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quinta-feira, 10 de julho de 2014

TEXTOS EM HOMENAGEM AO ESCRITOR NILTO MACIEL

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O DIÁRIO DE NILTO MACIEL: CADERNOS DE ATREVIMENTO (João Carlos Taveira)




Acabo de ler o diário de Nilto Maciel. Trata-se de anotações críticas sobre literatura, sem prejuízo, no entanto, de confissões e questionamentos pessoais. Os cadernos compilados em Menos vivi do que fiei palavras (Editora Penalux, 2012), sem nomeação de dias e meses, estão datados de 1986 a 1992, período em que o autor de Vasto abismo ainda vivia em Brasília. Pelo que declara em algum trecho, abandonou de vez o exercício desses apontamentos. Não quer mais saber do assunto. Publicar os velhos compêndios em livro já lhe custou grande esforço, muita coragem. Basta!

Ao contrário de Nilto Maciel, sempre li diários. Tenho gosto pela vida alheia, quando esquadrinhada pelo próprio autor. Primeiro foi Kafka. Depois, Sérgio Milliet e alguns outros escritores. Aprecio esse exercício catártico, às vezes auto-imune, de exposição consciente. O diário de Anne Frank, por exemplo, deixou forte impressão na minha juventude, na minha vida, tanto quanto as anotações de viagem de Hermann Hesse e Graciliano Ramos. Isso sem falar nas biografias, naquelas páginas em que se revelam particularidades e pormenores da vida de uma pessoa tão distante de nós.

Também tive arroubos confessionais destilados em cadernos escolares. Ou em folhas avulsas. Coisa de 20, 30 anos atrás, que dificilmente irei publicar. Há outras prioridades. Mas, neste momento, não pretendo me imiscuir naquilo que abandonei faz tempo. Agora basta a utilização da primeira pessoa, com interferência direta. Prática que às vezes abomino e condeno. Exceto em romances e contos, que não escrevo. E em situações como esta, previamente pensada.

O escritor Nilto Maciel, já analisado por mim diversas vezes, é dos mais profícuos da moderna literatura brasileira. Percorre todos os gêneros, sempre com o mesmo perfeccionismo que o identifica desde Itinerário, publicado em 1974. Isso talvez decorra do seu apreço pelos livros e, sobretudo, da constância do hábito de leitura. Nilto escreve bem, lê bem e sabe analisar uma obra literária como poucos. Seu estro não tem limites. Fato esse, aliás, conhecido por todos aqueles que leem seus escritos. O elogio, a essa altura, já se tornou lugar-comum.

Pois bem. Menos vivi do que fiei palavras consegue atingir uma culminância estilística de fazer inveja. O tratamento vocabular e a estrutura frasal são notórios, considerando-se a perfeita simetria da construção verbal. A linguagem é rica e expressiva, sem ser piegas ou ultrapassada. (Há, entre nós, autores que escrevem como se estivessem no século XVIII ou XIX.) O vocabulário empregado confirma altos conhecimentos lexicográficos, sem nunca perder o foco do fato ou do objeto narrado (descobri uma palavra que não conhecia: copelação.). E a temática, variada, é das melhores para um leitor escritor: livros, autores, casas editorais, academias, associações, sindicatos, além da exposição crua de certos indivíduos e suas veleidades, mesquinharias, ilusões e desilusões de toda sorte.

Como já mencionado, o grosso das notas se acomoda em considerações críticas (nem sempre favoráveis) sobre romancistas, contistas, cronistas, jornalistas, poetas, artistas plásticos, et alii. Poucos escapam da mirada corrosiva de Nilto Maciel, que, noblesse oblige, não deixa de lado fatos miúdos de sua vida privada. Às vezes transpira e goteja partículas de medos, de dúvidas, de incertezas, para entregar-se inteiro ao ato de contar histórias, agora reais, presenciadas no cotidiano de uma vida cada vez mais medíocre e, às vezes, sem sentido. (O desconforto do supranormal neste mundo é gritante.)

