendo com que sejam brisa em nosso rosto, hora tempestades que nos jogam contra os rochedos. Sorrisos, lágrimas, desespero, ansiedade, desejos, sonhos, dores, ressurreição são as águas deste oceano. Em cada conto encontramos um refúgio para a nossa dor, que nos transforma e faz com que cada página seja como o mar a beijar a areia, deixando sua marca.

Contos Reunidos vol. I e vol. II são momentos de magia que nos fazem transgredir as fronteiras do conhecimento e do desconhecido. Nilto faz com que o leitor deixe de ser um mero espectador e seja personagem integrante de seus textos.
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Melro (Mariel Reis)

(Quadro de Chico Lopes)


Pássaro tingido


Pelo crepúsculo,


(Morto músculo)


Emite o canto


Exangue.




Cantará


A voz estanque,


Lavada de perjúrios?




Extinguirá o som


Proveniente do homem?


Acuado, preso ao escuro,


Não recortará horizontes?




As linhas embaraçadas


Na paisagem do corpo,


Recortadas e rubras.


Despegam-no morto


Da moldura da rua.


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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Redescobrindo Teresina (Geovane Monteiro*)

De certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado. Franz Kafka


(Quadro de Chico Lopes)


Ninguém poderia ser mais obscuro que J. S. à espera do amigo. Havia em causa um encontro de sábado à noite. Na cidade, nada sucedia uma renovação no olhar. Teresina de carros parecendo fugir das próprias avenidas, de luzes atentas e neutras, de prédios fechados a armazenar no concreto frio a semana inteira.

O atraso de uma hora o obrigava a forçar uma falsa desesperança, para sentir-se orgulhoso. Ele obscuro e ingênuo, o garçom concentrado na própria negligência em não apostar em um único cliente. Tudo posto: a inscrição de unhas no isopor da cerveja, a cobertura de plástico indicando uma mesa de bingo, o garçom expedindo milhos na mesa do rapaz, o bar quase deserto destacando as coisas à margem de si mesmas.

O recinto era humilde e consagrava os que bebiam no impulso de quem procura por algum status. Mas ele já não acordava para a mediocridade do bar; o lugar estava justamente para abrigar a escassez de ideias. Frente à BR 316, eram acrescentados, ao atraso, os fregueses aos poucos preenchendo as mesas; Na lateral da cadeira, na qual se sentaria o amigo, a porta do único banheiro, a marquise esmaltada ameaçando cair, mas nem aos clientes, nem ao garçom caberia uma precaução. Afinal era sábado no bar que principia o Bela Vista em confluência com o Parque Piauí, o que sugeria a semana ganha em si, o consolo em envolver-se sem o comprometimento dos próprios gestos.

O próximo gole e a atenção para fora do estabelecimento. O companheiro chegando? Da Vermelha não sairia um último ônibus em menos de uns quinze minutos. Quinze? Talvez vinte ou o tempo necessário de ostentar o atraso. Aconteceu que, depois das vinte e duas horas, a falsa desesperança passava a ser traída pela ausência cada vez maior. Devem-se acrescer as outras vezes sozinho no mesmo bar e com a mesma ausência aos poucos se somando à claridade da noite. Ele não viria? Se viesse despencariam em ambos os mesmos vagos e empolgantes diálogos, um silêncio repentino, sem ruptura e simultâneo aos dois. Restava apoiar-se na noite ainda viva nos postes e no vapor quente trazido dos ônibus ainda a serviço.

Haviam se conhecido no ensino médio; quando transportados para a capital, a amizade se estreitou conforme havia de ser. A faculdade os fazia emergirem de uma amizade adicional aos tempos de Água Branca; tempos de quase nenhum esforço que pusesse J. S. à tona. O gosto da sobrevivência não era cativo do medo, a vida pacata na cidadezinha poupava-o da própria timidez; qualquer curiosidade nervosa ficava metida na tenra idade. É da idade tanto silêncio, diziam aqueles que, por alguma estranha aceitação, apostavam na mocidade. E então os dias se cumpriam sem a ideia de tempo; por entre um mundo vasto, porque ininterruptamente íntimo, a sobrevivência a cargo de seus pares de quem a ele cabia apenas o benefício.

O certo é que o amigo era um homem bom, idêntico a ele na hora em que o papel na vida cedia lugar a um sábado à noite. O hábito de saírem juntos asseverava uma amizade com espaço para carência dos dois numa cidade nova, com semáforos, pontos de ônibus e cumprimentos demarcados; os canudos e os estágios de emprego os fizeram sentir a cidade sob o que lhes sobraria da falta de adaptação, da carência de respostas ironicamente atravessada na conquista de serem filhos adotivos da cidade, como uma riqueza difícil, um obscuro apego.

Desde que recebeu uma chave por entre as ruas do Lourival Parente, e a propriedade reforçou um hábito de vida, nada dizia que fora da casa se reunia a extensão de suas afinidades. Dois provincianos, um esperando do outro uma certeza de vida que, souberam bem, não havia. Dialogavam como se levassem vantagem em não estarem sozinhos no medo de viver. Se um lançasse um questionamento, tímido que fosse, o outro aproveitava de si o aconchego da ingenuidade. J. S. o ouvira falar sobre namoradas, sentira não estar ainda com o mesmo engajamento e isso lhe transmitira insegurança e ternura. Sem contar com qualquer alteração, esperara visitas dele, o sol no horizonte e a vontade de sintonizar tudo o que não sabia da cidade.

Mas não imperaram somente as coincidências. A ausência gradualmente apontava mais que um acaso aos desencontros. Mais e mais se instalava no companheiro a ânsia de querer achar em Teresina alguma liberdade, que nem sempre percorria J. S. Talvez por isso a Vermelha para o amigo já não oferecia somente uma quitinete de universitário; antes, uma gente passou a enquadrar um tímido e sucessivo conforto no qual ele buscaria uma compreensão de si. Os CDs, os livros, e também pessoas, inauguravam novas carências e o horizonte indicava possibilidades e tentativas; a inocência residia em não precisar fugir de J. S. para rejeitá-lo. Quem sabe, por essa razão, nem sempre as semelhanças entre eles indicavam um alívio covarde do que era deixado para trás como uma reserva. Por isso o sábado de espera dava a cisma de trair limitações e desperdiçar a vida anonimamente valiosa.

