Monday, December 14, 2009

FEMíNEA FRONTEIRA




por Calista Serpe



ÊXTASE ÁUREO


Espero-te: que a minha fonte aguarda. O meu segredo

oculto numa concha. Há nela o mar:

mais áureo mar. Em mim todo o oceano

contido. Pode ali caber inteiro?

Guardado. Numa concha úmida e rósea

que em si fabula o ouro. E freme. E pura

emerge: áurea torrente. E o corpo treme:

eis meu dourado avesso a saciar

a sede que se abriga no teu peito.
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Friday, December 11, 2009

Ledapoesia

Clauder Arcanjo

Para Leda Maciel (in memoriam)


Ao nascer, um choro em decassílabo. “Bela como um cisne!” — pensou a mãe; sempre afeita às coisas da arte. Dito isto, de forma natural, brotou o nome sobre os lençóis do parto: Leda.

Com o tempo, o engatinhar e a melopéia infante. “— Lê, Lê, Lê...”. Nas primeiras letras, a descoberta: Lê, do verbo ler. Por entre as páginas dos livros, o chamego dos poemas clássicos, a paixão pela poesia. E, um certo dia, o amor de Lê se fez carne, recitando uma saudação em rimas toantes. O céu banhou-se de mais azul, e uma revoada de pássaros saudou a primavera nos lábios da pequena. Veio a juventude e, com ela, o primeiro soneto. A gaiola dos quatorze versos não era prisão para tanto canto. Seguiram-se os haicais, as quadras, os tercetos, os cordéis, além de um cordão gracioso de versos livres.

A cidade se acostumou com o ritmo, o engenho e o gracejo rimático de Leda.

“— O melhor remédio para a alma”; professoravam todos.

Mas, um dia, Leda viu-se enferma, a doença a minar-lhe as forças, a calar-lhe a voz. A medicina nada poderia fazer, os homens de branco deixaram bem claro. A ciência fazia-se letra morta. No entanto, os poetas da província resolveram prescrever uma injeção de poesia diariamente, direto na veia dos ouvidos de Leda. Desde então, passaram a varar dias e noites junto ao seu leito. E Leda resistia, até que... dormiram, exaustos. Ao acordarem só deram tempo de ver Leda subindo aos céus, a recitar um lindo poema para Cristo.

— Entra, poetisa, a casa é tua. — saudou o Senhor.

E uma legião de anjos e arcanjos anunciou, em versos, a chegada de um novo querubim: a divina Ledapoesia.


clauder@pedagogiadagestao.com.br
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Tuesday, December 08, 2009

Os sinos da depressão

Ronaldo Monte



Todo ano é a mesma coisa. Começa dezembro, os sinos bimbalham e eu me deprimo. É automático, inevitável. Vocês sabem muito bem de que sinos estou falando. Não é o sino da torre da velha igreja que todos trazemos da infância. Nem os carrilhões das grandes catedrais que conhecemos de passagem ou pelos filmes. Os sinos que me deprimem bimbalham nas musiquinhas cabulosas que tocam nas lojas, nos carros de propaganda e nos anúncios de televisão. Eles querem reproduzir em nossa memória uma lembrança que não temos. Querem nos lembrar os guizos de um trenó que desliza sobre a neve puxado por renas carregando um bom velhinho com um saco enorme cheio de presentes. E talvez seja isto o que me deprime.

Vejam que não estou falando de nostalgia, pois esta sempre nos lembra alguma coisa que perdemos e não podemos mais recuperar. Os sinos que bimbalham em dezembro não me lembram nada que alguma vez tenha perdido. Eu nunca vi um trenó, não conheço uma rena e não me lembro de nenhum velhinho gordo e simpático que me tenha dado um presente.

O que perdi, e disto sinto falta, foram os dias de correria que antecediam a noite de festa, no natal e no ano novo. O que perdi foi as mãos fortes do meu pai abrindo a massa do pastel com uma garrafa cheia d’água. Perdi também o cheiro dos pastéis assando no forno e depois se derretendo na boca, misturando o doce do açúcar com o gosto salgado da azeitona. Perdi também o presente achado debaixo da cama na manhã seguinte. Perdi o pai, a mãe as tias e uma parte dos irmãos que construíam comigo essas festas. Isto me faz nostálgico. Mas não me deprime.

É por isso que faço tudo para me recolher em casa assim que começa dezembro. Não quero ouvir o bimbalhar dos sinos. Não quero fazer parte da correria insana que leva as pessoas de um canto para outro em busca de uma coisa que não vão encontrar. Nem dentro delas mesmas. Pois esta coisa chata que as simones e os robertos cantam, que até o pobre do John Lennon é obrigado a cantar, não existe em canto nenhum de nossa memória. Elas existem fora de nós, fabricadas por uma indústria de ilusões e bugigangas. Não me perguntem, pois, por quem os sinos bimbalham. Uma coisa eu garanto: não é por mim.
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Friday, December 04, 2009

AS GALHOFAS DE JOSÉ ALCIDES PINTO

Nilto Maciel


(José Alcides e eu)

Estive poucas vezes com Alcides Pinto. Antes de 1977, quando morava em Fortaleza, só o conhecia dos livros. E de ouvir falar. Não me aproximava dele, por retraimento. Talvez nem me ouvisse. Talvez nem me cumprimentasse. Ora, eu o sabia poeta muito conhecido, desde Concreto: estrutura visual-gráfica (1965) e Cantos de Lúcifer (1966), sem contar as antologias de que participara no início dos anos 1950. Além de poeta de renome, romancista, contista e autor da peça Equinócio (1973). E eu? Apenas um estudante, apenas um sonhador, apenas um quase-escritor. Mas um estudante, um leitor não podia se aproximar de um escritor, pelo menos para lhe pedir autógrafo? Podia e pode. Mas cadê coragem para tanto? Como eu me enganava! Alcides sempre se mostrou muito acessível. Nunca pareceu arrogante. Dava-se bem com jovens e velhos. Com “marginais” e “acadêmicos”.

Não lembro quando o conheci de fato. Tenho alguns livros dele autografados, quando eu morava em Brasília e certamente o procurei, em Fortaleza, em 1982: O enigma (Fortaleza: Edições Quetzalcoalt, 1974), Cantos de Lúcifer (Rio de Janeiro: Edições GRD, 1966), Manifesto traído (Fortaleza: Lourenço Filho, 1979) e As águas novas (Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1975). Autografados no mesmo dia, possivelmente. Na sua casa. Vieram outros autógrafos, outros encontros, em 1998 e 2002.

Não acompanhei sua trajetória de vida, suas “loucuras” (conheço-as de oitiva), suas excentricidades. Falavam-me dele: é doido; virou franciscano; largou o emprego público para se dedicar à literatura; comprou uma fazenda no sertão do ceará, onde só brotavam pedras e onde dorme o dragão da mitologia alcideana. Nunca o vi louco, não o vi vestido de frade, não conheci a famosa fazenda Equinócio. Vivia como pobre, numa casinha de uma vila localizada na Avenida Tristão Gonçalves (sua última morada): na sala, uma rede e uma estante com seus livros (os dos outros nunca vi. Como os meus. Talvez os tenha doado. E como conseguia fazer citações? Tudo de cor. Por isso, às vezes se confundia). Uma cama no quarto. No cozinha, um fogão, uma geladeira, uma mesa com cadeiras. E só.

