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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Savana (Ronaldo Monte)


Para Robinson, Paty, Marina e Cacau



Entre um cliente e outro, eu dava uma chegadinha no terraço e eles estavam todos lá. Esparramados nas poltronas ou espichados no sofá, estavam lá, na vagabundagem, enquanto eu suava no tanque do consultório. Claro que eu reclamava, mas eles nem se mexiam. Para ser mais fiel ao espetáculo, deveria escrever “elas”, pois eram sete mulheres e só um homem, entre hóspedes e gente da casa.

Foi imediata a associação com a cena de uma savana africana num fim de tarde. Aquela hora em que ninguém come mais ninguém, reinando a paz entre presas e predadores.

Fiquei feliz ao ver o terraço da minha casa servir de savana para aquele bando de animais de olhares vagos e conversa arrastada. Todos eles mereciam aquela paz de começo de noite. Quatro deles, o homem, sua mulher e duas filhas, tinham vindo de São Paulo, depois de trabalhar muito, todos eles, em troca de alguns dias de sossego entre os amigos da Paraíba. As outras três, uma avó, uma filha e uma neta, faziam as honras da casa e tiravam proveito do clima de vagabundagem.

A mim, restava sentir inveja de não poder ficar ali, envolvido por aquele miasma benfazejo, deixando o corpo se entorpecer pelo afeto bom e silencioso que circulava entre as criaturas de modos bovinos ou felinos, segundo suas índoles.

O tempo se arrastava no consultório. Édipos, narcisismos, traumas infantis, tudo aquilo me parecia sem sentido. Tinha vontade de dizer a cada paciente que não valia a pena tanto sofrimento. Bastaria que fossem passar alguns minutos no terraço da minha casa. Veriam, então, que tudo o que procuram na vida poderia ser encontrado ali: a possibilidade de conviver em paz com seus semelhantes, como os bichos convivem nos fins de tarde nas savanas.

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blog-do-rona.blogspot.com
memoriadofogo.blogspot.com
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Calcinhas (Raymundo Netto)



Por hábito, em tempo demais diante deste monitor, passeio pelos cantos da casa.

Num desses, alonguei-me à cozinha, esbarrando com o cesto de roupas estranhamente deslocado. Conhecendo o método da esposada, senti-lhe o esquecimento, e daí, vítima que sou da convivência cordial (poderia simplesmente fingir não ter visto que todos acreditariam, assim como fazem meus iguais) decidi eu mesmo pôr ao sol, no varal de chão da varanda, tais roupas.

Foi quando me dei conta de que tudo aquilo eram calcinhas (de minha esposa e das duas filhas). Pus-me a estender, uma a uma, a calcinhada. Na hora (quem escreve está sempre pensando bobagens), lembrei uma amiga que defende: os homens acreditam que cuecas nascem, no fundo escuro de suas gavetas, por geração espontânea! Obrigo-me a concordar. Conheço várias mulheres que estranham o infindável tempo de vida de nossas cuecas. Com meu pai também era assim. Geralmente, são elas, as esposas, que se ocupam de renovar-nos o acervo. Ao contrário, nós, homens, somos tomados pelo espanto do nada suficiente das mulheres: nem calcinhas, nem sapatos, e imagine o que mais... Elas são muitas dentro de uma só, justificada a complexidade de suas irresistíveis almas femininas. Comecei a pensar se existiria uma média racional entre o número de calcinhas para cada sutiã ou pescoço. Lembrei também de uma curiosidade: no Japão, para combater o calor, vendem-se, em máquinas encontradas no meio da rua — e em embalagens como as de sorvete —, “calcinhas geladas”, que, segundo os fabricantes, são recomendadas também para serem usadas nas cabeças. Imaginava a ridícula cena, quando percebi que das demais varandas e janelas dos outros apartamentos, algumas vizinhas ou suas empregadas observavam-me ao serviço. Surpreendidas se riam, desapareciam das janelas, escondiam-se por trás das cortinas. Já embaraçava-me, quando veio-me a ideia de colocar os pregadores de roupa (em Londres já existem pregadores com previsão de tempo, sabia?), mas eram tantas as calcinhas...“Haja pregador!” Ah, assim já era servilismo demais... Voltei ao trabalho e as esqueci.

À tarde, porém, num dos passeios pela varanda, constatei: as calcinhas, insufladas pela iniciativa de uma fresca, tomaram vida e voaram rumo ao ignoto. Tragédia anunciada! Pensei na bronca da esposa: “Quem mandou mexer no que não era chamado?” Bem que eu poderia culpar o macaco Chico, o do Lalau, aquele que, tarado por calcinhas, invadia as residências do Bonsucesso carioca a roubá-las e as rasgava em cima dos telhados. “Não, ela não acredita em literatura”... Tive que, então, rapidamente, catá-las no térreo, nas garagens, no jardim. Vendo uma a tremular à grade da janela de baixo, pensei em passar na vizinhança, bater-lhe à porta a recuperá-las. Indecoroso seria o zelador, com fingida normalidade, perguntar-me, calcinhas à mão, “É do senhor, seu Netto?”, e eu ter que, com constrangimento, responder-lhe que sim.

À medida que as encontrava, recolocava-as no varal, desta vez com os pregadores, antes de minha esposa chegar e ver o mal feito. Então, jurei a mim mesmo: nunca mais nesta vida haveria de tocar numa calcinha, a não ser na presença da usuária, e se, e somente se, ela me estorvasse em qualquer coisa.

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Raymundo Netto que não entende nada de calcinhas, mas tem curiosidade em ver uma “aumenta bumbum”... Contato: raymundo.netto@uol.com.br – blogue AlmanaCULTURA: http://raymundo-netto.blogspot.com/
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Interessar (Pedro Du Bois)




Sou do desinteresse o ouvido


parco das novidades, o mundo


na extensão da casca do ovo




não procuro o novo


e a novidade flutua


ante meus olhos




(não há importância


na descoberta: o novo


derruba o que resta).


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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sob a espada de Dâmocles (Manuel Soares Bulcão Neto)

A tragédia da vida não é morrer,
Mas deixar de amar.
W. Somerset Maugham


Adoeceste fatalmente.

Agora, a sombra da morte come

E bebe contigo.


Mas não te assombres

Com essa sombra

— Seu silêncio eloquente

Mostra bons conselhos.


Como o que diz:

Não leves a vida muito a sério,

Antes ri dela;


Por pilhéria ou encantamento,

Tanto faz: o que importar

É tão-somente rir.


Pois apenas o amor

É mais gratificante que o riso,


E quando só ante a morte

Nada mais lenitivo que rir

Do orgasmo solitário

E da carta sem resposta.


Outro conselho sombrio:

Se o teu projeto de vida

Jaz agora no futuro do pretérito,

Não lamentes,


Nem faças do sótão do tempo

A água-furtada

Para o teu recolhimento.


Melhor abrir o olhar

Para o presente contínuo


E abismar

Pelos infinitos que existem

Em tudo que é singular.


Lembra-te que “um”

É apenas outra maneira

De dizer zero vírgula nove,

Nove, nove ab aeterno.

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Mudanças (Inocêncio de Melo Filho)

Para Ana Paula



O vento refaz seu corpo

por baixo do vestido.

Vejo seu vestido se ajustando

às vontades eólicas.

Fico a ver essas coisas

e tu te vais alheia às mudanças

que domam seu ser.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Paráfrase do padre Antônio Vieira (Emanuel Medeiros Vieira)




O ladrão que furta para comer não vai para o

inferno, mas para a cadeia.

Os outros, de maior calibre, furtam sem temor nem

perigo.

Os elevados, furtam e enforcam.

Os que roubam e despojam povos – e esperanças –

recebem comendas e prebendas.

São promovidos, enaltecidos, empregam a prole,

festejam e são festejados – e sorriem.

O anônimo rouba um homem.

O maior – íntimo dos palácios – rouba cidades e reinos.

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Não existe apenas uma forma de amor & prazer( Luciano Bonfim)

  (Untitled - 2008 - Tamar Chkhikvadze)

No curso do tratamento psicanalítico há amplas oportunidades para colher impressões sobre a maneira como os neuróticos se comportam em relação ao amor; ao mesmo tempo, podemos nos lembrar de ter observado ou ouvido falar de comportamento semelhante em pessoas de saúde normal ou mesmo naquelas de qualidades excepcionais.[Contribuições à psicologia do Amor]
Sigmund Freud


Maria Bonita, antes de conhecer Virgulino Ferreira, o Lampião, a quem amou até a morte, foi casada com o sapateiro Pedro.

Cléopatra, rainha do Egito e do coração de Marco Antônio, amou o poder sobre todas as coisas e teve, segundo os relatos, momentos de prazer intenso com os seus magnânimos amantes. Diziam-na belíssima.

Oscar Wilde, que por algum tempo viveu devotadamente à sua esposa, com quem teve dois filhos, crianças para quem escreveu as suas histórias de fadas e encantamentos, amou de profundis a um impetuoso jovem inglês.

Calígula, de quem dizem barbaridades sobre a sua vida e os seus amores, indistintamente amou a homens e mulheres, preferindo, segundo consta, aos rapazes fortes e fogosos.

Niestzche alimentou platônicos amores e nunca teve relacionamentos duradouros; nem parcos amores viveu; na juventude, com uma que nem mesmo soube do nome, teve raras relações sexuais, o suficiente para contrair sífilis e terminar como sabemos.

Schopenhauer nunca morreu de amores pela própria mãe, preferindo dedicar-se a um pequeno cão, à música e à filosofia.

Hitler, algumas vezes acusado de sodomia, empestava de prazer as suas roupas íntimas quando discursava para o seu másculo exército.

Narciso amou a si mesmo e entregou-se ao desespero de não ser correspondido.

Tarzan amava Jane, mas nunca se desligou da macaca Chita, a quem conheceu bem antes.

Os cães às vezes se amam na praça e sempre depois do gozo ficam, por algum tempo, engatados um ao outro, sendo motivo de risos para muitos e escândalos para tantos.

Alguns amam e sentem prazer com animais não humanos.

Outros sentem prazer com aqueles que não amam.

Tantos exatamente não amam àqueles com quem dividem a mesma cama. Outros vivem com aqueles que realmente amam e têm prazer. Alguns fingem o prazer que não sentem, e, somente assim, têm o prazer que deveras fingem.

Muitos se masturbam todos os dias. Outros não se masturbam nunca nem de vez em quando têm relações sexuais e, no meio da noite, muitas vezes, acordam salvos pela polução.

Existiram Satúrnicas e Bacanais. Troca de casais existe, menáge a trois, também

O campo do amor é vasto, vocês sabem! Infinitas são as zonas de prazer!

Alguns, mesmo assim, nem querem saber de amor e sexo. Outros, todavia, não veem a hora de tudo isso começar.