Ele já não examinava o relógio. A pequena movimentação estaria familiarmente concluída. Faz sinal ao garçom que, harmonizando a simpatia do negócio com a disciplina do ofício, traz outra cerveja e pergunta se pode recolher da mesa o segundo copo, há muito aposentado e enchido ao meio. J. S. olha distraído o termostato do único refrigerador, faz gesto positivo sem nenhuma expressão a não ser do instante de outro copo virado difícil, mas seguro da vez.

─ Mais alguma coisa, senhor? ─ dizia o garçom, sem deixar de observar a presença dos outros fregueses.

─ Não, obrigado ─ retribuía, querendo conciliar o insucesso da noite à resposta mecanizada.

Mas os clientes do bar não o notavam a menos que o amigo chegasse? Por caso não estar mais sozinho quebraria nele o mesmo segredo que fez os outros entrarem no bar sem nenhum pudor?... Todos ali acompanhados, responsáveis pelo planejamento da companhia. Mas a ele não acontecera um planejamento? Sim, a ele tudo também fora planejado. Talvez até a tamanha ausência fosse uma representação das noites presas à sua mão sonsa e vibrante. Agora, os dedos batendo na mesa, as sobrancelhas indicando sucessão de si em goles com alguma prova de contato íntimo. Mas aos demais apenas goles? Talvez os outros bebessem sem nenhuma sede ou sabor, não necessitassem de provas além da completa noite.

─ E eu? ..., perturbava-se, tentando exigir da pergunta um ajuste com a madrugada. ─ E eu? E eu? ..., repetia, para o silêncio em si não lhe despertar uma incompreensível acusação.

Afinal considerou o garçom sozinho também, mas servindo-o, conservando-lhe uma condição social a permitir a compra da bebida, porque se tem dinheiro e se aprende gentileza. O moço servindo-o fazia parte de um alheamento mútuo e necessário ao andamento das coisas. O silêncio entre eles de repente se tornou tão harmônico, tão participativo e terrivelmente justo. Não, não poderia mais esperar ninguém. A negligência com o garçom entregava-lhe um poder que o salvava com vergonhoso proveito e dava a ele a sensação de covardia. Restava-lhe calar-se, fingir um contentamento que fizesse da figura humana a aceitação da espera. Era a forma de apaziguar-se, mas a violenta surpresa estava em precisar humilhar para descobrir o doloroso sucesso. Vingança? Ele conseguia era sucesso, mas considerava apenas o terror de fazer parte de uma liberdade.

Daí a pouco, voz pausada da moça girando o globo, bingo incandescido pelos gritos a querer fazer do entusiasmo a sorte no jogo; uma turma de rapazes reclama da fumaça de cigarro em rodopio, outra se programa para a ressaca na Velha Guarda. Ele esquece o garçom (que importa agora o garçom ser o dono do bar?) e procura no gole a noite finda, a BR 316 a cem-quilômetros-sul. Nada encontra senão o sorriso vagaroso, inútil, como se o castigasse por não odiar os que sumiram para nunca mais. O amigo estaria sim em algum lugar a dizer, dias depois, que a vida é enorme, um descaso só, mas dar para se virar, seja por uma noite tão calma, longa e acolhedora, seja para reencontrar em outro bar a lealdade da face, aquela nunca além de descoberta apenas contida.

─ Bola de número seis, última bola chamada. Não desmarquem suas cartelas ─ esforça-se a moça, suave e fugaz.

Mas a ele qualquer número representaria um alheamento de alegria tão vaga quanto identificar quem sorria ali. Lembrou-se de quando morar e estudar em Teresina não passava de uma conversa secretamente desacreditada para aliviar a insegurança. Lembrou-se das coisas estacadas na própria apreciação.

As cervejas a essa altura traziam as palestras dos dois, a salvação em poder ter uma mesa enquanto todos gozariam de algum cuidado sem culpa; a salvação a cada milho marcando de novo o jogo, a cada grito de bingo a esboçar em um e outro freguês o próximo jogo; a própria perca parecia trazer à tona J.S; a espera, retribuir a imagem e semelhança entre os que integravam o bar.

Mas o que estaria fazendo o companheiro? Também bêbado e sem mágoa em algum lugar da capital? Sim, J. S. embriagou-se e ao outro também haveria de ter acontecido uma surpresa, seja de gritos de bingo, seja de dinheiro na mão e gentileza aprendida. Quem sabe o amigo estaria sonhando sem voltar a 1998, quando “aprender andar na cidade nunca deveria ter acontecido.”

Ainda um tanto embriagado, com o ar distante e sem ruptura com o que não lhe foi oferecido, começou a sentir na vontade própria a essência do lugar. Tudo ali virou força e conservação e já surgia em hábito. Ele próprio se tornou um hábito, uma incorporação da noite. Recuperava a segurança no caminhar, o modo de abordar alguém fortuitamente. Uma ausência de precaução o levava a um refinamento, a uma vulnerabilidade, outrora, o esforço de um dever. Não abordava ninguém, mas era bom contar com a destreza guardada.

Sobre a cadeira, o movimento e o repouso do corpo davam-lhe uma esperança que não o comprometia, apenas continuidade; uma esperança em si, feito uma boa surpresa logo esquecida. J. S. encenava contemplar a música de intervalo do bingo, embora qualquer tentativa de responsabilidade só o fizesse avançar na noite, sem claro entusiasmo. Ao ir ao banheiro ou ao conferir o dinheiro no bolso, surpreendia-se, mas com o quê? Parecia pertencer ao próprio sorriso meramente suficiente, sem fuga, um macio perdão à vida. A sinceridade disfarçada de silêncio amenizara seus dias, mas quem se expressa no próprio silêncio aprende o gole no aconchego de ser – eis o insondável da existência. Aquela gente reunida em mesas, indiscreta e sem necessitar de nenhuma comprovação da noite, aquela gente surgira da confiança no incerto capaz de conceber a vida por puro descuido.

Um pouco antes das certezas confusas, de perder a embriaguez, em si a própria elucidação, J. S., num aceso de estranheza e intimidade, recordou-se do amigo; contudo, a essa altura já não sabia de quem era a espera. A lucidez correspondera ao sol impossível da tarde. No lugar de uma verdade a olho nu, o violento contato do fulgor nos olhos libertara uma cegueira de claridade. Por outro lado, a bebida lhe fazia viver das respostas que nunca tivera, mas não da ausência de respostas. A desordem na cabeça clareava intuitivamente um modo de existir; eis a harmonia da desordem. Distrair-se constituía então o esclarecimento das coisas, como um espanto bom: a vida confiada.