Menos vivi do que fiei palavras faz-se porta-voz também de sustos e inquietações, de aventuras e desventuras do cidadão Nilto Maciel — homem comum, que trabalha, dirige automóvel e tem obrigações sociais a cumprir. Consigna, por outro lado, uma visão de mundo extraliterária (choro de criança, casa pequena, aparelho de tevê ligado, pessoas dormindo na sala, etc.). Espécie de sombra a encobrir o criador e, por contingência, dificultar o seu trabalho, toldar a sua solidão produtiva. Nesse vaivém de símbolos e signos, a realidade se impõe e ameaça o universo que lhe diz respeito, dentro de uma imagística estritamente pessoal. E tudo é motivo de dor, angústia, sofrimento. Produzir literatura já não basta. É preciso extrapolar a ficção e confiar a um interlocutor silencioso o seu desassossego, as suas contradições. Poder abrir-se, sem temor ou reserva, à confidência. Contar de suas andanças à caça de editor, dos novos livros adquiridos, de suas reuniões sindicais, de suas decepções com a vida lá fora, enfim.

E, assim, as leituras e apontamentos vão abrangendo textos produzidos em outras línguas e idiomas. Autores de vários países, embora “traduzidos” e “incompletos”. Todos eles companheiros de jornada. Por outro lado, volta-se para a província e não se faz de rogado, nem de bonzinho. Denuncia o poeta idiota e pedante, que não lê poesia e se julga um novo Cruz e Sousa. O romancista que não consegue se livrar da incompetência, da falta de talento, e insiste. A escritora de infantojuvenil que não consegue distinguir crônica de conto. E canta e decanta certa poetisa — mulher belíssima e sensual —, mais pelas formas do corpo do que pelos versos.

Mas o livro, para júbilo de quem realmente ama e conhece o mundo das letras, traz no seu corpo de celulóide e sonho uma face bem peculiar do autor de A rosa gótica: o compromisso com a arte e o resultado de leituras e releituras dos clássicos e dos não clássicos. Ali estão reunidos testemunhos sinceros de quem mais fiou palavras do que viveu. Nilto Maciel entregou-se à literatura de corpo e alma e fez dela um sacerdócio. E esse exercício permanente faz do nobre filho de Baturité “um feiticeiro” que jamais será “devorado pelo próprio feitiço”. Porque, se a vida é sonho, morrer é continuar sonhando.

Brasília, 12 de dezembro de 2012.

* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, e tem vários livros publicados.
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PARA NILTO MACIEL (O Poeta de Meia-Tigela)




Escrever por quê? Para me saber
menos só. Menos só para quê? Para
me dizer mais jardim, menos saara
(e no entanto o deserto em meu dizer)
Escrever por querer sair de mim:
para me saber comunicativo
(e no entanto me sei comum cativo
do deserto que sou: Não e não, sim)
Escrever para escrever escrever
(e no entanto esse não-dizer que paira
em mim, em minha fala como espanto,
em meu querer sair de mim: mais ser)
Escrever (e no entanto a fala avara
em mim, em meu dizer: esse no entanto
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- Sobre O Poeta de Meia-Tigela, acesse

Nilto Maciel revisitado* (Batista de Lima)




Sânzio de Azevedo me telefonou à tarde de 30 de abril último para anunciar a morte de Nilto Maciel. Já não bastava a aflição da Declaração do Imposto de Renda, no seu último dia. Havia prenúncio desde cedo, com Fortaleza engasgada de carros que não se moviam. Inacreditável tão fatídica notícia sobre alguém tão presente na nossa vida literária, sobre um líder entre gerações de escritores de 1970 até hoje. Talvez só parelha com Rogaciano Leite Filho, que, mesmo assim, teve uma morte mais ou menos convivida. Nilto sempre foi surpreendente, em Fortaleza ou em Brasília, em que residiu por três décadas, estava rodeado por escritores, falando pouco e dizendo muito.

Nilto Fernando Maciel nasceu em 30 de janeiro de 1945 em Baturité, cidade em que fez seus primeiros estudos. Ainda adolescente já estava em Fortaleza para estudos mais avançados que o levariam, com o tempo, a ingressar na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Como advogado candango chegou a Brasília, enquanto aquela cidade ainda adolescia, e por lá ficou trabalhando no Tribunal de Justiça até quando aposentou-se e retornou para Fortaleza. Tanto na Capital Federal quanto na Capital Cearense, engajou-se no mundo da Literatura como notável narrador e também como organizador de grupos literários e periódicos de vasta repercussão nacional.