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Luciano Bonfim [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos [2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético [1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado [2002] e As Mulheres Cegas [2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências [2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA [desde 1996]; aluno do mestrado em Educação Brasileira [FACED-UFC/2006].


e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Das emoções (Carlos Nóbrega)

(Do livro 8verbetes)


Ai, as emulsões

que nossas almas sentem:

Mal nascemos

já sabemos onde está o leite.

Quando crescemos

bem sabemos

de que é feito o sêmen.

Se nos contamos

nossas bocas mentem,

Se não nos contemos

o olho produz sal.

* * *

Três (Ádlei Carvalho)


http://adleicarvalho.blogspot.com/



Marco Antônio, Adair e Pedro, meninos pobres da grande urbe, sonhavam ser, respectivamente, médico, bombeiro e bandido.

Marco Antônio tornou-se bombeiro.

Adair faz faxina em um bar, para nutrir a família e custear os estudos.

Pedro conseguiu se realizar.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011

O chou não pode parar (Claudio Parreira)



Ele derrama lágrimas pela boca quando faz sol. Sorri estrelas às vezes, sempre dependendo da instabilidade natural do seu humor. Mesmo o seu silêncio é ruidoso: é um espetáculo, sabe-se assim, e assim se considera e se exibe. O chou não pode parar.

Mas o mundo anda repleto de tédio. As mulheres-barbadas, homens-elefante e crocodilos trapezistas não lhe dão a menor atenção. Perderam completamente o respeito; perderam a capacidade de sonhar.

Os mágicos extraem palavras mortas de suas cartolas roídas pela tristeza. Os coelhos brancos de fome e raiva conspiram contra a precariedade maquiada da lona velha e podre. Um dia a casa cai, torcem eles, certos de que estarão à distância e a salvo.

Ele não está, não se sente a salvo. Cada dia, matar um leão, dois, que lhe brotam dos bolsos como capim. Dos bolsos também retira pedrinhas azuis e lembranças pálidas. De um tempo em que fora outro, outra coisa. Alguém.

Agora é a tarde vazia que cresce nas pedras da rua, indiferença. O pulsar morno do coração que soletra ausências. Estímulo mesmo só o do conhaque, que pinga nos olhos para ver o dia em chamas.

O público, distinto público, ergue apenas as paredes da dúvida, da descrença: esse aí não é, desconfio do chou. Onde é que já se viu, espetáculo é o próximo milhão a ganhar, a grandiosidade do efêmero cintilante dia após dia após. A droga a qual nós o público estamos submetidos desde sempre, como cordeiros sob o machado de Deus.

Sabendo-se assim ele segue, cheio de nadas e de incertezas. Sob o sol é o homem-espetáculo, que teima em desafiar uma platéia de cegos. Um mundo trêmulo e arrogante, que por trás da máscara exibe apenas um circo perplexo de si mesmo.

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Rádio UNESP: Entrevistas com escritores



Estimado Nilto Maciel,

Tudo bem?
Informo que a entrevista concedida para o programa Perfil Literário, da Rádio Unesp FM, está disponível para ser ouvida ou baixada no endereço:
Grande abraço,
Oscar D'Ambrosio
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Eça de Queiroz em imagens (Adelto Gonçalves*)



I

Se hoje, ao contrário do que ocorre com Fernando Pessoa (1888-1935), Eça de Queiroz (1845-1900) já não desperta tanta admiração entre os leitores brasileiros, culpa maior cabe aos editores nacionais que só se preocupam em reeditar parte de sua obra quando a Rede Globo decide mandar ao ar uma minissérie ou telenovela com base em algum de seus romances. Mas que ainda há bastante espaço para livros que tratam da vida e obra ecianas não se discute. Basta ver o interesse que vem despertando Eça de Queiroz: fotobiografia: vida e obra (São Paulo, Leya, 2010), de A. Campos Matos, hoje, indiscutivelmente, o mais categorizado dos biógrafos do romancista luso, com mais de 15 títulos sobre o tema.

Publicado em 2007 pela Editorial Caminho, de Lisboa, esta segunda edição de Eça de Queiroz: fotobiografia: vida e obra sai no Brasil pela Leya, braço brasileiro do grupo à que também pertence a editora portuguesa. E sai não só revista e acrescida de extenso material iconográfico, reunindo mais de 700 imagens, como de um prólogo escrito especialmente para a edição brasileira que trata das relações do escritor com o Brasil.

Se nunca teve a oportunidade de colocar os pés em terras brasileiras, muitas são as ligações afetivas de Eça com o Brasil. Essas ligações começam com o seu avô paterno que, nascido em 1744 e jurista pela Universidade de Coimbra, foi ouvidor no Rio de Janeiro, onde viveu cinco anos. Foi durante a estada do ouvidor na cidade carioca que nasceu, em 1821, o pai de Eça de Queiroz, que também se graduou bacharel em Direito por Coimbra.

Nascido de uma relação não legalizada à época – só mais tarde os pais de Eça viriam a se casar –, o futuro escritor teve como ama uma brasileira de Pernambuco e a companhia de um criado mulato que o avô levara do Rio de Janeiro para o solar de Verdemilho, ao Sul do Porto. Aos 25 anos de idade, já cônsul de primeira classe por concurso público, por pouco Eça não ocupou o posto de cônsul na Bahia, cargo que seria seu por direito, mas que perdeu por injunções políticas de outro interessado. Foi cônsul em Havana, Cuba, e em Newcastle, ao Norte da Inglaterra, de 1874 a 1879, época em que travou um célebre embate com Machado de Assis (1839-1908) a respeito do trabalho literário.

II

Como lembra Campos Matos em seu alentado prólogo, na última fase de sua vida, Eça, morando em Paris, travou amizade com vários brasileiros ilustres, como Eduardo Prado (1860-1901), Domício da Gama (1862-1925), Graça Aranha (1868-1931), Olavo Bilac (1865-1918), José Veríssimo (1857-1916), Joaquim Nabuco (1849-1910) e o barão do Rio Branco (1845-1912). A essa época, participou, com textos de excelente qualidade, da Revista Moderna, cujo primeiro número é de 1897, publicação de propriedade de Martinho Carlos Arruda Botelho, filho do conde de Pinhal, fazendeiro paulista de Piracicaba que fizera fortuna com o cultivo de café.

Não param aqui as ligações de Eça com os brasileiros: sua fama correu o Brasil de alto a baixo, desde que, ainda jovem, passou a escrever com Ramalho Ortigão (1836-1915) As Farpas, folhetos de publicação periódica. Num deles, destilou sua irreverência com D. Pedro II, quando de sua viagem a Lisboa, talvez porque o visse um tanto jeca, ainda que o imperador fosse homem de grande cultura. Essas fustigadas mereceram grande reação de brasileiros, especialmente em Pernambuco, onde comerciantes portugueses foram alvo de represálias por conta das diatribes ecianas.

III

Fama mais justa veio em 1876 com a primeira edição de O crime do padre Amaro, que sacudiu o rame-rame em que se arrastava a literatura brasileira. Dois anos depois, com O Primo Basílio, e suas cenas pouco convencionais e ousadas, viria a causar polêmica, a ponto de Machado de Assis reagir negativamente em nome de um moralismo que, mesmo à época, pareceu um tanto despropositado. Tanto que outros escritores brasileiros saíram em defesa de Eça. O escritor veria sua fama disparar, tornando-se uma devoção quase religiosa a partir de 1880, quando teve início a sua colaboração regular na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que se interrompeu só em 1897.

Muitos escritores medíocres e outros nem tanto iriam imitar o estilo inconfundível de Eça, a ponto de a idolatria pelo escritor luso avançar pelo século XX, superando até mesmo a fama tinha em Portugal. Campos Matos lembra, inclusive, que, em 1923, um filho de Eça, o jornalista Alberto, à época morando no Rio de Janeiro, surpreendeu-se com o culto a seu pai, ao ser convidado a participar da inauguração de um busto do escritor na cidade.

Campos Matos não duvida que o interesse por Eça no Brasil continue vivo, ainda que não o seja nos moldes de há 70 anos ou 80 anos. Ainda hoje não é difícil encontrar literatos que sejam capazes de repetir de cor trechos imensos de livros do autor de Os Maias (1888). O cearense Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010), que foi embaixador do Brasil em Lisboa de 1789 a 1983, autor de Era Lisboa e chovia (Rio de Janeiro, Nórdica, 1984), entre outros livros de temática eciana, era um desses. Aliás, Castro Alves contou com os conselhos e fotografias de Campos Matos para a elaboração de Era Lisboa e chovia.

IV

Conhecer a vida fascinante e, de certo modo, breve de Eça de Queiroz é possível por meio biografias bem elaboradas como Vida e obra de Eça de Queiroz (Lisboa, Livraria Bertrand, 3ª ed., 1980), de João Gaspar Simões, ainda o grande biógrafo do romancista, e o recente Eça: vida e obra de José Maria Eça de Queirós (Rio de Janeiro, Record, 2001), de Maria Filomena Mónica, ainda que contra ambas possamos abrir aquele combate silencioso que todo bom leitor levanta contra passagens menos críveis, mas mais prazeroso é partilhá-la a partir de fotos e de todo material iconográfico que Campos Matos reuniu com rara felicidade. Sorte também que Eça tenha sido um dedicado cultor da arte fotográfica. Gostava de fotografar e igualmente de ser fotografado, recorrendo a poses, talvez porque já imaginasse que posava para a posteridade.

Numa época em que era costume posar com colegas e familiares em estúdios, Eça levou ao extremo o hábito de presentear amigos com fotografias com dedicatórias. Muitas destas fotos Campos Matos reuniu em seu livro, além de cartas do pai do escritor, bilhetes do próprio romancista e outras imagens de locais que fizeram parte da vida do autor e de sua geografia literária. Há ainda retratos de familiares e amigos, especialmente de seus companheiros do Cenáculo de Lisboa, e de autores cultuados por Eça.

Dos amores de Eça, há muitas fotos de sua esposa, Emília de Castro, e de Anna Conover, uma norte-americana que se apaixonou pelo então cônsul de Portugal em Havana, quando este ainda era solteiro. O affair com Anna e outro com Mollie Bidwell, de quem não se conhece fotografia, levaram Eça a uma estada de cinco meses nos Estados Unidos, em 1873-1874. Sem contar a foto da “bela desconhecida de Angers”, que levou Eça a freqüentar esta cidade francesa com certa assiduidade.

O álbum traz ainda fotos tiradas por Alberto Carlos da Costa Frazão, primeiro visconde de Alcaide (1869-1939), que estimulou em Eça o gosto pela fotografia e a quem se deve as melhores imagens do escritor, de seus familiares e de alguns amigos feitas no jardim da casa da Avenue du Roule, em Neuilly, em Paris.