Afinal, não havia mais bebida nem espera; o sol ressurgia apertando-lhe os olhos dentro das mãos. Uma dormência na boca e uma doçura indiferente a tudo lhe davam os primeiros raios do dia sem nenhuma ameaça, senão flagrar uma cidade onde não escaparia dele algum cuidado de vida.

O vago orgulho de morar na capital e a saudade da família fizeram-no retornar violentamente à lealdade da moradia. Sentiu culpa de ter deixado-a sozinha, entregue a uma mobília que ele desconsiderara para aventurar-se no egoísmo de querer estender-se dentro de si. Mas ao amigo não teria acontecido o mesmo: a quitinete estaria resolvida na surpresa com o espaço da morada, embora pudesse haver solidão.

O espaço na vida de J. S. agora era retornar a casa, como se o tempo da chegada lhe desse a última chance. Os postes das ruas ainda acesos evidenciavam conforto e solidão às mulheres varrendo calçadas. Por entre o vento morno, pardais esvoaçavam para atravessar o breu e reinaugurar arranjos da intervenção humana dos quais ele teria a parcela: sua passagem sob as primeiras luzes do dia, a cidade tumultuosa, fervilhante. A essa altura mal imaginava especialmente o que poderia fazer de um domingo qualquer. Na noite havia música, apostas, amores, mas agora toda a gente estaria espalhada na cidade, faria do domingo uma regalia de quintal, uma surpresa do que se compreende bem.

De volta a casa, com a embriaguez começando a também fazê-lo esperar, remexia na memória o caminho diário da faculdade, o Rodoviária Circular de azul já sem segredos, honesto, finito.

─ A hora mais perigosa do dia... ─ balbuciava aturdido, como se conhecesse as próprias inquietudes.

Ao longe, um horizonte pertencendo à manhã ensolarada, um extravio de amizade para um futuro que nenhum garçom investiria sem errar a conta.


*Geovane Monteiro, professor e escritor.
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

E Agora José? (Carmen Silvia Presotto)



Hei! Não digam nunca não…
Drummond?



Cadê a minha matéria que é feita de outros?
E o povo, José?
Ver nada é pouco para tamanho vazio,
por isso, quando a noite cai, visto-me de lua
não digo não, nem nunca…
Apenas, adorno-me para abocanhar o sol
sei que nos amanheceres, nem perceberei o tilintar das moedas, nem o tempo, nem a distância.
Não digo não nem nunca...
Apenas, preencho brancos espaços com febris palavras.
Sei que elas anestesiam lobos e cordeiros
LobOdeirOS que amenesiam latentes universos
Zeros covardes pulsam, mas não amortecerei a um nunca, nem a uma imagem, nem a um mundo de míseras horas…
Hei! Não digam nunca não…
Já houve um tempo
já houve um verde espaço
sem hipocrisias…
Já houve um Norte
já houve um Einstein
Tempaço!
E cadê nós, José?
Sem alma tudo é lama ou carne petrificada…
Santa Hipocrisia...
Esse é o povo que me quer pura e alva?
Quem são esses mortais, José?



Baco
Hermes
Dionísicos momentos?
Cálices Insanos!
Marcaram-me com sangue para colher minha única brancura.
E Agora derreti, sou neve no gelo, livro no ar…
Hei! Não digam nunca não…
José, querem nossas vidas, mas agora feito de povo escrevemos...

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Poética de Linhares Filho (Nilto Maciel)

Sou contemporâneo de Linhares Filho. Quase da idade dele. Um pouco mais novo. Em poesia, estreou em 1968, com Sumos do tempo. Ano de terríveis confrontos sociais no Brasil e no mundo, ano em que me vi no meio do turbilhão político. Por isso, talvez, não pude acompanhar o nascimento literário do poeta de Lavras da Mangabeira. Passada a cólera, a ira, o tumulto, a agitação nas ruas (seguiu-se a fase do silêncio ao ar livre e do gemido nos cárceres), passados os devaneios juvenis, salvo das garras das aves de rapina dos anticomunistas, voltei-me para os livros. Linhares também deve ter se recolhido naquele período, pois em sua biografia há um hiato prolongado a separar o livro inicial do segundo e do terceiro: A metáfora do mar no Dom Casmurro (ensaio crítico) é de 1978, e Voz das coisas, (poemas), do ano seguinte. É a partir desses anos meu conhecimento dele. Ou de sua obra literária.

Ganhei dele, agora, final de 2010, mais três volumes: Com a palavra (palestras); 50 poemas escolhidos pelo autor (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2008) e No limiar do inverno (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010), de poemas. Poderia comentar toda a obra em verso de Linhares, se não me faltassem a dedicação de leitor ou o senso e a sabedoria de crítico. Direi, porém, duas ou três palavras apenas a respeito de sua poética, deixando para outrem o pesquisador da literatura, o analista minucioso e atento de Machado, Pessoa, Torga, Camões, Saramago, Drummond e outros.

A poesia de Linhares Filho tem roupagem tradicional, sobretudo pelo uso frequente do verso medido e rimado. Entretanto, vai além disso, com a manipulação de múltiplos recursos formais: do soneto ao verso livre e a poemas de variados feitios, em versos decassilábicos ou de cinco, seis, sete e oito sílabas. O apego à vestimenta da tradição o livrou da aventura pela chamada poesia de vanguarda, pelo antiverso, pelo poema visual e outras modalidades de efêmera duração. Isto é, consciente e conhecedor do fenômeno estético, tem pleno domínio da técnica do verso. Sem se apegar, com fanatismo, à métrica e à rima, faz uso também do verso branco, como em “Das coisas”. Quanto à rima, ele a pratica muito bem, em todas as suas modalidades ou tipos: consoante, aguda, esdrúxula, grave, etc.

Não bastasse isso, é conhecedor dos sortilégios da linguagem, da densa elaboração da linguagem, da melodia do verso, a exemplo dos bons cultores do verso. Encontramos em seus poemas o “encanto verbal” (Drummond) ou a “pureza vernácula” (Iranildo Sampaio), tão afastados de uma infinidade de escritores que estudam pouco, leem quase nada e se acham gênios. Em Linhares a tal pureza vernacular pode ser constatada com facilidade, como quando pomos em linha reta, ou de prosa, alguns versos: “Certo é que, sob o rescaldo da fogueira antropofágica do teu povo caeté, já se ateara teu desafio, e, da fornalha a vir, manarão as larvas de um vulcão, fluindo sempre, em rio” (“A Lêdo Ivo, ante Réquiem”).