Fui apresentado a Nilto Maciel em 1971, pelo seu irmão Ednardo, que como eu, fazia Letras, curtia literatura e frequentava o Restaurante Universitário. Ednardo faleceu em um acidente automobilístico e a amizade com Nilto ampliou-se quando ele, ao lado de Jackson Sampaio, Carlos Emílio Correia Lima e Manoel Raposo fundaram a revista O Saco de que éramos curtidores assíduos. Sua ida para Brasília parecia que ia quebrar esse vínculo afetivo. Acontece que em 1979, com o surgimento do Siriará, grupo literário com mais de duas dezenas de escritores, estávamos de novo batalhando juntos pela Literatura Cearense.

A distância entre Brasília e Fortaleza não impediu de Nilto atuar no novo grupo literário, principalmente lá fora, na divulgação do que fazíamos aqui. Qualquer feriado, período de férias e final de ano, estava o companheiro conosco em reuniões literárias e noitadas no Estoril. Era um boêmio de poucas palavras e muitos goles, no entanto, sempre comedido, parceiro e fraterno. Qualquer um de nós quando íamos a Brasília, era festa na certa. O Bar Macambira era local de reunião de confrarias literárias. Ali se reuniam poetas, políticos, leitores e boêmios em papos e doses que varavam a noite.

Ao se aposentar, Nilto Maciel retornou em definitivo para Fortaleza e dedicou-se exclusivamente à Literatura. Aqui, nessa nova fase, transformou-se em verdadeiro guru das novas gerações de escritores, sem esquecer as antigas. Circulava com desenvoltura entre remanescentes do Grupo Clã (década de 1940), Grupo dos Concretos (década de 1950), Grupo SIN (década de 1960), Grupo Siriará (década de 1970) e estava sempre cercado de jovens escritores que se tornariam revelações de nossa Literatura como Pedro Salgueiro, Dimas Carvalho, Cândido Rolim, Hermínia Lima, Aíla Sampaio, Tércia Montenegro, Raymundo Netto e muitos outros.

Aliás, foi Raymundo Neto quem primeiro tomou conhecimento de sua morte. Afinal, há dias ele não atendia telefonemas e estava descumprindo o compromisso literário com a UVA (Universidade Vale do Acaraú), em Sobral, em evento sobre a Literatura Fantástica no Ceará, em que seria um dos palestrantes. Não seria a primeira vez que Nilto Maciel falaria para estudantes de Letras em Sobral. Lá estivemos, tempos atrás, com o mesmo objetivo e foi visível o sucesso de sua fala. Também estivemos em missão similar em Aracati e em várias oportunidades em Fortaleza.

Nilto Maciel é autor de doze livros de contos, nove romances, três coletâneas de ensaios e mais três livros de crônicas memorialísticas. Descendente da estirpe da família Maciel, de Quixeramobim, um de seus ancestrais é Antônio Conselheiro, líder do episódio épico de Canudos. Talvez esse DNA o tenha tornado um escritor cultivador do fantástico, conhecido nacionalmente. Seus livros trazem o selo de editoras locais, de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Há deles traduzidos para outras línguas e pelo menos um transformado em filme. Sua mais recente publicação foi "Sôbolas manhãs" que me foi enviado 20 dias antes de sua morte.

De 1992 a 2008 Nilto Maciel editou e distribuiu "Literatura: Revista do Escritor Brasileiro", em mais de trinta números. Dada a nossa amizade, sempre publicava meus textos, a ponto de me orgulhar de estar presente em todas as edições. Sempre o correio me trazia dez exemplares de cada número. É por isso que sua partida inesperada traz um vazio imenso para nossas letras. Deixa órfã uma geração de jovens escritores que o tinham como referência e põe em alerta os da sua geração que o admiravam tanto. É que essa vida é traiçoeira e que esse seu mais recente livro em vez de "Sôbolas manhãs" se afigura aos nossos olhos como "Sôbolas tardes". Nossa geração Siriará já ultrapassou o meio dia.
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* Originalmente publicada no Caderno 3 do Diário do Nordeste. Clique "aqui".
- Sobre Batista de Lima, acesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Batista_de_Lima.