V

O arquiteto A. Campos Matos tem um vasto currículo eciano, que começou com Imagens do Portugal queirosiano (1976). Foi autor em grande parte do Dicionário de Eça de Queiroz, publicado em 1988, que deu lugar a uma edição aumentada em 1993 e, em 2000, ao Suplemento ao Dicionário de Eça de Queiroz. Publicou ainda Eça de Queiroz-Emília de Castro, correspondência epistolar (1995) e, posteriormente, Cartas de Amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz, cônsul de Portugal em Havana: 1873-1874 (1999).

É também autor de Diálogo com Eça de Queiroz (1999), A Casa de Tormes, inventário de um patrimônio (2000), Viagem no Portugal de Eça de Queiroz (2000), A Igreja românica de S. Pedro de Rates: Guia para visitantes (2000), Eça de Queiroz, marcos bibliográficos e literários (1845-1900), catálogo da exposição do Instituto Camões (2000), Ilustrações e ilustradores na obra de Eça de Queiroz (2001), O mistério da estrada de Ponte de Lima: António Feijó, Eça de Queiroz (2001), Sobre Eça de Queiroz (2002), Sete biografias de Eça de Queiroz (2004), Dicionário de citações de Eça de Queiroz (2005) e Eça de Queiros, postais ilustrados (2006).
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EÇA DE QUEIROZ: FOTOBIOGRAFIA: VIDA E OBRA, de A. Campos Matos. São Paulo: Leya, 434 págs., R$ 159,90, 2010.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Uma poesia atávica (Henrique Marques Samyn)


http://marques-samyn.blogspot.com/




O adjetivo presente no título deste texto não foi escolhido por acaso. Afirmar que Daniel Mazza é o autor de uma poesia atávica não significa dizer que ele seja passadista, tradicionalista, reacionário, alguém meramente dedicado a revisitar nostalgicamente formas e temas antigos; de fato, o que quero destacar por meio dessa adjetivação é o fato de reaparecerem, na poética de Mazza, elementos característicos de uma certa tradição poética − brasileira e universal − que são habilmente revivescidos no interior de um discurso literário. Num momento em que certa vertente da crítica insiste em exigir da poesia a superficialidade e o descompromisso (recaindo, desse modo, na viciosa tentativa de perpetuar modas poéticas), Daniel Mazza ousa escrever poemas de uma seriedade impressionante, nos quais é patente um domínio técnico raríssimo nos autores mais novos − qualidades que se fazem presentes de forma muito nítida em seu livro mais recente, A cruz e a forca (Book editora, 2007).

Tendo estreado com Fim de tarde (Funpec, 2004) − livro que não conheço, mas que já indicia seu talento, a julgar pelos poemas disponíveis na internet −, Mazza publicou seu livro de estreia aos 29 anos; portanto, doze anos após começar a escrever, segundo a biografia disponível em seu sítio. Por que isso é relevante? Porque Mazza não teve a pressa de publicar tão comum nos tempos atuais, quando a impressão de livros em pequenas tiragens é menos custosa do que há alguns anos; porque − deliberadamente ou não − , ele soube permitir que sua poética amadurecesse, até emergir com uma obra consistente. Ainda que Fim de tarde seja um livro considerado irregular pelo próprio Mazza e por um crítico competentíssimo como Marcos Pasche, ele indubitavelmente tem o que é necessário num livro de estreia: a promessa da grande poesia.

Passemos à leitura de A cruz e a forca. O livro divide-se em três partes: "A morte", "A culpa" e "A cruz e a forca". Os títulos dessas seções remetem a um componente fundamental de todo o temário da obra: o imaginário cristão. Desse modo, a tematização da morte se aproxima menos do tempus fugit do que do sic transit gloria mundi; não ocasionalmente, "A culpa" traz um poema sobre as três negações de Pedro; e o último dístico de "A cruz e a forca", poema que encerra (e, em certa medida, sintetiza a proposta do livro), afirma: "É o verbo calado na forca, / É o silêncio altissonante na cruz". Não é preciso ser cristão − quem escreve este texto não o é − para reconhecer a qualidade dos poemas de Mazza, que em momento algum resvala no proselitismo; pelo contrário: os elementos da tradição cristã não são, para ele, um fim em si mesmo, mas motivos que conduzem à tematização universalizante. Poemas como "Simonia" ou "Duas preces" revisitam topoi presentes na lírica médio-latina, logrando efetivar a atualização necessária.

No prefácio do livro, Anderson Braga Horta menciona duas influências, de fato perceptíveis nos poemas de A cruz e a forca: João Cabral de Melo Neto e Augusto dos Anjos. É necessário, contudo, observar que esses influxos não se dão verticalmente, mas horizontalmente − ou seja: Mazza é um poeta maduro o suficiente para dialogar com essas referências, sem deixar de impor a singularidade da sua dicção. A presença cabralina é mais nítida, a meu ver, pelo tom analítico e dissertativo de certos poemas, como "A bala viva" e o já citado "Duas preces"; já o diálogo com Augusto dos Anjos se faz presente pela figuração horrífica da matéria, sobretudo a orgânica, não raro a partir de referências moralizantes − algo que transparece em textos como "Litania do corpo" e "O repasto da morte". Nisso não se veja uma deficiência: esses diálogos são necessários − sobretudo num caso como o de Mazza, em que a sua mundividência avassala os traços de influência: seus temas não são os de Cabral; a tensão entre a matéria e o infinito que mobiliza o lirismo de Augusto dos Anjos é superada em favor do segundo, o que evoca um misticismo que pode ser tacitamente aproximado de Alphonsus de Guimaraens. Daniel Mazza já começa, enfim, a pavimentar o seu caminho pelas terras da poesia; e, considerando-se o rigor com que se dedica a segui-lo, pode ainda percorrer vastas paragens.

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Últimos poemas (Carmen Silvia Presotto)

Como se fossem a Última Crônica de Sabino

“Dobrais as esquinas comigo...”
Ferreira Gullar


Tomava o costumeiro café do Bar do João, quando abro um velho jornal e reencontro a Última Crônica. Coincidência!? Bons presságios?! Pode ser. Mas, em meu tempo, talvez sejam palavras plenas, sussurros da mão, linhas que me levam, entre tantas escritas, justo à favorita.

Logo, minha lúcida cabeça remexe-se dos ossos. Cru, desabitado da pele de aposentado, visto o Dia sem pijamas para saltar fronteiras. Por cada botão, amplio asas. Troco botões por cores invisíveis, àquelas inaudíveis que passeiam pelos inesgotáveis bosques e chego a outros universos que nunca me veem.

Sim! Descascar letras é algo ridículo. A menos que o eu – colador de palavras – seja um velho reciclado ou uma criança ou alguém atemporal, fora de secção, cruzando palavras com estações, feito um trabalhador...

Aí, caros amigos, chegando ao bonde, onde tudo ainda é desejo. Aí, sou este calendário, diante a tantos googlegismos, pedindo dízimos. Ou se preferirem, escutem alguns, de onde serei ninguém.

Assim – vagão vazio – sou este desalinho descamisado de trilhos. Mas para tanto, caros senhores, não me subestimem, apenas escutem: para nada não se necessita tudo.

Dito isso, bastaria escrever. Sem moralismos, habitar-me da mortalha traçada pelo papel de outros e, simplesmente ler... Para tanto, embriago-me de coragem – tintas – que rabiscarão os pincéis com que me maquiarei.

Feito isso: personagem! Rasgo diferentes ângulos e por cada fresta, diante lentes, ancoro meu narrador câmara e abuso das lentes. Sobrepondo olhares, caminharei sobre-fatos. Deles estalarei minhas carnes. Tingindo momentos, seguirei uma estrada. Além dos álbuns de fotografias de quem se diz história, serei retrato e do olhar de cataratas serei um decurso, rio desaguando entre relatos.

Assim, deslizo tipo copidesque sem esconderijos. Portanto, caros leitores, incluam-se, juntos, dentro de outras leituras, poderemos reinventar qualquer humano. Não, pensem o contrário... Se poderia omitir tais detalhes, mas apenas exalo o óbvio entre palavras para caminhar no pedestal que sempre vão dar em milhões de frases já transplantadas em mim.

Seria diferente para algum de vocês? Mas, será que isso importa!?... Pronto o cenário, vampira de letras, persigo meu querido escritor, Fernando Sabino, vivo – ele – viveremos os dois. Desfolhando suas veias, imagino as cenas que agora atravessam o tempo para chegar aos olhos do Edu – garçom do lugar – que há anos trabalha nesse botequim. Posso me enganar, mas, ao me aproximar da crônica criatura, escuto o que, agora, conto a vocês.

Entre dentes, Edu murmura que tava de saída porque o bar estava às moscas e Seu João que fazia o caixa ao famoso freguês que sempre pendurava a conta já juntava seus papéis quando o bando estranho entrou. Às vezes, ele sussurra que odeia esses bares de moda e debates e mais ainda a calma louca de seu patrão...

Olha só! Olho e percebo ao que ele chamara de malditos que mudam o ar do ambiente. O caixa terá de esperar porque o jornalista escritor – bem atento – sentou de novo. Na certa, cheirou um furo na curiosa família e eu volto para meu avental e arrasto meus malditos calos até a mesa dos três negros – pai, mãe, filhinha – com um apetite de lobo-mau.

Lobo-mau, Edu?!

Sim, droga, drogas! Olha... Tenho vontade de comê-los vivos porque entram aqui e liquidam com o meu programa e se contar na Vila ninguém acreditará e pior ficará a Beatriz que é uma fera e não tenho como avisar a ela e sei que isso me pendurará por mais uma semana.

Sim, diabo, diabos! Olha... Logo quando estava avançando o sinal e justo hoje que há jogo e cevas e somente Deus sabe como esperei e falam tanto do tal Viagra e basta um homem conseguir uma mulher para ploft... perder tudo.

Olha! Pela demora deles é melhor eu oferecer rápido o serviço, pois pobre é fogo e lá estão eles contando suas migalhas. Que cena! Será que notaram que não é hoje o dia do pendura, pois eu não me engano... Só podia ser assim, uma fatia do bolo amarelo forte e abatumado e barato o suficiente para ser acompanhado de coca-cola e a coitada da menininha ainda ri – pudera fome é fome – devem ter pegado toda a grana do mês para comemorar essa merda de aniversário.

Desvio os olhos de Edu, miro a todos os lados, escuto o silêncio que habita o bar. Por instantes, em segundos seu olhar me captura, parece que ele percebe que, além dele estarmos próximos, também sou muito agitado. Assim, nossas angústias se debatem ao momento. Agora é ele quem me persegue para que o siga, olhando por seus resmungos, porque enquanto levava os copos me distraíra com a mãe que separava três velas dentre as bugigangas da sacola.

E o pai... psiu... sopra-me Edu...

Olha! É um coitado que nem levanta os olhos e cá para nós como não ficar envergonhado com tamanha bobagem de mulheres que desejam copiar as novelas e fazem cenas mexicanas para que todos tenhamos pena delas, mas eu também sou empregado e tenho pau e tesão e tinha a Bea que a essa hora deve ter catado outro negrão...