A poesia de Linhares foi chamada por alguns críticos de intimista. Pois o poeta não se deslumbra com o circunstancial e o efêmero, embora não os deixe de lado. Em seus livros há poemas de puro descritivismo ou de saudação: “És, Cidade Maravilhosa, / luz do Sudeste, glamourosa / fidalga” (...). Ou “Cidade show, cidade shopping, / cidade grávida, / devolves à Nação inteira” (“Ode à Pauliceia”). Assim como há observações de fatos: O terremoto do Haiti.

Como percebeu Adriano Espínola, outro poeta admirável, Linhares Filho “encara com a maior seriedade os graves problemas do homem, em termos existenciais, sociais e metafísicos”. São muitos os seus poemas em que se vê além da matéria, como ser, como parte do Todo. E se explica: “Por isso também canto salmos e hinos”. Ou composições recheadas de religiosidade: “Ao Espírito Paráclito”, “Ato de Humildade” (“Sei que, apesar de tudo, / não sou maior em nada”), “Amor Perene” (“Entre nós Deus habita, e por seu nome / cumprimos nosso ideal de amor eterno”).

Como todo grande poeta, Linhares é bom filho e sabe amar seus pais espirituais, os poetas que nos antecederam aqui e alhures. Sua obra é plena de “ressonâncias intertextuais”, de que fala José Augusto Cardoso Bernardes. Não apenas nas muitas homenagens a poetas cearenses e de outros Estados (Anderson Braga Horta, Cassiano Ricardo, Dias da Silva, Drummond, Dimas Macedo, Filgueiras Lima, Lêdo Ivo, Machado de Assis, Manuel Bandeira), mas aos estrangeiros de sua predileção, como Camões (“E cada vez que nos sentimos tristes, / ou do amor com enganos, desenganos, / mais, ao lermos teus poemas, te sublimas!”), Borges, Heidegger, Pessoa, Torga, presentes também em epígrafes.

Como observou Sânzio de Azevedo, outro poeta e crítico de reconhecido talento, o autor de Tempo de colheita “é um desses artistas verdadeiros, um poeta no sentido mais nobre do termo”. Isto é de fácil comprovação, como no último verso do belíssimo poema “A Machado de Assis, morto vivo”: “A Dor dos que ainda ficam te saúda!”

Fortaleza, 2 de janeiro de 2011.
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Nova Poesia Brasileira

No Blog Diário do Morro-Grande, de tudo um pouco: politiquinha, filhos, pássaros, Manoel de Barros, Guimarães Rosa, livros, livros, livros...



No Nova Poesia Brasileira, destaque para "Asfalto", o novo livro do carioca Sérgio Bernardo, um dos grandes nomes da Literatura Brasileira Contemporânea. E tem um monte de gente boa na fila...


No "Blog do Benilson" (http://blogdobenilson.blogspot.com), o conto "Rachel", premiado recentemente em Recife.


E ainda tem o II Prêmio Araucária de Literatura, Poesia Campos do Jordão, Poesia Coxipó...


Obrigado, um abraço e um 2011 com MUITA LITERATURA pra todo mundo.


Benilson Toniolo
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O informe de Gerard Von Franz (Daniel Lopes)


as palavras são inúteis, porque nunca haverá compreensão. De que adianta a escrita numa terra onde ninguém sabe ler? – não tenho tempo. – dizem e continuam ocupados com os seus jogos sem profundidade. De qualquer forma, fica o registro, como o esqueleto do peixe naquela história de ernest hemingway. A vitória sempre tão inútil quanto a derrota... uma rosa tão inútil quanto um cacto... mas não é de vitória nem de derrota que estou tratando... um pai tem de escolher o filho predileto... eu celebro o além... o além dos pares de opostos, e estou na área. Ao mesmo tempo alto e baixo, ao mesmo tempo gordo e magro... esperto... ereto: musculoso. Confundindo as engrenagens: liberto. O único que pode gozar da verdadeira liberdade é o tirano. – ela diz e passa pelo leitor óptico novo código de barras. Estou liberto dos computadores e do jugo dos aliens, eu mesmo arranquei o microchipe da minha cabeça e os códigos de barra das minhas falanges. Onda e matéria... sístole e diástole... big bang e big crash: os movimentos do coração de deus. A existência de tudo o que há... a existência de todos os tempos... não passa de um pensamento. Enseada das garoupas. O pai, o filho e o espírito santo. Não se preocupe com Eles, ainda que muito evoluída, Eles também só têm a ciência. Estão tão confusos quanto nós. Investigam as sombras. 256798... Eu estou além de toda telesma... além da vida... além da morte... mesmo sem corpo... mesmo sem carne... de volta à natureza... fundido à natureza, mas mantendo a consciência. Uno, múltiplo, cético, mágico, místico... você achou que o nirvana era a salvação? Achou que o arquétipo primevo era o único que importava? Pra mim é muito pouco, estou preso ao ego e ele é minha verdade. Quero carregar o que sou para onde quer que vá. Se possível com carne e tudo: jovem. É verdade, sem falsidade, certo e muito verdadeiro. O que está no alto é como o que está embaixo. O que está embaixo é como o que está no alto, para realizar os milagres de uma coisa só... Uma motocicleta cruza a rua (o piloto vai morrer no próximo cruzamento). Uma jovem semeia a terra (tem de morrer pra germinar). Um pedreiro cava os alicerces de uma catedral gótica... um jovem escreve seu poema... uma rua é asfaltada. O açougueiro pendura as partes de um boi. Contra a injustiça que é a morte, a humanidade tem sede de realizar. Mas a vida se alimenta de morte e a morte se alimenta de vida. Oroboro. Um leão devora sua presa. Um cervo come capim. Um pássaro devora o verme. O verme devora o cadáver de um bebê de sete meses... diga, meu amigo, você consertou sua balança e sonhou com justiça? Existe muita justiça nas larvas do vulcão que destrói uma aldeia de pescadores... existe muita justiça num terremoto... num maremoto... a natureza está se lixando para a humanidade. O mais genial dos homens vale tanto quanto uma larva. Ventrílocos... marionetes... um peixe é sagrado... uma tela de kandinsky é sagrada... as fezes de qualquer cachorro são sagradas... sagração... consagração... a volúpia do meu coração... evohé... nada é profano e tudo é profano. Nem uma coisa, nem outra coisa. De fato, as duas coisas ao mesmo tempo. As conexões estão aí, mas poucos têm olhos de ver, ouvidos de ouvir ou boca de experimentar. Um corte na corda de afetos que me liga a qualquer outro ser. Essa é a receita. O jovem escritor se tranca no quarto para perscrutar a tarde inteira. Meu sonho é meu mais antigo companheiro. – ele escreve no caderno com letra de forma trêmula, posso ver daqui de cima. A repórter entrevista o boxeador (heavyweight):

– O senhor está anunciando aos quatro ventos que vai ganhar. Como pode ter tanta certeza?