Quem terminará as tarefas do morto?* (Pedro Salgueiro)



Quem completará as inadiáveis tarefas do morto? Quem acabará de arrumar sua penúltima mala, na qual só faltava uma camisa engomada, já que a calça de brim jazia bem dobrada ao lado da pasta com o fecho aberto até quase a metade (por onde dali a pouco ele enfiaria o discurso de abertura de um congresso macabro).

Quem terminará de pôr sua derradeira postagem na página que era seu barco, sua âncora, sua tábua de salvação de náufrago sem remissão? Qual dos amigos postará um primeiro e o último comentário póstumo, com a bendita insulina do elogio fácil que tanto azeitava o parco sangue do morto?

Quem de nós, amigos de sempre e os ausentes, aparará pela última vez as unhas tortas do morto; qual deles se sentará desconfortável no sofá puído, sobre a velha toalha com emblema gasto do glorioso “Tricolor de Aço”, que tanta tristeza vinha trazendo ultimamente ao finado?

Quem completará o último romance do corpo magro e putrefato que jaz inocentemente estendido no pequeno corredor entre o banheiro, o quarto de dormir e a sala?

Quem ouvirá de sua boca minúscula que aquele seria seu Ulisses, seu canto de cisne, sua última e mais perigosa jogada: depois da qual não se sustaria pedra sobre pedra do que imprudentemente escreveu antes?

Quem da famigerada corja dos companheiros de copos, de colegas de geração, de novos e velhos parceiros de penas, escutará suas derradeiras idiossincrasias, seus restantes insultos velados, suas últimas indiscrições escritas?

Quais dos ouvidos singelos, limpos e sempre disponíveis, escutarão suas reles blasfêmias de ateu reimoso, seus vãos arrependimentos, suas dolorosas lembranças de infância, por onde desfilarão – irremediavelmente sumidos – seus pais, tios, irmãos, todos mortinhos covardes que o foram deixando sozinho pelos pedregosos caminhos da vida?

Quem dentre os muitos companheiros de vida ecoará pelos ventos suas iras, sonhos, amores, dissabores, langores, sussurros e preces?

Quem raspará a rala barba diária do morto, quem cofiará com seu modo único o velho bigode aparado tão baixo, discretamente escondendo o riso cínico, a impune maledicência, os dentes finos trincados de dor?

Quem dentre os já mortos o vai auxiliar no profundo estudo da geologia dos campos santos? Quais dos Josés, Aírtons, Edinardos, Aldas, Alcides, o ajudarão a aparar as raízes desse imenso “mato baixo” que somos no fundo todos nós que por aqui restamos?

Quem editará seus livros esquecidos, os quase concluídos e – principalmente – os que ainda seriam escritos? Quem os postará nos correios para os tantos admiradores desse Brasil tão grande? Quem receberá, por sua vez, a enorme quantidade de livros que lhe enviarão todos os novíssimos poetas desse país gigante?

Quem vai restaurar os derradeiros filmes, fotos e lembranças de vida para mostrar no moderno projetor, que ele havia acabado de comprar e posto no quarto para presentear as quatro filhas quando elas aqui por ventura aportassem?

***

Não! Não! Senhores! Um morto assim não deveria morrer tão cedo, pois ele ainda tinha diversas coisas a fazer, bastantes (e inadiáveis) tarefas para completar...

E muita, muita vida ainda por viver!