Fora de casa, andava sempre bem vestido. Quem não se lembra de seu terno branco, com que se apresentava em lançamento de livro, entrega de prêmio, palestra, dele ou de outros? Magro, quase esquelético, flutuava, feito pena branca. Dava gargalhadas estrepitosas, de fazer corar magistrados e madamas, nos salões mais nobres.

O Alcides que conheci vivia em constante alegria, a galhofar com tudo e com todos. Fingia-se doido, sim. Puro gracejo. Certa tarde (não lembro o ano: se antes de meu regresso a Fortaleza, em 2002, se depois), convidou-me Pedro Salgueiro a irmos visitar Alcides. Bateu palmas, à porta. Alcides gritou: Já vou. Pela frincha da porta eu vi: ele se vestia, apressadamente. Já vou, já vou. Pedro repetiu as palmas: Trouxe, para vê-lo, um grande contista cearense. O velho poeta abriu a porta, assanhado, nu da cintura para cima, olhou para mim, me abraçou com força e exclamou: Meu grande contista Airton Monte! Ora, Alcides enxergava bem e sua lucidez não confundiria Airton comigo. Aquilo não passava de mais uma brincadeira.

Visitei-o algumas vezes, ora só, ora acompanhado. Não para conversar demoradamente, mas para vê-lo e levar-lhe alguma publicação, sobretudo a revista Literatura, na qual publiquei poemas e artigos dele, assim como uma entrevista que me concedeu em 2003. Recebia-me com alegria, como certamente acolhia outros amigos e conhecidos. Brincalhão como sempre, quando nos víamos, divertia-se muito: Só existem dois escritores bons no Ceará: eu e você. Se eu mencionava o nome de algum conterrâneo, ele sorria: Esse não sabe escrever.

Vez por outra, telefonava para mim ou eu telefonava para ele. Constantemente a brincar: Poeta (tratava assim todo mundo; pelo menos, os escritores), venha me visitar. Arranjei uma namorada, mas não tenho mais condições de fornicar. Venha me substituir. Eu prometia visitá-lo. E assim o tempo ia passando, até que um dia a outra namorada de todos nós – aquela que aguardamos, mas não queremos –, até que um dia Ela, montada numa motocicleta, o encontrou desprotegido e só, no meio de uma rua, e o levou para as núpcias eternas. Sua última galhofa, em 2 de junho de 2008.

Fortaleza, 5 de outubro de 2009.
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Tuesday, December 01, 2009

Machado de Assis, segundo Jean-Michel Massa

Adelto Gonçalves*

A dois anos do centenário de sua morte, nunca Machado de Assis (1839-1908) teve a sua obra tão estudada como agora. Uma das melhores coletâneas de estudos sobre a obra machadiana acaba de sair em volume duplo de 511 páginas referente aos nºs. 6-7 da Teresa — Revista de Literatura Brasileira, publicada pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em co-edição com a Editora 34 e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Coordenado pelo professor Hélio Seixas de Guimarães, autor de Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19 (São Paulo, Nankin/Edusp, 2004), este número especial de Teresa traz não só ensaios de estudiosos da própria USP como de universidades de fora, como Abel Barros Baptista, professor de Literatura Brasileira da Universidade Nova de Lisboa e autor de dois livros dedicados à obra machadiana, Paulo Dixon, da Pardue University, nos Estados Unidos, e Pablo Rocca, da Universidad de la República, no Uruguai, entre outros.

Na primeira parte, 13 ensaios discutem os contos de Machado de Assis, desde os mais conhecidos, como “O caso da vara” (1899) e “Missa do Galo” (1889) aos menos citados. Um dos melhores ensaios, sem dúvida, é de autoria do próprio coordenador, “Pobres-diabos num beco”, que trata da representação do artista e dos seus conflitos, concentrando-se na análise de “O machete” (1878), “Cantiga de esponsais” (1883) e “Habilidoso” (1885).

A partir desses contos e, especialmente, de “Habilidoso”, Seixas de Guimarães observa que muitas das questões introduzidas no romance machadiano a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) já faziam parte do universo daquelas histórias. “São questões relativas à dificuldade de relação com o público não apenas por causa do gosto anacrônico deste, mas também pela sua exigüidade e pelas condições precárias da comunicação do escritor com esse público”, observa o ensaísta.

Como diz o ensaísta em Os leitores de Machado de Assis, o romancista, na segunda metade do século XIX, sabia muito bem que escrevia para bem pouca gente, se levarmos em conta que, ao redor de 1900, os alfabetizados correspondiam a apenas 18% da população brasileira, dos quais apenas 2% eram capazes de comprar e ler livros. Como artista, vivia, portanto, num beco sem saída, talvez às voltas com a inutilidade de seu ofício, pois não existe nada pior para um escritor do que não ser lido. Tal qual o personagem principal de “Habilidoso”.

Outro grande ensaio deste livro é “Que reino é esse?”, de Eugênio Vinci de Moraes, doutorando em Literatura Brasileira na USP, que aponta para os ainda escassos trabalhos sobre as fontes italianas na obra de Machado de Assis. O autor procura reparar um pouco essa escassez com uma análise do conto “As academias de Sião”, cuja fonte é O príncipe, de Maquiavel, embora não referido explicitamente pelo contista. Para Moraes, a história, a exemplo de outros contos machadianos como “A igreja do Diabo”, de Histórias sem Data (1884) e “Um apólogo”, também conhecido como “A agulha e a linha”, de Várias Histórias (1896), pode ser lida como uma fábula, neste caso a respeito da natureza do poder e da luta para alcançá-lo.

Sem menosprezar, porém, os ensaios e resenhas que traz a revista — todos de qualidade superior —, o melhor mesmo da edição é a entrevista que o professor francês Jean-Michel Massa concedeu a Maria Claudete de Souza Oliveira no dia 13 de janeiro de 2006, em Paris, a partir de perguntas formuladas pelo professor Gilberto Pinheiro Passos. Massa, professor da Faculdade de Letras de Rennes, na França, é um dos principais pesquisadores da vida e da obra do escritor brasileiro e autor de Dispersos de Machado de Assis e de A juventude de Machado de Assis 1839-1870: ensaio de biografia intelectual.

Este ensaio, que constitui a tese de doutoramento de Massa defendida em 1968 na França, foi publicado em 1971 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, mas nunca mais ganhou nova edição. É uma raridade só encontrada em grandes bibliotecas e constitui leitura obrigatória para a compreensão dos anos de formação de Machado de Assis. Tal é a procura por este livro em cursos de Letras das faculdades brasileiras que não há explicação para o fato de que nenhuma editora tenha tido, até agora, a perspicácia de reeditá-lo.

Na entrevista, o professor lamenta que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, não tenha uma edição de sua obra completa até hoje. A melhor edição é a da editora Jackson dos anos 30, mas não reúne tudo do autor. A de Afrânio Coutinho, publicada pela editora Aguilar, diz Massa, tem centenas de erros e limita-se a três volumes, quando a edição completa deveria reunir de sete a oito.

