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sábado, 28 de janeiro de 2006

Anderson Braga Horta, cultivador de enigmas (Nilto Maciel)


(Anderson Braga Horta)

A vasta fortuna crítica de Anderson Braga Horta demonstra a sua importância dentro do panorama da Poesia Brasileira. Sua obra vem sendo construída lenta e serenamente, como deveria ser a construção da obra de todo escritor. Talvez a sua mineiridade o ajude a ser assim sossegado, sem açodamentos.
A poesia de ABH é escrita sob medida. Como as roupas feitas pelos alfaiates. Não é obra de fábrica, resultante do labor de mãos apressadas, do mover-se científico das máquinas computadorizadas. A poesia de Anderson vem sendo elaborada ao toque dos dedos, pensada e repensada, refletida, aparada. Não sob a medida das modas. ABH não apenas escreve poemas, ele elabora poemas, isto é, ele os compõe com esmero, cuidado, atento aos sons, aos ritmos, aos acentos, às imagens, às metáforas, etc. E não se acanha de utilizar formas consagradas, como o soneto. Aliás, em Quarteto Arcaico ocorrem 11 sonetos. "Arrebatamento" é perfeito, podendo ser posto ao lado dos melhores sonetos de nossa língua. Os demais, entretanto, não são meros exercícios poéticos, versos arranjados dentro das 14 linhas, como temos lido em livros de outros poetas.

ABH é afeito, sim, ao passado, ao arcaico, ao antigo. E não há demérito nisso. Daí a necessidade de se dizê-lo sem subterfúgios. Contudo, ser afeito ao antigo não é a mesma coisa que ser apegado ao passado e estar perdido nele. A obra essencial nunca é antiquada, se empregarmos este termo no sentido de caída em desuso, ilegível, incompreensível, indestrinçável. Homero é antiquado, sim, é arcaico, sim, porém no sentido de que está no mais remoto dos passados, nos inícios da poesia escrita, copiada e recopiada. Todavia não está afogado no passado. Ele é fundamental para a poesia de hoje, como o foi para a de ontem, a dos séculos que se lhe seguiram. E assim todos os outros grandes poetas gregos, latinos.

ABH foi buscar no passado, nos fastos da Inconfidência Mineira, em personagens da História, motivos para alguns poemas de Quarteto Arcaico. Rende preito a Filipe dos Santos e aos inconfidentes, em dois poemas de boa estatura, embora não cheguem a ser longos, intitulando-os romances. São poemas épicos de grande valia, porque resgatam a memória de nossos heróis, como já o fizeram outros poetas.

Ao lado dos poemas mais longos, neste livro há ainda diversos poemas menores, isto é, mais curtos, o que não quer dizer sejam inferiores a outros. Elaborar poemas curtos (haicais, por exemplo) é tarefa para quem conhece a fundo o ofício poético. Não é fácil dizer quase tudo em cinco versos, como em "Nel camin". Sérgio Campos já se rebelava frente à proliferação de "antologias" e páginas de jornais voltados para a divulgação desenfreada de poemas de dois, três, quatro versos. E ele tinha razão: a maioria dessas publicações termina "incentivando" o desenvolvimento de uma praga: milhares e milhares de poemetos sem criatividade, cheios de jargões, puros jogos verbais. O que não é o caso dos poemas curtos de Anderson, que cultiva uma poesia filosófica, alta, vertical, abissal.

Mas deixemos de lado as formas e voltemos aos temas. Anderson é múltiplo em suas incursões poéticas, passeando à vontade pelos mais variados temas, sejam filosóficos, amorosos, de cunho social e até folclórico. E não deixa de lado a metapoesia: "Leve percorro estes caminhos / que outros abriram para mim” (Canção do Início da Jornada). A jornada do poeta se confunde com a jornada do herói ou dos heróis nacionais. Assim como existiram os antecessores dos inconfidentes, na luta pela libertação nacional, também existiram os poetas que abriram os caminhos da poesia para ABH e para quem se fizer poeta. Faz-se poeta? Voltamos, então, àquele tema do passado, do arcaico, do histórico. Sem Homero não haveria Virgílio, sem este não haveria Dante, e assim por diante. Em "As Musas", soneto em que reaparecem as musas dos poetas mineiros da Inconfidência, o último terceto é emblemático: "ó vertigens, miragens, formas puras, / invenções do delírio: criaturas / ou de carne ou de nuvem, eu vos amo!" Declaração de amor à Poesia e profissão de fé. Há aí também um quê de parnasiano, um quê de simbolismo. E o que dizer da "quadra caótica" seguinte?: "Deu-me o destino por estigma, / por traço lúgubre e medonho, / o cultivo obscuro do enigma / e o não ser livre nem no sonho!" A poesia é enigma, o poeta é cultivador de enigmas. O poeta é um ser marcado a ferro. Não existe ex-poeta. Mesmo quando decide abandonar a poesia e se tornar um aventureiro, como Arthur Rimbaud.

O erotismo requintado aparece em diversos poemas de Quarteto Arcaico, em belíssimas imagens, sem nenhuma concessão ao trivial. O soneto "Marinha" é exemplo de como se deve ou se pode fazer poema erótico sem deixar de fazer poesia. Não há nele um só vocábulo chulo ou mais transparente, sem, com isso, deixar o poema hermético, indecifrável. As metáforas não estão sujeitas a variadas interpretações, por mais inventivo que seja o leitor. E assim são os demais poemas de extração amorosa no novo livro do poeta de Carangola, Brasília, Mundo.
Anderson homenageia poetas de sua predileção e de sua amizade, sem resvalar no discurso prosaico, sem se valer do mero registro ou navegar nas águas por demais límpidas do circunstancial. Seus poemas dedicados aos poetas são construídos a partir da poesia deles, e não da aparência, dos olhos, da boca deles.

Escrito em linguagem poética apurada, sem nenhuma transigência com o linguajar da prosa jornalística (como acontece a torto e a direito por aí, até mesmo em livros de poetas de alguma nomeada na mídia), utilizando formas fixas e livres, redondilhas, decassílabos, versos polimétricos, valendo-se de todo o leque de temas poéticos mais conhecidos – Quarteto Arcaico é de deliciosa leitura. Merecem destaque inúmeros poemas e alguns versos, os quais constarão das antologias da Poesia Brasileira. "Eu vou para onde ireis: / para Além, para o Enigma. / Eu vou para onde vai o infinito da Vida”.(A Tartaruga). Para tornar-se enigmático? Não e pelo contrário: para compreender-se e compreender o mundo. A imagem é ascética. O poeta parece sentir-se anterior à criação do mundo. Pois poesia é criação. Ou pré-criação. O que não deixa de ser enigmático.
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