“Demorou dias a agonia de Ascânio Bustamante Coimbra. Vomitava versos, retorcia-se na cama, agitado, febril, voz sumida. E finalmente expirou, translúcido como a evidência, magro, quase ossos, e a pele manchada de letras.” (Nilto Maciel – do conto O translúcido Ascânio).
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* Crônica publicada no jornal O Povo, em 10/05/2014 - clique "aqui".

quarta-feira, 9 de julho de 2014

SÔBOLAS MANHÃS* - Homenagem a Nilto Maciel (Horácio Dídimo)




Sôbolos rios que vão
Camões


Sôbolas manhãs que vêm
Como os rios desta vida
Que agora trazem também
Repentina despedida

Sôbolas  manhãs de quem
Nos deixa bem definidas
Formas  que expressam tão bem
Nossas breves sobrevidas

Sôbolas manhãs do além
Voa Nilto Maciel
Para o céu dos escritores

A luz da sua escritura
É palavra que perdura
E  azula todas as cores

:::Exercícios de admiração
     Horácio Dídimo

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*MACIEL, Nilto. Sôbolas manhãs. Porto Alegre: Editora Bestiário, 2014
Cf. MACIEL, Nilto. Luz Vermelha que se Azula. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2011
- Sobre Horácio Dídimo, ver o link: http://pt.wikipedia.org/wiki/HorácioDídimo

sábado, 3 de maio de 2014

Aviso




Como a página arquivo ainda está em construção, sugerimos ao visitante ir na barra lateral e procurar o arquivo natural do blog para acessar suas postagens.

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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Nilto Maciel - Eternamente!




Em 2010, acompanhando o blog Literatura sem fronteiras, pensei: “Um escritor como Nilto Maciel merece uma mídia melhor, um espaço mais bonito, mais funcional.”. Este blog era o que nós blogueiros chamamos de um “trambolhão”. Não em seu conteúdo, que sempre foi um luxo, mas em seu layout, em seu visual. Até aquele momento era.

Aí tomei coragem e enviei uma mensagem ao Nilto. Assunto: sugestões técnicas de como deixar o blog mais embelezado, mais funcional, mais atraente. Eu nunca havia falado com ele. E recebi uma resposta que me surpreendeu: sem fazer ideia de quem eu era, enviou-me o login (uma conta no Gmail) e a senha do blog! E me disse, mais ou menos, assim: “Faça aí o que puder!” E eu fiz. Dei uma geral no layout, criei páginas, enfim, melhorei o visual e algumas funções. Tudo na camaradagem. Ele gostou e me disse que seus amigos também gostaram. Senti-me satisfeito, pois estava contribuindo com o que eu sabia, para que a mídia de um dos mais interessantes escritores do Ceará tivesse mais êxito em sua meta.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Manoel Bomfim e o antilusitanismo (Adelto Gonçalves*)

                          
                                                                 I
Por que ler (ou reler) Manoel Bomfim (1868-1932) quase um século depois? Porque, entre outras razões, esse médico, historiador, psicólogo e professor, nascido em Aracaju, foi um dos primeiros a pensar o Brasil. Por isso, ao reeditar pela primeira vez O Brasil na História: deturpação das tradições, degradação política, escrito em meados da década de 1920 e publicado em 1930, a Editora PUC-Minas, em parceria com a Editora Topbooks, presta um relevante serviço à História e à Cultura do País.

Podemos discordar de muitas ideias de Bomfim, que, naturalmente, como todos nós, foi escravo do “espírito do tempo” (Zeitgest), de que dizia Hegel (1770-1781), como bem observa a historiadora Mary Del Priore na apresentação que escreveu para esta segunda edição do livro, mas não deixaremos nunca de nos solidarizar com ele em suas observações sobre o Brasil de sua época, como resultado de três séculos de colonização e 67 anos (de 1822 a 1889) de um Império que pouco mudou os costumes e práticas colonialistas e uma República que, nascida sob o tacão de militares, em iniquidades não tem ficado atrás do regime monárquico.

Tal como hoje, éramos uma nação atrasada, com uma parcela majoritária da população mergulhada no analfabetismo – hoje, diríamos analfabetismo funcional –, bucha de canhão para os conflitos que as oligarquias arrumavam e até para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), além de mão de obra praticamente escrava (ou neocrava) e desqualificada para o trabalho no campo e nas grandes cidades que então se formavam.
                                                                 

II

Anglófono, Bomfim via em Portugal toda a fonte do mal que assolava o Brasil. Dizia que, antes da expansão colonial, “a burguesia de Londres havia abatido o mais formal no poder da coroa”, entendendo que a revolução liberal de 1689 havia acabado com os restos de privilégios da aristocracia inglesa. Por isso, segundo ele, ao contrário de Portugal, onde a aristocracia continuou a usufruir de todos os privilégios sobre a uma massa ignara – reduzida a se resignar com as migalhas que os chamados nobres mandavam atirar aos porcos ou a emigrar –, a Inglaterra não se degenerara, construindo um regime de estado “o mais livre no mundo moderno”.