Olha, comigo não! Não tenho pena não! Eles querem me humilhar porque sentem que nunca tive um bolo nem velinha nem mãe nem pai e que só entro em restaurantes para servir copos e pratos e sorrir para as poucas gorjetas.

Que racistas! Merda de família racista! Olha lá!

Agora sou eu quem o segue, acompanhando seus passos vou pensando: vê se pode! A mãe limpando as velas para colocar na sacola e a filhinha ainda sorri e o pai continua quieto, cabeça baixa, triste, calculando a conta.

Mas, novamente, os grunhidos de Edu me tiram da contemplação... Olha! Um dia de trabalho pela humilhação. Bem feito! No próximo, pensarão melhor. Agora, o pai sorri para o jornalista que aqueceu a caneta de tanto escrever. E durante toda minha tortura somente Seu João ficou ligado com seu costumeiro ar desligado de dono de botequim aquele jeito dos que fecham as contas e o bar para subirem para suas marias. Fácil, muito fácil! Enquanto eu perco uma noitada servindo negros fingidos de postiça família.

Olha! Finalmente pediram conta.

Vejo Edu crescer. Um ar de satisfação, além de ampliar seu tamanho, também aumenta sua voz ao dirigir-se à mesa... Ufa, grita! Quanto a mim, piscando sussurra que chegara sua vez, dizendo: Eis a minha vingança, chego a escutar os ohs, negros malditos!

Coço a cabeça e falo a ele, olha o que vais fazer, Edu, hein?

Sim, não te preocupes. Agora, eles verão o quanto custa entrar pela porta da frente e sentar num bar para frescuras sentimentais.

Ao retornar, comenta Ué! Coça a orelha, indagativo, falando que o homem nem gaguejara. Pagou e ainda deixou uma gorda gorjeta. Esnobes! Racistas! Bem, ainda posso pegar um táxi e talvez a Bea...

Já não o escuto, quando ele acena a seu dono, abanando também ao jornalista, que, finalmente, apanha a surrada pasta, encaminhando-se à porta.

Escuto, através das duas venezianas, as pisadas opostas na calçada. Chego a pensar, cada um com seu destino, apanho o jornal, saio e, ao escutar o baixar de grades do bar, chega o ônibus.

Na viagem, lembro de que Edu buscará sua Bea, enquanto isso imagino que o jornalista deva estar chegando à Redação... E como o trajeto é longo, espicho o olhar para escutá-lo: Pessoal! Hoje presenciei uma cena comovente. Saía do bar do João, quando uma família de negros me deteve. Sensacional!!! Estavam arrumados para uma festa com suas roupas domingueiras. Sentaram-se quietos, porém a negrinha, filhinha do casal e aniversariante, era a pura felicidade, retrato visível atravessada por sorrisos. Ao contrário do Edu. Lembram, dele? Ele ficou uma fera, abandonou o costumeiro bom humor, seu habitual cartão de visita e, arrastando-se à mesa dos clientes, quase lhes joga o cardápio. Não identifiquei bem a causa de tamanho aborrecimento. No início, olhou muito para o relógio, parecendo querer atrasá-lo para não perder um encontro. Depois, percebi. Diminuía-se ao servir pessoas da mesma cor. Coisas de negros! Sentem-se humilhados, como se nós brancos fôssemos melhores do que eles. E o que é cor? Claro, que nada, pessoal! Também acho apenas uma fachada. Aliás, João continuou impassível... Entocado no balcão, manteve-se indiferente. Nem a inesperada família alterou o conhecido ar de quem se sabe dono de um lugar. Mas pessoal! Quando vi o pedido, não contive as lágrimas. Inesquecível!!! Imaginem uma fatia do amarelo e dormido bolo, acompanhado de uma coca-cola. Uma! Triste, piegas mesmo. Porém, pior foi a cena das três velinhas usadas para a celebração, vocês também não conteriam algumas lágrimas. A negrinha sorriu todo tempo. A mãe era puro orgulho do precioso momento e o pai... Bem, ele se manteve sério, cabisbaixo, talvez preocupado com a conta. Chegamos a cruzar olhares, tentei demonstrar solidariedade ao que ele fugia com um doce sorriso. Isso me cortou o coração. Afinal, o que não se faz em nome do amor? Pai é pai e orgulhou-me seu gesto. Tentei. Pena ele ter fugido, pois já estava disposto a ajudar nas despesas... Pessoal! Adoro esses botequins alternativos, mais gente deveria apreciar e frequentar esses pitorescos cenários, para mudar o compasso de nossa situação sociológica. Imaginem! Uma bela e amorosa família de negros comemorando três aninhos de sua filhinha. Lindo e sensível momento! O Darci adoraria estar ali comigo. Bem, finalmente, veio a conta. O Edu chegou curioso, mas, pela primeira vez, contente. Aliás, contente era pouco, felicíssimo. Depois disso, eles se retiram como chegaram, quietos. Ah! Quase esqueço... Antes a mãe limpara as velinhas, guardando-as numa bolsa de plástico colorido. Talvez fosse vinil, pouco importa! Foi então que percebi o Edu de olhos esbugalhados recontando a gorjeta. Ao saírem os convidados, encaminhamo-nos à porta. Segui para cá e ele tomou outro rumo. Ouvimos quando o João cerrou a cortina do bar. Pena que, além de mim, apenas umas mãos folhando um velho jornal presenciara a cena.

Olho pela janela, ainda faltam alguns minutos; então, caros senhores, prossigo... Depois de fechar o bar, penso que João tenha subido as escadas para contar as novidades a Maria. Claro que não foi tão eufórico quanto o jornalista, mas escuto quando ele diz: Maria! Atrasei porque fechava o caixa, o Edu já se vestia para sair, o senhor do jornal nem se conta e o Fernando terminando a derradeira caipirinha apanhava suas anotações, quando entra uma família de negros no bar: pai, mãe e filhinha. Mudamos todos! Os que saíam ficaram e eu deixei o caixa para depois, apenas acompanhei os movimentos à distância. Indiferente como sempre faço.

Bem chegamos! Desço do ônibus e digamos que João tenha dito a Maria que o sono batera, assim viro de lado, apaga o abajur e amanhã conto-lhes o resto do acontecido...

No dia seguinte, ao tirar o pijama, lembro da história com meu café, sigo escutando aquele bar onde Maria, despedindo-se de João, grita um bom dia, ele responde, descerrando a grade de ferro, enquanto aguarda o garçom. Logo Edu chega e João vai até a banca apanhar o jornal.

Ao retornar, vê que Edu já servira os primeiros cafés. Tudo normal! Abre o matutino e, sutilmente, chama ao garçom: Hei, Edu, psiu! Este se aproxima e felizes leem a notícia do Dia, apontada por Fernando num cantinho do jornal: “Uma cena comovente no Bar do João, espaço alternativo e pitoresco, onde a vida sempre é surpreendida por ares de mudanças. Lá, ontem, uma família de negros demonstrou muito amor a sua filhinha, dando-lhe como presente de aniversário um momento inesquecível, surpreendentemente feliz... e barato!”

Riam do comentário, falando que isso lhes daria créditos... Ah! Esses escritores... São os eternos mutantes do mundo, sempre têm a ilusão... Ih, patrão! Diz Edu folhando a página. Emudecem com a foto que veem na coluna social. Nela, estampava-se a Negra Família e junto uma nota esclarecedora: “A Primeira Dama recebia o Primeiro Ministro de Luar para o Congresso que analisaria e estudaria soluções às complexas questões de racismo em prol de um Novo Terceiro Milênio.”

Meu Deus! Falamos juntos. Veem que agora também me incluo? Sim, entrecolando todas as linhas podemos sentir que Edu deve seguir passeando por seus porquês, enquanto João se debate pelo péssimo negócio da noite anterior e feito um grilo falante sopro a todos: Bem feito! Era um Primeiro Ministro e nem foto tiraram para o quadro dos famosos. E agora Edu, João e Fernando, hein? E o velho bolo amarelo e abatumado? E as velinhas? Quem diria que eram ricos e célebres?

Apenas Maria me foge de explicações. Porque está claro que o dono do lugar deva estar catando olhos seguros, firmes para saber observar melhor as gordas carteiras. Droga deve dizer João, pois sente que deveria confiar mais no seu faro. É! Agora não adianta lembrar que nela havia cheques e cartões...

Bem, terão que me aguardar um pouco. Vocês leitores sabem como é o pensamento, ele voa, mas minhas pernas precisam de bengalas. Portanto, depois do café seguirei para lá, mas antes desejo que João me escute e perceba que sua única saída é ligar para o Fernando. Ele é a pessoa certa para desfazer tais enganos, basta combinar com Maria para os receberem feito família e com todas as honras da casa celebrar o jantar das acareações... Sinto que João liga para o jornal, também eu faria isso. E têm horas na vida que nos pede a tática de um técnico, pois sabemos as melhores jogadas, mas... Escutem! O Fernando atende ao telefone e, como sempre, já segue dizendo que nem precisam agradecer, que o prazer é todo dele, já que a nota publicada fora uma honra porque não é sempre que fatos como... Não aguentando mais, notem que João o interrompe, gritando para que ele vire a página.

Sintam o silêncio na linha e os gritos ao telefone. Todos no bar despertam, diante de tanta raiva. Praguejando, João escuta um fio de voz retornando do aparelho, palavras desculpas pela imensurável gafe e ironizando tamanha ingenuidade pelo insólito fato.

Enquanto isso termina meu café. Agora já os escuto mais calmos. Deram-se conta das contas, que estiveram diante de personalidades internacionais e os trataram como simples brasileiros. O jornalista termina implorando para que o dono do Bar não divulgasse a sua notinha sobre o caso, pois teme que lhe peçam explicações... Enquanto o garçom fala ao patrão que todo o acontecido parecia coisa de filme, não é?

Pois é, Edu! Trataram um Primeiro Ministro em família como normais, esquecendo-se de que eles, quando comuns, não se sentam em restaurantes com tamanha excentricidade. Tu sabes, mas João, como dono do local, deveria ter notado... Não há de ser nada. Logo, o Fernando conseguirá remendar os fatos, um jantar das acareações com Maria e sabemos que por aqui há pouca memória mesmo, nem mencionaram a mim. No entanto, logo, logo uma nota no jornal salvará suas Pátrias. É! Maria tem todo direito de estar braba, perdera a grande chance de parar de suspirar...

Mas minha gente! Olhem só, tamanha confusão, quando uma família apenas buscava momentos de normalidade. Entraram naquele bar, após muito trabalho para escolher um espaço vazio, onde pudessem ter uma comemoração particular. E, devido gestos e atitudes do garçom, sentem que não são bem-vindos.