Depois de provar que Machado de Assis não pertencia a um meio tão humilde como sempre pretendeu a crítica brasileira nem tampouco era gago ou epilético quando jovem, Massa descobriu, em Portugal, que sua mulher Carolina pertencia a uma família burguesa do Porto e foi namorada e cortejada por três poetas portuenses — Augusto Morais, Nogueira Lima e J. Cândido Furtado, que lhe dedicaram versos —, antes de mudar-se para o Rio de Janeiro. Era irmã de Faustino Xavier de Novais, igualmente poeta, muito amigo de Machado de Assis, por intermédio de quem o escritor a conheceu.

Machado de Assis era filho de uma açoriana, que morreu quando ele tinha dez anos de idade, e de um pintor de paredes, que sabia ler e assinava o Almanaque Laemmert, mas vivia na casa de uma família rica, de fazendeiros cujas terras iam do Morro do Livramento até bem depois da atual Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. Teve a proteção da proprietária, sua “madrinha”, que, provavelmente, financiou seus estudos, pois, com menos de 20 anos, escreveu um poema em francês, republicado por Massa em Dispersos de Machado de Assis (Rio de Janeiro, Ministério da Educação/Instituto Nacional do Livro, 1965).

Recentemente, saíram pela Editora Crisálida, de Belo Horizonte, dois livros de Massa. O primeiro, Três traduções por Machado de Assis, reúne textos inéditos de três peças francesas do teatro realista que nunca foram apresentadas no Brasil. O segundo, Machado de Assis tradutor, é um ensaio em que o professor retoma estudos nunca traduzidos no Brasil e produzidos há mais de dez anos. Segundo ele, Machado de Assis fez cerca de 50 traduções, das quais 15 estavam perdidas.

Massa contesta também um crítico brasileiro, Eugênio Gomes, segundo o qual Machado de Assis conhecia o idioma inglês ainda muito jovem. Para ele, essa afirmação precisa ser examinada. Machado de Assis conhecia bem o francês, como seria natural num intelectual do século XIX. Segundo Massa, o crítico, para afirmar isso, baseou-se numa tradução que o romancista fez de Oliver Twist, de Dickens, em 1870. Mas o professor francês provou que o tradutor utilizou totalmente uma das quatro traduções em francês de Oliver Twist que àquela altura estavam disponíveis no mercado. Como se vê, a entrevista de Jean-Michel Massa é imperdível para quem admira a obra de Machado de Assis.

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TERESA, REVISTA DE LITERATURA BRASILEIRA. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo/Editora 34/Imprensa Oficial do Estado de S.Paulo, nºs. 6-7, 2006, 511 págs. E-mail: teresalb@usp.br

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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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Saturday, November 21, 2009

Carlos Emílio e as órbitas celestes (Nilto Maciel)


(Nilto, Carlos e Edson Cruz, num restaurante em Fortaleza)

Havia mais de dez anos eu tentava escrever contos. Não sabia a quem mostrá-los. Meus irmãos Ailton e Edinardo – bons leitores – não faziam restrições a meus escritos. Coisa de irmãos. Eu fazia. Ensaiava outras peças. Parecia-me muito difícil aquela tarefa. Depois de centenas de tentativas, selecionei os melhores. Apenas quatorze. O restante virou lixo. Pronto o livro, Itinerário, onde apresentá-lo ao público? Nas livrarias – aconselharam-me. Não, os livreiros não aceitariam expor um livrinho pobre, quarenta páginas, de autor desconhecido. Conversei com o dono de um bar, no térreo do edifício onde eu trabalhava, nas proximidades do riacho Pajeú. O que é lançamento? Não sei também, mas quero lançar meu livro no seu bar. Garanto boa despesa, cerveja e tira-gosto. E assim se deu, num sábado, meio-dia, de 1974.

No fim da festa, todos bêbados, diversos exemplares vendidos, apareceu-me uma figura estranha, cabeluda, roupas frouxas, livro debaixo do braço. Quem é? Uma escritora inglesa. Deixe-me ver: Mrs. Dalloway. Folhei o volume. Em inglês? Sim; você não lê inglês? Não respondi, encabulado. Nunca leu Virginia Woolf? Mudei de assunto. E assim conheci o jovem Carlos Emílio.

A partir daquele dia, iniciou-se nossa amizade. Ele me mostrava (ou lia) seus contos enormes, pedia opinião (não aceitava ser contrariado; só admitia elogios). Andava, para cima e para baixo, com seus manuscritos, seus contos mais novos, que lia com eloquência, onde quer que encontrasse um amigo ou um ouvinte: no saguão do cinema, no ponto de ônibus, num bar, numa esquina. Esses maus entendedores fugiam dele, mal o viam. Meia palavra do menino representava uma eternidade. Alguns desistiam do filme, outros pegavam ônibus errados, espavoridos. Diversos bares de Fortaleza se fecharam, aos poucos. Pois, se neles se sentava o futuro escritor, logo se esvaziavam. Eu não fugia dele, porque, embora obrigado a ouvir suas leituras demoradas, terminava ganhando um bom livro. Assim conheci Faulkner, Joyce, Proust e tantos outros.

Ele não lia apenas os próprios escritos. Lia também seus autores favoritos. Abria um ensebado The Sound and the Fury e se punha a ler: “In the midst of the voices and the hands Ben sat, rapt in his sweet blue gaze. Dilsey sat bolt upright beside, crying rigidly and quietly in the annealment and the blood of the remembered Lamb”. E parecia saber de cor uns e outros. Pois muitas vezes baixava a mão com a papelada ou o livro e continuava a falar. Olhos nos olhos, os lábios quase a tocar a face do ouvinte, como se quisesse se unir ao outro, penetrá-lo, possuí-lo. E respingava de saliva o rosto à sua frente, com seu hálito bom de criança sadia.

Percebida, logo no primeiro dia, minha indigência intelectual, não passava dia sem me emprestar ou presentear livros. Conhecia todo mundo: escritores jovens e velhos, jornalistas, artistas plásticos, músicos, compositores, atores. Apresentou-me todos os grandes nomes da literatura brasileira e estrangeira. Andava sempre com uma novidade debaixo do braço: em inglês, francês, italiano, espanhol. Falava-me de escritores europeus, ibero-americanos e brasileiros que eu não conhecia nem pelo nome. Você precisa ler D. H. Laurence. Sim. Cortázar. Claro. Lucio Cardoso. Perfeitamente. E ele mos apresentava e eu os lia. E conversávamos. Precisamos sacudir a literatura do Ceará. Como? Uma revista literária.

Carlos Emílio é o verdadeiro criador de O Saco. Organizou as primeiras reuniões de escritores, em 1975, com o objetivo de se fazer algo novo no Ceará. Escreveu e publicou em jornal a “chamada geral”, convite público a todos os que se dedicavam às artes. Marcou encontros em sua casa (de seus pais). Deu as diretrizes da publicação, embora eu me opusesse a quase todas elas. Convenceu Raposo e Jackson a participarem do empreendimento. Viajou por todo o Brasil à cata de reportagens, entrevistas, colaborações.