O antilusitanismo de Bomfim é tão acendrado que, para ele, os 60 anos do Portugal espanhol constituem o período de formação essencial do Brasil. “Mas, inacabada essa formação, quiseram os fados que houvesse um Portugal restaurado, para viver exclusivamente desta colônia. E esse Portugal, de mercantis degradados, entregue à saudade má dessas Índias perdidas; esse Portugal, a projetar sobre o Brasil a sombra sinistra do seu declínio, deu-nos todos os males de uma vida estiolada, fora dos estímulos em que o Ocidente se refazia”, escreveu.

Desta sorte, segundo ele, era o Brasil distorcido da sua marcha natural – “acorrentado ao cadáver de uma nação que, mesmo em glória, nunca fora uma civilização completa”. Para Bomfim, “menos que Roma em face da inteligência grega, Portugal não teve energias para outra coisa além das suas conquistas de comércio”. Mais adiante, disse: “Negreiro, escravocrata, absolutista, bragantista, liberal, cortista, monarquista... o português encarnou, em todas as crises, o renitente inimigo do Brasil, empenhado em mantê-lo na mesquinha situação que o obrigue a servir de pasto ao mercantilismo de parasitas obsoletos”.

Só que, mesmo depois do afastamento dos Braganças do poder, os brasileiros – leia-se aqui: os donos do poder – continuaram roubando, extorquindo, manipulando eleições e enriquecendo com o trabalho neoescravo, mantendo a “lôbrega e mentirosa democracia” da Primeira República (1889-1930) em que Bomfim viveu ao final de sua vida. E, depois, com o conturbado e fascistizante período getulista (1930-1945), pouco mudaria, ainda que tenham sido dados alguns direitos aos assalariados miseráveis, mais por imposição dos tempos do que por vontade de reformar efetivamente o País. Sem contar a tragédia que constituiu a ditadura militar (1964-1985).

III

Bomfim não via mérito nenhum nos aventureiros lusos que, com Vasco da Gama (ca. 1460-1469-1524), avançaram em direção às Índias e que, de passagem, se viam alguma ilha desprotegida, desciam para fazer a pilhagem. Dessa forma, Luís de Camões (ca. 1524-1525/1580) teria exagerado ao lhes louvar os feitos mercantis, a ponto de hiperbolizá-los, ao escrever que, “se mais mundo houvera, (o homem lusitano) lá chegara”. Mas, ao mesmo tempo, vê patriotismo nos paulistas dos séculos XVII e XVIII que se embrenhavam nos matos para matar ou escravizar indígenas, tornando-se também o “terror dos espanhóis” e avançando os limites do Tratado de Tordesilhas, a tal ponto que, se não houvesse a Cordilheira dos Andes, o Brasil talvez hoje tivesse também saída para o Pacífico.

IV

Bomfim, em seu desabrido antibragantismo, deixa de ver a ação da miséria humana nos grandes acontecimentos, como se todos os reinóis fossem maus e todos os nascidos na América portuguesa bons. E não percebe que, no movimento de 1789, eram as mãos dos arrematantes de contratos João Rodrigues de Macedo e Joaquim Silvério dos Reis que moviam os cordéis da conjuração, aqueles que mais lucrariam com a separação de Minas e das capitanias que pudessem aderir ao movimento, pois, como grossos devedores, ficariam livres das dívidas, que haviam acumulado ao deixar de repassar para os cofres da Coroa os impostos que arrecadavam em nome dela. Depois de por anos dividir com os governantes os cabedais que seriam do Reino, como dizia Critilo, alter ego do ouvidor Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ao denunciar (e trair) o ingênuo Tiradentes e outros, pulando para o outro lado da cerca, Silvério acabou por conseguir o que mais queria: livrar-se das dívidas...