No entanto, não havia tempo para bobagens e o exposto bolo amarelo e abatumado finaliza a escolha. Ao vê-lo, claro que pressentem que tudo daria certo. Então, entram no bar. A princípio, ressentem-se do homem que escreve tanto. O pai pensara ser reconhecido, por isso a atenta mãe o animava lembrando-lhe da aniversariante, motivo pelo qual valia a pena correr o risco de serem apanhados pelos flashes. Eles não poderiam deixar essa comemoração para outro dia, assim rezava suas tradições. A mãe, como boa africana, apanha as velas (que foram suas e de outras da família e que no futuro passará à filha, que passará às netas...), conforme descreve a lenda, apanha-as com cuidado, pois se alguma se partir ou quebrar trará azar ao ano comemorado. Então, todo o zelo é pouco...

Esperem que tomo outro café... Bem como dizia, o amarelo do bolo na vitrine os atrai. Lembra o milho, alimento da terra, e o sol, alimento do ar, que emitem energias positivas a todos e finalmente coca, porque no Brasil não há o chá da amarga Cola, planta nativa, verdadeiro depurativo sanguíneo dos maus resíduos que serão eliminados pela urina, equilibrando suas antigas quânticas terapias.

E cá para nós, leitores: fazer tudo isso perante políticos, sociólogos, pessoas da corte, pode não ser bem aceito e estragar seus discursos no país. Lembram que eles vieram para debater preconceitos raciais e não para explicar o folclore de um povo? Daí o Bar do João, as velas, a menina sorridente, a mãe zelosa e o pai, preocupadamente, cabisbaixo que, ao encontrar os olhos do escritor, sorri furtivo, pois percebe que não fora reconhecido.

E o tanto contar de notas, explico-lhes, foi por questão cambial. Além dos 50 reais trocados no aeroporto para alguma emergência, somente possuíam dólares e cartões de crédito. Gastaram 5 no bar, guardaram 6 para o táxi e deixaram o resto dos reais para o pobre, angustiado e infeliz negro. Homem tão serviçal, que poderia estar perdendo alguma festa para que eles comemorassem um tradicional aniversário de família.

É óbvio que o meu Fernando, depois desse episódio não escreveu mais crônicas. Apresentou-se ao Chefe de Estado, conversaram, voltaram ao Bar de João, registraram o fato em fotos e juntos seguiram para Luar, onde escreve romances tão puros como se fossem seu Último Poema.

Hoje, ele nem precisa rabiscar em outras linhas, parece que, quando percebeu que o sonho de toda a infância amadurece na velhice, reencontrou seu coração...

Claro que idade é algo sério, mais ainda quando com ela ainda se brinca. Do contrário, deveriam ser cantados choros e nunca parabéns nos aniversários. No entanto, caros amigos, dobrando amarelados jornais, largo a bengala e transparente prossigo a mão da vida...

Rio de Janiero - 2011
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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As mãos mirradas de Deus (Marcia Barbieri*)



“Deus tem também seu inferno, seu amor pelos homens”
F.W. Nietzsche

A infância me traz um terço de contas inumeráveis, escorregando entre as membranas dos meus dedos, embora muitos desacreditem que exista algo entre um dedo e outro, além de minúsculos abismos. Sou um anfíbio me alimentando de rochas e lavas frias.

Ainda sonho com aquele homem bizarro, do cheiro rude da velhice desprendendo devagar da sua pele cinza, o tempo transforma a carne tenra num laboratório de horrores. O homem grande das mãos mirradas... Olhava e não compreendia os desígnios de Deus. A geometria torta a conceber desejos gordos para concretudes magras. A menor distância de um ponto ao outro é uma curva. Suas mãos finas e pequenas sustentavam um neto corado e robusto. As dualidades são sempre bárbaras... Naquela época as crianças me traziam um sentimento ruim, um ódio inexplicável, em forma de espinhos, sabe aqueles espinhos que vivem entrando em nosso pé e precisam ser retirados com agulha fina? É, era um incômodo assim. Mesmo hoje não as quero bem, há uma rivalidade muda entre nós. Guerra fria. E toda vez que vejo uma, acho suas cabeças grandes, vazias e desproporcionais, como grandes campos minados. Strawberry Fields Forever. Tento despistar a curiosidade insana dos meus olhos, mas eles sempre acabam nas extremidades. Então, novamente tenho diante de mim o homem das mãos mirradas... Alguém me grita:

- Lembra de mim?

Observo profundamente aqueles olhos azuis e tenho certeza de que eles já fizeram parte do meu mundo. Mas onde, quando, em que circunstâncias? Aqueles olhos de um azul raro não pareciam pertencer àquele rosto: delicado, anguloso e tão perversamente angelical.

- Olha bem pra mim. E aí?

Pensei que ela bem poderia ser protagonista de um daqueles filmes antigos, preto e branco, nos quais todas as mulheres eram anjos intocáveis. Andróginos. E seus olhos... Tão fora de órbita, flutuando num universo há muito esquecido.

- É impossível que não se lembre! O Juninho, meu irmão e você...

Como poderia me esquecer? O meu primeiro amigo. Os olhos, era isso, eram os mesmos.

- Claro, como ele está?

- É uma longa história... Triste história.

Não ousei perguntar. Não queria saber. Eu sei muito bem viver de lembranças... E elas eram muitas e boas. Amávamos como dois seres antes da criação, antes do bem e do mal.

Reflito e minha imagem é um quadro alucinado de Edward Munch. Sigo a fome, abro cada curva do meu intestino e ele dá voltas e voltas em torno de mim, como uma roda da fortuna girando sobre o próprio eixo. No jardim crescem os baobás, se espremendo numa realidade limitada, num tempo oco, sem espaço.

Rumino mitologias, o homem grávido. Também gravitam seres no meu ventre, na contradição plena do meu membro ereto, masturbam-me, as mãos diabolicamente mirradas de Deus...


*Marcia Barbieri é paulista. Formada em Port./Francês pela Unesp e pós-graduanda em Prática de Criação Literária. Tem textos publicados nas revistas literárias Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas, O Bule e Meio Tom. É colunista das revistas literárias Caos e Letras e Sinestesia Cultural. Edita o blog: www.avidanaovaleumconto.blogspot.com . E-mail: marcia_barbieri@hotmail.com
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Desafiando o tempo (Tânia Du Bois)



Imagine como seria conviver com as atividades diárias, com os amigos e ainda ter tempo para se dedicar à leitura. Há quem desafie o tempo e a literatura e, além de desafiar, muitas vezes reduz, enfeita e conduz a sua utilização e a sua utilidade. Nas palavras de Jorge Tufic, “O tempo é a / corrosão / que parte do / nada e se / refaz do / nada”.

O tempo é fronteira entre o que lemos e o que ainda poderemos ler. Pergunto, quanto tempo teremos para ler tudo o que desejamos? Devemos buscar o equilíbrio ao montar a nossa agenda, pois nem sempre podemos prever o tempo necessário para as nossas leituras.

O tempo desafia e reflete a realidade: é preciso ler hoje, para melhorar amanhã. Prova disso são as inúmeras produções literárias realizadas com o intuito de desenvolver e envolver a história do tempo, de natureza filosófica, histórica, poética, científica e sociológica, onde só o amor e a cumplicidade pelas palavras podem operar.

A busca por um estilo de vida focado no tempo está no reencontro da obra com o escritor, onde o leitor já prevê a necessidade de mudar do superficial para o essencial, em uma redescoberta de prazeres.

Pedro Du Bois, em (DES)TEMPO, questiona: “Na verdade, nos preocupamos com o tempo: e o nosso tempo permanece intocado na (in)finitude do espaço, onde os escolhidos se lançam em eternidades”

Carmen Silvia Presotto, em DOBRAS DO TEMPO, desafia o tempo em lembranças: “Agitados abanos / lembram os laços da trança menina e / a expectativa da vida não preenchida. // ... Suspiro ao vento pelo primeiro dia.”

Lima Coelho, por sua vez, desafia o tempo entre o amor e lágrimas, em seu livro MARCAS DO TEMPO.

Jorge Luis Borges, em HISTÓRIAS DA ETERNIDADE, busca desafiar o tempo no sentido do rigor cronológico, “Entendi que sem tempo não há movimento (ocupação de diferentes lugares em diferentes momentos); não entendi que também não pode haver imobilidade (ocupação de um mesmo lugar em diferentes momentos)”.

Tais obras mostram a busca pelo passado, presente e futuro e, ainda, nos trazem o caminho do conhecimento de maneira simples e ao mesmo tempo profunda, pois vibrantes em uma mesma frequência.

O livro é atemporal e companheiro, pode ser interessante num determinado momento e ter outra função em outro, e ainda refletir sobre as questões do nosso tempo.

Desafiar o tempo é saber, de fato, para o que ele serve, é desejar que ele pare. Ou que ele possa andar, como em Saramago, “Não tenha pressa./ Mas não perca tempo.”; ou brincar como em Mário Quintana, “O tempo é apenas o ponto de vista do relógio.” Há o tempo do relógio, mas também seguimos o tempo que está dentro de nós, como o feito de sentimentos, que é o que verdadeiramente faz a nossa história, porque quando a imaginação trabalha, é insuperável...

O segredo de desafiar o tempo está na seriedade e eficiência da criação literária, tudo o que lemos faz parte da nossa formação, e o aproveitamento do tempo reside no encontro em que a sociedade se reconhece: equitativa, eficiente e culta; todos acreditando que a força está nos livros que desafiam o tempo.
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Contos cearenses (Fernando Py)




O escritor cearense Nilto Maciel faz chegar a esta seção o segundo volume de seus Contos reunidos (Porto Alegre: Editora Bestiário, 2010), que compreende os textos dos livros As insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de girafa na poeira (1999). O primeiro deles reúne contos de alcance e estilo variados, destacando-se principalmente pela apresentação de tipos curiosos ou maníacos, como o professor Mendes (em ‘Teoria do amor socrático’, p. 23), o paquerador João Canoro (em ‘A voz indecorosa’, p. 32), a esposa que sonhava (em ‘Sonhos’, p. 40), e outros mais. Os contos são ora são longos e minuciosos, como ‘Ícaro’ (p. 11) ou ‘Os comensais de Afonso Baio’ (p. 53), ora, na maioria, não ultrapassam página e meia. Alguns chegam apenas a ser um simples flash e nem sempre configuram propriamente um conto, com princípio, meio e fim, mas limitam-se a mostrar uma “cena”, como, p. ex., ‘Incubação’ (p. 20). Por outro lado, essa tendência ao conto curtíssimo leva o autor a uma peça em “cenas” como em ‘Mundo livre’ (p. 68), onde as seis cenas fazem parte de uma gincana e o desfecho, menos surpreendente do que poderia parecer a princípio, já indica uma faceta bem irônica do estilo veloz e breve dos contos de Nilto Maciel. Este é um dos aspectos de seu saudável inconformismo diante do que é “bem feito” ou “bonito”, e que muito valorizam a sua prosa.