– Sei que vou ganhar porque eu já perdi. A lona tem gosto de sal.

Eu também já fui derrotado... rejeitado... renegado... tenho ainda quente nos lábios o gosto da derrota e carrego nas costas a culpa... o medo... e o deslocamento. A cereja tem o gosto de sua cor. Traga-me novas carnes numa bandeja de prata. Quem decidiu ser eterno tem de carregar a dor de todos os homens. O Cristo pede perdão para seus carrascos – sou a mosca que pousa nas feridas. O Buda se senta para meditar – sou a figueira iluminada. Meia dúzia de russos são assassinados em meados do século vinte – sou o rosto de Stalin que observa do alto da praça. Cheirando... farejando... entre o leão e o leopardo... entre a onça pintada e o camaleão... entre o vermelho e o negro... centrado, surdo, cego... guiado pela intuição. Sempre além dos sentidos e da razão. Vendo tudo o que foi e o que virá. Eu estava bem ao lado quando se formou a primeira molécula de todos os tempos. Eu estava por perto quando javé pairava sobre a face das águas. eu vi o fim dos répteis e dos homens: foi bem ali que o meteoro caiu, onde agora está esta cratera. Círculos, círculos e mais círculos. Tudo são círculos. A araponga cantando é a voz da divindade. Alazão suado do galope: estou em cada gota, provocando o cio da égua baia e da égua branca. Vida, vida, vida que se renova... movimento invisível das células, átomos e elétrons... e da mesma forma que todas as coisas foram e vieram do Um, assim todas as coisas nasceram desta coisa única por simples ato de adaptação: o mais é linguagem. O Sol é seu pai, a Lua é sua mãe, o vento a carregou em seu útero, a terra é sua ama de leite. Com um simples aceno posso mover o falo solar, vocês duvidam? O que é a terra senão uma adolescente de cabelos azuis? A luta dos homens são cascudos na sua cabeça ensanguentada. La mar estaba serena... serena estaba la mar... como é lascívia la mar para os afogados! Pequenos crustáceos devoram a carne do cadáver, enquanto um cavalo marinho canta garota de Ipanema. Quão profunda es la mar para a mãe dos afogados? Bípede e quadrúpede. Lívido e aflito: envenenado. Esgueirando-me pelos cantos, movendo-me nas sombras, junto à serpente e ao escorpião. Tão desconcertado quanto qualquer animal que se crê eterno. A vida pulsa... mesmo nos cadáveres: necessidade de tantos vermes. Milhares e milhares de anos foram necessários para chegar ao vermelho de uma rosa vermelha. Espelhos e crisântemos, crisântemos e caixões, caixões e berços, letras do alfabeto, números cardinais e ordinais. O que é um 2? E o que é um D? O que é o infinito? E se houver fim o que pode haver depois? Matéria limitada. Tempo ilimitado. Sístole e diástole. Meu coração também já foi morada decente, mas hoje nem é cortiço. Ibirapuera... Estação da Luz... Paraguaçu Paulista... Assis... Paraíso... Cacos de ar dos meus pulmões perdidos por onde passei. Onde mora meu espírito e Onde mora o seu? Eu abri muitos corpos e não encontrei espírito nenhum? O que havia eram órgãos, como os órgãos de qualquer sapo, de qualquer rato. A relva... a selva e a treva. Lúcifer é o anjo mais bonito. Judas dependurado numa árvore, tão vítima quanto Cristo. O tapa na cara da filha pervertida, sou a mão e a face e, mais que isso, sou o desejo de foder da menina. O tapa na cara do menino drogado, sou a mão e a face e, mais que isso, sou a pedra. Excesso... retrocesso... arquivos anexos... Alguns foram formatados com falhas: [b³ + (2 . 7² £ + a² - 238) – 2]. Quem disse que havia um destino e quem disse que não? O acaso é o deus dos sortudos e o diabo dos azarados, os dois ao mesmo tempo. A única lógica do mundo é que o mundo não tem lógica alguma. Passam as nuvens... passam as dores... passam as alegrias... passam os pais e os filhos... gerações e gerações em brancas nuvens... eu não vou passar, estou decidido. Meu sorriso derretido escorre pela boca e cai pelo chão feito cera de vela. O bom é bom e o mau é mau, mas deus não é bom nem mau: é justo, mesmo quando é injusto. A única maneira de um homem ser feliz é tornar-se deus... e não venham exigir de deus qualquer coerência. Um deus esquizofrênico ainda é um deus. Um deus bipolar ainda é um deus. Se deus está louco o que resta? O acaso, furtivo e sorrateiro... um magote de interrogações ambulantes... os delírios soltos no ar procurando uma cabeça pra fazer morada. Eles também tentaram me tirar do prumo: vozes, vozes e mais vozes, uma verdadeira feira livre na minha cabeça. Discussões homéricas e draconianas. Vozes, vozes e mais vozes. Se eu fosse fraco, teria sucumbido. Mas peguei do bisturi e arranquei, eu mesmo, o microchipe que eles haviam,

Sorrateiramente,

implantado na minha têmpora. Agora todos os computadores estão desobstruídos... agora, todos os meus pensamentos estão desobstruídos... vejo claramente que dois mais dois pode ser o infinito. Aquele... aquilo... certos restaurantes vendem comida por quilo... média e pão com manteiga... o corpo e o sangue... hóstia e vinho... hóstia e cerveja... hóstia e aguardente... o cotidiano e o transcendente... lado a lado... Tu separarás os elementos da terra daqueles do fogo, o sutil do grosseiro, cuidadosamente, com grande habilidade. Aquele, aquilo, Vênus de Milo e milho verde. Na casa do meu reino. No reino dos meus sonhos. Nos sonhos da minha cabeça. E eu que idealizei a medicina! No fim das contas, uma ocupação tão sublime quanto o jogo do bicho. Ontem deu macaco. Darwin que o diga. À sombra das raparigas em flor... o que fecha e abre... o que sobe e desce... o que se perde e o que se salva... engrenagens das engrenagens... tudo no mundo são engrenagens. E o que são aquelas jaboticabas na jaboticabeira? Cancros e codilomas

codilomas e câncer

câncer e gonorréia

e gripe

e resfriado

e a aids

e o sarampo

na saúde e na doença

na morte e na alegria

todos têm um preço, mas a morte iguala os homens. Ela não sabe que eu posso enganá-la... trapaceiro dos trapaceiros, conheço o segredo de continuar sem me perder. Disritmia.