É um romântico, embora saiba tudo o que acontece aqui, ali, nos confins do mundo de ontem, hoje e amanhã. Muita gente não o leva a sério, por não ser um cidadão comum, não ser casado com mulher, não ter filhos, não frequentar igrejas e estádios, não cortar cabelo em cabeleireiro, não andar bem vestido. Às vezes parece mendigo; outras vezes, louco. Não cumpre horários e compromissos. Pode almoçar à meia-noite, tomar café-da-manhã no meio da tarde. Comparece às reuniões após seu encerramento. Telefona a amigos, de madrugada, para ler contos quilométricos. E acha tudo normal. Tão romântico é que dois de seus sonhos mais parecem alucinações: a volta dos suplementos literários em todos os grandes jornais brasileiros e a contratação de escritores para cargos públicos. Os periódicos fariam a publicação semanal (ou diária) de contos, poemas, romances. Para ele, os donos dos jornais só têm a ganhar com isso. Digo-lhe que literatura não interessa a esses empresários, leitores de jornais não querem saber de literatura, etc. Ele olha para mim, perplexo, horrorizado, como se eu fosse um inimigo dele. No outro sonho, os governos deveriam dar aos escritores emprego público. Com bons salários, para que os escritores não precisassem mendigar empregos em empresas privadas. Nada de assinar ponto, nada de chefe. Só uma mesa, o tempo inteiro para ler e escrever. Digo-lhe que isto é imoral, ilegal e impossível. Ele fala dos mecenas. E me chama de realista. Em duplo sentido: amigo do rei e ...

Fortaleza, setembro de2009.
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Monday, November 16, 2009

Poemas de Inocêncio de Melo Filho

Ofício


Perco-me entre palavras

E sílabas inquietas.

Quando volto a mim

Sinto-me abatido.

Tu me chamas, fecho o livro,

Nego-te os ouvidos...



Sólio

Este trono de merda é só meu

Trono fétido por natureza,

Se é que tem natureza o objeto de sua constituição...

É nele que faço minhas leituras

É nele que busco palavras

É nele que busco poemas

É nele que cago e mijo.

Este trono de merda é só meu

Não o divido com ninguém

Comprei-o com meu próprio dinheiro

Finquei-o à terra usando minhas forças

Trono plebeu!

Trono fétido!

Trono verde indivisível...



Defesa

Eu sou inofensivo, senhores,

Trago enigmas fatigados nas mãos

E fartos cabelos brancos na cabeça.

Minhas pálpebras estão exaustas

E o meu olhar nega-se a contemplar

Esse mundo caduco.

Este céu que nos cobre causa-me tédio.

Mas ainda há palavras em minha boca, posso feri-los

Posso jogá-las no vácuo ou aprisioná-las

Entre as unhas.

Senhores, sou inofensivo,

Verbalizar sentimentos não significa

Um ataque,

Concretiza o medo que se faz defesa.



Insulto

Que fique na tua boca

O meu hálito fétido

Como resposta

Aos teus insultos...


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Thursday, November 12, 2009

Os primeiros escritos de Nilto Maciel

Henrique Marques-Samyn


A verve experimentalista de Nilto Maciel confirma-se através da leitura do primeiro volume de seus Contos reunidos (Bestiário, 2009), que reúne os textos publicados nos livros Itinerário (1974/1990), Tempos de mula preta (1981/2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). Autor prolífico e multifacetado, entre os méritos de Nilto está uma incansável disposição para repensar sua própria produção literária, algo que já pode ser percebido nesses primeiros textos – entre os quais merecem destaque o forte “Punhalzinho cravado de ódio”, o patético “Detalhes interessantes da vida de Umzim” e o bem urdido “Tadeu e a mariposa”.



Extraindo seus motivos de temas históricos, regionalistas ou fantásticos – não sendo incomum a mescla de elementos oriundos desses diversos campos –, Nilto Maciel é o tipo de escritor que resiste a rótulos e a categorizações. Transparece nesse pluralismo um pendor fundamentalmente comprometido com o próprio exercício da escrita: é esse um autor para quem a criação literária é uma forma de organizar e questionar o real – conquanto esse termo, no vocabulário do autor cearense, seja de difícil definição.



Reunindo os primórdios da obra de uma importante figura das letras brasileiras contemporâneas – sobretudo por sua atitude democrática, justamente destacada pela prefaciadora Liana Aragão, que por longos anos materializou-se na revista Literatura – , Contos reunidos de Nilto Maciel vem, em boa hora, ocupar um espaço de valor em nossas estantes: aquele lugar destinado às obras dos que, além de criadores, são também fomentadores da cultura brasileira.
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Tuesday, November 10, 2009

E o boi não lambe (Batista de Lima)




Gerôncio chegou vestido de treva ao armazém. No fundo do salão escuro o negro Sabiá jazia inerte e acorrentado ao pilão deitado. Verificou que o negro estava vivo mesmo depois de tanto apanhar para confessar o roubo.

Foram várias patacas desaparecidas do baú da casa grande no domingo de páscoa. Mas o negro carregador de água já confessara tudo. Só não soube dizer aonde guardara o tesouro.

No curral ao lado o touro “surubim” já escavava o chão com os chifres, após dia e meio sem comer e sem beber e passaria mais um naquele estorrico. Era preciso muita fome para enfrentar o negro. Era preciso exemplar o negro na frente dos outros.

Dia seguinte lá pelas onze o negro foi levado e amarrado nu ao mourão no centro do curral ensolarado. Seu corpo foi untado de manteiga da terra e o touro solto de suas amarras. Era um touro de mais de trezentos quilos esfomeado e sedento, sentindo o cheiro da manteiga que escorria com o suor do negro amarrado ao tronco.

O touro se aproximou, cheirou o corpo do negro, amanteigado, e deu a primeira lambida na barriga úmida. Foi o suficiente para que se ouvisse o grito do condenado e o filete de sangue escuro escorrer pelas pernas. Assim o touro quanto mais lambia a manteiga com o sangue mais parecia enfurecido com tanta fome e sede. Em pouco tempo estava o coitado em carne viva, tentando livrar-se daquela língua lâmina.

Aos poucos ia perdendo todo o sangue e a força do grito, e pendia entregue à dor, desfalecido e exangue. Os outros negros do outro lado da cerca se benziam de olhos marejados.

Na porteira do curral o patrão recebeu o delegado que chegava, avisando ter encontrado o tesouro nas mãos de um meirinho que já estava preso na cidade.
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Sunday, November 08, 2009

NOTAS POÉTICAS: TRÊS MARTES, DE DAVINO RIBEIRO DE SENA

Henrique Marques Samyn

Havendo estreado na poesia na década de 90 com Castelos de Areia, obra premiada na 5ª Bienal Nestlé de Literatura, Davino Ribeiro de Sena já mereceria algum destaque no ambiente poético contemporâneo por aliar, em sua obra, a preocupação formal à busca do lirismo, ambos comumente relegados pela maior parte dos que atualmente se aventuram pela vereda da poesia -- que confundem, geralmente, forma com formalismo e lirismo com pieguice. Distante de ambos os vícios, Davino entrega-se a um labor construtivista sem deixar de dar ouvidos à sua matéria lírica, logrando, não poucas vezes, alcançar resultados notáveis.