Babel se compõe de narrativas bastante curtas, às vezes apenas flashes, como vimos na coletânea anterior. São narrativas que exploram um episódio breve, tratando de aprofundá-lo ou expondo toda a sua crueza. Além disso, o autor também explora a estrutura e a linguagem que emprega, com excelentes resultados. Já Pescoço de girafa na poeira compõe-se igualmente de contos muito curtos, em que Maciel também trabalha com modelos variados de ficção, indo das fantasias oníricas ao realismo mais cru, do flash mais imediato ao enredo desenvolvido em detalhes, tudo isso num estilo seguro de quem domina às maravilhas o nosso idioma. E se muitas vezes se compraz em citações eruditas, tais citações se harmonizam de tal modo no texto que é como se tenham feito sempre parte dele. O volume mereceu o primeiro lugar, na categoria conto, da Bolsa Brasília de Produção Literária em 1998, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Convém ler e reler os contos de Nilto Maciel.

(Tribuna de Petrópolis, 21/1/2011)
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Retiro São Francisco (Emanuel Medeiros Vieira)



A cidade de Salvador é uma urbe belíssima. Primeira capital do Brasil, ela é portadora de uma tradição civilizatória. Como ocorre em outras cidades, a ganância, a especulação imobiliária, a compra de edis e de diversos agentes públicos que deveriam zelar pela capital baiana, estão deturpando o Plano Diretor da Cidade e toda a capital. A omissão da prefeitura, a cobiça insaciável e outros problemas degradam diariamente a chamada Boa Terra. Nenhum brasileiro pode se omitir. A Bahia é o Estado de Castro Alves, de Anísio Teixeira, de Glauber Rocha, de Raul Seixas e de outros grandes artistas. Salvador é um patrimônio humanista de todos nós. São Salvador, tão cantada por artistas e poetas, tão louvada pelos viajantes que aqui aportaram desde os primeiros tempos de sua criação, hoje está sendo devastada por construções e loteamentos. Como alguém indagou, por que permitir que o capital imobiliário se transforme cada vez mais num capital selvagem tocaiado pela corrupção? Lembro das leituras de Octávio Paz. O tempo arquétipo deixou de ser o passado e sua quimérica idade de ouro; por sua vez, o tempo fora do tempo, a eternidade dos anjos e dos diabos, dos justos e réprobos, foi desalojado pelo culto ao progresso.

Hoje, quero falar de outra grave ameaça. Querem derrubar a Casa de Retiro São Francisco. Ela está instalada no coração de Salvador, na Rua Waldemar Falcão, no populoso bairro de Brotas (um dos maiores da cidade), ao lado do Candeal. Como sublinhou um cronista, ela é um oásis de calma e sossego. É um “monumento aberto ao silêncio e à paz; uma fonte concreta daquilo que chamamos de ‘’qualidade de vida’. Aquele santuário, observou Jorge Portugal, “é um dos grandes bens espirituais e humanos que ainda restam de uma cidade estressada, corrompida, deformada, apartada, aviltada pela velocidade e o lucro. Esta cidade já se esqueceu de que foi criada para as pessoas e não o contrário”.

Conheci Salvador aos 21 anos, quando vim representar a AP do Rio Grande do Sul num congresso estudantil. Foi amor à primeira vista. Mas percebe-se a degradação perpetrada pelos “podres poderes” que têm muito dinheiro e nenhum escrúpulo. Precisamos resistir! Salvador não é Florianópolis. Tem, aproximadamente, três milhões e 600 mil habitantes, e é a terceira metrópole brasileira. A Casa de Retiro São Francisco é o resultado de uma “articulação do bem”, que contou com a doação de famílias baianas de boa vontade. Vale a pena conhecê-la e defendê-la. Pede Jorge Portugal: “Vamos dar um basta à especulação inconseqüente e aos falsos ‘bons negócios’ que só geram lucros para os poucos de sempre. Pela vida, pela paz, pela solidariedade e pelo sonho de uma cidade mais humana: vamos dizer em alto e bom som: a Casa de Retiro não!”.

É preciso mobilizar os vereadores do “bem”! Como reivindica uma cronista, os inimigos do verde e da paz devem saber que a cidade de Salvador tem dono: o povo.

Salvador, fevereiro de 2011
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

W. J. Solha: Todas as artes a Arte


(Conversa de Nilto Maciel com W. J. Solha: romancista, contista, poeta, dramaturgo, libretista, pintor, roteirista, cineasta, ator, compositor, produtor de teatro e cinema. Só não é tenor e bailarino por falta de boa voz e não saber dançar.)


(W. J. Solha)

Conheço W. J. Solha há alguns anos. Não pessoalmente. Primeiro li o livro dele A Canga. Se não me engano, em 1978. Ou terá sido Israel Rêmora? Ele também me leu. E, assim, nos fizemos amigos. Ele na Paraíba (mas é paulista de nascimento), eu no Ceará e depois em Brasília. Trocamos muitas cartas. Lamentações por não termos editor, pela falta de leitor, por isto, por aquilo. Apesar disso, nunca deixamos de ler e escrever. Persistimos como escritores. Passados 40 anos, decidimos manter uma conversa séria, severa, para que outros o conheçam. Porém, ainda por correspondência. Se nos veremos um dia, quem há de saber? Enquanto isto, leiamos o que Solha tem a dizer. “Nasci em Sorocaba, SP, 1941. Radiquei-me na Paraíba a partir de 62, quando tomei posse no BB de Pombal, PB. Foi aí que, por influência do meio e de um colega do banco, em especial – José Bezerra Filho – envolvi-me com teatro, literatura e cinema. Já colaborei muito com a imprensa de João Pessoa, atualmente mando toda semana duas matérias para o blog www.eltheatro.com, de Elpídio Navarro, geralmente um artigo e um "ensaio ilustrado".

Ao final desta conversa há um currículo de Waldemar Solha. Agora é a vez das perguntas e respostas.

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Entrevista

Nilto – Você contava apenas 21 anos de idade, quando se mudou para o interior do Nordeste. Sem querer um relato de sua infância, fale dessa mudança. O que levou na bagagem? Como se deu em você a passagem para o sertão? Que tipo de impacto sofreu?

Solha – Foi um dos momentos mais importantes de minha vida, Nilto. Eu vinha de uma família pobre – meu pai era carpinteiro da Estrada de Ferro Sorocabana – para uma agência do Banco do Brasil. O salto pra classe média foi significativo. Livrava-me, ao mesmo tempo, de todo o constrangimento que sofre um jovem na casa dos pais. O mais importante, no entanto, foi que saí de um meio culturalmente frio, para outro bastante aquecido, o que foi surpreendente, pois vinha de Sorocaba, SP, e estava tomando posse em Pombal, no alto sertão da Paraíba, 1962. Como exponho no romance Relato de Prócula, ali encontrei não apenas colegas envolvidos com teatro e literatura, como grandes amizades locais que me assombraram por uma imensa cultura. O Dr. Atêncio Wanderley, personagem desse meu livro, é real. Médico, tio de minha mulher, ele ouvia noticiários da BBC em inglês, gostava imensamente do latim de César no De Bello Gallico, de ler os grandes economistas e filósofos, adorava literatura de cordel. As conversas em rodas de calçada, com médico, padre, professor e juiz, em Pombal, mostraram-me um mundo de que sequer desconfiava. Um dia tive um sonho que me impressionou muito, botei-o por escrito, e um colega – o hoje escritor José Bezerra Filho – mandou-o para um professor da UFPB em João Pessoa, que o publicou numa antologia à base de mimeógrafo... e foi assim que produzi meu primeiro conto. Logo depois, um colega novo, ao tomar posse do banco depois de nós, pediu-me para escrever uma peça sobre a morte do estudante Edson Luiz, no restaurante do Calabouço, Rio, e tivemos nossa estreia três meses depois do fato acontecido. Tornei-me, assim, dramaturgo e ator. No ano seguinte, o mesmo Bezerra decidiu fundar uma empresa cinematográfica lá mesmo, em Pombal, e rodamos o primeiro longa-metragem de ficção, da Paraíba, em 35 mm. E me vi, de repente, como produtor e ator de cinema. Quando saí de Pombal, era outro.


(Cidade de Pombal, Paraíba)

NM – Menino e adolescente pobre, que livros você lia? Quem os fornecia ou indicava? Ou você saía fuçando bibliotecas, sebos, livrarias, como eu fiz, lendo o que lhe chegasse às mãos? Lendo tudo, desde livros didáticos, jornais e revistas, até pedaços deles, jogados ao lixo?

WJS – Minha mãe, apesar dos quatro filhos, nenhuma empregada, costurando para fora com sua velha máquina Singer, era uma leitora de romances típica daquela época (anos quarenta, cinquenta, sessenta): parecia não ver nenhuma diferença entre um Machado de Assis da maturidade ou Tolstói e autores de livros chamados "flor de laranja", tipo M. Delly, ou – mesmo – o Machado da primeira fase. Como ela tirava frequentemente essas edições da biblioteca da Estrada de Ferro Sorocabana, acabei lendo alguma coisa do gênero, na adolescência. Lembro-me de que o primeiro romance que li foi John, o Chauffeur Russo, de Max du Veuzit. O primeiro, brasileiro, Coração de Onça, de Ofélia & Narbal Fontes. Mas isso foi muito epidérmico. Como lia muito gibi desde muito pequeno, o que me influenciou muito, nesses primeiros tempos, foi uma revista nobre de Histórias em Quadrinhos chamada Epopéia. Nela, embarquei em épicos com títulos como Miguel Strogoff, Tourada Trágica, A Esfinge Negra, Parsival, Aquila Maris, Kim, e Kumiak o Esquimó. Nas quartas capas havia sempre a reprodução de uma pintura clássica – Mona Lisa, A Batalha do Avaí, Napoleão nos Alpes – e nas terceiras, o resumo de uma grande ópera de Verdi, Wagner, Donizetti, Puccini ou Carlos Gomes. Passei a ouvir todos os programas de rádio com música clássica, passei a estudar pintura, primeiro com um alemão – Ludoviko Prohaska –, depois um italiano – Flávio Gagliardi. Devorei todo o Tesouro da Juventude e, uma vez por mês, ia a São Paulo, assistir aos Concertos Matinais Mercedes-Benz, no Teatro Municipal. Como vi que não levava jeito pra nada, larguei tudo e fui estudar contabilidade... que me levou ao Banco do Brasil.

NM – Então, em Pombal, com emprego certo e bom, você pôde se dedicar a escrever. Como nasceu A Canga, peça teatral e depois romance? Isto se deu logo após a sua chegada ao sertão? Foi seu primeiro livro escrito ou houve outras tentativas?