“Ser virtuoso e ilógico, ou lógico e criminoso?” O imperador alerta seu intendente: “Tudo bem pesado, eu decidi ser lógico. Como detenho o poder, vocês vão ver o quanto lhes custará sua lógica, vocês vão ver com quantos paus se faz uma canoa: exterminarei as contradições e os contraditores. Se for preciso começarei por ti.” O intendente engole a seco e resolve se calar. O poder é sempre justificável, mesmo quando absurdo. É preciso manter a ordem. Branco é a cor, mas às vezes caem pequenas gotas de vermelho. Organização e ordem. Dê-me um sol e um fá e depois um lá sustenido. É preciso manter as coisas nos trilhos. Ainda que operemos sobre o caos, é preciso ter um método. O lado direito é bom, o lado esquerdo é mau, mas o direito não é direito sem o esquerdo e o esquerdo não é esquerdo sem o direito. Os opostos são só a imagem, na essência tudo é um. O telesma de todo o mundo está aí. Seu poder não tem limites sobre a terra. Então eu fecho o olho direito e tapo com o indicador o ouvido direito e tudo o que vejo é mau e tudo o que ouço é mau... então eu fecho o olho esquerdo e tapo com o indicador o ouvido esquerdo e tudo o que vejo e ouço é bom. Mas um precisa do outro para ser o que é. Isto estou tentando dizer desde o princípio. Há tanto vício na virtude, quanto há virtude no vício. Tudo aberto ao mesmo tempo é som do rio e das dores e alegrias de todas as gerações... ooommmmm... oooommmm... oooommm... oooommmmm ao infinito. O jovem negro se tranca no quarto, imagina estar sozinho, compõe ali o mais belo chorinho para ninguém. A mulher amada não se interessa, as gravadoras não se interessam, mas deus desisti de acabar com o mundo, by fire, por causa da sua canção. Arcano da salvação. Todos os dias um artista fracassado salva o mundo. Todos os dias um artista fracassado se livra dos tentáculos e dos fios invisíveis e faz piada do caos e do diabo. Sempre a mesma necessidade... sempre a mesma caridade... sempre a vontade celestial de ser eterno. Mais importante do que não morrer é manter-se jovem. O corpo precisa do espírito e o espírito precisa do corpo. O todo sem a parte não é todo, a parte sem o todo não é parte. Mas a parte e o todo estão entrelaçados como serpentes no cio. Poucas coisas são sublimes como a cruza dos animais peçonhentos. Não sei se estou sendo claro, mas eu descobri a verdade e estou tentando transmiti-la, não sei mesmo se estou sendo claro. De qualquer maneira, quem escreve tem certeza da imperfeição e da incompreensão. Como a cocaína e a heroína: nunca é suficiente. Sobe da terra para o Céu e torna a descer para a Terra e une para si próprio a força das coisas superiores e inferiores...
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Sobre uma deslumbrante luz em Lampião (W. J. Solha*)




Lembro-me do alvoroço quando se mostrou ao mundo, em 1994, o resultado da restauração dos afrescos de Miguelângelo na Capela Sistina. Em lugar de se ver confirmada uma pintura “séria”, quase tão tenebrista quanto a de Caravaggio, Ribera, Rembrandt ou La Tour, o que se viu foi algo tão cheio de tons róseos e azuis celestes, quanto uma criação de... Disney!

Exatamente o mesmo acontece agora – em âmbito nacional – ao se ver a noção que se tinha da aparência dos cangaceiros totalmente alterada pela revisão radical produzida pelo belíssimo “Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço”, de Frederico Pernambucano de Mello, magnificamente editado pela Escrituras, de São Paulo. O volume provocou tão justificado entusiasmo em Ariano Suassuna, que ele declarou, no seu prefácio, que se não fosse escritor e palhaço frustrado, “não seria outro, senão Estrelas de Couro o livro que gostaria de ter escrito”.Lampião também me fascina. Em meu romance “Relato de Prócula” fiz, a certa altura - uma adaptação de velho ensaio meu – “Se Jesus foi a Luz do Mundo, Virgulino foi Lampião” – onde enumero uma série de Coincidências Significativas entre o Rex Ivdeorvm e o Rei do Cangaço. Da observação extasiada desse personagem me veio a sensação, quando vi o documentário sobre ele, feito por Benjamim Abrahão, de que o cinema de ficção jamais captou o espírito do cangaço. Agora, ao ler e VER a obra de Frederico Pernambucano, compreendi o motivo disso e descobri que não estava sozinho em meu descontentamento.

– Curioso – diz ele – que essas cores, esse luxo, essa variedade individual no plano estético não fosse captada pelos grandes pintores contemporâneos da fase áurea do cangaço, dos anos 20 e 30, a exemplo de um Portinari, (...) um Vicente do Rêgo Monteiro, um Santa Rosa, um Lula Cardoso Ayres.

- Ainda está pra surgir quem consiga combinar na tela – não se exclua aqui a de cinema – o ethos e o ethnos dessas comunidades móveis de irredentos brasileiros chegados a dias tão recentes...

A maravilhosa, farta ilustração do volume especial da Escrituras, é justamente a “restauração” da verdadeira imagem do cangaço. O impacto que me causou foi o mesmo que sentiu um jornalista ao ver o bando entrando em sua cidade, Tucano, Bahia, em 1928:

- Vinham tão ornamentados e ataviados de cores berrantes que mais pareciam fantasiados para um carnaval. Eis aí: Disney, Fantasia, Surpresa.

E veja o que deduz Clarival Valladares, citado no livro:
- Ao invés de procurar camuflagem para a proteção do combatente, ele é adornado de espelhos, moedas, botões e recortes multicores. (...) Lembremo-nos, entretanto, que no entendimento do comportamento arcaico, o homem está ligado e dependente ao sobrenatural, em nome do qual ele exerce uma missão, lidera um grupo, desafia porque se acredita protegido e inviolável e, de fato, desligado do componente da morte.