Três martes, sua obra mais recente (7Letras, 2004), parte de uma proposta artística tão interessante quanto curiosa: em uma espécie de fantasia semântica, tenciona o poeta versar sobre Marte enquanto planeta e enquanto ente mitológico, desvelando um terceiro Marte que seria produto dos dois primeiros. Davino pretende, por esta via, realizar uma reflexão sobre a alteridade; no entanto, sendo esta alteridade tão enigmática, a meditação acaba sendo não sobre o outro, mas sobre si mesmo e o que o cerca -- o mundo, a vida, a História, a experiência humana. O terceiro Marte torna-se, enfim, um espelho.

O longo poema segue uma estrutura fixa, com estâncias de doze versos de medidas variáveis, somando ao final mais de dois mil versos. Todavia, é nesta extensão que está sua fragilidade. Coexistem, no poema, momentos de possante força lírica -- veja-se, por exemplo, a descrição do “planeta frio”: “Nenhuma sombra, nada / que recorde a vida / no horizonte monótono / quebrado pelas dunas / de areia avermelhada / e pensar monossilábico (...)” -- e momentos em que o ímpeto criativo perde o fôlego, tangenciando o prosaísmo, o que resulta em versos que pouco se afastam do trivial -- “Um dia seremos lúcidos / mais do que lúdicos. / Misterioso não é o anjo / mas o homem com o banjo.”. É quando a dimensão contingente -- construtiva e intelectiva -- sobrepuja a dimensão lírica, esta a verdadeiramente essencial.

Davino destaca-se em meio à esterilidade lírica patente na poesia surgida nas últimas décadas justamente por ser um poeta que tem grande familiaridade com suas fontes de inspiração (o que, aliás, rendeu belíssimas obras em seu livro anterior, Vidro e Ferro, de 1999). Ainda que tais fontes se façam presentes, aqui e ali, em Três martes, o que compromete a inteireza do livro são precisamente os momentos em que a razão se faz excessiva, esvaziando o verso de seu substrato lírico. Davino procurou desvelar um terceiro Marte em meio à tensão entre o Marte-planetário e o Marte-mitológico; poderíamos pensar, analogamente, em uma tensão entre o Davino-lírico e o Davino-construtivista. É quando o último não excede o primeiro, quando ambos se harmonizam, que vemos despontar, verdadeiramente, o Davino-poeta.
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Thursday, November 05, 2009

BATISTA DE LIMA E A ARTE DE SEDUZIR (Nilto Maciel)


Nilto, Aíla Sampaio e Batista de Lima, na UNIFOR (Fortaleza, Ceará)



Meu irmão Edinardo cursava Letras na UFC, desde 1970. Falava-me dos professores e dos colegas. Porque sabia do meu interesse por Literatura. Mostrava-me livros, cadernos e trabalhos escolares. Um dia, me apresentou o colega Batista de Lima. “Ah, você também escreve? Já conhece o Clube dos Poetas?” Num sábado, tomei umas cachaças, peguei o ônibus na Bezerra de Menezes, desci na Praça José de Alencar e, sorrateiramente, me encaminhei para a Casa de Juvenal Galeno, onde se realizavam os encontros dos jovens poetas. E lá estava Batista, risonho, empertigado, bem vestido, solícito. Fez-me travar conhecimento com Carneiro Portela e outros. Não sei se (ou de quê) me aborreci. Não voltei mais à casa e, durante muito tempo, perdi o contato com Batista. Meu irmão fez concurso para a Caixa, foi convocado para assumir o emprego em Salvador e abandonou o curso. Surgiu O Saco, Batista reapareceu, perguntou por Edinardo. Pouco tempo depois, em 1979, meu irmão faleceu, em acidente automobilístico. Batista concluiu suas letras, tornou-se professor e, em 1977, publicou o primeiro livro, Miranças.

Por esse tempo, mudei-me para Brasília. Minhas amizades, no entanto, se fortaleceram, de longe. Correspondia-me com Batista e outros amigos. Acompanhava-lhes os passos como escritores. Mandava-lhes meus livros, eles me enviavam os seus. Tanto os mais velhos (Moreira Campos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Artur Eduardo Benevides e outros), como os mais jovens. Diligente sempre, o poeta, vez por outra, publicava uma resenha, um artigo, a respeito de meus livros.

Batista é um cavalheiro do sertão, na sua fala mansa de caririense, no seu jeito de tratar os outros. Elegante no vestir-se, educado no diálogo, bebedor de bom vinho, nem por isso esquece suas origens. Apaixonado pelas coisas do Ceará e, principalmente, pela nossa literatura, leva nossos livros para sala de aula. Quantos e quantos alunos (mas, sobretudo, alunas) tem encaminhado à minha casa, jovens ciosos de conhecer os escritores aqui nascidos. Chegam desembaraçados, sabedores de quase tudo, mas curiosos: “Professor Batista me pediu para ler seu livro tal. Disse tratar-se de obra-prima. Como surgiu esse romance?” Tento corresponder às expectativas do estudante e não decepcionar o amigo.

O poeta de Lavras da Mangabeira, quando tira férias, não vai conhecer a Amazônia, as cidades históricas de Minas ou a Europa. No poema “Conselho”, ele se explica: “Se queres chegar mais longe / para com tantos andares / o mais longe está aqui / perto dos teus calcanhares”). Sabem para onde ele viaja? Para países muito distantes de nós, reinos fora do mapa, como Taquari (“um sítio perdido / entre saudades e distâncias”) e Sipaúbas, onde vivem os trabalhadores dos engenhos. Sua poesia e seus contos estão repletos de povo: “Conheço este povo / porque carrego seu jeito / esquisito de dobrar esquinas / e desdobrar as dores / como se de fibras fossem”. Batista vai a Lavras para ver e ouvir esse povo e, depois, contar (ou recontar) suas histórias. Vai rever primos, tios, parentes distantes, os viventes da Serra Negra.

Ao contrário de muita gente, não anda por aí a falar mal dos outros escritores. Se não pode falar bem (da literatura), prefere se calar. Ou mudar de assunto: “E o novo livro de fulano?” Ele olha para um lado e faz outra pergunta: “Vamos tomar café?” Onde quer que o ouça, seja em palestras (sabe como poucos se comunicar com os ouvintes e os cativa, com seu humor), seja em meros bate-papos em portas de livraria, bares, restaurantes, está sempre de bem com todos. Por isso, para o Mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará escolheu como tema a obra de um escritor nascido no Ceará, cuja dissertação resultou no livro A ordem e a desordem na escritura de Moreira Campos.

E das mulheres o que ele diz? Ao contrário de muitos machistas ditos marxistas, só lhes tem elogios. Não vê nelas demônios, como muitos de nossos piedosos cristãos. São todas lindas, inteligentes, sensíveis. São todas Florbela, Rachel, Clarice, Ana Miranda, Tércia. De igual modo, ama as mulheres comuns, as sertanejas. Estão todas elas em seus poemas e contos.