WJS – A Canga surgiu de uma espécie de novela que fiz, hoje perdida, composta de uma série de contos, cada um se passando numa época. Depois de uma cena em plena Pré-História, saltava-se para o sertão nordestino (A Canga), daí para o faroeste americano, para a segunda guerra mundial, etc. A primeira imagem a me vir na cabeça, ao criar essa estória, foi a de um pai, desprovido de bois para arar, pondo os filhos no lugar deles, na canga. Eu era o chefe da carteira agrícola da agência do BB em Pombal, na época, conhecia aquela gente toda na intimidade. Com a ideia, acabei, sem querer, criando uma imagem emblemática do despotismo. Mas o conto daria em nada se não me surgisse o convite de montar uma peça curta a ser exibida numa festa (dentro da campanha para a escolha da Miss Paraíba 1968) em que – além da beleza das meninas locais – Pombal pretendia mostrar alguma coisa da cultura local, Aleluia! Montei o espetáculo e fiz o mesmo papel – aos 29 anos – que faria no hoje famoso curta do Marcus Vilar – aos 60 (em 2001): o do pai que, de chicote em punho, põe os filhos sob o mesmo jugo que impunha aos bois, impelido pela necessidade de plantar. Aí ressurgiu na Paraíba um de seus grandes filhos, há muito no sudeste: o irmão de Chacrinha, Jarbas Barbosa, um dos grandes produtores do cinema brasileiro, inclusive do Deus e Diabo na Terra do Sol. Ele vinha atrás de montar um polo cinematográfico em João Pessoa, e precisava de grandes roteiros. Foi quando fiz A Canga para ele. Mas todo o projeto deu em nada, por que Jarbas faliu, e, sem nada nas mãos, exatamente como começara, resolvi transformar o script em romance, donde saiu A Canga, 2º. Prêmio Caixa Econômica de Goiás, que mereceu ao ser publicado pela editora Moderna de São Paulo – única e exclusivamente – um comentário seu, Nilto, pelo que, mais uma vez, lhe agradeço. Mas esse não foi meu primeiro livro. Em 1974 concorrera ao Prêmio Fernando Chinaglia de Literatura com A Canga e... Israel Rêmora. Como a censura, na época, era terrível, A Canga, que deveria ganhar o certame, ficou com uma menção especial... e Israel Rêmora ganhara a parada, sendo editado, em 75, pela Record.


(Praia de Tambaú, João Pessoa)

NM – Você tem se dedicado à literatura, mas também ao teatro, ao cinema, à música. Você sente necessidade disso, de ser múltiplo, de abarcar diversas modalidades da Arte? A literatura não o satisfaz? Você se explica ou se aceita complexo?

WJS – Vou produzindo, sempre, o que o momento me pede, Nilto... e nunca me arrependi por isso. De repente me chega Rinaldo de Fernandes pedindo-me um conto a partir do Dom Casmurro, para sua coletânea Capitu Mandou Flores e vislumbro a delícia de uma reconstituição histórica e de botar, de uma vez, a malandra pra transar com Escobar. Ou então me pede algo em cima do conto "Sarapalha", do Guimarães Rosa, para outra organização sua que veio a ser Quartas Histórias, lembro-me de que Guimarães considerava esse o pior de seus trabalhos e associo tudo ao conto de Cortázar em que um grupo de cinéfilos, apaixonados pelo trabalho da atriz Glenda Jackson, resolve tirar os defeitos de filmes em que ela teria trabalhado. Aí me chega o maestro Eli-Eri Moura e me convida pra fazer o libreto da primeira ópera armorial, já com estreia marcada no festival Virtuosi, no Teatro de Santa Isabel, no Recife, e vejo imediatamente um dueto de Ariano Suassuna com seu ídolo, Cervantes, os dois cantando um martelo agalopado em português e castelhano. Na estreia dessa Dulcineia e Trancoso, Daniel Aragão me vê subindo ao palco e resolve: "É o seu Francisco!", referindo-se ao personagem do longa O Som ao Redor, do Kléber Mendonça Filho, papel que acabei fazendo. Na última semana desse filme, Marcelo Gomes me chama para um teste para seu terceiro longa – Era uma vez Verônica – e na última semana desse filme fui convidado para um curta no sertão, o Antoninha, do Laércio Ferreira. Essa série de trabalhos (em que se incluiu um episódio-piloto de Carlos Dowling para TV) custou-me uma ausência de quatro meses no poema longo em que trabalhava e trabalho desde que terminei o romance Relato de Prócula, há cerca de dois anos. E por que o poema longo? Porque, apesar da bolsa da Funarte que ganhei com esse romance, fato que me ajudou a publicá-lo pela A Girafa, encontrei dificuldade para lançar o romance anterior – Dricas (que permanece inédito), sentindo-me o mesmo desconhecido de sempre, em que umas editoras veem um mau negócio. Como o poema longo anterior – "Trigal com Corvos" – me consumiu catorze anos, decidi partir para trabalho na mesma linha, avaliando que, nos 70 anos que faço em 2011, dificilmente terei como me preocupar com um livro posterior. Por outro lado, deixei a pintura em 2004, depois de uma grande exposição que fiz em João Pessoa. E o teatro em 1990, pelo mesmo motivo: a conclusão de que, nessas áreas, eu não tinha mais o que dar.

O que me move, então, são as encomendas? Como se vê, nem sempre. Ninguém me encomendou um poema longo e estou cavalgando nesse enorme dragão pela segunda vez. O problema é que todas as artes me encantam. Pena que não tenho boa voz e não danço, ou seria tenor e bailarino, também. Você não imagina o que é contracenar com a grande atriz Hermila Guedes (de O Céu de Suely), dirigido por um Marcelo Gomes: é o mesmo que trabalhar com Sophia Loren num filme maravilhoso como o Um dia muito especial, dirigido pelo Ettore Scolla. A realização de um romance é um quebra-cabeças estupendo, e trabalhar com as palavras, sem a dependência de uma narrativa, torna a poesia insuperável. Fazer uma parceria com uma Ilza Nogueira, um maestro José Alberto Kaplan, um maestro Eli-Eri Moura é outra experiência única. Não há como descrever o espetáculo de grandes solistas, coro, orquestra e um grupo de dança botando no palco o que você escreveu. Por outro lado, como as palavras sempre me conduzem a uma angústia frequentemente insuportável, imagine o que foi, para mim, passar nove meses sem me servir de nenhuma delas, pintando as 36 telas que compõem o retângulo de 7,20m de largura – "Homenagem a Shakespeare", que está lá no auditório da reitoria da UFPB. E tudo isso me dá subsídios para escrever. No Relato de Prócula transferi a emoção que tive ao fazer Pilatos durante três anos, num grande espetáculo ao ar livre, ao meu personagem principal. A namorada dele escreveu muitos de meus versos. A outra, faz fotomanipulações que na verdade são muitos de meus quadros. O narrador... produz o primeiro longa-metragem paraibano de ficção em 35 mm, presepada que também vivi com o colega do BB e escritor José Bezerra. E assim vai...




NM – Não precisamos nos lamentar como escritores (ou artistas), porque a lamentação já é uma obra de arte. Entretanto, não temos leitores, os jovens não sabem ler, não há bibliotecas, os livros são caríssimos, não há divulgação de literatura na grande mídia, etc. Como você (frágil criatura que se arde em arte) enfrenta essa realidade (dragão a soltar labaredas na direção de frágeis criaturas que criam dragões e outros seres)? Sonhando mais ou criando para matar monstros?

WJS – Nilto, eu simplesmente faço porque não posso parar. Quanto ao mercado, lembro-me de que todos nós, na Paraíba, reclamávamos do apoio nenhum que tínhamos no teatro – do Poder e do Público – restando-nos, apenas, o irrestrito (nunca pude reclamar disso) da Mídia, aí chega o Luiz Carlos de Vasconcelos e monta o Vau da Sarapalha, com o grupo Piollim, de João Pessoa. Caramba. Quando fui ver a peça, estávamos, na plateia, eu, minha mulher, o Buda Lira (irmão de dois dos integrantes do elenco) e mais duas pessoas. Perguntei ao Luiz Carlos; "Vai dar o espetáculo só pra gente?" E ele: "Vai valer como ensaio". Resultado: vi o espetáculo, deslumbrei-me, cheguei em casa e fiz um artigo profetizando que o grupo iria fazer sucesso "até nas estranjas", e foi dito e feito. O público danou-se a crescer e vimos que o povo apenas vai ver aquilo que quer ver, condicionado a isso ou não. Digo-lhe sinceramente: toda semana publico um artigo e um "ensaio ilustrado" no blog eltheatro, de Elpídio Navarro. Jamais recebi, dos leitores, uma palavra sequer de aplauso ou crítica. Nada. Porra nenhuma. Acostumei-me. É como atirar uma pedra num poço e não ouvi o baque dela n’água.Van Eyck sempre assinava seus quadros e escrevia embaixo: "Faço o que posso". E é isso: Faço o que posso. Não gostam? Um e outro gosta. Mas frequentemente a coisa vai às raias do martírio. Passei os últimos dez anos do Banco do Brasil sem almoçar, pra poder escrever. Eu precisava criar! Quando trabalhei, no último quadrimestre, nos filmes de Kléber Mendonça, Marcelo Gomes, Carlos Dowling e Laércio Ferreira, passava as noites em claro, fumando e tomando cerveja (duas coisas que raramente faço) ensaiando sem parar. "Vou pagar caro por isso", eu me dizia. Mas que fazer? Quando terminei o périplo, no dia 23 de dezembro, às vésperas do Natal, estava "morto". Tive que ir a um cardiologista, passei a tomar três comprimidos por dia, pra me reaprumar, o que ainda não aconteceu, e você acha que vou ganhar prêmio de melhor ator em Cannes, Brasília, Gramado, São Paulo? Claro que não: há centenas de pessoas vivendo o mesmo calvário. Formamos um caldo de cultura de que um e outro dará resultado, e – pelos meus 70 anos – jamais eu. Que é que posso fazer? Reclamar do povo, do governo, de Deus? Não faz meu gênero. Vou continuar trabalhando, curtindo esse amor – eterno enquanto dura – às Artes. Todas elas.

NM – Há novidades boas na literatura publicada na Paraíba, nos outros Estados do Nordeste e no Brasil? Muitos têm acreditado no espaço da Internet como tábua de salvação e aparecem em blogues e revistas eletrônicas. Você está neste meio? Lê essas obras?

WJS – Ainda na manhã de hoje terminei de ler os originais do primeiro romance de Marília Arnaud, daqui de João Pessoa, já conhecida como grande contista. Esse novo livro dela – cujo título não estou autorizado a divulgar (talvez ela queira participar de algum concurso) é ótimo. Texto primoroso, andamento narrativo seguríssimo, enorme sensibilidade. O Brasil vai gostar. Li, também, os originais do romance O Autor da Novela, do Tarcísio Pereira – que ganhou a bolsa Funarte de incentivo à literatura no ano passado. É, também, muuuito bom. Mas na verdade não tenho tempo pra acompanhar tudo que se faz por aqui, pelo Nordeste, pelo país, muito menos pelo mundo, tão centrado vivo nas minhas próprias coisas.