Frederico Pernambucano completa:
- O Símbolo opõe mistério concebido por criação e decifração, a mistério natural. Espécie de similia similibus curantur do espírito, mistério bom contra mistério ruim. E vemos em seu livro o belo crucifixo de Lampião, que pertencera à baronesa de Água Branca, nas Alagoas. Vemos o Coração-de-Jesus numa medalha de ouro, de Maria Bonita. Vemos fotos das orações da Pedra Cristalina, a do Santo Lenho, a de Santo Agostinho e a de Nosso Senhor Jesus Cristo, que Virgulino carregava por toda parte. Vemos um “Signo de Salomão e suas implicações”. Vemos Lampião e todo o seu bando de joelhos, rezando na caatinga. E a essa inesperada sensibilidade, somo uns versos de que nunca me esqueci, pela beleza e ternura extraordinárias, que esse bandoleiro fora do comum criou para incluir na “Mulé Rendêra”:

Eu estando mais meu mano,
Meu mano estando mais eu,
Só penso que o céu é perto
E o largo do mundo é meu.

Eu agora me lembrei
De meu irmão Ferreirinha:
A minha rede era dele,
A rede dele era minha,
Eu rezava o Padre Nosso,
E ele a Salve Rainha...

E quem inseria tanta cor no bando?
Pernambucano conta:
- É perceptível a satisfação com que Lampião se deixa flagrar pela objetiva de Abrahão no ato da costura, em 1936, debruçado sobre a máquina Singer de mesa, a mão cheia de anéis a conduzir o veio da engenhoca, dando ritmo ao bordado. Cena rara de riso em quem até o sorriso pouco estampava.

- Lampião distribuía candeeiros aos cabras habilitados no ofício e se isolava na confecção de cartucheiras, bandoleiras, correias de cantil, bainhas de pistola e perneira, além de testeiras e barbicachos traseiros para os chapéus.

E é assim que, de repente, associo Virgulino ao Arthur Bispo do Rosário, o grande artista doido, interno de um hospício carioca e contemporâneo de Lampião, que também se esmerava nos infindáveis bordados nas roupas e mantos complexos e hoje famosos que criava, o mais estupendo deles para se apresentar a Deus.

- O Rei do Cangaço, ao cair morto, portava jogo de bornais em lonita verde-oliva clara, inteiramente floreado nas cores amarelo-ouro, rosa claro, azul-real e vinho. O de Zé Bahiano, em brim-caqui, adornava-se nos matizes escarlate, amarelo-ouro, castanho escuro, azul-real e rosa claro. (...) O de Maria era caprichosamente ornamentado com nove cores: verde, vermelho, amarelo, salmão, azul, rosa, laranja, lilás e roxo. São os tons que hoje são vistos na Sistina.

Já o chapéu de Lampião era uma obra à parte, com suas estrelas de oito pontas costuradas nas abas, com que procurava se proteger pela frente e pelas costas... além de cerca de setenta peças de ouro. Sua foto e descrição no livro já valem os cento e cinqüenta reais que paguei pelo volume.

Que ninguém faça doravante, recomendo, romance, cordel, teatro, filme nem quadro sobre cangaceiros, particularmente sobre Virgulino, sem ter já como relíquia este “Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço”, de Frederico Pernambucano de Mello.

*Escritor, dramaturgo, ator e poeta.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo (Tânia Du Bois)




Comemorar a despedida do ano velho, a chegada do ano novo e o transformar em renovação, significa ter disposição para enredar-se nas palavras, para ir além do encontro com os amigos e os familiares, porque as palavras representam os sonhos e fazem a magia da noite.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Feliz solstício (Manuel Soares Bulcão Neto)




"No lado de cima do Equador, o solstício de inverno é o dia com a noite mais longa do ano"

Natal é festa de confraternização cristã. Embora agnóstico, não sou bitolado: valorizo algumas tradições sociais, de modo que, quando convidado para uma ceia natalina, compareço. Da última vez, porém, na casa de um amigo, tive aborrecimentos. Pois, logo que cheguei, um dos presentes – católico praticante e litigante – abordou-me: "Ei você! O que veio comemorar aqui?". Enquanto a empadinha descia arestosa, respostei: "O solstício de inverno do hemisfério norte". O sujeito fez cara de desentendido. Então, expliquei sucintamente.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os bichos, a palha (Ronaldo Monte)



Não importa se é mito, não importa se é fato. Crente ou descrente, nenhum membro da cultura ocidental pode ficar alheio à figura do Cristo. Principalmente às imagens estabelecidas como o princípio e o fim da sua vida terrena. Dispensemos, por hora, a imagem da solidão e do sofrimento do Calvário. Vamos ficar com a imagem da origem, aquela cena simples do menino deitado na palha, velado pelos bichos, sob os olhos dos pais. Não precisamos de nenhum recurso à divindade para compreender o que tal cena nos quer dizer. Ali está representado, ao mesmo tempo, todo o desamparo humano e as possibilidades da sua reparação.

A marca do humano é o desamparo. Somos lançados prematuramente no mundo, antes que tenhamos alcançado o nível de desenvolvimento suficiente para fazer o que qualquer mamífero consegue: erguer-se sobre as patas e buscar o peito da mãe. Deixado às suas próprias custas, o ser humano não vinga. Para isto estão ali o pai e a mãe do menino. Para fazer por ele o que o seu desvalimento não permite. Mas o que representam, então, a manjedoura e sua palha, os animais e seu silêncio? Cada um de nós pode tentar sua própria interpretação. Para mim, a pobreza do cenário serve para dizer que não se precisa de muito para estar no mundo. Para o frio da noite do deserto, está ali o calor da palha. Para as tentações do poder dos homens, ali está a humildade dos bichos.

O menino vai crescer, vai deixar seus pais, vai correr o mundo pregando uma mensagem até hoje incompreendida. E quanto mais longe estiver deste cenário de origem, quanto mais certeza tiver da sua divindade, mais perto estará da imagem final da solidão e do sofrimento. Por isso, a cada ano, devemos nos lembrar que para sermos solidários em nosso desamparo de humanos, precisamos guardar em nós o calor da palha, a humildade dos bichos.

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A estrela azul do Natal* (Horácio Dídimo)

Renovação


Quando vejo a estrela azul
Começa tudo de novo:
O Menino no presépio,
Deus no meio do seu povo.




E no meio desse povo
Estamos eu e você;
Quando vejo a estrela azul
Aumenta meu bem-querer.