Para Bomfim, a independência de 1822 também não passou de um arranjo entre as elites, ficando o País “sob o governo de legitimíssimos (sic) representantes da metrópole”, sem nenhuma alteração no pessoal do Estado. Para ele, a independência não passou de escamoteação em favor dos Braganças e dos portugueses em geral, não sendo, portanto, o natural desenvolvimento da nossa evolução nacional, senão um atentado contra essa mesma evolução. Em outras palavras: “o Estado do Brasil foi organizado com a nata dos canalhas e ineptos, de que se compunha a degradada classe dirigente do Portugal de 1808”.

Como se vê, é preciso algum cuidado ao ler Bomfim hoje, pois só se pode fazê-lo com os olhos de ontem. E relativizar tudo o que escreveu porque, afinal, os ladravazes do Império nada mais foram do que precursores dos ladravazes da República. Foram tantos os ladravazes e tamanha a fúria com que avançaram (e avançam) sobre as burras públicas que não sobrou espaço para se exercer nos séculos XX e XXI um capitalismo menos selvagem, ao contrário do que se vê nas nações mais desenvolvidas. Hoje, o antilusitanismo de Bomfim não procede porque, guardadas as devidas distâncias, o que construímos foi um imenso Portugal.

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O BRASIL NA HISTÓRIA: DETURPAÇÃO DAS TRADIÇÕES, DEGRADAÇÃO POLÍTICA, de Manoel Bomfim. Prefácio de Ronaldo Conde Aguiar. Belo Horizonte: Editora PUC-Minas; Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 486 págs., 2013, R$ 63,90. E-mail: editora@pucminas.com.br                                                                                                                                            
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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terça-feira, 22 de abril de 2014

Do Pici ao Quinze (Nilto Maciel)



(Casa onde viveu Rachel de Queiroz, no Pici)




Ganhei de Pedro Salgueiro livrinho (pocketbook) de capa originada de fotografia, cerca de 80 páginas, impresso em Fortaleza. Intitula-se Pici: dos velhos sítios à periferia. Não fosse o subtítulo (ausente na capa), o leitor de fora do Ceará jamais imaginaria Pici como nome de bairro. O povo da capital cearense, porém, sabe muito onde se situa essa parte da cidade. O entendedor de futebol terá outro motivo para falar dela: No Pici está localizado o estádio do Fortaleza Esporte Clube, o grande rival do Ceará Sporting Clube.

Li-o de uma assentada, tão gostoso é. Não por ser também apaixonado por nossa ‘loira desposada do Sol’, nem por ser torcedor do Tricolor de Aço. O danado do livro nos prende desde a primeira linha: “O Pici é um bairro que está localizado na zona oeste da cidade de Fortaleza, capital do Ceará”. Frase ordinária, é verdade. Linguagem de geógrafo ou urbanista. Mesmo assim, o leitor se sentirá atraído pelo relato. Pois são raras as manifestações ‘literárias’ de exaltação à nossa metrópole. Quase todos os críticos da urbe cearense só se sentem realizados quando pintam, com tintas sujas ou pincéis rombudos, a maior ou segunda mais populosa cidade do Nordeste brasileiro.

Lido, pu-lo nas mãos de Maria Eduarda Ardire. Quem é ela? Resumo a história dela comigo: Primeiro recebi mensagem curta, nestes termos: “Oi, Nilto Maciel. Tenho lido suas brincadeiras no blog literaturasemfronteiras. Nunca deixo de cair na gargalhada. Queria tanto conhecê-lo”. Imaginei-a com cerca de 50 anos, um pouco além disso, menos de 80; separada recentemente; aposentada de órgão público; solitária etc. Tudo asneira minha, tudo preconceito. Aparenta 20 anos de idade, não tem namorado, nunca trabalhou, vive com os pais e três irmãos, adora praia, balada e toda a liturgia da juventude de hoje.

Uma tarde, veio me ver, fomos da literatura ao teatro, do cinema à música, viajamos, sonhamos. Ainda na parte da manhã, dera por encerrada a leitura de Pici. “Se quiser, é seu. Por alguns dias”. Levou, leu e voltou. E, na segunda visita dela ao meu rancho, passei a me estender naquelas doidices de ‘frases ordinárias’ e ‘linguagem de geógrafo’.
           