Batista é um sedutor de mulheres e homens. Não há quem dele desgoste. Se há quem não se encha de admiração por sua literatura, essa pessoa certamente o admira como ser. Batista é um enamorado das palavras, de versos e prosas. É um encantador de platéias também. Quase mágico. Certa tarde, em Sobral, num auditório da Universidade do Vale do Acaraú, estivemos no mesmo palco. Falei, aos tropeços (lendo, porque não sei falar de improviso) por alguns minutos, de nossos narradores mais antigos: Oliveira Paiva, Adolfo Caminha... Os cinquenta ouvintes do início da palestra se reduziram a vinte, quando alcancei o Grupo Clã. E eu ainda pretendia falar da revista O Saco, do grupo Siriará, dos contistas novos. Olhei para a platéia. Restavam dez estudantes sonolentos. Então Batista veio em meu socorro. Sem precisar de microfone, sem uma folha de papel, de pé (eu me achava sentado, desde o início, porque as pernas tremiam), pôs-se a falar do Cariri, do povo sertanejo, de suas miranças. E logo o recinto se foi enchendo de estudantes, professores e funcionários. Passados cinco minutos, não havia mais cadeira vazia. E os aplausos ressoavam fortes, vibrantes. Pediu uma salva de palmas para mim.

Fortaleza, 1º de setembro de 2009.
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Monday, November 02, 2009

Cem anos de ficção brasileira (Adelto Gonçalves)

Houve um tempo, lá nos inícios da década de 70, em que contista bom no Brasil só podia ser mineiro. É claro que ainda há bons contistas nascidos em Minas Gerais, mas de uns tempos para cá o que se vê são grandes críticas mineiras, quase todas professoras militantes nas grandes universidades do Estado. Correndo o risco de imperdoáveis omissões, pode-se lembrar, assim de uma enfiada, os nomes de Letícia Malard, Melânia Silva de Aguiar, Maria Nazareth Soares Fonseca e Maria Angélica Guimarães Lopes, sem falar de historiadoras como Júnia Ferreira Furtado, Carla Maria Junho Anastásia, Eliana de Freitas Dutra e Adriana Romeiro.

Dessas, apenas Maria Angélica Guimarães Lopes fez carreira no magistério longe das montanhas de Minas Gerais, tendo se transferido para os Estados Unidos há várias décadas. Hoje, é professora de Literatura Brasileira da Universidade da Carolina do Sul, mas já passou pela Universidade de Pittsburgh e pela Universidade do Sul da Califórnia. É também editora da seção “O Conto Brasileiro” para o Handbook of Latin American Studies, a bibliografia bienal da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

Durante todo esse tempo, escreveu ensaios e resenhas de livros de autores brasileiros, quase sempre restrita à contística, gênero a que se dedicou, espalhando seus escritos por numerosas revistas universitárias norte-americanas que se dedicam às letras ibero-americanas, o que inclui as brasileiras. O curioso é que não tenha nunca se preocupado em reunir esses trabalhos num volume, pelo menos até a publicação de Coreografia do Desejo: Cem Anos de Ficção Brasileira (São Paulo, Ateliê Editorial, 2001), que saiu só nove depois de um apelo feito pelo escritor Manoel Lobato (1925), responsável pelo texto que cobre as orelhas do livro.

Quem já teve um livro recenseado pela professora Maria Angélica Guimarães Lopes, como este articulista1 , sabe que se trata de uma crítica de rara erudição, que constrói frases poéticas em meio a análises sofisticadas e sempre baseadas em autores de grande reconhecimento mundial, mas que, dificilmente, comparecem nas recensões que costumamos ler por aqui. Naturalmente, os largos anos de convivência no meio universitário norte-americano abriram-lhe outros horizontes, colocando-a em contato com os mais diversos ensaístas e ficcionistas das línguas inglesa e francesa. Por isso, fez vários trabalhos de Literatura Comparada, opondo autores brasileiros a seus pares de línguas inglesa e francesa, sempre com notável perícia interpretativa, como aponta o professor Fábio Lucas na apresentação.

Alguns desses trabalhos estão em Coreografia do Desejo. Um deles é o mais extenso e significativo dos 14 textos reunidos neste volume, “Estátuas esculpidas pelo tempo: imagética como caracterização em Quincas Borba e The Portrait of a Lady”, em que a mestra faz raras e percucientes comparações entre Machado de Assis (1839-1908) e Henry James (1846-1916), examinando tropos de teor metafórico usados na caracterização das principais personagens de dois romances contemporâneos de inegável valor.

Ambos tratam da influência da riqueza e posição social nas relações sentimentais dos protagonistas. Como se sabe, tanto o carioca como o novaiorquino eram admiradores do francês Honoré de Balzac (1799-1850), que foi quem levou mais longe esse tipo de caracterização.

Outro estudo, “O Banquete da Vida: Quincas Borba e O Nababo”, confronta o romance machadiano com aquele de Alphonse Daudet (1840-1897), a partir da temática da amizade traída pelo interesse, tendo como pano de fundo o império brasileiro e o francês. Em sua análise, a professora, além de ressaltar o parentesco entre as duas obras, procura mostrar o valor e a permanência do romance brasileiro em comparação com o francês.

De fato, hoje, como observa a crítica, Le Nabab, “apesar de sua pujança e sinceridade”, é pouco lido, tendo virado “peça de museu”, enquanto Quincas Borba, mais de um século de sua publicação, continua a suscitar estudos de críticos brasileiros e estrangeiros, sem contar que, freqüentemente, faz parte de listas de livros de leitura obrigatória para acesso a cursos de graduação.

Na mesma senda do comparativismo, Maria Angélica aproxima Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (1890-1954), de João Ternura, de Aníbal Machado (1894-1964), “verdadeiros filhos do Modernismo, que contribuíram para trazer a pujança necessária à prosa brasileira”. A rigor, os dois livros são contemporâneos, embora o de Oswald de Andrade tenha sido publicado em 1924 e o de Aníbal Machado em 1965. É que a parte inicial de João Ternura é de 1926-1932, tendo ficado na gaveta por mais de três décadas.

Coreografia do Desejo oferece ainda a oportunidade ao leitor moderno de conhecer duas autoras brasileiras que estão esquecidas e reduzidas a poucas linhas em obras de referência e de consulta obrigatória. Uma delas é Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), que foi mulher do escritor Filinto de Almeida (1857-1945), que, nascido no Porto, veio para o Brasil com 10 anos de idade e chegou à Academia Brasileira de Letras como um de seus fundadores. Filha de pais portugueses cultos (a mãe foi música e o pai médico e educador), Júlia de Almeida escreveu romances em que a temática era a família burguesa do Segundo Império e da Primeira República.