Quanto a publicar pela Internet, não acho que isso deva ser encarado como alternativa. "Você não consegue editora, põe na web". Parece aquela coisa de acabar com os predadores e ver os alces perdendo as melhores qualidades da espécie. Vejo a Internet como mais uma opção. Meus "ensaios ilustrados", por exemplo, não seriam, jamais, veiculados em jornais ou revistas, pela extensão – vinte a trinta páginas cada um. Mando-os, por isso, semanalmente, a meus amigos Elpídio Navarro – daqui – e Hugo Caldas – do Recife, que os publicam mui caprichosamente em seus blogs eltheatro e Unlimited. E se mal tenho como me manter mais ou menos atualizado com respeito a livros impressos, imagine com os eletrônicos. Sinto até um certo sufoco físico ao entrar numa grande livraria, como a Cultura, do Recife, que frequentei muito quando fazia laboratório – no Paço Alfândega, que fica ao lado dela – para o filme do Marcelo Gomes. Senti sufoco igual quando cheguei a Pombal, nos anos 60, e dei com tantos livros nas casas dos amigos, felizmente quase sempre clássicos. Devorei Gogol, Turguenief, Dostoiévsky, Tólstoi, Tchékov, Puchkin, depois Soljenitsen, Pasternak, mais um e outro e me senti quites com a literatura russa. Li Homero, os filósofos gregos, mais Ésquilo, Eurípedes e Sófocles e – bem, "botei os melhores helênicos no bolso". E assim tirei meu atraso com franceses, ingleses, americanos, italianos – A Divina Comédia! –, alemães – Que sacrifício engolir Fausto! – portugueses – devorar os Lusíadas! –, espanhóis, os hispanoamericanos e... fiquei em relativa paz. Mas como selecionar tudo aquilo em torno de que ainda não assentou a poeira?

Por outro lado, sinto-me mal dizendo isso, pois estou no meio da cambulhada: o Éric Obsbawn, em A Era dos Extremos, num balanço do que foi a arte no século XX, pergunta: que outro nome surgiu nas artes plásticas, para ombrear com o de Picasso? Que outro livro teve consenso universal, depois de Cem Anos de Solidão, de 67?

NM – Tenho muito a perguntar, você tem muito a dizer. Porém, precisamos dizer “até logo”, porque o rio é caudaloso, há peixes de todos os tamanhos e espécies, as águas ora são turvas, ora límpidas, e navegar é preciso. Encerre esta conversa, por favor.

WWJS – Eu é que lhe agradeço, Nilto. Muitíssimo.

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CURRÍCULO DE WALDEMAR JOSÉ SOLHA (W. J. Solha)

Peças teatrais escritas e montadas por ele:
– A Canga – 1968, em Pombal, PB
– A Batalha de OL contra o Gigante FERR – 1986, com o Grupo Bigorna, em João Pessoa
– A Verdadeira Estória de Jesus – 1988, idem, idem

Peças teatrais escritas por ele e montadas por outros:
– Burgueses ou Meliantes? – dirigida por Ubiratam de Assis, Grupo Bigorna, 1982
– Papa-Rabo – dirigida por Fernando Teixeira, idem, 1982
– A Batalha de Oliveiros contra o Gigante Ferrabrás, dirigida por Ricardo Torres, em Brasília, 1991
– A Bagaceira – dirigida por Fernando Teixeira

Roteiro para balé:
– Caldo da Cana – música do maestro Carlos Anísio, coreografia de Rosa Ângela Cagliani

Romances publicados:
– Israel Rêmora – Prêmio Fernando Chinaglia 1974, publicado pela Record em 75
– A Canga – editado pela Moderna em 1978, reeditado pela Mercado Aberto em 84. Menção especial Prêmio Fernando Chinaglia 74, 2º. Lugar Prêmio Caixa Econômica de Goiás 75, menção honrosa Prêmio Remington de Literatura 1977
– A Verdadeira Estória de Jesus – Ática, 1979
– Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia – Codecri 1984
– A Batalha de Oliveiros – Prêmio INL 1988, ed. Itatiaia 1989
– Shake-up – Ed. UFPB 1997
– Relato de Prócula – A Girafa, 2009, Bolsa de Incentivo à Criação Literária da FUNARTE 2007. Prêmio UBE, Rio, 2010

Coletânea de contos, roteiro cinematográfico e dois romances:
– História Universal da Angústia – Ed. Bertrand Brasil, 2005, Finalista do Jabuti em 2006, Prêmio Graciliano Ramos, da UBE, Rio, 2006

Poesia:
– Trigal com Corvos – Ed. Palimage, de Portugal, 2004, Prêmio João Cabral de Melo Neto, da UBE, Rio, 2005

Parceria com compositores:
– Via-Sacra, Oratório de Semana Santa, com música de Ilza Nogueira, apresentada na Igreja de São Francisco, na semana santa de 2005, sinfônica regida pelo maestro Carlos Anísio, balé com coreografia de Rosa Cagliani, Coral Villa-Lobos
– Cantata pra Alagamar, com o maestro José Alberto Kaplan, 1979. Gravada pela Marcus Pereira, SP
– Réquiem Contestado – para o maestro Eli-Eri Moura, gravado pela UFPB em 1998
– A Ópera Dulcineia e Trancoso – para o maestro Eli-Eri, estreia em 2009, no Teatro de Santa Isabel, no Recife

Pintura:
– Tem um painel – Homenagem a Shakespeare – no auditório da reitoria da UFPB, composto de 36 telas (uma para cada peça do Bardo), formando um retângulo de dois metros por 7,40, além de um quadro de 1,60 por 3,60 – A Ceia – no Sindicato dos Bancários da Paraíba

Cinema:
– Produção – com José Bezerra Filho – do primeiro longa-metragem de ficção em 35 mm da Paraíba, O Salário da Morte, dirigido por Linduarte Noronha
– Roteiro de A Canga – curta-metragem de Marcus Vilar com 23 prêmios nacionais e internacionais
Como ator, participação nos curtas A Canga e A Casa Tomada, bem como nos longas O Salário da Morte, Fogo Morto (Marcus Farias), Soledade (Paulo Thiago), Lua Cambará (Rosemberg Cariry) e Bezerra de Menezes (de Glauber Filho, Joe Pimentel)
– No último quadrimestre de 2010 trabalhou como ator nos longas O Som ao Redor e Era Uma Vez Verônica, de Kleber Mendonça Filho e Marcelo Gomes, ambos no Recife. De volta à Paraíba, trabalhou no episódio-piloto para TV A Arte e A Maneira de Abordar seu Chefe para conseguir Aumento, de Carlos Dowling, em João Pessoa, e no curta Antoninha, de Laércio Ferreira, no alto sertão da Paraíba

Romance inédito:
– Dricas – que talvez saia neste ano pela Escrituras, SP

Em andamento:
– Marco do mundo – poema longo
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O fantasma do Urso (Ronaldo Monte)





Crematório de Vila Alpina, São Paulo. Um homem pede informações detalhadas sobre os serviços e os custos. Tira o talão de cheques do bolso e paga à vista. Quando a atendente pergunta onde está o cadáver, o homem responde: “O cadáver sou eu.”

Alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de 1990, com 77 anos, morre Rubem Braga, o Urso, dono de sua morte, assim como foi dono de sua vida.

Hoje, vinte anos depois, o fantasma do Urso vem se instalar às minhas costas e quase não consigo dar cabo desta crônica. Cada palavra, cada frase é imediatamente comparada ao estilo do mestre, denunciando minha fragilidade de cronista. E sinto que o Urso me desdenha por chamá-lo de mestre. Mas é bom que me desgoste e tire os olhos do meu texto. Só assim consigo escrever sem o peso do seu fantasma, sem ter que adivinhar seu focinho de leão marinho se contorcendo a cada frase mal escrita.

Agora, livre do fantasma, posso falar sem preocupação do encantamento que tive e tenho ao ler as crônicas do velho Braga. Posso chamá-lo assim, pois sou seu íntimo. Pelo menos ele é íntimo de mim. Pois nada do que li dele me foi estranho. Ele sabia falar de mim de uma forma tão simples, tão humana, revelando minhas grandes fraquezas e pequenas virtudes como se eu as tivesse vendo pela primeira vez.

Nos meus momentos de solidão e sofrimento, não é aos grandes poetas e filósofos a quem recorro. São os livros do Rubem que folheio, na busca de uma tirada irônica ou mal humorada sobre as chateações naturais da vida. E nos bons momentos de minha vida, é ainda ao Braga que recorro, para que ele me mostre o quanto tudo é transitório, efêmero. E foi desta transitoriedade e desse efêmero que Rubem Braga fez a sua obra.

Quando leio um texto de Rubem Braga, tenho a certeza de que foi um homem que o escreveu. Um homem, sim. Do gênero masculino. Um homem aberto para a compreensão dos seus semelhantes e cuidadoso com as peculiaridades do feminino.

Me desculpem, mas eu tenho que terminar esta crônica. Já ouço uns passos atrás de mim e sei que o fantasma do Urso volta para bisbilhotar meu texto. Tenho que desligar rápido o computador, pois não quero sentir o seu focinho se entortar de reprovação a tanto desperdício de palavras. Nem muito menos que perceba o nó na garganta traindo o sentimento pela sua falta.

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Certos versos de um domingo (Silmar Bohrer)




Tarde primavera azul,

nuvens poucas no espaço,

canarinhos em compasso

cá pras bandas do meu sul.


Algum rumor que se alteia

vindo da beirinha da praia,

deve ser a essência gaia

fabulando com alguma sereia.


Brigadeiros celestiais

estes céus tão azuis,

magias verdes, concluis,

são os mares-poemas colossais.


Ventanejares fecundos

nesta noitinha dos ventos,

vão eles cumprindo intentos

de mensageiros dos mundos.


Andam gotículas frias

volitando pelos ares,

é a Poesia dos meus mares

disfarçada de maresias.


Vento, ouvindo teu sibilar

nestas tardes primaveris

alguma coisa então me diz

que devo contigo cantar.


Destes céus a magnitude,

dos meus mares a realeza,

e eu nunca jamais pude

versejar tanta grandeza.


Ventos parecem visagens

nestas noites barulhentas,

como ventanejas - ventas,

ventinho - nestas paragens.


Nas manhãs primaveris

ouvindo o som da passarada

teço versos em disparada

buscando as rimas mais hostis.


Maravilhas que seduzem

eu vejo em tantos lugares,

e todas elas conduzem

aos céus, terras e mares.


O ventinho primaveril

nesta manhã domingueira

traz a Poesia faceira

em cantigas de encantos mil.


Barra do Saí/281110
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