        Impacientava-se a moça com minha lengalenga: “Afinal, trata-se ou não de romance? O senhor se referiu a estilo de geógrafo ou urbanista. Consiste, então, num ensaio histórico?” “Não, nada de estudo científico”. “Então é reportagem?” “Também não”. 

             Levantei-me da cadeira de balanço e arrastei os chinelos até a cozinha, a fim de beber água. De lá mesmo gritei: “O modelo seria o da crônica histórica”. “Será?” Voltei à sala: “A frase excessivamente presa à gramática, protocolar, burocrática não é a tônica da obra. Também não apresenta Pedro dicção debochada ou humorística (tão utilizada por jornalistas engraçados). Quando evoca a si mesmo, fá-lo como pesquisador e repórter (sem sê-lo)”. “E como testemunha?” “Não, ele não participou da evolução da localidade. Sendo assim, a intenção dele (bem realizada) foi ‘contar’ a origem do nome e do bairro, as transformações impostas pelos homens e as realizações de seus primeiros povoadores e proprietários. Além de alguns habitantes especiais, a exemplo de Rachel de Queiroz. Pois se deu lá, na casa por seu pai construída, a elaboração de seus dois primeiros romances”.

Sem cerimônia, a aprendiz de leitora me pediu água. Deixei de lado o opúsculo e me dirigi, de novo, à geladeira. Da cozinha bradei: “Aceita Coca-Cola, cerveja, uísque, cachaça ou cajuína?” Ela não me deu ouvidos e provocou: “Se a gente espremer bem esse objeto, talvez não encontre nem 30 páginas do punho de Pedro. Parte é de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez) e Sânzio de Azevedo, além de Alfredo Weyne, José Liberal de Castro, Rachel de Queiroz, sua irmã Maria Luíza, e memorialistas e cronistas menos conhecidos”. “Isso é muito natural em texto elaborado de acordo com escritos de diversas raízes. Se fossem memórias, possivelmente seria lícito cuidarmos de excesso de citações. Além de tudo, Pedro Salgueiro nasceu em 1964, na pequena Tamboril, e conheceu Fortaleza no início da juventude. O Pici teria se originado do Sítio Pecy, existente desde o século XIX”.

Irritado, fui ao banheiro, sem pedir licença à jovem. Voltei daí a três minutos, completamente ensopado de água fria, da cabeça ao peito. “Meu Deus! O senhor tomou banho?” (Mal acabara de me conhecer, e já me dava tratamento de velho conhecido, em deslavada intimidade). Agarrei a brochura, sem pensar em resposta: “O charme dela se acha exatamente nesse amálgama: informações colhidas em narrativas e depoimentos de antigos habitantes do bairro e pesquisadores vivos, como Nirez”. “Não precisava transcrever seis páginas das memórias de Rachel e Maria Luíza, além de quase todo o conto ‘Tangerine-Girl’”. Fechei o volume, com raiva, e, por pouco, não berrei: “Discordo de sua opinião, menina. As informações contidas em Tantos anos, das irmãs Queiroz, são fundamentais. O conto de Rachel é, quiçá, a única peça literária, de alto valor, a dar ao Pici a condição de lugar onde se desenrola trama aparentemente simples – ilusão e desilusão de uma adolescente. Além de ser composição de fina tecelaria”.

Prestes a me arrepender de ter convidado a estudante a vir à minha residência (“Após a leitura, traga-mo. Conversaremos sobre ele”), bebi alguns goles de água, sosseguei e falei baixinho: “Você deve ser menos exigente, garota. Para você, escrever parece fácil”. “O senhor acha difícil?” “Tão penoso quanto viver no sertão, em tempo de seca”.

Ao se preparar para ir embora, Maria Eduarda me perguntou se eu poderia lhe emprestar O Quinze. “Promete ler e devolver em quantos dias?” Ela pensou e sorriu: “Em quinze. Está bom assim?”

Fortaleza, 18 de abril de 2014. 

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