Embora seja acusada por José Carlos Garbuglio no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, de Massaud Moisés (org.), de carecer de “maior penetração psicológica para criar obra significativa”, é vista sob outro ângulo por Maria Angélica, que nela reconhece “perícia em manipular elementos literários com os quais entretece fios ideológicos, conservando a harmonia e incisão próprios de um romance realista bem realizado”. Seus romances A Família Medeiros e Correio na Roça, diz a professora, atestam a seriedade com a qual a autora se preocupou com a instrução feminina, única alternativa que via para a mulher fugir da submissão ao mundo masculino.

Já Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo (1852-1911), destacou-se mais como jornalista, lutando igualmente pela educação feminina, pelas oportunidades de trabalho remunerado para a mulher e, principalmente, pelo divórcio, embora não tenha sido entusiasta do voto feminino nem da incorporação da mulher à política.

O título do livro Coreografia do Desejo, que abarca um século de ficção brasileira, incluindo ainda autores modernos como Clarice Lispector (1925-1977), Oswaldo França Júnior (1936-1989), Manoel Lobato e Frei Betto (1944), vem do ensaio que autora escreveu para A Dama do Bar Nevada, conto de coletânea homônima de Sérgio Faraco (1940) publicada em 1987. Nesse texto, Faraco, um dos melhores contistas brasileiros da atualidade, a estória começa com um encontro casual em que uma mulher idosa muito maquilada e de trajes chamativos oferece a um jovem pobre e faminto, num bar do centro de Porto Alegre, os seus serviços mais íntimos, além de uma substanciosa remuneração, tudo dentro de uma conversa educada, regada a xícaras de chá.

Para a autora, o diálogo entre a velha senhora sequiosa por reencontrar o fogo da juventude e o rapaz “é também uma dança, coreografada pelo mais forte — a dama: mais velha, mais astuta e mais rica. É ela quem conduz o parceiro em direção aparentemente ignota e perigosa”. Basta uma observação como esta para se ter uma idéia da alta qualidade do trabalho analítico de Maria Angélica Guimarães Lopes.
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A COREOGRAFIA DO DESEJO: CEM ANOS DE FICÇÃO BRASILEIRA, de Maria Angélica Guimarães Lopes. São Paulo: Ateliê Editorial, 232 pp., 2001. www.atelie.com.br
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* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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Tuesday, October 27, 2009

HOMEM NÃO CHORA, NÃO É, AIRTON MONTE?

Nilto Maciel


(À direita, em pé, Airton Monte)

Um dia eu conheceria Airton Monte. Num bar, numa livraria, num encontro de escritores, numa calçada, apresentado por amigo. Estava escrito. Porque escrevíamos e morávamos na mesma cidade, não tão grande ainda. No entanto, meu ingresso na Universidade (1970) propiciou, mais rapidamente, esse conhecimento. Pois na Faculdade de Direito conheci alguns escritores (principiantes, como eu) que falavam muito bem de um estudante de Medicina – certo Airton Monte. Tinha ele pouco mais de 20 anos e pertencia ao Clube dos Poetas Cearenses, do qual foi um dos fundadores. Grupo de jovens que escreviam versos. Reuniam-se, com frequência, na Casa de Juvenal Galeno, sob a liderança de Carneiro Portela. Liam seus poemas, elogiavam-se, faziam planos, publicavam coletâneas. Com o tempo, desapareceu e, com ele, quase todos os seus poetas. Poucos deles persistiram, como Airton Maranhão, Barros Pinho, Batista de Lima, Iranildo Sampaio, Márcio Catunda, Ricardo Guilherme.

Aqueles admiradores de Airton Monte também sumiram na poeira dos anos. Nem sei por onde andam. Sei-lhes os nomes e lembro muito bem suas fisionomias. De dois deles, pelo menos: Gerim Cavalcante e Resal (Renato Saldanha), também do Clube. Eles me afirmavam: Airton tem contos maravilhosos. E perguntavam, espantados, se eu não os conhecia.

Vieram as cervejas, os amores, as decepções, as leituras, as vaidades, os sonhos. Veio a revista O Saco. Vivíamos em constante reboliço, em eterna pândega. Raposo, o chefão da revista, convidava-nos a ir quase diariamente ao seu escritório. E lá íamos eu, Airton, Jackson Sampaio, Carlos Emílio, Mapurunga e outros ouvir os sonhos mirabolantes do velho (ainda seminovo) Raposo. Entre um cafezinho e um cigarro, vinha o convite irrecusável: à noite, umas cervejas no bar tal ou no cabaré qual. Raposo ligava o Maverick azul e saíamos no rumo da perdição. Frequentávamos os melhores (mais caros) cabarés da cidade. Bebíamos o melhor uísque, comíamos a melhor carne.

Li os primeiros contos de Airton, antes de publicados nos volumes O grande pânico e Homem não chora. Contos de mestre. Senti-me reduzido à estatura de anão ou aprendiz. E o era mesmo. Em razão disso, fiz-lhe um pedido: lesse meus continhos, desse opinião, fizesse sugestões. Dias depois, ele me devolveu a papelada. Junto dela, uma carta (27/12/76). Fez alguns elogios, mas também me puxou as orelhas: “Parábola maravilhosa”; “O conto me pareceu caótico demais, sem timing, de difícil entendimento para o leitor comum”; “A precisão dos detalhes, que para mim é imprescindível num conto, me sensibilizou em demasia”; “Alguma influência de George Orwell – 1984. Moisés lembra muito afigura do Big Brother. Não gostei do conto. Se você o publicar, verá que a maior parte da crítica irá referir-se a esta semelhança e à influência de Orwell”; “O grande jantar: Este conto faz-me lembrar o filme de Buñuel – O charme discreto da burguesia – se bem que a temática seja totalmente diferente quanto ao seu desenvolvimento e ao seu final. O texto me atraiu, sobretudo pelo insólito, pela ironia sofisticada, pela distribuição segura dos personagens”; “Ícaro: O conto mais lírico do livro, de uma beleza escorreita, clara, cristalina”; “As pernas do marechal de pau: Taí, mais uma vez você envereda pelo conto satírico com muita propriedade e talento histriônico. Sinceramente, este conto, como eu já lhe havia falado antes, é digno de figurar em qualquer antologia que se faça”.

Coitado de mim, que escrevia sem conhecimento. Os escritores e cineastas por Airton mencionados na carta eu mal sabia seus nomes: Buñuel, Fuentes, Orwell, Borges. Mas isso não explica nada, porque as literaturas se imbricam. Seja como for, o que eu lia mesmo eram escritores ultrapassados, de segunda categoria, lembrados talvez em seus países. Como Pedro de Alarcon. Livros antigos, sujos, cheios de mofo, expostos nas calçadas de Fortaleza, como mercadoria velha, sem valor.

Tornamo-nos amigos. Cúmplices nas noites de cerveja e mulheres, nos manuscritos, nos sonhos. Queríamos a glória literária. Fui-me embora pra Brasília, quase inédito (um livrinho, 1974). Ele ficou em Fortaleza, inédito. Lá não fui amigo do rei, lá não tive a mulher que eu quis. E voltava pelo menos uma vez por ano, de férias. Ele, médico, frequentador assíduo do Estoril, contista elogiado por todos os críticos. Apresentava-me belíssimas mulheres, todas dele (ufanava-se disso), num ciúme de Otelo. Cuidado, bigode (ainda me chama assim), com minha namorada. Eu metia a cara no copo, sem jeito. Como competir com aquele psiquiatra famoso, aquele boêmio respeitado, aquele palrador de prosa macia?