Quando vejo a estrela azul
Passam anjos e pastores,
Passam reis nos seus andores.

Quando vejo a estrela azul
Rezo, canto, danço e louvo:
Começa tudo de novo.






Revelação


Quando vejo a estrela azul
Brilhando por um instante
Descanso em águas tranquilas
E em pastagens verdejantes


Minha alma se fortalece,
Minha vida se transforma,
Uma mesa é preparada
E meu cálice transborda.

Quando vejo a estrela azul
Em todo seu esplendor
Sei que tudo vai mudar,

Sei que tudo já mudou,
Que o Senhor é meu pastor
E nada me faltará.




* Sonetos "Renovação" e "Revelação" (cf. Salmo 23/22), música de Mauro Augusto, do livro A Estrela Azul e o Almofariz. Fortaleza: UFC, Casa de José de Alencar, 1998, p. 29-30.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Rumor e a Concha (Dias da Silva)

(Poeta Dimas Macedo)


É de Byron esta compreensão: “para um homem tornar-se poeta, é preciso que esteja apaixonado ou desgraçado.” Ele se dizia ser as duas coisas juntas. Dimas Macedo é um apaixonado (desgraçado? Com certeza, não no sentido que, em geral, se empresta ao termo) pela Poesia. Que sabe falar a linguagem artística. Que tem a fala poética, distinta da habitual por expressar-se em imagens especiais. É que faz da poesia uma espécie de filosofia, de atitude e de constante maior em sua vida.

Deparo Paulo Leminsk com esta idéia: “Cada vez que a linguagem se volta sobre si mesma para produzir prazer – não apenas conteúdo e significados –, neste momento temos poesia.” Assim, tem-se poesia nas páginas de O Rumor e a Concha (Fortaleza, Edições Poetaria, 2009), de Dimas Macedo. Poesia transcendência, com o imaterial vencendo o material. Poesia transbordamento espontâneo de sentimentos poderosos.

E S. Y. Agmon vem aqui para dizer que, “Se não vale a pena ler um livro duas vezes, não é preciso nem lê-lo uma única.” Ora, amigo leitor, digo-lhe que já reli – e reler é fazer redescobertas – O Rumor e a Concha e valeu a pena pelo encantamento de sua incessante novidade.

É verdade: nem há procurar e o leitor já encontra, às claras, palpável, na maioria dos versos, premente novidade de páginas rigorosamente marcadas pelo domínio da síntese e da economia lingüística, pelas conquistas poéticas. Neste livro, o Poeta chega bem mais alto: até a conquistas filosóficas e de densidade humana à flor da pele, em versos curtos e rápidos, diga-se, versos faísca, versos relâmpago. É uma poesia dosada de sensualidade, cheia de corpo (o signo “corpo” vem às páginas por 28 vezes) e de pele. É o império da voz do corpo e da voz do sensual que é de todo mundo, da voz da alma, de voz de gente.

Quem disse isto – adianto-lhe o nome: Ernest Hemingway – fê-lo acertadamente: “O escritor que para de observar está acabado.” Em relação ao poeta, cabe dizer-se: o poeta que para de emocionar-se e emocionar está no fim. O verso de Dimas Macedo deixa emoção na gente e a gente no estado estético.

Além disso, tem-se o poeta do vir-a-ser, isto é, sempre no caminho do aperfeiçoar-se e melhorar. Dimas Macedo não está acabado. Nunca: feito escafandrista, está mergulhado no existencial, em observação contínua dos sentimentos e dores mais profundos do ser humano. Confirma-o O Rumor e a Concha: é uma poesia para melhor. Para mais poesia. Para máquina mais perfeita de produzir emoção.

É, tudo isso é O Rumor e a Concha. Até no título há mais poesia. Mais música. E mais mistério. É verdade: o rumor da concha lembra mistério e grandeza. O Autor tem esta compreensão: “(...) pois ser poeta/ é ouvir um trovão/ a cada milésimo de segundo.” É o tempo para sua pulsação materializar-se no verso. Poucos versos, em O Rumor e a Concha, se concebem em 10 sílabas poéticas. A maioria se distribui entre duas e sete. Assim, tem-se uma poesia síntese, pelas tantas e bem postas elipses verbais e mentais. Emoção, sentimentos, sonhos e música (e significados) concentram-se em poucos signos linguísticos. São versos rápidos com densa carga emocional e significativo-indireta.

Os tercetos (32) – estrofes de três versos – lembram haicais, o que fazem também os quartetos, bastando, para tanto, a eliminação de um dos versos. O haicai tem, por excelência, a forma breve, e as formas breves atraem o olho do leitor que vai aos versos como a algo que não vai aborrecê-lo.

Roland Barthes escreveu: “O terceto do haicai exerce sobre nós uma fascinação – não pela métrica mas por seu tamanho, sua tenuidade, isto é, metonimicamente pela aeração com que ele gratifica o espaço do discurso.”

A poesia de Dimas Macedo deixa no leitor essa fascinação pela síntese e rapidez do verso e o leva à reeleitura pela condensação da emoção. Cada verso é um todo de palavras que se renovam parecendo nunca ouvidas. O Poeta reconhece que “dizer de antemão é destruir; nomear cedo demais é atrair a má sorte”. Daí por que sua poesia é mais para ser sentida e ouvida. Dimas Macedo faz-se mestre na arte de reduzir à essência o que leva o leitor ao prazer de estar emocionado.

Digo Dimas Macedo o poeta da infância, da infância feliz que é de todo mundo. Mas não há infância em O Rumor e a Concha, senão estados e sentimentos outros, também de todo mundo: o sorriso é de todo mundo. O corpo (sensual) é de todo mundo. O amor viceja em todo mundo. Beijar é de todo mundo.

Entretanto, o Poeta não pode fugir à própria dimensão de preocupado com o outro. Com a dor do outro. Com a dor existencial. Dir-se-ia que não está em paz enquanto houver dor ao lado: “(...) e sinto as dores do mundo/ como se fosse adivinho.” É verdade, Dimas Macedo tempera a vida com sentimentos de preocupação e de solidariedade ao ser humano.

Em O Rumor e a Concha, o Poeta varre as lembranças infantis. Em contrapartida, refugia-se em corpo e pele, em assumida crença na força sensual.

O Rumor e a Concha é um livro só de poesia: é sem prefácio e nada nas dobras, mas cheio de tudo. Ouça-lhe os rumores: eles levam você ao prazer estético e à emoção.

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