Por carta, me falaram da criação do Grupo Siriará. Remanescentes do Clube dos Poetas e de O Saco e outros jovens. Como Oswald Barroso, Adriano Espínola, Floriano Martins, Nirton Venâncio, Rosemberg Cariri (antes A. Rosemberg) e Rogaciano Leite Filho, o papa da noite fortalezense, o organizador de eventos, o divulgador dos novos, o boêmio. Na crônica “30 anos de Siriará”, Airton explica como nasceu o grupo: (...) “corriam os idos de março de 1979, quando o Rogaciano Leite Filho, numa madrugada do Estoril, me falou de sua idéia de formar um movimento literário que envolvesse todos os novos autores do Ceará, independente de estilos, crenças, ideologias.” (...) “Numa bela e risonha manhã de domingo, o Fiat branco parou-me à porta de casa e dele saltaram o Roga e Adriano Espínola. Daí rumamos para uma reunião secreta com Oswald Barroso num pequeno sítio onde morava. Ali, entre doses capitais de cachaça e tira-gosto de piaba assada, nascia o núcleo do Grupo Siriará de Literatura. Começávamos a fazer história e sequer desconfiávamos disso. Como tudo aquilo me parecia coisa de maluco, sugeri, muito apropriadamente, que as reuniões do Grupo fossem feitas no auditório do Hospital Mira y López.”

Passados quase 40 anos, continuo o mesmo leitor dele. E cada vez mais admirado de seus contos. Mudaram algumas coisas: não vejo mais as mulheres belíssimas ao lado dele, o Estoril não existe mais, nossos bigodes viraram tufos de algodão, nossas cervejas secaram nos copos. Mas homem não chora, não é, Airton Monte?

Fortaleza, 27 de agosto de 2009.
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Saturday, October 24, 2009

Contos reunidos de Nilto Maciel

O livro será lançado em breve em Fortaleza.

Friday, October 23, 2009

A Inextricável Liturgia de um Boçal (Ilidio Soares)




Eu, Antonio Silveira, vosso criado, digo que o que mais me espanta é o seu rebolado. Ficou bom, não? Então deixa eu começar de outro jeito. Eu, Antonio Silveira, seu escravo, digo que entre o seu rebolado e a minha serventia o que me deixa doido, mas doido mesmo, é o seu jeito escrachado. E que o bom deus a abençoe e guarde, mas só pra mim, porque de sacanagens esse senhor não entende. Quer dizer, entender ele entende, mas a sacanagem dele é por carência, nunca por abundância, porque enquanto ele cintila lá no céu é você quem vaza na cama; e como hoje em dia é bom se precaver contra certas injustiças, não custa pedir que ele a abençoe e guarde. Com abundância, das coxas ou línguas, não importa, o que vale é a guarda, sobretudo a benção. Essa coisa beata, com som de harpa, mas quando bem tocada até que funciona.

E já que tocamos no tema funcionamento, diz pra mim Glorinha, por que quando você cruza os braços os seus seios estufam? Como você faz isso? Isso não é coisa de anatomia, parece mais de demônio, demônio sacana, diga-se, que não tendo mais com que me azucrinar põe seus peitos à mostra para me provocar uma exploração minuciosa, prazerosa e conclusiva, como um geólogo diante das crateras de vulcões ativos. Dois inencontráveis cerros, isolados, inesquecíveis, como uma insônia onde se repensa temas sérios ou como a primeira trepada lá pelos quinze. A estrutura deles é coisa pra especialistas, gente que passa a vida estudando núcleos, gases, cataclismos. Só no olhar vamos da terra a lua sem passar pelos chicotes gravitacionais tão incômodos para os que querem alcançar o gozo declinando das expectativas. Seus seios, Glorinha, é a minha falta de ar que, fora a porra da pressão, eu deveria passar a vida inteira tendo.

E já que tocamos no tema ter, diz pra mim Glorinha, por que você não me quer? Eu já disse, seu escracho não me incomoda, até peço bênçãos, e em toda tarde aqui no escritório eu lembro do sacolejo ronronante que sai da sala da secretária e vem dar mais trabalho aos que eu já tenho comumente. Procuro ir pra casa mais tarde, invento eventos diversos, só pra turma de lá não me encher o saco com os meus contumazes adiamentos. Quando eu a chamo pelo ramal e você diz alô, eu levito, dá um curto-circuito danado que quando eu me reconecto foi você quem me desconectou. E se isso não fora bastante ─ gostou do pretérito, tenso, né não? ─ eu mudo o rumo dos compromissos para garantir que eu vou ver seu gingado, sem interesse algum pelo trabalho, mas focado no perfil fisionômico e intransferível do seu rabo. Eu sei que você quer mais, quer que eu resolva problemas que nem os neurologistas sabem solucionar, quer que eu dê um pé na bunda da Olga, mande a Laura e o Rodrigo procurarem outro pai porque esse aqui já tem dono e adora invencionices que a mãe deles nunca soube criar. Veja, não é bem assim. A Olga é boa mãe, boa marida, tivesse mudado de lado eu diria que a Olga é um baita macho para sustentar essa merda toda de rebolado, adiamentos, faltas e aleivosias. Mas acontece que ela só é sustentável no dia seguinte, no dia posterior ao da Glorinha, do seu rebolado, do escracho e de nossa sacrossanta putaria.

E já que tocamos no tema, diz pra mim Glorinha, ô, saco! Tem alguma importância eu comer a Olga ao longo do mês apenas alguns dias? Sabe, eu às vezes acho que você desliga o telefone pela manhã só pra partir prum tudo ou nada irritante a fim de definir logo o dia. Esse sujeito é ou não é meu? Veja, a coisa não funciona bem assim. Primeiro precisamos definir a quem pertence o rebolado. O escracho e o rabo são seus, não resta duvida, mas o rebolado é pra quem? É pra mim, pro Silvério, pro patrimônio dessa companhia, seu Isidoro, enfim, pra quem você rebola enquanto eu invento histórias sem compromissos com o fim? Se for para mim, veja Glorinha, todo envolvimento supõe fuga, seja da Olga, da Laura ou do Rodriguinho, mas sempre há fuga. Pelo menos do colchão que denuncia facilmente o evadido. É sério. Da perplexidade física com os vulcões, desfeita quando se atinge o ridículo de uma rotina, sinceramente Glorinha, os vesuvinhos da Olga até que não são ruins. E não veja nisso qualquer demérito, os seus são colapsos insistentes, como o seu rebolado, que antecipa uma distribuição equânime do corpo e desorganiza qualquer ser vivente. Mas fugir, fugir mesmo, eu não fujo. Eu, Antonio Silveira, afirmo que apesar do seu rebolado, do escracho que é a marca do seu perfume, com a mente altiva e numa prece onde eu só encontro graças, digo não se preocupe, pois eu sou você amanhã, pelo menos na subserviência, do seu sempre e inesquecível Antonio Silveira vosso criado.

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